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imagemrp NOVEMBRO / 2014 | UNISINOS | SÃO LEOPOLDO/RS

DEMOCRACIA 50 Anos do Golpe Militar l 100 Anos de Relações Públicas


CARTA DA REDAÇÃO

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Erica Hiwatashi Professora orientadora

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RP na Ditadura Militar A história oficial recontada

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Pra frente Brasil Da Copa da repressão à Copa das Copas

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Anos de chumbo As empresas e a Ditadura

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Memória 50 anos depois, quem se importa?

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História Relações Públicas nas Forças Armadas

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Cerimonial e Protocolo Rigor que vem do Regime Militar

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Lado social Uma outra Relações Públicas é possível?

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Música Estratégia de resistência contra a ditadura

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este ano trabalhamos com dois momentos simbólicos na Revista Imagem RP: os 50 Anos do Golpe Civil-Militar e os 100 Anos da Profissão de Relações Públicas no Brasil. Não há relação direta entre esses momentos, aparentemente. Mas a turma de Redação em Relações Públicas IV 2014/1 trouxe questões para a reflexão aos alunos e professores do Curso. Ao entendermos a nossa história, o que foi feito no passado, conseguimos entender o presente e mudar os rumos futuros. Dos 100 Anos de Profissão de Relações Públicas, apenas nos últimos 30 anos é que a carreira e a atividade tiveram reconhecimento. Hoje o mercado de comunicação empresarial e institucional está em franca expansão e demandando profissionais que atendam os desafios de uma sociedade informada e globalizada. Por outro lado, com os 50 Anos do Golpe Civil-Militar, retomamos e recontamos o que se passou naquela época e suas consequências nas gerações até hoje. E Relações Públicas, apesar de ainda incipiente na época com poucos profissionais atuantes, foi um dos protagonistas na construção da imagem manipulada sobre o Regime Militar. Apesar de pouco explicado ou mesmo comprovado, houve a participação das Relações Públicas num regime totalitário e torturador, e entendemos que isso jamais deve se repetir. Relações Públicas não pode servir a propósitos contra a sociedade e à cidadania. Entendemos que nossa atividade só existe em sociedades democráticas e com práticas de transparência e para promoção das relações éticas, respeitosas e verdadeiras entre as organizações e seus públicos. Cada aluna desta turma, cada uma de seu jeito, encarou o desafio e buscou trazer uma reflexão, que ora associa RP ao tema Ditadura, ora a Ditadura e nossa história. Esperamos que o trabalho dedicado e experimental de nossas alunas traga alguma contribuição ao curso, à formação dos estudantes de Relações Públicas e ao desenvolvimento de nossa atividade e profissão.

ÍNDICE


Relações Públicas na Ditadura Militar

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A história oficial recontada


MELISSA VILLANOVA TAMIRES REBICKI

ARQUIVO / EBC

nhum, pelo contrário. Os Centros de Comunicação Social das três áreas (Exército, Marinha e Aeronáutica) foram criados. ste ano a atividade profissional Naquela época, houve uma valorização, das Relações Públicas completa aproximação e abertura maior das Forças 100 anos de história no Brasil. A Armadas com os profissionais de comunicoincidência é que também comcação”. Assad afirma que “várias atividapletamos 50 anos do golpe militar. Aprodes que desenvolvemos foram realizadas veitamos a edição da revista Imagem RP em conjunto com militares, e nunca tivepara lembrarmos quais marcas deixadas mos dificuldades ou entraves que pudesnesses “anos de chumbo” adentraram na sem prejudicar nossas atribuições. Pelo história das Relações Públicas no Brasil. contrário, sempre foram extremamente Ao longo dos 21 anos da Ditaprofissionais com os civis”. dura Militar, as Relações Públicas A imagem de RP associada foram conhecidos pela atuação ao Regime Militar não permana comunicação governamental nece nos dias de hoje, afirma controlada pela Assessoria EspeKunsch. Em sua opinião, “houve cial das Relações Públicas - AERP. uma grande evolução de lá para “O fato mais grave é que foi um cá. Há uma nova percepção e as instrumento de manipulação de práticas de hoje nos órgãos púinformação para manutenção do blicos nos níveis federal, estaduregime vigente. O que se fazia al e municipal e nas três esferas era uma propaganda ideológica de poderes é bem diferente do persuasiva para as massas, por passado.” Kunsch é categórica: meio, sobretudo, de programas “as verdadeiras Relações Públicas de televisão. A AERP não estava são possíveis se forem praticadas a serviço da sociedade e do inna sua plenitude na democracia, teresse público, mas do regime com o fortalecimento da societotalitário da época”, é o que dade civil.” afirma Margarida Maria Krohling Por fim, Kunsch apresenta Kunsch, renomada e pioneira pescomo deve ser hoje a atuação das quisadora brasileira de Relações Relações Públicas na promoção da Públicas e professora da Uniververdadeira comunicação pública. sidade São Paulo - USP, que conDiz ela, “alguns princípios são funcedeu entrevista à Revista sobre damentais para nortear a comunio tema dessa edição. cação na administração pública. A Kunsch lembra que apesar do instituição pública/governamental Regime Militar, ocorreram avandeve ser concebida como instituiços importantes para a formação aberta, que interage com a soção de profissionais graduados na ciedade, com os veículos de comuépoca, como em 1966, quando a nicação e com o sistema produtivo. “Escola de Comunicação e Artes Ela precisa atuar como um órgão da USP cria o primeiro curso de que extrapola os muros da buroRelações Públicas. Outro marco cracia para chegar ao cidadão, em aconteceu em 1967 com a fundaparceria com os meios de comuniMargarida Kunsch: “as verdadeiras Relações Públicas ção da Escola Superior de Relacação. É a instituição que ouve a são possíveis se forem praticadas na sua plenitude na ções Públicas -Esurp, em Recife, sociedade, que atende às demandemocracia, com o fortalecimento da sociedade civil” Pernambuco”. E ela destaca que das sociais, procurando, por meio na época “os cargos de relações da abertura de canais, amenizar os públicas nos governos militares problemas cruciais da população, eram ocupados tanto por militares como veio a regulamentação da profissão. Tudo como saúde, educação, transportes, mopor civis que conseguiram o registro profisfazia parte de uma questão de seguranradia e exclusão social”. Kunsch completa: sional provisionado, já que até o momento ça nacional”. “tudo isto está na teoria e na essência da não haviam cursos superiores na área”. Já na opinião pessoal de Maria Luísa área de relações públicas. Os princípios e Assim, apesar de utilizarem do nome e Delgado Assad, Secretária-Geral do Confundamentos das relações públicas na esdarem fama equivocada as Relações Púselho Federal de Relações Públicas (CONfera governamental são os mesmos que são blicas, Kunsch diz que “certamente estes FREP), com o vínculo da atividade com a defendidos para a prática da comunicação cargos foram ocupados por civis e militaditadura militar “não houve impacto nepública em geral”.

