Issuu on Google+


TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO Orientador: Prof. Roberto Martins Castelo Universidade Federal do Ceará Departamento de Arquitetura e Urbanismo Curso de Arquitetura e Urbanismo

CAPS PAPICU:

uma solução arquitetônica para um Centro de Atenção Psicossocial

RENATA LOURINHO DOS REIS


RENATA LOURINHO DOS REIS

CAPS PAPICU:

uma solução arquitetônica para um Centro de Atenção Psicossocial

BANCA EXAMINADORA

Prof. Roberto Martis Castelo (Orientador) Universidade Federal do Ceará

Profa. Márcia Gadelha Cavalcante Universidade Federal do Ceará

Arq. Ricardo Henrique Muratori de Menezes Universidade Federal do Ceará

FORTALEZA, 05 DE AGOSTO | 2013


“Quando se consegue um diálogo entre o espaço, a luz que o percorre e o homem que o habita, aí aparece a Arquitetura. Algo muito fácil e difícil ao mesmo tempo.” Luis Barragán


AGRADECIMENTOS

A trajetória da minha vida, até agora, contou com a participação de pessoas dedicadas, cada uma, da sua maneira, acrescentou um pouco para a produção deste trabalho. Não poderia deixar de mostrar a gratidão que tenho. Agradeço aos meus pais Adelsa e Mauro, por terem me dado a base essencial para alcançar meus objetivos: amor e dedicação incondicionais. À minha vó Olga (Mãezinha), por ter me ensinado valores e princípios que são de grande importância para minha postura pessoal e profissional. À minha irmã Natália, pelos anos de vida compartilhados e por ser inspiração para este trabalho. À minha irmã Stephanie por me alegrar nos dias mais difíceis. Aos meus irmãos Mauro Filho, Mariane e aos outros familiares que fazem parte da minha história. À turma 2007.1, na qual ingressei na faculdade e construí laços eternos. Por terem sido muito mais do que colegas de curso, se tornaram meus grandes amigos. À Marília, por ter estado presente ao longo dessa jornada e ter sido de fundamental ajuda no processo deste TFG. À Carol, por ser uma amiga tão querida e por ter me dado tanto apoio para finalizar este trabalho. Ao Zé, pela amizade e pela ajuda com a finalização do vídeo para a apresentação. À Bia, por ter sido tão prestativa durante toda essa jornada. Ao Yuri e à Ingrid, pela demonstração de amizade ao me ajudar nos momentos finais de entrega. À turma 2007.2, que me recebeu de braços abertos quando voltei do intercâmbio. À Carol, que me ajudou na programação visual deste caderno e me inspirou durante os anos de faculdade juntas. À Lia, pelas conversas sobre arquitetura e a vida.

Aos demais colegas que tive o prazer de conhecer durante esse percurso dentro da Universidade. Agradeço a participação indireta que Seu Nogueira, Seu Augusto, Seu Lauro, Fatinha, Carol e Mara tiveram no decorrer dos anos de faculdade. Sou grata pela oportunidade que tive em ser ensinada por professores tão sábios. Agradeço pela dedicação destes mestres que dividem uma mesma paixão: a arquitetura. Em especial, o professor Romeu Duarte, que sempre exigiu que não tivéssemos medo de explicar nossas escolhas de projeto. Ao querido Renato Pequeno, que mesmo não estando ligado diretamente com a produção deste trabalho, se empenhou em me ajudar com a justificativa de certas escolhas que fiz perante a cidade de Fortaleza. À Márcia e ao Muratori, dois arquitetos que admiro muito, por terem aceitado participar da banca. E ao professor Roberto Castelo, que, desde que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, vem agregando valores à minha formação. Foi uma honra ser orientada por um arquiteto com tanta maestria no ensino e na produção de arquitetura. Este trabalho não teria o mesmo resultado se não fosse pela sua insistência pela repetição até que se chegasse a um produto de plena qualidade espacial. Seus ensinamentos transcendem o campo da arquitetura. A ele, dedico este trabalho.


E S E PR

A

SUMÁRIO

1

2

2

3

O ÇÃ

A

TEM

TA N SE

RE P A

1

TA N E S E R AP PREFÁCIO INTRODUÇÃO METODOLOGIA

O Ã Ç

2

Ã Ç A

Z

LI A OC

A Z I L A C LO

O Ã Ç

38 40

17 DEFINIÇÃO 22 A ESCOLHA 18 CONTEXTO HISTÓRICO 24 REGIONAL II 19 CONTEXTO ATUAL 31 PAPICU O BAIRRO ESTUDO DE CASOS 32 O LOTE

A M TE

3

A M TE

3

A Z I AL C LO

O ÇÃ

O

4

41 42

S A I NC

44

JUSTIFICATIVA

IN

Ê U L F


44

SS A A I I CC N N Ê Ê U U L L F ININF CANDILIS-JOSIC-WOODS FENOMENOLOGIA RICHARD MEIER TADAO ANDO

48 52 54 58

55

OO T T E E JJ O O PPRR PARTIDO ARQUITETÔNICO PROGRAMA IMPLANTAÇÃO ESTRUTURA VOLUMETRIA CONFORTO AMBIENTAL E MATERIAIS SIGNIFICADO PROGRAMAÇÃO VISUAL

CONSIDERAÇÕES FINAIS BIBLIOGRAFIA ANEXO 01 ANEXO 02

67

68 70 78 80 90 94 96

98 99 100 101


R P A

A T N E S E

O Ã Ç


“Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar um único dia em tua vida”. Confúcio


Figura 01: MausolĂŠu Castelo Branco. Fonte: Google Images


PREFÁCIO

A minha intenção de estudar Arquitetura surgiu da observação e indagação sobre as formas de alguns edifícios na cidade de Fortaleza. Surpreendia-me como certos objetos construídos se destacavam na paisagem predominantemente caracterizada, hora por edificios altos geralmente revestidos de cerâmica, hora por um conjunto heterogêneo de residências precárias. Falo das áreas centrais de Fortaleza, com ênfase ao Mausoléu Castelo Branco(1972) do arquiteto Sérgio Bernardes – que apesar de utilizar formas puras retangulares, intriga pela sua imponência estrutural – e à sede da Receita Federal(1973) do arquiteto Gil Borsói . Ambos os projetos foram favorecidos com jardins concebidos por Roberto Burle Marx. Ao decorrer do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, fui, aos poucos, descobrindo que este estilo arquitetônico – o mordernismo – me identificava. No contexto atual, são os arquitetos Tadao Ando e Richard Meier que mais me influenciam: seus métodos projetuais, suas formas puras e a relação espacial com a luz, são alguns dos principais conceitos que me guiaram na produção deste trabalho que tem, como objetivo principal, a graduação no curso de Arquitetura e Urbanismo.

17


INTRODUÇÃO

18

A escolha do tema foi direcionada pela busca de um programa que necessitasse de um aprimoramento na solução arquitetônica, e que facilitasse, também, a concepção de um espaço arquitetônico no qual sejam exploradas as sensações humanas. No contexto pessoal, meu interesse sobre psicologia vem de família, com uma mãe formada em serviço social e uma irmã psicóloga, o assunto sempre fez parte das nossas conversas em casa. Porém, o principal motivo pelo qual escolhi fazer uma unidade de CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) foi uma recente crise psicótica de um ente familiar, que me fez perceber a precariedade no atendimento de pessoas com transtornos mentais, nos hospitais de Fortaleza. Mesmo os particulares não estão preparados para lidar com esses pacientes. Tendo em vista o meu interesse pessoal pelo assunto, busquei compreender a sua relevância no contexto atual. Descobri que a saúde mental tem

sido pauta em discussões políticas desde o fim da ditadura no Brasil, e ganhou proporções maiores a partir de 2001 com a criação de unidades de saúde mental específicas. O objetivo do estudo sobre os CAPS foi encontrar uma solução arquitetônica que proporcionasse espaços adequados para o tratamento de transtornos mentais. Pois, pela breve análise arquitetônica de alguns centros, pude perceber que a maioria não possuia qualidades espaciais: são, em sua maioria, espaços inadequados que não levam em consideração o conforto ambiental. A arquitetura é o espaço do habitar humano, é nela que acontecem todas as atividades e relações. Como admiradora da arquitetura e entendedora de sua importância, sei que o sucesso ou fracasso desses centros pode depender do modo como os espaços se relacionam entre si e com os usuários.


METODOLOGIA

O trabalho foi dividido de acordo com a sequência utilizada para a concepção final do projeto. A seguir, uma breve descrição dos métodos utilizados, tanto de pesquisa quanto de organização do trabalho. Após a escolha do tema, foi feita uma pesquisa teórica por meio de livros e reportagens para aprimorar o conhecimento sobre essas instituições. No livro Manual prático de arquitetura para clínicas e laboratórios entrei em contato com o programa médio de uma unidade de CAPS. Visitei o primeiro CAPS do Brasil em São Paulo (o Itapeva) e o CAPS Dr. Nilson de Moura Fé, para estudos de caso em relação ao programa.

Depois de entender o programa e suas necessidades, parti para a escolha do local onde o projeto seria situado. No Capítulo 03, descrevo as peculiaridades do sítio escolhido. Tendo definido o tema e o local, abordo então a arquitetura, em forma de teoria, de metodologia e produção. Por fim, comecei a produzir os desenhos que geraram o projeto final. No Capítulo 05, abordo o partido e os fundamentos projetuais que definiram o projeto do CAPS PAPICU. No volume II dessa edição, encontram-se as pranchas técnicas do projeto.

19


A M TE


“E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo tambĂŠm olha para dentro de tiâ€?. Friedrich Nietzsche


DEFINIÇÃO

22

O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) é um serviço aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é um lugar de referência e tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivo de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida. Por possibilitar que seus usuários voltem para casa todos os dias, os CAPS evitam a quebra nos laços familiares e sociais, fator muito comum em internações de longa duração. Por tal motivo, é um serviço de atendimento à saúde mental criado para ser substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos. Os CAPS se estruturam como serviços de atendimento diário. Parte-se de um entendimento de que a especificidade clínica de sua clientela, pela sua doença e condições de vida, necessita muito mais do que uma consulta ambulatorial mensal ou semanal. O Objetivo dos CAPS é oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso à educação, trabalho, lazer e exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. Organizam-se de forma que o usuário, caso necessite, possa frequentar o serviço diariamente, e é oferecida uma gama de atividades terapêuticas diversificadas e o acolhimento por uma equipe interdisciplinar composta por: psicólogos, psiquiatras, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, técnicos

administrativos, educadores artísticos e físicos; e oferecem diversas atividades terapêuticas: psicoterapia individual ou grupal, oficinas terapêuticas, acompanhamento psiquiátrico, visitas domiciliares, atividades de orientação e inclusão das famílias e atividades comunitárias. Procura-se oferecer ao usuário a maior heterogeneidade possível, seja nas pessoas com quem possa vincular-se, seja nas atividades em que possa engajar-se. Nesses serviços, o pressuposto é o de que a alienação psicótica implica uma dificuldade específica de expressão subjetiva, refratária, a ser apreendida por instituições massificadas ou pouco aparelhadas para captar e entrar em relação com o singular de cada paciente. Do mesmo modo, as dificuldades concretas de vida acarretadas pela doença mental grave devem ser, também elas, objeto das ações de cuidado, incorporandose à prática psiquiátrica aquilo que tradicionalmente era considerado extraclínico. O cuidado, em saúde mental, amplia-se no sentido de ser também uma sustentação cotidiana da lida diária do paciente, inclusive nas suas relações sociais. Os CAPS se constituem, então, numa ampliação tanto na intensidade dos cuidados aos portadores de transtornos mentais quanto de sua diversidade, incluindo as especificidades de sua clientela e da cidade ou local onde estão inseridos (RIBEIRO, 2004).


