Page 1

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS FACULDADE DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO LUIZA GUIMARÃES ARAÚJO E RENAN NOGUEIRA SILVA

Livro-reportagem Tem arte no Sinal

Goiânia 2013


UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS FACULDADE DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO LUIZA GUIMARÃES ARAÚJO E RENAN NOGUEIRA SILVA

Livro-reportagem Tem arte no Sinal

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado junto ao Curso de Comunicação Social – Habilitação Jornalismo da Universidade Federal de Goiás, com intenção de obter o título de Bacharel em Comunicação Social – Habilitado em Jornalismo, sob orientação do Prof. Me. Salvio Juliano Peixoto Farias

Goiânia 2013


Luiza Guimarães Araújo Renan Nogueira Silva

Livro-reportagem Tem arte no Sinal

Orientador: Prof. Ms. Salvio Juliano Farias

COMISSÃO EXAMINADORA

_______________________________________ Professor Mestre Salvio Julino Farias

_______________________________________ Professora Especialista Carolina Paraguassú

Goiânia,

de

de 2013.


AGRADECIMENTOS Este livro não seria possível sem a ajuda de todos que participaram da sua produção. Portanto agradecemos aos professores Salvio Juliano e Carolina Paragassú, por terem nos direcionado na produção, bem como ao fotógrafo Rodolfo Paes pelo tratamento das fotos, e ao designer gráfico André Roberto Custódio, pela diagramação do projeto. Sem vocês este livro não seria possível.


Quero levar arte para todos. Daniel Santin


RESUMO

O pensamento de a fotografia ser um retrato da realidade faz com que ela seja utilizada para representar atividades do dia a dia. A modernização das câmeras fotográficas fez com que ela deixasse de ser arte para poucos, e mudasse para um estio de vida, um meio de informação e comunicação, e presente na vida de todos. O leitor, diante de um trabalho fotográfico, tem a possibilidade de admirar um momento que foi congelado sob a visão do fotógrafo. A junção dessa possibilidade ofertada pela fotografia, com o livro-reportagem possibilita uma análise um pouco mais aprofundada sobre tal tema, levando em consideração as demais formas de produções jornalísticas. Neste trabalho apresentamos essa técnica jornalística que aborda o trabalho e arte das pessoas que se apresentam nas ruas, como circenses. A rua, muitas vezes, é sinônimo de decadência; e é essa mesma rua que é palco desses artistas. Palavras-chave: Livro-reportagem; Artistas de rua; Trabalho informal; Atividade circense.


SUMÁRIO

Introdução...................................................................................................................08 Desenvolvimento........................................................................................................09 1. O Livro-reportagem....................................................................................09 2. A Fotografia................................................................................................15 2.1 Agenda Setting.....................................................................................18 3. Artistas de Rua...........................................................................................21 Notas de Produção.....................................................................................................24 Considerações............................................................................................................27 Anexo.........................................................................................................................28 Referências................................................................................................................38


LISTA DE ILUSTRAÇÕS

Figura 1, página 19 - O Processo de agendamento segundo Rogers, Dearing e Bregman (1988). Retirada de: SOUSA, Jorge Pedro. A teoria do agendamento e as responsabilidades do jornalista ambiental: uma perspectiva ibérica. Universidade Fernando Pessoa e Centro de Investigação Media & Jornalismo. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/sousa-jorge-pedro-teoria-do-agendamento.pdf.

Acessado

em:

28/11/2013.

Figura 2, página 19 - O Paradigma do agendamento na teoria da notícia, segundo Traquina (2000). Retirada de: SOUSA, Jorge Pedro. A teoria do agendamento e as responsabilidades do jornalista ambiental: uma perspectiva ibérica. Universidade Fernando Pessoa e Centro de Investigação Media & Jornalismo. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/sousa-jorge-pedro-teoria-do-agendamento.pdf.

Acessado

28/11/2013.

Figura 3, página 25 – Páginas 14 e 15 do Livro-reportagem Tem arte no Sinal Figura 4, página 25 – Páginas 22 e 23 do Livro-reportagem Tem arte no Sinal Figura 5, página 26 – Páginas 32 e 33 do Livro-reportagem Tem arte no Sinal Figura 6, página 26 – Páginas 44 e 45 do Livro-reportagem Tem arte no Sinal Figura 7, página 26 – Páginas 66 e 67 do Livro-reportagem Tem arte no Sinal

em:


8

INTRODUÇÃO

Este livro-reportagem foi inteiramente baseado em fotografias a fim de exemplificar e tornar claro a atividade artística nas ruas de Goiânia - Goiás. Através de depoimentos colhidos e conversas no próprio ambiente de trabalho, percebemos que essa atividade desempenhada por eles é vista de forma pejorativa, por quem pela rua passa. Um ponto que deve ser discutido, mas depende dos resultados alcançados na observação e entrevistas com as pessoas, é a relação desses artistas com a sociedade; como eles influenciam e como são influenciados. Essa influência dita pode ser positiva ou negativa e totalmente diferente de acordo com o nível socioeconômico e, também, de acordo com a posição de cada pessoa. As novas complexidades urbanas fazem com que novas atividades e relações interpessoais surjam a cada dia. Levando em consideração a confusão e atrasos que se dão no trânsito dos grandes centros urbanos, formas de trabalho que se utilizem desses problemas podem surgir para amenizar o caos ou fazer com que ele seja melhor tolerado. Pensando sobre essa ótica, pode ser que, assim, os trabalhadores de rua tenham surgido: para aproveitarem uma oportunidade que ainda não era explorada. Tecendo considerações, ainda, sobre essa visão, pode ser que, dessa forma, também, os artistas de rua tenham surgido: para fazer com que o caos urbano no trânsito fosse amenizado. Em conversas com alguns artistas, um dos fatores apresentados por eles foi o preconceito. Pessoas que vem e que vão e que não os veem como trabalhadores ou como artistas, mas sim como pedintes. Segundo esses artistas, muitos acreditam que eles estão lá para apenas ganharem dinheiro, isso faz com que o trabalhador/artista seja rebaixado a um valor financeiro. Mas eles, em sua maioria, disseram que o reconhecimento do trabalho, muitas vezes, é melhor que qualquer valor que venham a ganhar no fim de um dia de trabalho. Levando em consideração essas visões e interpretações, o livro-reportagem produzido se faz justificável, pois ele apresenta, sob uma diferente ótica, a arte e o trabalho produzido por essas pessoas que desempenham suas atividades nas ruas de Goiânia.