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res não formados. Vale lembrar que quem dirigiu a AERP e a ARP foram generais”. A visão da profissão de Relações Públicas teria sido deturpada durante a ditadura militar. No julgamento de Kunsch, “os fatos ocorridos justificam a fama com nome de Relações Públicas. Fazia-se propaganda política que se caracterizava como uma ‘lavagem cerebral’. As assessorias de Relações Públicas estavam a serviço da manutenção do regime. Justamente no auge da ditadura (1867-1868)

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Pra frente Brasil

Da Copa da repressão à Copa das Copas CAROLINE MACIEL MARIANE ARAÚJO

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ano de 1970 ficou marcado pela conquista do tricampeonato mundial, pela seleção brasileira de futebol. Ao mesmo tempo em que a população comemorava a conquista do título, outros acontecimentos tumultuavam o país. No auge do Regime Militar linha dura, presidido pelo general Emílio Garrastazu Médici, o país vivia um momento de grande repreensão e censura, em que as pessoas que desafiavam o governo eram torturadas e assassinadas. Mas os militares se preocupavam em manter as aparências, um indício disso foi a música “Prá frente Brasil” que virou um hit, sendo muito utilizado pela mídia colaboracionista da época. A letra desta música demonstrava, aparentemente, um país alegre e unido. Para isso, foram utilizadas estratégias para promover o presidente e os o crescimento econômico do Regime Militar. No artigo “Brasil, modelo 70: futebol e política na Revista Veja em 1970” de Lívia dos Santos Chagas, publicado em 2009, a autora afirma que “através da propaganda governamental, desenvolvida pela Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP), eram divulgados ideais de identidade e participação nacional”. A promoção do regime funcionava. “Aos 19 anos, eu era soldado da 11ª Companhia de Comunicações Mecanizadas – CIA COM de Santiago/RS. Me lembro que na Copa todos paravam para assistir os jogos. Era colocada uma TV nos alojamentos e era incentivado que todos olhassem e apoiassem a seleção”, lembra Manoel Amado Alves dos Santos, 63 anos, atualmente aposentado. Santos comenta que naque-

ARQUIVO / AP


ARQUIVO / AE

Ao lado de Pelé, presidente Médici participa das comemorações do tricampeonato conquistado pela Seleção, em 1970. À esquerda, Fernandinho lamenta mais um gol sofrido no fatídico jogo Brasil 1 x 7 Alemanha. A equipe adversária sagrou-se campeã da Copa de 2014

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REPRODUÇÃO / TV GLOBO

la época as pessoas não podiam se manifestar e os militares não podiam nem andar a paisana, tinham que estar com roupas militares mesmo que não estivessem de serviço. Hoje vivemos numa democracia. As pessoas podem expressar suas opiniões. Em meio a os preparativos para a Copa do Mundo no Brasil, o país viveu um momento importante. A população foi às ruas reivindicar seus direitos por transporte público de qualidade, melhor educação, saúde, segurança, entre outras. Para a estudante Melissa Villanova, ex-moderadora de grupos ligados ao movimento “Vem pra rua” nas redes sociais, hoje vivemos em duas frentes de manifestações. A primeira, contra a Copa, que acreditava que ela não deveria acontecer, e, na segunda, que considerava os valores investidos muito abusivos, e que ainda acredita que a manifestação deve acontecer nas eleições de outubro. “O povo mais instruído não é atingido. Já o alimentado da política ‘pão e circo’ vai esquecer isso”, afirma a estudante. Às vésperas do Mundial, a presidente Dilma Rousseff fez seu pronunciamento em rede nacional com uma dose de motivação aos brasileiros e uma justificativa a todos que contestavam as dificuldades enfrentadas no país. “Desde 2010, quando começaram as obras dos estádios, até 2013, o governo federal, os estados e os municípios investiram cerca de 1 trilhão e 700 bilhões em educação e saúde. Repito: 1 trilhão e 700 bilhões de reais. Ou seja, no mesmo período, o valor investido em educação e saúde no Brasil é 212 vezes maior que o valor investido nos estádios.”, disse a presidente. E finaliza a defesa: “A Copa não representa apenas gastos, ela traz também receitas para o país; é fator de desenvolvimento econômico e social; gera negócios, injeta bilhões de reais na economia, cria empregos.” Com o fim desastroso desse campeonato mundial, entra em evidência outro momento importante para o país: as eleições gerais. Só nos resta saber se o resultado da Copa irá interferir na resposta das urnas.


