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FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO FACULDADE DE ARTES PLÁSTICAS

CO(ORDEN)ADAS

FERNANDA BARRETO

SÃO PAULO, 2009


FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO FACULDADE DE ARTES PLÁSTICAS CURSO DE BACHARELADO EM EDUCAÇÃO ARTÍSTICA HABILITAÇÃO EM ARTES PLÁSTICAS

CO(ORDEN)ADAS

Trabalho de Graduação Interdisciplinar, vinculado à disciplina Desenvolvimento de Projeto Integrado II, apresentado como exigência parcial para obtenção de certificado de conclusão de curso.

Fernanda Barros Barreto Orientadora: Regina Johas

São Paulo, 2009


Ficha Catalográfica BARRETO, Fernanda Barros. Co(orden)adas. Fernanda Barros Barreto Trabalho de Graduação Interdisciplinar – FAP/FAAP São Paulo, 2009 1. Instalação 2. Objeto 3. Arquivo 4. Classificação


Agradecimentos À minha orientadora Regina, por me acompanhar nessa trajetória e dar tanto incentivo ao projeto e à pesquisa À Mano pelo companheirismo e amizade e por todos os desafios enfrentados nesse mesmo barco À Leca que me trouxe para o chão em momentos tão flutuantes Ao Manoel pela compreensão, força e pelas longas conversas que me desestruturaram a noção de espaço Aos meus pais por estarem dispostos sempre, pelas leituras como mais uma forma de aproximação e por acreditarem Rô, que apesar de tudo isso parecer distante, acompanhou o primeiro olhar para os lugares de passagem Fefa, pela leitura minuciosa e atenta e por compartilhar de tanto apego/ desapego pelos objetos À todos que estiveram perto que de alguma maneira tiveram sua contribuição para que esse trabalho acontecesse. À Ma, pelas trocas sempre. E Aos técnicos da madeira, em especial ao Zé Maria, por acreditar e dar forma as loucuras grandiosas e sem lógica que eram apresentadas.


Para S. Carlos por compartilhar de tão perto a relação de um colecionador com sua coleção.


O ato de caminhar permite ao caminhante inventar ordens espacias. M. de Certeau


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Projeto gráfico da instalação Co(orden)adas - vista lateral

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Projeto gråfico da instalação Co(orden)adas com medidas - vista frontal

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Projeto gráfico da instalação Co(orden)adas com medidas

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Planta aérea do céu da FAAP - Projeto gráfico Co(orden)adas - em azul - inserido no corredor

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Apresentação O trabalho Co(orden)adas, desenvolvido para a conclusão do curso de Artes Plásticas da FAAP, investiga a relação entre o caminhar, o espaço, os objetos, o arquivo e a classificação. Ele deve ser entendido, em sua totalidade, como o conjunto dos desdobramentos de três etapas: 1. Eu,caminhante, 2. Impulso Arquivista e 3. Nova Ordem.

Co(orden)adas é a ponta final que torna visível meu processo

de perambulação pelo mundo e dos encontros com objetos desprezados e abandonados no espaço. Vivemos numa época caracterizada por um constante estado de fluxo e por uma grande velocidade de circulação, na qual os objetos perdem suas marcas identitárias e sua necessária vinculação com os lugares que lhe imprimiram uma história.

Esquema de montagem da instalação Co(orden)adas

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Caminhar sob o ‘estado de deriva’ proporciona-me esbarrar com tais objetos, o que gera um impulso de retê-los. Apropriarme deles e colecioná-los implica em criar um sistema, um novo espaço de ordenação. Da reflexão sobre possíveis sistemas de ordenação hoje, assim como da indagação acerca do sentido da própria noção de ordem surge a vontade de criar um arquivo. O resultado final deste processo criativo materializou-se numa instalação composta de uma estrutura côncava de madeira em larga escala,na qual estará aplicado um vinil adesivo com as linhas imaginárias do mapa mundi, acompanhadas de pontos numéricos e de uma catalogação de objetos. Os pontos numéricos inseridos nas linhas imaginárias dizem respeito às demarcações de cinqüenta objetos que compõem o arquivo e estarão organizados em forma de catálogo fotográfico. Os pontos relacionam-se com os objetos, fazendo referência às coordenadas geográficas atribuídas à eles na presente catalogação.

