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Viagens

Opinião RENATA HOSTINSKA, DA REPÚBLICA CHECA

Música da moda?

Moda, mas com segurança

RENATA HOSTINSKA A Vogue Fashion’s Night Out foi uma noite de compras, de música, e em que as pessoas foram para a rua. Nas ruas a situação era tresloucada para mim: na Avenida da Liberdade não circulavam transportes, todas as ruas estavam cheias de gente e a música soava no centro da cidade. Não estou acostumada a este tipo de eventos, pois os checos não gostam muito de concentrações. Somos alérgicos a multidões. Foi um pouco estranho que tanta gente, jovens, velhos e crianças, tenha saído das suas casas para comparecer na festa da moda. Este evento aconteceu também em Praga, com a diferença de que por lá não houve uma festa popular mas sim um acontecimento vocacionado para um grupo restrito de pessoas. A moda em Portugal é mais universal. Quando observo as pessoas nas ruas apercebo-me de que quase todos se vestem da mesma forma. Em Praga as pessoas querem parecer únicas e diferenciam-se mais com aquilo que vestem. Todos querem parecer irrepetíveis. Ainda assim, acho que os portugueses têm melhor gosto. Até porque a partir de uma certa idade a maioria dos checos não cuida da imagem, ao contrário do que vemos aqui. Para isso contribui o preço do vestuário, em especial de muitas marcas que por cá são relativamente comuns e acessíveis (especialmente made in Spain);

A multidão saiu às ruas por exemplo os vestidos são duas vezes mais caros no meu país que em Portugal e marcas como a Zara ou a Mango não povoam os centros comerciais como por cá. Os checos em geral não fazem questão de vestir de acordo com as directivas da moda actual. Pelo contrário, há muitas lojas de roupa em segunda mão, sítios em que é possível comprar vestidos retro a preços irrisórios, muitas vezes com óptima qualidade. Muitos checos usam estas lojas, que defendem ser mais ecológicas, mas também mais bem abastecidas de artigos únicos e originais que as do mainstream dos centros comerciais. Voltemos à festa. Passear por lojas e ruas cheias foi complicado para mim. Ninguém gosta de multidões, mas quando estou na República Checa e uma pessoa precisa de passar por outra diz “com licença” ou “desculpe”, pelo menos se houver contacto físico. Nas ruas portuguesas, e especialmente em espaços públicos muito cheios, quase ninguém faz isto. À primeira vista fica-se com a sensação de que as pessoas são rudes e mal educadas, especialmente quando estão numa

Na minha terra o contacto físico que há nestas festas seria má educação

festa e não se apressam para chegar a lugar nenhum. Reflectindo um pouco mais sobre o assunto, e tendo em conta que os checos são um povo mais frio e distante, percebemos que os portugueses não temem o contacto físico e são extremamente afáveis, o que pode ser confundido com uma certa rudeza por uma outsider como eu. Aquilo que no meu país me incomodaria aqui é feito com um sorriso nos lábios. Na minha ingenuidade, pensei que uma festa da moda era para vender roupa, mas naquela noite parecia que ninguém estava para isso. O evento foi mais uma festa vocacionada para promover marcas e lojas que uma campanha para obter vendas imediatas. Acima de tudo, as pessoas que por lá estiveram foram, isso sim, a concertos, socializaram, provaram vinhos e aproveitaram os brindes que algumas lojas disponibilizavam gratuitamente. A ajudar esteve a maravilhosa noite de Verão que se fez sentir, pretexto mais que suficiente para os lisboetas saírem e encherem as ruas da sua bela cidade. Penso que os portugueses, com ou sem crise, continuam a ser dos povos que melhor sabem divertir-se e aproveitar a vida. Sair de casa e participar nesta festa da moda foi para as pessoas uma excelente forma de relaxar e participar num evento social onde todos tiveram direito a passadeira vermelha, ainda que apenas por uma noite.

Barriga cheia, cara alegre AS FESTAS PORTUGUESAS estão sempre ligadas à comida. Não concebo nenhum acontecimento social em Portugal que não seja um pretexto disfarçado para as pessoas comerem. Na República Checa encontramo-nos mais frequentemente para beber do que para comer. No centro da mesa checa há mais vezes uma garrafa do que um prato com petiscos. Ir jantar fora para os checos representa principalmente um acto romântico entre namorados. Não tenho explicação para não haver entre os checos o hábito de jantar em grupo, mas provavelmente em geral não gostamos muito de eventos colectivos. Já os portugueses têm na comida um prazer social. Os jantares são oportunidades para encontros com amigos, os almoços são ocasiões familiares. Têm festas populares com sardinhas, que comem grelhadas, e divertem-se com amigos nas ruas de Lisboa. Estou fascinada pelo tamanho das doses. Não sei como os portugueses conseguem comer uma sopa, um prato gigante, uma sobremesa e depois mais um queijo. Para onde vai aquilo tudo? E são raros os portugueses gordos. A comida portuguesa é muito saudável, o que facilita as jantaradas intermináveis. Um provérbio checo diz que “o amor vem pela barriga”. Será que os portugueses procuram desesperadamente o amor num prato de moelas? renata.hostinska@ionline.pt

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