Anos de chumbo

As empresas e a Ditadura LÍLIAN LEMKE MARIANA PAIM

mesma forma, acredito que o imaginário coletivo voltado às organizações se constitua de igual maneira”. Ditadura Militar instaurada em 1964 foi um Com a criação da Comissão Nacional da período cinzento da história do Brasil, que Verdade, iniciamos a compreensão de que as foi esquecida propositadamente, mas que empresas que tiveram vínculo com a represagora começa a ter espaço na memória são, tortura e crimes contra a humanidade decom a criação da Comissão Nacional da Verdaveriam ser responsabilizadas e punidas. “São de. Uma das lembranças restauradas impacta crimes que não prescrevem. Do modo com que na imagem institucional de empresas, que se a Comissão da Verdade e a justiça assim defifortaleceram e expandiram seus negócios com nirem”, destaca Maria Helena. Como muitas regime vigente. Mas será que a relação entre empresas se adaptaram ao regime para contiessas empresas e o Regime Militar afetou a nuar desempenhando suas atividades, muitas se reputação delas? aproveitaram do fato para enriquecer, reprimir Para Cíntia Carvalho, professora do curso e assediar os sindicalistas que lutavam pelos de Relações Públicas da Unisinos, a adesão de trabalhadores. “Sou favorável a um resgate alguns empresários à ditadura não se deu apedessas “orgias” ocorridas na época, acompanas ao suporte dado ao golpe de Estado, mas nhado de reembolsos ao povo, sejam eles sob também ao apoio fia forma monetária, ARQUIVO PESSOAL nanceiro e adoção da social, educacional política de repressão ou cultural”, ressale terrorismo dentro ta Cíntia. de organizações civis. Em abril de 2014, “A ditadura criou um a Comissão Nacional cenário altamente fada Verdade realizou vorável para o deseno seminário “Como volvimento e crescias empresas se benemento das atividades ficiaram e apoiaram das empresas, engena ditadura militar”, drando um ambiente apresentando estudos propício para a acuque apontam nomes mulação de capital”, de empresas que concompleta. tribuíram com o GolMaria Helena Wepe de 64 (ver box). ber, professora do “Seu impacto para a curso de Bibliotecopolítica e a sociedade nomia e Comunicação é extremamente im(FABICO), da UFRGS, portante e positivo, acredita que como o mas para a empreBrasil ingressou numa sa é negativo à sua fase de desenvolvireputação”, afirma mento econômico, Maria Helena. Para Para a professora Cíntia Carvalho, a divulgação atraindo investidores Cíntia: “É um projeto dos nomes das empresas que apoiaram a Ditadura e favorecendo os lulouvável que contricontribui para responder a muitos questionamentos cros das empresas, fibuiria para responder cou evidente o apoio a muitos questionaa elas na política econômica da época. “O que mentos em aberto”. pode ser dito é que as empresas passam a ser Fica evidente que as empresas que apoiaprotegidas pelo governo, que afastou o fanram a ditadura na época viram nesse apoio tasma do comunismo”, enfatiza. uma forma de crescer. A imagem “daquelas Essa relação pode ter impacto na imagem que apoiaram a ditadura” não é positiva. Podessas organizações, como ressalta Maria Helerém, na cultura do “jeitinho brasileiro”, elas na: “Hoje, quando uma empresa é identificada ainda não sofreram punição ou impacto alcomo colaboradora do regime militar, evidengum e todas as empresas continuam prósperas temente que acarreta uma carga negativa a ou passaram por fusões ou aquisições. Neste sua imagem”. Cíntia relembra que a profissão caso, cabe ao profissional de RP desvincular de relações públicas cresceu no regime militar essa imagem que ainda permanece ou devee seu exercício era controlado pelo Governo: mos mostrar que a empresa de 50 anos atrás, “Creio que muito da falta de credibilidade à que apoiou o golpe, hoje em dia pensa de forárea ainda vigente, se deve a esse fato! Da ma diferente?

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Com página no Facebook e site, a Comissão Nacional da Verdade está presente também na internet

Elas ajudaram no Regime Empresas que contribuíram com o Golpe de 64, segundo apurado pela Comissão Nacional da Verdade

Alpargatas Antarctica Arno Associação Comercial de São Paulo Atlas S.A Banespa Brastemp S.A. Brink 's Carbono Lorena Cia Sorocabana Ciesp-Fiesp Cobrasma S.A. COFAPE COSIPA Diários Associados Ducal S.A Dunlop Duratex S.A. Esso Estaleiro Mauá Fundição Progresso General Electric Grupo Ultra Grupo Votorantin Hanna Mining Itaú ITT Comunicações Light Lloyde Brasileiro Lucas do Brasil Massey Ferguson Mercedes – Benz O Globo Páginas Amarelas Philips do Brasil S.A. Refinaria Capuava Rhodia Rockwell S.A. Rolls Royce SKF do Brasil Sofunge Souza Cruz Standart Oil Telefunken do Brasil S.A. Union Carbide Vidraçaria Santa Marina Villares / Atlas Volkswagen

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Memória EVLYN LOUISE ZILCH

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50 anos depois, quem se importa?

