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LITERATURA

DO COTIDIANO

Caros Alunos

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urante este capítulo iremos estudar um gênero literário que está constantemente presente durante nosso dia a dia, em jornais e revistas, e que pode ser considerado tipicamente brasileiro. Estudaremos como se deu a sua formação ao longo dos séculos, assim como suas divisões em diferentes tipos. Trabalharemos com as diferentes características que ele apresenta e que o fazem ser considerado um gênero literário. Nesse percurso de ensino, você conhecerá diversos autores e seus diferentes estilos, mas daremos atenção especial ao escritor Rubem Braga, o autor mais importante deste gênero. Dessa maneira, você construirá novos conhecimentos na medida em que entrar em contato com os textos desses autores. Nosso objetivo é incentivar a sua formação enquanto leitor literário, para que assim você consiga ler sempre e de maneira crítica, de modo a perceber as características únicas que formam um texto literário. Através deste capitulo pretendemos não apenas apresentar-lhe este gênero como também proporcionar um espaço onde você possa, ao final de todo o trabalho, fazer sua própria criação. Esperamos que este material seja uma ferramenta útil a qual você possa recorrer durante a formação de seu aprendizado e que você o trabalhe de maneira proveitosa e divertida. Curioso para descobrir que gênero literário é esse? Vamos lá! Ananda. Benedito, Luciana, Marília, Mirele e Renata.

Ananda de Camargo A. Gimenes Benedito de Paula Luciana Vasconcelos Machado Marília Veronese Mirele Boraschi Renata Ortiz Brandão

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Começando a Trabalhar Os moradores também não sabem o que fazer quando a calçada esburacada e quebrada está num espaço público. “As pessoas vão fazer caminhada aqui tropeçam. O rescaldo da feira que fica aquele caldo do peixe, eles vem e limpam no outro dia e dai fica aquele cheiro”, conta o autônomo Willian Ramos Garcez.

Leia os textos abaixo e, em seguida, assista ao vídeo: Texto 1:

FONTE: VERSÃO DIGITALIZADA DE FOLHA DE SÃO PAULO, 1 DE OUTUBRO DE 2012

Nova lei

No site da Prefeitura, há uma cartilha com orientações para quem pretende construir ou reformar uma calçada. Veja as principais dúvidas sobre a nova lei: Quem é responsável pela manutenção das calçadas? O proprietário do imóvel, seja comercial ou residencial, é responsável pela conservação, manutenção e reforma da calçada em frente ao seu imóvel. Calçadas em situação irregular ou precária são passíveis de multa. Se o proprietário não for localizado, quem está usando o imóvel se torna o responsável. Existe padrão para reforma das calçadas?

Nova lei das calçadas gera dúvidas em SP

Sim. O decreto nº 45.904/05 estabelece um novo padrão arquitetônico para as calçadas da cidade de São Paulo. Todas as calçadas construídas ou reformadas deverão seguir este padrão. Em linhas gerais, o decreto define um novo padrão arquitetônico para as calçadas da cidade. Ele determina normas para garantir a acessibilidade e os materiais que podem ser utilizados. As calçadas deverão ser divididas em faixas, diferenciadas por textura e/ou cor, de acordo com a sua largura: - calçadas com até 2 metros de largura: deverão ser divididas em duas faixas - calçadas com mais de 2 metros de largura: deverão ser divididas em três faixas

Regras entraram em vigor na segunda-feira.

Quais são as três faixas definidas pelo novo padrão?

A nova lei das calçadas em São Paulo, que entrou em vigor na segunda-feira (9), tem gerado dúvidas entre os paulistanos que precisam construir ou reformar seus passeios. Agora, os donos de imóveis e locatários poderão ser multados caso as calçadas não estejam de acordo com a regulamentação. De acordo com a nova lei, é preciso manter a calçada livre para que os pedestres possam circular sem dificuldade. Agora a área destinada para os pedestres não deve ter árvores, lixeiras e postes. Exatamente o que acontece na rua da empregada doméstica Maria Luisa Orlando. Há seis anos, quando ela se mudou, a árvore já estava na calçada. Ela cresceu e precisou ser cercada, rachando o passeio. “A gente não sabe o que fazer porque se tem árvore a gente leva multa, se corta, leva multa. Se tem poste, leva multa”.

As faixas são: 1) Faixa de serviço: com largura mínima recomendável de 0,75m, é a faixa mais próxima da rua, destinada à colocação de árvores, rampas de acesso para veículos ou portadores de deficiência, postes de iluminação, sinalização de trânsito, bancos, floreiras, telefones, caixas de correio e lixeiras. 2) Faixa livre: com largura mínima de 1,20m, é destinada exclusivamente à circulação de pedestres e, portanto, deve estar livre de quaisquer desníveis. 3) Faixa de acesso (sem largura mínima): existente apenas em calçadas com largura maior que 2 metros, localiza-se exatamente em frente ao imóvel e pode conter mesas de bar, vegetação, toldos, rampas ou propaganda, desde que não impeçam o acesso ao imóvel.

Texto 2:

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As novas regras estabelecem que a responsabilidade pela construção, conservação, reforma e manutenção das calçadas, que antes era apenas do proprietário do imóvel, cabe também ao usuário (locatário) do local, seja ele comercial ou residencial. Outra mudança importante diz respeito à largura mínima dos passeios, que passa de 0,90 metro para 1,20 metro. Segundo a Prefeitura, a Coordenação das Subprefeituras irão avaliar os casos específicos de necessidade de mudanças em vias já existentes. As subprefeituras serão responsáveis pela fiscalização – 700 funcionários já foram treinados para multar as irregularidades. A calçada deve estar muito bem conservada e não pode haver nada que atrapalhe a passagem dos pedestres, como lixeiras e vasos. Os pedestres também vão poder denunciar calçadas mal conservadas pelo telefone 156 ou nas subprefeituras. Pastorello afirma que quando a calçada tiver sido danificada por obras de concessionárias, o proprietário deve registrar o problema na subprefeitura para evitar multas.

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Começando a Trabalhar Vídeo: Trecho de uma reportagem exibida no programa SPTV.

FONTE: <HTTP://WWW.YOUTUBE.COM/WATCH?V=WM3RTJN4QOS >

Refletindo... 1. Como você deve ter percebido acima, existem diferentes maneiras de se abordar qualquer tipo de assunto. A abordagem de um tema pode se dar com mais ou menos formalidade, humor, ironia; maior ou menor extensão; com mais ou menos subjetividade, aproximando ou afastando o leitor. Assim, a partir do que você leu e assistiu, e levando em consideração a afirmação acima, aponte quais são as diferenças e semelhanças que mais se destacam, no que diz respeito à abordagem do tema e à linguagem utilizada. Depois, discuta com seus colegas e compare as respostas. 2. Leia os seguintes trechos

Consulte a sua subprefeitura para que um técnico avalie a situação e oriente quanto á melhor forma de reformá-la. Posso plantar árvores na minha calçada? Não. A responsabilidade pelo plantio e retirada de árvores é da Prefeitura. Consulte a subprefeitura de sua região para obter mais informações. Posso ter uma calçada com grama? Sim, desde que não haja grande fluxo de pedestres e a sua calçada tenha largura mínima de 2 metros. Existem outras regras para o plantio de vegetação nas calçadas. Por isso, antes de plantar, consulte a subprefeitura de sua região sobre as normas e padrões existentes. Quais são os materiais necessários para a construção ou reforma da calçada? Os materiais para reforma das calçadas são determinados de acordo com o tipo de via em que a calçada se encontra. Posso escolher o material que quiser para a minha calçada?

Do bafômetro II

Antonio Prata “Um chopinho! Uma tacinha!”, sussurram os mais ousados, olhando para os lados, conferindo se não estão mesmo sendo ouvidos. Tá certo, eu também acho que uma taça de vinho e um chope poderiam ser liberados. Se fizerem abaixo assinado para mudarem a lei, me mandem por e-mail, eu assino – como, aliás, tenho assinado todos os que me mandam contra o desmatamento da Amazônia, a guerra do Iraque, o relatório de Kyoto, os ursos chineses que são amarrados nas jaulas e cuja bílis é cruelmente extraída para fazer já não me lembro mais o que. A que quantidade de álcool permitida, no entanto é um detalhe ínfimo, diante da boa notícia de que, finalmente, beber e dirigir vai se tornar um crime de verdade e que milhares de vidas serão poupadas. (Milhares, aqui, não é força de expressão. São mais de trinta mil mortos por ano, no trânsito. Boa parte dos acidentes, causados por motoristas bêbados). Acho estranho tanto fervor na defesa de um chopinho e uma tacinha. E na vidinha, não vai nada?

FONTE: < HTTP://BRUNOVESPUCCI.COM.BR/>

O que fazer se minha calçada tiver largura menor que 1,20m?

FONTE: <HTTP://BLOGDOANTONIOPRATA.BLOGSPOT.

Não. Os materiais são indicados pelas subprefeituras, de acordo com a característica da via onde a calçada se encontra. A descrição de cada material padrão está disponível no site da Prefeitura de São Paulo.

COM.BR/>. ACESSO EM 10 DE OUTUBRO DE 2012.

FONTE: HTTP://G1.GLOBO.COM/SAO-PAULO/NOTICIA/2012/01/NOVA-LEI-DAS-CALCADAS-GERA-DUVIDAS-EM-SP.HTML

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Começando a Trabalhar Cafezinho

Walcyr Carrasco

– Oi, tudo bem? Sinto o sangue gelar. Aconteceu, novamente. Não tenho a menor ideia sobre a quem pertence o rosto sorridente. Ela me acena, de sua mesa. Estou em um restaurante sofisticado, com amigo. Eu me levanto, apavorado. Arrumo os lábios, adoro uma expressão de suprema felicidade e vou até lá. – Oi, que bom ver vocês! – digo. Sei que estou tão expressivo quanto uma jaca. O fato é que a memória me trai, sempre. Olho, sei que conheço, mas não associo o nome com a fisionomia. É um defeito comum entre jornalistas, vendedores e outros profissionais que lidam com muita gente. Vejo o rosto rechonchudo, os cabelos morenos e reflito angustiado: namorei? Entrevistei? Briguei? Tento um estratagema: apresento meu amigo, sem dizer o nome dele, nem o dela. Meu amigo me salva: – Como é mesmo seu nome? – Danielle Curia! Respiro aliviado. Agora sei. Certa vez, há anos, ela e uma sócia romperam. Foi um auê que comoveu boa parte dos estilistas paulistanos. Ela gravou uma fita com os termos delicadíssimos da discussão e eu noticiei a história toda. Para ela, foi inesquecível. Mas certamente não esperava tanto entusiasmo no meu cumprimento. Pior aconteceu a um amigo meu. Estava numa festa. Viu uma das grandes paixões de sua vida. Correu até ela com os dentes abertos como os de um jacaré. – Você aqui? – Ahn? – Não se lembra de mim? A gente passou um fim de semana fantástico em Porto Seguro – tentou, mais tímido. – Você é... você é... huuummm... FONTE: CARRASCO, WALCYR. O GOLPE DO ANIVERSARIANTE E OUTRAS CRÔNICAS. SÃO PAULO: EDITORA ÁTICA, 2003.