DIFERENTES TIPOS DE CAPS Os CAPS são divididos em unidades diferenciadas de acordo com porte, complexidade e abrangência populacional: • CAPS I: Entre 20 e 70 mil habitantes.; • CAPS II: Entre 70 e 200 mil habitantes; • CAPS III: Acima de 200 mil habitantes. Funcionamento 24 horas, 7 dias por semana, leitos com plantão norturno para pacientes que necessitem de eventual repouso ou observação; • CAPS i: Destinado exclusivamente para atendimento de crianças e adolescentes; • CAPS ad: Destinado exclusivamente a pacientes com transtornos decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas.

RELAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E COMPORTAMENTAIS QUE SÃO ATENDIDOS EM UMA UNIDADE DE CAPS GERAL (CID 10, OMS) • • • • • • •

F20 - F29: Esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes; F30 - F39: Transtornos do humor (afetivos); F40 - F48: Transtornos neuróticos, transtornos relacionados com o “stress” e transtornos somatoformes; F50 - F59: Síndromes comportamentais associadas a disfunções fisiológicas e a fatores físicos; F60 - F69: Transtornos da personalidade e do comportamento do adulto; F70 - F79: Retardo Mental; F80 - F89: Transtornos do desenvolvimento psicológico;

23


CONTEXTO HISTÓRICO

24

Com o intuito de explicar as transformações que convergiram para a Reforma Psiquiátrica no Brasil, este item discorre sobre a situação politico -econômica-ideológica dos países precursores do movimento antimanicomial que era empregado na época e a própria história da Psiquiatria no mundo.

EUROPA O século XVII, na Europa, foi marcado por transformações. Uma delas foi a passagem da hegemonia dos reinos ibéricos para as duas novas potências: Inglaterra e Holanda. Enquanto Portugal e Espanha viviam um acentuado declínio, os ingleses e os flamengos fortaleciam suas economias e lançavam as bases de seus impérios coloniais, ancorando-se com competência nos princípios mercantilistas. Na Inglaterra, milhares de camponeses eram expulsos da terra em virtude do cerceamento para a criação de ovelhas e fornecimento de lã, promovendo inúmeras revoltas por melhores condições e que foram severamente punidas pelo Estado. Eclodiu, então, a Guerra Civil que durou oito anos, de um lado estavam o monarca Carlos I e os proprietários de terras feudais; do outro, os comerciantes, a nobreza mercantil, os pequenos camponeses e trabalhadores. Houve uma ruptura da unidade religiosa no ocidente, com o surgimento do protestantismo. Processo que levou a guerras de religião internas em várias nações, como a Guerra dos Trinta Anos, dando destaque à Alemanha, França, Suécia e Áustria.

No geral, essa época foi marcada pelas tentativas de minimizar a crise: a fome causada pela baixa colheita devido à mudanças climáticas, as doenças como a peste negra e as guerras. Neste contexto, o grande eclausuramento e isolamento disseminado na Europa funcionou como estratégia para retirar do convívio social todos os que, por causas diversas, encontravam-se à margem da sociedade. Esses grupos eram formados por mendigos, leprosos, aleijados, loucos e todos aqueles que fossem necessários ocultar por significarem ameaça à ordem social (DESVIAT,1999 apud SIDRIM, 2012,p.21). O hospício original não tinha como prática a aplicação de qualquer espécie de tratamento. Seu grande objetivo era proporcionar um espaço destinado à reclusão de pessoas marginais (AMARANTE et al., 1995, p.24 apud SIDRIM, 2012, p.22). No final do séc. XVIII, embalado pela onda iluminista e racionalista, passa a ser reconhecida a subjetividade do louco marcada pela perda parcial da natureza humana. Acreditava-se ser possível devolver racionalidade ao louco. É neste período que os loucos enclausurados foram separados do grande grupo de excluídos, para constituírem-se entidade clínica e objeto da Psiquiatria. A instituição psiquiátrica se aliou ao Estado, oferecendo base científica para a consolidação de que o louco não estava em estado mental para gerir decisões e seria tratado mesmo sem a sua aprovação. Deveria então ser isolado do convívio com a sociedade − vista como causadora das perturbações e distúrbios. O que trouxe danos para a assistência psiquiátrica que perduram até hoje.


EUA É um período em que os Estados Unidos estão sofrendo problemas extremamente graves, como a guerra do Vietnã, o brusco crescimento do uso de drogas pelos jovens, o aparecimento de gangues, o movimento ‘beatnik’, enfim toda uma série de indícios de profundas conturbações no nível da adaptação da sociedade e da cultura, da política e da economia (AMARANTE et al., 1995 apud SIDRIM, 2012, p.27).

MANIFESTAÇÕES NA EUROPA E NOS EUA As críticas ao modelo manicomial rapidamente manifestaram-se, mas o período pós-Segunda Guerra Mundial foi decisivo para a construção de alternativas assistenciais que marcariam a psiquiatria contemporânea. A ineficácia da assistência e as péssimas condições a que os internos eram submetidos fomentaram as críticas à estrutura asilar (DESVIAT, 1999 apud SIDRIM, 2012, p.23)

De acordo com Sidrim (2012, p.23), dentre as várias manifestações que ocorreram na Europa e nos Estados Unidos, vale salientar algumas: 1. Comunidade Terapêutica (Inglaterra) e Psicoterapia Institucional (França) que visavam à reforma psiquiátrica, restrita ao âmbito asilar;

2. Psiquiatria de Setor (França) e Psiquiatria Comunitária ou Preventiva (EUA) que buscavam a superação da ideia de o espaço asilar ser o único local de tratamento a investir alternativas comunitárias e regionalizadas, embora reservassem ainda ao hospital papel necessário de tratamento; 3. Antipsiquiatria (Inglaterra) e Movimento de Desinstitucionalização (Itália) propuseram ruptura absoluta com os modelos anteriores. Tais movimentos colocaram em cheque conceito de doença mental, formas de intervenção e tratamentos existentes, e propunham completa extinção dos hospital psiquiátricos. O Movimento de Desinstitutucionalização foi a abordagem que mais influenciou o Movimento Antimanicomial no Brasil. Ele tratava da superação do espaço asilar como lugar de tratamento e a invenção de novas formas assistenciais, com a criação de novos dispositivos que fossem direcionados à própria assistência e à busca por reinserção dos pacientes na sociedade; tais como a criação de centros de saúde mental para cada uma das 7 áreas da cidade, grupos-apartamentos destinados a pacientes que não tinham família, cooperativas de trabalho para a relocação de pacientes no mercado de trabalho e serviço de diagnose e cura com oito leitos.

25


26

BRASIL No Brasil, a psiquiatria brasileira surgiu numa época onde a higiene pública era um dos fatores mais importantes para o crescimento, segurança e embelezamento das cidades. O movimento antimanicomial iniciou no final da década de 1970. Trouxe, para o debate sobre a assistência às instituições psiquiátricas, as questões de descaso, abandono e violência às quais, geralmente, os pacientes eram submetidos. Desde então, este movimento construiu percurso singular comparado aos movimentos ocorridos na Europa e nos Estados Unidos no período pósSegunda Guerra Mundial, produzindo consequências na proposição de novas abordagens práticas e na elaboração de políticas públicas destinadas à assistência à saúde mental. As preocupações com as distorções, abusos e violência presente na assistência cederam lugar a uma discussão sobre a natureza dos saberes, das práticas e dos procedimentos psiquiátricos. A Reforma caminhou para discussões relacionadas com a inserção dos loucos no mundo. Tomou como tarefa a construção de sua cidadania, entendida não mais como atributo formal de características universais, mas como projeto aberto às singularidades e especificidades das diversas formas de expressão da condição humana (LEAL, 2000, p.102 apud SIDRIM, 2012, p.15).

Segue adiante, em linha cronológica, os passos da Psiquiatria no Brasil que levaram à Reforma Psiquiátrica e à criação dos CAPS.

A Comissão da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro diagnosticou a situação dos 'loucos da cidade' os quais passam a ser considerados doentes mentais e merecedores de um espaço social próprio para a sua reclusão e tratamento.

1830


Este período caracteriza-se pela ampliação da estrutura asilar no Brasil através de colônias para alienados, que utilizavam o trabalho como terapia de tratamento.

1852-1890

Foi inaugurado o primeiro hospício brasileiro, o Hospício Pedro II. Até 1881, a Igreja assumiu a direção. Depois foi a vez dos médicos que o dirigiram até 1890. A partir da Proclamação da República, o hospício passa a ser administrado pelo Poder Público e a chamar-se Hospício Nacional de Alienados.

Figura 02: Vista aérea da antiga sede do Hospício Pedro II, atual Palácio Universitário (UFRJ). Fonte: Wikipédia

Até 1920

A psiquiatria intensificou o uso de técnicas como a eletroconvulsoterapia, o choque insulínico, as lobotomias. Em 1950, surgiram os primeiros neurolépticos, com isso cresceu a indústria farmacêutica, e os interesses econômicos se evidenciaram (AMARANTE, 1994 apud SIDRIM, 2012, pg.37).

1923

1930-1950

Foi fundada a Liga Brasileira de Higiene Mental, no Rio de Janeiro. Tratava-se de uma visão sobre a loucura que a considerava doença hereditária. De acordo com Costa (1994, p.78) apud Sidrim (2012,p.35), era uma proposta xenofóbica, antiliberal e racista. As medidas propostas pela intervenção eram basicamente de controle de casamentos e natalidade. E aos poucos foi perdendo força.


Impulsionados pelos maus tratos aos internos e às péssimas condições de trabalho, unidades da Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM) entraram em greve, inaugurando o movimento em prol da reformulação da assistência psiquiátrica. No Rio de Janeiro ocorreu o I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições.

Figura 03: Foto demonstrativa das greves que ocorriam na redemocratização do Brasil em 1980. Fonte: Blog virtijo

Marcou o início de um processo de privatização. O Estado passou a comprar serviços de saúde de setor privado.

Déc. 1960

Em Salvador aconteceu o II Encontro Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental.

Déc. 1970

1978

1979

O modelo privatista e hospitalocêntrico se tornou inviável para manter a sustentabilidade financeira que, ao início da década de 1980, o Estado vê-se obrigado a adotar novas políticas no setor da saúde. Além dos fatores econômicos, o período que abrange o final da década de 1970, foi marcado pelo processo de redemocratização, face o fim da ditadura militar. Os movimentos sociais se organizaram também no campo da saúde mental. Em São Paulo ocorreu o Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental.

1980


Em Brasília ocorreu a 8ª Conferência Nacional de Saúde, que favoreceu a reorganização da saúde na perspectiva da Reforma Sanitária e impulsionou politicamente a Reforma Psiquiátrica.

1986

Na cidade de Iguatu, nasceu o primeiro CAPS do Ceará.

1987

1991

Em Brasília, ocorreu a III Conferência Nacional de Saúde Mental, sacramentou o processo de Reforma Psiquiátrica e conduziu através de quatro desafios a assistência à saúde mental como política oficial do governo federal: 1. Fortalecer políticas de saúde voltadas para grupos de pessoas com transtornos mentais de alta prevalência e baixa cobertura assistencial; 2. Consolidar e ampliar uma rede de atenção de base comunitária e territorial, promotora da reintegração social e da cidadania; 3. Implementar uma política de saúde mental eficaz no atendimento às pessoas que sofrem com a crise social, a violência e o desemprego; 4. Aumentar recursos do orçamento anual do SUS para a Saúde Mental (BRASIL, 2004,p. 1 apud SIDRIM, 2012, p.41).