9

1. O LIVRO-REPORTAGEM

O livro-reportagem é uma das formas como o jornalismo se expressa. Ele é caracterizado como, principalmente, um produto sem data de entrega definida, diferentemente dos meios jornalísticos tradicionais. Para entender o livro-reportagem, é necessário que se compreenda o conceito de reportagem e também como se dá a produção dessas reportagens para os periódicos diários. Segundo Lima (2009), o livro-reportagem “é o veículo de comunicação impressa não-periódico que apresenta reportagens em grau de amplitude superior ao tratamento costumeiro nos meios de comunicação jornalística periódicos” (LIMA, 2009, p.12). Entende-se reportagem como uma ampliação da notícia. Observa-se a horizontalização de algum fato, no sentido de abordagem extensiva, cheia de detalhes. Mas também se tem uma verticalização, no sentido de aprofundamento do assunto em foco, em busca de saber como se originou e como vão se dar seus desdobramentos. Com esse conceito, os jornais se mantém produzindo material diariamente a fim de estabelecerem a comunicação que é proposta. O livro-reportagem se empossa desse conceito e traz para si as ‘reportagens diárias’. Entretanto, o diferencial está no fato de se produzir material com profundidade, mas sem que haja essa periodicidade dos jornais. Um livro-reportagem, basicamente, traz aquilo que não “coube” no jornal, ou não cabe a esse meio midiático apresentar. Esse conceito surgiu junto com o Novo Jornalismo, segundo Belo (2006). O autor fala que isso aconteceu pela vontade da sociedade em saber mais das histórias humanas, que muitas vezes eram contadas em forma de reportagens. A possibilidade de transformar, segundo Belo (2006), as memórias, muitas vezes guardadas em formas de fotos antigas, em livros pareceu algo bastante natural. Lima (2009) traz um conceito que consegue explicar bem a diferença entre um livro tradicional e um sendo reportagem. Segundo ele, há três pontos que devem ser observados para que se possa categorizar cada material e diferenciá-los: conteúdo, tratamento e função.


10

O conteúdo de um livro-reportagem é algo real, factual; ou seja, é preciso que veracidade e verossimilhança estejam presentes. O autor ainda exemplifica os dois tipos de realidades que podem ser retratadas nesse tipo de material. A primeira forma é um fato, “[...] a ocorrência social já definida – o escândalo Collor e PC Farias abordado pelo jornalista José Nêumanne em A república na lama” (LIMA, 2009, P.17). A outra maneira é o retrato de um momento pelo qual alguma sociedade passa e o livro reportagem traz algum tipo de discussão social, como um correspondente do The New York Times no Brasil que publicou, no México, um livro reportagem “cuja temática se prendia à tentativa de construir um perfil do povo mexicano e suas relações com os Estados Unidos ao longo da história” (LIMA, 2009, p.17). Já o tratamento se refere, principalmente, à maneira como a linguagem jornalística se apresenta à sociedade. Nilson Lage, apud Lima (2009, p.18), teoriza o conceito dessa forma de comunicação como a que “[...] mobiliza outros sistemas simbólicos além da comunicação linguística” (LIMA, 2009, p.18), isso pois o material inclui o projeto gráfico, imagens, charges, gráficos – sistema analógico – e o sistema linguístico em si, que abrange manchete, o título, os textos, as legendas. E o terceiro ponto que diferencia um livro tradicional de um que é reportagem, segundo Lima (2009), é a função à qual se aplica a produção de um livro reportagem. Tal pode ser bem distinta, partindo do conceito básico do jornalismo de informar, orientar e explicar. A partir daí, pode-se produzir um material extensivo, próximo ao que chamam de jornalismo informativo arredondado, que se caracteriza por ter uma abordagem mais ampla sobre um determinado assunto, quando comparado a periódicos tradicionais. É uma horizontalização dos dados e fatos. Pode-se, também, escolher por uma maneira de jornalismo opinativo, a partir da visão unilateral de uma questão. Ou ainda o jornalismo interpretativo, através de uma abordagem multiangular de outra questão, buscando variedade de causas e consequências a fim de obter pontos de vistas diferentes a respeito. Lima (2009) traz, ainda, o jornalismo investigativo, de denúncia, como opção dentro do diferencial que é a função do livro-reportagem. Por fim, pode-se ir por outros


11

caminhos e aplicar o jornalismo diversional, que foge da classificação tradicional onde se encontram as ditas três categorias. Pela diversificação possível na produção de livros reportagem, o autor traz uma classificação que se baseia no objetivo-fim do material, algo específico ao qual ele se relaciona seguindo a função básica de informar e orientar, e a natureza do tema que trata a obra. A partir daí tem-se as seguintes classificações, segundo Lima (2009): Livro reportagem perfil é uma especificação onde o lado humano de uma pessoa, pública e conhecida ou não, é apresentado. Se não for alguém de notoriedade na sociedade, essa abordagem se justifica, muitas vezes, por alguma ação que tal personagem desenvolve e que é o diferencial no momento da escolha. Um estilo de produção que se assemelha muito ao livro reportagem perfil é o livro reportagem biografia. Neste o jornalista se dedica a investigar, principalmente, o passado de certa personalidade. O momento presente não é o foco desse último tipo de produção. O livro reportagem depoimento tem sua característica principal no que é feito a partir da coleta de um depoimento de alguém que esteve presente durante um acontecimento importante. Esse tipo de livro pode ser escrito pela própria pessoa que participou do dito evento, mas com uma ajuda de um jornalista para que sejam aplicadas características jornalísticas. Livro reportagem retrato se aproxima bastante do livro reportagem perfil, a diferença está no objeto-personagem, por observações gerais. Enquanto no perfil o ponto principal é certa pessoa, no livro reportagem retrato o que se aborda é a comunidade, um setor econômico, uma parte da sociedade, procurando traçar um retrato desse objeto. Esse tipo de abordagem se justifica pelo objetivo, que é um serviço educativo, explicativo sobre um tema específico da sociedade trazendo-o de forma clara para a maior parte da população. Livro reportagem ciência tem como objetivo a divulgação científica, podendo trazer, ou não, uma crítica ou reflexão sobre tal tema. Livro reportagem ambiente está diretamente relacionado à natureza e a relação que o homem estabelece com ela. Pode ser uma apresentação de combate a um tipo de ação, pode ser apenas uma crítica, ou tratar de assuntos ambientais que levem à


12

conscientização sobre tal tema, levantando a importância da boa relação entre o homem e a natureza. Livro-reportagem história trata-se de uma volta ao passado, mas com um elo com o presente. Assuntos de um passado distante, ou mesmo recente, são retratados nesse tipo de livro reportagem, mas sempre com um ponto que os liguem ao momento atual, a fim de manter atento o leitor. Há duas variantes para esse modo de escrever. O primeiro é o livro- reportagem que traz como foco a história empresarial objetivando um grupo, o mundo dos negócios ou uma atividade produtiva. Nesse caso tenta apresentar, também, questões políticas, sociais e culturais. A segunda variante é o livro-reportagem epopeia, que aborda “com grande magnitude, episódios históricos de grande relevância social” (LIMA, 2009, p.55). Um dos exemplos trazidos pelo autor é um livro de John Reed, onde ele trata da revolução soviética de 1917, Os dez dias que abalaram o mundo. Livro reportagem nova consciência aborda as movimentações sociais no mundo ocidental nos anos 60, que não só mudaram o modo de pensar de toda uma sociedade, como também abriu o leque de opções no modo de escrever. Esse tipo de livro-reportagem se caracteriza como um material a ser produzido a partir de duas ebulições significativas do muno ocidental dos anos 60. O movimento de contracultura é uma delas. A outra é a aproximação do mundo ocidental à cultura e civilização do Oriente Médio e do continente asiático como um todo. Partindo desses dois pontos, a produção se caracteriza como livro-reportagem nova consciência. Livro-reportagem instantâneo trata-se de um livro que traz um movimento, acontecimento recente como foco principal; recente, mas que já apresenta sinais do fim e suas consequências. O ponto principal é esse fato acontecido, mas se pode mostrar, também, os sinais dele no futuro. Lima (2009) defende a terminologia instantâneo, em relação à flash, pois acredita ser algo rápido e momentâneo mas sem ser superficial, como a ideia de flash pode remeter. Livro-reportagem atualidade se assemelha bastante ao formato instantâneo. Uma sutil diferença está que no livro-reportagem atualidade não se tem um desfecho claro, não se sabe os possíveis caminhos no futuro a partir do fim de um momento.