Luis Fernando Veríssimo O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou. Durante quarenta anos, passei longe deles . Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses. FONTE: <HTTP://DRJOAOSAVIO.BLOGSPOT.COM.BR/2012/02/CRONICA-DA-LOUCURA-LUIS-FERNANDO.HTML> ACESSO EM 10 DE OUTUBRO DE 2012.

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FONTE: <HTTP://PSYCHEARGENTINA.WORDPRESS.COM

A loucura

Rubem Braga

Leio a reclamação de um repórter irritado que precisava falar com um delegado e lhe disseram que o homem havia ido tomar um cafezinho. Ele esperou longamente, e chegou à conclusão de que o funcionário passou o dia inteiro tomando café. Tinha razão o rapaz de ficar zangado. Mas com um pouco de imaginação e bom humor podemos pensar que uma das delícias do gênio carioca é exatamente esta frase: - Ele foi tomar café. A vida é triste e complicada. Diariamente é preciso falar com um número excessivo de pessoas. O remédio é ir tomar um “cafezinho”. Para quem espera nervosamente, esse “cafezinho” é qualquer coisa infinita e torturante. Depois de esperar duas ou três horas dá vontade de dizer: - Bem cavaleiro, eu me retiro. Naturalmente o Sr. Bonifácio morreu afogado no cafezinho. Ah, sim, mergulhemos de corpo e alma no cafezinho. Sim, deixemos em todos os lugares este recado simples e vago: - Ele saiu para tomar um café e disse que volta já. Quando a Bem-amada vier com seus olhos tristes e perguntar: - Ele está? - alguém dará o nosso recado sem endereço. Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo: - Ele disse que ia tomar um cafezinho... Podemos, ainda, deixar o chapéu. Devemos até comprar um chapéu especialmente para deixá-lo. Assim dirão: - Ele foi tomar um café. Com certeza volta logo. O chapéu dele está aí... Ah! fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim. A vida é complicada demais. Gastamos muito pensamento, muito sentimento, muita palavra. O melhor é não estar. Quando vier a grande hora de nosso destino nós teremos saído há uns cinco minutos para tomar um café. Vamos, vamos tomar um cafezinho.

FONTE: <HTTP://SANBAHIADICAS.BLOGSPOT.COM.BR

Amigos Desconhecidos

FONTE: <HTTP://PEDROLUSODCARVALHO.BLOGSPOT.COM.BR/2012/01/CRONICA-RUBEM-BRAGA-CAFEZINHO.HTML>. ACESSO EM 10 DE OUTUBRO DE 2012.

A partir dos trechos lidos e levando em consideração o que você respondeu no exercício anterior, considere os temas que se destacam em cada um dos trechos e observe de que modo eles são abordados, bem como é a linguagem em cada um deles. Discuta com seus colegas seguindo as questões abaixo. a) Indique as marcas de oralidade, isto é, as palavras e expressões que são usadas na língua falada, mas, geralmente, não aparecem num texto escrito formal. b) Em alguns trechos, os autores procuram dar ao texto um tom intimista, como se fosse uma conversa. Além das marcas de oralidade, que outras expressões eles usam para essa finalidade?

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Começando a Trabalhar c) Além de informação, esses trechos trazem também as reflexões dos autores sobre os temas tratados. Assinale, em cada texto, pelo menos um trecho que expresse essas reflexões. d) Não só de descrição de fatos e das reflexões dos autores são compostos os trechos. Em alguns deles, são narradas histórias, com personagens e diálogos. Identifique um dos textos em que esses recursos são utilizados. e) Como são caracterizados os personagens?

Para Saber Mais! Origem, histórico e características da crônica: Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue está começada a crônica. (...) (MACHADO DE ASSIS. “CRÔNICAS ESCOLHIDAS”. SÃO PAULO: EDITORA ÁTICA, 1994)

f) E  xtraia dos textos exemplos de fatos da vida cotidiana que, na sua opinião, serviram de base para o assunto desenvolvido pelo cronista. g) Os textos acima trazem elementos como ficção, lirismo, crítica, ironia ou humor. Encontre, nos trechos, exemplos que justifiquem essa afirmação.

O que Você Viu até Agora

O

primeiro texto que você leu no exercício 1, “Calçadas Infames” de Marcos Augusto Gonçalves e também os trechos do exercício 2 fazem parte do gênero literário chamado crônica. A crônica é um gênero que se ajusta à sensibilidade do cotidiano por meio dos assuntos abordados e da sua composição solta. Como você deve ter percebido, sua linguagem aproxima-se de um modo de ser natural, é despretensiosa e leve. A crônica pode ser considerada um gênero tipicamente brasileiro, pois foi aqui no Brasil que ela se desenvolveu com mais originalidade.

Fernão Lopes (1380? – 1460?) teria nascido em Lisboa, em uma família do povo. É considerado o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à preocupação pela busca da verdade. Foi escrivão de livros de rei D. João I e «escrivão da puridade» do infante D. Fernando. D. Duarte concedeu-lhe uma tença anual para ele se dedicar à investigação da história do reino, devendo redigir uma Crônica Geral do Reino de Portugal. Correu a província a buscar informações, informações estas que depois lhe serviram para escrever as várias crônicas (Crônica de D. Pedro I, Crônica de D. Fernando, Crônica de D. João I, Crônica de Cinco Reis de Portugal e Crônicas dos Sete Primeiros Reis de Portugal). Foi “guardador das escrituras” da Torre do Tombo. FONTE: <HTTP://ALFARRABIO.DI.UMINHO.PT/VERCIAL/LOPES.HTM> ACESSO EM 13 DE OUTUBRO DE 2012.

Trecho da Crônica de Fernão Lopes: FONTE: SECRETSENTREAMIGAS.BLOGSPOT.COM.BR

Trabalhando em Grupo 1. Faça com seus colegas um levantamento daquilo que vocês já viram a respeito do gênero crônica nos exercícios anteriores. Se quiser, utilize também livros e a Internet como fonte de pesquisa. Quais os elementos vistos até agora que nos permitem identificar uma crônica? Quais as suas principais características? Quais os seus temas mais frequentes? 2. Faça uma pesquisa mais detalhada a respeito do gênero. Como surgiu a crônica, e como ela foi modificada através dos tempos? Quais são os principais cronistas da literatura brasileira? Compare sua pesquisa com a de seus colegas. 3. Pesquise em revistas e jornais algumas crônicas. Compare-as com as dos seus colegas de classe e procure perceber que tipos diferentes de crônica podem ser identificadas. Explique como chegou a essas conclusões.

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Os registros mais antigos em língua portuguesa que se tem notícia são as crônicas de viagem escritas por Fernão Lopes. Ele foi um cronista português considerado também o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à preocupação pela busca da verdade. Logo abaixo você pode ler um trecho do que era, na época, considerado como crônica de viagem, escrita por Fernão Lopes. Não estranhe! Ela está escrita em Português de Portugal antigo para que você possa ter contato com o texto original:

Como elRei Dom Pedro de Portugal disse por Dona Enes que fora sua molher reçebida, e da maneira que em ello teve Ja teemdes ouvido compridamente hu fallamos da morte de Dona Enes, a razom por que a elRei Dom Affonsso matou, e o grande desvairo que amtrelle e este Rei Dom Pedro seemdo estomçe Iffamte ouve por este aazo. Hora assi he que em quamto Dona Enes foi viva, nem depois da morte della em quamto elRei seu padre viveo, nem depois que el reinou, ataa este presemte tempo, nunca elRei Dom Pedro a nomeou por sua molher; ante dizem que muitas vezes lhe emviava elRei Dom Affonsso pre gumtar se a reçebera e homrrallahia como sua molher, e el respomdia sempre que a nom reçebera nem o era. E pousamdo elRei em esta sazom no logar de Cantanhede, no mes de Junho, avemdo ja huuns quatro annos que reinava, teendo horde nado de a pubricar por molher, estamdo antelle Dom Joham Affonsso comde de Barcellos seu mordomo moor, e Vaasco Martins de Sousa seu chamçeller, e meestre Affonso das leis, e Joham Estevez privados, e Martim Vaasquez senhor de Gooes, e Gonçallo Meemdez de Vaascomçellos, e Johane Meemdes seu irmaão, e A1voro Pereira, e Gomçallo Pereira, e Diego Gomez, e Vaasco Gomez Daavreu, e outros muitos que dizer nom cura mos, fez elRei chamar huum tabaliam, e presemte todos jurou aos evamgelhos per el corporalmente tangidos, que seemdo el Iffamte, vivemdo aimda ElRei seu padre, que estando el em Bragamça podia aver huuns sete annos, pouco mais ou meos, nom se acordamdo do dia e mez, que el reçebera por sua molher lidema per pallavras de presemte como manda a samta igreja Dona Enes de Castro, filha que foi de Dom Pero Fernamdez de Castro, e que essa Dona Enes reçebera a elle por seu marido per semelhavees palavras, e que depois do dito reçebimento a tevera sempre por sua molher ataa o tempo de sua morte, vivemdo ambos de consuum, e fazemdosse maridança qual deviam. FONTE: <HTTP://ALFARRABIO.DI.UMINHO.PT/VERCIAL/LOPES.HTM> ACESSO EM 13 DE OUTUBRO DE 2012.

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Para Saber Mais! Podemos dizer que a origem da crônica, no Brasil, se deu com as anotações feitas pelos viajantes portugueses que escreviam ao rei de Portugal contando sobre o Brasil. Eles relatavam as suas longas viagens, as novidades encontradas, os seus estranhamentos e o processo de conquista e dominação da terra e dos povos que viviam aqui. A crônica era uma espécie de ‘diário histórico’. Nesse contexto de nascimento, há estudiosos que afirmam que a carta de Pero Vaz de Caminha foi a primeira crônica brasileira. Caminha além de inaugurar o gênero crônica estabeleceu o seu princípio básico: registrar o circunstancial. Observe abaixo um trecho, adaptado para o português atual, da carta que Pero Vaz de Caminha que, ao chegar ao Brasil, escreveu aos portugueses:

FONTE: HTTP://SONHOSINSIGNIFICANTES.BLOGSPOT.COM.BR/

“(...) Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais! E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos. Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome - o Monte Pascoal e à terra - a Terra da Vera Cruz. Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e ao sol posto, obra de seis léguas da terra, surgimos âncoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançamos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos. Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro.”

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FONTE: <HTTP://WWW.CULTURATURA.COM.BR/DOCHIST/CARTA/ OBRA.HTM> ACESSO EM 24 DE OUTUBRO DE 2012.