Co(orden)adas em números: Estrutura côncava de madeira; 6m X 3m X 1,5 m Vinil adesivo cinza escuro; 5m X 2,5m Catalogação dos objetos; 50 páginas de 42cm X 31,5 cm cada

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Linhas imaginĂĄrias do mapa-mundi com pontos numĂŠricos Recorte em vinil adesivo cinza escuro 5 m X 2,5 m

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Página número 12 da catalogação dos objetos Jato de tinta sob papel Opalina 220 g 42 cm X 31,5 cm

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Página número 16 da catalogação dos objetos Jato de tinta sob papel Opalina 220 g 42 cm X 31,5 cm

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Página número 23 da catalogação dos objetos Jato de tinta sob papel Opalina 220 g 42 cm X 31,5 cm

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Página número 40 da catalogação dos objetos Jato de tinta sob papel Opalina 220 g 42 cm X 31,5 cm

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Sobre Co(orden)adas O trabalho Co(orden)adas começa com o ato de caminhar pelos espaços da cidade e com os encontros que tal ação proporciona em meus percursos. Conscientizar-me deste movimento proporcionoume olhar para os mapas urbanos. O encantamento com esses mapas como espaços representados em forma de desenho, condicionando o deslocamento e a compreensão do espaço sob outra perspectiva, levou-me a pensar a relação dos objetos encontrados com essas representações, pois eles pertenciam a espaços que estavam inseridos nesse dispositivo-mapa. Cada ponto da terra tem um único conjunto de coordenadas geodésicas definidas por latitudes e longitudes, medidas em graus. Essas coordenadas permitem localizar precisamente qualquer lugar sob a superfície e orientar a construção de mapas. A ferramenta do Google Earth tornou claro para mim essa condição dos lugares representados por coordenadas. Usufruir dessa ferramenta, inserindo apenas a classificação em números, me gerou outra forma de compreender o tempo-espaço, uma vez que poderia estar e penetrar em todos os lugares presentes no globo em frações de tempo inexistentes. A experiência com os mapas e a ferramenta Google Earth, assim como a possibilidade de uma nova relação - mediada - com os lugares, gerou indícios para que refletisse de que maneira poderiam ser organizados os objetos colecionados.

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Desprovidos de coordenadas geograficas fixas e tendo sido encontrados em espaços caracterizados por condições temporárias (como é o caso das situações de venda em “Família Vende Tudo”), tais objetos passam a pertencer a uma nova ordem, estabelecida arbitrariamente por mim. A possibilidade de inserí-los e relocálos em coordenadas aleatórias e tempos imaginários possibilitou com que o arquivo se configurasse por uma ordenação própria, desprovido da lógica taxonômica que caracteriza a condição de arquivamento. O arquivo criado em Co(orden)adas foi pensado em forma de catalogação. O ato de catalogar surgiu em um momento no qual eu já possuía muitos objetos que encontravam-se em espaços distintos. Possuir itens que não estabeleciam algum tipo de relação e que se encontravam em uma desordem espacial levoume a uma necessidade de documentar o que já pertencia à minha coleção, podendo pensar em uma nova lógica de ordenação.

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Aspectos Conceituais

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Eu, caminhante 1 O aparecimento desta idéia de ‘lugares de passagem’ em meu trabalho levou-me ao texto de Marc Auge, Não lugares, e de sua definição dos lugares da supermodernidade como sendo nãolugares. Auge os define: “ Se um lugar pode se definir como identitário, relaciona e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá em nãolugar” (AUGE, 1994:73) Os não-lugares são pontos de trânsito, que não integram lugares com uma bagagem de memória. Os ‘lugares de passagem’, nomeados por mim, se diferenciam dos não-lugares, pois não contam com uma fixidez, tem um tempo de existência instáveis.

