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prefácio Todos nós falamos e ouvimos diariamente a respeito do casamento ou da relação dos pais com os filhos: "Ah, se eu soubesse disso antes, não teria feito o que fiz". Pensando nesta frase e no nosso analfabetismo em como proceder quanto às diferentes questões presentes no casamento e na família, tive a idéia de organizar — como existe em outras instituições — um código, um regulamento, que discipline as relações entre os diferentes componentes das várias formas de família. Hoje assistimos a uma verdadeira indisciplina familiar, onde pais e filhos — principalmente os primeiros, que devem ser os líderes da família — estão desorientados e não sabem como se comportar diante das exigências da vida moderna, altamente informativa e liberalizante. Este livro é uma proposta de prevenção — por meio de um código familiar — para diminuir ou evitar que surjam ou proliferem áreas de atrito existentes em qualquer família. Dessa maneira, contribuirá para que haja uma melhor convivência familiar e uma diminuição dos problemas emocionais — seja com o casal ou com os filhos — frutos desse contexto. Como é um trabalho pioneiro, certamente suscitará um amplo debate que vai redundar no aperfeiçoamento da família, instituição necessária a todos nós e em constante transformação.


índice 9 75 85

nascimento convivência relação dos parceiros no primeiro casamento ou união estável

123 143

encontro dos livros

173 181

eu e Gilda

213

relação dos pais com os filhos de famílias uniparentais, pósseparação ou pós-divórcio

237

relação dos pais com os filhos do parceiro no segundo casamento

253

relação dos pais com os filhos de produção independente, com pai ou mãe desconhecidos ou ausentes

261

Gilda e eu

relação dos parceiros no recasamento

relação dos pais com os filhos do primeiro casamento


269

relação dos pais com os filhos adotados

281

relação de pais homossexuais com os seus filhos

289 303 321

eu e as famílias relação do casal com as suas famílias fim


A separação entre eu e Sílvia Marina tornou-se inevitável. Ela não conseguia superar o fato de eu tê-la traído – apesar de ter sido apenas uma vez e ter me desculpado inúmeras vezes –, e eu não suportava mais quando ela voltava a esse assunto toda vez que tínhamos alguma discussão. Para dizer a verdade, eu não tinha mais aquele amor por ela. Aquele dos velhos tempos. Que saudade! Não me esqueço do nosso primeiro encontro. Fomos apresentados por uma amiga comum na sua festa de aniversário. Eu com 23 anos, no último ano da faculdade, e Sílvia Marina com 21. Dançamos. Eu não sabia dançar bem, mas era bom de papo. Daí para o namoro foi um pulo. Gostávamos muito de ir à praia. Eu adorava a natureza e ela também. Fazíamos os nossos projetos para o futuro, de um dia, na nossa velhice, morarmos em alguma praia deserta. O que me impressionava em Sílvia – aliás, antes que eu me esqueça, ela não admitia que eu a chamasse somente de Sílvia, tinha que ser Sílvia Marina, os nomes de suas duas avós – não era exatamente o seu papo, mas o seu corpo e a sua beleza. Era tudo o que eu esperava de uma mulher: rosto bonito, cabelos compridos (eu me lembro de uma fotografia de minha mãe, jovem, com o meu pai, na praia, de cabelos compridos), peitos firmes e empinados, curva nos quadris, bunda de tamanho médio, desde que realçasse em calças


12 justas, e, finalmente, coxas roliças e grossas. Detestava pernas e coxas finas. Eu fiquei tão impressionado com o seu corpo que pedi – quando começamos a transar – para fotografá-la nua. Coloquei a foto na carteira e só tirei quando nós nos separamos. Nos momentos em que me sentia entediado, sem papo com ela, olhava para a foto. Viajava no tempo e me lembrava daqueles grandes momentos que tivemos. Hoje, o que existia era uma amizade, calcada em nossa história enquanto casal, desde o tempo de namoro – já se vão 25 anos entre namoro e casamento – e, principalmente, na família que construímos. Dois filhos, um rapaz e uma moça, bonitos, saudáveis e inteligentes. Dois adolescentes, 18 e 16, já com namorados firmes, estudiosos e que não nos davam trabalho algum. O que mais eu poderia querer? A família ideal, o casal exemplar. Mas não tinha mais tesão em Sílvia Marina. As trepadas escassearam. Deixei de admirá-la. Seu corpo não era mais o mesmo – engordou, perdeu as formas. Estacionou no tempo. Depois do nascimento do primeiro filho parou de trabalhar e o seu mundo girava em torno das crianças, da casa, de algumas amigas da infância, da sua mãe e das brigas com os irmãos pela herança do pai. Nossa vida tornou-se monótona, resumindo-se a jantares com os amigos e finais de semana na nossa casa em Búzios – que eram uma tristeza só quando os filhos, mesmo com os namorados, não iam conosco. O inevitável então aconteceu. Encantei-me por uma cliente, ela por mim, óbvio, e demos uma saída. Não funcionou. Foi pura ilusão. O que parecia um grande entrosamento


