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TURISMO

❚ REPORTAGEM DE CAPA Litoral norte de São Paulo guarda preciosidades como a Praia do Bonete, reduto de uma comunidade de caiçaras e onde a vida passa devagar, no ritmo das matas e das marés

ILHABELA VALE UM CONTO…

“Amanhã à noite o tempo muda. O mar vai ficar grosso e, para atravessar, só até o meio da tarde”. AprevisãodocanoeiroDidico,que há 30 anos vive da pesca e da travessia entre o Canal de São Sebastião e Ilhabela, litoral norte de São Paulo, soou como um preceito. No fim do dia seguinte, o tempo escureceu, a chuva veio e nenhum boneteiro saiu ao mar. A Praia do Bonete é uma das mais de 40 que formam Ilhabela, município-arquipélago a 135 quilômetros da capital São Paulo. Fica ao sul da ilha, na costa voltada ao Oceano Atlântico, e pode ser acessada de barco – os boneteiros oferecem o serviço, saindo de São Sebastião ou da Ponta do Sepituba, cobrando de R$ 50 a R$ 80 por pessoa – ou pela trilha que rompe a mata atlântica, passando por duas cachoeiras: Lage e Areado. A caminhada de 11.740 metros tem grau de dificuldade elevado e dura em média quatro horas. O Bonete é a praia mais longa dailha,commaisde600metrosde extensão de areia e árvores chapéu-do-sol, nas quais os turistas se aproveitam da sombra e os boneteiros se estendem à sesta. Em uma das pontas, desemboca o rio Nema,queospescadoresusampara manobrar seus barcos. As praias da costa oceânica, por serem de difícil acesso, se tornaram rota de turismo ecológico, de pesquisadores e surfistas. Os 27.025 hectares de preservação de mata atlântica representam 85% da Ilhabela. A água vem da montanha e move o gerador de energia que abasteceacomunidadedecercade 90 casas – 50 de moradores e as mais recentes de veranistas –, bares, restaurantes e pousadas. A maior parte das construções, de pau a pique, se aglomera em uma mesma ruela, que faz a curva e sai do outro lado da praia, passando pela Capela de Santa Verônica, onde os pescadores pedem proteção. O Bonete é berço de uma tradicional comunidade caiçara, que começou a se formar no século 16, resultado da miscigenação de nativos e piratas europeus, principalmente espanhóis e britânicos, que abandonaram o ofício e se fixaram no local. O caiçara, palavra de origem tupi usada para designar os habitantes de zonas litorâneas, do Sul fluminense ao Sul do Paraná, vive da pesca e agricultura de subsistência. “A gente nunca saiu daqui, apesar de ficar cada vez mais difícil viver longe da cidade. Meus avós, pais e irmãos nasceram de parteira e a vida gira em torno do que o mar nos oferece, seja trabalho ou alimento”, conta Débora Santos de Souza, de pouco mais de 30 anos e mãe de três filhos, que carrega o sobrenome de um dos piratas que povoaram a praia: Guilherme de Souza, de origem desconhecida, que pilotava um barco a vela, e a família Santos, que se

MARCO YAMIN/DIVULGAÇÃO

iniciou com o casamento de um congo com uma parteira. Como a documentação é escassa, a cultura e história da praia são transmitidas na base do boca a boca.

TRADIÇÃO E MODERNIDADE Emboraadistânciasejalongaeoacesso à cidade difícil, os mais jovens mantêmforterelaçãocomacultura urbana. Camisa do atacante Neymar, do Santos, parece uniformeobrigatórioentreosmoleques. Enquanto Débora conversava, seu filho, Walter, de nove anos, ficava admirado com a câmera e pedia, a cada foto, para se ver no visor. Os meninos da vila passam a noite de olho nos notebooks, mesmo que a internet, por meio de hotspots, sejalenta.Umadaslanchonetes,com placaamarelaevermelha,sustenta nome sugestivo: McBonets. Os mais velhos vivem da pesca. E, como na história de Ernest Hemingway (O velho e o mar, 1952), tratamomarcomdevoçãoetiram dele o sustento, com persistência. Pescam enchova – peixe de carne saborosa e fácil de pegar –, sardinha e tainha, entre outros. Os peixes são servidos com a tradicional farinhademandioca,fabricadapelas mulheres da vila. Os caiçaras são, originalmente, um povo de origem católica, herança da colonização portuguesa. Háváriasfestastradicionaisaolongo do ano, como a homenagem à Santa Cruz, em maio, e da Santa Verônica, em julho, que atrai muitos turistas. Os mais velhos saem pela ilha, como em uma folia de reis, entoando antigos cantos. Um deles eu aprendi antes de sair. “Ilhabela vale um conto/ O Perequê conta cem/ O Bonete vale tudo/ pela beleza que tem”.

Exuberância da vegetação, formada por árvores chapéu-de-sol, antídoto contra o calor, completa a beleza do mar RENAN DAMASCENO/EM/D. A PRESS

RENAN DAMASCENO

OS CAIÇARAS A palavra caa-içara é de origem tupi: caa (galhos, paus ou mato) e içara (armadilha). O termo é usado para denominar as comunidades de pescadores tradicionais da região litorânea do Paraná, São Paulo e Sul do Rio de Janeiro. As primeiras comunidades datam do século 16, da miscigenação de nativos e piratas europeus. Mais tarde, receberam influências de negros libertados da escravidão. Os caiçaras evoluíram aproveitando os recursos naturais, que resultou numa grande intimidade com o ambiente. Povo anfíbio, entre o mar e a floresta, essas pequenas comunidades tentam ainda hoje preservar seus valores de grupo. Seus territórios – praias e enseadas – são de difícil acesso. Atualmente, estas terras são alvo da especulação imobiliária, por causa de sua beleza e excelente estado de conservação.

A maioria dos boneteiros, vive da pesca mas há aqueles que descobriram no transporte de turistas nova fonte de renda RENAN DAMASCENO/EM/D. A PRESS

Serviço BONETE Pousada Canto Bravo Diárias casal a partir de R$ 175 - com café ONDE FICAR da manhã (12) 7815-7200 ou 3896-5111 www.pousadacantobravo.com.br Porto Bonete Diárias casal a partir de R$ 190 + 10% de taxa - com café da manhã (12) 9162-3327 ou 8133-9915 www.portobonete.com.br

Para chegar ao paraíso tropical é preciso uma caminhada de quatro horas e muita disposição


Ilhabela vale um conto