13

Um exemplo é a privatização da British Airways, a primeira empresa da GrãBretanha a ser privatizada. Struggle for take off, de Duncan Campbell-Smith apresenta essa privatização e se justifica por ser um assunto de relevância nacional que se estendeu por volta de 10 anos, entre o fim da década de 1970 até o fim dos anos 1980. Livro-reportagem antologia é a reunião de diversas reportagens já publicadas na imprensa, sob um critério que pode ser o mais diverso possível. “Podem ser as reportagens, sobre os mais diferentes temas, de um profissional conhecido do público. Podem ser as matérias, de distintos profissionais, sobre um único tema” (LIMA, 2009, p.57). Há ainda a possibilidade de se reunir trabalhos de diversos temas e de diversos jornalistas, mas que tenham, em comum, um gênero jornalístico ou uma categoria de prática do jornalismo. Livro-reportagem denúncia tem o objetivo de ser investigativo e “apela para o clamor contra as injustiças, contra os desmandos dos governos, os abusos das entidades privadas ou as incorreções de segmento da sociedade, focalizando casos marcados pelo escândalo” (LIMA, 2009, p.57). Livro-reportagem ensaio tem como principal característica a presença do autor e de suas opiniões no decorrer do livro. Tem como forma a postura de ensaio e o objetivo é levar o leitor a compartilhar da mesma opinião do autor. O tipo de linguagem está na função expressiva, remetendo-se à terminologia de Jakobson; e o uso do foco narrativo na primeira pessoa se faz frequente. O livro-reportagem viagem está diretamente ligado a uma viagem feita pelo autor a uma região. Difere-se dos relatos turísticos e/ou românticos de quem, também, faz viagens mas não está, profissionalmente falando e para o fim de uma produção, apto a escrever sobre. O campo do conhecimento mais explorado é, sem dúvidas, o jornalístico. Mas o fato de ser um livro que expõe diferente(s) realidade(s) uma análise mais aprofundada deve ser feita, levando em consideração a economia, organização social entre outros aspectos observados nessa viagem. Por conta disso, outros campos do saber moderno são utilizados.


14

Lima (2009, p.59) lembra que todas essas formas de classificação não devem ser levadas em consideração como algo engessado. É possível que uma obra se encaixe em mais de um estilo de livro-reportagem. O ponto principal é observar o sentido-fim do livro; tomando isso é possível saber o real objetivo do livro e escolher uma forma de livro principal para caracterizá-lo. Observando todas essas características, podemos classificar o fruto desse trabalho como um livro reportagem retrato. Uma parte de uma sociedade vai ser apresentada a fim de que se levante uma discussão sobre o tema discutido. O objetivo é apresentar através, principalmente, de fotos, como é o trabalho dos artistas de rua; além de mostrar, direta ou indiretamente, como é a vida deles; o que eles sentem, quais os sonhos e aspirações, o que os motiva... Dentro as várias possibilidades de produções jornalísticas, o livro-reportagem é uma das formas que possibilita uma abordagem um pouco mais aprofundada de um certo assunto. Por esse motivo tal formato foi escolhido para produção desse trabalho. Além disso, não há, comercialmente falando, um imediatismo para a sua publicação.


15

2. A FOTOGRAFIA

A fotografia surgiu com a intenção que era, até então, papel da pintura: registrar o mundo, as pessoas, suas vivências e suas experiências. Entretanto a foto foi conseguindo algo que os artistas do pincel não conseguiam: capturar o maior número de temas possível; e nisso os fotógrafos foram especializando. Oito horas foi o tempo necessário para que o francês Joseph Nicéphore Niépce entrasse para a história da fotografia como a pessoa que conseguira registrar uma imagem sem ser por pintura. Betume da Judeia, como substância sensível, foi o produto utilizado por ele para tirar a primeira foto, que foi batizada como beliografia (palavra de origem grega que significa “a escrita do Sol”), segundo Baptista (2001). Sontag (1977) comenta que, em 1940, as primeiras câmeras produzidas na Inglaterra e na França não contavam com pessoas especialistas em operá-las, então dependiam de inventores e pessoas aficionadas pela ação de fotografar; ação essa que é tida pela autora como ato tomar posse da realidade e da vida do objeto-tema. Ela chega a comparar o disparo da câmera com o disparo de um revólver. Em momentos de conflito em que uma arma de fogo pode tirar a vida da pessoa atingida; o fotógrafo também toma posse da vida daquele que ele fotografa. Um recorte da vivência de uma pessoa, passível de interpretações diversas, passa a não ser mais da possa dessa pessoa; e sim do operador da câmera e daqueles a quem a imagem for exposta. A fotografia não tinha papel social, logo “tratava-se de uma atividade gratuita, ou seja, artística, embora com poucas pretensões a ser uma arte” (SONTAG, 1977, p.18). Com o passar dos anos fotógrafos especialistas em operar as câmeras foram surgindo e a industrialização fez com que aparecessem, também, os amadores. Os processos químicos eram a base da fotografia até meados dos anos 1980. A partir daí a luz passou a ser convertida em sinais eletrônicos, com a invenção da câmera fotográfica digital. Unindo esse fator com o uso do scanner, as fotos passaram a ter um caminho certo, para toda produção: o computador. Foi nesse momento que a ação de fotografar mudou seu conceito tradicional e essa mídia passou a ter outro sentido na cultura, em todas as possibilidades de utilização, uma vez que, segundo Baptista (2001), a fotografia já estava presente em todas as casas, em todas as cidades, fazendo parte do dia-dia de todos.


