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DIGITAL


Editores Mercedes Lorenzo Rubens Guilherme Pesenti Willian Delarte

Contato revistarebosteio@gmail.com

índice 04 Ilustração de Tiago Costa 05 Editorial

Blog para mailing-list: http://rebosteio-revistadigital.blogspot.com/

Colaboradores deste Nº Christiana Nóvoa Henrique Pimenta Igor K. Marques Lúcia Santos Marcantonio Costa Mariana Botelho Mauro Brito Combo Mercedes Lorenzo Nina Rizzi Polyana de Almeida Renato Silva Roberta Silva Pinto Rodrigo Machado Freire Rubens Guilherme Pesenti Thiago Carvalheiro Tiago Costa Walner Danziger Willian Delarte REBOSTEIO é uma publicação digital sem fins lucrativos, construída com a ajuda de colaboradores voluntários, independente, apartidária e voltada para a divulgação de arte em geral, de idéias, provocações neurais e expansão dos sentidos... não temos todas as respostas, mas estamos interessados nas melhores perguntas. DIGITAL

06 Christiana Nóvoa 10 Henrique Pimenta 14 Igor K. Marques 18 Lúcia Santos 22 Marcantonio Costa 26 Mariana Botelho 30 Mauro Brito 34 Mercedes Lorenzo 38 e 39 Ilustrações Tiago Costa 40 Nina Rizzi 44 Renato Silva 48 Roberta Silva Pinto 52 Rodrigo Machado Freire 58 Rubens Guilherme Pesenti 62 Walner Danziger

CAPA: Tiago Costa PROJETO GRÁFICO: Rubens Guilherme Pesenti http://ru666.blogspot.com Mercedes Lorenzo http://olhardelambe-lambe.blogspot.com

68 Willian Delarte 72 Poetas em (Des)Construção 76 Rebosteio In Dica 78 Ilustração Tiago Costa


ilustração do tiago costa


editorial Desde que as helênicas Musas cantaram as errâncias de Ulisses, nos ouvidos de um (suposto) Homero, a figura do Poeta vem cercada de certa aura mística e alumbramento. A redescoberta dos greco-latinos pelo mundo classicista, que arduamente tentava fugir das “trevas” do Catolicismo, deixou o Poeta praticamente no mesmo status dos semideuses, ainda cercados de hidras, unicórnios e salamandras... o Romantismo parece ter jogado nas costas deste “ser” todo o peso político das revoluções nacionalistas e burguesas: o Poeta suicida, recluso, emotivo, bucólico e contemplativo, embora estivesse mais próximo dos Homens, era uma entidade excêntrica (agora “escritor”), que assumia o posto de sobre-humano para suportar o peso que a história lhe punha ou que ele próprio agarrava para si. Os simbolistas e surrealistas foram mágicos sublimizantes: notas musicais que se misturavam aos códigos secretos da natureza e dos sonhos (precisamos falar mais?). Pois vamos falar mais: esta edição é literal e visualmente uma colcha de retalhos. Retalhos de que são feitas as pessoas que ousaram participar, os chamados poetas. Retalhos de ideias sobre o que é poesia. Retalhos diagramados propositadamente para formar a grande colcha de 'patchwork', que também poderá ser descosturada pelo leitor a qualquer momento, lendo de trás para frente inclusive. A linha da costura é tênue, requereu desprendimento de todos. Alguns simplesmente sucumbiram ao desafio. Outros, mesmo em condições pessoais desfavoráveis, ainda assim “peitaram” o nosso pedido de demolição interna. Pedimos também suas fotos que de alguma forma exprimissem essa disposição de despir a figura do poeta, aproximando-o do leitor. E claro: poemas. Muitos deles. Embora esta edição aparentemente não tenha uma unidade gráfica ou um fio condutor visual no qual o leitor possa se ancorar, ela segue a lógica dos poetas convidados e seu colorido particular de expressão. E também segue uma ordem alfabética de apresentação, para não privilegiar um ou outro. Navegamos juntos neste nosso tempo, em que o poeta se dissolve no universo das redes virtuais e, se antes eram deuses, gnomos, heterônimos e afins, não é difícil imaginar que hoje não passam de fakes e personagens cibernéticos. Será? Onde está o Poeta para além dos blogs, Facebook e livros editados com todo o talento do seu bolso? Dizem que é possível encontrá-los, aos montes, em saraus aqui em São Paulo e em muitos que se espalham nas periferias deste Brasil... mas serão mesmo de carne e osso, com RG e tudo? São todos graduados? Torcem pro Timão ou não passam de um bando de doutos? Não conseguimos colocar todos, absolutamente todos os poetas que gostaríamos... o tamanho da revista nos impede. Em compensação, ficamos com essas pérolas na manga para futuras edições. Esta edição tem para nós um significado especial, pois traz a poesia como ícone de resistência ao banal, confrontando tudo o que lhe é atribuído normalmente. Nossa homenagem a Augusto de Campos na última capa não é à toa: ele nos inspira com sua poesia da recusa a inverter e a subverter conceitos arraigados na mente das pessoas. Também homenageamos nas duas contracapas a 40 outros poetas que viraram o nosso imaginário do avesso e para sempre. Ficam ali também como sugestões para que você os conheça melhor, caso não tenha lido alguns deles. Há também 4 ilustrações especialmente produzidas para esta edição, além da própria capa, feitas pelo caríssimo Tiago Costa, que empresta seu talento generosamente e com ele embeleza e ironiza na medida certa. O webdesigner Thiago Carvalheiro também estreia neste número com duas incursões criativas para as fotos dos poetas, e da mesma forma a contribuição de revisão de textos editoriais pela escritora Polyana de Almeida Ramos, o que vai deixando nosso time cada vez mais rebosteantemente múltiplo e aprimorado. A Rebosteio joga a partir de agora os poetas no ventilador: com diferentes estilos, idades e linhagens, e dá ao leitor a chance única de construir uma visão particular, participando de sua intimidade criativa, demolindo-os, desconstruindo-os para encontrá-los. Dizem que bruxas e poetas não existem... enfim, aqui é (não) pagar para ver! Boa leitura!


Sou poeta? Sei lá, como nem nunca soube ao certo ser eu mesma. Sei que fui largando versos por aí em cadernos, guardanapos, depois na rede... a poesia que faço não é um projeto literário, é o meu modo próprio de pensar, um movimento contínuo e sempre novo de criar e me perder e recriar um mundo habitável a partir do caos denso e dinâmico que teima em atender pelo meu nome. A vida social me dá muito tédio, sou bicho-domato confesso e tenho cada vez mais preguiça para as coveniências. Versejo por fuga, vício e distração, e tenho fé nas palavras de Leminski: "distraídos venceremos". Não que minha verve seja espontânea, ao contrário: faço mil correções, rearrumo, diria até que sou um tantinho obsessiva, do tipo que acorda no meio da noite por causa de uma vírgula mal-colocada, uma imagem pobre ou um verso de pé-quebrado, e não sossega até consertar. Chego a sofrer, mas é um sofrimento bom, como num jogo, uma brincadeira interminável de resignificação do universo, onde a palavra é que me leva. Eu sigo atrás, tentando pescar o belo nas coisas simples, o essencial numa forma breve. Penso que só com leveza se pode tocar o profundo, e se tenho alguma fé, é a de que Deus é Humor. Rio muito escrevendo, e choro um bocado também. Faço poemas quase todos os dias - todo dia não, que já seria disciplina, e isso não tenho. No entanto, se esse meu pensar estranho é poesia, a verdade é que faço isso o tempo todo. Eu tenho é o bom-senso de não publicar tudo o que me vem à mente, em respeito à paciência alheia (e à minha vergonha-na-cara). Para cada poema que considero "mostrável", jogo bem uns 3 na lixeira, fora os que nem escrevo. Corto muito texto também, aliás é o que mais faço. Para mim, o bom texto é curto; se for longo, tem que ser de excelente para cima. Raramente me atrevo a tentar algo assim. Tenho um blog há 7 anos e adoro compartilhar meus poemas via internet com as pessoas mais diversas, de qualquer lugar do Brasil e do mundo. Ser lida é uma experiência libertadora, de transcendência do ego, que se poderia dizer mesmo erótica - no sentido amoroso de estar dentro do outro, por um instante ou até por um tempo longo, reverberando como um eco. Ainda não publiquei um livro, mas não pretendo recusar, no dia em que receber uma proposta decente de uma boa editora. Até lá, continuamos atendendo no http://www.novoaemfolha.com .

verde verdade em última análise eu sempre prefiro uma fotossíntese

locomotiva estar morto ou vivo tem motor não tem motivo

a cinza catar os restos de um verso triste exumar o adeus , deus se existe é nos pequenos gestos

eloqüência a sua ausência fala por si lêncio


eco a narciso (inspirado no soneto "Mortal Loucura" de Gregório de Matos) da teimosia de que eu peco … eco do pensamento que me aturde … urde como que por encanto surge … urge a sua imagem que disseco … seco se essa voz débil que re-clama … lama fosse punhal que a vida amola … mola veria no amor que descola … escola portal da luz que a minha chama … ama e se ouso erguer um edifício … difícil sem ter pilar que me confirme … firme que diga então meu frontispício … hospício deixo ao espelho a contraparte … aparte que agora preciso partir-me … ir-me e espalharei por toda parte … arte

a poça à sombra do lustre rosa a moça posa pro moço qual nem lhe fizesse mossa o assombro do observador atento sentado ali do outro lado rabiscando em alvoroço intenso seu repasto um guardanapo o lápis rasgando o lenço mil traços por cada canto da mesa como quem desse de ombros a moça finge que almoça lenta acaricia a louça inglesa disfarça faz vista grossa assopra a colher de sopa no prato intacta a poça espessa

kundalini não sou santa tenho buda só descanso em kama sutra via dutra quando alinha minha espinha aos chakras teus é um deus nos sacuda

brinca com a coxa de frango de sobremesa morango o tempo suspenso em pausa pro almoço penso que essa noite enquanto o olhar do moço repousa (pálpebras em movimento) ... na penumbra do seu quarto uma mariposa pousa no esboço ao ver-se ali num espanto de asas o olhar se apossa esvoaça e roça o pescoço da moça


conjuntiva

a mandrágora

o exato momento do encontro

a madrugada

:

prematura

seu auto retrato em preto dentro do branco do olho do outro

uma noite que dura além

.

é escura uma aurora

da hora é uma draga uma agrura é uma ruga que chora

a boca mais busco o silêncio que se desprenda como um furo estreito da renda como o final brusco da música a falta de ar súbita o vazio perfeito diante do imenso no oceano deserto uma única ilha essa falta filha da puta .

uma maga obscura uma drogada é a mágoa rogada é a jura é a água pura da mulher amada .


oeta escrevendo acerca de sua obra e de seu processo criativo? Considero um disparate. Acho quase impossível que se dê ao cabo o propósito, até porque boa parte dos textos poéticos, de acordo com sua natureza genética, possui um conjunto quase ilimitado de referências. Já no campo do processo criativo, se me perguntassem com insistência, eu apenas diria que penso e escrevo, que não sou adepto dessas coisas de musa, inspiração, emoções à flor da pele, ou aditivos químicos. É isso e nada mais. Entretanto, como tenho tendências que muitas vezes se desviam da sanidade, resolvi escrever um pouco sobre um soneto que fiz recém e de como ele foi se processando (criativamente?) em meus miolos superiores até que eu o considerasse trabalho findo. Enfim... Acordei de madrugada. Percebi que fora despertado pelo vento, bastante forte, que assobiava um horror sem pauta. Meu Deus, que é isso?! Ele, o vento, respondeu lá na língua dele que era um excelente mote para que eu compusesse um soneto. Pensei, era, de novo, o momento em que a química cerebral se alvoroça toda e me exige um poema. Eu disse para mim, morrendo de sono, cara, faz logo esse texto, porque eu ainda quero dormir! Caneta e uma folha de papel, rapidinho. Foi aí que redigi a primeira ideia, já a direcionando para o tipo de verso que conheço tão bem, o decassílabo: “O vento que assobia pelo fim.” Mas esse de modo nenhum seria o primeiro verso, porque sou adepto da “Filosofia da composição”, de Edgar Allan Poe, etc. etc. etc. Aproveitei, então, o primogênito para ser o verso final e, a partir daí, do fim para o começo fui compondo o texto. (Não vou nem dizer que, no meio do trabalho, escutei barulho de ferragens na avenida, fui à sacada e vi um cara se estrebuchando e gritando de dor. Havia caído de moto. Liguei para a polícia pedindo pelo cara. Esperei na sacada até o resgate chegar e prestar o socorro. Cumpri a boa ação e voltei ao trabalho.) Finalizei o texto e ainda dormi um pouco depois. Na manhã seguinte dei umas mexidinhas, inclusive alterando o verso primogênito, e pronto. Abaixo, o soneto e em seguida algumas ideias que foram trabalhadas, conscientemente ou inconscientemente, durante a execução do meu crime a favor da literatura. Cidinha O vento assoviava sedutor, ouvia seduzida da janela Maria Aparecida. Seu tutor, “Menina, sai daí!”, e nada dela sair, como encantada, com calor, em pêndulo ciprestes à capela, as folhas, a poeira, seu palor de pobre doentinha se revela. Nascera para a dor e, nesse instante, distante de si mesma, “Que é de mim?”, a moça possuída, delirante, dervixe em rodopio dá-se assim ao chão, estertorando de rompante, e o vento de repente teve fim. O vento assoviava sedutor, / - O vento aqui é personificado, como a chamar pela


