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OCEANOS PARA SEMPRE

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Apresentação

No ano em que completa 30 anos, a Regatta quer registrar a razão do seu sucesso: paixão pelo mar. Nossa história se confunde com a história da náutica no Brasil, que nos orgulhamos de ter ajudado a construir, não como simples espectadores, mas como protagonistas. Da pequena loja no paulistano bairro da Vila Madalena, criada com a modesta ambição de atender um dos berços da vela no Brasil, a represa de Guarapiranga, à liderança de mercado no nosso segmento. Mais que uma trajetória empresarial bem-sucedida, nossa história é a história de quem vive o mar em toda a sua plenitude. É isso que faz com que consigamos compreender melhor do que ninguém o mercado em que atuamos. É isso que fez da Regatta uma empresa inovadora, múltipla, atenta às novas tendências, que se diversifica para atender melhor às expectativas dos nossos clientes. Quem passou, como nós, os últimos 30 anos no mar consegue enxergar aquilo que cientistas e pesquisadores vêm insistentemente alertando: os

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oceanos estão passando por um preocupante processo de degradação. A quantidade de lixo e plástico no mar, o aumento da poluição das águas, a ocupação desordenada das áreas costeiras, o despovoamento de vida marinha, os efeitos do aquecimento global são pontas visíveis de um iceberg que não pode mais ser ignorado. Por isso, abrimos espaço nesta nossa publicação, agora renovada e transformada, para falar sobre essa paixão que nos move: os oceanos, com a convicção de que é possível compatibilizar lazer e atividade náutica com práticas sustentáveis no mar e, por consequência, no planeta. Sem dúvida, essa é uma questão tão complexa quanto inadiável. É um desafio que se coloca para todos nós e para o qual cada um tem sua contribuição a dar, por pequena que seja. No seu conjunto, pode fazer a diferença. Para que os oceanos, como nós os conhecemos, perdurem para sempre.

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Especial

OCEANOS o tesouro que envolve a terra

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Os oceanos e mares cobrem 70,8% da Terra. Mais de um terço dos cerca de 7 bilhões de habitantes do planeta vivem concentrados nas zonas costeiras, que representam apenas 4% da superfície terrestre. E não apenas estes, mas todos nós somos usuários e dependentes direta ou indiretamente dos recursos oceânicos. Pesca, turismo, extração de petróleo, matériasprimas e outros frutos imediatos do processo de exploração das águas traduzem a face econômica dessa intrínseca e mais facilmente compreendida relação com o mar. Não é pouca coisa, mas não é tudo. Além do horizonte visível da economia, existe ainda um conjunto de riquezas intangíveis igualmente essenciais à vida, muitas vezes imperceptíveis ao observador comum. Como, por exemplo, o impacto dos oceanos sobre o clima. Dessa imensidão azul deriva diretamente o equilíbrio térmico do planeta, a geração da maior parte do oxigênio disponível na Terra e a captura de dióxido de carbono, um dos vilões do efeito estufa. Ecossistemas marinhos protegem cidades e populações de tempestades e inundações. Ou ainda o patrimônio imaterial representado pela cultura das comunidades costeiras, que tornou a espécie humana rica e diversificada. Sem oceanos em equilíbrio, não há equilíbrio possível na Terra.

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Oceanos degradados significam redução direta da qualidade, quantidade e diversidade de riquezas disponíveis. Por isso, esse conjunto de bens tangíveis e intangíveis é chamado hoje de “capital natural” e estudado segundo os “serviços ambientais” que prestam. Com essa terminologia tomada de empréstimo da economia, parece ter ficado mais fácil enxergá-los como base da organização econômica e social do mundo tal como o conhecemos. O conceito de “serviços ambientais” passou ser a chave para a compreensão de qualquer debate sobre o futuro do planeta. As Nações Unidas, em seus programas para o meio ambiente, adotaram essa nomenclatura no fim dos anos 1990 e, desde então, têm feito uma constatação assustadora: os ecossistemas marinhos e costeiros estão se deteriorando mais rapidamente que outros. O alerta é claro: o tema saiu da esfera dos movimentos de preservação para entrar no campo da segurança internacional. Nas páginas seguintes, apresentamos 12 dos principais serviços ambientais que os oceanos prestam, sem os quais nosso futuro estaria irremediavelmente comprometido. No seu conjunto, compõem um magnífico panorama da importância dos oceanos em nossas vidas. Um tesouro inestimável, que exige nossa atenção e cuidado.