Percursos, caminhos, rotas e mapas constituem o chão em que meu trabalho se insere. Passos curtos e rítmicos, passos não direcionados e em desvios, passos que são atraídos e atraem, conduzem o olhar que não busca nada específico e conta apenas com os imprevistos do deslocamento.

O deslocamento se dá por caçambas, depósitos e casas abertas que estão a vender tudo (as chamadas ‘Família vende tudo’), proporcionando encontros pontuais e silenciosos. Encontros que provocam encantamento, alterando meu estado momentâneo. Nomeio esses lugares como ‘lugares de passagem’1. Tais lugares, provisórios e efêmeros, não trazem marcas de identidade, parecem estar suspensos de coordenadas geográficas fixas. Diferente dos lugares que preservam memórias e que funcionam como indicadores do tempo, passageiros e sobreviventes, os lugares de passagem estão em constante transformação. Caminhar sob ‘estado de deriva’ por lugares de passagem permite-me estabelecer encontros com objetos sem memória, que estão soltos de suas referências. O deslocamento no espaço da cidade e sua importância dentro de meu processo me fez ir ao encontro de algumas referências históricas. A primeira delas é a do flâneur, que foi descrito

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2 As passagens de Paris, descritas por Benjamin, eram corredores cobertos, que abrigavam o comércio e estavam sempre habitadas. Foi nesse espaço que surgiu o conceitos das vitrines expositivas de mercadorias, chamando a atenção dos pedestres da cidade. O espaço pôde ser observado e entendido por outra perspectiva e ordem ,com o surgimento das passagens, pois a rua passou a ser também um espaço interior. (BENJAMIN, 2007:903) 3 Os Situacionistas Internacionais era um movimento de vanguarda artística e política europeu dos anos 60, liderado por Guy Debord, que sustentavam suas reflexões em criticar a sociedade de consumo, propunham intervenções provisórias pela cidade com objetivo de tornar claro a posição social, cultural e social da sociedade.

por Baudelaire na Paris do século XIX, como um protótipo do sujeito moderno. Refere-se ao indivíduo que observa o mundo, levando a vida para cada lugar que vê. É o sujeito que se apropria da cidade, experiencia o percurso, alimentando-se de suas vivências. Esse sujeito se identifica com o lugar e com a sua postura de flanar. Ele habita e se estabelece nas passagens parisienses2, utilizando-as como refúgios. O flâneur possui um referencial identitário, uma memória, um passado, é reconhecido por sua função e posição social. Não está desprendido ou solto dentro de suas referências, apesar de absorver e buscar os fragmentos dessa cidade moderna, que para ele se mostra tão encantadora e labiríntica. Os Situacionistas Internacionais3, ou Situacionismo, movimento europeu de caráter social, político e cultural da década de 60, propunha desenvolver situações e intervenções provisórias pela cidade, com o objetivo que fossem vividas e experienciadas pelo habitante. O movimento defende “as perambulações do acaso pela cidade e estimulam as reinterpretações do espaço com base na experiência vivida” (JACQUES: 2003, 65). Os termos como deriva, psicogeografia e desvio são entendidos como práticas pelos Situacionistas. O termo deriva, foi definido como:

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4 Tal definição de deriva, pode de ser encontrada no texto Questões Preliminares a construção de uma situação. O texto foi publicado na primeira edição da revista Situacionista Internacional, em junho de 1958, escrito por Guy Debord. (In JACQUES, 2003:65).

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Modo de comportamento experimental ligado as condições da sociedade urbana: técnica de passagens rápidas por ambiências variadas. Diz-se também, mais particularmente, para designar a duração de um exercício continuo dessa experiência.4

Michel De Certeau entende a cidade como uma composição descentralizada, formada por fragmentos de trajetórias e alterações de espaço. A cidade, para o autor, não é mais composta por um centro, já está inserida na trama moderna de “tempos empilhados” (CERTEAU, 1994:189). É um espaço de transformações e apropriações.