mocinha, que aparece nos versos seguintes, de modo a seduzi-la, por meio do conhecido código que remete tanto ao amor quanto ao terror: silvo, sibilo, assovio. ouvia seduzida da janela / Maria Aparecida. - A menina sente-se seduzida pelo vento e para aproximar a imagem da realidade ainda existente no imaginário brasileiro, a moça se posta à janela para flertar. Seu nome não é à toa, homônimo da padroeira do Brasil, pois continua sendo comum batizarem com esse nome por devoção da família e para um “reforço” na proteção da criança. Seu tutor, / “Menina, sai daí!”, - Ao inserir o tutor, entende-se de pronto que a mocinha não possui pais, visto que tutor é um conselheiro e no caso adverte para que ela saia da janela, por medo de perigos naquele momento, que advenham de fora, do mundo não doméstico. e nada dela // sair, como encantada, com calor, / - Mas a menina não aceita o conselho e de algum modo prefere permanecer lá, junto à janela, como se a sedução, o encanto do vento tivesse lhe prendido. O calor pode se referir ao clima, ou a um mal-estar da protagonista. em pêndulo ciprestes à capela, / as folhas, a poeira, - Cipreste por si já é uma metonímia, ainda que bastante limitada, porque é árvore que se planta em cemitérios e por isso simboliza tristeza, dor, luto, morte, daí que os ciprestes balançando à vista da menina denotam que algo de triste está próximo; acrescentam-se ainda dois detalhes importantes, balançam de modo pendular, remetendo à sucessão do tempo, e o valor dúbio do termo “à capela” – ou as árvores estão próximas a uma capela, o que aumenta a carga de religiosidade/espiritualidade da cena, ou estariam “cantando” sem acompanhamento musical, ou seja, fazendo o barulho típico de folhagens sendo movimentadas pelo vento. No mais, temos também a movimentação de folhas secas, mortas, outras arrancadas pela força do vento, e, principalmente, a mesma movimentação ocorrendo com a poeira ou o pó, mais um elemento que sugere espiritualidade: “Do pó vieste, ao pó voltarás.” seu palor / de pobre doentinha se revela. // Nascera para a dor - Eis a revelação de que se trata de uma doente, o adjetivo “palor” reforça o ideário mal do século, em que a mulher seria bela ao se apresentar frágil, doente, aproximando-se da hora extrema, pálida tal qual a “imago mortis”. Um ser que nasceu e vive para a dor, é algo que parece desumano mas que humaniza sobremaneira a personagem. e, nesse instante, / distante de si mesma, - Quebra abrupta da linha de pensamento, a menina inicia um processo de estranhamento da realidade e de si mesma. “Que é de mim?”, / - Aqui o dito e/ou pensado é dúvida no sentido de espaço - “Onde estou?” - e de ação - “O que está sendo feito de mim?” a moça possuída, delirante, // dervixe em rodopio - Algo se apossa dela, levando-a ao delírio como a um transe promovido pelo ritual sufi, em que o dervixe roda em torno de si mesmo. dá-se assim / ao chão, estertorando de rompante, / - Interessante nessa passagem a queda não ser um ato violento, é como se a moça se entregasse, se desse ao chão, feito o momento de ela se unir a ele, mas a agonia também está presente, figurada pelo tipo de respiração, como um clímax da atuação do ar. e o vento de repente teve fim. - Então, o ar cessa sua movimentação, o vento é interrompido de forma precipitada, talvez inexplicável. Parece ter cumprido o seu papel, e poeticamente seu papel parece ter sido recolher o hálito de vida da jovem doente que, em seguida, morre. Cidinha - O título também é dúbio. Tanto é a redução do nome da protagonista, que ainda é uma criança, quanto o diminutivo de “-cida”, sufixo de origem latina, que dá noção de agente que provoca a morte. O título pretende, portanto, sintetizar a história, a morte de Maria Aparecida.


ínsula periculosa eu traçava garatujas, e eram desenhos aquilo que o desejo... ilhas e ilhas em vermelho, um vulcão acastanhado numa delas. coqueiros, nem sabia ao certo, padrão películas de naufrágio. tocamos a areia com os pés, quentinha. estávamos em ínsula periculosa, naquele pedacico de areia e mineraloides, muito, muito verde, pássaros multicores, aí tu me deste a mão. eu desenhei com o maior capricho alguns alimentos deliciosos, água doce (em azul), paisagens como se diz de sonho, um gigantesco clichê de sol amarelo lá no altão. coloquei uma vastidão de sombras. escolheste a mais rotunda para nos sentarmos. olhaste para mim. ruborizei. eu nunca ficara a sós com alguém, julgo, que me amasse tanto. foi assim, um esboço.

valongo o tempo este inexorável esplende inox das almas em seu nicho de azuis a noite vem descendo subjugando umbrais densa a noite anja despiu-me de tudo fustigou-me à decussata anja demoníaca nigérrima de exus acalenta tem dó de mim esmaga pimenta malagueta e aplica sobre as chagas da consciência branca / que purulam


"Fotografia é verdade. Cinema é verdade vinte quatro vezes por segundo." (Jean-Luc Godard) Mallarmé: “não é com ideias [...] que se fazem versos. É com palavras” Paul Valéry: “A Literatura é, e não pode ser outra coisa, senão uma espécie de extensão e de aplicação de certas propriedades da linguagem” e “literatura como experimentação dos 'possíveis da linguagem'”. “Já foi dito que a poesia moderna é poema da poesia. Talvez isso tenha sido verdade na primeira metade do século XIX; a partir de "Une saison en enfer" nossos grandes poetas fizeram da negação da poesia a forma mais alta da poesia: seus poemas são crítica da experiência poética, crítica da linguagem e do significado, crítica do próprio poema. A palavra poética se sustenta na negação da palavra” (OCTAVIO PAZ. “O arco e a lira”, p. 314.) é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito é indizível, torres, terraços devastados, babilônias, um mar de sal negro, um reino cego, Não, deter-me, calar, fechar os olhos até que brote de minhas pálpebras uma espiga, um repuxo de sóis, e o alfabeto ondule longamente sob o vento do sonho e a maré suba em onda e a onda rompa o dique, esperar até que o papel se cubra de astros e seja o poema um bosque de palavras enlaçadas, Não, não tenho nada a dizer; ninguém tem nada a dizer, nada nem ninguém exceto o sangue, nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o já escrito e repetir a mesma palavra na metade do poema, sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem e não diz nada e me leva consigo. [“O RIO” (Fragmento) Octavio Paz - Trad. Haroldo de Campos] arte poética (em reconstrução) enunciado (I) toda imagem é um pré-texto - pretexto para sua afirmação ou questionamento por meio do discurso poético enunciado (II) todo texto é uma pré-imagem - pretexto para sua representação ou questionamento da ordem do poético igor k marques "A palavra é verdade. Poesia é verdade vinte quatro vezes por segundo." ikm


igor k. marques


OLVÍDALOS DELÉTALOS DESPÉTALOS DECÉPALOS ESCÁLPELOS ENTIÉRRALOS EN CUEVA HONDA A TODOS Y A TUS RECUERDOS EXCRÉTALOS PARA DEJAR BROTAR EL POEMA (2006)

e digo + & + again & again say something don't give up play your thing suzano's tambourine write your black & white poetic statements rítmico padrão out of the black and into the blue (02.08.06)

VENHA COMO ESTIVER ACERCATE DE MI VENHA & SEJA COMO FOR MAS VENHA NA POLPA DA PALAVRA NO OSSO DA POESIA VENHA COMIGO PERDER-SE NUM SOLO DE MILES EN EL CUERO DE LOS TIMBALES AHORA SE QUE TE VI COME WITH ME BUT NOT SO FAST SUAVE NO MÁS AHORA QUE APARENTAS ESTAR AQUI ALAMBRE DULCE COME AROUND IN A CENSORED PRINCE SONG NAMED COME I'LL GET THE LYRICS FOR YOU TO SING ALONG ON & ON COME AS YOU ARE DESPIDA DE TUDO NUMA INCONTIDA RISADA PORTAS E FENDAS ESCANCARADAS I'VE HEARD RUMOURS YOU'VE BEEN HUSTLING IN HONG KONG NO MATTER HOW PURE DON'T MIND IF YOU LIE I DON'T BOTHER WITH WHOM YOU FAKE A SIGH BUT COME WITH ME BEFORE I DIE COME ON I BEG YOU COME OVER ME POETRY

(mar & abr/2011)

a letra em amarelo vivo projeta a sombra matérica pictórica sedimentada sobre o suporte o flanco putrefato de um cadáver de cão escancarado sob o sol a pino (morrer é um assunto de foro íntimo) o ritual de pintar um S, um O, um M, um B, um R & um A o artista (ou sacerdote?) mergulha seis vezes o pincel na tinta para depositá-la letra por letra lama sobre a pele a sombra sublima o grotesco de um corpo em decomposição o couro duplamente marcado exibe sua explícita morte gris quase obscena & quase sagrada (12.05.11)

do negro ao branco & ao negro desde que surja música no roçar do grafite (busco o timbre exato da imagem) retesando as fibras do papel desde que emerja & submerja o poema numa placa de argila implodindo-se rearticulando-se exaurindo-se desde que seja tenso o toque na epiderme da imagem desde que se faça vibrar a fenda por onde aflora o não dito (28.01.11)


até secar pinta do quase lodo à plena canção êxtase de asceta orgasmo espasmo de prostituta até me exaurir na última gota preparo o leito da imagem irrompendo astuta na superfície do papel (2006)

cigarras em nyc cigars & guitars lou reed in rags declares out loud it's not time for ragtime it's not time for jive talk it's not time for foxtrot it's time to fight for this new sound it's time to fight for this next image that comes out of saunder's fretless bass it's time to fight for the coming poem that bursts out that erupts of the pregnant surface of a plain sheet of paper (04.05.09)

HONRA DE MICA SANGUE DE BARATA EUFORIA DE ESTANHO TAPA NA CARA FEELING DE ALPACA INSIGHT DE MAHATMA SAUDADE DE BASALTO DOENÇA RARA MÁGOA QUE MATA SUSSURRO DE BAUXITA BEIJO NO ASFALTO OURO DE BANHO PRATA VIRA LATA PRAGA DE XIITA METÁFORA DE XIPÓFAGO OU RETÓRICA DE PROFETA? PALAVRA DE ANTROPÓFAGO OU JIVE DE POETA? (mar/2006 - nov/2011)

a carga de azul casual irrompe anil no branco fluorescente do monitor no corte transverso de um fragmento de texto na percussão dos dedos impondo o ritmo de criação na busca da cadência precisa da escrita ainda sem nexo divagando no caos inicial entrelinha e entrelaços entranha de cabeleira de tranças em transe no devaneio vagabundo no ócio perturbador descompasso preciso nem côncavo nem convexo berço da criação de uma ciência inexata da poesia

eu vivo dentro . eu morro fora como gente . como parto eu naço e vivo parte dentro dela . parte dentro d'água eu gozo . deliro parte dentro dela . parte fora d'água exausto . inerte parte fora d'água . parte fora dela eu morro como peixe fora d'água

(2006)

1986/maio/2011


A droga que embriaga mas não cura. A secura, a falta, a noite escura sem ribalta. Vida & Morte, Dor & Êxtase, extremos de uma loucura recorrente. Inquietação nata, tempo todo à espreita. Angústia que aperta. Porta que abre pra dentro. Uma fresta por onde sai um fiapo de sol. Poesia - carne exposta que se faz verbo. E arde. A despeito dos estigmas, o poeta segue sua vida prosaica. Trabalha, pensa, sua, sofre para achar a palavra certa, a rima interna, o ritmo, a melodia discreta. Escreve com o cuidado de quem planta, com a exatidão de quem arquiteta, com o capricho de quem constrói. E desconstrói, com a paixão cega de quem tudo vê. Escreve para si, para nós, para eles, para todo aquele que é capaz de sentir, sem pros/elitismo. Arte que não é democrática não é. Pensa ser.

