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Edição

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REVISTA K Texto: Bรกrbara Viacava Fotos: Renata Ramos 14


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Os olhares entre os artistas não negam, deixam explícito e transparente: o amor e a paixão pelo que se faz é capaz de revolucionar o mundo. Era manhã e no calçadão de Novo Hamburgo o sol marcava presença, deixando metade da rua iluminada e metade à sombra. Ali, bem no centro da cidade, a banda Manouche Manolo se apresentava. Ao redor havia brechós, lojas e botecos. Os pombos voavam, as pessoas transitavam e as crianças brincavam. Para nenhuma delas o jazz cigano apresentado pela banda passava despercebido. A rua recebe pessoas das mais diferentes classes sociais, de diferentes gêneros e diferentes raças. É mutável, dinâmica e imprevisível. Nela passam aqueles que acordam de bom ou de mau humor, que acham brilhante o trabalho do artista ou que acham sem sentido. Pessoas, pessoas e mais pessoas. Os olhares curiosos e questionadores demonstram interesse no que estava acontecendo. Alguns mais felizes, outros mais incomodados. Alguns que param, outros que apressam o passo. Artista, público e rua: é isso que se faz necessário para que a arte de rua aconteça. De acordo com Neiva Rosa Garcia, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a expressão "artistas de rua" compreende aqueles que apresentam seus espetáculos pelas ruas da cidade de forma autônoma e, na maioria das vezes, itinerante. A música é apenas uma das vertentes da arte de rua. Poesia, malabares, palhaços, grafite, pichação, lambe-lambe também se destacam. E em meio à correria do dia a dia, junto aos prédios e praças da cidade de Novo Hamburgo é possível encontrar esses artistas, num ritmo diferente do socialmente imposto, com um sorriso estampado no rosto, característico de quem ama o que faz.

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Música O grupo Manouche Manolo é formado por quatro integrantes, Márcio Fülber, na voz e na gaita, Bernardo Boz Caitano, no violão, Fábio Pádua, no clarinete, e Felipe Schütz, no contrabaixo acústico. A banda teve início depois de uma viagem que Fábio e Márcio fizeram pelo Brasil, recebendo remuneração através do chapéu, fazendo arte de rua e participando de ocupações de lugares públicos. Eles buscam a sonoridade do gipsy jazz, também conhecido como jazz manouche ou jazz cigano, e notam que esse movimento pelo jazz vem crescendo no cenário musical. Apaixonados pela democracia que a rua possibilita, eles frisam a importância de tocar quando sentem que estão com uma boa vibração. Têm a rotina variada, e quando percebem que não estão em um bom dia para trocar energia com o público, preferem não ir. Também falam sobre a necessidade de estudar, conhecer e se atualizar sobre música. "A música não é só tocar, tem que praticar diariamente por muito tempo e estudar muito", comenta Felipe. Como artistas, o grupo nota que dentro do contexto no qual eles se inserem, todos são muito unidos. Fábio explica que "A rivalidade é um negócio que só exclui na música. Música, na verdade, é o contrário, é conexão. Pra mim, uma das maiores funções musicais é conectar, com a rua, com outras pessoas, com outros músicos". Conexão. Eis a magia da arte de rua. Se tudo está conectado, com os artistas de rua isso fica ainda mais evidente.

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REVISTA K Banda Manouche Manolo se apresenta no calรงadรฃo de Novo Hamburgo 17