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O mar ĂŠ o habitat das ma e diversificadas

Uma tartaruga-de-pente nada em um recife de coral, um dos mais ricos ecossistemas do planeta em biodiversidade

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ais exuberantes formas de vida

Nosso planeta pode ter até 30 milhões de espécies de vida – eis um número difícil de ser conferido, mas aceito como provável. De todo modo, há um consenso: apenas uma pequena parte do total foi descrita, algo em torno de 2 milhões de espécies. Mas, quando se fala em biodiversidade, levam-se conta não apenas os tipos de organismos, mas também a variedade de genes, populações, comunidades e ecossistemas que interagem com a atmosfera, a geosfera e a hidrosfera. Biodiversidade significa produtividade natural e, principalmente, equilíbrio. É o motor dos serviços ambientais que chegam até nós na forma de alimentos, água potável e ar puro, por exemplo. Algo vai mal, porém: entre 12% e 15% das espécies descritas estão ameaçadas de extinção, de acordo com o Millennium Ecosystem Assessment, estudo ambiental realizado desde 2001 por 1.360 especialistas de diversos países, a pedido das Nações Unidas. As causas principais são a degradação e a perda de habitats naturais. Outro cálculo difícil de ser feito diz respeito à velocidade do estrago causado pelo homem. Aqui se repete o dilema do debate sobre a mudança climática: o quanto dela é resultado da exploração insustentável da natureza? Como falar em aceleração da extinção de espécies quando se conhece uma parcela tão pequena das formas de vida? A resposta possível, por enquanto, é: no pequeno universo identificado, a taxa de extinção é assustadoramente crescente nos últimos 100 anos – a comparação se dá com registros fósseis de tempos anteriores – e com tendência de aceleração. Impressiona também o número de espécies sob risco de desaparecimento. São mais de 20% dos mamíferos terrestres e mais de 30% dos anfíbios. Nos oceanos, é mais difícil estimar o número de espécies ameaçadas. Contudo, 620 delas constam na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, sigla em inglês). Não há uma separação segura entre o estrago decorrente de alterações naturais e o resultante da ação humana. Contudo, há uma certeza: sejam quais forem as causas, cabe ao homem evitar que as piores expectativas se cumpram.

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Os oceanos são a prin proteína para mais de 1 bil

Mergulhador fotografa um cardume de cavalas: estoques pressionados pela alta de consumo e pelas novas técnicas de captura e distribuição

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ncipal fonte de lhão de pessoas

Um bilhão de pessoas no mundo têm hoje no pescado sua fonte principal ou única de proteína. A pesca é essencial à sobrevivência humana desde o surgimento da nossa espécie, quando começamos a coletar mariscos e outros recursos aquáticos nas costas. Hoje, trata-se de uma questão de segurança alimentar, como qualifica a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Além de alimentar uma larga parcela da população, a indústria da pesca também gera empregos, renda e impulsiona o comércio local e internacional. Segundo dados da FAO, a produção global de pescados em 2011 foi de 154 milhões de toneladas. Pelo menos 78,9 milhões de toneladas vieram da captura no mar, e 19,3 milhões da aquicultura marinha – o restante provém das atividades em águas continentais. O consumo de pescado vem crescendo em um ritmo maior do que o crescimento populacional. Entre 1961 e 2009, evoluiu em média 3,2% ao ano, enquanto o aumento populacional no período foi da ordem de 1,7% ao ano. Maior mercado de consumo, aperfeiçoamento das técnicas de captura e dos canais de distribuição – que garantem a conservação e entrega do produto fresco ao consumidor fora da zona costeira – criaram uma forte pressão sobre os cardumes, que, em muitos casos, não dispõem de tempo para se recompor. É a chamada sobrepesca. Além do aumento do consumo, existem ainda efeitos associados à atividade pesqueira como o bycatch, a captura acidental de espécies indesejadas por equipamentos como espinhéis, redes e anzóis, para agravar a situação. As chaves para deter esse processo de exploração que pode causar danos irreversíveis vão sendo definidas e aperfeiçoadas, como o Código Internacional de Conduta para a Pesca Responsável, ao qual o Brasil aderiu em 2009. A esse instrumento, porém, precisam se somar políticas nacionais de proteção aos ecossistemas. Isso inclui o cuidado com manguezais e recifes de coral, que compõem o habitat de 25% do pescado hoje consumido. A proteção precisa se estender ainda aos costões rochosos, baixios arenosos e outros ambientes fundamentais para a vida marinha.