Os intelectuais de plantão vão comer meu coração não posso entrar em qualquer balada sem antes ler a folha ilustrada ela é que vai me dizer o que fazer da minha ignorância os intelectuais de lapela enfiam o dedo na goela pra vomitar arrogância os intelectuais de plantão vão comer meu coração quantas estrelas deve ter um filme pra me comover? como é que se arquiteta uma poesia concreta? quem me ajuda na desconstrução de uma instalação sem pé nem cabeça? haja erudição pra juntar as peças não posso gostar sem pensar mas posso gozar sem trepar divagar teorizar ludibriar os intelectuais de luneta só sabem tocar punheta


TARJA PRETA

quem nunca tomou que atire a primeira bolinha

CRENDICE eu não tenho papas na língua hóstias bentas não me calam amor é o que me apascenta crendices vãs nada trazem eu não travo meu prazer como pão como você bebo vinho só por gozo rezo quando deus me chama axé aleluia namastê quem disse que não tenho fé? buda jesus meishu sama lutero kardec maomé tanigushi umbanda candomblé santo daime dalai lama nada quero que me salve só o beijo que você me deve desdenho da razão pura sentimento ando à cata o que ata e não desata o que não mata e cura na desmedida exata filosofia? more na sua vá tomar naquela reta ajoelhar perante meca que me perdoem os ascetas setenta vezes sete eu peco eu não tenho sangue de barata

PRÉ-CONCEITUAL diferença de sotaque só me toca do bumba-boi de matraca do bumba-boi de orquestra de resto é peleja que me provoca se eu nascesse paulista faria poesia concreta pós-moderna futurista mas como sou nortista ponho a alma no papel e entrego na bandeja se você fosse neonazista nessa torre de babel onde ninguém é igual não seria o artista principal do meu cordel se a razão não responde como quando porque onde alguém entra ou não sai sábio o coração se intromete entre um conceito e outro e bate


A FINA DOR adormecer a deprê que insone mina deixar-se entreter en dor fina

PUNK fuck it a vida não é um fake book comercial de margarina pose e look mesmo fina a dita dura da felicidade só entra com vaselina

TERREMOTO

EXTREMA-UNÇÃO tem gente que espera pra tirar retrato sair bem na foto tem gente esperando uma retratação tem gente que espera na fila do leite tem gente esperando atendimento médico tem gente que espera uma revolução tem gente esperando ônibus metrô avião tem gente que espera sair do coma tem gente esperando extrema-unção tem gente que espera sentada tem gente esperando calada gente que não se abala tem bala que a gente perde tem nerd que nunca erra tem gente que engole sapo gente que engole porra tem cabrito que não berra tem gente que espera a morte inteira por uma vida rasteira

é muita vela pra pouco defunto é muita boca pra pouco assunto é pouca chuva pra tanto deserto é pouca luva para tanto frio é muito cio para pouco falo é pouco abalo pro meu terremoto é muita veia para pouco sangue é pouco caso pra tanto tesão é muita areia pro teu caminhão (musicado por Zeca Baleiro)

VISCERAL te devo um nu frontal com tarja: proibido para menores já as maiores dores cortadas do meu umbigo exibo amoral tome meus versos minhas vísceras devore-os com toda libido


Sou daqueles que vez ou outra fala mal da poesia para sacudir um pouco o jugo dela sobre mim, sua arrogante exigência de atenção e devotamento, sua demanda incessante de hecatombes e oferendas. Digo a ela: não estou entre os seus sacerdotes incondicionais, os seus feiticeiros e possessos prepostos. Até porque sou agnóstico, descuido-me de preocupações com deuses, mesmo os pagãos, sempre ressuscitados simbolicamente como deuses modernos. Inquieta-me que a poesia seja importuna e inconveniente como uma visita que não telefona antes para avisar, ou como aquele maluco que abordou o maratonista brasileiro em não sei qual das olimpíadas. Não é piada não! Não me refiro a esse tranco apenas como analogia para a inspiração - essa ardilosa sugestão de um mote ou imagem soprada ao pé do ouvido - mas também para o dever de assumir um comprometimento inabdicável de esforço e trabalho que tomará tempo, movido pelas roldanas da obsessão. Ou seja, a poesia aborda o poeta como se fosse ele um alto executivo com direito a ter acesso às informações privilegiadas e depois o põe para trabalhar como operário obrigado a lhe dedicar horas extras. Inescapável: o poeta também é explorado através da mais valia! Mas, afinal, qual o contrato, hipoteca ou promissória que me submete a ser poeta? Aí está o mais angustiante! Tudo se passa como diabólico voluntariado: o poeta é seduzido para um serviço escravizante sob o argumento de se tornar um nobre cavaleiro libertador das palavras encerradas na torre do cotidiano sem estética; sim, as pobres palavras perseguidas pelo nosso preconceito de que elas não querem significar apenas o que exatamente significam; de que, além de terem de velar caninamente por um único objeto, podem (e devem) subverter essa conformação, se libertando de sua função através da beleza; podem se irmanar para vagabundear na metáfora, podem se sindicalizar para abalar o regime da semântica, ou ainda se associar para forçar as fronteiras com a música. Por ter essa relativa indisposição com a poesia,

sinto pudores de ficar repetindo conceitos românticos, tolero, mas não saio por aí dizendo que poeta é antena da raça (opa, digo, espécie), que poeta é um possesso divino, que é isso e aquilo... Faço uma exceção para afirmar condicionalmente que poeta é aquele que tem um tipo especial de fascínio pela língua, sobretudo ao se dar conta que essa língua com a qual ele inventa ou faz inventários lúdico-simbólicos é o mesmo material usado por todos ao longo da vida, um manancial vivo e comunitário que nunca se esgotará. Que outro artista dispõe de um suporte ou meio tão extensamente compartilhado? Só se for um escultor que esculpe em miolo de pão... E que curioso é você utilizar algo comum para expressar uma idéia ou sentimento raro ou incomum! Não é quase uma operação de reciclagem ou reinvenção? É claro que ao começar falando sobre o tempo que a poesia toma à vida eu tinha em mente o fato de que a vida cotidiana também tem desses sentimentos e idéias raras como uma poeticidade que nem sempre ganha forma na linguagem. Não é outra a base da comunicação poética, o que permite que alguém leia e ame poesia sem jamais ter feito um verso sequer. Eu me referia, na verdade, à relação entre artifício e experiência. O que se escreve é um artifício expressivo de natureza especular que não pode prescindir da experiência vital, mas é justamente porque a experiência vital tem natureza bruta e incomunicável que ela precisa se reduzir ao artifício, ou ao engenho, para ser parcialmente conhecida. Não se trata de arte ou vida, ou arte a despeito da existência, mas de arte-evida. Mas se fosse para escolher, antes a vida que o artifício! Claro, até porque tenho minhas dúvidas sobre a possibilidade da psicografia. E por falar nela, evocando Fernando Pessoa, apesar de admirá-lo imensamente, eu jamais afirmaria, mesmo de forma simbólica, que navegar é preciso e viver não. A minha tendência seria dizer o contrário. Melhor ainda seria recomendar a navegação em favor da vida.


DISPONÍVEL Palavra: a única lâmpada mágica que está em toda parte, Com ou sem gênios incompreendidos... E atendimento a muito, muito mais que três desejos ou pedidos.

COMETAS Em ciclos cometo erros. Eu os imagino enormes. Mas você me diz que eles passam pequenos contra o azul profundo. Você me perdoa a olho nu.

PACTO FILOSOFIA EM QUADRINHOS Perguntado pelo Super-Homem se seria possível voltar a ser apenas o Clark Kent, Nietzsche respondeu: - Nie!!!

NESTE MOMENTO Um pássaro pousa na janela: trouxe o horizonte ao parapeito. Um pássaro pousa na janela: e mais aerada a refaz. Um pássaro pousara na janela que janela não é mais.

CONSCIÊNCIA

Contigo levito, Eva, acima do pecado, da gravidade da maçã, do dilúvio e da treva.

REPETÊNCIA Jamais me diplomarei estudando-me.

HIDRÁULICA O dia e sua capilaridade em rede: vazamentos em pontos distintos, distantes, dicotômicos: razões da sede.

Não posso me ver figura contra fundo. Não tenho lugar formal. Sou adjacente, vizinhança sem residência, ponto errante sem fechar o parágrafo existencial.

SINESTESIA Vi três maçãs numa fotografia do século XIX. Aqueles cinzas ainda tinham aroma carmim.


RICTO

CUIDADO

O espelho se racha. Um corte na prata cicatriza-se sombra na minha face de luz.

Foi para a minha própria proteção que deixei de afiar as lâminas da razão. Estão perdendo o gume. Agora os sentimentos assomam ao rosto sem que eu o marque com cicatrizes.

E meus olhos não se blindam mais com o medo de serem vazados pelo raciocínio. SOLICITUDE Outrossim nenhum não amiúde.

AH! Marginando o rio, olho a outra margem mais ensolarada, muito embora, sob o mesmo céu.

ÁCIDO EM DEMASIA Tomar muito juízo me irrita a mucosa do estômago, e, aflito, vomito!

RUMINAÇÃO Meu epigrama é de estreito pasto

CARCEREIRO O pesadelo vigilante adormeceu. Ele tem sono leve. Tente com cuidado retirar-lhe dos bolsos a chave da realidade.

A MEA CULPA DA RAPOSA É preciso ter antes a coisa para então dizer que não precisamos dela? O saber, por exemplo. A felicidade, outro exemplo. As certezas, novo exemplo. O juízo, antigo exemplo.

ASSOCIAÇÕES

Essas uvas.

Crátilo é um diálogo de Platão. Cactus parece uma planta defensiva. Crápula é um tipo de ser humano. Cápsula era um comprimido espacial. Ínsula, ínsula é uma ilha e não tem nenhuma associação.

OCULARES Olhos sem pressa e infusos num único horário: dois globos sem meridianos.


Nasci e vivi até os 27 anos numa cidade pequenina do Vale do Jequitinhonha. No início a interlocução para a poesia era praticamente zero, mas foi-se criando ao longo do tempo, dentro de um grupo de amigos de uma associação cultural da cidade. Nunca falamos de teoria da literatura, nem fizemos crítica literária. Mas os livros, a palavra, estava presente onde quer que fôssemos: numa conversa informal ou no trabalho. A poesia, entre nós, sempre existiu em um contexto político, às vezes quase romântico, que nos levava a crer que ela nos salvaria. Eram saraus, recitais, leituras infinitas em torno de causas sociais, tentando entender, tentando enternecer a luta. E era mais que isso, no meu caso. Eu cultivava a crença de que aquilo tudo ia me resgatar da realidade opressora de ser mulher num universo de unanimidade machista. Além disso, havia uma tentativa de compreender o entorno, ser aceita pela paisagem, pertencer. Inventar um sentido. E ainda não sei lidar com nada disso, nem mesmo com a beleza, de outra maneira.


não sei verbalizar o abismo sei cair dentro dele como dois olhos que eu avisto e temo e o chão se demora amor a tocar meus pés

de novo dia alma de hortelã e névoa

a manhã nos obriga a chorar sempre esquecer a tosse noturna do filho a urgência do amor o verbo nosso pai o silencio nosso filho nosso rito diário de esquecer

o silêncio perdoa meu corpo magro perdoa o homem que se foi é setembro basta uma oração e é manhã de novo


NASCENTE córrego cachoeira ribeirão eu choro pra pertencer à paisagem

estou farta de pessoas que não vêm esperar os filhos à mesa esperar que tudo dê certo esta casa está em desordem e não há sequer um canto para abrigar a paz escrevo com muito medo de que os homens saibam que a mesa não está posta e eu não limpei o leite derramado

CESARIANA para Pedro

seus pequenos olhos cor de aurora represada ainda que um dia se afastem ficarão nessa pequena cicatriz


concepção gráfica: Thiago Carvalheiro


Todo ser vivente tem a sua dor, seja ela de que grau for, ela representa nesse ser que a transporta a presença de sensibilidade física ou espiritual onde estão incluídas pessoas, objectos, animais, seres não vivos, etc. Assumo que o poeta (escritor) não se desvia desta norma natural, o poeta a sente como o professor quando o aluno não assimila a matéria, o pai quando o filho se desvia ou não acata as ordens, o médico quando os seus doentes se lhe escapa, e tantos outros; o poeta não é um deus fantasmagórico, de soluções e pós mágicos, mas é um arquitecto da palavra, o marceneiro que talha e molda a madeira consoante o seu agrado e o seu dispor e as ferramentas que tiver à disposição. O poeta (gente) sente-a quando fica de boca selada (calado) e consente, se não for transmitir, mesmo que seja para os seus botões, é uma dor enorme, que carrega nos restantes dos seus dias; criar poesia é criar interrogações nas próprias crenças, descolorir o colorido, fazer barulho aos silenciosos, é uma visita ao uns e outros que não sou, uma visita a si mesmo, à um aquele EU que sempre ajeitamos directa ou indirectamente, infiltrar-se sem de nada saber. Sábio não é o poeta, eu como poeta aprendiz, procuro não a verdade, tampouco o real, procuro o irreal, apenas memórias que podem ou não me invadir e preencher, pois antes de percebermos o real, devemos compreender o irreal e o incompreensível. Eu escrevo quando não posso mais comigo mesmo, quando a água na boca já não se vai pela goela abaixo, atravessando as 24 horas de um dia, acordando até aos silêncios dentro de mim e dentro dos outros, desde os mais medonhos e profundos que podem existir, dentro de um cidadão tão comum e tão maluco e tolo como os políticos o são. Um poeta o defino, um amigo, um esfarrapudo, um amigo inimigo, uma voz que nunca fala em público ou as televisões, em capas de revista ou ainda forbes e magazines.