Palhaço Além de trabalhar com um sorriso no rosto, os palhaços também arrancam risadas e gargalhadas de quem para por um tempo para ver a apresentação deles. Ben-hur Pereira, Paulo Stürmer e Kauê Mallmann têm algumas semelhanças e diferenças. De semelhante, a arte de fazer os outros rirem, e de ficarem felizes com isso. Além disso, os três participam da Ocupação Artística Casa da Praça. Na conversa com eles, ficou evidente que o ritmo de trabalho dos artistas é diferente do aceito como convencional. Eles não ficam das 8h às 18h e de segunda a sexta trabalhando, mas viram madrugadas, e trabalham com muita frequência nos finais de semana. Ben-hur comenta que a forma de se inspirar depende muito de cada artista. "A inspiração pode vir de um encontro com os amigos ou de passear na cidade. Mas quando a gente está em um lugar como a Casa da Praça, pra mim talvez tenha sido e esteja sendo o momento mais criativo da minha vida artística e naturalmente como ser humano. O dia a dia é produtivo, exigente e comprometido", explica. Mesmo que seus trabalhos possam ser individuais, os três percebem a importância de trabalharem em equipe, de forma coletiva, porque dessa forma tudo funciona com mais naturalidade, característica e identidade. Paulo reconhece que "a potência do outro potencializa a minha", e é dessa força em equipe que eles se nutrem. Ser palhaço exige observação do público, de como a maioria das pessoas está se sentindo, o que estão achando e como estão se relacionando com os artistas. Segundo Michel de Certeau, historiador que se dedicou ao estudo da psicanálise, filosofia e ciências sociais, os artistas constroem os espetáculos de rua a partir da observação do espaço em que é executado, ou seja, das pessoas que o frequentam, transformando o ambiente da rua em palco e os transeuntes, em plateia ativa na construção do evento. Ben-hur declara que considera essencial a presença da arte nos espaços públicos. "Na rua as pessoas precisam se emocionar, muito menos com a violência que é vendida pela TV, que diz que ele vai ser assaltado. Um lugar onde tem um artista trabalhando não tem assalto, não existe isso de ser atacado na janela à mão armada, porque o artista passa a ser um agente ativo da cultura da cidade", relata. E Kauê complementa: "Todo movimento surge de uma necessidade, a arte estar na rua com mais força hoje em dia também vem disso". A relação entre os três palhaços e os outros ocupantes da Casa da Praça, para além do profissional, é explicada por Paulo: "Acabamos nos encontrando nas dificuldades, o que gera uma sensação de familiaridade entre as pessoas próximas. Quando eu tô com um problema eu vou conversar com alguém que considero mais experiente ou que já passou por isso. O que extrapola a produção profissional". E por isso, de forma leve, honesta e unida, eles seguem. Fazendo e amando a arte.

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Reprodução / Facebook Reprodução / Facebook

Ben-Hur em apresentação com argolas

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Paulo, à direita, é palhaço

Kauê Mallmann também realiza apresentações como palhaço 19


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Malabarismo A voz doce e sutil, o sorriso largo, o olhar profundo e a delicadeza de uma mulher forte e batalhadora. Paloma Betina faz malabarismo de contato nas sinaleiras de Novo Hamburgo e chegou mostrando que a realidade para as meninas que trabalham na rua é um pouco diferente da dos homens. O preconceito sofrido por todos, pelo fato de serem artistas de rua, se torna um pouco mais forte por se tratar de uma mulher. Mas ela deixa claro que não é um preconceito mais intenso que o das outras mulheres. "Eu posso dizer que sofro na rua, mas eu não sofro menos que uma mulher da sociedade comum, que tá só passando na rua e sofre isso. Eu tô ali, vou sofrer algum assédio, mas é um assédio que eu sofro em qualquer lugar, mesmo que eu não esteja trabalhando", relata. "Toda mulher sofre isso, só que estando ali às vezes parece que eu fico um pouco mais vulnerável pra eles, porque eu tô na rua", complementa. Independente do que vai ouvir e ver, ela continua indo pra rua, se veste caracterizada e realiza sua apresentação, encantando a todos que cruzam pelo seu caminho. Apesar de trabalhar com teatro, dança em eventos e restaurantes fechados, Paloma considera a rua o melhor lugar para trabalhar, e é apaixonada pelo que faz. "Muitas vezes eu já ouvi: 'O que uma menina bonita como você tá fazendo na rua? Por que