A crônica é um gênero literário escrito, principalmente, para ser publicado no jornal, o que lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições. Por ser uma espécie de fusão do jornalismo e a literatura, a crônica dirige-se a um público que tem preferência pela leitura de um jornal. Assim, o fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições. A crônica, uma espécie de fusão do jornalismo e a literatura, dirige-se a um público que tem preferência pela leitura de um jornal. Assim, o leitor das crônicas é urbano e lê principalmente jornal ou revista, por isso o cronista, dentre outros assuntos, se preocupa em tratar dos acontecimentos cotidianos da vida urbana. Assim como o repórter, o cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, lirismo, fantasia, reflexão e criticismo, ironia, humor, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Ocorre ainda que, devido ao limite de espaço, uma vez que em uma folha de jornal há várias matérias, a crônica se constitui como um gênero breve. Ao escrever as crônicas contemporâneas, os cronistas organizam sua narrativa em primeira ou terceira pessoa, quase sempre como quem conta um caso, em tom intimista. Alguns ao narrar inserem em seu texto trechos de diálogos, recheados com expressões cotidianas. Essa abordagem do tema pode ser feita de maneira semelhante a uma narração, em que há personagens, espaço, tempo, enredo, ou bem como semelhante a uma dissertação. Quando há personagens, eles não são planos, não há uma descrição psicológica, são dados apenas traços genéricos. Escrevendo como quem conversa com seus leitores, como se estivessem muito próximos, os autores os envolvem com reflexões sobre a vida social, política, econômica, por vezes de forma humorística, outras de maneira mais séria ou poética. Uma forte característica do gênero, como você deve ter percebido nos exercícios acima, é ter uma linguagem que mescla aspectos da escrita com outros da oralidade. Mesmo apresentando aspectos de gênero literário, a crônica, em função do uso de linguagem coloquial e da proximidade com os fatos cotidianos, é vista como literatura “menor”. Por serem breves, leves, de fácil acesso – basta abrir um jornal ou uma revista - e envolventes, elas possibilitam momentos de fruição, bem como de reflexão, a muitos leitores que nem sempre têm acesso aos romances.

Tipos de Crônica • Crônica Mundana Leia a crônica abaixo de Vinicius de Moraes: A Casa Materna

Vinícius de Moraes Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste. É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em

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Tipos de Crônica

FONTE: <HTTP://WEBWRITERSBRASIL.WORDPRESS.COM/LITERATURA-NA-WEB/A-ARTE-DA-CRONICA/CRONICAS-COMENTADS/UMA-CRONICA-DE-VINICIUS-DE-MORAES/>

Refletindo...

1. Leia os seguintes trechos e reflita sobre eles: “A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô.” “Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória.” “É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem.” “O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras.” A partir desses trechos, quais são os sentimentos que o autor procura criar em sua crônica? O que pode tê-los motivado? 2. Ao longo do texto o narrador vai apresentando evidências de que ele não está falando de um filho genérico, mas que ele seria esse filho retornando a sua casa materna. O que nos permite concluir isso? Transcreva alguns trechos para justificar sua resposta.

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3. Observe os seguintes trechos: “E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna.” “Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, (...)” O que esses trechos parecem indicar sobre o pai do narrador? 4. Observe os seguintes trechos: “E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna.” “Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, (...)” O que esses trechos parecem indicar sobre o pai do narrador?

Conhecendo o Autor Vinicius de Moraes FONTE: HTTP://REVISTACASAEJARDIM.GLOBO.COM

prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar. A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso. Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta — pois não há lugar mais propício que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe por que queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia. A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.

Nascido no Rio de Janeiro em 19 de outubro de 1913, o poeta e prosador Vinicius de Moraes começou sua carreira como cronista escrevendo para o jornal carioca A Manhã, em 1941. Em suas crônicas, por mais narrativas que sejam, podemos notar que possuem forte ligação com a poesia. Ele constrói esses elementos poéticos na crônica através do uso de metáforas, inversão da sintaxe, entre outros. Apesar de não explicitar em suas crônicas, podemos perceber que muitas vezes o narrador e o personagem são o próprio autor, que reflete sobre suas experiências cotidianas. Em suas crônicas, Vinicius de Moraes trabalha com situações normalmente vistas como banais da vida social. Através dessas situações reais do cotidiano ele desenvolve seu texto, dando profundidade e construindo seu ponto de vista sobre uma situação que normalmente passaria despercebida. Segundo Vinícius, o cronista deve injetar um sangue novo em um fato qualquer, ou seja, ele deve trabalhar um fato do cotidiano dando a ele um novo ponto de vista, que o leitor não perceberia por si só. Por trabalhar com questões da vida social, suas crônicas podem ser classificadas como crônicas mundanas. A Crônica Mundana surgiu descrevendo a vida social da elite carioca, ela trabalha com temáticas da vida social, a rotina e os hábitos da sociedade/classe social. FONTES: ANTONIO CANDIDO ET AL. A CRÔNICA. CAMPINAS: EDITORA UNICAMP, 1992. SÁ, JORGE DE. A CRÔNICA. SÃO PAULO : ÁTICA, 2005. <HTTP://WWW.LETRAS.UFPR.BR/ >

Refletindo... 1. Após a leitura do texto sobre Vinícius de Moraes, retome a crônica “A Casa Materna”. Nela, o autor escreve sobre o retorno de um filho à casa materna, que é um tema do cotidiano. Você acredita que trabalhar com temas do dia a dia é importante para a literatura? Discuta em grupo e depois escrevam, conjuntamente, suas conclusões. FONTE: <HTTP://PAQUIDERMESCULTURAIS.BLOGSPOT.COM.BR>

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Tipos de Crônica • Crônica Humorística Leia a crônica abaixo de Luis Fernando Veríssimo: Lixo

FONTE: HTTP://PT.DREAMSTIME.COM

Luis Fernando Veríssimo Encontram-se na área de serviço. Cada um com o seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam. - Bom dia. - Bom dia. - A senhora é do 610. - E o senhor do 612. - Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente... - Pois é... - Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo... - O meu quê? - O seu lixo. - Ah... - Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena. - Na verdade sou só eu. - Humm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata. - É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar... - Entendo. - A senhora também... - Me chama de você. - Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim. - É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas como moro sozinha, às vezes sobra. - A senhora... Você não tem família? - Tenho, mas não aqui. - No Espírito Santo. - Como é que você sabe? - Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo. - É. Mamãe escreve todas as semanas. - Ela é professora? - Isso é incrível! Como você adivinhou? - Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora. - O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo. - Pois é... - No outro dia, tinha um envelope de telegrama amassado. - É. - Más notícias? - Meu pai. Morreu. - Sinto muito. - Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos. - Foi por isso que você recomeçou a fumar? - Como é que você sabe? - De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.

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- É verdade. Mas consegui parar outra vez. - Eu, graças a Deus, nunca fumei. - Eu sei, mas tenho visto uns vidrinhos de comprimidos no seu lixo... - Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou. - Você brigou com o namorado, certo? - Isso você também descobriu no lixo? - Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel. - É, chorei bastante, mas já passou. - Mas hoje ainda tem uns lencinhos. - É que estou com um pouco de coriza. - Ah. - Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo. - É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é. - Namorada? - Não. - Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha. - Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga. - Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte. - Você está analisando o meu lixo! - Não posso negar que o seu lixo me interessou. - Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia. - Não! Você viu meus poemas? - Vi e gostei muito. - Mas são muito ruins! - Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados. - Se eu soubesse que você ia ler... - Só não fiquei com ele porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela? - Acho que não. Lixo é domínio público. - Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso? - Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que... - Ontem, no seu lixo. - O quê? - Me enganei, ou eram cascas de camarão? - Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei. - Eu adoro camarão. - Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode... Jantar juntos? - É. Não quero dar trabalho. - Trabalho nenhum. - Vai sujar a sua cozinha. - Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora. - No seu lixo ou no meu... FONTE: <HTTP://WWW.USINADELETRAS.COM.BR/EXIBELOTEXTO.PHP?COD=10767&CAT=CONTOS>

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Tipos de Crônica Refletindo...

• Crônica Jornalística

1. Após a leitura da crônica discuta com seus colegas qual foi sua primeira impressão do texto. Com qual temática vocês acham que o autor trabalha ao longo do texto? Apresente algum trecho da crônica que justifique a sua resposta.

Leia a crônica abaixo de Antonio Prata:

2. C  omo detetives, os personagens da crônica não apenas observam o lixo de seu vizinho, com também constroem hipóteses sobre o que estaria acontecendo em sua vida. Procure exemplos em que isso acontece, separando o fato observado e a conclusão ao qual o personagem chegou. 3. Nosso lixo pode dizer mais sobre nós do que previamente pensamos. A partir dessa afirmação, caracterize os dois personagens da crônica. 4. A respeito do lixo ser considerado público ou privado, a que conclusão chegam os personagens? Discuta em grupo se vocês concordam com a conclusão dos personagens. 5.Esse texto se parece muito com um diálogo cotidiano, isso acontece porque podemos encontrar, ao longo da crônica, diversas marcas de oralidade. A partir do que você já viu sobre a linguagem nas crônicas, aponte quais são os elementos presentes na crônica “Lixo” que a tornam parecida com uma conversa informal.

Conhecendo o Autor Luis Fernando Veríssimo Luis Fernando Veríssimo nasceu em Porto em 1936 e é filho do consagrado escritor Érico Veríssimo. Iniciou sua carreira jornalística como copydesk no jornal Zero Hora, em Porto Alegre. Já escreveu textos de ficções e crônicas para as revistas Playboy, Cláudia, Domingo (do Jornal do Brasil), Veja, e os jornais Zero Hora, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e O Globo. Sua escrita é marcada pela oralidade, pelo coloquialismo e pelo humor, elementos presentes em suas crônicas que sutilmente provocam reflexões nos leitores acerca dos acontecimentos da vida cotidiana. A partir do humor, principalmente, Veríssimo faz suas críticas sociais e políticas, sempre marcadas pela ironia. Por conta disso, podemos classificar suas crônicas como humorísticas. As crônicas humorísticas, como o próprio nome já indica, utilizam o humor, por um viés irônico ou cômico, para relatar e criticar diferentes situações do cotidiano. FONTE: <HTTP://DRIKABELLO.BLOGSPOT.COM.BR/2011/ > ACESSO EM 24 DE OUTUBRO DE 2012

Refletindo...

FONTE: <HTTP://CULTCARIOCA.BLOGSPOT.COM.BR

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1. A partir do pequeno texto explicativo lido acima e sabendo que a crônica “Lixo” é considerada uma crônica humorística, indique como o autor constrói o humor ao longo do texto.

