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A educaçao na era do conhecimento: redimensionando os papeis da escola e do professor Renata Biscaia Raposo Barreto

O computador como “objeto antropológico”: O impacto causado pela entrada do computador no cenário social, a partir dos anos 70, atingiu também o setor educativo, exigindo mudanças profundas no paradigma que norteia a relação ensino-aprendizagem. Nesses últimos anos, mesmo ainda antes da entrada do Séc. XXI, percebeu-se que era preciso educar um “novo expectador” – um novo aluno – cujas necessidades e exigências passam, cada vez mais, a expressar o ritmo de seu tempo histórico.

Características do “novo expectador” (a geração NET): O “novo expectador” compõe a chamada “geração NET”, educada em meio ao desenvolvimento do computador, internet, redes sociais, hipermídias, jogos eletrônicos e etc. Em termos de comunicação, esse sujeito é cada vez menos passivo. Procura fugir do modelo clássico (emissor- receptor) e intervém na mensagem deixando sempre a sua marca pessoal. Neste sentido, ele assume o papel de coautor da mensagem e da comunicação. A tecnologia digital permite que qualquer usuário possa ouvir, falar, ver, gravar, voltar, ir adiante, selecionar, tratar e enviar qualquer tipo de mensagem para qualquer lugar.


É possível também “samplear”, ou seja, selecionar pequenos fragmentos de diversas obras (música, textos, imagens e etc) para criar uma outra obra, totalmente diferente. Nestas condições, o “novo expectador” assume o papel de sujeito operativo, passa a tomar decisões, escolher suas próprias experiências e a criar estratégias de ação em tempo real. De acordo com Silva (2001), isso ocorre porque esse sujeito está “imerso num enredo aberto a sua intervenção”. Como está sempre conectado, só encontra sentido na mensagem quando ele pode intervir. De outra maneira, ele não aceita. Numa situação de sala de aula tradicional, por exemplo, ele “finge” que está aprendendo ou participando. Está presente, mas seu intelecto recusa a elaborar a informação. Já numa situação de aprendizagem participativa, na qual ele é convidado a atuar na construção da comunicação, sua atitude é diferente: ele cria, modifica, constrói e aumenta. Seu intelecto passa a participar da elaboração, envolve-se no processo cognitivo e o conhecimento é construído.

Do paradigma formal ao paradigma da rede: Assim como as relações que ocorrem na sociedade, nas suas diversas dimensões, a educação também está vivendo um momento de mudança de paradigma. Somos herdeiros da modernidade positivista, racional, voltada para resultados finais obtidos por meio do controle do objeto e dos fenômenos em observação. A modernidade engendrou um paradigma denominado formal, preocupado em embasar o conhecimento científico e formar o “homem-máquina” ou o indivíduo homogêneo.


A escola originária deste paradigma está submetida, junto com os professores e estudantes, a um controle rígido, baseado na hierarquia, no dogmatismo, no autoritarismo – o conhecimento é adquirido por meio da transmissão estruturada de forma linear do processo ensino-aprendizagem. Atualmente, falamos de um novo paradigma que permite escapar do modelo formal e linear e conduzir à vivência e compreensão de que o pensamento humano é “redial”, isto é, estruturado em rede. Essa estrutura de organização complexa não obedece à sequencia exata de “princípio – meio e fim”. Nos dias atuais, por causa do desenvolvimento das “tecnologias da inteligência”, especialmente o computador e a Informática, e da emergência do digital podemos criar novas representações e associações para definir como funciona a percepção humana diante de novos fenômenos e novas informações. É possível atingir a dimensão hipertextual, cheia de “links” , conexões, novas construções e sentidos. O Paradigma da rede é, portanto, um paradigma baseado em três princípios fundamentais: a complexidade, a dialogicidade e o construcionismo. É importante destacar que esse novo paradigma é includente,

assimilando posturas

aparentemente contraditórias; é hologramático, ou seja, articula o todo com suas partes e vice-versa; e é fundamentalmente dialógico. Na prática, o paradigma da rede é aberto, dinâmico e hipertextual , por meio do qual é possível criar conexões e redes associativas de sentido. Na prática, o paradigma da rede é aberto, dinâmico e hipertextual , por meio do qual é possível criar conexões e redes associativas de sentido. De acordo com Lèvy (2000:127):


Conectados à rede informático-mediática, os atores da comunicação dividem cada vez mais um mesmo hipertexto. A pressão em direção à objetividade e à universalidade diminui, as mensagens são cada vez menos produzidas de forma a durarem.