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Ecossistemas costeiros prot populações de tempestades, inund

Manguezal cresce sobre solo arenoso: proteção natural contra erosão, ressacas e até tsunamis

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tegem cidades e dações e erosão

Oceanos interagem naturalmente com ambientes costeiros. Manguezais, baixios de gramas marinhas, costões rochosos, estuários, lagoas e deltas de rios desempenham um papel chave na biodiversidade. Além disso, proporcionam proteção natural contra inundações e erosão do solo, convertem matéria orgânica em nutrientes e processam poluentes e contaminantes. Um arranjo eficaz faz com que elementos em suspensão na água sejam capturados, mantendo a estabilidade do solo no litoral e amortecendo o efeito das tempestades sobre a terra. Dunas costeiras representam importantes reservas de sedimentos e estabilizam os contornos da costa. Os recifes de coral protegem as praias do impacto das ondas, de ressacas a tsunamis. Em resumo, paisagem preservada significa não apenas beleza e possibilidade de desenvolver modos de vida e lazer gratificantes. Representa, antes, segurança para uma enorme cadeia de organismos – incluídas as populações humanas – e redução da ocorrência de desastres naturais. Pesquisadores que integram o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente debruçaram-se sobre a situação das zonas costeiras, o que resultou em um relatório, publicado em 2006. Segundo o documento, há uma substancial alteração de estuários (zonas de transição entre rio e mar) ainda por ser quantificada. No caso dos manguezais, que são viveiros e ambientes importantes para a reprodução e o desenvolvimento de muitas espécies, a perda média global nas últimas duas décadas é de 35%. A situação de recifes de coral é ainda mais crítica: 70% das formações monitoradas estão degradadas. Não há dúvidas de que o desequilíbrio das regiões próximas de costas é em grande medida causado pelo homem, responsável pelo acelerado ritmo de assentamento de populações nas faixas litorâneas e pelo manejo insustentável dos ecossistemas. O desenvolvimento de agricultura e aquicultura, as atividades industriais e as obras de infraestrutura concorrem ainda mais para isso. Por fim, há a mudança climática, com alterações de temperatura desfavoráveis à sobrevivência de corais e muitos outros organismos marinhos.

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Macrofotografia de uma espécie de plâncton no Mediterrâneo: o ar que respiramos é garantido por minúsculas criaturas.

A fotossíntese do plâncto de 70% do oxigênio q

Macrofotografia de algas diatomáceas, um dos maiores e mais comuns grupos do fitoplâncton

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on produz mais que respiramos