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Curiosidade

Conhecendo o Autor Antonio Prata FONTE: < HTTP://WWW.SARAIVACONTEUDO.COM.BR>

Antonio Prata nasceu em São Paulo em 24 de agosto de 1977. Escritor desde os catorze anos, abandonou o curso de filosofia na USP depois de um ano e meio. Trabalhou como colaborador de texto numa novela e nunca chegou a se formar. Publicou livros como “Cabras, Caderno de Viagem”, com Paulo Werneck, Chico Matoso e Zé Vicente da Veiga, “Douglas e outras histórias”, “As pernas da tia Corália”, “Estive pensando” e “O inferno atrás da pia”. Além de contos e crônicas, escreveu episódios de seriados de TV e dois roteiros de cinema ainda inéditos. Publicou suas crônicas durante alguns anos na revista adolescente Capricho e no jornal Estadão. Atualmente, suas crônicas são publicadas no jornal da Folha de São Paulo e atualizadas em seu blog. As crônicas jornalísticas são marcadas por trazerem em sua estrutura central uma noticia de jornal, que é reescrita com as marcações de uma crônica. Elas apresentam aspectos particulares de notícias ou fatos, podendo ser policial, esportiva, política etc. Sabendo disso, faça o seguinte exercício: FONTES: <HTTP://LITERATURA.MODERNA.COM.BR/CATALOGO/ENCARTES/9788516063481.PDF> <HTTP://ANTONIOPRATA.FOLHA.BLOG.UOL.COM.BR/>

Refletindo... 1. Volte ao primeiro exercício dessa unidade e releia a crônica “Calçadas Infames” e a notícia da G1 sobre a nova lei que regulamenta as calçadas. Com base nesses textos, na diferença observada entre eles e no seu conhecimento prévio de leitor de jornais, reescreva a crônica acima como se fosse uma noticia de jornal.

Curiosidade

C

omo forma de evidenciar e exemplificar o gênero crônica, assim como o modo que é criada pelo cronista, temos a crônica a seguir, de Antonio Prata, inspirada em um documentário sobre a vida de Vinícius de Moraes, autor que você já estudou no exercício sobre crônicas mundanas.

FONTE: <HTTP://WWW.YOUTUBE.COM/WATCH?V=JVEOKEJIX_I>

Só a Escova de dentes O que a gente leva da vida é a vida que a gente leva - pense nisso

Às vezes eu acredito que a gente pode, sim, construir um caminho próprio na vida. Que se disser “Um dia eu vou jogar no Corinthians”, “Serei um grande arquiteto” ou “Vou pra Nova Zelândia virar hare krishna” e batalhar, com um pouco de sorte chegaremos ao Pacaembu, projetaremos casas incríveis ou nos veremos carecas, de laranja, do outro lado do mundo; hare hare. Outras vezes, não. Acordo mais conformista, achando que somos fruto do nosso meio, da nossa família, da nossa escola. Que quem nasce pra hare krishna nunca chega a Carlitos Tevez e vice-versa. Outro dia fui ver um filme que me fez sair do cinema com um sorriso de orelha a orelha e profundamente convencido da primeira hipótese. Trata-se de Vinícius, um documentário sobre o “diplomata e poeta Vinícius de Morais, o branco mais preto do Brasil”, nas palavras dele mesmo. Vinícius começou a vida escrevendo poemas profundamente sofridos, dilacerado entre os desejos da carne e as aspirações mais elevadas do espírito. (Ou seja, entre as belas moças do Rio de Janeiro e a culpa da educação católica.) Terminou a vida se casando de bata branca, margaridas na cabeça, na praia de Itapuã, pra lá de hippie. É ou não é um percurso interessante? A maioria das pessoas, com o passar dos anos, vai se fechando para a vida. Vai se rendendo às pequenas fraquezas e vergonhas e, quando vê, já tá de cabelos brancos e chinelos, assistindo Faustão num domingo ensolarado. Vinícius fez o contrário. Começou a vida careta, fechado, velho, e foi se abrindo. Casou-se nove vezes. Saiu de todos os casamentos por causa de uma nova paixão, levando apenas a escova de dentes e a esperança de que o novo relacionamento fosse infinito, enquanto durasse. Entre um casamento e outro virou estrela da MPB, compôs Garota de Ipanema com Tom Jobim e escreveu alguns dos mais lindos poemas da língua portuguesa. Era incapaz de administrar seu dinheiro. Às vezes recebia alguma bolada de direitos autorais, enchia os bolsos com chumaços de notas e ia pro bar, pagar bebidas pra todo mundo. Uma noite ficou tão contente numa boate que chegou no caixa e disse: “Quero a conta”. O cara falou: “Qual a mesa?”. Ele: “Todas” - e pagou, ali mesmo, a conta de todo mundo. Amou mais do que pôde, bebeu além da conta, morreu cedo e bem acabado. Ao sair do filme, além de uma enorme admiração, me acompanhou pela calçada da Paulista uma aflição. Primeiro, achei que era pelo desperdício: por que um cara assim não pôde beber menos, viver mais tempo, nos dando músicas e poesias? Depois percebi que talvez fosse o oposto. Diante dessas pessoas que se jogam de cara na vida, parece medíocre esse nosso ideal atual feito de salada e precaução, esteira e prestações, muito protetor solar, e sol, das 11 às 3, nem pensar! Será que não estamos, inutilmente, tentando fazer eterno o que é breve chama, e perdendo a chance de viver o infinito, enquanto dure? FONTE:< HTTP://CAPRICHO.ABRIL.COM.BR>

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Antonio Prata

FONTE: HTTP://WWW.ZAZZLE.COM.BR

Tipos de Crônica

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Você Conhece Rubem Braga? Rubem Braga

FONTE: HTTP://WWW.MARINAMARA.COM.BR

Meu Ideal Seria Escrever...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- “ai meu Deus, que história mais engraçada!”. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- “mas essa história é mesmo muito engraçada!”. Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

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Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história. E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina”. E quando todos me perguntassem -- “mas de onde é que você tirou essa história?” -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”. E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro. FONTE: A CRÔNICA ACIMA FOI EXTRAÍDA DO LIVRO “A TRAIÇÃO DAS ELEGANTES”, EDITORA SABIÁ - RIO DE JANEIRO, 1967, PÁG. 91. (HTTP://WWW.RELEITURAS. COM/RUBEMBRAGA_MEUIDEAL.ASP - ACESSO EM 23 DE OUTUBRO DE 2012.)

Refletindo... Responda às questões seguintes com base no texto lido. 1. N  os dois primeiros parágrafos, o autor, para ressaltar as qualidades da história que gostaria de escrever, menciona o efeito dessa história em pessoas vivendo em situações comuns, cotidianas. Identifique pelo menos uma dessas situações. 2. O texto mescla situações de alegria e de melancolia, frequentemente na mesma cena. Destaque uma dessas cenas. 3. “E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.” Diga, com poucas palavras, que mudança de comportamento o autor está desejando que ocorra, graças à sua história. 4. Esse tipo de mudança interessa ao mundo inteiro, mas o autor partiu de situações cotidianas para chegar até ela. Como você descreveria esse caminho percorrido pelas reflexões do autor? 5. No último parágrafo, o autor comenta sobre a maneira pela qual criou a sua história (“...eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente...”). Trata-se, na verdade, de uma característica essencial do tipo de texto que você acabou de ler. Que característica é essa?

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Você Conhece Rubem Braga? Rubem Braga O que nós, leitores comuns, deixamos escapar durante o dia-a-dia, o cronista, através da sua sensibilidade, consegue captar nos sinais da vida cotidiana. Assim, aliando a razão à emoção, ele repensa e reconstrói a realidade. Rubem Braga, o maior cronista brasileiro, destaca-se na história da literatura brasileira contemporânea exatamente por apresentar uma prosa essencialmente lírica, isto é, ele opera e contempla, com palavras, as emoções e os estados de espírito, as experiências de cada sujeito. O fato de a crônica ser uma narrativa breve exige que o narrador-repórter escreva eliminando excessos, utilizando também o despojamento verbal: construção ágil, direta, sem adjetivações. Sobre essa característica o próprio Rubem Braga, em sua crônica “O Pavão”, afirma

FONTE: <HTTP://STARSPICTU.COM/RUBEM-BRAGA.HTML>

“Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, com em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz se faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade”.

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A simplicidade não deve ser confundida com desconhecimento de técnicas narrativas, já que Rubem Braga explora a polissemia das palavras organizando-as no texto como um mapa de um tesouro a ser descoberto pelo leitor. Em suas crônicas, atrás de todo narrador, há sempre um autor implícito que supõe um ouvinte, cujo papel é muito maior do que o de um simples leitor. O Eu que fala nas crônicas de Rubem Braga é um tipo de narrador oral, que fala consigo mesmo e também com um outro, de maneira solidária, incluindo-o. Esse tipo de narrador é aquele que narra a sua própria experiência, que tem algo especial para contar, apesar da rotina massacrante, do mundo industrializado sempre-igual e do vazio da vida moderna. O Eu de Braga conta, liricamente – e melancolicamente -, o sentimento de uma recordação contemplativa, a sua própria fragilidade, ao mesmo tempo em que busca o gozo do presente. Rubem Braga recebeu influência de Manuel Bandeira e João do Rio, antecessor de todos os cronistas. Para ele, o espaço da casa representa o espaço interior do homem. A construção do texto é comparada à construção de uma casa em que cada palavra a ser descoberta pelo leitor é como um quarto onde o cronista guarda seus segredos. A crônica, entretanto, é como uma tenda de cigano, pois é transitória, mas se torna casa, quando é reunida como coletânea em um livro, em que se torna perene e é definida uma coerência temática do autor.

O tédio da zona urbana dá um tom melancólico a vários textos de Rubem Braga, nos quais ele busca recuperar sua infância de menino da roça em contato com a natureza. No entanto, a exigência de um jornal é que a crônica relate fatos que viraram notícia, por isso, esse outro tom que tem a vida pode ser sufocado. Ao retratar as suas experiências pessoais, ricas e complexas, Rubem Braga está em contraste e discrepância com o jornal ou a revista, uma vez que exprime experiências em um veículo que se presta a liquidá-las e transformá-las em pura informação. A crônica traz consigo também uma atmosfera política, que reafirma o valor sociológico da crônica. O valor literário é atribuído pelos recursos utilizados por Rubem Braga, como o simples dialogismo com um leitor hipotético, a presença de um narrador-repórter, ou a “imitação” da estrutura de uma conversa, onde o cronista parte de um tema (ou subtema), e culmina em outro tema mais complexo. Rubem Braga se mostra um grande artista ao recriar a vida a partir de detalhes que passam despercebidos por nós no dia-a-dia.