Um poeta não é um deus fantasmagórico, é uma luz, que inventa a sua própria sombra, uma figura desconhecida mesmo no corpo em que habita, estranho a tudo e todos, desde a sua própria poesia; por favor, não pode ser a poesia mais ou menos importante que o poeta, corre-se o risco de pôr em o perigo os dois, o objecto e o sujeito criador; estes completam-se, a poesia não existe sem o poeta, nem o poeta existe sem a poesia, tal como a escrita não existiria sem o escritor, ambos são a mesma coisa, provém da mesma árvore. Poesia, luz, silêncio, estrada deserta, parede nua e crua, uma vida todas vidas. Se rompemos com esse cordão umbilical, rompemos também com os que estão ligados. Por vezes me meto na cama e depois de escassos minutos me vejo invadido e perturbado por vozes e escritas, sem saber a proveniência nem o destino, como se já estivesse prescrita uma missão de realizar a escrita, como se o ser poeta fosse uma missão assumida a partir do momento que se começa nas fainas literárias, rompo com a hora, a praxe e rabisco se esvai, seja onde for, agora me habituei a dormir com pedaços de papel por baixo da cama, das almofadas (travesseiro). Sendo poeta, não sou somente na escrita, mas na maneira de falar, de ouvir, escutar, estar com amigos e pessoas, não sou poeta maduro, nem imaturo, tampouco se pode amadurecer nas lides literárias; disse-me o amigo Willian Delarte, “és uma semente de uma árvore frondosa”, o Poeta Patraquim disse uma vez na sua entrevista que não existem poetas bons nem maus, apenas existem poetas. E eu como cidadão de Moçambique, sou mais um de poucos que cá existem, sou apenas um adolescente que a cada dia aprende a construir seus mundos interiores, porque o de cá fora anda muito conturbado, sou jovem escritor, aprendiz, e amador da escrita, mais um poeta, só poeta.


TRAVESSIA A NADO

Atravessarei esta ponte, com mil mãos Brancas tradutoras do escuro Onde o gato miau-miau, é-me confidente ilusionista Onde as ondas agora adultas como nunca Competem passos de espuma Batelão metida com gente de lá e cá Balda-se no nkanhi fermentado, de punhos cerrados A baía gigante Arrumando insípido chão dos peixes De lés a lés gente Daqui um navio inteiro Rasga a estrutura funda Tudo isto, e coisa mais alguma Que não seja nada Esperanças e um pouco mais em lume brando

SONHO DA TERRA

Germina a saudade e tanto Fugazes as tranças dos dedos Em linha recta o paú preto reluz Acenam dois corações duma Só amizade Sonho ontem breve o sino Gente que transpõe os umbigos Mangas amarelecidas o calor Sorve-se o que presta para respirar Sumo de cajú Tudo dormiu já sem companhia E corpos debaixo da sombra menina Sonhos Mil e um abraços sem ambição


INSÓNIA DO POETA KANGACEIRO Dormi acordado Sono vivo Sino vivo O comboio que me persegue Viu o fogo nos olhos do morcego falante Os olhos de lebre, meus Viram 2 Homens 2 Braços Dois olhos 2 Pernas E bocas em consequência E 64 dentes Viram Viram por uma janela Eles, virarem socos e mais socos Por 1 pão Eu aqui a aguentar a minha fome que me transgride

JARDIM DO ÉDEN A alma das flores Tocam o profundo silêncio E quando se lhes toca o pólen Um inaugural ensaio do cheiro Suave pelo chão, todo A fé das flores . correr a clorofila De verdes campos do thunduro ou jardins Gorongosando Os serviços de se fazerem sentir A geometria das cores Ferve na fotossíntese em carne e osso Páginas das folhas encardidas São limites e explodem lúcidas Como nas bancas da Malanga ou matadouro Ninguém comeu fruto Ninguém pediu clemência


[Há mais ou menos 4 anos, incentivada por amigos, cometi o primeiro poema. A sensação foi estranha. A construção exigiu que da idéia inicial eu fosse retirando tudo o que era supérfluo, não essencial, até chegar numa estrutura ritmica, elegante, e ainda contendo o germe desse algo que eu tinha a dizer. E sempre fui muito prolixa... A dificuldade me encantou. A reflexão necessária me encantou. Fiquei fascinada com o processo todo, pois havia algo de muito racional naquilo que antes eu via como pura inspiração ou enlevo dos poetas. Havia mão de obra bruta, havia trabalho artesanal e algumas vezes frustrante. Claro que a “inspiração” inicial ainda estava lá, mas não era só isso. Redigir este texto para a presente edição da Rebosteio é um desafio na medida em que, não sendo poeta, devo de alguma forma encontrar em mim as razões da poesia. É simples: não há razões. Pelo menos não há razões conscientes que me direcionem no sentido de escrever visando algum objetivo ou satisfação de uma necessidade íntima. Mas as mais íntimas necessidades não são conscientes - rio de mim. É verdade que ao longo destes poucos anos fui aprimorando meus rabiscos iniciais de modo que hoje pude promovê-los ao que chamo em meu blog de ‘poemas descartáveis para superfícies ordinárias’. De qualquer forma, a poesia é um meio de expressão que permite tantas leituras quantos são os leitores: ela é maravilhosa porque não entrega tudo, pois “tudo” é mais do que qualquer um pode suportar. Talvez isto seja uma boa razão enfim: a liberdade de se desprender do “criador” (entre aspas sim, pois autoria é algo discutível, ainda mais em tempos cibernéticos... as idéias estão no ar comum a todos, prontas para serem laçadas).

Há uma outra coisa que descobri durante esse tempo, e que não necessariamente ocorre com outras pessoas, mas que se resume no fato de que um poema só é concebido no holocausto de si mesmo, legitimado pelo vácuo que a racionalização da palavra deixa como rastro atrás de si. Morto para o poeta, passa a viver no leitor. E uma vez dito – bendito – morreu. Depreenda-se daí que meu maior insight em relação à poesia é de que ela nasce morta, no sentido de que durante a sua feitura, sua elaboração, ela esgota qualquer tipo de sensação que a possa ter originado primariamente. Esse efeito colateral não deixa de ser terapêutico, mas poesia não tem que servir para nada. Não tem nem mesmo que ser respeitável, posto que quanto menos respeito à norma culta, mais criativa ela se torna, a meu ver. Fascina-me a idéia da irreverência dos grandes “inventores” citados por Ezra Pound, que subverteram o status quo da linguagem literária de seu tempo. O poder encantatório da palavra sempre estará no que ficou por dizer, ou no que ficou mal dito... vivas aos poetas malditos! É surfar em signos. É o quanto poderei desalojar a poesia do seu pedestal virtuoso e lançá-la nas mãos e nos olhos de quem só tem compromisso com o lúdico pensar. Asas a ele, e pé na tábua. E mãos à obra, que tudo é barro: quanto a você, leitor, aproprie-se, faça do poema um móbile em sua cabeça. Esqueça o que dele pensa. Consinta a germinação por dentro. Exprima, esprema, enxugue a rima. Possibilite apenas a livre expansão pelo soma. Coma o poema: e regurgite, agite, revolva, empreste a saliva e a seiva. Sue sua prerrogativa - abrace, trema, dance o poema. Transe o ritmo e a palavra. Goze até perder a pose. E por fim repouse, tragando um fonema.


dorme meu homem teu sono leve teu sonho justo gasto nos trilhos dor mentes repousa o susto dissolve a dor me u homem no afago lento de senhos na epiderme no epicentro que eu sismo que eu tremo e traço geograficamente em teu cansaço que é meu amém my man.

PAPEL DE ARROZ

uma parede translúcida derrete sob a chuva fina afoga montes de polpa escrevendo nossos papéis da janela, solto um pássaro origami e me dobro sob as tuas evidências

a língua bifurcada da serpente prova dois gostos? o que acontece SHLEPT se eu lamber teu gesto? gosto do susto de pensar palavras salivas incisivas insurgentes carnívoras isso vai me inflorescendo o resto

MORPH EU ALÉM-GINSBERG

seis beat-níqueis contados em sampa city ou nova iorque mal dão baião-de-dois mal dão indie gestão mas tem depois poema enxuto mutilação & poda instinto bruto nascendo exíguo fruto da foda com meu íntimo farto das horas mesquinhas e que só faz sentido porque me acho extinta e sitiada nas entrelinhas


O desfibrilador portátil na ponta do lápis ressucita um papel às brancas bordas da morte por despoesia. Catéteres de caracteres oblíquos, insuflam-lhe alento. Um boca-a-boca que jamais se cala, saliva uma salva de falas. E nem assim. E nem assado. É tudo em Fado. É tudo enfado.

U.T.I.

MINI CONTO SORVEDOURO

alheia aos quesitos desfilo cara lavada nua minha verdade em cada um dos poros sua

CARNA(VA)L

nem era dia, nada luz ia. na penumbra alumbravam bocagens de piracema. trêmulas e mordazes, nossas voragens, anêmonas.

JUGULAR essa veia galega ao pescoço forjada no mar impossível irredutível impostora barbárie até o osso triturado nas mil tribos de uma só progenitora ela vê: não sou poeta escrevo torto por linhas Celtas

sacio poemas in éditos em noites impublicáveis

LITTERAE

RITO & AIS

LEITURA LABIAL EC

DEDENTR

QUES

PRAEACABANAB

CAÉALENT

abrandarei as penas o tráfego intenso a chuva de enxurrada e minha fúria banal sorvendo de colher in sufi ciência dançarei sob um cone sucumbirei ao transe bicho volatilizado na circu (i)nferência ou profanarei as linhas chorando ao telefone tão hereticamente urbana quanto mulher.


[“Para escrever, basta escrever” – J. Saramago] Lembro-me dos versos de Jean Cocteau: “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê…”. A verdade é que a poesia não tem utilidade nenhuma, se, buscamos nela um substituto da vida… e dessa epígrafe reencontro Fischer (A necessidade da arte, 1959): “No entanto, será a arte apenas um substituto? Não expressará ela também uma relação mais profunda entre o homem e o mundo? E, naturalmente, poderá a função da arte ser resumida em uma única fórmula? Não satisfará ela diversas e variadas necessidades? E se, observando as origens da arte, chegarmos a conhecer a sua função inicial, não verificaremos também que essa função inicial se modificou e que novas funções passaram a existir? [...] A arte é necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo. Mas a arte também é necessária em virtude da magia que lhe é inerente.” Assunto mais batido e chato, não? Qual é ou não a (des)utilidade. Como se a arte precisasse se afirmar para além de ser virtude em si mesma. Numa visita a exposição de Vik Muniz, no espaço Cultural da Universidade de Fortaleza/ UNIFOR, eu percorria as grandes galerias do segundo ou terceiro andar, de pé-direito bastante alto e paredes de concreto. Uma profusão delirante de recriações de, entre outros, Monet, que mais me instigou por explorar em minúsculos pedacinhos de papel em mosaico, as qualidades óticas da luz e da cor, e despertavam intensas emoções. As telas pareciam exalar os perfumes das paisagens que retratavam. Um pequeno descuido já nos deixava ouvir o cantar das cigarras nos campos de sol escaldante, ou o ruído silencioso dos rios margeados por arbustos em variados tons de verde e leves pinceladas de violeta e aquela ponte multicolorida. A visitação seguia pelas muitas galerias fechadas, quando, no meio de uma das salas surge, surpreendente, uma janela que nos deixava ver, lá fora, o entardecer da cidade, tendo como fundo um céu azul cravejado por nuvens esparsas,