2001

Aconteceu a I Conferência Nacional de Saúde Mental, na qual as proposições assistenciais receberam forte influência da Psiquiatria Preventiva norte-americana e da Psiquiatria Democrática italiana. Aconteceu o II Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental, que além de contar com profissionais da área, agregou pacientes e seus familiares, intelectuais e membros da sociedade civil. Algumas das proposições concretas no âmbito de políticas públicas constituíram-se tais como: criação dos Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS), Centros de Referência em Saúde Mental (CERSAM), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais Terapêuticas (SRT), Moradias Assistidas, Hospitais-dia, Unidades Psiquiátricas em Hospitais Gerais (UPHG). Surge o primeiro CAPS em São Paulo, o CAPS Itapeva.

O Projeto de Lei que dispõe sobre a extinção progressiva dos manicômios e devida substituição por novas modalidades de atendimento é aprovado. Lei 10.216.

2001


30

Figura 04: Esquema Explicativo dos Transtornos Mentais mais comuns. Fonte: G1.com.br


CONTEXTO ATUAL

No Brasil, 23 milhões de pessoas (12% da população) necessitam de algum atendimento em saúde mental. Pelo menos 5 milhões de brasileiros (3% da população) sofrem com transtornos mentais graves e persistentes. De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, apesar de a política de saúde mental priorizar as doenças mais graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar, as mais comuns estão ligadas à depressão, ansiedade e a transtornos de ajustamento. De acordo com o blog da saúde do Brasil, numa reportagem do dia 23 de Abril de 2013, depois de aumentar em 25% a capacidade de atendimento dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS) com incentivos do programa “Crack, é Possível Vencer”, o Ministério da Saúde toma mais uma medida para expandir a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no Brasil. Num primeiro momento, serão repassados R$ 50 milhões para construção de Centros de Atenção Psicossocial.

O valor dos incentivos para o financiamento da construção dos CAPS e das Unidades de Acolhimento varia de acordo com cada tipo de estabelecimento, podendo ser entre R$ 500 mil e R$ 1 milhão. O valor pode aumentar de acordo com a demanda. Esta é a primeira vez que o Ministério da Saúde repassa recursos para construção desses serviços. Antes cabia ao município a edificação ou aluguel dos espaços, o que dificultava a expansão da rede, muitas vezes por falta de locais adequados. Os benefícios também são válidos para as cidades que já possuem CAPS e Unidades de Acolhimento. “O prefeito, que, por exemplo, aluga um espaço e deseja um local melhor pode solicitar esse recurso. Entretanto, só poderá desativar o serviço atual quando o novo estiver pronto”, de acordo com o secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Helvécio Magalhães.

31


ESTUDO DE CASOS

32

Com a finalidade de entender melhor o programa e como os diferentes ambientes devem se relacionar, visitei duas unidades de CAPS.

CAPS ITAPEVA Este foi o primeiro CAPS a ser implantado no Brasil, e como a maioria, foi adaptado para funcionar primeiramente em uma residência, sofrendo uma expansão quando houve a necessidade. Quando estive em São Paulo, em Fevereiro deste ano, solicitei visita guiada para enriquecer a minha contextualização. Porém, com a burocracia dispendiosa, eles demoraram muito para liberar a visita guiada, na qual eu poderia tirar fotografias e fazer contato com alguns usuários. Apesar dessa dificuldade inicial, tive acesso a fotos que mostram alguns ambientes e pude entrar em contato indireto com o seu interior. O CAPS atualmente abrange uma estrutura que há anos era dividida em duas: o CAPS Itapeva e o ambulatório de saúde mental, separados por um muro que foi abaixo quando se viu que a divisão entre esses serviços, que ia além da estrutura predial, passando pelos processos de trabalho, tor-

nou-se caduca. A queda desse muro representa os processos interdisciplinares que acontecem dentro de um CAPS. O contato com a educação ocorre no corredor: a existência de dois armários com livros sobre psicologia, enfermagem, medicina, saúde coletiva e monografias gestadas no próprio serviço são considerados a “biblioteca”. De forma geral, a equipe é composta por profissionais de formação na área da saúde, incluindo, como já de certa maneira difundido no Brasil, o educador físico. Um profissional do CAPS Itapeva que não é comum encontrar e que possui um potencial de composição muito interessante para a Atenção Psicossocial é o professor de teatro. A inserção de pessoas diretamente ligadas à arte é um meio potente de agenciar a interdisciplinaridade em serviço. A arte está presente de outras maneiras naquele local: há uma oficina de mosaico que promove, junto com outros elementos, ambiência. Outra atividade é a confecção de bijuterias e velas aromáticas, que são expostas e arrecadam lucro para os usuários. Outro espaço interessante é o CAPS LOKI, que possui computadores conectados à internet para uso dos pacientes.

DADOS BÁSICOS Nome: Centro de Atenção Psicosscial Professor Luis da Rocha Cerqueira Nome fantasia: CAPS Itapeva Quant. Beneficiários: 600 Quant. Funcionários: 132 Quant. Voluntários: 4 Endereço: Rua Carlos Comenale, 32 Cep: 01332-000 - Bela Vista - São Paulo – SP


Figura 05: Interior do CAPS LOKI. Fonte: Vitor Melo; Figura 06: O CAPS Itapeva, a residência e o antigo edifício ambulatório. Fonte: Google Maps.

33


ESTUDO DE CASOS

34

CAPS DR. NILSON DE MOURA FÉ Localizado na Rua Coronel Alves Teixeira, 1500, Bairro Dionísio Torres, tive a possibilidade de uma visita guiada pela terapeuta e coordenadora Adriana Magalhães. A primeira percepção que tive foi logo na entrada, não se torna fácil de acesso pois a sua identificação está pintada no muro rodeado de árvores. Ela tem a aparência que foi projetada para ter: a de uma residência. Em momento nenhum, o sujeito que passa pela rua identifica que ali se trata de um centro de saúde municipal. Por dentro, composições de vegetações que dão ao lugar, um caráter de tranquilidade. A recepção, a sala dos prontuários e a administração se localizam em pontos estratégicos, e parecem bem

resolvidas. Porém, as salas de atendimentos estão distribúidas ao redor da administração e no segundo pavimento, promovendo uma certa desorganização. Não há acessibildiade para o acesso às salas superiores, apenas uma escada. O refeitório é uma cozinha acoplada de uma sala de jantar e visualmente, não é muito agradável. Os leitos provisórios se encontram num quarto onde não há entrada de iluminação ou ventilaçao natural, com pouca qualidade espacial. As salas de costura ou qualquer atividade artística não recebe tratamento de ventilação natural pois teve sua janela persiana de madeira coberta por peças de vidro, tornando-se necessário o uso de climatização artificial. E quando este quebra, os usuários ficam em um ambiente que mais lembra uma estufa.

Acima: Figura 07: Recepção do Caps Dr. Nilson de Moura Fé. Fonte: Renata Reis(2013). Ao lado: Figura 08: Leitos Provisórios do Caps Dr. Nilson de Moura Fé. Fonte: Renata Reis (2013). Abaixo: Figura 09: Entrada do Caps Dr. Nilson de Moura Fé. Fonte: Renata Reis (2013).


A Z I L A C O L

O Ã Ç


“Cidades cheias de vida têm essa maravilhosa habilidade, inata, de compreender, de comunicar, de concatenar e inventar o que será necessário para combater suas dificuldades.” Jane Jacobs


A ESCOLHA

38

Para me guiar na escolha da localização do objeto de estudo, analisei a distribuição espacial dos CAPS Gerais de Fortaleza. Existem, ao todo, seis CAPS gerais. Marquei, no mapa, a abrangência de atendimento de acordo com a população por quilômetro quadrado de cada regional, tomando como base o número de 200mil habitantes por CAPS Geral.

Nota-se que existe uma privilegização da região central, enquanto que as periferias são pouco atendidas. Os maiores vazios de abrangência se encontram entre a Regional V e VI, e ao longo do litoral leste, como se pode perceber pelo Mapa 01. Por se tratar de equipamento que age diretamente na comunidade, afim de promover inclusão social, foi analisado, também, o mapa de favelas de Fortaleza como mostra o Mapa 02.

Abrangência dos CAPS Regional I Regional II Regional III Regional IV Regional V Regional VI Mapa 01: Abrangência Populacional dos CAPS em Fortaleza-CE. Fonte: Yuri Catunda, 2013.


A grande massa de habitações precárias que mais necessitam de assistência pública se localiza, predominantemente, nos limites do município. Comparando os mapas, cheguei à conclusão de que a Regional II, tanto tem seu CAPS Geral mal localizado dentro do seu desenho, quanto possui uma quantidade significativa de população que vive em condições sub-humanas.

Mapa 02: Mapa das Favelas de Fortaleza. Fonte: UECE, 2009.

Seria relevante abordar essa regional, por estes motivos citados e por motivos pessoais, pois moro no Cocó há mais de 15 anos e conheço bem as peculiaridades dessa região caracterizada pelas desigualdades socials.

39


REGIONAL II

40

De acordo com a divulgação da cartilha Mapa da Criminalidade e da Violência em Fortaleza - Perfil da SER II apresentada pelo Ministério da Justiça, em 2011: A Regional II é caracteristicamente marcada pela segregação social, aspecto emblemático da cidade de Fortaleza. É uma região com bairros que concentram boa estrutura física, belas avenidas e prédios, áreas verdes, serviços, comércio, bons equipamentos sociais e, ao mesmo tempo, localidades com estrutura urbana precária, sem a presença de equipamentos e ações de natureza pública.

Constataram que crimes contra o patrimônio e conflitos são mais propícios a acontecerem em bairros como Centro, Aldeota, Papicu, Meireles e Praia do Futuro, com destaque para o Vicente Pizón, no qual foi registrado número significativo de ocorrências, entre as quais crimes contra a vida. Fica evidente os paradoxos sociais formado entre bairros nobres marcados, transversalmente, por problemas comuns aos bairros considerados de periferia: moradias irregulares como favelas, visíveis injustiças sociais e graves problemas de segurança relacionados ao tráfico de drogas, gangues, roubos e mortes.

DADOS BÁSICOS População – 364.808 (IBGE, 2009/SEPLA) População estimada em 2014 –403.368 (IBGE, 2009/SEPLA) Área – 4.933,90 ha Praça, área verde, área livre e parque – 217,94 ha (4,42% do total da Regional) Densidade demográfica –74 hab/ha (2009) Bairros – São 21 no total: Aldeota, Bairro De Lourdes, Cais do Porto, Centro, Cidade 2000, Cocó, Dionísio Torres, Guararapes, Joaquim Távora, Luciano Cavalcante, Manuel Dias Branco, Meireles, Mucuripe, Papicu, Praia de Iracema, Praia do Futuro I, Praia do Futuro II, Salinas, São João do Tauape, Varjota e Vicente Pinzón.


PAPICU

O BAIRRO A Palavra Papicu é indígena e significa ”Lagoa Comprida”. É um bairro nobre localizado na Zona Leste de Fortaleza. Entre os bairros Cocó, De Lourdes, Vicente Pinzón e Varjota. Sua população era de 20.292 habitantes (IBGE,2000). Hoje, esse número deve ser bem maior. O Bairro tem previsão de crescimento, estimulado pela implantação de um novo shopping no bairro. Desde a notícia da aprovação da construção do shopping, os valores dos terrenos elevaram, inclusive de seu entorno. O shopping RioMar será no terreno onde funcionava as antigas instalações da Cervejaria Astra (Brahma). O Grupo Paes Mendonça investirá R$ 32 milhões somente nas obras de recuperação, melhoria e qualificação do entorno do empreendimento.