O autor em foco Leia o pequeno excerto abaixo e, em seguida, baseando-se no que aprendeu até aqui sobre o cronista Rubem Braga, leia as crônicas Jovem Casal e O lavrador, presentes na coletânea A cidade e a roça, e responda as questões. A cidade e a roça é uma coletânea de crônicas de Rubem Braga. Nessas histórias é composto um espaço amplo e mutável, uma espécie de geografia sensível, obediente aos desígnios da memória e da emoção, em cujos mapas uma pequena cidade da infância – Cachoeiro de Itapemerim – se gruda naturalmente aos grandes centros do vasto mundo. E quem as conta é ao mesmo tempo um homem sedentário e itinerante, às vezes identificado ao lavrador, às vezes ao marinheiro, agarrado ao velho cajueiro plantado no coração de sua terra, e da tradição interiorana, ou o hóspede errante das cidades do mundo, sempre saudoso de uma casa imaginária, cheia de ecos da infância e do interior capixaba. O narrador é apegado à tradição rural, à experiência da terra e da casa no interior, dado à expressão proverbial e irônica, mas capaz de ser um conselheiro bastante tímido e desajeitado diante das emoções e situações novas, nascidas da cidade grande, onde ele foi viver. FONTE: ARRIGUCCI, DAVI JR. BRAGA DE NOVO POR AQUI IN ENIGMA E COMENTÁRIO: ENSAIOS SOBRE LITERATURA E EXPERIÊNCIA. SÃO PAULO: COMPANHIA DAS LETRAS, 1987, P. 29-51.

FONTE: < HTTP://SIMAOPESSOA.BLOGSPOT.COM.BR

Conhecendo o Autor

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Você Conhece Rubem Braga? Refletindo...

O Jovem Casal

FONTE: <HTTP://WWW.PATIO.COM.BR/ >

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1. A  partir da leitura da crônica O jovem casal, onde você acha que se encontram as personagens, no campo ou na cidade? Caracterize esse local a partir das informações e sensações dadas pelo narrador-cronista. 2. Observe agora as personagens. O casal está confortável com a situação em que se encontra? Em relação ao modo de vida que eles tem, a que classe social você imagina que esse casal pertence? Explique e descreva. 3. De que maneira o narrador-cronista retrata esse casal? Ele se posiciona de modo a criticá-los ou ele se compadece com a situação? Aponte alguns trechos em que o autor demonstra seu posicionamento. 4. Rubem Braga trouxe algo de novo para o gênero da crônica: a arte do narrador. O narrador-cronista conta histórias e, assim, transmite experiências. Ao observar a situação do casal e os acontecimentos ao longo da crônica, o narrador-cronista nos faz refletir criticamente. Quais foram as reflexões que essa crônica suscitou em você? Aponte os trechos da crônica que mais fizeram-no pensar. 5. Ainda levando em conta o que você respondeu na questão anterior, reflita sobre a relação entre o narrador-cronista e os leitores. A partir do modo como se constrói a narrativa, qual é o espaço do leitor nas crônicas de Rubem Braga? 6. Nos exercícios iniciais dessa unidade, você observou que a linguagem nas crônicas é marcada pela simplicidade e leveza, o que permite, inclusive, aproximar o autor do leitor. A partir do que você respondeu na questão anterior, é possível afirmar que essa característica também está presente em Rubem Braga? De que maneira sua linguagem vai ao encontro de seus temas e suas reflexões? 7. A situação do casal na crônica, que está à espera do bonde, é descrita em uma sucessão de imagens. Pensando no que você já viu nessa unidade sobre a brevidade da crônica e sobre o ritmo fugaz da vida nas cidades, o que você tem a dizer sobre a duração da narrativa na crônica “O jovem casal” de Rubem Braga? De que modo Rubem Braga finaliza a sua crônica? Relacione e justifique. O Lavrador

FONTE: PT.WIKIPEDIA.ORG/WIKI/C%C3%A2NDIDO_PORTINARI

Rubem Braga Estavam esperando o bonde e fazia muito calor. Veio um bonde, mas estava tão cheio, com tanta gente pendurada nos estribos que ela apenas deu um passo à frente, ele apenas esboçou com o braço o gesto de quem vai pegar um balaústre — mas desistiram. Um homem com uma carrocinha de pão obrigou-os a recuar mais para perto do meio-fio; depois o negrinho de uma lavanderia passou com a bicicleta tão junto que um vestido esvoaçante bateu na cara do rapaz. Ela se queixou de dor de cabeça; ele sentia uma dor de dente não muito forte, mas enjoada e insistente, mas preferiu não dizer nada. Ano e meio casados, tanta aventura sonhada, e estavam tão mal naquele quarto de pensão do Catete, muito barulhento: “Lutaremos contra tudo” — havia dito — e ele pensou com amargor que estavam lutando apenas contra as baratas, as horríveis baratas do velho sobradão. Ela apenas com um gesto de susto e nojo se encolhia a um canto ou saía para o corredor — ele, com repugnância, ia matar o bicho; depois, com mais desgosto ainda, jogá-lo fora. E havia as pulgas; havia a falta de água, e quando havia água, a fila dos hóspedes no corredor, diante da porta do chuveiro. Havia as instalações que sempre cheiravam mal, o papel da parede amarelado e feio, as duas velhas gordas, pintadas, da mesinha ao lado, que lhe tiravam o apetite para a mesquinha comida da pensão. Toda a tristeza, toda a mediocridade, toda a feiúra duma vida estreita onde o mau-gosto atroz e pretensioso da classe média se juntava à minuciosa ganância comercial — um ovo era “extraordinário”, quando eles pediam dois ovos a dona da pensão olhava com raiva, estavam atrasados dias no pagamento. Passou um ônibus enorme, parou logo adiante abrindo com ruído a porta, num grande suspiro de ar comprimido, e ela nem sequer olhou o ônibus, era tão mais caro. Ele teve um ímpeto, segurou-a pelo braço disposto a fazer uma pequena loucura financeira — “vamos pegar o ônibus!”. Mas o monstro se fechara e partira jogando-lhes na cara um jato de fumaça ruim. Ele então chegou mais para perto dela — lá vinha outro bonde, não, mas aquele não servia — enlaçou-a pela cintura, depois ficou segurando seu ombro com um gesto de ternura protetora, disse-lhe vagas meiguices, ela apenas ficou quieta. “Está doendo muito a cabeça?” Ela disse que não. “Seu cabelo agora está mais bonito, meio queimado de sol.” Ela sorriu levemente, mas de repente: “ih, me esqueci da receita do médico”, pediu-lhe a chave do quarto, ele disse que iria apanhar para ela, ela disse que não, ela iria; quando voltou, foi exatamente a tempo de perder um bonde quase vazio; os dois ficaram ali desanimados. Então um grande carro conversível se deteve um instante perto dos dois, diante do sinal fechado. Lá dentro havia um casal, um sujeito meio calvo de ar importante na direção, uma mulherzinha muito pintada ao lado, sentiram o cheiro de seu perfume caro. A mulherzinha deu-lhes um vago olhar, examinou um pouco mais detidamente a moça, correndo os olhos da cabeça até os sapatos pobres — enquanto o senhor meio calvo dizia alguma coisa sobre anéis, e no momento do carro partir com um arranco macio e poderoso ouviram que a mulherzinha dizia: “se ele deixar aquele por quinze contos, eu fico”. Quinze contos — isso entrou dolorosamente pelos ouvidos do rapaz, parece que foi bater, como um soco, em FONTE: HTTP://WWW.FRANCISCO.PAULA.NOM.BR seu estômago mal alimentado — quinze contos, meses e meses de pensão! Então olhou a mulher e achou-a tão linda e triste com sua blusinha branca, tão frágil, tão jovem e tão querida, que sentiu os olhos arderem de vontade de chorar de humilhação por ser tão pobre; disse: “Viu aquela vaca dizendo que vai comprar um anel de quinze contos?” Vinha o bonde. Abril, 1953

Rubem Braga Esse homem deve ser de minha idade - mas sabe muito mais coisas. Era colono em terras mais altas, se aborreceu com o fazendeiro, chegou aqui ao Rio Doce quando ainda se podia requerer duas colônias de cinco alqueires “na beira da água grande” quase de graça. Brocou a mata com a foice, depois derrubou, queimou, plantou seu café. Explica-me: “Eu trabalho sozinho, mais o menino meu”. Seu raciocínio quando veio foi este: “Vou tratar de cair na mata; a mata é do governo, e eu sou fio do Estado, devo ter direito.” Confessa que sua posse até hoje ainda não está legalizada: “Tenho de ir a Linhares, mas eu magino esse aguão...” No começo não tinha prática de canoa, estava sempre com medo da canoa virar, o menino é que

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Você Conhece Rubem Braga? logo se ajeitou com o remo; são quatro horas de remo lagoa adentro. Diz que planta o café a uma distância de dez palmos, sendo a terra seca; sendo fresca, distância de quinze palmos. Para o sustento plantou cana, taioba, inhame, mandioca, milho, arroz, feijão. Disse que uma vez foi lá um homem do governo e proibiu (“empiribiu”) armar fojos e mundéus, pois “se chegar a cair um cachorro de caçador eles mete a gente na cadeia e a gente paga o que não possui”. Olho na sua cara queimada de sol; parece com a minha, é esse o mesmo tipo de feiúra triste do interior. Conversamos sobre pescaria do robalo, piau, traíra. Volta a falar de sua terra e desconfia que eu sou do governo, diz que precisa passar a escritura. Não sabe ler, mas sabe que essas coisas escritas em um papel valem muito. Pergunta pela minha profissão, e tenho vergonha que vivo de escrever papéis que não valem nada; digo que sou comerciante em Vitória, tenho um negocinho. Ele diz que o comércio é melhor que a lavoura; que o lavrador se arrisca e que o comerciante é que lucra mais; mas ele foi criado na lavoura e não tem nenhum preparo. Endireita para mim o cigarro de palha que estou enrolando com o fumo todo maçarocado. Deve ser de minha idade – mas sabe muito mais coisas. Maio, 1954 FONTE: BRAGA, RUBEM. 200 CRÔNICAS ESCOLHIDAS: AS MELHORES DE RUBEM BRAGA.11ª ED. RIO DE JANEIRO: RECORD, 1998

Refletindo... 1. Qual é o ambiente que está sendo retratado nessa crônica? Quem é a pessoa com quem o lavrador está conversando? Como você deduziu isso? Justifique sua resposta com trechos da crônica. 2. “Endireita para mim o cigarro de palha que estou enrolando com o fumo todo maçarocado. Deve ser de minha idade – mas sabe muito mais coisas.” A partir desse excerto, responda: a) Como você acha que se posiciona o narrador-cronista diante do homem simples do interior?

Aprofunde seus conhecimentos Leia o texto abaixo. Ele esclarecerá possíveis dúvidas que você teve ao fazer os exercícios acima sobre as crônicas de Rubem Braga, o principal autor trabalhado nessa unidade. Depois da leitura, aproveite para conferir e refletir sobre suas respostas e análises nos exercícios. Mas atenção, não se trata de um gabarito. É apenas uma explicação sistematizada sobre os principais aspectos das crônicas de Rubem Braga, trabalhados nos exercícios acima.

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3. Na crônica “O lavrador”, o cronista moderno, da cidade, do efêmero, dá espaço ao narrador da tradição oral, que conta os “causos”, as histórias populares, das pessoas do interior. Comparando à crônica “O jovem casal”, o que então podemos dizer a respeito da narrativa de “O lavrador”? Qual a relação da narrativa com o campo e com o próprio passado do autor, Rubem Braga?