recortado pelos pequenos prédios da Universidade e suas árvores. Postei-me diante da janela durante longo tempo e percebi que não estava só. Vários dos visitantes permaneciam estáticos diante dela, olhando para aquela paisagem como se observassem uma pintura, uma obra de arte. Afastei-me da janela, sentei-me em um dos bancos próximos e me ative à reação das pessoas, à relação que estabeleciam com a paisagem que surgia pela vidraça, enquanto pensava na faculdade da arte de nos sensibilizar, em como a contemplação daquela sequência de quadros havia provavelmente estimulado os visitantes a lançar um olhar estetizado para o mundo lá fora, em como a relação com as obras propiciava, ainda que por instantes, que os contempladores fruíssem a existência como uma experiência artística. Os visitantes entravam e saíam daquela galeria; o movimento em direção à janela e a relação com a paisagem fortalezense repetiu-se por longo período, até que me retirei da sala e do museu, não sem guardar cuidadosamente na memória aqueles que para mim foram intensos e raros momentos. O principal aspecto, que gostaria de ressaltar, da relação dos visitantes com as obras de arte e com a paisagem vista pela janela, que me chamou a atenção foi, sem dúvida, a capacidade da arte de provocar e, porque não, tocar os contempladores, sensibilizando-os para lançar um olhar renovado para a vida lá fora. Aí que, na tentativa de compreender a atitude do interlocutor, do leitor de poesia enquanto experiência educacional ou puramente estética, podemos recorrer ao enfoque sutil presente na alegoria benjaminiana, que sugere que o ouvinte de uma história – ao ouvi-la, ou ler, compreendêla em seus detalhes e empreender uma atitude interpretativa – choca os ovos da própria experiência, fazendo nascer deles o pensamento crítico. A imagem de chocar os ovos da própria experiência está relacionada com a ideia de que o ouvinte/ leitor, para efetivar uma compreensão da história que lhe está sendo apresentada, recorre ao seu patrimônio vivencial, interpretando-a, necessariamente, a partir de sua experiência e visão de mundo. Ao confrontar-se com a própria vida, neste exercício de compreensão da obra, o


espectador revê e reflete sobre aspectos de sua história e os confronta com a narrativa com a qual se depara, chocando os ovos da experiência e fazendo deles nascer o pensamento crítico; pensando reflexivamente acerca da narrativa, interpretando-a, e também acerca de sua história, do seu passado, revendo atitudes e comportamentos, estando em condições favoráveis para, quem sabe, efetivar transformações em seu presente, e – levando-se em conta a perspectiva de um processo continuado de exercício de sua autonomia crítica e criativa – assumindo-se enquanto sujeito da própria história, tornando-se capaz de (re)desenhar um projeto para o seu futuro. Então, eu e os demais fruidores, chocamos a arte com nossa existência: comovente, animadora? Se não o for o é de qualquer maneira, ainda que seja pra saber o que não me atiça e presta. Lembrando novamente e ainda que, a arte, sobretudo a poesia, vai desenhando imagens em nossa cabeça

história pessoal e de mundo particular, interpretamos segundo a matéria de que somos feitos, e se meu repertório é vasto, maravilha: não me contento com o que me é oferecido e busco redesenhar meus roteiros e eu fazer melhor, transcender. Toda obra que não se manifesta é inútil e, por isso mesmo, má. O que em mim é poeta é aquele que contempla. O quê? O paraíso e o inferno. No contemplar, me debruço sobre os símbolos e em silêncio desço profundamente ao âmago das coisas. O narciso se contempla, se beija e se destrói para então ir além das aparências e recompor o seu mundo; porque o presente não me basta, é preciso reordená-lo e a arte é que, antes de qualquer coisa, produz sentido ao mundo. Os poemas a seguir integram o livro “O mar das mulheres finais ou o segundo fragmento da flor” , a sair no próximo ano.

ceciliana escorre o óleo do mundo - lima de rícino, refino mínima grama ou toda canteiro, fecundo a poesia é de quem precisa, disse o carteiro lhe ria. além a lama ternas de exílio e poda

concerto matinal pós-soviético aurora nenhum julgamento em maio toca a pianola boilesen eles são os outros, ó henning executa no silêncio das línguas seu concerto de bom dia - ó, gases! anima-te, ama-te ao meio! toda a verdade tingida num só corpo nevá-realista

te revisito, o mundo - olha entre as pernas.

cruzador, proletariusze! anacrônica, atraente, a liberdade é uma agonística a sibéria nunca existiu, novokuznetsk não existe corre em tuas veias a pátria-colônia de pestes sangre vermelho é o canal do mar branco ó, yezhov! nunca ouviram a gulag song.


ZONA PROIBIDA DO SER

canção às proletárias de guerra

“Esse est percipi” - Berkeley

caem línguas e ouvidos mortos sob o céu vazio e cinzento

Um punhado de extratos pra se comer das mãos - Olha, minha vida bela como coisa acumulada! - Olha, minhas palavras forjadas por bem menos que a carpintaria! ... Eu existo.

devia dizer uma velha cantiga judaico-germânica marina c., aqui vai tudo na mesma nas esquinas, porões, grades

Mas basta um espelho para escarnecer o mundo-dentro. Pequeno-mundo, a verdade se deita ao monstro do nada.

dentro da concha, o mar na semente, uma floresta

Debaixo do nome A jaula e o silêncio.

as asas dos insetos se debatem em palmas ao sem-fim

suite à palefrenier malgré disant: cantata al novio

"reste encore" reste à mes cotês"

no enlace su idea a mi desabite el nombre y la furia susanne déchevaux-dumesnil

ce n'est que poésie - vos démarches je me promène par nuit.

de una sola etapa de los árboles maduros hacia arriba con las manos la noche es tan frío y el silencio pesa FRAGMENTO PISADO DE UMA URNA GREGA [Para Fernando Monteiro]

viene, pega tu mano sobre mi hasta que sea invisible al mundo como por las tardes nouvelle vague

Este pedaço de pedra em minhas mãos já foi a Acrópole ofrece ahí fuera su ausencia e já foi uma ideia de viagem, um mistério do velho Elêusis, um nome en lugar de mi - ínsula y su doble - epistolarís de poeta e de outro poeta, careca – como nunca grego [e grego, primo do primeiro poeta. y nos quedamos lo más abollados y olvidados - en nuestra sta. maría Ouvi da pedra: é penteliana, mas já não digo tranquilos, como si gimotea das brincadeiras que se faz com nomes, entre o Agora, o Beijo e o Pentélico. Este pedaço de pedra assassinou muitas gentes em suas passadas e o faz agora, mas muito doce, com os meus olhos cascalhos que despedaçam ou um lobo convertido em pedra.


Acontecera pré-pré o meu primeiro contato com a leitura. Tal como um milagre (ou maldição), aos cinco anos aprendi, sozinho, a ler. À época pedia à minha falecida avó que me levasse, vez por outra, a um certo bar (são meus escritórios, os botecos), onde lucrava algumas guloseimas, de um certo japonês, em troca da leitura de alguns letreiros – foram as únicas vezes que lucrei algo material em troca de uma leitura – natural, em um país onde a cultura é colocado em segundo plano. Retifico. A cultura é colocada em plano algum – o que é um plano maquiavélico. Na adolescência eu e meus convivas de rua formamos a banda “Baratas Pálidas”, que morrera de overdose antes mesmo do primeiro ensaio. Segui carreira solo, fazendo mais letras de música (e isso é poesia) e lendo praticamente nada de Literatura. A esse déficit, a esse vácuo, atribuo (apesar de ser algo imensurável) uma originalidade: tive de ser, quase sem querer, meu próprio parâmetro. Se adentrasse ao mágico mundo das palavras pelos olhos antes das mãos, creio que acabaria por “me afetar”. Um estalo. Sei que a poesia está pronta a partir dele: que vem de HQ, Cinema, Foto; conversas banais; às vezes uma frase deefeito basta para eu saber que a poesia está pronta ainda que precariamente conjecturada. Até chegar ao estalo é angustiante, catarse total. Por vezes fico horas a procura dele. Ando de lá para cá, reescrevo, amasso uma miríade de folhas – apesar de escrever mais no computador (a letra na tela torna a poesia mais contundente) – muitas vezes tomo banho, só para acalmar... quase entro em colapso com o lapso do lápis. Mas quando a poesia está pronta... ah! É das melhores sensações que se podem experimentar nesta vida. Se ler algo bom fascina, quando lemos algo nosso a transcendência vem em dobro. A forma dela cobrar esse excesso é jogar na sua cara que você usou a razão, muito mais que a emoção, e isso é uma espécie de fraude. Como é bom poder tocar um instrumento... caneta, teclado, borracha... Com o advento da internet, passei a ler mais (fundamental) e a publicar em grupos virtuais. Passei a assinar com o pseudônimo “Cidadão das Nuvens”, que era uma forma de tirar a distração do ostracismo e colocá-la na apoteose. Sou tão nefelibata que ao nascer esqueci de chorar. Uma forma de provocar e ser anti convencional? Também, mas o mais importante era mostrar para a enfermeira que eu era forte. Hoje prego contra minha atenção. Essa me faz perder os momentos pequenos e as imagens desnecessárias: e isso é tudo. Perdemos uma pessoa querida, em qualquer contexto, e nos lembramos dos momentos de menor glamour: um sorriso à toa, uma boa patuscada, um brinco, uma briga besta, um prato, etc. E estar atento é perder poesias (Escrever é respirar); mas isso tem lá seu lado positivo, como retrato em um poema: “o que não foi escrito / ainda assim afeta/-retoca sem cessar, lapida-/a obra do poeta”. Me insatisfazer com meu estilo é o que me deixa satisfeito. Artista bom é aquele que se trai constantemente. Sair do lugar comum ao passo que, o outro, fique comum de me mandar para outro lugar. Por isso gosto de escrever poesias longas e tercetos; visuais, caligramas, etc. Na temática também gosto de escrever sobre tudo que é possível. Agradar uma criança aqui e um marginal acolá. Desagradá-los à mesma proporção. Assim e Assado. Gosto que leiam meu livro e entendam metade. Uma metade por completo. Tenho o sonho de um dia pegar um imenso dicionário “de papel” (nada, jamais, substituirá o livro “físico”) e, palavra por palavra, saber que todas, de alguma forma, estão na totalidade da minha obra. Isso é procurar agulha no Palheiro. É propagar fagulha no palheiro. É uma ambição e tanto. Há trevas: atreva-se.


Durante a chuva de bolhas puges com uma resposta dentro

Giz de construção Entre o céu e o inferno

Puge : Cor do inseto de mesmo nome. Dotada de raro poder hipnótico arrepia a quem avistar-lhe seja na pele da terceira lua, nos olhos da mulher-coruja ou no mágico líquido - pai da eterna guerra entre Tríplice Serena : elfas, gnomos e magos ; e Tríplice Encantada : fadas, duendes e unicórnios cujo odor encontra metáforas na expressão absurda de quem o descobre mas nunca na finitude das palavras que inocentemente afirmam : o doce daquela poção feito sonho de bebê. E se depois enquanto flutuares com as árvores pelo céu chimpute (outra cor inimaginável) durante a chuva de bolhas puges com uma resposta dentro e margaridas sabor chocolate sua curiosidade - que atravessara o portal e bebera daquela fonte - se perguntar mas quem é esse alquimista fabuloso que deixou a água a ver navios saiba de antemão : Deus é Deus por ter feito a água incolor - insípida - inodora quando poderia mais, muito mais, tudo e mais um pouco, muito mais que essa poçãozinha dos diabos.

Orvalho Se o orvalho, simplório orvalho, nasce assim: da noite pr'o dia ... Porque o nosso amor, minha flor, não ousaria?

brincam as crianças de amarelinha.

O mesmo João Andar nas nuvens perder o chão. Trocar a vaca magra por um pé-de-feijão. Tem ouro dando canja, um castelo acima. O gigante acorda sob o som da rima. Sou como todos o mesmo João, o tópico utópico de toda noção. Sou como todos o mesmo João, hipotético e patético, luz de imaginação. Mal te vi lá de cima, tudo ficou pequeno. Ontem peguei uma gripe, um sereno, uma galinha gorda de ovo amarelo.


Não há guarda chuva contra o tédio

O abacate O abacate projeto. O abacate conceito. Ainda sem cor e forma. O abacate rascunho. Ainda sem sabor. Antes do primeiro abacateiro desse mundo. O abacate na cabeça de Deus : uma idéia a concretizar- se.

Ao sair de cena Aceite de bom grado honrosa menção mesmo vencido: impublicável poema. Rascunho inacabado leve consigo a sensação de dever cumprido ao sair de cena. O que não foi escrito ainda assim afeta - retoca sem cessar, lapida a obra do poeta.

a substância que torna seus dentes, querida Sheila, cada vez mais brancos, enche seus primos evangélicos de alegria alegria alegria e faz a mãe morena que jamais conhecera entregar-se a qualquer um desde que sejam dois três.

a substância que torna seus dentes, querida Sheila, cada vez mais brancos, fez seu irmão viciado acordar triste do sonho bom, o sonho dos presentes de Deus : um fígado intacto, uma virgem de quinze e um rosto sem olheiras a substância que torna seus dentes, querida Sheila, cada vez mais brancos, atirou-me do bilonésimo andar, condenando-me ao suicídio lento, cuja queda não se concretizou ainda há tempo de mais um brinde com o amigo que o cair apresentou-me : um garoto de cabelos longos que se veste como Kurt Cobain, quebra instrumentos como Kurt Cobain, usa drogas como Kurt Cobain, mostra o pênis no palco como Kurt Cobain, mas não escreve como Kurt Cobain, não toca guitarra como Kurt Cobain, não toca os outros e nem se toca. Quiçá, se toque antes que o chão .