Abrangência dos CAPS Proposta Existente

No convênio, o Grupo JCPM se compromete a fazer a substituição de casas de moradores das comunidades Areias e Zamenhoff, do entorno do terreno do novo shopping, a construção de túneis e passeios, além de melhorias de algumas vias de acesso. O projeto contempla ainda a capacitação profissional para a construção civil de moradores da área durante 10 anos. Outro ponto que foi negociado é o de que o grupo garanta a preservação e faça a manutenção dos recursos hídricos da Lagoa do Papicu. Ao lado, faço uma desmonstração esquemática da abrangência que o CAPS teria se fosse no Papicu. Ele iria contemplar as áreas que o CAPS existente não contempla.

Mapa 03: Localização do Bairro Papicu na Regional II e da AbranGência que o CAPS Papicu proposto terá. Fonte: Yuri Catunda.

41


42

ÍNDICES URBANÍSTICOS

O LOTE Dentro do bairro, se encontra uma grande área direcionada à habitação social, as chamadas Zonas Especiais de Interesse Social. Pode também ser direcionada à construção de equipamentos que ofereça assistência social. De acordo com a Lei de Uso e Ocupação de Fortaleza, no Papicu se encontra a ZEIS tipo 3, que trata de terrenos vazios muito embora dotados de infra estrutura mas que não cumprem sua função social, permanecendo vazios à espera de valorização (especulação imobiliária). É o caso do lote escolhido. Nesta parte do trabalho, estudei a possibilidade de escolha do lote e a lesgislação que o regula. Ao lado, fotos das vistas contemplando o terreno e seu entorno.

BAIRRO DO PAPICU MICROZONA DE DENSIDADE ZU-3-2: ÍNDICE DE APROVEITAMENTO TAXA DE OCUPAÇÃO TAXA DE OCUPAÇÃO SUBSOLO TAXA DE PERMEABILIDADE GABARITO MÁXIMO

- 2,0 - 50% - 50% - 40% - 72m

Figura 10: Mapa do lote. Fonte: Google Maps.

04

03 01

02


43

04

03

01

02 Figura 11: Vistas do Entorno do lote. Fonte: Google Maps.

Fazendo uma breve análise das visuais, percebemos que este terreno tem muito potencial pela sua localização, enquanto que o seu entorno se fecha para ele e lhe dá um caráter de abandono. Fazendo com que não seja agradável transitar ou permanecer nesta essa área. Neste trecho ao redor do terreno, o uso predominante é o residencial. De costas pra Rua Joaquim

Lima, temos edifícios altos, já na Rua José Borba Vasconcelos, um pouco mais baixos. Na Rua Pereira de Miranda, os volumes são residencias ou, no máximo, de quatro pavimentos. A Rua Dr. Francisco Matos é marcada pelas moradias precárias da Favela Pau Fininho e por paredões longos.


JUSTIFICATIVA

44

O principal motivo da escolha deste bairro é o caráter de mudança que ele está passando e a probabilidade do crescimento das desigualdades sociais. Outro impulsionador da escolha foi o fato de nele se encontrar um dos maiores hospitais de Fortaleza, o HGF (Hospital Geral de Fortaleza). A proximidade com o CAPS seria algo benéfico, visto que muitas vezes há o pioramento do quadro clínico do paciente e este precisa ser encaminhado ao Hospital.

Ao Lado: Mapa 04: Bairro Papicu, suas principais vias, equipamentos públicos, recurso hídrico, terminal de ônibus e estação de vlt, e localização da quadra onde o projeto foi realizado.Fonte: Yuri Catunda. Abaixo: Firgura 12: Vista da Lagoa do Papicu, mostrando a diferença entre a comunidade do Pau Fininho e os edifícios do bairro. Fonte: Google Images.

A proximidade com grande parte da população carente, incluindo as favelas da Praia do Futuro e do Vicente Pizón, que não possuem um número adequado de equipamentos direcionados a sua assistência, também foi fundamental para a decisão de trabalhar com este bairro. É, também, um bairro estratégico, visto que possui o mais movimentado terminal de ônibus da cidade. E contará com a Estação Papicu (do VLT), próxima ao terminal. O que interligará os diversos bairros da Regional II, facilitando o acesso ao CAPS.


45


S A I C N Ê U L INF


“A Arquitetura é sua própria finalidade.” João Figueiras Lima (Lelé)


CANDILIS-JOSIC-WOODS

48

OS ARQUITETOS Estes arquitetos tinham uma metodologia muito específica para a concepção de projetos tanto micro − residências − quanto macro − cidades. Metodologia esta que me direcionou durante os momentos inicias da concepção do CAPS Papicu. Eles travaram uma constante luta por uma arquitetura progressista e humana. Foram influenciados por grandes mestres: Le Corbusier e Wladimit Bodiansky. Para eles, a arquitetura não é o jogo magnífico das formas sob a luz, mas a tentativa de criar certos espaços determinados pelas atividades humanas. Sua concepção é baseada na tradição do funcionalismo como um método de trabalho e não como categoria plástica. Candilis-Josic-Woods concebia a sociedade como um conjunto de indivíduos autônomos em uma estrutura não hierárquica. A única constante que é levado em consideração é a mudança. Para eles, a estrutura das cidades está baseada sobre as atividades humanas e não sobre os esquemas de coordenação geométricas.

A METODOLOGIA Na análise do programa dois fatores são considerados decisivos: as habitações (ou locais de permanência contínua) e as estruturas anexas; seguindo os pensamentos de Louis Kahn, as estruturas anexas como as ruas, estradas e serviços, e espaços para atividades pedagógicas, culturais,

Figura 13: Arquiteto Candilis.Fonte: Google Images.

sociais e comerciais são elementos que servem à habitação. A linha foi escolhida como um sistema de organização. Neste sistema linear – o “tronco” – aderem-se unidades habitacionais. O tronco é apenas para o tráfego de pedestres. Se a arquitetura de Le Corbusier é condicionada principalmente pelo elemento plástico, os limites espaciais de Candilis-Josic-Woods são formados por superfícies. Concebendo-se a arquitetura como uma estrutura e incentivo das atividades humanas, compreende-se que seja discutida a primazia das formas. O ponto de partida para a criação de um novo ambiente é a busca e determinação de uma nova forma de pensar, pelo qual o problema é tratado sob os dados determinados em época e local. Na segunda etapa, um sistema de relações e parcerias requisitadas é construído, enquanto que na terceira a expressão plástica correspondente a esta rede de ligações é buscada. Obviamente, este processo se desenvolve não somente através de fases sucessivas, mas também por uma multiplicidade de relações entre as fases. Em se tratando de projetos de edifícios coletivos, a organização do plano é desenvolvido pela integração de funções gerais e específicas. As funções gerais devem concender a maior margem de liberdade possível para o seu desenvolvimento. Candilis-Josic-Woods introduzem a medida perceptível pelo homem como critério básico para a composição da massa. Em agrupamentos maiores, este método conduz, de acordo com sua teo-


ria, a uma falta de clareza. Portanto, os elementos intermédios são introduzidos, o quais reduzem o conjunto a um tamanho perceptível. Estes são também derivados das condições da situação: eles são utilizados para elementos topográficos ou de circulação. A finalidade é criar estruturas articuladas que dão aos espaços a possibilidade de serem

ultilizados individualmente e permitem mudanças temporárias. No entanto, existe o perigo de que a articulação necessária de conjuntos importantes, no final, conduzam a um formalismo. Eles tentam fugir disso levando a articulação do conjunto para a posição especifica do problema.

Figura 14: Exemplo de Composição dos Arquitetos: Google Images.

49


50

TIPOS DE ARTICULAÇÕES 1) Articulação de funções: o plano resulta da análise e da síntese das funções determinadas e indeterminadas. Máximo de eficácia para funções precisas, como acessos, ordenações, banheiros; enquanto que se procura flexibilidade para as zonas cuja função não pode ser determinada. A organização da planta resulta da escolha das relações entre distintos grupos de funções. A técnica moderna exige a expressão adequada das fachadas. No caso deles, elas preenchem os elementos de rolamento: piso e paredes. A janela não é mais um furo na parede (técnica de pedra), mas um elemento orgânico e plástico que garante: iluminação e ventilação naturais, vista externa e aspecto plástico. 2) Articulação de limites espaciais: materiais e métodos de construção, funções diversas dos elementos de construção, paredes, cobertas, partições, etc.

Figura 15: Abortação da Janela como Furo na Parede. Fonte: Livro Una década de arquitectura y urbanismo.


Os elementos que limitam o espaço são os limites evidentes entre o exterior e o interior, espaços públicos e privados, os coletivos e os individuais. São condicionados pelas questões econômicas tanto quanto por uma escolha estética ou funcional, e respondem às condições climatológicas e tecnológicas do ambiente físico para o que o edifício foi projetado. Vedações, paredes, varandas, galerias.. A concepção de um edifício é a síntese da definição desses elementos em um certo momento. 3) Articulação de volumes: escala e número sobre os planos, sistemas e estruturas geométricas. A articulação das unidades numa geometria celular e a articulação das distintas partes de um edifício é um dos poucos meios que o arquiteto tem para associar um grande número de elementos idênticos. Em geral, a escala permite resolver os problemas pelas dimensões e quantidades de unidades. A finalidade das articulações dos elementos do edi-

fício é o de reduzir as dimensões e as quantidades de modo que sejam compatíveis com o homem e, simultaneamente, compreensíveis por ele. Para que a articulação dos volumes não se converta em formalismo geométrico sem significado, o particular deve sempre ser expressado dentro de uma unidade geral. A manipulação dos volumes estabelece a noção de identidade de lugar ao edifício. 4) Articulação de domínios públicos e particulares: sistemas de estruturas orgânicas. Pode-se dizer que a articulação do domínio público é a organização social e que, por esta articulação, a idéia abstrata de comunidade é incorporada. Os preceitos funcionalistas, principalmente aqueles que baseiam a organização de um plano em um sistema de acessos e circulações, correspondem à articulação do domínio público no interior de um edifício. No geral, os espaços formados pelos exteriores

51


FENOMENOLOGIA

52

Das teorias e conceitos contemporâneos, a partir da revisão da arquitetura modernista, a Fenomenologia é a que mais me interessa. Tendo lido textos de arquitetos/teóricos como Norberg-Schulz e Juhani Pallasmaa, destaco uma lógica que muito tem a agregar na produção arquitetônica. Acredito que a fenomenologia seja determinante para a diferenciação entre a construção comum e a arquitetura. A lógica de que falo é a base da teoria: conceber projetos que exprimam significados além da sua existência no meio físico. Ou seja, a criação de uma arquitetura que estimule todos os sentidos humanos.

NORBERG- SCHULZ Foi definida inicialmente por Edmund Husserl como uma investigação sistemática da consciência e seus objetos, é entendida por Norberg-Schulz como um "método" que exige um "retorno às coisas", em oposição às abstrações e construções mentais. Norberg-Schulz interpreta o conceito de habitar como estar em paz num lugar protegido. Assim, o cercamento, o ato de demarcar ou diferenciar um lugar no espaço se converte no ato arquitípico da construção e a verdadeira origem da arquitetura. A parede, o chão e o teto são percebidos como horizontes, fronteiras e enquadramentos da natureza. A arquitetura torna clara a localização da existência dos homens, que na definição de Heidegger, está entre o céu e a terra, em face dos seres divinos. Percebe-se o caráter espiritual que é dado ao espaço manipulado.