16

Assim esse tipo de imagem ganhou um papel social mais fundamentado. Foi também nesse momento que a fotografia se fundamentou como movimento artístico, pela ação contra os usos populares da câmera. A fotografia, com o passar dos anos, passou a ter uma ligação bem íntima com o jornalismo e seu modo de produção. Antes dessa forma pictográfica de representação existir, os jornais eram cheio de textos escritos e a imagem do ocorrido ficava por conta de cada leitor; como em um romance onde os personagens são descritos mas a ideia final depende da imaginação e de toda a vivência de cada leitor. Segundo Gisele Freund, aqui citada por Forni: A introdução da fotografia na imprensa é um fenômeno de importância capital. Muda a visão das massas. Até então, o homem comum somente podia visualizar os acontecimentos que ocorriam ao seu redor, em sua rua, em sua cidade. (...) A fotografia inaugura a comunicação visual de massa quando o retrato individual se vê substituído pelo retrato coletivo. Ao mesmo tempo se converte em um poderoso meio de propaganda e manipulação. (FREUND, 1986 apud FORNI, 2005, p.90)

Entretanto o jornalismo nasceu para ser verdade. Quanto mais essa forma de comunicação puder se aproximar da realidade de seus leitores, melhor para que haja uma interpretação correta dos fatos. A imagem diminui bastante a possibilidade de várias interpretações de um mesmo ocorrido. Lendo o texto, pode ser que a informação não fique totalmente clara; mas ao ver a fotografia, o leitor compreende de forma mais completa o texto. Há que se fazer uma observação plausível apresentada por Graham (1989), que fala que o desenvolvimento da tecnologia visual deixa mais difícil nosso papel de percebermos o que é “real” e o que é “falsificado”. Logo, “falar da fotografia documental como uma forma discreta de prática fotográfica ou, alternativamente, como um corpus identificável de trabalho é afundar de cabeça em um pântano de contradição, confusão e ambiguidade” (GRAHAM apud BAPTISTA, 1989, p.163). Mesmo que uma imagem assim seja entendida como representação fiel da realidade, a foto sofre “manipulações consentidas”, segundo o autor. Desde a escolha de uma lenta, de um filme (no caso das mais antigas ou dos mais apaixonados pela arte de fotografar), ou do ângulo escolhido pelo fotógrafo. Baptista (2001) comenta que a fotografia digital (e sua facilidade de acesso e manipulação) apenas trouxe à tona aquilo que já era de conhecimento dos profissionais: a possibilidade de escolha no momento fotográfico. “A questão é mais dramática no segmento da fotografia documental e no fotojornalismo, que sempre se


17

esquivaram de explicar ao público em geral o grau de interpretação do autor, envolvido nas imagens que produzem” (BAPTISTA, 2001, p.13) Forni (2005) fala que bem sobre a evolução do jornalismo junto com a fotografia. Nos anos 20 quase não aparecia fotografia alguma nas capas de jornais. Eventualmente uma celebridade nacional ou internacional tinha direito a uma pequena foto nesse espaço. Já nos anos 30, Forni (2005) destaca o aparecimento com mais frequência desse tipo de comunicação. Entretanto eram, em sua maioria, bonecos das autoridades que serviam para ilustrar matérias especiais. Foi apenas nos anos 40 que as fotos começaram a surgir com destaque nas capas de jornais. Mas esse fato não era recorrente, dependia do ocorrido no tal dia. Ao se deparar com uma fotografia, o leitor tem uma reação mais intensa e mais imediata, quando comparado a uma reação ao se deparar com um texto. Essa forma de comunicação imagética cria oportunidades de memórias instantâneas, como menciona Forni (2005), pois a foto é uma captura de um momento em específico, e não uma cena de alguns segundos ou minutos. Sontag (1977) menciona que um livro de fotografias, por exemplo, pode ser, apesar da liberdade que o autor tem em manuseá-lo, uma forma impositiva de se apresentar tal tema. Isso se dá pelo simples fato de como as imagens são dispostas no passar das páginas. Entretanto, o fato de as imagens serem estáticas sob o domínio do leitor, elas podem ser vistas a todo o tempo e pelo tempo que cada pessoa assim definir. O fotógrafo tem a oportunidade de criar um mundo que vai perdurar à nossa sobrevivência. Sontag chama isso de mundo-imagem: algo que é, relativamente, alheio às ações naturais do homem. “Situações em que o fotógrafo tem de escolher entre uma foto e uma vida, opta pela foto. A pessoa que interfere, não pode registrar; a pessoa que registra não pode interferir” (SONTAG, 1977, p.22). Outro fator que faz com que haja memória fotográfica no leitor, é o fato de que “a imagem tem uma força que as palavras não têm” (FORNI, 2005, p.86). Essa força acaba influenciando, inclusive, na escolha das fotos por parte dos jornais, revistas e outros meios jornalísticos.


18

2.1. Agenda Setting

A Agenda Setting é uma das teorias do Jornalismo e sua base apresenta que os meios de comunicação/jornais são responsáveis por muitos assuntos que passam a ser discutidos na sociedade e passam, também, a fazer parte do dia a dia das pessoas. Segundo Sousa (no prelo), a ideia de que os meios de comunicação pautam assuntos da sociedade já existem desde 1690, com a tese pioneira de Tobias Peucer; ou mesmo no trabalho de Gabriel Tarde (1901) onde ele fala da influência que a imprensa exerce sobre a formação de correntes de opinião pública. O autor lembra expõe que essa teoria, como a conhecemos hoje “fixou-se no campo teórico da comunicação essencialmente a partir do início da década de 70, graças às pesquisas empíricas desenvolvidas no âmbito daquela que se designa por teoria (ou hipótese) do agenda-setting.” (SOUSA, no prelo, p.8) Rogers, Dearing e Bregman desenvolvem um esquema (figura 1) onde apresentam como os assuntos saem da sociedade, passam pelo filtro da imprensa, são publicados e divulgados e passam a ser pautas de conversas diárias da população; podendo ser utilizados, inclusive, como agenda política. Nelson Traquina, teórico da comunicação, por sua vez, acentua a importância das agendas sendo pauta para outras agendas, mutuamente, e sem a necessidade de intervenção de um terceiro fator, ou mesmo terceira agenda. Segundo Souza o esquema de Traquina (figura 2) é o que talvez tenha o mais elevado grau de semelhança com a realidade.


19

Figura 1

Gate-keepers, media influen-tes e aconte-cimentos noticio-sos espeta-culares

O Processo de agendamento segundo Rogers, Dearing e Bregman (1988) Experiência pessoal e comunicação interpessoal entre as elites e outros indivíduos

Agenda Midiática

Agenda Pública

Agenda Política

Indicadores do mundo real da importância de uma questão ou acontecimento da agenda

Figura 2 O Paradigma do agendamento na teoria da notícia, segundo Traquina (2000)

Expe-riência direta e conver-sas interpes-soais

Ações de outros agentes sociais

Agenda Pública

Agenda Jornalística

Agenda Política

Campo Jornalístico Campo Político

Acontecimentos do mundo real


20

É pensando na força que esses assuntos vão ter no outro dia após a publicação, que os meios jornalísticos fazem a minuciosa escolha das fotografias para comunicar certa notícia. Forni (2005) esclarece que a fotografia surgiu nos meios de comunicação, inicialmente, para que fossem um aporte às notícias informativas. Entretanto hoje elas já assumiram um papel informativo tão forte quanto (ou mais, como dito anteriormente) os textos escritos.


