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As Ciganas que fazem do centro de Porto Alegre histórico Estender o braço e fazer um sinal com a mão como quem diz ' vem cá'. Esse é o gesto mais usual das mulheres de saia e cabelos compridos que ficam em frente à prefeitura municipal da capital. Entre milhares de pessoas que passam todos os dias pelos arredores da Praça Uruguai, poucas são as que param alguns minutos para ouvi-las e deixam sua mão recair por sobre a delas

Saias compridas, de cores exuberantes, como roxa e azul, são típicas das inúmeras mulheres que, sentadas ou em pé, recostadas nas grades do monumento em homenagem ao Uruguai, esperam para ler o passado, o presente e o futuro dos outros. "Vem cá que eu vou te contar uma coisa boa", diz uma delas para alguém que não lhe dá ouvidos e continua a andar rapidamente. São sobre essas mesmas grades de ferro onde penduram a ajuda que ganham das pessoas,


e que ficam estrategicamente em frente a um mercadinho, o que dificulta as desculpas alheias. As ciganas que costumam dividir espaço em frente à prefeitura com as inúmeras e conhecidas pombas do centro da cidade vêm de Guaíba, todos os dias, exceto sábado e domingo ou se o tempo estiver chuvoso. Chegam por volta das onze horas da manhã e ficam até às quatro da tarde, quando voltam para casa - lugar parecido com o do trabalho: "Nós vivemos na rua, Jesus deixou a gente assim", conta Estrela, uma das ciganas que fica a maior parte do tempo sentada por conta da gravidez de dois meses. O grupo de mulheres parece ter origem humilde e realmente necessitar de doações das pessoas que passam pela Praça. Os pedidos, apesar de às vezes extravagantes, em sua maioria são por alimentos. A cigana Sabrina, sentada ao lado da grávida, tira um caderninho de dentro da sua bolsa e pede para que a cliente da vez anote: três quilos de feijão e arroz, três pacotes de café Mellita, três pacotes de papel higiênico. “Se eu desmanchar esse mal pra tu ser feliz no amor, tu compra uma comidinha para as crianças?”, indaga Sabrina. “Vai lá ligeiro no mercado e compra de coração”, fala Estrela, como se estivesse dando uma ordem. “É isso e nada mais, não fica devendo para o espírito”, completa Sabrina, um pouco mais cautelosa, de fala calma.

Apesar de elas procurarem a mão das pessoas para conseguir trazê-las até elas, é para os olhos que elas costumam dar atenção e parecem saber sobre tudo da vida de muitos - ou pelo menos fazem acreditar que sabem. Com perguntas


como "quem morreu de câncer e quem se chama Maria na tua família", pode-se ter uma ideia de que a pergunta-lugar-comum sempre será certeira. O nome Maria é o mais usado no Brasil e o câncer é uma das principais doenças que causa morte no país. São palavras sedutoras, que saem delas quase como um discurso pronto, incrivelmente veloz e hipnotizante, sempre com um intenso jogo de olhar, que prende a atenção.

As mãos que foram lidas Sempre que alguém vai até o centro da cidade é porque tem afazeres, está com pressa, caminha rápido e pouco repara nos arredores e nas pessoas a sua volta. No meio desse vai e vem, as ciganas não escolhem, mas tentam puxar quem está por perto. Alguns só escutam, mas continuam caminhando e não param. Outros param, olham e logo dão um jeito de se desvencilhar. Um ou outro recua ou faz malabarismo para que elas nem consigam tocar na mão ou no braço para prendê-los ali. Tem também aqueles que simplesmente abrem a mão e vão até elas, apenas ouvir o que têm a dizer. De joelhos no chão, em cima de um papel. É assim que está o ator Marcelo Mertins, 23 anos, para ouvir o que uma cigana idosa tem a dizer. Ele fica ali por alguns minutos, sempre sorrindo durante a leitura da sua mão. Mertins se despede com um gesto de carinhoso nela. "Eu dei um beijo, claro, porque ela foi simpática", declara, abrindo um enorme sorriso, com um olhar de compaixão que poucos têm em relação a elas. A procura de figuras ao redor do Mercado Público que representam o centro históico de Porto Alegre, junto com outros atores, foi por


