Carcaça - Regina Azevedo

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regina azevedo





pra vocĂŞs ficarem vivos,



não sei como você se dobrava pra aguar aquelas flores nem quando começou a usar chapéu não sei sua cor preferida e talvez nem você soubesse eu só sei que você sabia torcer o pescoço de uma galinha como ninguém e que quando tentavam assaltar sua granja você fingia procurar uma arma de caça eu sei que você jogava bola aos 90 anos sei que você passava horas olhando um prédio se erguer eu sei que sua coluna era firme seus ossos eram magros e sua letra garranchuda sei que você tinha olhos pretos tinha catarata sei que você dizia que a hora de almoço é hora de fazer silêncio sei que a cor da sua pele quem pintou foi o sol e sei que você era alto e quase não passava pela porta é isso que eu diria quando perguntassem como você era antes de morrer


as linhas na pele da minha avó são de quem carregou treze mulheres na barriga – e morreram maria, jacinta e marli naquele tempo um bebê morria por tudo mesmo com história de sal grosso, erva cidreira e banho no açude algumas pessoas se apressam na vida e vejo montes de caixões em miniatura espalhados no cemitério vejo restos de bebês que nunca nasceram e cicatrizes do meu quase irmão na barriga de mamãe quando tento dormir só consigo pensar em todos os meus irmãos, primos e tias que chegaram e se apressaram antes de mim


você merecia dançar eu acreditaria em deus por um instante se você conseguisse dançar nunca imaginei que pardais atormentavam saguis e é muito difícil ver você sempre sentada te quero do meu tamanho te quero respirando e falando besteira você merecia saúde eu acreditaria em deus por um instante se você tivesse saúde nunca imaginei que existissem homens maus na sua rua e é muito difícil correr e te deixar pra trás porque você merece viver mais do que qualquer pessoa do mundo você merece viver


uns vinte homens se jogando desse prédio velho como num balé de libélulas numa piscina francesa homens gritando na rua pra um homem no alto se jogar mulheres queimando roupa nas janelas a casa ao lado manchada de sangue pássaros a tarde inteira por perto numa canção desesperada eu vi a mangueira cheia de pontinhos amarelos e vi um homem magrelo se espremer nos galhos eu andei nesse chão onde tanta gente já fugiu, já caiu e já morreu durante quinze anos eu decorei as cores dessa janela e minha mente até colore uma foto preto e branco durante quinze anos eu morri um pouco cada vez que olhava a casa dos doidos



vovô meu rosto está diferente porque você tinha seu jeito de andar e depois seu jeito de tentar se mexer e tinha um olho menor quando você ria depois veio seu olho fechado tinha nós dois correndo no parque das dunas com uma bola laranja gigante e jogando entre as folhas até eu me cansar (você sempre foi mais novo que eu) tinha você sentado à mesa comendo arroz e feijão e dizendo que era hora de silêncio e agora tem um retrato gigante seu ao lado de vovó no dia do casamento bem em cima das cadeiras de balanço onde a gente senta e fala alto meu rosto está diferente porque o corpo cresce pra acompanhar a dor





tinha duas poltronas em casa na de couro vovô se sentava raramente gostava mesmo era de viver em pé tatuando a história da cidade nas solas do chinelo já vovó se recostava depois do almoço ou logo pela manhã quando havia pano para costura ou algum padre falando na rádio eles viviam juntos perto do jardim cor dos anos na granja depois que vovô morreu robson herdou algumas de suas camisas quadriculadas e gerusa ganhou seu espaço no armário eu trouxe sua poltrona pra minha casa não coube no quarto, ficou na sala se eu pudesse eu carregava pra praia essa poltrona se eu pudesse eu grudava minha pele nessa poltrona se eu pudesse eu desenhava você nessa poltrona muitas vezes eu deito nela como se sentasse em seu colo como se sentisse seus ossos que sustentam os meus como se ouvisse de repente o barulho de suas havaianas velhas abrindo o portão com balas de café no bolso


sento na sua poltrona e penso que sou você só pra conseguir gostar mais de mim nossa sorte é que couro não estraga quando a gente chora




fabrício nunca vai saber quem é você nem victor, clarissa e enzo talvez fosse melhor ter esperado um pouco a gente não brinca mais de teatro vovó nunca mais quis aprender a escrever eu virei poeta e cortei o cabelo léo se fantasia de jesus no halloween arthur adora festa luana tá no intercâmbio caio vai realizar seu sonho de voar fico imaginando o que você faria se estivesse aqui na rua agora só passa carro de um lado e muita casa ao redor virou apartamento nilba tem laurinha e o gato continua estranho geralda não quer mais criar gato, mas bastinha e izabel sim mamãe é minha melhor amiga eu tenho um namorado chamado victor no natal desse ano vamos todos sorrir e chorar pensando em você como em todos os outros 364 dias do ano



regina azevedo é de natal. nasceu em 2000. publicou os livros de poesia “das vezes que morri em você’’ e “por isso eu amo em azul intenso”, além de alguns fanzines e publicações em revistas. reginazvdo.tumblr.com reginilda12@gmail.com

projeto gráfico, estampas, fotos e poemas - regina azevedo diagramação - victor h azevedo



“Carcaça é essa dor que carrego nas costas e que me faz ser quem sou. Essa consciência de saber que só vi baleias na areia e querer lembrar da voz dos meus avós pra sempre. Como tenho memória fraca, saudade e sonho com baleias o tempo inteiro, escrevo. Pra manter vivo, forte e perto de mim também pra conseguir dormir.” - Regina Azevedo


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