21

3. ARTISTAS DE RUA

Não há relato de um tempo exato de quando e onde o circo tenha surgido. De acordo com um documento produzido pela Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São Paulo, as primeiras provas da existência do circo datam de cerca de cinco mil anos atrás, na China, a partir de pinturas rupestres lá encontradas. Aquela cultura acreditava que atividades como acrobacia, contorcionismo e equilibrismo ajudava no treinamento de guerreiros, desenvolvendo neles qualidades como agilidade, flexibilidade e força. Ainda segundo esse documento, características como graça, beleza e harmonia foram sendo incorporadas com o passar do tempo. Sendo assim, pode-se interpretar que o circo na forma de arte que conhecemos hoje, não surgiu para essa finalidade. O malabarismo, atividade mais presente em apresentações de rua e uma das que representamos do produto final deste trabalho, também data de muito tempo atrás. Pinturas e hieróglifos de mulheres fazendo malabarismos com bolas foram encontradas em uma tumba de um príncipe egípcio, tumba essa que foi construída entre 1994 e 1781 antes de Cristo. Segundo o documento da Biblioteca de São Paulo , anotações de malabaristas existem desde 400 a.C. e que existiam proezas como malabares feitos com oito tochas de uma vez; além de menções nesse sentido serem encontradas na literatura irlandesa e norueguesa. Apesar desses relatos de atividades circenses de tempos antigos, o nome “circo” surgiu na Roma antiga. “Circus”, que significa “lugar em que competições acontecem”, foi o nome dado a uma área dividida entre arquibancadas, pista e cavalarias, onde aconteciam duelos entre homens e animais. A “política do pão e circo” surgiu em Roma com o intuito de entreter a população e evitar possíveis levantes populares contra o governo. As principais atividades eram desempenhadas no Coliseu, que foi construído no lugar do Circo Máximo de Roma, incendiado. Nesse novo espaço, as apresentações eram somente para o entretenimento, como engolidores de fogo, animais exóticos, entre outros. Ainda segundo o artigo da Biblioteca Virtual do Estado de São Paulo, por volta do ano 54 d.C., essas arenas, que eram locais de apresentações artísticas e de entretenimento, viraram palco de apresentações sangrentas, como cristãos sendo atirados vivos a animais.


22

A partir desse momento os artistas que se apresentavam para o entretenimento do público, passaram a se apresentar em praças, feiras, entradas de igrejas e mercados populares. Alguns conseguiam lugares cativos na corte, como mágicos e os próprios bobos da corte. Pode ser que tenha sido nessa época que as primeiras apresentações na rua passaram a existir, e estão como as conhecemos hoje; sendo forma de arte ou mesmo uma atividade de trabalho. Detectamos, no decorrer da produção desse trabalho, que a maioria das pessoas que desenvolve esse tipo de atividade é movida pelo sentimento de felicidade. Eles querem levar um pouco mais de arte para a vida das pessoas e se sentem felizes por poderem fazer isso. Eles retrataram, também, que existe, algumas vezes, um tratamento de desprezo por parte do público (motoristas e motoqueiros) que os assistem todos os dias. Alguns chegaram a falar que um sorriso, palmas e um elogio (como “parabéns”) vale mais que muitas moedas que eles ganham. A maioria concordou que eles passam recolhendo moedas por enxergarem nessa atividade, também uma forma de sobrevivência. Mas é notável, em todos, que o que eles desenvolvem não é só arte ou só trabalho, é um estilo de vida, com pensamentos bem fundamentados, inclusive políticos. O termo “rua” pode ser, por si só, algo pejorativo na sociedade atual. Maurente (2005) lembra que quando uma pessoa é demitida, ela é mandada para a rua, estando, então, no pior lugar da sociedade trabalhista. Ligado a esse preconceito, podemos pensar sobre o que significa “trabalho”. Trabalho, como é visto hoje em dia, pode ter seu formato baseado em uma visão preconceituosa e não preparada para novos métodos e novas realidades da vida urbana. As necessidades e as oportunidades fazem surgir, a cada dia, novas interações sociais e novas formas de trabalho, como o trabalho na rua. Essas atividades desenvolvidas ao ar livre se confundem, às vezes, com atividades de pedintes, seja para própria sobrevivência, seja para uso de substâncias ilícitas. Mas aquelas atividades não passam de uma nova forma de trabalho de quem viu a oportunidade crescer frente aos sinaleiros das grandes cidades; cidades essas cada vez mais conturbadas e paradas pelo trânsito. Entretanto a necessidade não é o único motivador dessas pessoas que passam a ser autônomas, ou ‘donas do próprio negócio’. Segundo reportagem (G1.com,


23

27/05/2013), 5 em cada 10 jovens universitário querem ter sua própria empresa. Essa pesquisa, que foi feita pelo Sebrae, constatou ainda que a maior motivação não está na necessidade pela falta de trabalho no mercado brasileiro, mas sim na vontade de ser chefe, e não empregado. Pensando no nosso objeto estudado, os artistas de rua podem, também, ter uma vontade de ser donos do próprio negócio, e viram na rua essa oportunidade. Por outro lado, eles podem apenas estarem querendo um lugar para se apresentarem, e viram na rua essa possibilidade. Maurente (2005) fala ainda que “apesar deles se perceberem como seres ‘sem função’ social, sua função na sociedade é a de continuar existindo para criar novas lógicas, ainda que internas e reservadas a espaços de micropolíticas” (MAURENTE, 2005, pág.13). Maurente (2005) completa que os trabalhadores de rua passam de despercebidos, muitas vezes, para aqueles que geram algum tipo de mal estar na sociedade, mal estar esse justificado pelos mal tratamentos por eles recebidos.


24

NOTAS DE PRODUÇÃO

Material utilizado para produção das fotos: - Duas câmeras NIKON. Modelo D 300 - Três tipos de lente: - 60mm - 18:55mm - 24mm - As fotos foram tiradas na região Centro-Leste de Goiânia-GO; mais precisamente na Praça Cívica (localizada no Centro), na Avenida 10 (também no Centro) e na Avenida Universitária (no Setor Leste-Universitário). - No total foram aproximadamente 1000 fotos, de onde tivemos que fazer um filtro para selecionar as 60 fotos finais.