13 na sessão – no encontro mental – não ocorreu no encontro real e corporal. Interrompi a terapia e o caso amoroso que se iniciava. Ela não se conformou e ligou para Sílvia Marina contando tudo. Tomei a decisão de sair de casa depois de seis meses de tentativa de reconciliação e de reconstrução da relação. Sílvia Marina achava que o problema era só meu, que eu a tinha humilhado e destruído tudo que havíamos construído: a nossa família. Por mais que eu dissesse a ela que isso havia acontecido porque o nosso casamento estava estagnado, monótono e sem vida, ela não aceitava, argumentando que tínhamos bons amigos, filhos felizes e saudáveis, uma boa situação financeira e que era uma esposa leal e confiável. O que mais eu poderia querer? Sexo? Você acha que nós temos 20 anos? O mesmo entusiasmo dos primeiros encontros? Hoje somos mais que marido e mulher: dois bons amigos, dois companheiros, que, um dia, cuidaremos dos netos e um do outro na velhice. Sexo é secundário. O que vale é o amor, a amizade, mais que o prazer carnal. Não dava mais liga. Cada um falava uma língua diferente. Apesar das reclamações e de voltar sempre ao mesmo ponto, Sílvia Marina não queria a separação e se espantou quando comuniquei minha decisão. Não só se espantou, como também ficou enfurecida, o que não era o seu estilo. Chamou os filhos, contou tudo a eles, inclusive o evento da traição, engrossando mais o caldo. Nesse momento, não agüentei e saí de casa, somente com a minha pasta e a roupa do corpo.


84 namento familiar vai-se procurar equipar esses mesmos pais para que se tornem treinadores de suas famílias, para evitar que o seu time – a família – perca o jogo, comprometendo o rendimento dos seus integrantes, repercutindo no seu desenvolvimento como indivíduos úteis na sociedade. Dito isto, vamos partir para a área espinhosa do livro, ou seja, procurar abarcar nas diferentes organizações familiares os principais mandamentos que deverão reger as relações entre todos os seus integrantes. Por que é espinhoso, meu caro leitor? Porque vou ousar, com todos os riscos envolvidos, expor publicamente minhas idéias e, principalmente, penetrar nessa seara tão íntima que é a família. Mas já que estou na chuva, vou me molhar. Vamos lá, onde tudo começa.


1: Não prometa felicidade Podemos somar felicidades, mas não implantar felicidade em alguém, já que somos e seremos sempre vinculados objetivamente ou subjetivamente à nossa família original e à história que vivemos com ela.

A felicidade não está contida numa cápsula que se consiga fazer alguém ingerir. Cada um de nós traz da vivência com a sua família uma carga de experiências passadas representadas por marcas que levarão a pessoa a se sentir mais ou menos feliz ou até mesmo infeliz no seu momento atual. Assim, é impossível que alguém, mesmo um parceiro, possa transformar a vida do outro. É possível apenas estimular potenciais latentes que estavam adormecidos e que, de acordo com a combinação dos parceiros, poderão vir à tona ou não. Podemos somar felicidades, mas não implantar felicidade em alguém, já que somos e seremos sempre vinculados objetiva ou subjetivamente à nossa família original e à história que vivemos com ela. Não existe qualquer produto químico ou sentimento que possa apagar ou limpar nossa experiência familiar, que é pessoal e intransferível. Caso alguém prometa felicidade ao seu parceiro, de uma maneira objetiva ou subjetiva, será cobrado um dia,


88 porque não conseguirá que ela se mantenha, mesmo que haja uma impressão inicial de felicidade. A conta não será paga e essa dívida comprometerá a relação, tornando-a paradoxalmente infeliz – levando em conta que a promessa será cobrada de alguma forma –, ou levará à separação por ser impossível aos dois ou a um deles suportar as cobranças.


89

2: Não considere o parceiro

como sua propriedade

Na relação amorosa, é importante que cada um desenvolva seus próprios recursos de modo a não se anular e não sobrecarregar o parceiro.

Ninguém é dono de alguém, nem terá quem lhe pertença, lhe será obediente e capaz de abrir mão de sua individualidade e de suas raízes familiares. A marca da família na qual cada um foi gerado e se desenvolveu sempre será mais forte, porque antecede à escolha do parceiro e determina na pessoa, quando criança e adolescente, impressões, como um carimbo, que perdurarão para o resto da vida. Isto é lógico levando em conta que viemos de um tronco, uma árvore, com raízes e galhos, que darão traços característicos através da raça, cultura, crenças, hábitos e experiências vividas pelas diferentes gerações dessa árvore. Além da impossibilidade de transformar o outro num clone, você assumirá a posição de responsável pela vida dele, tendo de resolver não só sobre sua vida mas também pela dele. Não há a menor dúvida de que isso proporciona uma sensação de poder e, ao mesmo tempo, impõe uma responsabilidade por tudo de bom ou ruim que acontecer ao outro.


Copyright ?

Projeto Gráfico e Capa Tita Nigrí Ilustração?

Editoração eletrônica Renata Vidal Revisão Luiz Augusto Dantas Michele Sudoh

Catalogação e ISBN?

O código da família  

Desktop publishing: Renata Vidal; Book and cover design: Tita Nigri.

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