isso que Mertins parou para conversar com elas e declara achar incrível aquele enorme grupo de mulheres. O ator analisa a conversa como algo feito a seduzi-lo, para conquistar o objetivo maior da anciã: "Pediu para levar cigarro e água". E descreve, minuciosamente, sem acreditar naquilo que foi dito. "A avó começou dizendo coisas boas, é claro, porque sempre faz parte da conquista dizer algo positivo", frisa. "Depois algo pra te conquistar no sentido amoroso, como um amor que não deu certo, o que todo mundo teve de alguma maneira", conta, rindo da situação. As ciganas costumam pedir, também, dinheiro e alimentos, e não foi diferente com a estudante de 17 anos, Stefani Arce. Ela passava com pressa pelo local quando foi parada por uma delas. "Fez eu abrir toda a minha carteira para provar que eu não tenho dinheiro", diz a estudante com ar indignado. "Mesmo se eu tivesse, não ia dar", completa abismada. Através da mão de Stefani, a cigana viu uma dor no útero que a adolescente sequer tinha. A estudante, que não acreditou nas palavras que ouviu, desviará o caminho quando tiver que passar novamente por ali.

Sorrindo, como quem achou engraçadas as previsões,

comenta que "elas só falam bobagem". "Nem acredito nessas coisas, acho que ninguém pode prever o futuro", diz Stefani. Compartilhando da mesma opinião, o estudante de 19 anos, Tiago Dominguez Pacheco, também não acreditou nas palavras da cigana anciã que leu a sua mão por insistência. "Ela falou que quem prendeu a minha vida não foi obra de Deus, foi coisa da bruxaria", relata. Ao colocar um terço na mão do estudante, a


senhora pediu para que ele depositasse uma moeda em cima. "Eu disse que não tinha, aí ela disse vai com Deus". Logo depois, Tiago analisa o que acabou de ouvir: "ela tem um discurso pronto, nada empolgante, não deu pra sentir nada demais", relata, em tom de desaprovação. Para alguns, qualquer tipo de previsão ou crença requer atenção. A fé depositada no que as ciganas dizem torna aquilo algo importante, real e merecedor de alguns centavos ou um quilo de alimento. Alice Silva, 46 anos, que procurava emprego na hora em que foi interrompida por uma das mulheres de saias compridas parou. "Eu segui várias religiões com a minha falecida mãe, então eu não descarto nenhuma", conta com um olhar cansado, de quem ficou ali para talvez buscar um alento para os seus problemas. Segundo Alice, acredita espiritualmente no que aquelas ciganas falam. Com um sorriso tímido, a operadora de telemarketing, Alexandra Alves, 32 anos, conta que "já estava com vontade de ir", até elas, porque não estava bem. "Eu fui ali e ela disse exatamente o que está me acontecendo", revela, arregalando os olhos, surpresa com o acerto. "Eu dei um real e vinte e cinco centavos e ela me pediu pra comprar quatro sucos Tang para desmanchar o que está sendo feito pra mim", conta.

Apesar de ter escutado exatamente o que

queria sem ter dado a menor pista, a operadora de telemarketing fala da fama de canastronas das ciganas: "Eu já ouvi falar delas, que elas, né", faz sinal com a mão

de que adoram pegar um dinheirinho das pessoas. "Elas são ligeiras",

completa.


Alexandra conta, ainda, uma experiêcia que sua amiga teve: "ela (a cigana) pegou o anel da mão da minha colega e colocou no próprio peito. O irmão dela tirou com a mão". Mesmo acreditando nas palavras ditas a ela cinco minutos atrás, completa, piscando o olho com desconfiança: "Ciganas, né, minha filha".