Diagramação do Livro: 1. Título: Para a escolha do tipo da letra queríamos uma fonte que inspirasse movimento, ação e, ao mesmo tempo, beleza. Encontramos uma tipografia que casava com o projeto e ainda combinava com outra mais dura, usada para textos corridos, e uma terceira, para títulos de abertura. 2. Cor da capa: Ao pesquisar livros de fotografia dos mais variados estilos, chegamos à conclusão do preto por ser uma cor muito bem utilizada em materiais gráficos deste porte pois é clássico e transmite seriedade e coesão. 3. Sobre o miolo do livro: Lidamos com uma apresentação gráfica simples, porém, moderna graças a uma disposição de fotos diferente do padrão, além das páginas de abertura de cada artista e a identidade visual gerada a partir da tipografia. 4. Utilização do Título do Livro Tem Arte no Sinal - Texto: Tem arte no Sinal - Cor: Branca = C: 0 ; M: 0 ; Y: 0 ; K: 0 - Tipografia e Tamanho: Helvetica Neuel T Com 25 Ultra Light (13, 80 pts) Jellyka Western Pricess (160 pts)


25

Rotis Semi Sans (11 e 15 pts) 5. Grid (grade) A identidade visual do livro, como um todo, confere coesão ao projeto e a grade de cada página está homogênea graças à disposição das fotos e textos. Estes, por sinal, estão dispostos ora na parte superior, na inferior. Seguem alguns exemplos de página: Figura 3 – Páginas 14 e 15 do Livro Tem arte no Sinal

Figura 4 – Páginas 22 e 23 do Livro Tem arte no Sinal

Figura 5 – Páginas 32 e 33 do Livro Tem arte no Sinal


26

Figura 6 – Páginas 44 e 45 do Livro Tem arte no Sinal

Figura 7 – Páginas 66 e 67 do Livro Tem arte no Sinal

As imagens acima servem para ilustrar a padronização adotada na diagramação do livro, que se orienta pelos valores abaixo: Medidas Largura: 300 mm Altura: 200 mm Sangria: 3 mm


27

CONSIDERAÇÕES

O jornalismo nos ensinou, desde o início da faculdade, que deveríamos ter um olhar diferenciado do que já estávamos acostumados. E seria esse olhar que nos daria oportunidade de notar aquilo que, muitas vezes, passava por despercebido. Esse trabalho foi uma experiência física daquilo que, muitas vezes, vimo na teoria. Percebemos que existia essa atividade (artística na rua) em alguns pontos da cidade de Goiânia mas que nosso olhar já estava acostumado a ignorar. Ao conseguirmos mudar o nosso próprio campo e modo de visão, temos a oportunidade de, como profissionais exercendo o jornalismo, expor isso para a sociedade. Através da fotografia pudemos registrar esse nosso olhar crítico sobre esse tipo de atividade desenvolvida pelas ruas. Além disso, tentamos deixar as imagens se apresentarem como independentes e transmitirem informação, mesmo que feitas a partir de nosso olhar. Essa ‘independência’ faz com que cada leitor passe a ver essa atividade de uma nova maneira.


28

ANEXO

Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São Paulo

COMO O CIRCO SURGIU? A HISTÓRIA DE UM UNIVERSO MÁGICO

As origens O circo é tão antigo que não se sabe, exatamente, quando e como começou. Acredita-se que as práticas circenses tenham se iniciado na China há cerca de 5 mil anos atrás, pois foram encontradas pinturas rupestres que mostram figuras de acrobatas, contorcionistas e equilibristas nessa região. Para os chineses a acrobacia, o contorcionismo e o equilibrismo serviam para treinar os guerreiros e desenvolver a sua agilidade, flexibilidade e força. Ao longo do tempo, outras qualidades como graça, beleza e harmonia foram incorporadas aos movimentos. Certa vez, por volta do ano de 108 a.C. o imperador promoveu uma série de apresentações acrobáticas para homenagear visitantes estrangeiros recémchegados às terras chinesas. A partir daí, foi determinado que seriam realizados espetáculos semelhantes, pelo menos, uma vez a cada ano no Festival da Primeira Lua. O malabarismo também é bastante antigo. Em uma tumba de um príncipe egípcio (construída entre 1994 e 1781 a.C.) existem pinturas e hieróglifos que mostram um grupo de mulheres fazendo malabarismos com bolas. Acredita-se que esta é a reprodução de malabarismo mais antiga já encontrada. As artes de Tebas, Grécia, Roma, Índia e Europa mostram malabaristas fazendo truques complexos. Anotações sobre malabaristas vêm desde 400 a.C. Uma antiga menção no Talmud descreve Rabbi Shimon ben Gamaliel, que podia fazer malabarismo com oito tochas de uma vez. Malabaristas também podem ser encontrados na antiga literatura irlandesa e norueguesa.


29

Malabaristas no Egito Fonte: http://pessoas.hsw.uol.com.br/malabarismo11.htm

No Egito também surgiu a profissão de domador, a fim de atender aos faraós, que gostavam de exibir animais ferozes em seus desfiles militares. Na Índia, as apresentações de contorcionismos e saltos faziam parte dos espetáculos sagrados, juntamente com danças, músicas e cantos. Na Grécia antiga, o contorcionismo era uma modalidade olímpica. Os "akrobatos" ou "akros", eram os indivíduos que dançavam e faziam jogos de equilíbrio nas mãos e nos pés. Ali, também, surgiram os sátiros, que divertiam o povo, e são considerados os primeiros palhaços. O ilusionismo (ou artes mágicas) também é bastante antigo, e sua origem está ligada às práticas religiosas. Muitas vezes, os truques de ilusionismo eram utilizados para demonstrar poder e impressionar as pessoas que freqüentavam os templos da Antigüidade. A idéia inicial de circo (e até mesmo seu nome) surgiu na antiga Roma. “Circus” (que significa “lugar em que competições acontecem”) era uma área dividida em pista, arquibancada e cavalarias onde ocorriam corridas de cavalos, combate de gladiadores, duelos entre homens e animais e duelos somente entre animais. Em 40 a.C. foi construído o famoso Coliseu, no lugar do Circo Máximo de Roma (surgido por volta de 70 a.C.) que foi destruído por um incêndio. O Coliseu tinha a capacidade para receber 87 mil espectadores. Lá eram exibidos animais exóticos, engolidores de fogo, gladiadores, etc. Os espetáculos constituíam um recurso de interesse político que tinha como objetivo agradar a população e evitar possíveis levantes. A isso se chamou de “política do pão e circo”.


30

Entre 54 e 68 d.C. este tipo de local passou a ser palco de espetáculos sangrentos, onde os cristãos eram atirados vivos às feras. Sem espaços nessas arenas, os artistas circenses passaram a se apresentar em mercados e praças.

O Coliseu de Roma Durantes séculos os artistas mambembes e saltimbancos exibiram seus truques, habilidades e malabarismos em feiras populares, praças públicas e entradas de igrejas. Na Idade Média, muitos artistas conseguiam lugares cativos nas cortes reais, como os célebres bobos da corte e mágicos. Estes últimos tinham como função, além do entretenimento, a orientação sobre o futuro e nas decisões importantes que poderiam ser tomadas. Houve um período em que mágicos e malabaristas eram considerados bruxos e eram queimados vivos. A figura mais conhecida do palhaço teve como base o bobo shakesperiano e foi influenciado pela Comédia dell´Arte italiana, surgida no século XVIII.

No século XVIII era comum ver vários grupos de artistas percorrendo a Europa, especialmente a Inglaterra, a França e a Espanha. Eram comuns, também, as exibições de destreza a cavalo, combates simulados e provas de equitação.

