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Zoom // Terrorismo

Os interrogatórios secretos que Obama não queria continuam A CIA usa uma prisão secreta na Somália para interrogar suspeitos de ligações à Al-Qaeda. Jornalista da “Nation” diz que ABC e CNN são instrumentos dos serviços secretos dos EUA para abafar a história RENATA HOSTINSKÁ

renata.hostinska@ionline.pt Numa cave dos serviços secretos somalis, onde as pessoas são detidas durante largos meses sem culpa formada, sem ver a luz do dia e sujeitas a interrogatórios sem a presença de qualquer defensor legal, a CIA mantém uma prisão secreta na Somália. A denúncia foi feita pelo jornalista da revista “The Nation” Jeremy Scahill, que esteve recentemente na Somália durante dez dias a investigar o assunto. A notícia tem tido alguma repercussão na internet, mas a verdade é que nunca chegou aos jornais de grande tiragem dos EUA, segundo Scahill, porque a “propaganda” dos serviços secretos norte-americanos tem levado a melhor. A declaração oficial da CIA é que a sua presença na área nos últimos meses visou apenas dar apoio em interrogatórios e, mesmo assim, apenas uma ou duas vezes. Além disso, a agência nega ter uma base em Mogadíscio, como afirma o jornalista. “Só em muito raras ocasiões a CIA deu apoio em interrogatórios a suspeitos de terrorismo que estão sob custódia do Governo Federal de Transição”, afirmou à CNN um funcionário da agência, que não quis ser identificado por não estar

autorizado a falar publicamente. Alguns dos prisioneiros foram apanhados nas ruas do Quénia e transportados de avião para a prisão subterrânea de Mogadíscio. São suspeitos de pertencer ao grupo Al-Shabab, guerrilha islamita que domina o Sul, partes do Centro e da capital da Somália e que mantém vínculos estreitos com a Al-Qaeda. Na prisão secreta de Mogadíscio, os suspeitos são interrogados por agentes da CIA e elementos dos serviços secretos franceses. Embora a prisão seja oficialmente gerida pela Agência Nacional de Segurança (ANS) somali, é a CIA que paga os salários dos agentes somalis (200 dólares mensais ou 140 euros) e interroga directamente os prisioneiros. Ahmed Abdulah Hassan, um dos antigos presos, disse ao jornalista da “Nation” que o apanharam em Nairobi e levaram para o aeroporto: “Puseram-me um saco

A prisão é gerida oficialmente pelos serviços secretos da Somália mas é a CIA que paga aos agentes somalis

na cabeça, ao estilo Guantánamo; amarraram-me as mãos atrás das costas e meteram-me num avião. Fui interrogado muitas vezes, por somalis e por homens brancos. Todos os dias apareciam caras novas. Não tinham nada contra mim. Nunca vi um advogado, nunca vi ninguém, só outros prisioneiros, os interrogadores e os guardas. Não houve processo judicial nem tribunal.” Uma das promessas de campanha do actual presidente Barack Obama foi acabar com a prisão de Guantánamo e com quaisquer outras prisões secretas noutros países. Mas a verdade é que Guantánamo continua aberta e os interrogatórios secretos prosseguem, tal como durante a administração de George W. Bush. De acordo com Scahill, em declarações à Al-Jazeera, isto deveria provocar um escândalo nos EUA, porque está em causa a credibilidade do presidente. Obama assinou ordens executivas em 2009, declarando que os interrogatórios secretos e a tortura teriam de cessar. O problema é que “ninguém [nos EUA] se importa”, conclui o jornalista, que diz que os principais media americanos foram usados pela CIA para encobrir a história. Scahill aponta o dedo directamente à ABC e à CNN.

Um soldado governamental em Mogadíscio. O governo somali colabora com a CIA 28

—30 Julho 2011

ISMAIL TAXTA/REUTERS

Em resumo

EUA cada vez mais perto do incumprimento NEGOCIAÇÕES O líder democrata do Senado disse ontem que vai avançar durante o fim-de-semana com uma proposta para elevar o tecto da dívida pública dos EUA. “Esta é provavelmente a última oportunidade de salvar o país do incumprimento”, explicou Harry Reid. A proposta do senador prevê a redução do défice público norte-americano em 2,5 biliões de dólares ao longo da década e deverá ser votada domingo no Senado. Se o Congresso e o presidente Barack Obama não chegarem a um acordo sobre o orçamento, os EUA poderão entrarão em incumprimento na terça-feira. PROPOSTAS Numa declaração pública feita na Casa Branca, o presidente dos EUA afirmou que “o que é claro agora é que qualquer solução para evitar um default tem de resultar de um acordo entre os dois partidos”. Obama defendeu ainda várias alterações que podem ser feitas às propostas até agora apresentadas pelos dois partidos, por forma a que sejam aprovadas nas duas câmaras do Congresso. O presidente fez ainda questão de afirmar que a proposta apresentada quinta-feira pelo republicano John Boehner “não resolve o problema”. O plano, além de cortar 900 mil milhões de dólares a despesa, ampliava o limite da dívida, dando folga ao governo federal até ao início do próximo ano. No entanto, a poucos minutos do início da votação, a proposta foi retirada, já que a ala mais conservadora dos republicanos não lhe deu o apoio necessário.


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