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tu não és modelo? Não trabalha em um lugar diferente? A rua não é o teu lugar!' E eu respondo: 'A rua é exatamente onde eu devo estar.' A rua é o melhor lugar para se estar." Explica ainda que é nela que passam os mais diversos tipos de pessoas. Ricos, pobres, gente de todas as cores. "As pessoas que não têm condição de ir ao teatro ou não têm a cultura de ir ao teatro vão estar ali vendo o teu trabalho. Tu vai estar tocando vidas que muitas vezes precisam ser abraçadas pela arte. Tu és um foco de energia que tá ali pulsando. Muitos julgando e muito se iluminando com a tua arte", reflete Paloma. A bola de contato de vidro parece deslizar levemente pelos braços de Paloma enquanto ela realiza os movimentos. E, apesar da beleza do seu trabalho, alguns se sentem incomodados, sem entender o estilo de vida que ela leva, fazendo seu próprio horário, trabalhando pela manhã ou até de casa. Quando quiser pode viajar para outro estado e trabalhar de lá. Sorri ao lembrar dos amigos que viajam o mundo fazendo esse trabalho, conhecendo outras culturas e percebendo que nem tudo é como as pessoas do núcleo que estamos dizem, ou como os nossos pais nos ensinam. "O legal é que até as pessoas que criticam são interessantes, porque elas vão ficar incomodadas contigo. Só esse incômodo já gera uma mudança dentro delas", completa.


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"Peço licença para entrar nesse trem, passageiros do trem dessa vida Sou eu artista e poeta Na arte me curo e curo feridas Com a arte de rua eu ganho o pão A rua é uma escolha, e não falta de opção Do que adianta ganhar muito dinheiro e deixar a ganância destruir as coisas que vêm do coração? Enquanto os poderosos constroem bombas a arte traz a esperança Se o mundo ficar melhor vai ser através da arte e não por quem escraviza o povo e não cuida da educação das crianças Olhem bem, amigos Prestem muita atenção Somos tratados feito máquinas Programados para a destruição Compramos carros luxuosos que destroem a natureza Só é rico quem percebe que a simplicidade de um carinho é a nossa maior riqueza E o clichê é este: Quando nós mudamos, o mundo também muda Se passarmos menos tempo na internet dá tempo de ajudar quem precisa de ajuda Agradeço pela oportunidade de poder me expressar Não guardem seus poemas na gaveta O povo precisa se comunicar Contribuir com a arte de rua é garantir que em cada esquina tenha mais segurança Mais vale um artista nos fazendo sorrir Do que um político desviando dinheiro da merenda das crianças." Paloma Betina

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Poesia Mas Paloma não é a única menina que constrói poesias que fazem as pessoas refletirem sobre a sociedade na qual vivemos. Verte também é apaixonada pela escrita e expressa, através dela, sua militância. "Luto na minha condição, mostrando a minha ideologia e a minha vivência como mulher, não representante da feminilidade, pessoa que cresceu em um ambiente marginal e periférico, bolsista dentro de uma universidade", explica a estudante, tatuadora e artesã. Ela conta que há muito tempo gosta de escrever, mas depois que começou a participar de saraus descobriu a poesia e arriscou nesse estilo de escrita. Há um ano passou a fazer parte do movimento Islam, e se identifica como uma islamer e organizadora do Islam das minas, comentando que, através desse grupo, começou a participar da poesia falada e se identificou muito com isso. O Islam é uma competição de poesia falada que acontece em lugares informais, ele tem um caráter de poesias militantes e qualquer pessoa pode participar, mesmo que não se identifique como um artista. Verte percebe na arte o valor de comunicação e expressão, e se inspira em livros, artistas, outros islamers e em problemas sociais para escrever suas poesias. É clara ao definir o que consi-