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s anos de chumbo, como conhecidos por parte de quem viveu o Regime Militar, marcaram profundamente homens e mulheres e suas vidas foram transformadas. Mas não somente as vidas dos anos 60 e 70. O período mudou tudo o que aconteceria no futuro. 50 anos depois, os acontecimentos permaneceram na memória dos brasileiros. Homens e mulheres jovens ou nem tão jovens. O que ficou em suas lembranças? Guilherme Lima de Quadros tem 23 anos, vive em São Leopoldo e trabalha em Porto Alegre com seu pai. Apesar de conhecer pessoas que sofreram no período, pensa que de alguma forma o retorno ao regime ditatorial poderia ser positivo. “Fico dividido se a ditadura foi um período de certa forma bom ou não. Sei que muitas pessoas desapareceram e foram censuradas. Meu tio, por exemplo, foi interrogado diversas vezes e acusado de comunista. Mas também, pelo que escuto das gerações mais antigas, as coisas funcionavam. Não havia tanto vandalismo. E hoje, mesmo que pareça que vivamos em uma democracia, nada de fato mudou, já que as grandes emissoras continuam manipulando e censurando informações. É uma ditadura encoberta”. A estudante de Educação Física da Unisinos, Mônia Zilch, 26, é ainda mais enfática. “Para mim, a ditadura poderia retornar. Em um país como o Brasil, onde tudo está errado, é necessário radicalismo para mudar as coisas”. Mateus Pinto Pereira é estudante do ensino médio e tem 19 anos. Para ele, o governo deveria exercer mais sua autoridade. “Ouvi coisas muito terríveis sobre a ditadura, principalmente no que diz respeito à violência e à tortura. Acredito que a ditadura até poderia retornar, porém de uma forma muito diferente, onde não houvesse a violência extrema, física, emocional e psicológica que foi praticada. O país precisa de pulso firme, mas também de respeito”. Para quem viveu os anos de chumbo, a opinião é diferente. O professor aposentado de Filosofia Laurício Neumann, 67 anos, de São Paulo das Missões (RS), foi sequestrado, interrogado e torturado por militares na ditadura. Ele deixa claro quais os motivos para crer que a ditadura nunca mais pode retornar ao país. “Em 1968, com 21 anos, vim para Viamão, para a faculdade de Filosofia. Chegar lá era como ter a faca e o queijo na mão. Era tudo o que eu sonhava, o que eu queria, mas, ao mesmo tempo, não tinha clareza. Um mundo fascinante de abertura a tudo e assim comecei a participar do diretório de estudantes... Oportunidades, possibilidades, espaços.” Assim Laurício inicia sua história. É um dos autores da Revista Mundo Jovem, que existe até hoje. Esta revista, que tem um caráter filosófico, social e teológico, possibilita a publicação de temas instigantes e questões importantes para a humanidade. Mas os acontecimentos em 64 não permitiram mais que a revista se mantivesse da mesma forma. Após o fechamento da faculdade de Viamão em 1970, a revista também foi perseguida e, com isso, seus autores. Neumann foi preso em 3 de setembro de 1970. “Acho que era depois das 11h da noite. Eu estava lá no jornal, quando saí já estava tudo muito deserto, escuro, eu me dirigi para o ponto de ônibus. Estava com uma pasta, com material da universidade e na outra mão


ARQUIVO PESSOAL

carro da polícia e também na seguinte. Em frente à entrada da pensão onde vivia, havia mais dois carros da polícia. Um total de 6 carros. Aí quando eu subi a escada, o primeiro quarto à direita era o nosso, a porta estava entreaberta. Com o cotovelo empurrei a porta

“Na hora eu não suspeitei, comecei a suspeitar quando o ônibus andou e o carro da polícia me acompanhava”

“Um psiquiatra me disse uma vez que não tem escovão de aço, produto químico ou ácido que consiga apagar isto”

e aí o cano do fuzil apontava na minha cara. Eles já estavam dentro do quarto, com os outros colegas já presos, o material todo encaixotado. Levaram tudo, tudo, tudo. E só estavam aguardando por mim. Botaram o capuz. O tempo todo que eu fiquei preso eu não sabia onde é que eu estava. Tu não fazes ideia. Tu escutas barulhos de carro, de gritos, mas tu não sabes em que mundo tu estás. Então fomos levados encapuzados para um local e eu lembro que tinha que subir escadas, bastante escadas e aí já fomos direto para a sessão de tortura. Mais tarde eu fui saber que esse local era o atual Palácio de Polícia em Porto Alegre. Nós ficávamos no segundo e terceiro piso, onde eram as celas, as salas de tortura, enfim... As torturas... o que que eu vou te dizer? São as mais perversas possíveis. Têm livros, filmes, vídeos que mostram. Eu acho que dá pra ter mais ou menos uma ideia do que é possível imaginar o que seja uma sessão de tortura. Mas não tem como descrever. Só é. Isso é impossível. A única coisa que eu me pergunto é como é que

“Eu acho que não tem mais como eu voltar a ser uma pessoa normal”