JUHANI PALLASMAA Pallasmaa afirma que a sensação de identidade pessoal, reforçada pela arte e pela arquitetura, permite que nos envolvamos totalmente nas dimensões mentais dos sonhos, imaginações e desejos. Edificações e cidades fornecem o horizonte para o entendimento e o confronto da condição existencial humana. Em vez de criar meros objetos de sedução visual, a arquitetura relaciona, media e projeta significados. O significado de qualquer edificação ultrapassa a arquitetura; ele redireciona nossa consciência para o mundo e a nossa própria sensação de termos uma identidade e estarmos vivos. Com isso, define a fenomenologia como uma arte significativa que faz com que nos sintamos como seres corpóreos e espiritualizados. A visão periférica envolve o sujeito no espaço. Existem evidências médicas que comprovam que a visão periférica tem maior prioridade no nosso sistema perceptual e mental. O olhar fixo e defensivo e não focado de nossa época, assolado pela

sobrecarga sensorial, talvez chegue a abrir novas esferas de visão e pensamento, liberadas do desejo implícito que os olhos tem por controle e poder. A perda de foco pode liberar os olhos de sua dominação patriarcal histórica. A predileção pelos olhos fica evidente na arquitetura, principalmente nas últimas décadas, nos quais as obras buscam imagens visuais surpreendentes e memoráveis. Em vez de uma experiência plástica e espacial embasada na existência humana, a arquitetura tem adotado uma estratégia psicológica da publicidade e da persuasão instantânea; as edificações se tornaram produtos visuais desconectados da profundidade existencial e da sinceridade. Arquitetos como Frank Lloyd Wright, Alvar Aalto e Luis Kahn são exemplos significativos de que existiu uma contracorrente à hegemonia do olho da perspectiva. Hoje, destaco Tadao Ando e Steven Holl pertencentes a esta nova escola − a Fenomenologia.

53


RICHARD MEIER

54

O ARQUITETO

O PENSAMENTO

Nasceu em New Jersey, EUA. E tem sido um dos mais consistentes entre os arquitetos contemporâneos, a ponto de que suas escolhas artísticas – painéis de esmalte branco e grades náuticas – estão dentre as mais reconhecidas da sua profissão. Não é a toa que utilizo sua arquitetura como referência de qualidade. Um arquiteto ou artista com um estilo reconhecido ao longo dos anos fica exposto à acusações de imobilidade ou inabilidade de mudar. Mesmo assim, os trabalhos de arte que mais duraram nasceram de um conjunto de regras. Sobre os elementos de superfície das obras de Meier, os planos recorrem a um vocabulário geométrico, muitas vezes baseado no círculo e no quadrado. Ligando o plano para a superfície, um rigoroso sistema de grades – até mais do que a escolha do revestimento branco – consiste na assinatura dos edifícios de Richard Meier. O rigor do desenho é enfatizado pela meticulosa atenção ao detalhe, o que converge para uma impressão de qualidade. Uma abordagem para a arquitetura que beira à lógica matemática poderia muito facilmente tornarse repetitivo, ou pior, desumano. Meier foi acusado de não se preocupar com os “moradores/habitantes”, mas parece claro que sua propensão geométrica precisionista não é tanto uma expressão de preocupações formais, pois é como um meio para um fim. Esse fim é criar um espaço onde a luz é um elemento onipresente que se forma o ambiente, onde a arquitetura cria uma sensação de bem-estar que pode atingir uma dimensão espiritual.

Através dos textos registradas no livro de Philip Jodidio, percebemos que Richard Meier é um crítico que reconhece as questões atuais sobre arquitetura. Em suas palavras: Como um arquiteto, você constrói em julgamentos sobre a entrada, a acessibilidade, o movimento, como uma estrutura pode ser habitada, ao invés de se preocupar simplesmente com a forma e a relação da construção e seus elementos. Eu não acho que tudo tem que ser concebido como sendo novo e diferente apenas por ser diferente. Acredito que a arquitetura está relacionada com o passado, que o presente está relacionado com o passado, e que podemos aprender com o passado, a fim de avançar para o futuro. Claramente, isso não significa que tudo o que pertence ao passado não tem nenhum significado. Acho que existem maneiras de lidar com o espaço e que podemos aprender com a vida. Eu gostaria de pensar que eu posso aprender com Bernini e Borromini e Bramante, assim como eu posso com Le Corbusier, Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto. Isto é o que é diferente sobre arquitetura moderna hoje e arquitetura moderna como foi nos anos trinta e quarenta. O que fazemos está relacionado com a história da arquitetura. O que nós fazemos é também, infelizmente, relacionado com muitas preocupações pragmáticas, que não mudam durante a noite, ou, em última análise, é uma maneira pela qual fazemos o espaço e lidamos com isso. Isso é o que importa na arquitetura, não tanto as referências que possam ocorrer.


55

Figura 16: Arquiteto Richard Meier. Fonte: Taschen


56

A natureza está mudando à nossa volta, e a arquitetura deveria ajudar a refletir essas mudanças. Eu acho que ela deveria ajudar a intensificar a percepção de mudança das cores da natureza, do dia, em vez de tentar mudar a arquitetura. Eu acho que a responsabilidade de um arquiteto é criar um senso de ordem, de lugar e de relações. Essas idéias são inerentes à arquitetura, e portanto a precisão, ou as relaçoes, são muito importantes para mim, em fazer as idéias e relações mais claras possíveis, criando um senso de ordem. Não estou interessado em criar caos, outros podem fazer isso.

CENTRO DE DESENVOLVIMENTO DO BRONX, NOS EUA Planejado para crianças com deficiência física e mental, o centro é localizado numa área industrial. Como tal, foi difícil imaginar um edifício que se abrisse para o ambiente externo. Em vez disso, Meier optou por fechar as fachadas externas em favor de pátios internos.

ITALCEMENTI I.LAB, NA ITÁLIA É proeminentemente posicionado na extremidade oriental do Parque Tecnológico Científico Kilometro Rosso em Bergamo, Itália. O edifício aborda o sistema de classificação LEED que inclui uma implantação sustentável​​, eficiência da água, projeto e inovação, energia e atmosfera, materiais e recursos e qualidade interna ambiental. A construção em

forma de V reforça as fronteiras do terreno triangular e incorpora um programa de espaços técnicos e administrativos em duas asas que rodeiam um pátio central. A organização interna da asa de laboratórios responde às exigências altamente funcionais específicas do programa. A grade simples estrutural e um corredor de circulação central permitem layouts eficientes e flexíveis para vários setores. A ala sul aloja salas de conferências, um salão multiuso de dois andares e a sala de diretoria, em balanço sobre o segundo pavimento. Pátios adicionais abaixo da grade fornecem ar fresco e luz natural para o nível subterrâneo dos laboratórios e espaços mecânicos. A cobertura da estrutura forma uma quinta fachada virtual perfurada com um sistema de claraboias direcionando a luz natural nos escritórios, corredores de circulação e espaços de laboratório, animando os interiores com a mudança de luz natural. A implementação de um inovador concreto branco de alta resistência, desenvolvido pela Italcementi especificamente para esta estrutura vai diminuir significativamente a poluição causada por emissões de veículos e atividades industriais.

Figura 17: Vista Lateral do Edifício Italcementi Ilab. Fonte: Site do Richard Meier


57


TADAO ANDO

58

O ARQUITETO Este arquiteto, nascido no Japão, e tendo aprendido os princípios da arquitetura de forma autodidata, tem me inspirado na minha concepção de arquitetura, principalmente neste projeto final de graduação. Utilizei seus fundamentos projetuais, não como uma lista de regras a serem seguidas, mas como uma contextualização do tratamento espacial pretendido. Na sua juventude, ele cultivava duas paixões aparentemente contrastantes. A primeira diz respeito à arquitetura tradicional japonesa, que ele conhece e aprecia visitando os templos e as casas dos bairros que escaparam à modernização do pós-guerra. A segunda se relaciona com a arquitetura moderna, em especial as obras de Le Corbusier. Sua concepção de modernidade não renuncia a nenhum avanço cultural, tecnológico ou social conquistado pelo homem, mas, visto que este avanço costumar ser provido pela sociedade ocidental, Tadao Ando procura para eles uma interpretação em equilíbrio com a cultura japonesa. Tadao passou a desenvolver uma poética capaz de trabalhar sob o influxo de valores inferidos da tradição japonesa do habitar. Tal influxo se insinua de modo inconsciente no processo projetual de suas obras iniciais, nos quais prevalece a motivação estilística explícita da produção de formas modernas ligadas às técnicas construtivas modernas. Só mais tarde, começa um período de referência consciente a algumas formas do habitar tradicional japonês.

Nas suas composições volumétricas, utiliza justaposições de formas geométricas puras, aparentemente estáticas e autossuficientes que, na verdade, fibrilam nos pontos de conexão, nos cruzamentos retilíneos que os perfumaram. Nesses pontos nodais, a espacialidade da sua arquitetura perde a compostura do espaço silencioso e entra em ressonância por meio dos ângulos múltiplos, dos saltos de escala e dos enquadramentos visuais que fendem o espaço na horizontal e na vertical. A nudez dos materiais, postos sempre em uso sem mascarar as suas propriedades naturais estéticas, para assim obter um efeito monocromático, que exalta as tonalidades do claro-escuro; a incorporação da natureza no volume do edifício, levando para dentro luz, vento, água e o som da chuva em gradações constantemente variáveis e nem sempre em sintonia com os parâmetros correntes da funcionalidade; a composição silenciosa e seca dos espaços como cenário que pode reagir com os aspectos espirituais do habitar. Toda essa composição é referenciada pela arquitetura tradicional japonesa: o caráter monocromático e a relevância das sensações táteis, luminosas e acústicas na concepção espacial. Essas qualidades que consegue demonstrar em suas obras são imensuráveis: uma arquitetura em que se condensam o momento e a duração, a intuição e o ato, o pensamento e o fazer, segundo um processo poético de identificação entre sujeito e objeto que a cultura ocidental deixou de lado desde a cisão aristotélica entre contemplação e atividade. Estes são princípios que fundamentam a Fenomenologia.


Figura 18: Arquiteto Tadao Ando. Fonte: Taschen


Figura 19: Interior da Igreja da Luz, no Japão, durante uma celebração religiosa. Fonte: Google Images

60

O PENSAMENTO

IGREJA DA LUZ, NO JAPÃO

Tadao Ando enuncia seus preceitos para a criação de suas obras arquitetônicas no texto “Da periferia da arquitetura” em 1991. Expõe seu pensamento sobre arquitetura: Uma vez obtida a comparação funcional, passo a projetar o que realmente é necessário. Só com a convicção de que a arquitetura deve ser contextualmente um ato crítico é que se começará a fazer de maneira plena a estrutura e a base conceitual. A força da ideia determina a longevidade da arquitetura. Então não é tão relevante a beleza dos detalhes e dos acabamentos. O que conta é a clareza da lógica em si − ou seja, a clareza da lógica por trás da composição e a consistência com que essa lógica é aplicada. Não se pode definir a ordem espacial ou o requesito reconhecível valendo-se da razão e sacrificando a percepção. O que conta é a transparência − não aquela associada à beleza superficial ou à simplicidade de uma marca geométrica, mas a transparência de uma lógica coerente. Introduza-se então a natureza em um edifício que tenha suas bases em uma lógica transparente. A natureza, na forma de água, luz e céu, reconduz a arquitetura de um plano metafísico a um terreno, infundindo-lhe vida. O interesse pela relação existente entre arquitetura e natureza leva inevitavelmente à questão da contextualização temporal da arquitetura. Para enfatizar o sentido do tempo, crio composições em que a percepção da transitoriedade e do passar do tempo seja parte da experiência espacial... Em certo sentido, alguns prédios exigem que o criador interrompa em dado ponto o processo criativo e o finalize.