2

1.New Babylon Amsterdam Constant, 1963 New Babylon Barcelona Constant, 1963 2.New Babylon Nora Constant, 1958 Mapas feitos pelos Situacionistas como reconfiguração de espaços de cidades Fonte: unreasonableanimals. blogspot.com/

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O caminhante é nomeado por Certeau como usuário da cidade, que “joga com espaços que não vê” (CERTEAU,1994:171). Os lugares surgem e se definem como tal uma vez que os espaços são tratados e praticados pelo usuário: “os jogos dos passos moldam espaços, tecem os lugares”(CERTEAU,1994:176). Esse praticante busca atribuir uma memória pessoal a espaços da cidade, por essa carecer de uma identidade. A cidade hoje se aproxima do pensamento descrito por Certeau. Vivemos em uma condição de transformação constante e pouca fixidez de lugares no tempo e no espaço. O meu caminhar pela cidade, distinto da maneira como se encontrava o flâneur, presente em seu centro, está localizado em torno de situações instáveis e provisórias. Quais as condições que cercam meu caminhar hoje? O que é para mim a relação com a cidade? São questões presentes em meu pensamento e me fazem refletir na historicidade do ato de caminhar e como ela pode ser pensada hoje. Estar ‘à deriva’ dentro de uma cidade em mutação me posiciona como um caminhante que vive a desconstrução de espaços e lugares a todo tempo, desestruturando a noção de identidade e coordenadas espaciais. O caminhante atento dentro da metrópole experiencia as surpresas e novidades que essa região, ao se reinventar a cada momento, lhe proporciona.

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Impulso Arquivista 5 O texto, A enciclopédia chinesa de Borges, esta presente no prefácio do livro As Palavras e as Coisas de Michel Foucault. (F OUCAULT,2002:5)

A vontade de criar um arquivo envolveu o sentido de gerar ordem a coletas tão díspares e inventar uma lógica para os “objetos perdidos e desparceirados que a ordenação racional do espaço tanto despreza”. (BOSI, 2003:27) O arquivo como suporte já havia aparecido em trabalhos anteriores. Em um primeiro momento, ele foi pensado para abrigar fragmentos pessoais e desconexos, mas que diziam respeito a uma mesma pessoa. Pensar de que maneira agrupar esses fragmentos em divisórias (presentes no arquivo), possibilitou-me inserir itens distintos em um mesmo espaço e pensar no arquivo como um campo expandido. Os arquivos presentes em minha produção abrigam narrativas não contínuas e fragmentadas. É um espaço de “aglomeração de muitos itens correlacionados, sem qualquer hierarquia“ (FREIRE, 2006:74). Estabeleci, a partir deste modo de pensar o arquivo, uma vizinhança curiosa com um texto de Borges. Trata-se da A Enciclopédia Chinesa5 na qual o autor escreve, de maneira fantástica e absurda, sobre a divisão classificatória dos animais, tais como: a)pertencentes ao imperador, b)embalsamados, c)domesticados d)leitões, e)sereias, f)fabulosos, g)cães em liberdade, h)incluídos na presente classificação, i)que se agitam como loucos, j)inumeráveis, k)desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l)etc., m)que acabam de quebrar a bilha, n)que de longe parecem moscas. Foucault descreve sobre tal taxonomia: 26


“A monstruosidade que Borges faz circular na sua enumeração consiste, ao contrário, em que o próprio espaço comum dos encontros se acha arruinado. O impossível não é a vizinhança das coisas, é o lugar mesmo onde elas poderiam avizinhar-se”. (FOUCAULT, 2002:6) Não são os animais “fabulosos” que são impossíveis, pois que são designados como tais, mas a estreita distancia segundo a qual são justapostos aos cães em liberdade ou àqueles que de longe parecem moscas. O que transgride toda imaginação, todo o pensamento possível, é simplesmente a série alfabética (a, b, c, d) que liga a todas as outras cada uma dessas categorias. (FOUCAULT, 2002:6)

O arquivo em Co(orden)adas consiste em uma catalogação de objetos encontrados, que foram esquecidos e abandonados por alguém que já os possuíram, objetos que perderam sua função, já não pertencem a um lugar e a um indivíduo, objetos que apresentam identidades suspensas. Além disso, estão em trânsito, se encontram em pontos de passagem que contam com condições provisórias em situações de fluxo e de temporalidade não fixa.