Por causa de sua extensão e prevalência na superfície da Terra, os oceanos (e não as florestas) compõem a maior parte do chamado “pulmão do mundo”. São responsáveis por nada menos que 70% da produção de oxigênio no planeta. Ao fazer esse trabalho, o ambiente marinho absorve como nenhum outro o gás carbônico (CO2) da atmosfera. Essa captura se dá basicamente por meio do fitoplâncton, conjunto de organismos vegetais microscópicos presentes em toda a superfície do mar, numa lâmina de água que atinge cerca de 20 metros de profundidade e que tem capacidade de fazer fotossíntese. Desse processo, resulta uma enorme capacidade de retenção de CO2, que de outro modo retornaria à atmosfera, causando um inimaginável desastre ambiental. Daí advém a preocupação em manter o equilíbrio natural dos oceanos. Os números são imprecisos, mas os pesquisadores fazem suas estimativas: há indícios de que as reservas de água salgada contenham o equivalente a 20 vezes a quantidade de CO2 retida na biomassa vegetal terrestre. Ao produzir oxigênio, o fitoplâncton também converte o gás carbônico em compostos orgânicos, que são a base da cadeia alimentar marinha. Outros organismos aquáticos fazem trabalho similar, em menor escala, caso de algas que vivem em recifes de coral e de macroalgas e plantas diversas. O desafio internacional neste momento é manter a estrutura atual de “respiração” marinha inalterada, sem redução ou aumento do fitoplâncton. Embora à primeira vista se possa imaginar que a proliferação induzida de organismos microscópicos pudesse dar eficiência ao sistema de produção de oxigênio e retenção de CO2, estudiosos veem como perigosas as ações nesse nível, diretas ou indiretas. Daí os alertas sobre o carregamento, por rios, de fertilizantes agrícolas para o mar, uma ameaça ao presente equilíbrio. Respeito, cautela e preservação são as palavras de ordem quando se trata de analisar qualquer iniciativa com potencial de alterar a dinâmica dos oceanos. Eis aqui um ponto em que é necessário reconhecer que se está diante de um fenômeno grandioso demais.

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Os oceanos desempenham papel fu manutenção do equilíbrio do

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undamental na o clima na terra

A intensa radiação solar absorvida nos oceanos equatoriais é permanentemente dissipada pelas correntes marinhas

O clima da Terra é regulado pelos oceanos. Um engenhoso sistema de correntes – horizontais, verticais, costeiras e oceânicas – dissipa o calor gerado pela radiação solar por todo o planeta, funcionando como uma espécie de grande refrigerador global. As águas aquecidas das zonas equatoriais são levadas por correntes de superfície até as altas latitudes, na proximidade dos polos. Nesse caminho, perdem calor, se resfriam, tornam-se mais salinas pela evaporação, até ficarem “pesadas” o suficiente para desabar para grandes profundidades, gerando correntes submarinas frias que farão o caminho oposto, em direção às águas quentes da zona equatorial. No caminho de volta, irão lentamente se aquecer até ressurgirem na superfície. Esse movimento contínuo das massas líquidas dos oceanos recebe o nome de correntes de convecção. Vale lembrar que a circulação atmosférica tem o mesmo comportamento das correntes marinhas, correndo em paralelo a elas. Esse sistema natural de dissipação de calor proporciona um equilíbrio hidrológico entre processos de evaporação e chuvas que garante a manutenção de temperaturas globais adequadas ao funcionamento de outros processos ecológicos fundamentais para a vida na Terra. Além disso, ao afundar, as águas superficiais levam consigo enormes quantidades de gases – dentre eles o gás carbônico (CO2), um dos principais causadores do aquecimento global. O CO2 sequestrado é lentamente misturado à água no mar nas grandes profundidades, o que possibilita sua absorção contínua que, sem dúvida, contribui para o controle do efeito estura. Entretanto, uma ameaça corre em paralelo a esse serviço: a crescente absorção de CO2 pelos oceanos gera alterações químicas, como o aumento da acidez das águas, e, consequentemente, impactos sobre a vida marinha. Entre eles, a redução da concentração de carbonato de cálcio, fundamental na composição de esqueletos internos e externos (carapaças de ouriços, do fito e zooplâncton, esqueletos de corais, algas coralinas e outros), colocando em risco os recifes de coral.