O Complexo é um paralelepípedo de concreto armado, no qual em uma das paredes menores, a do altar, foi talhada uma cruz em toda a espessura da parede. Isso gera uma fonte luminosa cruciforme, que é o único, mas tão eficaz, chamado à simbologia religiosa. O eixo longitudinal da planta é orientado de forma que o sacerdote celebrará contra a luz. Uma parede inclinada em quinze graus em relação à planta a subdivide e a articula, individualizando o vestíbulo e os acessos do exterior. Ao atravessar o espaço puro retangular, a parede também se torna instrumento de dramatização do espaço e elemento de coesão das tensões espaciais, feitas de surpresas, de luzes filtradas ou refratadas, que caracterizam a arquitetura de Tadao Ando.


62

VITRA CONFERENCE PAVILION, NA ALEMANHA A beleza desse edifício está na clara divisão entre o construído e o natural, levando a uma série de experiências que gera uma sensação de expectativa. A arquitetura se encontra com a natureza de forma poética, não tenta dominá-la e eleva a percepção espacial do homem que a visita. A sensação é de curiosidade, primeiramente, pois não se sabe ao certo o que se “esconde” por trás do muro de caráter tectônico. A austeridade da simplicidade do exterior encontra o sucessivo jogo das luzes e volumes do interior. Que o torna convidativo. A sensação de tranquilidade é estabelecida nos espaços que são rasgados pela luz exterior.

Acima: Figura 20: Vista da Composição Volumetrica do Vitra Conference Pavilion. Fonte: Google Images. Ao lado: Figura 21: Interior do Edifício Vitra Conference Pavilion. Fonte: Google Images


63


O T E J O PR


“A simplicidade é o último grau de sofisticação.” Leonardo da Vinci


PARTIDO ARQUITETÔNICO

O partido arquitetônico adotado é um conjunto de diretrizes projetuais que dividi em: Programa, Implantação, Estrutura, Volumetria, Conforto Ambiental e Materiais, Fenomenologia e Programação Visual. Esta sequência nem sempre segue a cronologia do processo de produção do projeto. As diretrizes não são isoladas, elas acontecem num contexto de concepção partindo do geral para o específico. A forma final não é determinada apenas pela função ou apenas pela estrutura, ela é o conjunto das necessidades específicas do programa, as possibilidades legais para a sua concepção, o lote em que se insere, sua topografia e organização enquanto espaço urbano, as técnicas de construção escolhidas, a adoção de ventilação e iluminação natural para garantir conforto térmico e eficiência energética, as proporções entre cheios e vazios, as superfícies iluminadas e sombreadas e o significado do edifício.


68

PROGRAMA O programa que considera os ambientes e dimensões exigidos para o CAPS se encontra na tabela ao lado. Preenche as lacunas das funções básicas do edifício. Porém, existe uma diferença entre o espaço geométrico − formado por paredes, teto e piso necessários para a consolidação de um fechamento − e o espaço arquitetônico − que compreende um significado para o ambiente além do de ser espaço físico e habitável, que é o que define a fenomenologia, já abordada anteriormente neste trabalho. Neste item, após estudo minucioso sobre o funcionamento dos CAPS, será abordado esse significado, contemplando as características apropriadas para cada ambiente. A principal preocupação foi com as Salas de Atendimento, que, por se tratarem de ambiente no qual os usuários serão analisados por um profissional sobre a perspectiva íntima do ser, deverão oferecer privacidade em relação ao restante do edifício e, também, um cenário paisagístico, que permita a sensação de segurança e contato com o ambiente natural, mesmo que este esteja definido por uma moldura arquitetônica − a janela. Em relação ao programa, acrescentei a necessidade de haver uma Sala de Observação acoplada a uma das Salas de Atendimento, direcionando o seu uso ao ensino de futuros profissionais na área clínica. Esta definição ambiental não difere tanto dos Leitos Provisórios, que deverão contemplar as mesmas características, adicionando diretrizes necessárias para a consolidação do silêncio com o

objetivo de promover o tratamento e o descanso do usuário. Para a Enfermaria, foi pensada uma pequena adição no programa, a de um ambiente de repouso e banheiros específicos para estes profissionais. Essa necessidade foi apreendia no estudo de caso do CAPS Dr. Nilson de Moura Fé. Quanto ao Refeitório, é compreendido que este ambiente tem a função de promover a vida através da nutrição e poderia ser utilizado como núcleo de convivência tanto dos usuários do edifício quanto dos funcionários, criando vínculos que permitissem um tratamento aprimorado. Os espaços reservados para o uso em comum com a comunidade, como o Auditório e a Biblioteca, devem ser situados próximos ao Acesso Principal, afim de facilitar o fluxo direcionado deste equipamento. O Auditório é um equipamento de grande importância dentro do contexto do CAPS, pois ele servirá de meio de comunicação entre a produção interna dos usuários e a comunidade que eles estão inseridos, podendo ser utilizado para uma amostra teatral, para exposição de peças de confecção ou de pintura, para apresentação musical, etc. Outra função que ele pode vir a adquirir é a de promover palestras direcionadas à educação sobre os transtornos mentais, fazendo uma conexão contínua entre a prática e a teoria. Em relação às terapias ocupacionais que acontecerão dentro dos ateliês e centro de esporte, ficou clara a relação direta que estes ambientes deveriam ter com o meio natural, que deve ser utilizado para descansar a vista do horizonte e transmitir tranquilidade.


AMBIENTE(FUNÇÕES)/ÁREA ÚTIL CAPS PAPICU______________________________________________3306.42M² 1. Setor Atendimento________________________________________________ 513.00m² 1.1. Recepção____________________________________72m² 1.2. WCs Fem e Mas (15m²)________________________ 30m² 1.3. WCs Acessíveis Mas e Fem (3m²)_________________ 6m² 1.4. Sala de Prontuários____________________________ 18m² 1.5. Farmácia_____________________________________18m² 1.6. 5 Salas de Atendimento Individual (18m²)__________ 90m² 1.7. Sala de Observação___________________________ 18m² 1.8. 3 Salas de Atendimento em Grupo (36m²)________ 108m² 1.9. Enfermaria__________________________________ 10.8m² 1.10.Sala de Descanso_____________________________18m² 1.11.Banheiros Fem e Mas (4.50m²)___________________ 9m² 1.12.Banheiro Acessível____________________________7.2m² 1.13.Leitos Provisórios____________________________ 108m² 2. Setor Refeitório___________________________________________________ 353.72m² 2.1. Almoxarifado________________________________ 10.6m² 2.2. Lavanderia_________________________________ 10.6m² 2.3. Vestiários Pessoal Fem e Mas (21.6m²)__________ 43.2m² 2.4. Cozinha____________________________________ 64.2m² 2.5. WCs Fem e Mas (12m²)________________________ 24m² 2.6. WCs Acessíveis Mas e Fem (3m²)_________________ 6m² 2.7. Refeitório________________________________ 195.12m² 3. Setor Administrativo_______________________________________________ 783.20m² 3.1. Foyer________________________________________72m² 3.2. Acessos ao Auditório (9m²)_____________________ 18m² 3.3. WC Fem__________________________________ 19.05m² 3.4. WC Mas___________________________________ 23.5m² 3.5. WCs Acessíveis Fem e Mas (3m²)_________________ 6m² 3.6. Auditório____________________________________ 245m² 3.7. Segurança_________________________________22.05m² 3.8. Apoio ao Auditório____________________________26.5m² 3.9. Recepção_________________________________ 156.5m² 3.10.Biblioteca___________________________________ 78m² 3.11.Secretaria__________________________________ 21.6m² 3.11.Copa________________________________________ 9m² 3.12.Banheiros Fem e Mas (4.50m²)____________________9m² 3.13.Financeiro e RH_______________________________ 24m² 3.14.Educadores__________________________________ 36m² 3.15.Diretoria_______________________________________9m² 3.16.Sala de Reuniões______________________________18m² 4. Setor Terapias Ocupacionais________________________________________ 838.50m² 4.1. Vestiários Fem e Mas (23m²)_____________________46m² 4.2. Banheiros Acessíveis Fem e Mas (8.85m²)________17.7m² 4.3. Piscina_____________________________________ 150m² 4.4. Quadra Poliesportiva__________________________ 390m² 4.5. 5 Ateliês (43.2m²)_____________________________216m² 4.6. WCs Fem e Mas (4.95m²)______________________ 9.9m² 4.7. WCs Acessíveis Fem e Mas (4.45m²)____________ 8.9m² 5. Estacionamentos _________________________________________________ 818.00m² 5.1. Subsolo (veículos 28)_________________________ 770m² 5.2. Térreo (veículos 16, motos 13, bicicletas 10)________48m²

69


70

IMPLANTAÇÃO Por se tratar de uma quadra (85m x 208m aproximadamente) onde a dimensão longitudinal supera o dobro da dimensão transversal, foi preferível adotar um partido horizontal no sentido mais longo, de forma a ocupar o lote de maneira uniforme. A seguir mostro o processo que levei até chegar na implantação final. Para a implantação do edifício no terreno, fui influenciada pela metodologia de Josic-CandilisWood, o que me levou a escolher a linha como sistema de organização. Comecei definindo a circulação principal, que “corta” o lote de forma longitudinal, formando um eixo de fluxo principal que tanto seria de ligação com o exterior quanto deveria contemplar todas as unidades distribuídas ao seu

longo. Unidades sendo entendidas como as diversas funções que devem ser atendidas no projeto. Levando em consideração o memorial sobre o programa arquitetônico do item anterior e os dimensionamentos dos ambientes, verifiquei a necessidade de setorizar o zoneamento dessas unidades. Então defini 6 unidades distintas que deveriam se conectar através da circulação do eixo principal: os setores de atendimento, de refeitório, de auditório e biblioteca, administrativo, de ateliês e o de esporte. Levando em consideração a área de cada uma dessas unidades, espacializei-as de maneira que formei a seguinte composição em planta. Após a decisão inicial de desenho e a consolidação da massa edificada no terreno, localizei as unidades levando em consideração todas as características tanto do local quanto do programa.

Figura 22: Croquis de Criação.


71

Figura 23: Desenho do Eixo Principal.

Figura 24: Desenho do Eixo Principal e a Integração das Unidades.

Figura 25: Desenho da Setorização e Zoneamento.


72

As unidades concebidas formam articulações entre si, que serão tanto para o descanso da vista com o padrão arquitetônico anterior − visto a necessidade de modificar o tratamento espacial de cada unidade, de modo a diminuir o cansaço visual durante o percurso − quanto para o uso de circulações verticais, formando uma conexão entre as unidades, que serão visualizadas como partes de um todo completo e único. Pois a intenção era criar um edifício que priorizasse as circulações de forma que unisse as diversas funções tornando-o inteiro, e não ramificado fisicamente. Destaco que, para desenvolver essa concepção final, foram feitas várias outras tentativas. Porém esta foi escolhida por utilizar de forma completa o terreno, por permitir que o edifício não se limite ao interior do seu lote e por definir caminhos de boa legibilidade aos usuários. Uma alteração na composição das perpendiculares foi feita. No espaço no qual o edifício se rela-

ciona com as atividades de terapias ocupacionais, o ângulo reto sofre inclinação de 45 graus ao Leste, formando uma fachada que, tanto quebra com a regularidade do traço, quanto funciona como indicador da realidade do entorno, fazendo uma ligação indireta com a lagoa e uma relação visual com as habitações sociais. Na concepção desse desenho, também levei em consideração as características do local. A rua Dr. Francisco Matos produz maior poluição sonora causada principalmente pelo alto fluxo de veículos que tende a piorar com o crescimento acelerado do bairro. As ruas intermediárias são a melhor escolha para os acessos. A direção do norte define as aberturas das fachadas dando preferência a iluminção do nascente. O edifício se compõe ao longo do lote, sendo possível a ventilação natural na maior parte das suas aberturas verticais. Quando isso não for possível, as aberturas serão zenitais.