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6 No texto Desempacotando minha Biblioteca, Walter Benjamin, discorre sobre o colecionador e subjetividade da maneira como esse irá gerar ordem a sua coleção. O objeto, no caso os livros, passam a ter um sentido ao integrar ao conjunto. (BENJAMIN: 1995: 228)

Deparar-me com esses resíduos em meus percursos, passou a provocar um encantamento impulsionando-me à ação de os recolher. A posse desses objetos está desprovida de qualquer função ou uso que esses possam gerar. Baudrillard entende essa posse como coleção. Defende a idéia de que os objetos estão relacionados com o indivíduo na ordem da propriedade, da posse e da paixão. “Se a posse é feita de confusão dos sentidos, de intimidade com um objeto privilegiado, é igualmente toda feita de procura, de ordem, de jogo e de agrupamento”. (BAUDRILLARD, 2006:93) A postura do colecionador, frente a sua coleção, é sempre uma “dialética entre os pólos da ordem e da desordem” (BENJAMIN,1995:228), pois existe nele uma maneira particular de gerar ordem ao caos. Benjamin6 compreende como ordem um sistema próprio e subjetivo de classificar e ordenar as coisas do mundo. Pois o que é a posse senão uma desordem na qual o hábito se acomodou de tal modo que ela só pode aparecer como se fosse ordem? (BENJAMIN, 1995:228)

Um objeto, ao ser colecionado, desvincula-se de sua ordem funcional e entra na subjetividade do colecionador. Passa a ter então uma nova ordem, pertence agora a um sistema, a um organismo.

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A catalogação do arquivo em Co(orden)adas busca gerar um sistema próprio de organização para esses objetos em suspensão. A relação entre os objetos é proposta dentro de uma articulação aleatória de caráter ficcional. O arquivo aqui é pensado como espaço de fixidez e retenção, re-inventando a relação entre sujeito, objeto, lugar e identidade.

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Nova Ordem

“As idéias se relacionam com as coisas como as constelações com as estrelas“ (BENJAMIN, 1984:56).

As constelações podem ser definidas por agrupamentos imaginários de pontos no espaço. Os pontos, que tinham maior destaque ao olhar, levaram o homem a traçar linhas que os interligassem, gerando novas figuras. Observar as estrelas possibilitava uma liberdade de estabelecer ligações entre partes distintas. Maria Esther Maciel reflete na questão da ordem na contemporaneidade e faz referência a esses sistemas de organização como algo presente na condição humana. Segundo a autora o excesso de ordem “perde a própria eficácia enquanto procedimento taxonômico diante da proliferação excessiva dos objetos” (MACIEL, 2004:14). Maciel defende o quanto as tentativas de arquivar ou classificar o conhecimento e todas as coisas do mundo é inoperante na contemporaneidade.

Imagem das principais constelações vistas no mês de abril Fonte: Observatório Céu Austral

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7 Mnémosine, na mitologia grega, era a mãe das musas.

Aby Warburg (18661929), historiador alemão, começou a colecionar livros desde cedo, fundando mais tarde sua biblioteca, chamada Mnemósine7. Diferenciando-se das bibliotecas convencionais, Warburg tinha seu sistema próprio de gerar ordem. Para o historiador, nenhum método de organização de um biblioteca era satisfatório, assim passou a seguir sua própria lógica, gerando um sistema pessoal de catalogação. “Ele queria que sua coleção tivesse uma fluidez e uma vitalidade que nem a separação por assunto nem as restrições cronológicas poderiam proporcionar” (MANGUEL, 2006:169).