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b) A partir da leitura das crônicas “O jovem casal” e “O lavrador” e de sua resposta anterior, qual é, então, a relação de Rubem Braga com a simplicidade da vida e também da linguagem? Essa simplicidade é capaz de recrutar mais leitores?

movimento de grande renovação na arte e na vida intelectual do século XX. Exemplo disso é sua prosa livre. O escritor trazia algo novo para esse gênero: sua própria experiência, transmitida por histórias, pela arte do narrador, que parece vir de outros tempos, retomando o fio da tradição oral, assemelhando-se aos contadores de causos imemoriais. A arte da sua escrita é disfarçada pela impressão de uma conversa despretensiosa, sem objetivo certo, que se preocupa em se livrar do tédio e do ócio sem se preocupar com o jeito de falar. Ao mesmo tempo, sua prosa apresenta um vocabulário selecionado para compor o lugar exato, com uma sintaxe leve e flexível que permite a presença de uma linguagem coloquial, o que propicia um ritmo solto. Suas crônicas são narrativas que quase sempre contam uma história, mas que muitas vezes parecem meditações líricas de um “eu” que falava sozinho recordando momentos vividos com grande intensidade. Esses momentos, marcados pela subjetividade, eram relatados objetivamente, de modo que se abriam para o leitor, tornando-o uma espécie de ouvinte íntimo. Há um parentesco entre a crônica de Rubem Braga com a forma simples do conto oral, mais propriamente com o causo popular do interior do Brasil, onde de boca a boca se passa a obra de narradores anônimos que comunicam um saber feito de experiências. Desse modo, a prosa de Braga parece implicar em dois aspectos: o tempo e a duração. O primeiro é o momento do instante fotográfico, como um tempo congelado, cristalizado em imagem, mas fadado a desaparecer, por isso traz um sentimento associado à uma fugacidade irrecuperável das coisas, e à melancolia. Esse sentimento se dá em meio à metrópole, ao ritmo da vida urbana, ao bombardeio informativo, acentuando a efemeridade das coisas. O cronista (o “eu” que fala ao leitor), quase sempre é o personagem principal das histórias, tem um ar pensativo, lírico, contemplativo. Por outro lado, há o ritmo sereno da narração, o que dá, em partes, permanência das coisas no tempo, à memória do que o escritor viveu e aprendeu no passado interiorano: uma experiência marcada pelo contato de rua e brincadeiras com meninos mais pobres, e com o trabalho de gente humilde, marcada também pela proximidade do mar, da roça, do rio, da natureza. Assim, o cronista moderno, dá espaço ao narrador da tradição oral, contador de causos emigrado para a cidade. Para esse cronista, o maior valor parece residir na simplicidade que, segundo ele, é o grande mistério do qual todos podem participar, mediante a própria linguagem em que ele se exprime. O cotidiano é, para ele, o que há de mais fecundo para a produção artística. É recorrente nas crônicas de Braga a aproximação das suas histórias às formas da vida e do trabalho simples, aos objetos esquecidos, às coisas antigas e humildes, em geral. Diante deles, o escritor se torna sensível à fragilidade do mais frágil, que é quase sempre o mais pobre. Ao contar sobre o que hoje parece não ter importância, ele aponta a dignidade dos objetos: o esforço e o trabalho que custaram, a dor, o prazer ou alegria que deram uma vez, a relevância de seu papel no curso da existência etc. Tudo vale para o narrador, a fim de lutar contra o roer do tempo. FONTE: ARRIGUCCI, DAVI JR. BRAGA DE NOVO POR AQUI IN ENIGMA E COMENTÁRIO: ENSAIOS SOBRE LITERATURA E EXPERIÊNCIA.

As frases aéreas, soltas, em torno de um alvo incerto acabam, através de uma linguagem volátil, resultando em uma espécie de poesia do cotidiano. Rubem Braga é um cronista do cotidiano, mas algo em sua crônica que lhe dá uma consistência literária que esse gênero não tem. Rubem Braga é influenciado pelo modernismo,

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SÃO PAULO: COMPANHIA DAS LETRAS, 1987, P. 29-51. TEXTO ADAPTADO.

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• Produção Escrita

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FONTE:HTTP://DIARIODAJO.SPACEBLOG.COM.BR/70/

FONTE: HTTP://BR.FREEPIK.COM/

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FONTE: HTTP://INDEPENDENCIASULAMERICANA.COM.BR/

– linguagem leve, solta e coloquial; – texto curto; – proximidade e intimidade com o leitor; – ironia e humor (opcionais); – descrição e reflexão sobre um acontecimento do cotidiano ou mesmo uma narrativa com personagens; – subjetividade; – enfoque jornalístico e informativo (opcional); – enfoque em uma memória ou experiência pessoal (opcional) Partindo dessas informações e de tudo que aprendeu sobre a crônica, analise com atenção cada imagem abaixo, procurando perceber quais são os possíveis assuntos sobre o cotidiano que nelas emergem, para assim produzir a sua crônica. Você poderá escolher mais de uma imagem, pois elas servirão somente de inspiração no momento da tarefa. Vamos lá?

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FONTE: HTTP://WWW.APAREDE.COM/

Como você pôde perceber algumas características são fundamentais para a construção do gênero crônica. Esse gênero, que narra a nossa vida cotidiana, sem dúvida, aproxima literatura e realidade e, dessa forma, possibilita um saber sobre e para a vida de modo a tematizar assuntos como política, amor, ética, sexualidade, saúde, relações pessoas e atividades cotidianas de um modo divertido e, por vezes, despreocupado. A crônica também possibilita pensarmos em produções escritas mais pessoais e, consequentemente, mais prazerosas. Ou seja, qualquer um pode exercer a tarefa de escritor de seu tempo, incluindo opiniões e senso crítico na medida em que julgar necessário. Nesse momento, você, aluno, é capaz de escrever sua própria crônica imprimindo a sua visão crítica de mundo, de seu mundo. Ao produzir a sua própria crônica, tenha em mente as características vistas nessa unidade, tais como:

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FONTE:HTTP://OMEULUGAR.WORDPRESS.COM/

Escolha uma crônica de todas as que lemos em classe, considerando até mesmo os trechos de crônicas que você leu. Peça ajuda ao seu professor para ter acesso à crônica toda, caso seja necessário. Em casa, escolha uma foto ou imagem tirada/produzida por você mesmo, ou pesquisada na internet, livros ou revistas que simbolize ou represente a crônica que você escolher. Lembre-se que o objetivo do exercício não é que ela represente toda a crônica, mas sim parte dela. Leve essa foto para a aula e, junto com seus colegas, explique para a turma sua escolha e exponha a relação que você encontrou entre a crônica e a imagem.

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FONTE: HTTP://WWW.MUNDODASTRIBOS.COM/

• Produção Oral

FONTE:HTTP://FASHIONPARAMENORES.BLOGSPOT.COM.BR/

O Seu Conhecimento na Prática

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Referências ARRIGUCCI, Davi Jr. Braga de novo por aqui in Enigma e comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 29-51. BENDER, Flora; LAURITO, Ilka. Crônica: história, teoria e prática. São Paulo: Scipione, 1993. BRAGA, Rubem. 200 Crônicas Escolhidas: as melhores de Rubem Braga. Rio de Janeiro: Record, 1977. ______________. A Traição das Elegantes. Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91. Disponível em <http://www.releituras.com/rubembraga_meuideal.asp> Acesso em 23 de outubro de 2012. ______________. Cafezinho. Disponível em <http://pedrolusodcarvalho.blogspot.com.br/2012/01/cronica-rubem-braga-cafezinho.html>. Acesso em 10 de outubro de 2012. BROCA, Brito. Cronistas de outrora. In: Teatro das Letras. Campinas: Unicamp, 2003. CAMINHA, Pero Vaz. A Carta de Pero Vaz de Caminha. Disponível em <http://www.culturatura.com. br/dochist/carta/obra.htm> Acesso em 24 de Outubro de 2012. CANDIDO, Antonio et al. A crônica. Campinas: Editora Unicamp, 1992. CARRASCO, Walcir. O golpe do aniversariante e outras crônicas. São Paulo: Editora Ática, 2003. CREMASCO, Victor Hugo Fernandes. “Crônicas: leituras e leitores” Disponível em <http://www2.fe.usp.br/~lalec/revistamelp/index.php/publicacoes/numero-5/propostas-para-a-sala-deaula/item/44-cr%C3%B4nicas-leituras-e-leitores> Acesso em 27 de outubro de 2012. LOPES, Fernão. Crônica de Dom Pedro I. Disponível em: <http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/lopes. htm> Acesso em 13 de Outubro de 2012. MORAES, Vinícius de. A casa materna. Disponível em <http://webwritersbrasil.wordpress.com/literatura-na-web/a-arte-da-cronica/cronicas-comentadas/uma-cronica-de-vinicius-de-moraes/> Acesso em: 25 de outubro de 2012. MOURA, Eloisa Silva. Estudo da Crônica. Disponível em <http://pt.scribd.com/doc/45739666/ESTUDO-DA-CRONICA-Eloisa-Silva-Moura-UNISUL > Acesso em 27 de setembro NERY, Alfredina. Crônica: Gênero entre jornalismo e literatura. Disponível em <http://educacao.uol.com.br/ disciplinas/portugues/cronica-genero-entre-jornalismo-e-literatura.htm> Acesso em 27 de outubro de 2012. PRATA, Antonio. Crônica e outras Milongas. Disponível em <http://antonioprata.folha.blog.uol.com.br/> Acesso em 27 de outubro de 2012. ______________. Do bafômetro II. Disponível em <http://blogdoantonioprata.blogspot.com.br/>. Acesso em 10 de outubro de 2012. ______________.Esporte de Verdade. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/1132046-esporte-de-verdade.shtml> Acesso em 24 de Outubro de 2012. SÁ, de Jorge. A crônica. São Paulo: Ática, 1985. TUZINO, Yolanda Maria Muniz. Crônica: uma Intersecção entre o Jornalismo e Literatura. Universidade Estadual de Ponta Grossa. <http://www.bocc.ubi.pt/pag/tuzino-yolanda-uma-interseccao.pdf> Acesso em 27 de outubro de 2012. VERÍSSIMO, Luis Fernando. Crônica da Loucura. Disponível em <http://mais.uol.com.br/view/e8h4xmy8lnu8/cronica-da-loucura-04023668E0813366?types=A > Acesso em 27 de outubro de 2012. _______________________. O lixo. Disponível em <http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto. php?cod=10767&cat=Contos> Acesso em: 27 de outubro de 2012. Vídeo. G1 - Moradores são multados por causa de calçadas irregulares em SP. Disponível em: http://www. youtube.com/watch?v=Wm3rtJn4qOs Acesso em 27 de outubro de 2012. Vídeo. Vinicius de Moraes - Documentário completo http://www.youtube.com/watch?v=JvEOkeJiX_I Acesso em 27 de outubro de 2012. WIKIPEDIA. Crônica (Literatura e Jornalismo). Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%B4nica_(literatura_e_jornalismo)> Acesso em 27 de outubro de 2012.