Tem esta inquietação que ocorre vez por outra. Vem não sei de onde e apenas escrevo. Nunca fui boa em verbalizar emoções, gosto do concreto, geometria era meu forte. Penso no dia em que alguém vai perceber que não escrevo, nunca escrevi. Conto histórias como se assistisse a um filme. Até os poemas, eles dançam na minha frente, fazem mesuras e eu apenas descrevo a cena. Espero o dia em que vão me dizer que eu não faço sentido. Houve um tempo em que falar me sangrava a garganta. Se eu cantasse uma música inteira o gosto do sangue me vinha na língua e logo em seguida o cheiro ferroso às narinas. Apaixonava, discutia, odiava, tudo em silêncio. Se fosse um escultor eu saberia exatamente como seria a forma do que sentia, podia talhar o sentimento até mesmo em uma dura aroeira, mas falar sobre isto era impossível. Tinha infecções na garganta, voz de pato, placas fétidas soltavam de minhas amígdalas. Foi na virada do século, depois de quase trinta anos de mudez que descobri a cura para minha faringite eterna. Escrever. Compreendi que não era culpa de minha boca ou de minha língua que eu não pudesse falar sem chorar, expor um argumento contrário sem gritar. As ideias me vinham em bolos, tinham três dimensões, se emparelhavam, entravam umas debaixo das saias das outras. Ismália1 vez por outra me aparecia e eu era do tipo que preferia acreditar que ela não era louca, que não tinha se espatifado nas pedras lá embaixo, que podia e alcançou a lua. Ismália era um chamado à escrita, fugi dela por pensar que me chamava para o abismo. Leminski2, ao contrário, veio como viria se fosse vivo e me encontrou por acaso. Despretensioso no meio de uma coletânea de versos igualmente provocadores e cheios de revolução e amor. Quando li o primeiro Leminski disse em voz alta: - Filho de uma puta! Ele via, sabia que as palavras tinham personalidade, que podiam se fantasiar e assumir identidades que não eram as suas e ainda assim se fazer entender. Ele tinha decifrado a dança das palavras, suas artimanhas. Sabia que elas, ao interpretarem pensamentos subversivos, também se rebelavam. Era o que me faltava.

A partir daí eu comecei a escrever. Reticências, rimas mendigas, gerúndios, amor e dor, comecei de gatinhas, quase rastejando. Escrevi copiosamente e era tão intensa esta descoberta para mim que pensei ser uma enviada divina, alguém que iria descobrir a pólvora, inventar a roda da literatura. Tive um ou dois amigos honestos que disseram que havia algum conteúdo no meio daquele rio de erres das minhas rimas de verbos no infinitivo. Não escreva para ninguém. Foi o melhor conselho que recebi em toda a minha vida. Larguei as rimas, deixei as reticências, pus para fora e desenhei com palavras aqueles sapos engolidos que por tanto tempo arranharam minha goela, os argumentos deixados para trás, minhas justificativas, as coisas belas que eu era capaz. Esta coisa que dita o que tenho de escrever, minha consciência ou inconsciência, sei lá, não está nem aí com minha reputação de escritora, de filha, de mãe de família, ela simplesmente não liga. Se eu tento não escrever ou dar uma versão mais comportada do que estou vendo ela ri da minha cara. Faz com que eu me core e me sinta uma fraude. Uma vez sonhei com um poema. Enorme, em quadras perfeitas, algo medieval como uma canção de amor shakeasperiana. No sonho eu sentia orgulho por ser um poema clássico, belíssimo, lindas rimas, linda história e eu o declamava, uma dezena e pouco de estrofes que tentava decorar para anotar quando acordasse. Quando acordei não lembrei nenhuma palavra, o mote, nada que me fizesse lembrar daquele que seria o poema pelo qual seria lembrada pelo resto da minha vida e morte. Acredito que foi para me botar no meu devido lugar. Foi como se me dissesse, sim, eu sei escrever, mas você não está aqui para isto. Manter minha submissão, deixar com que apenas o necessário seja escrito, não deixar com que eu seja clara o suficiente, que eu não tenha um estilo único é a maneira de cumprir este papel. Creio que não seja assim para todos, que uns escrevam para dar sentido à história de outros, alguns para que sua história não seja esquecida, outros para que os comuns sonhem. Não sei se o que escrevo é bom, mas tenho absoluta certeza de que é verdadeiro.


Ausente A poesia dorme. Nem pesadelo nem doce sonho. Bateu um vento bem no meio de um porque. Petrifiquei bem aí. Não houve um fator paralisante. Só um não ter para onde ir. Ninguém me acalma ou preocupa nesse instante. Nem é o nada quem me abraça, ele não faria tanto por mim. É só um não sentir. Guardei tudo que não consigo lidar em caixas e estoquei. Estou bem no meio de um grande armazém. O motivo pediu conta e foi surfar no Havaí. Ingredientes, lenha , fogão, está tudo aqui. Só não há fome. Inconcordante Meus olhos chorou. Neles lágrimas para um só. Alma plural, verbo singular. O outro jaz. Perdão, foi o melhor que pude. A dor cavou mas não encheu o açude.

Geada

Partida, irremediavelmente, a pétala do lábio ao toque mecânico da língua a pouco desperta pressentiu o estrago, até então desconhecido, dos anos de exílio solar. Permaneceu imóvel. Paralisava-o o impacto da surpresa mais que o fino gelo que eriçava-lhe os pêlos. Não sabia ao certo a extensão da perda e apalpava com pejo a inocência queimada. Ideogramas desfiguravam-se revelando molhados segredos ancestrais. Restava-lhe a certeza do degelo.


Marginal Meu poema é soneto quando bem quer. A tônica o sufoca na sexta sílaba. O verso dá minha cara à tapa, dobra meus joelhos, põe tudo a perder. Conta-me a vida em tortas linhas impondo a meu olhar agudo, desejo mudo, o ângulo reto. Faz-me descer quadrado, Arremessa-me de frente contra o muro. Aponta-me sempre a porta dos fundos. Exposto ao ridículo, sou maltrapilho, seu aprendiz, seu filho. Caminho trôpego entre versos cultos.

Mata-me de prazer

Vespertina Ela disse: Eternidade. Numa língua serpentina Enroscou-se em meu nome, cheiro e albumina. Deu voltas em meu pescoço falou descalço em meu ouvido: -Vem comigo! Vem comigo! Lotou meus dias de feitos vazios. Lagarto cruzou a estrada a engravidou de uma montanha russa. Parto sem dor, algo de puro nesse despudor, algo de muro nesse corredor. Acorde tímido, gemido rouco. -Fica mais um pouco! -Fica mais um pouco! -Eu te preciso, preciso. Em minhas mãos dez coordenadas. Metáfora do alcance. Em minhas mãos descoordenadas. Meta fora do alcance. Um lance que já estava dentro bem antes do antes do antes. Dois canudos no mesmo refrigerante.

De tão claro chega a ser abismo. De tão inevitável chega a ser sentença. De tão verdade chega a ser tristeza. De tão suave chega a ser carícia. Malícia. Delícia que envolve. A maré revolta da língua se solta. O insano escolta à tua prisão perpétua. Emissário da morte que a queda atiça. Preguiça. Cobiça o que teu pecado capita. Por meus pêlos velejam teus dedos decifrando-me a pele em trêmulo solfejo. Como último apelo termino em teu beijo.


PROCESSO CRIATIVO

acredito. Contudo, falta algo como uma coesão minuciosa de redação, delimitadora das

O lugar da minha poesia é sozinha, abandonada, despercebida, porque ela só tem valor quando descoberta, o seu valor é isto, estar lá, soterrada nos escombros desesperando resgate... Poesia é doença, tal como vida é doença

interpretações. Não quero contar os detalhes de uma vasta realidade quando escrevo poesia, mas posso escrever apenas um detalhe numa poesia amplificando as células dos acontecimentos. Sou incapaz de poetar sem filosofar.

que deu no que era morto. A maior causa da Não há para mim nenhum glamour em poetar.

morte é a vida e, talvez, a maior causa da imortalidade seja a poesia.

Iniciei poesia de mesmo modo que acendi um cigarro à primeira vez: acendi um cigarro porque "era adiantar a maturidade" para o moleque vítima da linguagem poética publicitária e, no caso da poesia, talvez eu

ESCRITOR COMPULSIVO

forçasse mais a versificação no começo, quis ser poeta porque me era admirável ser poeta, soava

meu amor, hoje não te convido.

sensibilidade, parecia-me sedutor. O que não me agrada está muito bem descrito

quero ficar escrevendo sobre tua falta.

no seguinte segmento, e é artimanha dos artistas em geral: Preciso escrever porque sou impotente. Sou impotente e ponto, o mundo não se alcança, há várias coisas que não alcanço com o corpo, inclusive eu mesmo. Meu pensamento tenta ir à frente do que sou em corpo lento.

“O que é perfeito não teria vindo a ser - Diante de tudo que é perfeito, estamos acostumados a omitir a questão do vir a ser e desfrutar sua presença como se aquilo tivesse brotado magicamente do chão. É provável que nisso ainda estejamos sob o efeito de um

Acredito que toda palavra mente. Não saberia

sentimento mitológico arcaico. Quase sentimos ainda

explicar ou seria cansativo e prolixo. Toda a palavra

(num templo Grego como o de Paestum, por exemplo)

mente, falta muito nelas, e poetar é tentar compensar

que certa manhã, um deus, por brincadeira, construiu

isto de alguma forma, é lutar contra a escassez

sua morada com aqueles blocos imensos ou que

semântica da palavra usando palavras também novas e

subitamente uma alma entrou por encanto numa

muito possivelmente indispostas com relação à

pedra, e agora deseja falar por meio dela. O artista sabe

verdade.

que sua obra só tem efeito pleno quando suscita crença

Na minha poesia há uma intenção de mensagem precipuamente, de sinceridade maior,

numa miraculosa instantaneidade da gênese; e assim ele ajuda essa ilusão e introduz na arte, no começo da


criação, os elementos de inquietação entusiástica, de desordem que tateia às cegas, de sonho atento, como artifícios enganosos para dispor a alma do espectador ou ouvinte de forma que ela creia

ou não de outro jeito: o poeta nos tenta morar, às vezes e um pouco.

no brotar repentino do perfeito. Está fora de dúvida que a ciência da arte deve se opor firmemente a essa ilusão e apontar as falsas conclusões e maus costumes

falcuta-nos somente lhe sermos

do intelecto, que o fazem cair nas malhas do artista.” hospitaleiros ou não. (Humano, demasiado humano Aforismo 145) A meu ver, não há nada de glorioso em ser poeta, e não gosto de tentar forjar um milagre, um dom, como apresentado no aforismo citado. Porque se fosse assim, não haveria uma evolução que posso notar no meu fazer poético. É devagar quando passa pelo juízo, outras vezes necessita ser imediata, coisa filha de dores, amores, prazeres pouco intelectuais. Para meus bojos sentimentais, às minhas concepções juvenis, a poesia era um generoso espelho, terei certamente incorrido nisto meramente: vaidade! Depois veio a dúvida, a racionalidade artística, fui

Como vejo a poesia? Não só a poesia, mas toda expressão literária, independente do gênero, é uma leitura. Só há leituras! Escrever é simplesmente relatar uma leitura feita do mundo e conforme as julgo inovadoras e/ou imprevistas é que me disponho a trabalhá-las. O que inicia meu processo de criação é o acaso de realizar uma leitura de maneira que eu mesmo julgue interessante, o que independe dos níveis de abstração que ela compreenda.

hospitaleiro com a poesia em mim, deixei que ela

Há - claro! - interferências atuando sobre o

permanecesse mesmo quando ciente da precariedade

propósito inicial da expressão, destarte, ocorre com

em que ela se fazia a cada altura anterior e suspeitando

alguma frequência uma mudança deste propósito, pois

que o hoje sempre será digno de reparos amanhã.

também componho com o acaso do branco, das folhas

Amanhã sempre sou criança hoje. Continuei ou deixei

brancas (fictícias ou não), com o erro; por exemplo,

a versificação continuar sofrendo aqui dentro deste

com uma palavra apagada descuidosamente que

recipiente as mudanças, vivendo com isto de escrever.

permite a união de duas outras numa relação sintática

Diversas coisas é o poetar enquanto intento,

nova, inusitada etc.

mas principalmente desejo de seduzir. Também desejo de me guardar (grafia) para depois.