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As regiões polares armazenam tóxicos, melhorando a qualidad

Sob a paisagem gelada da Antártida, estão guardados bilhões de toneladas de metano

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m metano e gases de da atmosfera

Os oceanos retiram e retêm diversos gases da atmosfera, tornando o ar mais adequado para a vida na Terra. Um deles é o metano (CH4), um dos vilões do efeito estufa e do aquecimento global. Os principais estudos sobre mudança climática trabalham hoje com a estimativa de que há reservas marinhas de ao menos 10 mil gigatoneladas de metano – cada giga corresponde a 1 bilhão de toneladas –, um estoque que precisa ficar onde está, contido pelo sedimento do fundo do mar, a baixas temperaturas. Se fosse liberado em velocidade mais rápida que a histórica, causaria uma catástrofe climática. Outros reservatórios tradicionais são as geleiras e o permafrost, solo congelado das planícies árticas. Na composição geral da atmosfera, o metano é bem mais raro que outros gases acusados de provocar o efeito estufa: há cerca de 1,8 parte por milhão (ppm) em comparação com cerca de 393 ppm de gás carbônico (CO2), por exemplo. Entretanto, quando se compara um e outro, o potencial de aquecimento do CH4 aparece multiplicado por cerca de 20 a 25 vezes, daí servir como excelente fonte de energia. O metano responde hoje por cerca de 15% do processo de aquecimento global, segundo os mais atuais levantamentos sobre o clima. É bem menos que os 75% de contribuição do gás carbônico e, secundariamente, de outros gases. E, contudo, ocupa muitas vezes o centro das preocupações de cientistas, porque algumas atividades econômicas em contínua expansão, como a extração de petróleo, a agricultura e a pecuária, entre outras, vêm causando um aumento continuado de emissões – em dois séculos, elas teriam dobrado. O impacto dos gases de efeito estufa é um círculo vicioso. Liberados na atmosfera, eles contribuem para aquecer ainda mais a temperatura, provocando a liberação de mais gases aprisionados em antigas reservas marinhas. Uma imagem usada em artigo publicado pela revista científica Nature vale mais que mil explicações: seria como “desligar um freezer gigante”, no qual foram estocados gases por mais de 10 mil anos. Essa liberação traria mais aquecimento, novas liberações e assim sucessivamente.

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Correntes marinhas, ventos e fonte inesgotável de energi

Parque de energia eólica na costa da Dinamarca: solução racional e eficaz na produção de eletricidade

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e marés são uma ias alternativas

Se até muito pouco tempo enxergávamos nos oceanos apenas uma fonte segura de obtenção de combustíveis fósseis – o petróleo –, hoje esse olhar está cada vez mais voltado para as energias alternativas e sustentáveis. Correntes marinhas, marés, ventos, todo o contínuo deslocamento de massas de água e ar podem ser convertidos em energia. Decididamente, os oceanos são um imenso reservatório de energia renovável. Estudos publicados recentemente pela revista britânica New Scientist dão conta que até o ano 2050 a utilização da energia das ondas poderá gerar 190 gigawatts de eletricidade, o equivalente a três vezes o consumo de eletricidade do Reino Unido. Isso com mecanismos simples: turbinas flutuantes, que convertem o movimento constante das ondas e marés em eletricidade. Outra promissora frente de pesquisa procura extrair energia das correntes profundas, mais fortes e constantes, embora mais lentas. Estados Unidos, Japão e China tentam explorar esse potencial, desenvolvendo turbinas que operariam submersas. Trata-se de um trabalho em fase inicial. A conhecida energia eólica também está se voltando para o mar, com vantagens. Em terra, as usinas de ventos ocupam terrenos e produzem ruídos e impacto visual, com suas pás de mais de 60 metros de comprimento e componentes individuais que podem pesar 125 toneladas. É uma ideia recente implantar parques de energia eólica no mar. Experiências na Europa mostram que ventos rápidos e perenes, sem barreiras naturais, usuais na geografia costeira, resultam em mais eficiência. A equação do promissor sistema está por ser concluída. Por ora, há limitações. O alto custo é uma. A outra é de natureza técnica: não se sabe ainda como operar em águas com mais de 10 metros de profundidade. Em contrapartida, esses parques eólicos no mar trazem um benefício adicional: a proliferação da vida marinha. Suas estruturas, como todo substrato imerso no oceano, favorecem o surgimento recifes de coral.