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dera arte de rua: "Acho que é todo o tipo de arte que está fora do ambiente formal, fora das galerias, dos teatros, da biblioteca. O público diferencia muito. A arte de rua atinge públicos que não estão ali para ver a arte, estão na sua rotina normal e se deparam com uma performance, poesia, lambe, e isso é muito louco, porque a grande maioria não tem acesso à arte convencional." Sobre o seu trabalho, ela busca gerar o questionamento e a reflexão nas pessoas que a escutam ou a leem. "Acredito que minhas poesias são um choque para quem vê, porque são coisas fortes de se ouvir, e a pessoa tá ali ouvindo e recebendo. Mas eu gosto desse choque", relata, e conclui ponderando sobre a importância da arte de rua. "As pessoas precisam se acostumar com essa arte pra quebrar o preconceito existente. É da falta de convivência que vem o preconceito e estar na rua fazendo esse tipo de arte é uma afirmação da legitimidade dela", fala a artista. Verte leva suas poesias para alguns pontos da cidade, e até mesmo para outros municípios, como em Porto Alegre. Em Novo Hamburgo, ela já participou do Sarau do Cruzeiro, e encerrou a noite com uma poesia que mostra seu posicionamento.


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"Por nenhuma mulher Eu dou minha cara à tapa Nesse bando de mulheres Não vai ter um tapa Nem na cara, nem na bunda Nem em lugar algum que sem concepção Alguém queira colocar a mão Não justifica ser piada ou ser ironia Com machismo e misoginia não se brinca Pode ser no fim da noite Pode ser em uma festa Pode ser no ônibus Havendo abuso Eu vou reagir Não importa se é comigo Não importa o meu tamanho Eu vou reagir Sou pequena e sou magrinha Mas tu não sabe aqui dentro Da raiva que não é só minha É minha E é delas É por mim E é por elas Tem a ver comigo, sim Tem a ver com a minha luta Reagir quando alguém Chamar mulher de puta Não merecemos respeito Só quando acompanhadas Merecemos mesmo sozinhas Mesmo embriagadas Mesmo longe de casa Mesmo na sua cama Mesmo na sua cama Não é não Insistência é desconfortante Quando se trata de um corpo Sugado por olhos nojentos Na rua a todo instante A todo instante, Já me diziam os muros Seja barraqueira, seja heroína Pode ser a heroína de ti mesmo Por nenhuma mulher Dou minha cara a tapa Mas dou minha boca a grito E minhas mãos a socos." Verte

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SARAU

O Sarau é organizado pelo Coletivo Cultural Manifesto Poesia e realizado na Sociedade Cruzeiro do Sul, no bairro Primavera, em Novo Hamburgo. "A poesia é uma arma carregada de futuro" é a frase que fica exposta ao lado do microfone do Sarau, do poeta Gabriel Celaya, e ela explica muito do objetivo do grupo, que realiza mensalmente esse evento. Em um espaço aconchegante e acolhedor, o Sarau ocorre em toda a segunda quinta-feira do mês e é aberto à comunidade, iniciando sempre com algum convidado e depois permanecendo com o microfone aberto ao público. Todas as pessoas podem levar algum poema que gostem, seja autoral ou não, e declamar para o público presente. É a oportunidade de tirar alguns poemas que estavam guardados na gaveta e expor para o mundo,

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uma oportunidade que talvez muitas pessoas não teriam se não fosse ali. O Manifesto Poesia é a união de muitas pessoas que queriam militar pela cultura e propor alternativas diferentes que levassem as pessoas à cultura, fazendo com que até mesmo aqueles que não podem pagar para ter acesso a ela, pudessem vivenciá-la. "O principal objetivo do Coletivo é levar a cultura também para os pontos periféricos da cidade", falou Gil Müller, que faz parte do Coletivo mas deixa bem claro que o grupo não pertence a ninguém: "Eu falo apenas em nome do grupo, mas tudo que fazemos é aberto à comunidade e convidamos todos a participar, sugerir pautas e construir esse movimento em conjunto". Ele comenta sobre a resistência da cidade em relação à arte. Tem a per-

cepção de que a cultura também é saúde e segurança, pois tira as pessoas da marginalidade e leva elas a militar por algo que gostem. Além disso, relata que lá no Sarau todo mundo tem o mesmo espaço, seja um artista já consagrado ou não. Não existe um palco e holofotes, todos dividem o mesmo ambiente. Conclui o papo falando sobre o papel da arte: "A partir dela e da poesia é possível colocar uma pulga atrás da orelha das pessoas, fazendo elas pensarem sobre o mundo e refletirem sobre a sociedade. Acho que esse é o papel da arte: ser transformadora. Não quer dizer que tem que impactar todo o mundo. Se meia dúzia olhar para aquilo e começar a refletir sobre a sua existência a partir da obra, acho que a arte está cumprindo seu papel", falou Gil.