Figura 26: Desenho da Inclinação do eixo principal.


73

Figura 27: Desenho da Situação Sonora do Edifício.

Figura 28: Desenho da posição dos raios solares do nascente.

Figura 29: Desenho da direção predominante dos ventos.


LEGENDA VAZIOS/JARDINS MASSA EDIFICADA CIRCULAÇÃO/ ESTACIONAMENTO

Abaixo: Figura 30: Relação das massas e circulações do edifício. Ao lado: Figura 31: Planta Esquemática da Implantação.

O edifício foi projetado de forma que a circulação seja o ponto de encontro entre o interior e o exterior, ou seja, ela articula em forma de limitação. A seguir, plantas esquemáticas das massas que são limitadas por superfiícies “fechadas” e a circulação que as envolve.

74

SUBSOLO

TÉRREO

PRIMEIRO PAVIMENTO


N

RUA BORBA VASCONCE LO

AV. SANTOS DUMONT

RUA JOAQUIM LIMA

RUA PEREIRA DE MIRANDA

SHOPPING RIOMAR

RUA DR. FRANCISO MATOS

S

FAVELA PAU FININHO

LAGOA DO PAPICU


N

76

PÁTIO EXTERNO

ESTACIONAMENTO TÉRREO

ACESSO PRINCIPAL


ACESSO AMBULÂNCIA

PÁTIO EXTERNO II

ACESSO SUBSOLO

O OI

ACESSO CARGA/DESCARGA

Figura 32: Planta Esquemática dos acessos.


78

ESTRUTURA Para a escolha da estrutura, tentei levar em consideração o conhecimento já consolidado com o poderoso material que é o concreto e os custos, caso viesse a ser construído. O módulo da unidade de medida utilizado foi o de 60cm. Quanto a malha, é quadriculada, distanciada em 6 e 6m, salvo a exceção do Setor Refeitório que é distanciada em 6 e 7,2m. Os pilares são de 20x20cm quando cilíndricos e de 15x30cm quando retangulares. As vigas em concreto armado, utilizadas no Setor Atendimento e na maior parte do Setor Administrativo, são predimensionadas de acordo com o vão, tendo altura de 60cm, em média, enquanto a laje maciça tem espessura de 10cm.

No Setor Refeitório, utilizo da viga invertida e laje em balanço, para alcançar os efeito visuais: fazer o pilar tocar a laje diretamente e ter a aparência que a estrutura é leve e não há vigas para o suporte. O Auditório se destaca nas fachadas e foi idealizado para transparecer seu interior, de forma que a estrutura definisse sua forma, então foi adotado estrutura em pórticos. No Setor de Terapias Ocupacionais, os ateliês se encontram sobre pilotis, então, novamente com o intuito plástico da estrutura, optei por laje nervurada de 25cm de espessura e vigas faixas de 60cm de largura. O mesmo acontece sobre a piscina, porém com a finalidade de vencer o vão, suas vigas faixas têm 1,20m de largura.

Figura 33: Perspectiva do Setor Refeitório (Apenas a Estrutura).


79

Figura 34: Perspectiva do Audit贸rio (Apenas a Estrutura).

Figura 35: Perspectiva dos Ateli锚s sobre Pilotis (Apenas a Estrutura).


80

VOLUMETRIA O principal princípio na concepção dos volumes é o de adotar a escala humana. O pé-direito é definido pelas medidas dos degraus das escadas e pela estrutura da laje. Os degraus tem altura de 17,5cm e o pé-direito mede 2,875m. Era necessário que as alturas fossem confortáveis aos usuários, de forma a não ser imponente e não brigar com o gabarito dos edifícios residenciais no seu entorno, ao contrário, o edifício permite uma leitura fácil a partir do passeio, uma proximidade

com a coberta, por possuir poucos pavimentos, e uma clareza exterior quanto ao seu interior, pois cada função recebe um tratamento de fachada diferenciado. Os cheios e vazios se fazem presentes como partido fundamental de composição tridimensional. Não somente para desregularizar a fachada e "brincar" com suas reentrâncias, mas para fugir da limitação que é a janela comum − nada mais que um furo na parede. As aberturas vem por todos os cantos: por cima para uma iluminação e ventilação zenital e o contato direto com as cores do céu atra-


vés dos lartenins e rasgos na laje, pela conexão de dois volumes que se encontram e pelo afastamento da estrutura para abertura total da superfície que limita interior e exterior, emoldurando paisagens. De modo geral, a Fachada Norte, por onde acontece o acesso principal, é o volume mais sólido e "fechado" de toda a edificação. O motivo pelo qual esse volume se caracteriza dessa forma é porque, apesar de ter como partido arquitetônico a relação direta entre exterior e interior, cidade e lote, trata-se de um equipamento público, e como tal, Figura 36: Perspectiva Leste.

deve, também, intensificar a presença do controle e assistência do poder público. Para quebrar o peso causado por essa fachada, utilizei-me de um artifício comum em edifícios públicos − o espelho d'água. Este cerca quase que todo o comprimento da frente do edifício, direciona o usuário à entrada principal e exprime um caráter de leveza ao conjunto − como se flutuasse no céu refletido, como se não tocasse o chão. O pórtico imponente do auditório se solta do seu volume e marca a fachada proporcionando uma sensação de regularidade.

81


82

Figura 37: Perspectiva Acesso Principal. Figura 38: Perspectiva Norte: Entre o Acesso Principal e Setor Atendimento.


83

Figura 39: Perspectiva Lateral Setor Atendimento. Figura 40: Perspectiva Oeste: Pátio entre o Setor Atendimento e Setor Refeição.


84

Quanto a Fachada Oeste, quase não há aberturas, e quando há, a coberta se afasta para a proteção adequada. A Fachada Sul é a que mais identifica o partido de conexão ao qual me refiro no texto. As circulações se abrem para um pátio externo que funciona como um "pulmão" da edificação. Essas aberturas são diretas, sem a necessidade de vedações que limitem o espaço interno e externo. A ideia é fazer parte da cidade, convidar a comunidade local a usufruir de um espaço onde a arquitetura − sendo completamente pura de ornamentos − emoldura o maior ornamento de todos: a paisagem natural. O pátio funciona como interli-

Figura 41: Perspectiva de dentro do Refeitório para o Pátio Externo Principal.

gador das diversas funções, mas também funciona como local de permanência e convivência social. A quadra conecta o pátio à piscina, formando um local de atividades contínuas. No encontro entre o Setor Atendimento e o Setor Refeição há outra criação de pátio, dessa ver com outro objetivo, o de contemplação e de silêncio. O pátio é pensado para ser menos aberto à cidade, mais arborizado, um local de meditação. A Fachada Leste é um pequeno trecho no qual escolhi abrir visualmente através do uso de vedações de vidro para absorver a nascente do sol.


85

Figura 42: Perspectiva Setor Refeit贸rio. Figura 43: Perspectiva entre Setor Administrativo e Ateli锚s sobre Pilotis.


Figura 44: Perspectiva Setor Terapias Ocupacionais. Figura 45: Perspectiva AteliĂŞs sobre Pilotis.


Figura 46: Perspectiva Piscina. Figura 47: Perspectiva Sudeste: Setor Terapias Ocupacionais.


Figura 48: Recepção Setor Atendimento. Figura 49: Ateliê de Música.


Figura 50: Sala Atendimento Individual. Figura 51: Sala Atendimento em Grupo.


90

CONFORTO AMBIENTAL E MATERIAIS Para a definição dos materiais, tive o cuidado de pesquisar especificações conforme a necessidade de cada ambiente. No geral, o edifício é caracterizado pela cor branca. Uma simples pintura que enriquece tanto o contexto em que se insere, pois reflete, na sua superfície, as cores da natureza, seja da vegetação, seja das diversas cores que o sol oferece durante sua trajetória. O piso predominante escolhido é o cimentício, por suas propriedades refratárias e antiderrapantes. A sua vida útil longa também foi levado em conta. É um revestimento artesanal, de alta resistência, fabricado com cimento especial e baixa condutividade térmica.

As placas metálicas brancas da fachada, servem para criar um padrão cruzado e facilitar a percepção da escala no edifício. Também é um elemento que auxilia no conforto térmico. O brise-soleil é utilizado para a vedação dos recortes da parede pela qual se pretendeu abrir caminho para as saídas de ar. O piso vinílico foi escolhido para áreas de internação, visto que possui propriedades de fácil higienização e manutenção, resistência ao alto tráfego e de estabilidade térmica. A superfície do carpete reduz o ruído proveniente do atrito dos pés, absorve o ruído ambiente, bloqueia a passagem de som. Características pelas quais escolhi aplicá-lo no auditório, no piso e nas paredes laterais. Um forro acústico também foi indicado no projeto.


Figura 52: Perspectiva do Interior do Audit贸rio.

91


92

O cobogó ganha vida no edifício quando ele deixa de ser apenas abertura para ventilação e iluminação e passa a ser um compositor da arquitetura, ao criar um conjunto de sombras e luz definido pelo seu traçado desregular. O sistema structural glazing é um tipo de pele de vidro da fachada, no qual o vidro é colado com silicone nos perfis dos quadros de alumínio, ficando a estrutura oculta, na face interna. O selante torna-se elemento estrutural, aderindo aos suportes e transferindo à estrutura metálica as cargas apli-

cadas sobre a fachada. Também assegura estanqueidade, e sua elasticidade permite a dilatação e a contração do vidro, sem conseqüências negativas. A coberta verde não foi adotada por um gosto estético ou uma repetição dos modismos atuais. Os motivos que me fizeram escolhê-la foi que suas vantagens fazem o seu uso valer a pena. Desde a ampliação do conforto acustíco e melhoria na condição térmica dos espaços internos até a redução das taxas de CO2 da cidade. Figura 53: Perspectiva Interna do Setor de Atendimento: Brise soleil.


93

Acima: Figura 54: Corte Esquemรกtico Transversal do Setor de Atendimento. Abaixo: Figura 55: Corte Esquemรกtico Transversal do Setor Refeitรณrio.


94

SIGNIFICADO O objetivo é que o edifício fosse leve, que fosse tão puro que a sua leitura aguçasse todos os sentidos do usuário, instantaneamente. Quando o edifício é tão puro, sem ornamentos, o que se destaca são os traços formados pelas linhas da

implantação e da fachada, a luz e a sombra, o silêncio e o barulho. Como Pallasma, acredito que a visão periférica é a que mais interfere no poder de percepção dos ambientes. Tendo isso em mente, quando optei por não vedar grande parte da edificação foi justamente esse caráter que eu pretendi experimentar.


O usuário que transita pela circulação principal tem, em sua visão periférica, duas paisagens diferentes: a natural formada pela vegetação do pátio externo e a construída formada pelas unidades funcionais. Esse contraste formado pela percepção visual entre o natural e o que é feito pelo homem remete o usuário ao maior significado de todos: o

da própria existência. O significado da arquitetura aqui é o de entrar em contato íntimo com o ser e estabelecer relações de percepção que vão além do simples objeto no espaço.

Figura 56: Circulação Principal, dividindo o edificado do “natural”.

