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As multitarefas do Pedagogo na emergência da Cibercultura. Profª. Drª. Renata Biscaia Raposo Barreto http://lattes.cnpq.br/8811010641627102


Introdução O objetivo principal desta palestra é ampliar o debate sobre os espaços da Pedagogia no contexto geral da educação em sua interface com a sociedade contemporânea , complexa e tecnologizada, e, a relação dessa complexidade e tecnologias com as tarefas do pedagogo, nesses espaços.

A verdade é que estamos diante de um contexto complexo e cada vez mais amplo. O avanço das tecnologias de comunicação e informação proporcionou interfaces inovadoras que uniram os recursos da telemática, do computador e da Internet às mídias tradicionais, como cinema, televisão, rádio, impressos e

outros. Como resultado, contemplamos, nas últimas décadas, o surgimento de um novo espaço de comunicação – que recebeu, consensualmente, o codinome

de “ciberespaço”.


O ciberespaço, conforme descreve Lèvy, é uma dimensão antropológica na qual se inscrevem as marcas da atuação humana. Novas representações, símbolos, linguagens, produções e sentidos surgem deste contexto

colocando-nos na emergência de uma nova dimensão cultural podemos designar como “cibercultura”, “cultura digital”,

que

“cultura da

interface” ou simplesmente, “cultura da rede”.

Nesta dimensão de multicultura, ampliada pela rede, desenham-se novos papéis, redimensionam-se os perfis e se definem novas tarefas.


No novo espaço antropológico, resultante da integração em rede dos computadores do

mundo inteiro, circulam inteligências, meios, novas mídias, tecnologias, conhecimentos e informações.

Cabe-nos perguntar:

Nesta circularidade dinâmica imposta pelas transações em rede das marcas culturais de nosso tempo, em que lugar e em que tempo, a Pedagogia se coloca?


Mudanças Culturais O campo da educação convive sempre com as grandes mudanças. As mudanças que vivemos, hoje, vêm acrescidas com as marcas do fenômeno da globalização

que invadem, indiscriminadamente, os diferentes espaços do mundo.

Cabe então outra pergunta:

Como ficarão as marcas culturais das minorias sociais e dos países menos privilegiados, pouco preparados para reivindicarem territorialidade?

seus

espaços

nessa

nova


A educação pode e deve colocar-se nesse embate, não só porque detem conhecimentos e

metodologias capazes de integrar o novo ao que quer que seja considerado “velho” , mas, principalmente, porque pode conduzi-los através de uma aventura dialógica.

A

dialogicidade,

hoje,

assumiu uma nova

definição - interatividade - significando a prática

do diálogo múltiplo, da troca e da articulação das múltiplas linguagens que aprendemos com as novas tecnologias.


Para experenciar essa prática, no entanto , é preciso aceitar que estamos num momento de mudança de paradigmas e isso requer que nós, educadores, estejamos em sintonia com estas mudanças. Apoiando-nos em Paulo Freire, acreditamos na superação do pensamento redutor e formal da pedagogia meramente transmissora, a favor da pedagogia transformadora, que conduz à criatividade e à liberdade de expressão.

Se aceitarmos isso, antecipando o impacto avassalador da globalização, perceberemos que tanto o “local” como as marcas culturais, mesmo quando em minoria, não são tão “frágeis” assim. Conseguem se ineterpor na rede, num processo de interatividade.


Nós, educadores, conscientes de nossos papéis e do mundo que nos cerca, poderemos usar as mesmas ferramentas, linguagens e tecnologias que, em hipótese, nos derrotariam e, a partir das mesmas, adquirir vida e voz.

As marcas culturais, ressignificadas pela qualidade interativa da rede, avançam e

atingem o universo cultural do outro, daqueles que consideramos diferentes. Em rede, toda essa diversidade vivencia um diálogo múltiplo, produzindo então,

novas formas de cultura.

Só há uma forma de escapar da rede: não participar dela.


O conhecimento não é estanque e a forma de nos apropriarmos dele também não é, assim como também não são estanques as práticas sociais que derivam desses conhecimentos.

A Pedagogia é uma das práticas que derivam do campo da educação e reúne os saberes

que definem as finalidades da educação.mEla lhe dá sentido e corpo, tornando-se responsável, diretamente, pela definição dos paradigmas de formação das sociedades,

em cada tempo histórico.

Nosso tempo histórico caracteriza-se pela abertura do ciberespaço – a internet – e pela emergência da cibercultura.


O ciberespaço é uma dimensão sem fronteiras e multifacetada. Para ocupar este espaço considerando-o em toda sua grandeza faz-se necessário estar em sintonia com as mudanças. Sair do comum e fazer diferença.

O que viemos indagar então é:

Que Pedagogia é esta que se define na emergência da cibercultura? E, quais são as novas tarefas do pedagogo?


A educação na Cibercultura A primeira coisa que precisamos considerar é que estamos vivendo transição para um paradigma que considera que todas as coisas são interligadas e que todos fenômenos se tocam produzindo novos fenômenos.

Chamamos esse novo modelo de “paradigma da rede”(Pierre Lévy, Capra, Bareto). Tal ideia se sustenta nos pressupostos do “pensamento complexo” proposto por Edgar Morin.

O paradigma da complexidade, possui, acima de tudo, uma natureza dialógica e abrangente,

que tudo inclui. De qualidade holística, mostra que a parte explica o todo e vice-versa. Nos diz também que é necessário fazer dialogar as contradições para que se chegue a um consenso, a

algo que seja bom e satisfatório para todos.