HOJE FEZ SOL

Na verdade, eu não sei. Não quero inverter as coisas e dizer que a poesia é minha dona. "Temos um caso" parece mais prudente. Ela só pôde vir a acontecer através de uma sensibilidade anterior e,

Hoje fez sol. Eu não sei fazer.

posteriormente, a poesia tenha majorado esta sensibilidade. Para isto, precisei aceitá-la, não pude, não deu para desistir ainda.

O ponto de partida de toda minha expressão literária é a provocação: pode ser uma vontade de fuga da realidade, pode ser uma vontade de retratá-la; pode

POESIA NÃO SE APRENDE? não se aprende a ser poeta.

ser vontade de dar à palavra braços mais longos que os físicos; permitir que me acompanhem num


pensamento dando-lhe curvas sensuais ou

Adverto-os que estou inteiramente a par de

meramente sensórias etc. Uma vontade não obsta

meu egocentrismo, que isto se não esqueça em tudo

outra, aliás, a versificação vai se adornando e

que faço com ares de artigo! Isto posto, vamos lá!

lapidando pela interação de vontades: de sinceridade,

Encarar mais uma vez a poesia, encarar mais

de lógica, de filosofia, de beleza, enfim, de poder

uma vez o poeta... Dizer alguma coisa sobre isto é

condizer com uma dada verificação e mesmo superá-

completamente arriscado. Talvez, partindo de um juízo

la, acentuá-la.

muito rigoroso, uma loucura. Para se ter uma ideia:

Não gosto da palavra “inspiração”, por que há

dizê-los “isto” já é muito atrevimento de minha parte.

nela o sema "místico". Dizem aí: "Ah, a inspiração que

A autoria me assusta. Tão alinhados poetas!

tenho!". Digo: "Não tenho nada!". Estou metido no

Tão arranjados como poetas! Tão donos do que

meio inevitavelmente. Prefiro falar de “provocação”, e

emanam. Respeitáveis, talvez. Sagrados, jamais!

não tenho controle sobre quando e onde a provocação

Entendemos, ainda que não conscientemente, que a

vai acontecer na vida e como isto será estruturado no

poesia deriva de certo estilo do autor, digo melhor:

branco. Trata de uma negociação com a nudez das

verifico que há para o poeta uma postura adequada, já

"folhas", uma troca entra as minhas experiências e a

que nada pode ser independente nesta vida, entre

inocência inanimada. É facílimo nos mexermos: eu, o

poeta e poesia deve haver ou ser arquitetada alguma

branco e o mundo. Isto acontece como uma

consonância.

necessidade. Agora, se será artigo de apreciação, fica

O poeta que penso desconstruir é o que tenta

por conta da beleza alcançada, beleza esta que atua

necessariamente condizer com os seus versos, faz

não só na disposição inusitada dos vocábulos, do ritmo,

pose de poeta para fotos de orelha, enfim, tenta rimar

mas na mensagem evocada por esta disposição, na

com o que escreve. Não só poesia, mas a literatura de

capacidade de tornar sensacional o discurso. Quem

um modo geral está associada a costumes adequados,

quer seduzir precisa tentar saber o outro o máximo

consumos ou não consumos próprios do "ser poeta",

possível.

que é “não ser razoável”.

CHAFARIZ DE LETRAS

"É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas, quanto os poetas se tornarem razoáveis." (Pablo

hoje, assim, de repente e sem norte, tem um livro querendo pular

Neruda). Daí, o vestir-se de poeta é possível. Ostentações que clamam respeito, decência

dentro de um instante

planejada; digo, tenho a impressão de que há muita

para fora de mim.

arquitetura para além do fazer a poesia propriamente, e esta é tentar dignificar, se relacionar com a poesia através de uma imagem consciente de sua publicidade e nessas instantâneas capturas soar um viver poético.

DESCONSTRUÇÃO DO POETA

Desconfio que há algo de sofismo difícil de apontar, e talvez o sofismo seja um primeiro passo no rumo de ser ou de nunca ser verdadeiramente. Contudo, quem

Egocentrismo mais próximas ou mais

busca ser poeta, não é poeta.

distantes como Mercúrio ou Plutão, e talvez mais quentes ou frias, as palavras giram em torno do ego.

Cogitando esta arquitetura é que penso em


desconstrução do poeta. Aliás, gostaria de ressaltar que há algo de

a leitura aconteça diante do branco, um tanto forçada, intencional.

“mais” na poesia: se pode notar na seguinte distinção

A questão de arranjar ao poeta virtudes ou

realizada quando alguém escreve poesias e outros

vícios é passível de advocacia, de alegações, de ângulos

gêneros literários: “poeta e escritor”. Existe esta

sugeridos ou mesmo impostos por quem tem mídia.

separação, claramente; e enxergo nisto uma áurea com

Prefiro a expressão poeta como substantivo que

qual não quero contribuir, ao contrário, gostaria de

adjetivo.

desconstruir, de dizer: “não necessariamente”; ou

Vital para mim em poesia é achar um chão

“não necessariamente poeta fuma cachimbo, toma

comum, uma base, para poder acompanhá-la,

café, usa boina, põe a mão no queixo, possui em mãos

caminharmos juntos, e para isto ela precisa ter

um livro aberto, ao redor uma estante farta de

mensagem, preferencialmente, coerente entre os

consagrados...”.

versos. Pode decolar, mas tenho que achar o solo para

Quando uma pessoa é reconhecida poeta, ela

compreender (seja afetivamente ou racionalmente) o

é alguma coisa. Poderia ser apenas diagnosticada como

voo. Sem o chão não há passeio, não há mãos dadas,

louca, mas é poeta, está sacramentado, lavrado: “Po-e-

não é agradável.

ta”. Salvou-se, terá sido por pouco? E quem para além

Quase sempre, sobretudo quando leio velhos

dos alheios pode reconhecer tal posto? É um posto?

clássicos, sou levado a crer que me ocorre falta de

Sobre mim ainda tenho dúvidas, não sei se “gozo” de

bagagem para acompanhar a obra; às vezes, ela parece

lucidez ou se, lucidez excessiva embriaguês - sou é

caríssima em face do que tenho para abordá-la. Em

doido.

outros casos, atrevo-me a dizer que ela se me sugere Subjetividade imensa, terreno livre. Façamos o

apenas pretensiosa. “Falta vida” é uma impressão que

que bem der na telha, ponham fora e dentro a

tenho, um critério que me faz largar de mão não só a

normalidade, tudo junto.

poesia como qualquer outro gênero literário.

UM FINGIDOR É POETA?

“Melhor escrever para você mesmo e não ter público, do que para o público e não ter você

Não desejo racionalizar críticas, até porque a

mesmo.” Cyril Connoly

“liberdade poética” é utilizada como argumento para qualquer crítica que se dirija às obras; direi apenas que

A desconstrução é acabar com a fantasia de

simplesmente, em algumas leituras, não acontece

poeta. O poeta mesmo é indestrutível. Mas, e se o

poesia comigo.

poeta é um fingidor?

É possível se vestir de poeta, como é possível vestir “boa noite” de poesia, assim como é possível se vestir de homem-aranha sem saber subir pelas paredes.

EM VÃO

O poeta mesmo, só sabe o leitor. Se não há adulação, mas identificação, entusiasmo etc. aconteceu poesia. Quem é o poeta? O poeta é o quem fez uma

o agir a que falta corpo é um gesto natimorto sou a favor do aborto

leitura diferente, inusitada, surpreendente em algum grau, e vai recorrer à estética poética para apresentar

Agora, tudo começa na leitura! Eu leio uma

tal leitura, para fazê-la tão ou mais interessante que a

poesia na rua, em casa, em mim, seja onde for, num

original, para despertar para tal discurso, não oponente

acontecimento, e depois escrevo, consequentemente


sempre vai ter alguém que não vai achar poesia

descreve... Sejam sentimentos, sejam

nos meus versos. Não há absoluto! Não é ciência e nem

situações... Há um caráter compreensivo na poesia que

exata; aliás, atualmente a poesia está bem mais

a torna muito mais apreciável, palatável, palpável e,

democratizada e os olhares que se encantam ou não

como dito, não precisamos explicar, mas

são muito mais diversos.

contextualizar.

Posso estar dando margem a entenderem, mas não sou a favor da explicação da poesia, porém já

Este verso seria de palavras que se comeram:

observei que é importantíssimo o contexto, que

uma dentro d'outra desistindo dentro de mim.

quando não é dado pela circunstância social partilhada, será dado pelo título, pelos versos ou como

Às vezes, não recebo bem uma poesia porque

aqui apoiado pela inserção no artigo num ponto

não estou no mesmo “lugar” que ela e não tenho pistas

preciso. Fora disto é flutuação sem chão! Gosto daquilo

do que seja este “lugar”; por outro lado, isto pode dar

que posso e pode me abraçar. Nem sempre eu sou um

num grande barato, pois posso trazer a poesia para

destino ideal para o que é dito.

meu aposento, meu ângulo, daí a importância de,

A restrição aos usos exagerados da estética,

quando se faz uma poesia não contextualizada

apelando mesmo para a sonoridade, semântica e

firmemente, deixá-la de vez o mais livre possível de

vocábulos rebuscados, desfalca a poesia: nomes de

uma circunstância restrita para que ela caiba em vários

flores; nomes de peixes etc. estes usos sugerem um

outros contextos. Até porque é fazer poético dar ao

caráter peculiar ao que está escrito, atribui, ao que

leitor possibilidades de interpretação e com estas

quer que a poesia narre ou descreva, uma

alguma responsabilidade por uma concepção mais

singularidade. Bacana, mas não me basta! Tais usos são

restrita da poesia. Carlos Drummond já dizia que “a

um condimento literário interessantíssimo, no entanto,

poesia é metade de quem escreve, metade de quem

é passível de fria técnica. Destarte, é que muitas vezes a

lê”.

sinceridade da poesia como instrumento de expressão dos sentimentos fica comprometida. Há também, parafraseando o Nietzsche, aqueles que turvam a água para que pareça profunda. Comigo não tem essa do poeta se isentar! O autor (homem e acaso) vai se sugerir através da poesia.

A desconstrução da poesia acontece, também, por causa do clichê que hoje se produz mais rapidamente com advento das redes sociais, rápido se nota uma falta de solidão nas “poesias”, de individualidade, uma emanação de assuntos repetitivos quando não o “eu te amo” parafraseado.

A criação do “eu-lírico” não impede a relação ainda

Com a desconstrução do poeta quero permitir

que esta seja antagônica, quero dizer, o "eu-lírico" não

ao leitor não a me separar de minha obra, mas saber lê-

surge com uma ninfa cantando aos ouvidos do poeta,

la o mais independente possível de minha imagem.

há entre autor e obra uma ligação que vai ajudar ou não

Não quero necessitar do distanciamento do homem

a promover a poesia.

razoável através de indumentárias, de supostos e

Instintivamente, o poeta trabalha a poesia

escondidos costumes comuns, ou mesmo da morte,

dentro de uma conjecturação lógica. Já verifiquei

para obter respeito para minha obra. O único poeta

muito pudor na poesia no tocante a destrinchar o seu

que posso desconstruir é o falso que me tenham

“vir a ser”, seu "devir", mas o faço porque detesto a

entendido, que é aquele que se tenha erigido por

ideia de sacralização da poesia.

minhas imagens exclusivamente. Bom, aí está a foto!

A explicação está arraigada ao ser, o entendimento de algo lhe causa tranquilidade e isto vai parar na poesia, uma poesia explica as coisas, sim!,

Finalizando, se a obra não for algo por si mesma, eu é que não vou contribuir com meus óculos.