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Sob o mar, existem dep贸sitos petr贸leo, min茅rios e riq

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inestimáveis de quezas naturais

Plataformas de petróleo no Mar Cáspio: combustíveis fósseis cobram um alto preço ambiental

Foi a partir da década de 1960, depois de mais de um século de intensa exploração petrolífera nos continentes, que a indústria do petróleo voltou-se para os oceanos. Hoje, quando já se avista no horizonte o esgotamento das reservas petrolíferas mundiais – ainda que estejam estimadas em 1 trilhão de barris, suficientes para 40 a 50 anos de consumo –, as reservas marinhas podem ser vistas como o último capítulo de uma era movida a petróleo. É difícil imaginar um mundo sem ele. Todo o desenvolvimento econômico, a partir de fins do século XIX, se baseou nessa riqueza natural. Gasolina, parafina, gás natural, gás de cozinha (GLP), produtos asfálticos, nafta, querosene, solventes, fertilizantes, óleos combustíveis e lubrificantes são algumas das substâncias associadas ao petróleo. Entram na composição e no transporte de quase todo produto, de alimentos a cosméticos, de medicamentos a peças de vestuário, máquinas, utensílios etc. Alcançar as reservas em profundidades cada vez maiores, contudo, não é tarefa fácil e acarreta inevitáveis danos ao ambiente. O processo de perfuração deixa escapar fluidos e cascalhos saturados de substâncias e compostos capazes de desestabilizar ecossistemas. Romper camadas de rochas de cerca de 2 mil metros de espessura, abaixo da camada de sal do leito marinho, significa enfrentar pressões altíssimas e administrar enormes volumes de gás e carbono aprisionados nelas. Campos de petróleo no mar exigem uma enorme infraestrutura de plataformas, dutos, navios e portos. A exploração do pré-sal certamente irá mudar a feição da costa brasileira. Acidentes em águas profundas, como o do Golfo do México, em abril de 2010, quando milhões de litros de óleo vazaram por duas semanas, sem que se conseguisse conter o processo, são um risco real. A explicação veio depois: a tecnologia para deter e limpar vazamentos ainda é precária. A verdade é que, ainda que não possamos prescindir das reservas marinhas, muito pode ser feito para que sua exploração seja o menos danosa possível. Investimento em tecnologia e equipamentos de segurança, planos de emergência, reservas de contingência e treinamento de pessoal são uma necessidade. Esse é o desafio do futuro.

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Extraímos do mar m essenciais a uma infinidad

Floresta de kelp nas águas quentes e rasas da Califórnia: matéria-prima com múltiplas utilidades

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matérias-primas de de produtos

Produtos extraídos do mar estão presentes no dia a dia de todos nós, a começar pelo sal, talvez o mais antigo e universal produto marinho utilizado pela humanidade, tão precioso para a conservação de alimentos que chegou a ser utilizado como moeda na Antiguidade. Hoje, acrescido de iodo marinho, ele ajuda a controlar distúrbios da tireoide. A indústria química e a farmacêutica dependem de algas para produzir medicamentos e cosméticos, além de aditivos, como espessantes e estabilizantes. Essas mesmas algas, cultivadas em fazendas, podem ser utilizadas para a produção de biodiesel e etanol, com uma vantagem adicional: como necessitam de CO2 para seu crescimento, além produzir combustível limpo, ajudam a sequestrar carbono da atmosfera. No campo dos medicamentos, pesquisas estão em curso para obter do mar armas contra doenças graves, caso do câncer. Experimentos com esponjas são notáveis, por sua capacidade de fornecer metabólicos naturais. A partir delas, cientistas desenvolvem drogas, hoje na fase de testes, para inibir a proliferação de células tumorais e combater vírus, bactérias e fungos. Existem pesquisas promissoras em curso, envolvendo outros organismos. Cnidários e briozoários já são usados na fabricação de antibióticos. A própria água do mar é um recurso inestimável para produção de energia e uso industrial, doméstico ou em embarcações, na esteira dos alertas sobre eventual crise de abastecimento global de água doce, em razão da finitude das reservas. Por enquanto, o custo do processo de dessalinização limita iniciativas mais agressivas. Mesmo assim, Israel, Arábia Saudita, Estados Unidos e Reino Unido investem nesse campo com sucesso desde a década de 1990. Menos desenvolvidas, em razão da ainda abundante riqueza terrestre, encontram-se as pesquisas para uso de minerais marinhos, a começar pela própria areia, com potencial para ter um papel na construção civil. Além disso, é bastante provável que os oceanos se tornem, um dia, importantes fornecedores de fosfato, calcário, enxofre e carvão.