Biblioteca Mnemósine, em formato oval, de Warburg Fonte: www.educ.fc.ul.pt/hyper/warburg

Além disso, a biblioteca de Warburg tinha formato oval, era pensado com um espaço contínuo, sem angulações, assim abarcando de maneira íntegra as conexões ordenadas para as vizinhanças dos livros.

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A desordenação, ou melhor, a ordenação própria proposta por Warburg, dentro do espaço biblioteca foi criticada por muitos e vista como um sistema “complicado e variável” (MANGUEL, 2006:170), mas a ocupação feita pelo colecionador, acima de tudo, refletia na sua maneira própria de pensar o mundo, não se apoiando em nenhum sistema convencional de classificação. Co(orden)adas propõe, dentro de sua lógica organizadora de um arquivo, fundar um outro regime temporal e espacial. Consiste em pensar uma nova maneira de dar ordem às coisas e classificar o mundo. O arquivo abarca, em seus fragmentos, vários níveis temporais. A nova ordem, atribuída aos objetos suspensos, opera para gerar referências espaciais e temporais para esses elementos que carecem de quaisquer fixidez no espaço e criar critérios insólitos de organização, subvertendo as lógicas tradicionais e cartesianas de sistemas organizadores. O sistema escolhido como organização para os objetos em Co(orden)adas revela, dentro de uma lógica própria, as possibilidades de se pensar o arquivo como um espaço infinito que abriga elementos que não dialogam em relações diretas e claras, mas que podem estar justapostas e em conexões dentro de uma lógica desconcertante.

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Adendo

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Mapeamento de Produções Antecedentes

Sem título (litogravura) Arquivo de Possibilidades Sem título (estante mapeamento) Guia de Encontros Objetos Pontuados 34


Sem título (litogravura)

Sem título (políptico) Fotografia impressa sobre papel canson e litogravura 29,7 cm X 42 cm cada 2008

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As fotografias impressas sob papel canson são referentes a registros de objetos encontrados pelo meu caminho. A imagem do mapa começou a aparecer como forma de representação de encontros e como forma de organização. A idéia era gerar uma ordem para esses objetos e pensar em uma maneira de catalogá-los. O mapa criado na litogravura é uma apropriação de recortes/composições de alguns mapas de cidades. A gravura foi impressa sobre as fotografias desses objetos registrados.

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Arquivo de Possibilidades

Arquivo de Possibilidades Arquivo de metal, pastas suspensas de papel達o com identidades manipuladas,impressas em papel canson, emplastificadas 42 cm X 27,5 cm X 20 cm 2008

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Arquivo de Possibilidades

Arquivo de Possibilidades (detalhes) identidades manipuladas,impressas em papel canson, emplastificadas 42 cm X 27,5 cm X 20 cm 2008

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O arquivo de metal com pastas suspensas abrigava carteiras de identidades (RG’s e passaportes) antigas que foram manipuladas – essa manipulação consistia no apagamento das fotografias e de dados como nome e ano da identidade. O trabalho foi pensado acerca da reflexão da perda de identidade do sujeito e a possibilidade de criação de uma nova com os dados mantidos no documento como a cor dos olhos, o formato do rosto, ocupação e marcas/cicatrizes. Comecei, então, a pensar no suporte arquivo como sua forma/matéria e a função atribuída a este, como espaço de retenção e organização. A necessidade de arquivamento frente a uma aceleração do tempo e a possibilidade de esquecimento/ amnésia foram reflexões geradas pelos espaços em branco contido nas novas identidades.