A entrada dessas ideias no cenário da

mudar sua missão

educação veem provocando um desgaste do

focar o aprendiz

paradigma

passar do ensino à aprendizagem

promover o “aprender a aprender”

colocar o currículo em ação

situar a educação como diálogo aberto

reconstruir os papéis do educador e do

tradicional

de

ensino

e

desenhando novas propostas em torno de um

“paradigma

educacional

emergente”

(MORAES, 2000).

Tanto a escola como a docência, na visão

educando

desta autora, assumem novas pautas que

podem ser assim sintetizadas:

centrar a educação no sujeito coletivo

ultrapassar a razão instrumental que

domina a escola e seus atores


1.

organizar e dirigir situações de aprendizagem

revisão da profissão do educador ao

2.

administrar a progressão das aprendizagens

destacar dez competências básicas a

3.

conceber e fazer evoluir os dispositivos de

Também Perrenoud* contribui para uma

diferenciação

serem construídas pela pedagogia deste

século:

4.

envolver os alunos em sua aprendizagem e em seu trabalho

*PERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000.

5.

trabalhar em equipe

6.

participar da administração da escola

7.

informar e envolver os pais

8.

utilizar novas tecnologias

9.

enfrentar os deveres e dilemas técnicos da profissão

10.

administrar a própria formação contínua


As contribuições destes autores foram consideradas

ao

estudarmos

as

possibilidades de redimensionamento da profissão do educador no “ciberespaço” e

na emergência da cibercultura.

Inspirados nelas, avançamos e propusemos

autônomo na busca de informação e crítico, na transformação dessa informação em conhecimento

autor, participando construtivamente deste conhecimento e articulando-o na rede

trabalhar num processo contínuo de colaboração e autoprodução;

saber usar e articular meios, métodos e tecnologias;

ter visão interdisciplinar

saber utilizar a dinâmica da rede em projetos interativos de aprendizagem colaborativa;

ser capaz de ampliar sua visão dialógica a ponto de promover a interatividade

promover e articular “situações gnosiológicas” em rede, de forma a estimular produções de “inteligência coletiva”.

algumas características que devem integrar

o perfil dos pedagogos e educadores para o nosso tempo*. Assim acreditamos que é necessário ser: *BARRETO, R B R – A Internet como possibilidade de Redimensionamento do Papel do Professor – Rio de Janeiro, UNESA, 2003


O ciberespaço como “lócus” de atuação do Pedagogo: a multitarefa Tal como a dinâmica digital que se expressa nos programas de computadores, a atuação do

Pedagogo, em nosso tempo, se define por multitarefa.

Os espaços reais e virtuais se confundem, engendrando um novo contexto de atuação, onde estamos ao mesmo tempo, em lugares e tempos diferentes e onde, também ao mesmo tempo, executamos diversas tarefas e desempenhamos diversos papéis.

O ciberespaço é uma dimensão que vem sendo integrada no cotidiano das relações sociais, desde o

surgimento da Internet. A educação, por seu intermédio, também tem ampliado seus limites para além dos espaços tradicionais.


Falamos hoje de “escolas virtuais”; “ambientes virtuais de aprendizagem”, “sistemas de

gerenciamento de aprendizagem” e de diversas ferramentas de comunicação que dão à educação a distância um novo perfil. A educação on-line, está posta. É possível, hoje, diluir as distâncias, aproximar os tempos, entrelaçar as culturas.

O Pedagogo, hoje, é aquele profissional que também estende sua atuação para além dos espaços tradicionais, estando presente, ao mesmo tempo, nas diversas instâncias sociais por onde a educação perpassa.


A Pedagogia da Convergência: Voltemos então a nossa pergunta inicial: que Pedagogia é esta que se define na emergência da cibercultura e quais são, afinal, as tarefas do pedagogo?

Ousamos dizer que estamos diante de uma Pedagogia da Convergência, designando-a como um “lócus” de absorção de

todos os saberes, meios,

tecnologias e metodologias que se destinam à educação de forma a poder atende-la nos espaços cada vez mais múltiplos da atividade humana.

E dos pedagogos podemos dizer que são os arquitetos destes espaços. Não só arquitetos, como maestros, gestores, criadores, projetistas e operários.


São consultores, orientadores, geradores e gerenciadores de cursos, organizadores de projetos, conhecedores de múltiplas linguagens,

agentes

multiplicadores

e

articuladores

de

interdisciplinaridade, intermediários entre meios e saberes e, acima de tudo, professores o tempo inteiro.

São, finalmente, aqueles que desenham os novos perfis, que atribuem os novos significados e que encontram as melhores formas de socializar os conhecimentos que a própria sociedade produz.


Referências Bibliográficas BARRETO, R B R – A Internet como possibilidade de Redimensionamento do Papel do Professor – Rio de Janeiro, UNESA, 2003

LÈVY, Pierre . Cibercultura . São Paulo: Editora 34, 1999.

MORAES, M C. O paradigma educacional emergente. São Paulo: Papirus, 2000.

MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo .Lisboa: Instituto Piaget, 2001.

PERRENOUD, P. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000.

Multitarefas pedagogo  

Palestra que discute as diversas tarefas do pedagogo na emergência da Cibercultura

Multitarefas pedagogo  

Palestra que discute as diversas tarefas do pedagogo na emergência da Cibercultura

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