A escola para este paradigma ainda está em formação. É necessário ressignificar não apenas os hábitos escolares e os modelos que orientam as situações de ensino-aprendizagem, mas é preciso ressignificar, especialmente, o papéis dos atores que vivenciam essas situações: professores e estudantes. Refletindo sobre isso, Moraes (2000:50) elaborou uma série de nove pautas que ela considera essenciais para a mudança do paradigma educacional: Refletindo sobre isso, Moraes (2000:50) elaborou uma série de nove pautas a serem atendidas pela Escola, consideradas essenciais para a mudança do paradigma educacional. São elas: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9.

Mudar sua missão Focar o aprendiz Passar do ensino à aprendizagem Promover o aprender a aprender Colocar o currículo em ação Situar a educação como diálogo aberto Reconstruir os papéis do educador e do educando Centrar a educação no sujeito coletivo- ecologia cognitiva Ultrapassar a razão instrumental – visão ecológica que permite a leitura do mundo nas suas múltiplas relações

O Professor Redimensionado: Durante minha pesquisa de mestrado, concluída em 2003, preocupei-me em descrever as características essenciais para um novo perfil do professor. Destaquei que uma verdadeira ressignificação do papel docente para ser capaz de atuar nos


espaços, tanto presencial como on-line, necessita o desenvolvimento das seguintes competências (BARRETO, 2003:72): – ser autônomo na busca da informação e crítico, na transformação da informação em conhecimento; – ser autor, participando construtivamente deste conhecimento e articulando-o na rede; – trabalhar num processo articulado de colaboração e autoprodução; – saber articular meios, métodos e tecnologias; – ter visão interdisciplinar; – saber utilizar a dinâmica da rede em projetos interativos de aprendizagem colaborativa; – ampliar a visão dialógica promovendo a interatividade – promover a articular “situações gnosiológicas” em rede, de forma a estimular produções de inteligência coletiva.

A Sala de aula Interativa: Para finalizar, é importante dar destaque às contribuições de Silva (2001) para um contexto educacional que ela chama de “Sala de Aula Interativa”. Conforme este autor, a sala de aula que ele chama “interativa” pode ser rica em tecnologia ou não, porque depende muito mais do modelo de comunicação que se estabelece entre professor e alunos, do que dos recursos que fazem a ligação entre eles e o conhecimento. Silva (p.74) também se preocupou em constituir um perfil do professor, capaz de atuar de forma interativa e despertar seu aluno para a construção do conhecimento, tendo ou não tecnologia a sua volta. Segundo ele, o professor deveria: • modificar sua ação modificando seu modo de comunicar em sala de aula. Na perspectiva da interatividade, o professor deixa de ser o “contador de histórias” que imobiliza o conhecimento e compartilha esse papel com os alunos. • Tornar-se um “sistematizador de experiências”, no sentido do hipertexto e, assim, disponibilizar “possibilidades de múltiplas experimentações e de múltiplas expressões”


• Tornar-se um Designer de software , ou seja, possibilitar uma montagem de conexões em rede que permite múltiplas ocorrências. O professor designer de software é aquele que modifica sua prática comunicacional no sentido do hipertexto. • Tornar-se um formulador de problemas, provocador de situações, arquiteto de percursos, enfim, agenciador da construção do conhecimento na experiência viva em sala de aula.

Nos quadros seguintes (SILVA, 2001:76), o autor cria parâmetros de distinção entre a Modalidade de educação tradicional e a que ele chama de Modalidade Interativa.

Do ponto de vista do paradigma da rede, é possível compor parâmetros das duas modalidades, criando novas situações e novas modalidades educacionais, sem excluir contribuições, desde que estas façam sentido nos contextos em que se formam.


Bibliografia: • BARRETO, R.B R – A Internet como possibilidade de redimensionamento do papel do professor – Dissertação de Mestrado, RJ: UNESA, 2003 • LÈVY, P – As tecnologias da Inteligência – SP: Ed.34, 2000 • MORAES, M C – O paradigma educacional emergente. SP: Papirus, 2001 • SILVA, M – Sala de Aula Interativa . RJ:Quartet, 2001


A educação na Era do Conhecimento