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TEXTO E ILUSTRAÇÕES

RENATO MAROJA


indice Apresentacao 05

O sOno do rio 07

O assovio de Matita 15

A alamoa 25

A boca do Quibungo 33

O poco de zuruti 41


Apresentacao

É comum aos mitos e lendas e também a seus personagens mitológicos a educação por base no medo, como ocorre por exemplo no caso da Cuca, que leva as crianças que não dormem. Também é comum sempre ter um meio, muitas vezes através de suborno com fumo, de afastar esses seres fantásticos para que eles não façam nenhum mal. Mas e se por acaso, alguém que desconhecesse esses métodos, se defrontasse com esses mitos ? O que aconteceria ? Com base nessa pergunta que é escrito esse livro. Esses mitos se tornariam verdadeiras histórias te terror onde o ser mitológico faria à sua vítima tudo que estivesse a seu bel-prazer. Para dar mais realidade, foram escolhidas lendas pouco conhecidas, que em geral têm seus relatos somente descritivos. Assim foram criadas narrações totalmente novas, que estão a espera de sua leitura. Bom divertimento!

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O sOno do rio

“Uma vez a cada ano bem a noite, o velho chico dorme Água e animais param diante silêncio enorme nenhum movimento é feito até que ele acorde.”

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Esse primeiro conto que vou contar pra

vocês é a história de um rapaz chamado Serafim. Nas regiões ribeirinhas do velho chico esse conto é bastante conhecido e muitos dizem que aconteceu de verdade. Serafim era pescador. Saía todo dia para pescar e sempre voltava com o barco cheio de peixe para vender e também alimentar a família. Um dia, porém, Serafim não conseguiu pegar um peixe sequer. Ficou a tarde jogando sua rede, mas nada. E mesmo assim continuou lá, pois não queria desapontar seu pai, que o tinha ensinado a pescar com muito carinho. O sol já havia se posto faz tempo e o rapaz já estava quase desistindo, quando surge um outro pescador que cruza seu caminho com o barco carregado de peixes. Ele conta que estava pescando perto da cachoeira rio acima, e segue seu caminho de volta para casa. Serafim, então, resolve ir nesse tal lugar, lançar uma última vez sua rede para não voltar para casa de mãos vazias. A noite daquele dia estava estrelada como nenhuma outra, sem nenhuma nuvem. O que para Serafim era ótimo, pois podia deslizar seu barco -08-


pelo Rio São Francisco sertão adentro, sem risco de se perder. Já era quase meia noite e o rapaz começou a se sentir cansado. Mas não era um cansaço normal, daqueles que você pode lutar contra. Este veio subitamente, e tirou todas as forças de Serafim, que não teve outra opção senão se colocar de repouso na popa do barco. Fechou os olhos para descansar mas sentiu algo estranho. Era como se o barco continuasse em movimento, contra a correnteza do rio, mesmo ele tendo parado de remar. Nesse momento bateu um desespero em Serafim, pensou logo no pior. Mas não podia fazer nada, o cansaço já tinha tomado conta de seu corpo de modo que modo que não conseguia mexer nem os braços, nem as pernas. E não muito tempo depois perdeu a consciência, entrando em um sono profundo. Quando finalmente abriu os olhos a primeira coisa que avista é a lua, imensa pairando sobre seu barco. Nota, pelo barulho, que foi trazido bem pra perto da cachoeira que era seu destino. A sorte finalmente parece estar lhe sorrindo, e Serafim se apressa em jogar sua rede. Logo no primeiro lance, a rede volta repleta de peixes. “Finalmente!” exclama o rapaz com satisfação. Enquanto tirava os pei -09-


xes da rede algo estranho acontece. A lua e as estrelas brilham cada vez mais intensamente. Faz-se um evento fantástico: o velho chico e suas margens ficam encobertos por uma manta de luz dos mais diferentes tons de azul. Serafim fica sem palavras, o fenômeno é simplesmente lindo. Mas a beleza não se dava unicamente por causa do brilho azul. Não. Havia mais: um silêncio acolhedor se instalou no local, daqueles capazes de acalmar os corações mais retumbantes, pelo menos foi assim que Serafim se sentiu. Não era que o rapaz tivesse ficado surdo, mas apenas não havia barulho para ser escutado. Ao seu redor, nada se movia. O vento não soprava, o rio não corria e até os animais e insetos, cujos barulhos o acompanharam a noite toda, pareciam ter ficado quietos. Mais impressionante era a cachoeira: suas águas pararam em pleno ar, feito magia. O rio tinha se tornado um imenso espelho d’água, com sua superfície totalmente plana, refletindo tudo que estava em cima dele. Era como se Serafim estivesse flutuando no próprio infinito, com um céu em cima e outro embaixo. Perto de onde estava, ali do lado do barco, um brilho chamou a atenção do rapaz. Eram duas estrelas, que brilhavam mais que todas as outras. -10-


Curioso, o rapaz se agachou. De perto as estrelas pareciam pedras preciosas. Não pensou duas vezes e mergulhou a mão para tentar alcançá-las. Quando sua mão atravessou a água estranhamente não produziu qualquer ondulação nela. Era como se estivesse no limite entre dois mundos, pois também não sentia a água entre seus dedos. Tão rápido quanto o movimento de Serafim foi o sumiço das safiras. E antes que pudesse retirar a mão da água surge um braço negro, cheio de escamas, que o agarra e puxa para dentro do rio. Do outro lado do rio a claridade se mantém, é possível ver os peixes, estáticos. Mas ali nem tudo era estático: almas dos barqueiros e pescadores que haviam morrido no velho chico vagavam ali, a espera do canto da mãe d’água para enfim seguir seu caminho até o céu. E do lado de Serafim se encontra uma figura negra, a mesma que o puxou para lá. Era um homem enorme, de mais de dois metros, tinha pés como os de um pato e barbatanas e escamas como os peixes. Seu toque era frio, aterrorizador. E seus olhos, eram olhos de um azul brilhante como nenhum outro. Aí estavam as pedras preciosas que Serafim almeijou. Depois de um momento de silêncio, a figura bizarra abriu a boca e falou: -11-


“Serafim, você perturbou o sono do rio. Como castigo sua alma vagará por esse mundo até quando o rio voltar a repousar. Quanto ao seu corpo, ele está livre para se despedir de sua família.“ E com um movimento só separa corpo e alma de Serafim. A alma se desespera mas não tem forças e é levada para a correnteza. O corpo segue de volta para o barco, mecanicamente, como se estivesse sendo controlado. E rema. Rema de volta para sua casa. Na margem do rio perto de casa já está a família, preocupada com Serafim. Quando o rapaz se aproxima todos suspiram aliviados, mas Serafim para de remar. Sem sua alma seu corpo não tem o porque de existir. O corpo então mergulha na água e afunda em busca da alma perdida e depois desse dia, nunca mais é visto.

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À noite no sertão