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Sem tĂ­tulo (estante/ mapeamento)

Sem tĂ­tulo (estante mapeamento) Madeira e objetos diversos 170cm X 120cm X 15cm 2008

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Sem tĂ­tulo (estante/ mapeamento)

Sem tĂ­tulo (estante mapeamento)-detalheMadeira e objetos diversos 170cm X 120cm X 15cm 2008

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A `estante/mapeamento` tratava-se de uma estante inspirada na representação (desenho) de mapas urbanos, tomados como espaços de encontros e sistemas de ordem frente a um caos. Passei a pensar na possibilidade de projetar organizações de pequenas coleções e objetos dentro desses espaços. Os objetos contidos na estante eram dos mais variados como caixas de fósforos, relógio de ponteiro parado, caderno de música, entre outros. A instalação acompanhava uma catalogação de objetos na qual esses eram agrupados por datas de supostas aquisições da coleção. A ficção integrou como elemento compositivo do trabalho. Forjar a data (tempo) e o lugar (espaço) da coleta dos objetos me possibilitou jogar com o descolamento desses com seus lugares de origem, perdendo então suas referências.

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Guia de Encontros

Guia de Encontros Serigrafia, tinta acrĂ­lica, maquina de escrever e carimbo sobre papel 14,8cm X 21cm cada 2009

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Guia de Encontros

Guia de Encontros (detalhes) Serigrafia, tinta acrĂ­lica, maquina de escrever e carimbo sobre papel 14,8cm X 21cm cada 2009

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Guia de Encontros consta de nove serigrafias impressas em papel, de fragmentos de mapas urbanos, que propõe gerar um outro espaço, inventado/imaginário, com inserções referentes aos objetos (citados em trabalhos anteriores) já definidos dentro do arquivo. Os lugares foram “pontuados” com tinta acrílica, os objetos descritos pela máquina de escrever e o tempo definido por carimbos com datas em tempos distintos. O trabalho propõe a relação de que os objetos estão relacionados ao tempo e ao espaço, fazendo alusão ao momento de sua aquisição, porém trata-se de tempos imaginários e lugares inventados. As escolhas das datas são aleatórias e geram descontinuidade para a história da coleção de um arquivo. As serigrafias são de pequeno formato e fazem referencia aos guias de bolso, mas desconstrói a função do mesmo, uma vez que seu objetivo não é o de se encontrar, mas jogar com a representação das cidades, feitas pelos mapas, e propor uma outra forma de encontro com os objetos.

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Objetos Pontuados

Objetos Pontuados(polĂ­ptico) Fotografia impressa 63, 30 X 30 cm (cada) 2009

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Objetos Pontuados

Objetos Pontuados Fotografia impressa 63, 30 X 30 cm (cada) 2009

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Objetos Pontuados

Objetos Pontuados Fotografia impressa 63, 30 X 30 cm (cada) 2009

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Objetos Pontuados consta de 15 conjuntos de duas imagens; uma fotografia de um objeto sobre um fundo branco e uma imagem retirada do Google Earth. As imagens encontradas no Google foram adquiridas pelo encontro de coordenadas aleatórias no espaço de “busca”. Dentro do resultado da pesquisa foi inserido uma ‘tachinha’ amarela pontuando o local determinado. A ferramenta utilizada para pontuar e situar os objetos permite circular diante de uma infinitude de lugares, sem ao menos sair de nosso lugar físico. O uso desse dispositivo da rede possibilitou um nova maneira de sentir o tempo-espaço e assim poder relacionar essas imagens com os objetos encontrados que também contavam com uma desconfiguração em sua ordem.

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Controle de Catalogação Controle feito durante o processo de trabalho para construção das fichas catalográficas dos 50 objetos

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Anexo

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Referências Artísticas

Jorge Macchi Sophie Calle Ilya Kabakov

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Jorge Macchi

Jorge Macchi Tour por Buenos Aires Livro-objeto DimensĂľes variĂĄveis 2004

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Em Tour por Buenos Aires, o artista Jorge Macchi (1963, Buenos Aires, Argentina) coloca um vidro sobre o mapa da cidade de Buenos Aires e quebra-o. O desenho traçado pelo estilhaçamento forma um percurso sobre o mapa, que será o caminho percorrido por ele em um dia. O resultado desse caminhar é um livro de aquisições de elementos e áudios encontrados no caminho. O artista coleta esses achados como modo de representação de seu percurso estipulado pelo corte no vidro. O mapa tem o papel, então, de situar o momento da coleta. A força desse trabalho, a meu ver, esta na presença do mapa como itinerário de percurso e pela devida atenção que foi dada ao caminhar. As coletas adquiridas por Macchi são elementos semelhantes aos meus encontros e como necessidades de retenção.