é possível um ser humano, que se diz humano, que é pai, que tem filhos, tratar outro ser humano com tamanha selvageria? Isso é inacreditável. Inacreditável. Você não faz ideia da dimensão da selvageria, da brutalidade, da irracionalidade. Eu trago sequelas até hoje, tanto físicas quanto emocionais. Choques nos órgãos genitais, no ânus... Esse negócio de pontapé, de soco, isso é carinho! O pior são os choques elétricos na boca, nos ouvidos, nos órgãos genitais. Você fica tão inchado que parece uma abóbora. Fica tudo inflamado, tudo arrebentado. E não tem tratamento, você tem que aguentar no osso. Quem consegue sobreviver é sorte. E depois o pau de arara. O pau de arara é cruel. Afinal, você fica pendurado que nem uma galinha estacada para ser assada. Isso você aguenta uns minutos, mas não aguenta por muito tempo. O corpo todo fica pendurado com as pernas amarradas e na outra ponta com os braços amarrados. E aí... socos, coices e pontapés nos rins. Isso é cruel, é terrível. E depois a coluna não aguenta. Isso foi em 70 e há poucos anos atrás tive que fazer duas cirurgias por causa de uma hérnia de disco, entre a 3ª e a 4ª vértebra. Descobri que era por causa das torturas. Isso é sob o aspecto físico. Sob o aspecto emocional, um psiquiatra me disse uma vez que não tem escovão de aço, produto químico ou ácido que consiga apagar isto. Ele disse que ou eu tinha que aprender a administrar e a conviver com isso ou então eu iria acabar me torturando, ou seja, uma segunda tortura, estragando minha vida, minhas relações e a vida das pessoas que estavam ao meu redor. Eu acho que não tem mais como eu voltar a ser uma pessoa normal.”

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Professor Laurício Neumann: um depoimento para não esquecer

com uma dúzia de ovos e um saco de pão. Quando cheguei na parada de ônibus tinha um carro da polícia parado. Na hora eu não suspeitei, comecei a suspeitar quando o ônibus andou e o carro da polícia me acompanhava, acompanhava o ônibus. Quando o ônibus chegou no centro da cidade, bem em frente a histórica Igreja da Matriz, que é o ponto final, tinha um outro carro da polícia parado. Quando chego na esquina, havia mais um

Você não faz ideia da dimensão da selvageria, da brutalidade, da irracionalidade. Eu trago sequelas até hoje, tanto físicas quanto emocionais”


História

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Relações Públicas nas Forças Armadas

ARQUIVO / EXÉRCITO


MARLUCE OLIVEIRA DE BEM

MARIANA BLAUTH

que a Tenente Clarissa Oliveira de Carvalho deu para a revista em uma entrevista comunicação em sociedades deno seu local de trabalho, o Quinto Comanmocráticas propõe práticas diado Aéreo Regional de Canoas (5º Comar). lógicas, como um processo perEla ingressou na Força Aérea Brasileira manente de negociação entre em 2006, por meio de concurso público pessoas em condições iguais em direitos concorrendo para a vaga de Relações Púe deveres. Esse ideal ainda está em consblicas. Atualmente ela exerce essa funtrução desde o fim do Regime ção e é responsável pela comuMilitar no Brasil, que restringiu nicação social nesse Comando fortemente a liberdade de exRegional, ocupando o cargo de pressão naquele período, além primeiro tenente. Ela fez estáde tentar controlar as informagio para a formação militar e ções para ter opinião pública falá aprendeu que, antes mesmo vorável. Assim, surge a dúvida: de ser relações públicas, ela é as Relações Públicas eram pramilitar. Clarissa atua fortementicadas como deveriam? te em prol das atividades de RP Nadege Lomando, professora na Força Aérea. do curso de Relações Públicas na A tenente conta que nunca Unisinos, utiliza Roberto Simões havia existido um profissional para afirmar que os profissionais de RP no 5ª comando de Canoas, da área de Relações Públicas porém havia o desenvolvimennão tinham espaço para atuar to de atividades de comunicadurante o Regime. Segundo ela, ção. A assessoria de imprensa baseado na teoria desse autor, e a organização do cerimonial “só existe comunicação na dejá eram praticadas. Entretanmocracia” e que a prática de to, não eram desenvolvidas por RP ideal tem via de mão dupla oficiais graduados em comunipelo modelo de James E. Grucação, os próprios militares do nig. Para ela, mesmo que nesse local eram os responsáveis. Com período tenham surgido os pria chegada da tenente, houve a meiros departamentos de Relacontribuição para o fortalecições Públicas, dentro das Forças mento do relacionamento com Armadas, ligados ao governo do a imprensa, da relação com o Medici, não houve a atuação de público externo e interno, crianprofissionais de Relações Públido vínculos do 5º Comando com cas durante a ditadura. esses públicos. Nadege entende que nessa Clarissa relatou que “a coépoca os públicos opinavam bamunicação social na FAB está seados em informações manipumelhorando, se aperfeiçoando ladas, com mensagens persuasino decorrer dos anos. Está em Nadege Lomando acredita que as ações de comunicação do vas. Ela propõe discussão se hauma fase muito boa, apesar de regime ditatorial brasileiro são comparáveis com a atuação de via prática de Relações Públicas não ter a quantidade de profisHitler durante os anos 30 e 40, que focava no enaltecimento e ou não. A professora comparou o sionais pra suprir toda a necesna preservação da imagem do nazismo sem ouvir os públicos regime ditatorial com a atuação sidade. A coordenação geral e de Hitler, cujas ações de comucentral fica em Brasília”. A Força nicação eram para enaltecer e Aérea busca a aproximação com preservar a imagem do nazismo. Para ela a criação de Departamento de Relações Púa comunidade e sua ideologia instituciotrata-se da mesma coisa, não se ouviam os blicas, por Getúlio Vargas. E assim, ficaram nal reforça que todos os integrantes da públicos. Nadege defende que “nós nunca estigmatizados pela forte vinculação de seu Aeronáutica Brasileira são elos da comufaríamos aquilo.” nome com a Ditadura iniciada em 1964, nas nicação social. A ideia segue uma concluA professora lembra que foi uma das Forças Armadas. são de Nadege, quanto mais os públicos pessoas que viveu o período e se consideA perspectiva da profissão nas Forças puderem ser ouvidos, ter voz, melhor a rava alienada dos fatos: “Eu me lembro Armadas nos dias de hoje é diferente e atividade estará sendo exercida, é o que de ser criança e ir com minha vó em uma positiva. A prova disso são as declarações se espera desse profissional.