Respostas e Comentários Este é um Guia de Orientações para você professor. Nele explicitamos dicas, alternativas e explicações de nossas atividades, assim como as respostas de todas elas. Ótimo Trabalho! Página 7: 1. COMENTÁRIO: Professor, antes de a crônica ser apresentada ao aluno, trouxemos esse exercício, a fim de que os alunos consigam notar sozinhos algumas das características desse gênero. Se seus alunos não alcançarem a resposta esperada, volte aos textos e ao vídeo e analise-os junto a eles, direcionando as reflexões sobre as diferenças e semelhanças, no entanto, sem dar respostas prontas. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Os dois textos e o vídeo tem como semelhança o tema de que tratam: a nova lei sobre a regulamentação das calçadas. No entanto, como o segundo texto e o vídeo pertencem à esfera jornalística, o que pode ser deduzido ao obervar a fonte de onde foram tirados, a linguagem utilizada ao tratar do tema é outra, já que a função dos jornalistas, nesse caso, é a de informar objetivamente sobre o assunto. Dessa maneira, a linguagem é formal e objetiva. Já no primeiro texto, o autor, apesar de escrever em um jornal, como pode ser obervado na fonte, trata do assunto através da linguagem mais coloquial e leve. Esse texto, em certa medida, é também informativo, pois ele dá detalhes da nova lei, entretanto, informar não é seu objetivo principal. Há ironia e crítica, pois podemos perceber que o autor do texto acha essa lei desnecessária. Além disso, o tratamento que ele dá ao seu leitor tem um tom mais intimista, parece que ele está conversando de maneira descontraída com alguém que conhece, apesar de começar com “ilustre munícipe”, pois esse é um dos artifícios usados para criar a ironia do texto. Página 8: 2. COMENTÁRIO: Professor, originalmente, o trecho de crônica que utilizamos do autor Luis Fernando Veríssimo faz parte da crônica chamada “Crônica da loucura”. Alteramos para “A loucura” para que o aluno ainda não soubesse de qual gênero os trechos fazem parte. Após o exercício você pode apresentar a eles o título original. Página 9: a) SUGESTÃO DE RESPOSTA: Antonio Prata: “Um chopinho! Uma tacinha!”; “tá certo”; “E na vidinha, não vai nada?” Walcyr Carrasco: “Oi ...”; “auê”; “Ahn” ;“huuummm”. b) SUGESTÃO DE RESPOSTA: Antonio Prata: “... eu também acho”; “... me mandem por e-mail, eu assino...” Walcyr Carrasco: “Pior aconteceu a um amigo meu...” Rubem Braga: “Ah! Fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim.”; “Vamos, vamos tomar um cafezinho.” Veríssimo: “Pronto, acabei diante de um louco...”; “Confesso, como louco confesso...”; “E eu, como escritor, adoro observar pessoas...” Página 10: c) SUGESTÃO DE RESPOSTA: Antonio Prata: “A quantidade de álcool permitido, no entanto, é um detalhe ínfimo, diante da boa notícia ...”; “Acho estranho tanto fervor na defesa de um chopinho e uma tacinha. E na vidinha, não vai nada?” Walcyr Carrasco: “O fato é que a memória me trai, sempre. Olho, sei que conheço, mas não associo o nome com a fisionomia.” Rubem Braga: “A vida é triste e complicada.”; “Quando vier o amigo e quando vier o credor, e quando vier o parente, e quando vier a tristeza, e quando a morte vier, o recado será o mesmo ...”; “Ah, fujamos assim, sem drama, sem tristeza, fujamos assim.” Veríssimo: “Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias.”; “Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura.” d) SUGESTÃO DE RESPOSTA: Na crônica de Walcyr Carrasco, na primeira cena, que começa por “Oi, tudo bem?”, e na segunda, que começa por “Pior aconteceu a um amigo meu.” Ambos os trechos contém histórias com personagens e diálogos. e) SUGESTÃO DE RESPOSTA: Na primeira cena mencionada na questão anterior, a personagem é apresentada apenas por suas características visuais, sem maior profundidade: “rosto sorridente”, “rosto rechonchudo, os cabelos morenos”, pelo nome: “Danielle

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Respostas e Comentários Curia”, e por alguns fatos da vida dela: “Certa vez, há anos, ela e uma sócia romperam.” A personagem não atua na história, é apenas uma ilustração do que está sendo narrado. Na segunda cena, há um curto diálogo entre dois personagens (um casal) rapidamente identificados, que também não ganham relevo na narração: ele é “um amigo meu” e ela, “uma das grandes paixões de sua vida”. f) SUGESTÃO DE RESPOSTA: Antonio Prata: o problema do consumo de álcool antes de dirigir. Walcyr Carrasco: encontros casuais com pessoas que nos conhecem mas das quais não nos lembramos. Rubem Braga: o hábito brasileiro de se ausentar do trabalho para tomar um cafezinho. Veríssimo: a “moda” das terapias. g) SUGESTÃO DE RESPOSTA: Ficção: Walcyr Carrasco e Veríssimo contam histórias para ilustrar o assunto tratado. Lirismo: O trecho das quatro linhas finais da crônica de Braga, que começa em “Ah! Fujamos assim...” Crítica: Antonio Prata, no trecho que começa em “A quantidade de álcool permitida, no entanto, é detalhe ínfimo ...” Ironia: Veríssimo: “O melhor da terapia é ficar observando meus colegas loucos.” Braga: “A vida é triste e complicada. (...) O remédio é ir tomar um ‘cafezinho’”. Humor: Walcyr Carrasco: “Correu para ela com os dentes abertos como os de um jacaré (...) Você é... você é ... huuummm ...” Veríssimo: “E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.” Página 10: 1. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Até agora foram apresentadas algumas características da crônica como: tratar de assuntos cotidianos e refletir sobre eles através de uma linguagem mais solta e que, em certa medida, se aproxima do leitor. Além disso, algumas também apresentam reflexões e críticas sobre o tema de que tratam. Nesse gênero também é possível encontrarmos personagens, no entanto, sem aprofundamento psicológico, bem como podemos notar a presença de diálogos. 2. RESPOSTA PESSOAL: Espera-se que o aluno faça uma pesquisa em livros e na internet a fim de se familiarizar com o gênero. COMENTÁRIO: Professor, os próximos tópicos dessa sequência didática tratarão dessas questões. No entanto, é interessante valorizar o conhecimento prévio do aluno e sua pesquisa, pois dessa maneira ele está construindo seu conhecimento. 3. RESPOSTA PESSOAL: Espera-se que o aluno perceba que existam crônicas humorísticas, outras irônicas, ou jornalísticas, bem como poéticas/líricas ao observar os diferentes temas que costumam ser abordados em um tipo de crônica e não em outra. Além disso, ele deve notar que cada autor apresenta suas características particulares. COMENTÁRIO: Professor, até agora a sistematização das características do gênero em questão não foram feitas, a fim de que os alunos pudessem inferi-las. Dessa maneira, os exercícios elaborados tinham como objetivo fazer com que o aluno construísse aos poucos seu conceito sobre o que é crônica. A partir de agora, esses exercícios de inferência serão intercalados com informações importantes para que o aluno compreenda o gênero, exercícios de fixação e retomada de teoria para que ele possa aplicar e refletir sobre o que aprendeu. Página 14: 1. SUGESTÃO DE RESPOSTA: É possível perceber que durante todo o texto o autor procura criar um sentimento de melancolia e saudosismo. Esses sentimentos estão ligados ao retorno do narrador a sua casa materna, que lhe desperta varias memórias. 2. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Podemos falar que o narrador é o filho que está retornando a casa principalmente pelo fato de que ele descreve memórias de infância específicas e atribui sentimentos a elas. Apesar de nunca utilizar pronomes possessivos em primeira pessoa (meu, minha), ele nunca indica que se trata de experiências de uma segunda pessoa. “As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece”, “É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem.”, “Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas

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careciam sonhar.” Página 15: 3. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Apesar de nunca falar que o pai faleceu, o autor nós fornece pistas para chegar a esta conclusão. Podemos supor que o pai já faleceu porque o narrador usa um verbo no passado para se referir a ele, ‘repousava’. Tal suposição se confirma no segundo trecho, em que o narrador se refere ao pai como “ausente para sempre” e mergulhado “na eternidade”. 4. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Narrador: É o filho que retorna para a casa materna, como podemos perceber nos trechos a seguir: “Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna.” e “A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô.”. Ele vê a casa materna como um lugar repleto de recordações: “O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras.” e “Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória.” Podemos supor, ao observar o trecho “onde já agora vibram também vozes infantis”, que o narrador possui filhos. Mãe: É a moradora da casa, o narrador liga sua figura com uma imagem do silêncio e das rotinas do passado: “É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas.” Pai: Já faleceu, costumava tocar violão e seus pertences ainda estão presentes na casa, como podemos observar no trecho a seguir: “E porque é uma casa velha, (...)” e “E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia. A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade (...)”. Casa: é antiga, possui um pequeno jardim e mais dois andares, e sua decoração permanece a mesma desde a infância do narrador, como podemos perceber nos seguintes trechos: “O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias (...)”, “Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória.” e “As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas.” 1. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Uma das características principais das crônicas é trabalhar com temas do cotidiano. Neste caso, temos o retorno à casa materna, que normalmente seria visto como algo banal, sem relevância, mas que através do trabalho do cronista ganha destaque e se torna um objeto de reflexão. Página 18: 1. SUGESTÃO DE RESPOSTA: O autor apresenta nesta crônica a questão do domínio público e domínio privado, a partir do lixo produzido por cada pessoa, o que é evidenciado pelo trecho: “- Só não fiquei com ele porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela? - Acho que não. Lixo é domínio público. - Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?”. 2. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Fato: Pouco lixo, “Reparei que nunca é muito.” Conclusão: Não moram muitas pessoas no apartamento, “Sua família deve ser pequena.”; Fato: Envelopes no Lixo, “Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.”. Conclusão: Tem família no Espírito Santo, “No Espírito Santo”; Fato: Letra no envelope, “Pela letra no envelope.”. Conclusão: Remetente deve ser professor, “Achei que era letra de professora.”; Fato: Telegrama amassado, “No outro dia, tinha um envelope de telegrama amassado.”. Conclusão: Recebeu noticias ruins, “- Más notícias?” ; Fato: Carteiras de cigarro amassadas no lixo, “De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.”, Conclusão: Recomeçou a fumar, “Foi por isso que você recomeçou a fumar?”; Fato: Buque de flores com cartão jogado fora e lenços de papel, “Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.”. Conclusão: Brigou com o namorado, “Você brigou com o namorado,