Psicologia x Quiromancia A quiromancia estuda o caráter e o destino das pessoas pelas linhas da mão e é uma arte praticada há mais de 50 séculos. Pressupõe uma crença e representa a cultura oriental, de onde surgiu. Foi separada da Astrologia no século XVI e passou a ser quiromancia física, ocupando-se quase que só dos sinais da mão. Deixou de considerar os tipos planetários e os assinalamentos astrais e entrou em declínio, passando por um período de obscuridade, onde a arte de ler as mãos foi cultivada principalmente pelos ciganos – de modo mais intuitivo do que científico. Até hoje ela tem grande consideração e é praticada no Oriente, em países como a Índia, a China, a Síria e o Egito.

É uma maneira rápida e simples, culturalmente aceita por pessoas que se dispõem em acreditar e buscar soluções imediatas para suas vidas. Ela fala das necessidades emocionais das quais a ciência não se ocupa, motivada pelo mistério da fé que envolve o desconhecido. "Hoje, o desejo é insaciável e a necessidade de controle sobre tudo é enorme, fazendo com que não se tolere mais a espera, o futuro é hoje, impossibilitando que a plenitude do momento seja vivenciada", analisa a psicóloga Cristiane Fruet.


Além do medo, temos a sensação de insegurança que acaba sendo a grande motivação para as pessoas recorrerem às estratégias supersticiosas. Neste contexto, a procura pela quiromancia, muitas vezes, é realizada em segredo, pois as pessoas temem as reações de outras, principalmente pelas mais próximas, já que estariam admitindo certo fracasso na administração de suas vidas. "A crença na quiromancia é saudável para o sujeito enquanto esta oferecer esperança, mas passa ao estado patológico quando a vida é consumida pela busca de soluções e saídas supersticiosas”, afirma a psicóloga especialista em Gestão de Pessoas, Karine Müller Dutra.

Segundo Cristiane, querer prever o futuro seja através da cartomancia ou da quiromancia, búzios, tarô e afins, "só demonstra a necessidade humana de controlar o seu destino”. Como passatempo, entretenimento e lazer, o misticismo e a superstição nos aliviam do stress diário, “mas quando esse comportamento se torna o centro da vida da pessoa, acabando por limitar sua rotina, atrapalhando seu convívio social, então nos deparamos com uma patologia", finaliza a psicóloga.

Sobre os ciganos

Segundo estudiosos sobre a cultura cigana, verifica-se que são originários da Índia. Devido a sua vida nômade - não costumam viver por muito tempo no mesmo lugar - atravessaram a Europa e se fixaram, embora temporariamente, na Hungria, Romênia, Rússia e Iugoslávia. O registro que se tem de chegada no Brasil é a partir do século XVI.


A história dos ciganos é envolta em mistérios, o que dificulta a explicação de suas práticas e crenças. Durante muito tempo eles foram condenados e sacrificados, principalmente com ascensão do nazismo na Alemanha. A solução encontrada foi a divisão do povo cigano, continuando ainda mais o seu nomadismo.

Supõe-se que a adivinhação, a leitura das mãos ou das cartas, bem como poções, danças de sedução e outros sortilégios, tenham sido ensinadas aos ciganos por antigos magos e alquimistas persas. Os poderes mágicos herdados de ancestrais longínquos e uma vida de intensa mobilidade acrescentam mistério e romance às lendas desse povo.

Hoje, acredita-se que eles estejam em um processo de aculturação e que suas tradições estão prestes a findar. Algumas nem existem mais, apenas para os mais velhos, e estão desaparecendo rapidamente. A vida moderna está levando a maioria dos ciganos a abandonar o nomadismo. A velha barraca, que se erguia ao lado de modernos edifícios, já não é mais a moradia adequada para os mais jovens – o que pode dar fim a uma cultura milenar.

As ciganas que fazem do centro de porto alegre histórico  

Estender o braço e fazer um sinal com a mão como quem diz ' vem cá'. Esse é o gesto mais usual das mulheres de saia e cabelos compridos que...

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