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Nossas origens, história e intimamente

Canoa entalhada em Bali, na Indonésia: documento vivo de saberes e técnicas ancestrais

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e cultura estão ligadas ao mar

A tradição oral, a literatura e a mitologia de todas as épocas são pródigas em descrições da relação do homem com os oceanos. Fascínio, amor, respeito, medo e ódio estão presentes nas narrativas, século após século. No mar, os homens sofreram com tempestades e naufrágios e desafiaram o desconhecido. Do mar retiraram alimentos para o corpo e para a alma, como deuses e entidades mágicas, monstruosas ou sedutoras. A Odisseia, poema atribuído a Homero, é um dos pontos de partida dos estudiosos das culturas marítimas no Ocidente. No relato das viagens do herói Odisseu (Ulisses para os romanos), estão descritos muitos dos comportamentos, mitos e ritos que se repetiriam em comunidades marítimas mundo afora. Só que, em cada lugar, isso se desenvolveu de um modo, resultando em vasta diversidade cultural, em emaranhados de costumes e crenças decorrentes de uma origem única: a intrigante massa de água considerada por várias mitologias – caso da egípcia e a hindu – e pela ciência moderna como a matriz da vida. Hoje, o estudo dos oceanos inclui o que vai além da sua realidade física. Acolhem-se as representações simbólicas e a vivência espiritual que derivam do mar. Considera-se a percepção complexa que as populações nativas desenvolveram. Por exemplo, o conhecimento de ventos, marés, matérias-primas para vestimentas e utensílios, além de usos nutricionais e medicinais de plantas e animais marinhos. E ainda o de técnicas e instrumentos de navegação. Do conjunto, saem novos caminhos de investigação e pistas sobre a história da organização social e econômica do lugar. É também na diversidade que a ciência encontra e sistematiza estratégicas alternativas de preservação, palavra-chave desses tempos. A abordagem é nova e recebeu o nome de Antropologia Marinha, com centros próprios de pesquisas surgidos a partir da década de 1970. A ideia é resgatar e preservar conhecimento de comunidades que mantêm traços singulares importantes. Podem ser nativas ou miscigenadas como no Brasil, fruto do encontro do colonizador, do indígena e do escravo africano desterrado.

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A beleza cĂŞnica dos ambie move o turismo e cria valor pa

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entes costeiros ara a economia