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Respostas e Comentários certo?”; Fato: Fotografia de uma mulher, “Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.”. Conclusão: Tem uma namorada, “Namorada?”; Fato: Não rasgar a fotografia, “Você não rasgou a fotografia.”. Conclusão: Quer que a garota da fotografia volte, “Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.”; Fato: Não rasgou os poemas, “(...) teria rasgado. Eles só estavam dobrados.”. Conclusão: Não acredita que eles sejam realmente ruins, “Se você achasse eles ruins mesmo” 3. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Homem: mora no apartamento 612, vive sozinho, come bastante comida enlatada, pai faleceu recentemente e é ex-fumante. Mulher: mora no apartamento 610, vive sozinha, gosta de cozinhar, tem família no Espírito Santo e a mãe lhe escreve toda semana, toma tranquilizantes, terminou com o namorado, atualmente está com um pouco de coriza e escreve poesia. 4. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Os personagens chegam à conclusão que o lixo pertence ao domínio público. 5. SUGESTÃO DE RESPOSTA: O que torna esse texto parecido com uma conversa oral é o fato de que ele se organiza no formato de um diálogo, apresenta frases curtas e diretas, linguagem informal, a presença de perguntas e respostas, a reformulação de frases como em “A senhora... Você não tem família?”, o uso de expressões como ‘pois é’, ‘aí’. ‘Ah’ e ‘Humm.’, que são típicos da oralidade. 1. SUGESTÃO DE RESPOSTA: O humor se estabelece quando as personagens começam a conversar sobre seus lixos, que não é um assunto comum de ser abordado por vizinhos que estão se conhecendo pela primeira vez. Dessa maneira, ele é construído através da quebra da expectativa do leitor. Página 20: 1. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Após a leitura do texto podemos dizer que a crônica “Lixo” pode ser classificada como humorística, pois utiliza o humor para a construção do gênero. Também podemos perceber que apesar de utilizar uma linguagem coloquial e informal e tratar de um tema cotidiano (encontro de dois vizinhos ao jogar o lixo fora), não podemos classificar essa crônica como um texto fútil, pois o autor trabalha com questões relevantes para a sociedade, neste caso a discussão do que seria público ou privado. Página 23: COMENTÁRIO: Professor, as perguntas a seguir são baseadas no próximo texto “Conhecendo o autor”, que fala sobre Rubem Braga. Seria interessante que você o lesse antes, a fim de que possa auxiliar os alunos nos próximos exercícios, caso eles tenham alguma dificuldade. 1. SUGESTÕES DE RESPOSTA: “... aquela moça que está doente naquela casa cinzenta ...”; “E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas ...”; “...um casal que estivesse em casa mal-humorado ...” 2. SUGESTÕES DE RESPOSTA: “ ... que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – ‘ai meu Deus, que história mais engraçada!’” “ ... e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.” “ ... que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – ‘por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!’”

Página 25: COMENTÁRIO: Professor, os exercícios a seguir têm como objetivo fazer com que os alunos estudem mais profundamente sobre as características de um cronista. O cronista escolhido foi Rubem Braga, pois ele é o grande representante nacional da crônica. É indicado que você leia o texto “Um pouco mais sobre Rubem Braga” que aparece logo após esses exercícios, pois as próximas questões são mais complexas, e os alunos provavelmente terão dificuldade. Dessa maneira, tendo conhecimento prévio sobre o autor, você poderá orientá-los em suas possíveis dúvidas, lembrando que você não deve dar respostas prontas. Se as respostas não se aproximarem das sugeridas nesse manual, volte às questões com seus alunos após a leitura do último texto sobre Rubem Braga dessa unidade. Com certeza, após essa leitura os alunos poderão responder as perguntas com maior facilidade. Página 27: 1. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Como é comum nas crônicas de Rubem Braga, o ambiente retratado é a cidade turbulenta e agitada. As situações parecem passar rapidamente diante dos olhos do narrador, como também do leitor. A sensação parece ser de desconforto mediante o calor, à agitação da cidade, ao barulho, à poluição, e mesmo somada à dor que a mulher sente. 2. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Nessa crônica, percebemos que a cidade traz certa angústia para o casal. O casal não está confortável com a situação. Eles têm pressa, querem pegar uma condução pública para que a moça possa ir ao médico. O moço descreve sua frustração perante às condições de vida deles, pois estão em uma pensão precária, onde vivem em meio a baratas e pulgas, com falta de água, em um ambiente sujo e conturbado. Eles pertencem a uma classe social baixa, pois vivem em uma pensão precária, devem aluguel, além disso, no texto é indicado que a mulher usa “sapatos pobres”, e eles não podem pegar ônibus, pois para eles é caro. 3. SUGESTÃO DE RESPOSTA: A maneira como Rubem Braga retrata o casal e a vida deles com esse olhar piedoso mostra uma de suas características, pois ele se torna sensível à fragilidade dos mais pobres. “Toda a tristeza, toda a mediocridade, toda a feiúra duma vida estreita onde o mau-gosto atroz e pretensioso da classe média se juntava à minuciosa ganância comercial (...)”, demonstra uma crítica do autor. Os substantivos e adjetivos que ele usa para caracterizar o meio urbano mostram sua impressão negativa desse ambiente em que a desigualdade social é presente: “Então um grande carro conversível se deteve um instante perto dos dois, diante do sinal fechado. Lá dentro havia um casal, um sujeito meio calvo de ar importante na direção, uma mulherzinha muito pintada ao lado, sentiram o cheiro de seu perfume caro. A mulherzinha deu-lhes um vago olhar, examinou um pouco mais detidamente a moça, correndo os olhos da cabeça até os sapatos pobres (...)”.Com isso, podemos relacionar o sentimento do casal ao do “eu” de Rubem Braga que conta a história e que igualmente se sente deslocado naquele meio, assim como os dois jovens. 4. RESPOSTA PESSOAL. Espera-se que o aluno reflita sobre os problemas sociais denunciados por Rubem Braga: por exemplo, a disparidade social entre o casal que espera o bonde e vive com pouquíssima renda, em uma terrível pensão e o casal que está parado no farol dentro de um conversível, conversando sobre a aquisição de uma nova jóia. 5. SUGESTÃO DE RESPOSTA: As situações retratadas por Rubem Braga, embora marcadas por uma subjetividade (piedade para com o casal da crônica, por exemplo), são também relatos objetivos, com descrições e sucessão dos acontecimentos, que abrem espaço para que o leitor também reflita e torne-se um ouvinte íntimo.

4. SUGESTÃO DE RESPOSTA: A partir de um contexto, de uma situação particular, o autor chegou a uma conclusão de interesse universal.

6. SUGESTÃO DE RESPOSTA: A arte da escrita de Rubem Braga é disfarçada pela impressão de uma conversa ou de uma narrativa despretensiosa. Por conta disso, ele utiliza a linguagem coloquial, simples, o que propicia um ritmo solto às suas crônicas. No entanto, essa característica não o impede de fazer grandes reflexões em seu conteúdo, utilizando uma linguagem simples para tratar de temas complexos que abordam o movimento e as contradições do cotidiano nas cidades.

5. SUGESTÃO DE RESPOSTA: As crônicas, de um modo geral, são criadas a partir de detalhes, de pequenos acontecimentos

7. SUGESTÃO DE RESPOSTA: A apresentação das cenas se dá como no momento do instante fotográfico, como um tempo

3. SUGESTÃO DE RESPOSTAS: mais solidariedade, mais amor ao próximo.

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que nem despertam a atenção das pessoas comuns, mas que o cronista sabe valorizar.

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Respostas e Comentários congelado, cristalizado em imagem, mas fadado a desaparecer, por isso traz um sentimento associado à uma fugacidade irreperável das coisas. Esse sentimento se dá em meio à metrópole, ao ritmo da vida urbana, acentuando a efemeridade das coisas. Nesse sentido, a crônica é finalizada de modo a demonstrar essa efemeridade, pois ela dura o tempo da espera do casal pelo bonde. Assim, ao subirem no bonde, cessam-se a crônica e o ar contemplativo do cronista, do “eu” que fala ao leitor. Página 28: 1. SUGESTÃO DE RESPOSTA: Nessa crônica, o ambiente é da zona rural, provavelmente a cidade de infância de Rubem Braga, já que essa crônica pertence à coletânea A cidade e a roça. Podemos afirmar que a pessoa com quem o lavrador está conversando é o “eu” que caracteriza Rubem Braga em suas crônicas, o narrador-cronista. Isso pode ser deduzido pelos trechos: “Pergunta pela minha profissão, e tenho vergonha que vivo de escrever papéis que não valem nada”, em que se define como escritor (é, por isso, o cronista Rubem Braga) e “Olho na sua cara queimada de sol; parece com a minha, é esse o mesmo tipo de feiura triste do interior” demonstra que os dois têm a mesma origem, são do interior e, sabemos pelo pequeno excerto acima, de Arrigucci, que Rubem Braga é do interior. 2. a)SUGESTÃO DE RESPOSTA: O autor valoriza as coisas mais simples, e para ele são elas que valem a pena serem contadas em suas histórias. O homem simples, então, nesse sentido, tem mais sabedoria que o próprio “eu” que conta a história. 2.b)SUGESTÃO DE RESPOSTA: Rubem Braga se sente próximo das pessoas mais simples e acredita que é disso que se pode tirar a beleza e a força da vida. Isso pode ser também associado à linguagem simples, pois o maior valor reside no mais simples, no mais despojado, o que permite a participação de todos na leitura de seus textos e na reflexão sobre a grandeza do cotidiano. 3. SUGESTÃO DE RESPOSTA: É possível afirmar que o ritmo da narração é mais sereno, mais lento, exatamente por retratar uma experiência do cronista no campo, lugar onde as coisas permanecem, lugar da tradição – ao contrário da narrativa de uma situação efêmera da cidade, como na crônica “O jovem casal”. A narrativa sobre o campo também recupera as memórias do passado interiorano de Rubem Braga, de modo a transmitir a experiência marcada pelo contato com o trabalho das pessoas humildes do campo. Página 30: COMENTÁRIO: Professor, oriente e organize os alunos em uma apresentação de imagens. Isso poderá ser feito através da montagem de um mural, ou ainda à maneira que a classe estiver habituada a mostrar e apresentar suas produções. Cada aluno deverá explicar, para toda a sala, o processo que o levou a escolher determinada crônica relacionada com determinada imagem. Não se esqueça de que o aluno não pode ter a pretensão de resumir a crônica com uma imagem, mas sim simbolizar parte dela com a imagem de modo a complementar o sentido dela. No final da tarefa, os alunos terão uma visão mais clara do gênero e de suas relações com o mundo real. Complementação da proposta: Conforme a disponibilidade de recursos da escola, o aluno poderá relacionar a crônica com um vídeo.

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Literatura do Cotidiano  

Este fascículo se dirige àqueles que ensinam e estudam literatura e que gostariam de saber mais sobre o gênero crônica e sobre Rubem Braga,...

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