Sarau do Coletivo Cultural Manifesto Poesia acontece na Sociedade Cruzeiro do Sul

Microfone do Sarau é aberto ao público

Em um dos Saraus a banda El Efecto, do Rio de Janeiro, se apresentou para o público presente 25


Um dos mais conhecidos e reconhecidos socialmente como arte de rua, o grafite nasceu de forma ilegal. Nos muros, rodovias, túneis ou em outros espaços públicos é possível observá-lo, colorindo as cidades e transformando ambientes. Bruno Schilling, designer e artista que estuda a cor como um fenômeno, acredita que a arte vem muito mais para confundir do que para trazer uma resposta. "Ela vem para trazer questionamentos e sensibilizar o olhar", comenta. Hoje suas linhas fortes, vibrantes e impactantes podem ser encontradas em diversos muros de Novo Hamburgo. O que para Bruno começou como uma válvula de escape, se tornou profissão, sendo que hoje a sua rotina é dividida entre projetos de design e em projetos de arte. "Eu busco criar algo que não existe, mas também aprecio os outros estilos de arte, como a reprodução", relata. Considera arte de rua toda a manifestação que é realizada na mesma, e pondera sobre o preconceito já sofrido na profissão. "Acho que qualquer tipo de arte sofre preconceito, as pessoas acham que artista é vagabundo", fala, mas busca não se preocupar. "Eu ignoro, não dou bola. Nós, artistas, temos é que nos posicionar profissionalmente para mostrar que isso é mentira, temos que nos profissionalizar e mostrar que é uma profissão séria", conclui. O objetivo do artista é causar um impacto positivo nas pessoas, fazendo com que elas gostem e se encantem com o seu trabalho. "Meu trabalho não passa nenhuma mensagem social e esse não é o meu objetivo. Eu acredito que estar fazendo arte na rua já é um ato político. Quero encantar e confundir, quero que as pessoas passem pelos meus murais e sintam algo diferente", fala. Ele também comenta que uma das coisas que mais o encanta em seu trabalho é a perda do controle do seu impacto. "A gente coloca uma arte em algum lugar e não sabemos o que as pessoas vão sentir quando ver aquilo. Gosto de proporcionar essas experiências sem saber o que as pessoas vão pensar. Com esse trabalho abstrato tem pessoas que enxergam

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Grafite

Bruno Schilling é designer e muralista diversas coisas. Eu nem explico, quero que as pessoas vejam e gostem, não busco ser didático, é mais para as pessoas observarem, sensibilizem o olhar e aproveitem", conclui. Bruno pintou a parede da Ocupação Cultural Casa da Praça, e explica um pouco sobre isso: "Eu faço porque eu gosto, antes de fazer pela grana, apesar de ela ser necessária. Se não tivesse dinheiro envolvido eu estaria pintando, tanto que faço muitas coisas que não são pagas", comenta o artista.


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Bigrock é artista plástico e grafiteiro

Além de Bruno, Pedro Correa também é um artista plástico da cidade, e, apesar de não viver só da arte, se dedica a ela com muita intensidade. "A arte, além de uma demonstração da habilidade, é uma expressão do que o artista está sentindo no momento em que a está fazendo. Ela pode expressar opiniões e sentimentos". Sua assinatura, Bigrock, pode ser encontrada em diversos muros de Novo Hamburgo e outras cidades, e ele explica que, além dessa arte comercial e paga, ele também realiza estudos de arte em casa, buscando se expressar através da simbologia, trazendo todas as inspirações que teve para o papel. "O tempo inteiro existe inspiração, no metrô, no sapato das pessoas que passam, no desgaste deles, nas expressões das pessoas, na postura ao caminhar, tudo influencia na arte para o artista que observa", relata ele. Bigrock ainda conclui que muitas pessoas não compreendem o termo grafiteiro como positivo. "Eu aprendi que falar isso já gera um preconceito automático nas pessoas, mas querendo ou não, grafite é diferente da pichação, que é ilegal. Então até costumo me apresentar e identificar como artista plástico, que tem uma maior aceitação por quem não entende o conceito de grafite", conclui.