Ilha de Santorini, na Grécia, destino procurado por turistas do mundo inteiro

A indústria do turismo é uma das maiores do mundo. Vem crescendo gradativamente e driblando limitações, como crises econômicas, guerras e guerrilhas, doenças endêmicas ou epidêmicas. Apesar de tudo, nunca se viajou tanto no mundo. A receita gerada pelo setor deve alcançar US$ 1 trilhão nos próximos anos – em 2010, último dado disponível, foi de US$ 919 bilhões, de acordo com a Organização Mundial de Turismo (OMT). Mais de 1 bilhão de pessoas – cerca de 15% dos habitantes do globo – se deslocam anualmente para países estrangeiros, um número impressionante que não considera o turismo interno, outra força econômica importante. As regiões costeiras ficam com uma boa fatia desse enorme contingente de viajantes, pelas características únicas que elas oferecem: beleza cênica, contato com a natureza e culturas locais e uma infinidade de alternativas de lazer, dos esportes mais radicais ao simples relaxamento. Acima de tudo, o mar proporciona serenidade e equilíbrio. E não é apenas o turismo que se beneficia da beleza cênica dos ambientes costeiros: ela é peça chave para agregar valor ao mercado imobiliário. Historicamente, foi no entorno das paisagens mais deslumbrantes que surgiram aldeias e vilas que, com o passar do tempo, ganharam infraestrutura e se firmaram como lugares únicos e privilegiados, num processo de valorização contínua. Paradoxalmente, a ocupação dessas áreas e a intensificação do turismo, que dependem desse patrimônio ambiental e cultural, têm contribuído decisivamente para a degradação dos ambientes costeiros. Ocupação desordenada, ausência de saneamento básico, aumento populacional descontrolado no verão, desabastecimento de água e descarte de lixo são alguns fatores que hoje escapam ao controle. O Brasil ainda aproveita mal o potencial dos seus mais de 8 mil quilômetros de costa. Faltam políticas de promoção e fomento do turismo e ocupação costeira ordenada e sustentável e serviços públicos adequados. Além da base de tudo: educação, respeito ao mar e às populações ribeirinhas que dele vivem.

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O mar é um espaço priv recuperação de energia, serenida

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vilegiado para a ade e equilíbrio

Costa da Ilha de Creta, no Mediterrâneo: o mar proporciona vivências inesquecíveis

Banhos de sol, mergulhos, esportes náuticos, passeios e cruzeiros em embarcações de todos os tipos: mar é sinônimo de lazer. Frequentar uma praia talvez seja a forma de lazer mais barata e democrática. Ganhar o mar aberto, com direito a praias tranquilas, ilhas desertas e vilas costeiras, e contemplar paisagens pouco conhecidas e ecossistemas intocados é viver uma experiência única que traz benefícios para o corpo e para alma. Os benefícios que o banho de mar proporciona ao corpo humano são evidentes. Nadar ou mesmo brincar nas águas no mar alivia tensões musculares, estimula a circulação periférica e aumenta a oxigenação das células do corpo. O sódio e mais de outros 80 componentes são absorvidos pela pele e agem contra inflamações. Ajudam na cicatrização e são antissépticos. A ausência de impacto nas articulações reduz dores crônicas. O iodo ativa o metabolismo e combate distúrbios da tireoide. A variação térmica a que o corpo é submetido traz relaxamento. Estimulado dessa forma, o organismo produz menos hormônios que provocam doenças crônicas quando liberados em excesso, como é o caso do cortisol. Além desses, existem os benefícios de ordem psicológica e espiritual: o mar descansa e acalma, traz serenidade. Estar num ambiente tão diverso do cotidiano combate o estresse, clareia a percepção da vida, dissipa preocupações e sensações de medo, aprisionamento e solidão. A razão de tudo isso talvez resida na nossa relação ancestral com o mar, maior e mais forte que imaginamos, como nas palavras de Rachel Carson, bióloga e pioneira do movimento ambiental nos Estados Unidos, nos anos 50. Em seu livro The Sea Around Us, pioneiro best-seller sobre o meio ambiente marinho, Carson foi a primeira a constatar a relação entre nosso sangue e a água do mar. Corre nas nossas veias um fluido salino que combina o sódio, o potássio e o cálcio quase na mesma proporção que a água do mar. “Esta herança remonta a milhões de anos, quando nossos ancestrais passaram do estado unicelular ao pluricelular, elaborando um sistema circulatório, onde o líquido era constituído pela água do mar” , diz ela.

30 anos PAIXÃO PELO MAR

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Oceanos_Abertura Cátalogo 30 anos  

Abertura do catálogo de 30 anos da Regatta Oceanos

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Abertura do catálogo de 30 anos da Regatta Oceanos

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