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“No memorando da troika, as coisas estão a ser feitas a tal velocidade que corremos o risco de atirar o bebé pela janela junto com a água”

Pode dar um exemplo? Não vou dizer nomes. Nem sequer me interessam os nomes. Não estamos aqui para particularizar a questão, apenas para dizer que é a forma como as coisas estão organizadas que propicia que isto aconteça. Em tempo de crise, a corrupção aumenta? Sim, há mais oportunidades para a corrupção. Não vê a velocidade com que se aprovam coisas nesta crise? É como quan-

IDEIAS DO RELATÓRIO SOBRE CORRUPÇÃO Percepção No último Barómetro Global de Corrupção, 83% dos portugueses consideram que os níveis de corrupção aumentaram nos últimos anos. Vontade política Uma das ideias-chave do relatório preliminar do Sistema Nacional de Integridade é a de que, para reforçar o sistema anticorrupção em Portugal, é preciso “vontade política”, e não parece que os políticos tenham essa vontade. Em alguns casos, é óbvio que não querem fazê-lo. Tolerância A falta de cultura política e democrática em alguns sectores da sociedade civil leva a que a corrupção seja mais tolerada socialmente do que deveria ser. Fraquezas Os autores do relatório apontam o dedo às fragilidades dos sistemas político e judicial. Foco O financiamento político e o urbanismo continuam a ser grandes focos de corrupção.

do se preparavam para entrar no euro, a legislação passa em 24 horas. Se precisam de ficar até às duas da manhã, ficam até às duas da manhã. E quem controla isto? Não tenho conseguido seguir nada desde a entrada em vigor do memorando e o início das reformas, porque tudo está a ser feito rapidamente. Muitos ditames estão a ser implementados sem discussão aberta ao público. As coisas estão a ser feitas a tal velocidade que corremos o risco de atirar o bebé pela janela junto com a água. Como é que poderíamos mudar este estado de coisas? O sistema tem de mandar mensagens efectivas. A não ser que aumentemos o número de condenações... a justiça tem de enviar mensagens claras de que a lei é igual para todos. Um político ou um empresário também podem ir presos, tal como o tipo que rouba um carro num subúrbio de Lisboa. E acredita que isso irá acontecer? Não. Porque há outros assuntos por trás. A maneira como o Direito é ensinado nas universidades, a forma como os nossos magistrados são formados, a forma como as equipas de investigação são criadas, a maneira como se criam organismos atrás de organismos, tudo isto tinha de ser mudado. Também precisamos de mais jornalismo de investigação. Está à espera que o parlamento se auto-regule? Não, são os jornalistas quem tem de exercer o controlo. Têm de perguntar quem é o tipo que está sentado na comissão que negoceia parcerias, quem é o responsável pelo sistema bancário português. A não ser que cada um dos pilares assuma a responsabilidade de fazer o seu trabalho, continuará a culpar os outros. O que pensa dos media portugueses? Penso que são livres, mas há um grande desinvestimento no jornalismo de investigação e a formação dos jornalistas em Portugal é pobre. Nesta área há muitos jornalistas mal preparados. Alguns são bons, mas infelizmente têm tantos assuntos para tratar que não têm tempo.

—30 Setembro 2011

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