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fila para ganhar uma aliança que dizia ‘Dei ouro para o bem do Brasil’. Depois, na adolescência, presenciei a campanha ‘Ame-o ou deixe-o’, nos adesivos com essa frase e não podíamos falar mal do país.” As Relações Públicas iniciaram seu desenvolvimento mais destacado junto aos governos de exceção, na década de 40 com

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Cerimonial e Protocolo

Rigor que vem do Regime Militar CAROLINA MONTEIRO VOLPATTO

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Adriano Xavier, relações públicas responsável pelo Cerimonial da Unisinos: “Não é necessário realizar modificações radicais, mas atualizações”

que os militares estavam no poder. Para a época foi o ideal, mas com a democracia, hoje se faz necessário mudanças. Leila diz que modificações já foram pretendidas. Houve uma discussão sobre o assunto no Conselho Federal de Relações Públicas, encaminhado aos Conselhos Regionais para que fosse discutido com seus associados. Para Adriano Braun Domingos Xavier, Relações Públicas responsável pelo Cerimonial da Unisinos, não é necessário realizar modificações radicais, mas atualizações, com a inclusão dos novos cargos, novos órgãos e instituições que vem sendo criadas. Adriano alerta que fazemos cerimônias com protocolos definidos nacional ou internacionalmente para que um evento não vire um caos, e que todo mundo queira pegar no microfone. Dessa forma, realmente não há como ter uma cerimônia pacífica. Tanto Leila quanto Adriano consideram as normas ultrapassadas, tendo em vista o atual momento em que vivemos e o governo democrático que rege o nosso país. Mas propor essas atualizações mesmo na atual conjuntura política e social requer iniciativa e tempo disponível. O que ainda não teve força e motivação entre os profissionais que atuam nesse segmento. Quem se habilita?

O que deve ser revisado na Lei Dentro da Ordem de precedência os artigos a seguir apresentamse inadequados para um estado laico e democrático, por isso merecem uma revisão.

Art . 14. Os Cardeais da Igreja Católica, como possíveis sucessores do Papa, têm situação correspondente à dos Príncipes herdeiros.

Art . 15. Para colocação de personalidades nacionais e estrangeiras, sem função oficial, o Chefe do Cerimonial levará em consideração a sua posição social, idade, cargos ou funções que ocupem ou tenham desempenhado ou a sua posição na hierarquia eclesiástica.

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ARQUIVO PESSOAL

s eventos formais com a presença de autoridades governamentais no Brasil têm as cerimônias regidas por uma lei promulgada em pleno regime militar, em 1972, durante o governo Médici. O decreto federal 70.274, de 1972 e a lei 5.700/1971 está em vigor e tem o rigor de ordem e valorização das pessoas somente pela sua posição política e social. Perguntamos se isso ainda tem cabimento? Numa democracia, não é a cidadania que deveria ser valorizada? Atualmente, os brasileiros já entendem que numa sociedade democrática, a igualdade é um direito, e devemos considerar que não há diferença de tratamento entre ricos e pobres, autoridades ou não. Também somos culturalmente mais informais nas relações sociais e interpessoais. Pensando assim, em eventos governamentais ou públicos, seja do executivo, legislativo ou judiciário, o cidadão deveria ser o alvo dos holofotes e da prioridade das falas, dos discursos e jogo de cena desses atos oficiais. Os produtores de eventos e cerimonialistas ainda mantêm a pompa e seguem grande parte do que a Lei e o Decreto estabelecem, mas já não é hora de repensar e mudar

tanto isso? Eles representam o jeito brasileiro de fazer um evento público? Para Leila Santos, ex-chefe do cerimonial da Prefeitura de Porto Alegre, o Decreto Federal instituído na Ditadura veio substituir o anterior de 1948, que deixava muito a desejar para aquele momento em


Lado social

Uma outra Relações Públicas é possível?