O circo como nós conhecemos

Por volta de 1770, um oficial da cavalaria britânica chamado Philip Astley começou a circular pelo interior da Inglaterra fazendo demonstração com seu cavalo. Ele descobriu que, se ficasse de pé sobre seu cavalo enquanto o animal galopava em círculos, a força centrífuga o ajudaria a manter o equilíbrio. Foi assim que ele


31

inaugurou o primeiro circo moderno: o Astley´s Amphitheatre, um suntuoso espaço fixo que reunia um picadeiro coberto com uma arquibancada próxima. Em princípio, Astley havia organizado somente um espetáculo militar eqüestre, mas logo percebeu que precisava de outros tipos de atrações para segurar o público. Por essa razão, acrescentrou ao espetáculo números com saltimbancos, equilibristas, saltadores, malabaristas e palhaços. Havia um palhaço que, originalmente, era o soldado do batalhão e por ter sido um camponês, acabou sendo o clown ("caipira" em inglês). Ele não sabia montar, entrava no picadeiro montado ao contrário, caía do cavalo, subia de um lado, caía do outro, passava por baixo do cavalo. Como esse número fazia muito sucesso, começaram a se desenvolver novas situações. Este primeiro circo funcionava como um quartel: os uniformes, o rufar dos tambores, as vozes de comando para a execução dos números de risco. O próprio Astley dirigia e apresentava o espetáculo, criando assim, a figura do mestre de cerimônias. Foi modelo para os demais circos que começaram a surgir depois dele, em vista de seu enorme sucesso. O termo circus foi utilizado pela primeira vez em 1782, quando o rival de Astley, Charles Hughes, abriu as portas do Royal Circus. Em princípios do século XIX havia circos permanentes em algumas das grandes cidades européias. Existiam, além disso, circos ambulantes, que se deslocavam de cidade em cidade em carretas cobertas.

O circo nos Estados Unidos

Cartão postal do início do século XX Fonte: http://www.brasilcult.pro.br/estudos/circo/circo02.htm


32

John Bill Ricketts, aluno inglês de Hughes, levou o circo aos Estados Unidos em 1792, tendo excursionado pelo nordeste americano. Seu circo foi destruído em um incêndio, fazendo-o retornar para a Inglaterra, aonde não chegou, pois o navio em que viajava afundou em uma tempestade. William Cameron Coup foi o primeiro a fazer um espetáculo circense de grandes dimensões, para uma platéia de mais de mil pessoas, em 1869, com espetáculo em dois picadeiros simultaneamente. Dois anos depois, associou-se a Phineas T. Barnum, um famoso apresentador, e abriram um grande circo em Nova York. A propaganda dizia que era “o maior espetáculo da Terra”. Em 1881, Barnum juntou-se a James Anthony Bailey, fazendo surgir um circo ainda maior, o Barnum and Bailey, com três picadeiros simultâneos. Em 1884, surgiu a poderosa dinastia circense dos irmãos Ringling, que absorveram, entre outras, a companhia de Barnum e Bailey, e se tornaram a maior organização itinerante do mundo. No entanto, depois da II Guerra Mundial, os custos de montagem e transporte tornaram inviável o traslado de semelhante estrutura. Elementos como animais selvagens domesticados, números de variedades, trapézio, corda bamba e música, que foram incorporados ao longo do tempo nos diversos circos que surgiram, tornaram-se marcas clássicos do que se convencionou como circo tradicional.

O circo no Brasil

No Brasil, a história do circo está muito ligada à trajetória dos ciganos no país, e se iniciou por volta do século XVIII quando fugiam da perseguição a que eram submetidos, na Europa. Os ciganos, cuja ligação com as artes circenses é muito grande, viajavam de cidade em cidade com suas tendas e aproveitavam as festas religiosas para exibirem sua destreza com cavalos, seus truques de ilusionismo e outras exibições artísticas. Procuravam adaptar suas apresentações ao gosto do público de cada localidade e o que não agradava era imediatamente tirado do programa.


33

Dessa forma, o circo brasileiro vai formatando uma personalidade própria. As suas características itinerantes desenvolveram no final do século XIX. Geralmente os grupos desembarcavam em um porto importante, faziam seu espetáculo e partiam para outras cidades, descendo pelo litoral até o Rio da Prata, indo para Buenos Aires. Visavam principalmente às classes populares. O protagonista dos espetáculos era o palhaço, sendo que o seu sucesso correspondia ao sucesso do circo.

O palhaço brasileiro foi adquirindo características próprias. Ao contrário do europeu, que se comunicava mais pela mímica, o brasileiro era falante, malandro (com humor picante), conquistador e possuía dons musicais: cantava ou tocava instrumentos.

Divulgação dos personagens criados por Benjamim de Oliveira, famoso palhaço cantor brasileiro do século XIX Fonte: Recordando a MPB (http://cifrantiga.wordpress.com/category/circo/page/2/)

As melhores atrações dos circos brasileiros, no final do século XIX e no início do século XX, eram os palhaços cantores. Foram eles, usando seus picadeiros itinerantes, os pioneiros na divulgação da música popular. Um dos mais famosos palhaços cantores foi Benjamim de Oliveira (1870 – 1954), que também era ator, instrumentista e compositor. Quando trabalhou no Circo Spinelli, em 1893, Benjamim encenou quadros cômicos extraídos de operetas e peças burlescas. Conjugar teatro


34

e circo abriu caminho para a popularização de clássicos, como Otelo de Shakespeare. Nos entreatos cantava lundus, chulas e modinhas.

O circo atualmente A partir da metade do século XX o circo começou a sofrer uma crise em sua popularidade, por conta da concorrência com outros meios de entretenimento e de comunicação de massa (como a televisão, o vídeo, etc.). Esse abalo fez com que os circos mudassem suas formas de administração e mesmo de apresentação dos espetáculos. Surge um novo movimento, que pode ser chamado de Circo Contemporâneo. Não há uma data precisa do seu surgimento, mas pode-se dizer que o movimento começou no final dos anos 70, em vários países simultaneamente. Na Austrália, com o Circus Oz (1978), e na Inglaterra, com os artistas de rua fazendo palhaços, truques com fogo, andando em pernas de pau e com suas mágicas. Uma das mudanças sentidas foi em relação ao processo de formação dos artistas circenses. Surgiram escolas de circo que formavam pessoas que não eram nascidas de tracionais famílias circenses, mas que tinham interesse em fazer parte das trupes. Na França, a primeira escola de circo é a Escola Nacional de Circo Annie Fratellini. Annie era descendente da maior família de palhaços franceses, os Fratellini. A escola surge com o apoio do governo francês, em 1979. Ligados à escola ou não, começam a surgir vários grupos. No Canadá, os ginastas começaram a dar aulas para alguns artistas performáticos e a fazer programas especiais para a televisão e em ginásios em que os saltos acrobáticos eram mais circenses. Em 1981, criou-se a primeira escola de circo para atender à demanda dos artistas performáticos. Em 1982, surge em Québec o Club des Talons Hauts, grupo de artistas em pernas de pau, malabaristas e pirofagistas. É esse grupo que em 1984 realiza o primeiro espetáculo do Cirque du Soleil. Em decorrência do grande sucesso no Canadá, eles recebem apoio do governo para a primeira turnê nos Estados Unidos. A segunda turnê, em 1990, é assistida por 1.300.000 espectadores no Canadá e excursiona por 19 cidades americanas. Surge a grande empresa de espetáculos, que