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Sophie Calle

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! Sophie Calle Birthday Ceremony Vitrinas com objetos 170cm X 78cm X 40cm 1980-1993

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O trabalho Birthday Ceremony de Sophie Calle (1953, França) compõe-se de vitrinas que exibem presentes de aniversário que a artista coloca em exposição de a cada ano que passa, retirando a funcionalidade do presente (não necessariamente ele tem uma utilidade) e fazendo desse ato um grande arquivo de coleções de uma mesma procedência. Birthday Ceremony é uma referência como forma de apresentação para a minha produção. A artista pensa a disposição desses objetos, como se disse no espaço da vitrina: espaço de exposição de elementos que derivam de situações de sua vida pessoal, apresentando um universo de objetos que se relacionam, em meio a uma forma de organização pessoal sem um sistema de ordem normativo.

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Ilya Kabakov

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Ilya Kabakov School No 6 Instalação 1993

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A instalação School nº6 de Ilya Kabakov (1933, Ucrânia) foi pensada para uma fundação abandonada que servia como escola na União Soviética. As mesas e carteiras estão dispostas em uma configuração desordenada, remetendo a outro tempo e espaço. Nas “mesas-vitrinas” , o artista escreve e reconta histórias e experiências dos alunos da escola. O modo de apresentação das instalações do artista é algo investigado desde o inicio da minha pesquisa. A criação de seus ambientes arquitetônicos e as maneiras de disposição e circulação presente entre a relação do objeto mínimo(íntimo) com o objeto maior, no caso a história da Rússia, me faz refletir nas coletas de meus objetos apropriados e na re-contextualização no espaço criado por Co(orden)adas, bem como na relação entre o micro e o macro espaços.

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Referências AUGÉ, Marc. Não Lugares; introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP : Editora Papirus, 1994. BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. São Paulo: Perspectiva, 2006. BENJAMIN, Walter. Rua de Mão única: obras escolhidas II. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995 BENJAMIN, Walter. Passagens. Campinas – São Paulo: Editora Imprensa Oficial, 2007. BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória: Ensaios de Psicologia Social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. CERTEAU, Michel de. A Invenção do cotidiano: artes de fazer. PetrópolisRJ: Editora Vozes, 1994. ENCICLOPÉDIA ITAU CULTURAL ARTES VISUAIS. Situacionismo. São Paulo, 18 maio de 2009. Disponível em: www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ ic/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=3654. Acesso em 1 de outubro de 2009. FREIRE, Cristina. Arte Conceitual. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2008. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 8A edição. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

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GUERREIRO, António. Apresentação de um projecto. Portugal. Disponível em: www.educ.fc.ul.pt/hyper/warburg.htm. Acesso em 24 de setembro de 2009. MACIEL, Maria Esther. A memória das coisas: Ensaio de literatura, cinema e artes plásticas. Rio de Janeiro: Lamparina Editora, 2004 MANGUEL, Alberto. A biblioteca à noite. São Paulo: Cia Das Letras, 2006. www.jorgemacchi.com/eng/obras_1.htm. Acesso em 14 de Junho de 2009 www.artnet.com/artwork/424141371/264/the-birthdayceremony.html. 20 Junho de 2009 www.chinati.org/visit/collection/ilyakabakov.php. 2009

Acesso

em

20

Acesso

em

Junho

de

www.linternaute.com/science/carte-du-ciel/07/08. Acesso em 3 de Outubro de 2009 www.ceuaustral.pro.br. Acesso em 15 de Outubro de 2009. unreasonableanimals.blogspot.com/. Acesso em 10 de outubro de 2009.

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Referências Consultadas BORGES, Jorge Luis. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. CALVINO, Ítalo. Letras,1990.

As

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Co(orden)adas