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e a rotina na sociedade brasileira durante o Regime Militar era controlar e censurar — com forte apelo de propaganda política pró-regime — na democracia, esse cenário mudou, focando na transparência e valorização da opinião pública ou do clamor popular. Esse contexto paradoxal originou a ideia que poucos conhecem ainda, as Relações Públicas Comunitárias. Conforme artigo da pesquisadora em Comunicação Laura Maria Naves, da Universidade de Brasília, escrito em 2012, tais recursos, que controlaram mensagens no autoritário sistema político, foram estratégias da já conhecida Assessoria Especial de Relações Públicas (AERP). Com isso, o exercício de Relações Públicas foi considerado um ato de manipulação em prol do Governo, o que dificultou a visão da realidade que ocorria no país. As camuflagens eram feitas enquanto o nacionalismo era enaltecido. A profissão de RP se promoveu neste período, entretanto, causou um olhar negativo sobre a atividade. Para a professora do Curso de Relações Públicas da Unisinos e da UniRitter, Tânia Almeida, durante o Regime as RPs atuaram conforme foi propício na época. A professora diz: “Os profissionais que construíram o trabalho de Relações Públicas no regime militar estavam alinhados ao projeto daquela época, ou seja, estavam integrados ao pensamento do regime.” Tânia destaca que existe diferença entre a técnica e a profissão. “É preciso ter em mente que uma coisa é a técnica, a profissão em si, o conhecimento que uma determinada área profissional possui. Outra coisa é o uso disso, para quê, para quem, em nome de qual projeto se está fazendo uso deste conhecimento”. O conhecimento mencionado por Tânia pode ser voltado a uma

nova Relações Públicas, as sociais/ comunitárias. Cicilia Peruzzo foi a pioneira no assunto, lançando o primeiro livro sobre o tema em 1986, Relações Públicas no Modo de Produção Capitalista. Nesta obra, Cicilia traz a ideia de que devemos pensar na profissão como sendo um meio de canalizar a vontade do povo, colocando o homem como o centro da atividade social. Formando, assim, uma consciência participativa, sendo possível atuar em comunidades carentes, sindicatos e Ongs. O Movimento Sem Terra (MST) é um exemplo de mobilização de trabalhadores rurais que utilizam estratégias de RP a partir dos recursos que tem. Uma das articulações é a distribuição de releases para divulgar a ocupação de terra, gerando visibilidade na mídia (mesmo que desfavorável, marcam posição). Outra tática desenvolvida é recepcionar bem os visitantes nos assentamentos ou participando de feiras da agricultura familiar, para aproximá-los do mundo urbano e

gerar uma boa imagem para a comunidade local. Tais estratégias não tem participação de profissionais de RP, e não acontecem como numa organização empresarial, mas conforme a abordagem de Cicilia é um campo no qual poderíamos atuar. Porém, esse assunto atrai poucos estudantes e profissionais, que focam sua formação para atuação em empresas. Mas há exceções entusiasmadas como a Relações Públicas Bruna Kievel. Ela diz: “o que mais me motiva em tentar ser um RP Comunitário é trabalhar pelo benefício da sociedade civil.” Nos anos 80 já se pensava na área social da profissão. Esta demanda vem aumentando com o passar do tempo, e, para Bruna, esta é uma tendência na qual as empresas privadas estão se inserindo. “Nos dias de hoje, não somente ONGs trabalham por causas sociais. Empresas e Governos estão se reestruturando, se reinventando para fazerem parte deste novo cenário que, principal-

ARQUIVO PESSOAL

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JADE CRISTIANETTI SABRINA CAMARGO

Para Cicilia Peruzzo (à esquerda), devemos pensar as relações públicas como meio de canalizar a vontade do povo. A professora Tânia Almeida destaca a diferença entre técnica e o uso que se faz da profissão

mente os jovens, estão pedindo”, conclui a Relações Públicas. As Relações Públicas não trabalham somente em prol do capitalismo, melhorando a imagem e a reputação das empresas ou então promovendo eventos, mas também devem atuar com questões sociais, como a mobilização social e tornando transparentes as atividades das empresas de forma com que todos tenham conhecimento correto sobre a organização. Assim, qualquer organização pode ser um campo de atuação. Que além do lucro, o ser humano e o bem estar social sejam a prioridade.


Música

Estratégia de resistência contra a ditadura MAIARA MERGEN PEREIRA

E

Roda Viva

que estimulava o uso da pílula entre os mais pobres, distribuindo o contraceptivo principalmente nas periferias da região Nordeste. Apesar de suas músicas falarem sobre assuntos que faziam parte da vida de qualquer pessoa e não terem cunho político, Odair José tornou-se um artista perseguido pela Censura Federal, por tratar de temas que iam contra a moral e os bons costumes da época. A ditadura foi capaz de atos extremos de censura à liberdade de expressão. Mas a voz do povo não calou mediante o controle imposto. Passado meio século deste período que marcou a história do país, pode-se dizer que a música foi uma estratégia de comunicação que serviu para expressar e registrar um momento de forte efervescência cultural e manifestação de resistência.

Composição e interpretação: Chico Buarque

(Refrão) Roda mundo, roda-gigante Rodamoinho, roda pião O tempo rodou num instante Nas voltas do meu coração A gente vai contra a corrente Até não poder resistir Na volta do barco é que sente O quanto deixou de cumprir Faz tempo que a gente cultiva A mais linda roseira que há Mas eis que chega a roda-viva E carrega a roseira pra lá (Refrão) A roda da saia, a mulata Não quer mais rodar, não senhor Não posso fazer serenata A roda de samba acabou A gente toma a iniciativa Viola na rua, a cantar Mas eis que chega a roda-viva E carrega a viola pra lá (Refrão) O samba, a viola, a roseira Um dia a fogueira queimou Foi tudo ilusão passageira Que a brisa primeira levou No peito a saudade cativa Faz força pro tempo parar Mas eis que chega a roda-viva E carrega a saudade pra lá