95


96

PROGRAMAÇÃO VISUAL A programação visual foi levada em consideração neste trabalho como parte do aprendizado adquirido durante a faculdade. Disciplina importante também para a Arquitetura por ser meio de representação dos projetos. Desde os renders do projeto arquitetônico à capa, os elementos foram escolhidos de forma a facilitar o entendimento do leitor e a transformar todo o processo artístico em material físico. Para a produção dos desenhos técnicos (Volume II), utilizei, principalmente, o AutoCAD. Para os renders, busquei programas que tornassem a representação mais real possível, como Sketchup e o Vray, o Lumion e o Photoshop para finalizar as imagens. Para a criação da capa, tentei expressar toda a sensação de caos que os transtornos mentais

podem causar e o equilíbrio que se pretende adquirir nas unidades dos CAPS. Os triângulos aparecem explodindo por enquanto que equilibram as cores e o fundo preto. Houve um estudo até que se chegasse ao resultado final desejado. O design foi feito primeiramente à mão, depois, com a ajuda da Carol Barros, utilizei o Photoshop e o Corel para finalizar. O caderno foi produzido no Indesign com a finalidade de lhe dar a aparência de um livro, facilitando e tornando divertida a sua leitura. O formato 20x24cm foi uma escolha pessoal, pois acredito que este formato seja menos formal e mais delicado e artístico do que o padrão A4. Este caderno foi impresso em papel couche 40 na originalgraph. Para a defesa na faculdade, utilizei o prezi para apresentar o projeto e um vídeo feito no Lumion (postado no youtube: https://www.youtube.com/ watch?v=56bHr-HlxAI) .

Figura 57: Processo de criação da Capa.


Figura 58: Perspectiva Cobogó da Piscina.

97

Figura 56: Circulação Principal, dividindo o edificado do “natural”.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

98

Não é por ser um equipamento público de saúde mental que o CAPS deva ter uma arquitetura medíocre. Pelo contrário, a arquitetura pode, de muitas formas, auxiliar no tratamento mental. Ela está ligada a um conceito que, aparentemente, deixou de ser fundamental na criação contemporânea: o de qualidade de vida. Esse caráter tem sido substituído tanto por uma busca de uma sustentabilidade que foca em premiações quanto pelo uso desmedido de novas possibilidades materiais, formando edifícios perfeitos no caráter estético, mas que formam espaços, muitas vezes, de baixa qualidade. É no espaço arquitetônico que os indivíduos realizam todas as suas atividades e relações. Dessa forma, é preciso que os arquitetos se procupem mais com as soluções, levando sempre em consideração que a arte é feita por um indivíduo para outro, o homem é o centro desse processo. Quanto à concepção deste projeto, a parte mais difícil foi colocar um ponto final. Tendo dito isto, a evolução com que o projeto foi tomando forma me surpreendeu. Acredito que eu tenha alcançado meus objetivos quanto ao produto final. O edifício possui todos os fundamentos e conceitos com os quais sempre me identifiquei no decorrer da minha jornada pela faculdade. Estou ansiosa para enfrentar os diversos tipos de programas e problemáticas que terei pela frente, como arquiteta. Pretendo seguir os ensinamentos que a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo me ofereceu e procurar, na forma de soluções arquitetônicas, melhorar a vida das pessoas.


BIBLIOGRAFIA

ABUDD, Benedito. Criando Paisagens: guia de trabalho em arquitetura paisagística. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2006.

PALLASMAA, Juhani. Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos; tradução técnica: Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2011.

ANDO, Tadao & ESPOSITO, Antonio. Tadao Ando; tradução Gustavo Hitzchky. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2011.

RIBEIRO, Sérgio Luiz. A criação do Centro de Atenção Psicossocial Espaço Vivo. Psicol. cienc. prof. [online]. 2004, vol.24, n.3, pp. 92-99. ISSN 1414-9893.

GÓES, Ronald de. Manual prático de arquitetura para clínicas e laboratórios. São Paulo: Edgard Blucher, 2006. JODIDIO, Philip. Richard Meier. Alemanha: Taschen, 1995. JOEDICKE, Jürgen. Candilis-Josic-Woods: Una década de arquitectura y urbanismo. Barcelona: Gustavo Gili, 1968 LIMA, Mariana Regina Coimbra de. Percepção Visual Aplicada à Arquitetura e à Iluminação. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna Ltda., 2010. MONTANER, Josep Maria. Arquitetura y crítica. Barcelona: Gustavo Gili, Barcelon, 2007.

SANTOS, Mauro & BURSZTYN, Ivani. Saúde e arquitetura: caminhos para a humanização dos ambientes hospitalares. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2004. SIDRIM, Maria Ifigênia Costa. As Representações Sócias da Reabilitação Psicossocial. Fortaleza: Juruá, 2010. WATERMAN, Tim. Fundamentos de Paisagismo; tradução técnica Alexandre Salvaterra. Porto Alegre: Bookman, 2010.

99


ANEXO 01 (LISTA DE FIGURAS)

100

Figura 01: Mausoléu Castelo Branco. Fonte: http://4.bp.blogspot.com/_RFjF5dLcm5g/SUQ3ohizMUI/AAAAAAAABI0/6jy-DubiA58/s1600/zzMaosoleu+Pres.+Castelo+Branco.jpg. _ pág. 16 Figura 02: Vista aérea da antiga sede do Hospício Pedro II, atual Palácio Universitário (UFRJ). Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Hosp%C3%ADcio_D_Pedro_II_-_Atual_Pal%C3%A1cio_Universit%C3%A1rio_da_UFRJ_-_Praia_Vermelha.jpg _ pág. 27 Figura 03: Foto demonstrativa das greves que ocorriam na redemocratização do Brasil em 1980. Fonte: http://2.bp.blogspot.com/_EURQfdEuxMQ/S_ COSD2j1tI/AAAAAAAAAA0/An-jQMFNIwI/s1600/ img003.jpg. _ pág. 28 Figura 04: Esquema Explicativo dos Transtornos Mentais mais comuns. Fonte: G1.com.br _ pág. 30 Figura 05: Interior do CAPS LOKI. Fonte: Victor Melo. _ pág. 33 Figura 06: CAPS Itapeva, a residência e o antigo edifício ambulatório. Fonte: Google Maps. _ pág. 33 Figura 07: Recepção do Caps Dr. Nilson de Moura Fé. Fonte: Renata Reis(2013). _ pág. 35 Figura 08: Leitos Provisórios do Caps Dr. Nilson de Moura Fé. Fonte: Renata Reis (2013). _pág. 35 Figura 09: Entrada do Caps Dr. Nilson de Moura Fé. Fonte: Renata Reis (2013). _ pág. 35 Figura 10: Mapa do lote.Fonte: Google Maps. _ pág. 42 Figura 11: Vistas do Entorno do lote. Fonte: Google Maps. _ pág. 43 Figura 12: Vista da Lagoa do Papicu, mostrando a diferença entre a comunidade Pau Fininho e os edifícios do bairro. Fonte: Google Images. _ pág. 44 Figura 13: Arquiteto Candilis. Fonte: Google Images. _ pág. 48 Figura 14: Exemplo de Composição dos Arquitetos. Fonte: Google Images. _ pág. 49 Figura 15: Abortação da Janela como Furo na Parede. Fonte: Livro Uma década de arquitectura y urbanismo. _ pág. 50

Figura 16: Arquiteto Richard Meier. Fonte: Taschen. _ pág. 55 Figura 17: Vista Lateral do Edifício Italcementi Ilab. Fonte: Site do Richard Meier _ pág. 57 Figura 18: Arquiteto Tadao Ando. Fonte: Taschen _ pág. 59 Figura 19: Interior da Igreja da Luz, no Japão, durante uma celebração religiosa. Fonte: Google Images. _ pág. 61 Figura 20: Vista da Composição Volumetrica do Vitra Conference Pavilion. Fonte: Google Images. _ pág. 62 Figura 21: Interior do Edifício Vitra Conference Pavilion. Fonte: Google Images. _ pág. 63 Figura 22: Croquis de Criação. _ pág. 70 Figura 23: Desenho do Eixo Principal. _ pág. 71 Figura 24: Desenho do Eixo Principal e a Integração das Unidades. _ pág. 71 Figura 25: Desenho da Setorização e Zoneamento. _ pág. 71 Figura 26: Desenho da Inclinação do eixo principal. _ pág. 73 Figura 27: Desenho da Situação Sonora do Edifício. _ pág. 74 Figura 28: Desenho da posição dos raios solares do nascente. _ pág. 74 Figura 29: Desenho da direção dos ventos. _ pág. 74 Figura 30: Relação das massas e circlações do edifício. _ pág. 74 Figura 31: Planta Esquemática Implantação. _ pág. 75 Figura 32: Perspectiva dos acessos. _ pág. 76 Figura 33: Perspectiva do Setor Refeitório (Apenas a Estrutura). _ pág. 78 Figura 34: Perspectiva do Auditório (Apenas a Estrutura). _ pág. 79 Figura 35: Perspectiva dos Ateliês sobre Pilotis (Apenas a Estrutura). _ pág. 79 Figura 36: Perspectiva Leste. _ pág. 80


ANEXO 02 (LISTA DE MAPAS)

Figura 37: Perspectiva Acesso Principal. _ pág. 82 Figura 38: Perspectiva Norte: Entre o Acesso Principal e Setor Atendimento. _ pág. 82 Figura 39: Perspectiva Lateral Setor Atendimento. _ pág. 83 Figura 40: Perspectiva Oeste: Pátio entre o Setor Atendimento e Setor Refeição. _ pág. 83 Figura 41: Perspectiva de dentro do Refeitório para o Pátio Externo Principal. _ pág. 84 Figura 42: Perspectiva Setor Refeição. _ pág. 85 Figura 43: Perspectiva entre Setor Administração e Ateliês sobre Pilotis. _ pág. 85 Figura 44: Perspectiva Setor Terapias Ocupacionais. _ pág. 86 Figura 45: Perspectiva Ateliês sobre Pilotis. _ pág. 86 Figura 46: Perspectiva Piscina. _ pág. 87 Figura 47: Perspectiva Sudeste: Setor Terapias Ocupacionais. _ pág. 87 Figura 48: Recepção Setor Atendimento. _ pág. 88 Figura 49: Ateliê de Música. _ pág. 88 Figura 50: Sala Atendimento Individual. _ pág. 89 Figura 51: Sala Atendimento em Grupo. _ pág. 89 Figura 52: Perspectiva Interna Auditório _ pág. 91 Figura 53: Perspectiva Interna do Setor de Atendimento. _ pág. 92 Figura 54: Corte Esquemático Transversal do Setor de Atendimento. _ pág. 93 Figura 55: Corte Esquemático Transversal do Setor Refeitório. _ pág. 93 Figura 56: Circulação Principal, dividindo o edificado do “natural”. _ pág. 94 Figura 57: Processo de criação da Capa. _ pág. 96 Figura 58: Perspectiva Cobogó da Piscina. _ pág. 97

Mapa 01: Abrangência Populacional dos CAPS em Fortaleza-CE. Fonte: Yuri Catunda, 2013. _____ pág. 38 Mapa 02: Mapa das Favelas de Fortaleza. Fonte: UECE, 2009. _____ pág. 39 Mapa 03: Localização do Bairro Papicu na Regional II e da Abragnência que o CAPS Papicu proposto terá. Fonte: Yuri Catunda. _____ pág. 41 Mapa 04: Bairro Papicu, suas principais vias, equipamentos públicos, recurso hídrico, terminal de ônibus e estação de vlt, e localização da quadra onde o projeto foi realizado.Fonte: Yuri Catunda. _____ pág. 45

101



CAPS Papicu: uma solução arquitetônica para um Centro de Atenção Psicossocial (VOL I)