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Parede pintada por Bruno Schilling

Bigrock usa a arte como forma de expressar-se 28


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Parede pintada por Bruno Schilling, em parceria com o artista Maick Seilá

O artista Bigrock grafita paredes não só de Novo Hamburgo, como de outras cidades

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PICHAÇÃO Mais polêmicos que os citados anteriormente, a pichação é um estilo de arte ilegal. Mas, para além da ilegalidade e do patrimônio público ou privado que recebe aquela pichação, existe um artista buscando se expressar de alguma forma. Fábio Flautert descobriu há 11 anos sua paixão por desenhar, e hoje espalha desenhos de um gato pela cidade. Ele é a Gata Mescla. Fábio busca, através da sua arte, mostrar o underground, a cultura que foge dos padrões normais e conhecidos pela sociedade e, dessa forma, também incentivar o consumo da arte - seja convencional ou alternativa. Considera arte tudo aquilo que tira as pessoas um pouco do mundo real, que desperte a curiosidade e imaginação, apresentando algum talento ou algo incomum no cotidiano repetitivo da sociedade. A identidade de Gata Mescla é inspirada no próprio animal, o gato. Uma ideia que surgiu de trazer um personagem não humano, mas que interagisse com o mundo humano. Atualmente ele também usa uma roupa e uma máscara que caracterizam a personagem da Gata. Relata que muita coisa o inspira, o prédio que está sendo construído, a abelha que pousa na coca-cola de uma

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lancheria e alguns artistas que tem como referência. Considera a arte de rua muito importante, pois atinge todos os tipos de público, desde os mais cultos até os menos cultos, sendo que cada atingido percebe aquilo da sua maneira. "Tem gente que não tem condições de ir a galerias e nem sabe que existe uma galeria ou um evento de arte por perto, mas passando na rua e olhando a arte é possível que ela entre em contato com tudo isso", fala. As pichações do Gata Mescla querem atingir as pessoas de forma natural. "Elas dizem bom dia, boa noite, interagem com a população. Acho que todo mundo gosta de receber essa saudação", ele relata, complementando: "Além disso, acho legal despertar a curiosidade das pessoas, que pensam se é um homem, uma mulher, em quem fez aquilo". Ele concluiu a conversa falando sobre os outros tipos de arte de rua. "Acho que cada um tem a sua função, eu apenas admiro! Qualquer tipo de arte que venha do coração da pessoa e faça ela feliz é válida. A criatividade do ser humano é ilimitada é isso é lindo!"


Paredes pichadas da Casa Aberta, local onde ocorrem alguns eventos artísticos

Foto: Bárbara Viacava Foto: Bárbara Viacava

Pichação nas paredes da cidade de Novo Hamburgo 31


LAMBE-LAMBE Junto com a pichação existe outra forma de expressão artística ilegal, que é o lambe-lambe. Folhas com mensagens curtas espalhadas pela cidade, os lambes geralmente nos fazem refletir sobre algum assunto específico enquanto passamos por determinado lugar que faz parte da nossa rotina. Conversamos com Alexandre Reis, artista que integra o Coletivo Consciência Coletiva, que espalha lambes pela cidade de Novo Hamburgo. O artista nos mostra um pouco de indignação ao refletir que o que é comercial é aceito pela população, mas quando é arte é considerado vandalismo. Relata que o grupo busca trazer reflexões que as pessoas evitam fazer, tirando elas da alienação e de dentro de uma bolha, seja qual for essa bolha. "A arte de rua vem da urgência, de algo que precisa ser feito e expresso, e a rua, nesse caso, é o palco", comenta. Os lambe-lambes feitos não precisam estar esteticamente bonitos, precisam ser simples e comunicar, de forma rápida e sintética. Eles são muito efêmeros e, assim como podem permanecer por muito tempo em uma parede, podem ficar menos de um dia. "A arte de rua é assim, não tem horário, agenda, preço, espaço definido, e nós também não estamos presos a um só lugar, somos todos ciganos", relata o artista. Finalizamos a conversa com algumas reflexões trazidas por Alexandre: "Onde está a cultura? Quanto ela custa? Quem a faz? Como a população pode se nutrir dessa arte? Quem pode pagar pela arte convencional?"