Alunas de Redação em RP IV do primeiro semestre de 2014

(Refrão 3x)

imagemrp | novembro / 2014 | 17

Tem dias que a gente se sente Como quem partiu ou morreu A gente estancou de repente Ou foi o mundo então que cresceu A gente quer ter voz ativa No nosso destino mandar Mas eis que chega a roda-viva E carrega o destino pra lá

RENATA MACHADO

m meio às tensões do momento político vivido na década de 70 no Brasil, alguns artistas arriscaram-se a ir contra o regime vigente, resistindo à censura instaurada no país. Alguns preferiram compor usando metáforas, de forma que as letras ocultassem o verdadeiro sentido da mensagem. Outros mais insatisfeitos com a repressão compuseram criticas diretas com letras que se tornaram a trilha sonora de resistência contra a ditadura. Porém, alguns músicos, mesmo sem conteúdos políticos, acabaram vítimas da censura, pois nas letras dessas canções os censores entendiam que havia oposição ao governo. Alguns artistas tornaram-se ícones no combate ao regime militar. Considerado um dos maiores opositores à ditadura, Geraldo Vandré compôs a canção “Pra não dizer que não falei das flores”, considerada um hino contra o sistema. As entrelinhas desta música evidenciaram as injustiças (pelos campos há fome em grandes plantações), destacavam a presença do exército nas ruas (Há soldados armados, amados ou não) e chamavam as pessoas para se unirem na luta contra a ditadura (Vem, vamos embora que esperar não é saber/quem sabe faz a hora, não espera acontecer). Geraldo foi preso, torturado e exilado, mas “Caminhando”, como ficou popularmente conhecida, é um clássico da música popular brasileira. Outra forma encontrada pelos artistas para driblar a censura e falar da realidade vivida foi a utilização de metáforas. Como foi o caso de Chico Buarque, autor da música Roda Viva, considerada um marco no meio cultural, pois fazia uma crítica indireta ao regime militar de forma metafórica. Mesmo tendo sofrido com a censura, e também tendo que se

exilar do país, Chico Buarque procurava compor suas canções com letras que não atacassem diretamente o regime. Como no caso de “Roda Viva”, uma das melodias mais lembradas que pedia voz para o povo (ver box). Outro grupo importante para a cultura nacional perseguido pela censura foi os cantores de música denominada “brega”. Compositor de letras diretas e melodias simples, o músico goiano Odair José viveu um dos episódios mais emblemáticos de censura com a música “Uma Vida Só”, conhecida popularmente como “Pare de Tomar a Pílula”. A canção foi considerada como um ato de desobediência civil e foi proibida de ser executada nas rádios, mesmo depois de já ter sido lançada. Na época, o governo brasileiro desenvolvia uma campanha de controle da natalidade,


Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) ENDEREÇO: Avenida Unisinos, 950. São Leopoldo, RS CEP: 93022-000 TELEFONE: (51) 3591.1122 INTERNET: www.unisinos.br E-MAIL: unisinos@unisinos.br

ADMINISTRAÇÃO

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REITOR: VICE-REITOR: PRÓ-REITOR ACADÊMICO: PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO: DIRETOR UNIDADE DE GRADUAÇÃO: COORDENADORA CURSO DE RELAÇÕES PÚBLICAS:

Marcelo Fernandes de Aquino José Ivo Follmann Pedro Gilberto Gomes João Zani Gustavo Borba Erica Hiwatashi

imagemrp A revista Imagem RP é uma produção dos alunos das disciplinas de Redação em Relações Públicas IV do Curso de Relações Públicas da Unisinos

TEXTOS ORIENTAÇÃO: Erica Hiwatashi (ericah@unisinos.br) TEXTOS: Carolina Monteiro Volpatto, Caroline Maciel dos Santos, Evlyn Louse Zilch, Jade Cristianetti, Lilian Lemke, Maiara Daniele Mergen Pereira, Mariana Mattos Paim, Mariane Delgado Araújo, Marluce Oliveira de Bem, Melissa Villanova, Sabrina Luisa Camargo e Tamires Rebick Nunes MONITORIA E REVISÃO: Germana Zanettini

PROJETO GRÁFICO REALIZAÇÃO: turma 2010/2 da disciplina de Projeto Experimental em Planejamento Gráfico ORIENTAÇÃO: Everton Cardoso (evertontc@unisinos.br) PROJETO: Gabriela Schuch

DIAGRAMAÇÃO E ARTE-FINALIZAÇÃO REALIZAÇÃO: Agência Experimental de Comunicação (Agexcom) DIAGRAMAÇÃO: Gabriela Menezes e Marcelo Garcia ARTE-FINALIZAÇÃO: Marcelo Garcia

FOTO DE CAPA PRODUÇÃO: Renata Machado (Curso de Fotografia) ORIENTAÇÃO: Beatriz Sallet (bsallet@unisinos.br)

PUBLICIDADE REALIZAÇÃO: ORIENTAÇÃO: SUPERVISÃO: ATENDIMENTO: REDAÇÃO: DIREÇÃO DE ARTE:

Agência Experimental de Comunicação (AgexCOM) Letícia Rosa (letirosa@unisnos.br) Robert Thieme (robertt@unisinos.br) Renata Saraiva Lucas Pies Carlos Pivetta (contra-capa) e Douglas Reinado (páginas 2 e 19)


Imagem RP 2014/2  
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Revista experimental produzida por alunos do Curso de Relações Públicas da Unisinos (campus São Leopoldo/RS). Edição 2014/2. Novembro de 201...

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