35

atualmente está em cartaz com oito espetáculos diferentes no mundo, em três continentes, com mais de 700 artistas contratados. Voltando um pouco na história, é importante mencionar a influência da exURSS. Em 1921, o novo governo soviético resolve criar uma escola de circo e convidam o prestigiado diretor de teatro Vsevolod Meyherhold para dirigi-la. O contato entre os tradicionais do circo e a vanguarda do teatro resulta na criação de uma escola que coloca o circo num patamar de arte. Dança clássica e teatro fazem parte do currículo. É criada uma forma de espetáculo com temas e uma apresentação inteiramente novas. São criados novos aparelhos, diretores são chamados para dirigir os espetáculos, músicos fazem composições especiais e sob medida. A primeira escola que se instalou no Brasil chamava-se Piolin, em São Paulo, instalada no estádio do Pacaembu (1977). Em 1982, surgiu a Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro, onde jovens de todas as classes sociais têm acesso às técnicas circenses. Atualmente, as técnicas circenses extrapolam os limites das lonas dos circos. Escolas de circo, academias, colégios e centros culturais ensinam as técnicas para um número cada vez maior de interessados, mesmo que muitos destes não desejem se apresentar em espetáculos exatamente. O que atrai, principalmente os mais jovens, é o lado lúdico das habilidades, assim como o benefício das atividades físicas que elas podem proporcionar. Muitas apresentações de música, de dança e de teatro incorporam cenas com artistas circenses. Enfim, neste século XXI o circo ainda consegue se reinventar e atrair uma infinidade de novos fãs.

Fontes: - Dia do Circo – IBGE Teen

http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/datas/circo/home.html - História do circo

http://www.arcadovelho.com.br/Circo/HISTORIA%20DO%20CIRCO.htm - História do Circo

http://www.funarte.gov.br/novafunarte/funarte/circo/circohistoria.php


36

- O malabarismo através da história

http://pessoas.hsw.uol.com.br/malabarismo11.htmc - Guia dos Curiosos

http://guiadoscuriosos.ig.com.br - E o palhaço o que é? (Isto É on-line de 10/09/2003) http://www.terra.com.br/istoe/1771/comportamento/1771_e_o_palhaco_o_que_e.htm

- Recordando a MPB

http://cifrantiga.wordpress.com/category/circo/pa ge/2/ ============================================================ PALHAÇOS BRASILEIROS FAMOSOS

Piolin (Abelardo Pinto) Era filho dos proprietários do Circo Americano. Em 1922, foi reconhecido pelos intelectuais da Semana de Arte Moderna como um artista genuinamente brasileiro e popular. Seu apelido, que quer dizer barbante, foi dado por um grupo de espanhóis com os quais contracenou em um espetáculo beneficente, que o achavam muito magro e com pernas compridas. Benjamin de Oliveira É considerado por muitos o "Rei dos Palhaços do Brasil". Natural de Pará de Minas (MG), fugiu de casa para se dedicar ao circo quando jovem. Virou palhaço porque o que trabalhava em sua companhia adoeceu e não havia ninguém para substituí-lo. Acabou fazendo muito sucesso, sendo homenageado até pelo então presidente Floriano Peixoto.

Carequinha (George Savalla Gomes) Sua mãe era trapezista e sentiu as dores do parto enquanto se apresentava. Começou a trabalhar como palhaço com 5 anos de idade. Apesar do apelido, que foi dado por seu padrasto, tem uma vasta cabelereira. Foi o primeiro artista de circo a


37

trabalhar na televisão (TV Tupi). Também gravou discos e participou de diversos filmes. Arrelia (Waldemar Seyssel) Entrou pela primeira vez em uma arena de circo com apenas seis meses de idade, para participar de um quadro que precisava de um bebê chorão. Paranaense, era formado em Direito. Virou palhaço a contragosto. Os irmãos e o pai o maquiaram e colocaram na arena à força, e ele, com raiva, chutou a primeira pessoa que estava na arena. O homem partiu atrás do palhaço e o público caiu na gargalhada. Arrelia morreu no dia 23 de maio de 2005, aos 99 anos, vítima de uma pneumonia.

Fonte: Guia dos Curiosos (http://guiadoscuriosos.ig.com.br/index.php?cat_id=49940&pag_id=107104)


38

REFERENCIAS

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Barueri, SP: Manole, 2009. SONTAG, Susan. Sobre Fotografia. Estados Unidos: Farrar, Straus & Giroux, 1977. (Tradução: Rubens Figueiredo. – São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Título Original: On photography) MAURENTE, Vanessa Soares. A experiência de si no trabalho nas ruas através da fotocomposição. Porto Alegre, 2005. Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Psicologia Social e Institucional. (Obtido online através do endereço: http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/7106/000539313.pdf?sequence=1. Acessado em: 28/11/2013). FORNI, João José. Ensaio sobre fotojornalismo e Análise Documentária. Artigo Publicado na Revista Universitas//Comunicação, Centro Universitário de BrasíliaUniCEUB, FASA, Vol. 3, n. 3, Brasília, abril de 2005. (Endereço online: http://jforni.jor.br/forni/files/A%20foto%20do%20dia%20%20ensaio%20sobre%20fotojornalismo%20e%20an%C3%A1lise%20document%C3 %A1ria.pdf) Como o circo surgiu? A história de um universo mágico. Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São Paulo. Obtido em: http://www.bibliotecavirtual.sp.gov.br/especial/docs/200803-historiadocirco.pdf. Acessado em: 28/11/2013. Reportagem: Muitos jovens vão à universidade com a intenção de abrir um negócio. Exibida pelo Jornal Nacional da Rede Globo e acessada no site G1.com da mesma rede no dia 27/05/2013. Disponível em: http://g1.globo.com/jornalnacional/noticia/2013/05/muitos-jovens-vao-universidade-com-intencao-de-abrir-umnegocio.html. Acessado em: 28/11/2013. SOUSA, Jorge Pedro. A teoria do agendamento e as responsabilidades do jornalista ambiental: uma perspectiva ibérica. Universidade Fernando Pessoa e Centro de Investigação Media & Jornalismo. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/sousa-jorge-pedro-teoria-do-agendamento.pdf. Acessado em: 28/11/2013.


39

BELO, Eduardo. Comunicação.

Livro-reportagem.

São

Paulo:

Contexto,

2006.

Coleção

BAPTISTA, Eugênio Sávio Lessa. Fotojornalismo Digital no Brasil: A imagem na imprensa da era pós-fotográfica. Dissertação para Mestrado em Comunicação e Cultura. Rio de Janeiro, ECO/ UFRJ, 2001.

Tcc final renan e luiza  
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you