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Processo de criação dos lambes do Coletivo Consciência Coletiva

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A Casa da Praça Um suspiro, uma pausa no relógio, um tempo para observar e refletir. A Casa da Praça é uma ocupação artística localizada no bairro Boa Vista, em Novo Hamburgo. A antiga casa dos Meninos Cantores recebeu a vida e a música novamente depois de alguns anos. Em uma parceria muito firme com os moradores do bairro, a casa abriga artistas das mais diversas áreas. São 11 grupos, entre coletivos e individuais, que vão para a casa criar um espaço de produção cultural e acolhimento de artistas. "É a nossa casa de produção, onde as ideias fluem, onde criamos e propomos nossas ideias", falou Paulo, um dos palhaços que também participa em um dos coletivos. Entre um café e outro, os artistas se reúnem, conversam e fazem trocas de conhecimento e cultura pelos corredores da Casa. Além disso, os moradores do Boa Vista são convidados a participar dos

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cuidados do local, e marcam presença nos piqueniques, no mantimento da horta e até mesmo ao observar a movimentação do local e a construção artística. Na Casa da Praça, tudo é baseado na cocriação. A Casa respira arte para quem está lá dentro e também para quem está do lado de fora de suas paredes. O palhaço Ben-hur define bem: "Todas as coisas que saem da casa, das portas e da janela da Casa, são a Casa da Praça dentro da cidade. Percebemos a importância de sair com as ações de dentro da casa, com um produto, visitar os bairros, o calçadão, bares, metrô, cidades do estado", conclui. E Kauê complementa: "A Casa acabou virando um ponto de referência, para os grupos que estão aqui e para os que não estão. É como se antes fosse tudo muito isolado, os artistas não se conhecessem e não se reconhecessem, e agora temos essa referência".


O interior da Casa da Praça é repleto de espaços inspiradores

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O chapéu Quando falamos de arte de rua, aquele clássico "comprar o ingresso" não é um cuidado necessário. O valor estipulado ao espetáculo visto pode variar conforme a pessoa que assiste. Para muita gente pode parecer estranho, mas os artistas dos quais falamos confiam tanto no amor que têm pela arte que deixam que cada pessoa defina o quanto de seu salário vai deixar para eles - passando de moedas até notas. "Quem tem, contribui com dinheiro, quem não tem pode pagar com um sorriso", comenta Ben-Hur. Cada pessoa dá o valor que considera justo por aquilo que viu. Quem gosta do trabalho pode continuar assistindo, quem não gosta pode ir embora e seguir sua vida. De dentro do chapéu eles tiram o dinheiro que vai os sustentar. "Às vezes o dia não tá muito favorável pro chapéu. Se a gente for pra rua pensando sempre no retorno financeiro não vai ser legal, mas se a gente vai pensando em se divertir, transmitir a arte e transmitir cultura pro povo, o retorno vem", comenta Fábio, e Bernardo complementa: "Nem todo mundo tem dinheiro para ir em um show, pagar a entrada para ver um espetáculo, por isso que a rua é democrática, todo mundo tá passando e assistindo". A rua é o palco mais democrático de todos, já nos avisaram os artistas entrevistados. A rua é para todos.

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Matéria Arte de Rua - Revista K edição número 5  

A matéria principal da quinta edição da Revista K traz o tema Arte de rua. Diversos artistas da cidade de Novo Hamburgo que foram entrevista...

Matéria Arte de Rua - Revista K edição número 5  

A matéria principal da quinta edição da Revista K traz o tema Arte de rua. Diversos artistas da cidade de Novo Hamburgo que foram entrevista...

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