INVERSO: POETA AVERSO ou de como poemas de nada e para ninguém recusam poemas de fácil leitura para meninas de boa família - não, não faço poesia, respondi de pronto. faço, quando muito, poemas. poemas que alguém pode entender como poesia, outros não. essa é a questão: poesia não se faz! esse é um texto que não se pretende pedante ou pedinte. é apenas uma página a ser preenchida por palavras numa construção que nos impomos para essa edição. é apenas a falta de clareza ao nosso entendimento comum em desconstruir algo que nem chega a ser uma construção... ou se pretende. aqui em verdade construo um simulacro a ser destruído. destituído. meus versos não são construídos para atender qualquer expectativa por parte de quem pretende se encontrar dentro deles. meus versos são uma recusa constante às facilidades confortáveis de grandes sentimentos, belos quadros na parede da memória ou panfletos discursivos no indigesto prato das indignações ocasionais. assim como meus versos, sou uma recusa constante em ser o poeta habilmente talhado para ser mais interessante que seus poemas. não tenho a solidão chorosa e tuberculosa de românticos falastrões. não tenho o mistério de quem não tem nada a mostrar. não sou quem abraça todas as causas nobres do planeta para salvá-lo... quiçá, inclusive, de seus próprios versos. não, não vivo a realidade alterada dos dos delirantes e sonhadores. meus poemas tem como fundamento e alimento principal a palavra. ainda que não a contenha. e com a matéria palavra ele é construído, feito, fabricado. ali, cada palavra é pensada, calculada friamente para que o poema se baste em si. palavra e espaço. espaço-palavra. o branco, o vazio e o silêncio protagonizando com a palavra a invenção do poema. experimentar sempre. calcular e contar com a coincidência. torná-lo objeto, palpável. dar-lhe ritmo, movimento, cores, cheiros e sons. ainda que no papel. desmistificar os sentimentalóides revestidos de moderno que mal engoliram oswald de andrade e seu humor/amor antropofágico contra os verde-amarelismos conservadores de regada inspiração deística e musas imbecís. não, não faço poemas visuais. não, não faço poemas concretos. utilizo-me, vez ou outra dos recursos oferecidos. o concretismo me é muito caro. é ali que sempre recorro. sem ser necessariamente um poeta concreto é dali que vem toda minha estrutura no construir poético. é na figura de augusto de campos que encontro meu norte no versejar. assim posto, meus poemas são para nada e para ninguém. neles não há espaço para a amargura da indiferença que lhes recai, nem para a dor do esquecimento que lhes espera. entendo, como já foi tantas vezes dito, que o poema tem por objetivo e finalidade ele mesmo. o poema se basta!


seria um poeta russo cheio de vodka até os ossos? um francês tuberculoso ébrio de vinho louco de ópio? seria um poeta ianque de pó e heroína ativista do ócio? sem identidade à mingua me mostro: qual brasileiro? nem de pinga eu gosto!

ECCE HOMO eu que matei deus e descredenciei credos, oro entre pernas, num gozo profundo onde o mais profundo dos infernos ousaria chegar. religo-me ao que tenho de mais animal e primitivo: dentes, carnes, gemidos e não me detenho ante as cruzadas... sejam pernas, sejam armas. meu amor, frente ao que é meu frente ao que é seu o bem e mal são os preconceitos de deus. nós somos imortais.

CÚTIS Essa pele Que me cobre, Rasgada a pregos, Cercas, Pecados E chicotes. Essa pele Que me cobre Purificada Em fogueiras, Castidade, Inconfessa Em eletrochoques. Essa pele Que me cobre Pobre, preta, puta, vadia, Malhada Em postes. Essa pele Que me cobre Envenena, se renova. Serpente, é a pele Que me cobra.


RE FORMA

VERTIGEM

ASSIM!

não falarei do silêncio pois o que me cala é a ausência. a essência que não aflora na boca que deflora e ora só palavra.

Desde O princípio Era O precipício Que ora No ócio Despenco Que ora No cio Me Equilibro

tudo o que eu esperava e não veio tornou-se velho

palavro o silêncio no cio da palavra: a essência que me devora em língua, sons & forma

EM VOCÊ Por vezes Tão vil Que não Me mereço Por vezes Tão bom Que não Me conheço Só em você Crepúsculo Só em você Amanheço

Desde O início Na verve Do ócio No verbo Do cio Que in Provável Me findo

o que eu não esperava e agora tenho tornou-se veio


Escrevo pra Dona Maria. Sempre. Dona Maria que está por aí nos coletivos, nos pontos de ônibus com suas mãos cheirando a água sanitária. É pra ela que escrevo. É ela que preciso atingir. Com uma porrada ou um cheiro no cangote. No papo reto. Na simplicidade. Sou escritor de cozinha. De metrô. Meu verbo precisa dos temperos, da gordura que engrossa os vidros. Carece de feijão na panela, cerveja no copo. Preciso do movimento do povo das ruas. Do cotidiano. Escrevo as gírias da minha gente. Canto o povo da minha aldeia. O povo das periferias. Da Vila Campestre. Do Jabaquara. Tudo o que faço, é Jabaquara. As ruas do meu Jabaquara. Sempre no encalço do ritmo, da sedução. Taí. Como bom batuqueiro de escola de samba que sou. O samba que não atravessa nem ralenta, os tambores que chacoalham. Verbo que bota pra frente. Que instiga. Cutuca. Chama pra rua. Pro movimento. Assim é a letra porque poesia, prosa, o que for, literatura pode ser tudo: menos, chatice. A vida já é dura demais. Teatro não pode ser chato. Cinema não pode ser chato. Se não estou aqui pra agradar o freguês, muito menos pra aborrecer o povo, propagar chatice aos quatro ventos. Textos como samba. O mais rico dos sambas é simples. Só conferir. Por mais sofisticadas que sejam letras, melodia, arranjos, o discurso é sempre direto. Intuição é mestra e me guia. Sou autodidata. Escrevo porque li muito na infância. Escrevo porque minhas composições se destacavam na sala de aula no primário e isso aplacava um pouco minha timidez de filho único enclausurado no subúrbio. Os livros sempre foram companheiros de fé, malandragem. Não parei mais. De ler e escrever. Autodidata porque nenhum dos caras pra quem eu pagava um pau vinham das universidades. Meus amigos não eram universitários. Nenhum deles. Meus ídolos eram esportistas. Era um outro tempo. Não existia essa quase ditadura do nível superior dos dias de hoje. Malandro de verdade pra mim era o cara do notório saber. Diplomado pelo corre do dia a dia. Estudo, informação, leitura são fundamentais, mas sempre fui cabreiro, desconfiado com universitários. Preconceito mesmo. O que posso fazer? Não achava graça no ambiente, nas conversas. Ainda não acho. As meninas eram chatinhas, pretensiosas, cheias de medinhos e teorias. Vou repetir: Preconceito. Uma parte da sociedade acha minha gente sem graça, desinteressante, pra não dizer coisas piores. Como já disse, é esse povo, o meu, que ponho no papel. Com encantos e mazelas. É esse o meu jeito de trabalhar. De compor. A coisa toda funcionando assim: eclosão, repouso e lapidação. Na poesia são as frases. Tudo que escrevo de poemas/poesia, começam por uma frase. A frase vem por imagens, sonho, emoções, futebol, sexo. E a frase gruda em mim. Ou não. Não tomo nota. Se grudar é porque tá pedindo pra ganhar vida. Se não grudar, desapareça! E tá tudo certo. Não me apego, nem sofro se esquecer. E a frase que decide ficar, puxa. Outras vão surgindo, sugerindo. Musicalidade. Uma palavra que pede outra, aparece um sabor, um lugar, uma cor, uma rima, uma intensidade. Vou cozinhando isso tudo. Penso o dia inteiro. No banho, na condução, falando sozinho em voz alta, até que um dia sento e descarrego no papel. Numa golfada só. Nem leio. Mesmo quando escrevo a mão, só passo pro computador sem prestar atenção nas palavras. Descarrego, salvo e deixo lá. Dormindo. Hibernando. Depois volto e, se gostar do que li, começo a mexer, lapidar e aí sim: sou capaz de mexer a vida toda. Escritor vivo tem mais é que mexer mesmo no que escreve. Quando acho que tá bom, levo pra compartilhar nos saraus e aí é termômetro certeiro. Retorno imediato. Não me sinto poeta. Sou prosador. Se vêem algum tipo de interesse nos meus versos, ótimo. A leitura de poesias transforma, qualifica minha escrita e só escrevo poemas pra frequentar os saraus, esses maravilhosos quilombos desmistificadores da literatura. Fundamentais. Me inspiro nos grandes poetas que passam por lá, mas sou mesmo prosador. É este o tamanho que poesia/poema ocupa na minha vida. É meu passaporte pra comungar com meus irmãos de quebrada. A relação direta dos escritores com seus leitores. A informalidade. Literatura sem gravata. A formação de um novo público leitor. O corpo a corpo com seu escritor pelas redes sociais e blogs. Assim que é. Essa mitificação charmosa dos homens misteriosos e inatingíveis não tá com nada, nego. Pode combinar com primadonas da literatura, mas vivemos dias urgentes e difíceis. Estamos no Brasil. Não há tempo nem paciência pra esse tipo de frescura. Vamos juntos amassar esse barro? Então tira logo esse salto alto, porra!


eles não usam Ladeiras ásperas, esquinas em carne viva, coração-tambor onde os caras-pálidas não ousam pisar. Poças acumulando ácidos serenos alaranjados e trombetas apocalípticas do fun(k)anhão anunciam ninhadas fiéis emergindo em cânticos evangélicos, belezas televisivas e nigerianos de aço. SP (S)elva de (P)edras (preciosas) E não se engane não, moço que por aqui é tudo assim mesmo: essa zona, esse alvoroço. Na virada tem corrida pedestre, uma tal de São Silvestre com largada no ano novo e é desse jeitinho, velozes e furiosos, que a gente corre o ano todo. Lira paulistana endiabrada esquentando a chapa. Paulicéia Desvairada, Piratininga, punga, uma pinga e a letra fugindo do salão elitista, nua correndo pra rua. Baticum. É reza, gíria. Capoeira chamando no rodo poético, ateando fogo nas cortinas de veludo vermelho. Vigília. Manos e minas assim de diamantes e pepitas. Sarau é samba. Rap é sarau. grafiteiros, desenhos e escritas. São Paulo Sampa São Pã Bang, Babilônia pagã. Terra da garoa (que nada) tromba d´água lascada de poesia da boa, oxente. Enchente de versos, rimas e batidas magistrais. Saturnais... Sérgio Vaz... Sarau, saruê, maculelê, break dance. Dance e beba do verso e quem não bebeu: Binho e Ademar. Frio ou quente, tome Elo da Corrente. Mário, Oswald de Andrade e o sonho modernista Nos “peito”, século 21, Poesia Maloqueirista. Às margens plácidas ouviram do Ipiranga


black power reescrevendo história, firmando identidade quem tá ligado não se engana Nus corre, evoé, Perifatividade. Suburbanos, todos convictos, um Buzão pro Bixiga Que não é só arranha céu, poetas versam o verbo, menina, lua e estrelas deslizam pro papel. Rasga o black tie da letra, Quebra a cristaleira, Salva o poema de morrer de asfixia na prateleira. Muito borogodó, ziriguidum e balacochê pra você, pode crê. Tuchê. Golpes certeiros, Um por todos e todos por todos No Sarau dos Mesquiteiros. Corre e me socorre tambor que pra essa roda, pra esse calor, ninguém se atrasa Taca fogo na minha prosa, Sarau Na Brasa. Hei, você da academia: que não gira nem ajeita o cabelo com o garfo, pega meu humor, minha autoestima suburbana, meu erro ortográfico, lambuze com vaselina ou areia e introduza com jeitinho no olho estrábico do seu gráfico. Acende o Pavio da Cultura. Ocupa. Vai, espia a periferia. Levante e espia, Marginaliaria. São Paulo Sampa São Pã Clareia os poetas! Olhai por nós, Yansã! Ilumina nossos terreiros. Artistas das quebradas, pioneiros, ogunhê meu São Jorge Guerreiro. Garoa, lava teus filhos da pobreza espiritual, do caos, firma nosso ritual, encandeia por hoje e pro eterno sempre os nossos saraus.


IVETE Ivete viu a Virada. Viu. Vestiu fantasia. Banhada de lua, viu a festa, viu as luzes, viu o povo todo na rua. Ivete viu a Virada, a zuada, a pequena pisar no chiclete. Viu o circo, algodão doce na mão do pivete, viu o palhaço, a trapezista, a banda, o confete. Ivete viu a Virada, viu fogos, alumbramento, assombração. Viu o mágico, a bailarina, a mulher barbada, o borrachinha e o anão. Viu o apagar das luzes, o silêncio, a lona recolhida. Viu a viúva colorida voltar pra casa e abraçar solidão. Ivete viu a Virada. Viu você e viu aqui, esse bufão, lendo verso capenga com o papel na mão. Ivete viu a Virada e o vovô viu a uva, só não viu Ivete vendo a Virada. Ivete do centro, das beiradas, dos encostos, das quebradas. Ivete jogada, Ivete invisível ninguém viu plantada ali na calçada. A Virada, virou as costas pra Ivete. Ivete fedida, sem sobrenome. Ivete varada de fome. Ivete cega. Ivete seca. Ivete galega. Seus trastes, seu papelão, seu bagulho pingente. Ivete que o dono do circo não vê, não viu, nunca verá. Ivete que viu a Virada e por uma noite sorriu e se sentiu gente. Ivete fantasma, paulistana. Ivete molamba, mendiga, indigente. DAMAS E VAGABUNDOS Pecadora, és e sempre serás, a favorita. Não tem pra gazela, não tem pra magricela de passarela, não. Apenas tu, traidora: Roliça e buliçosa. Cada recorte de teu corpo, coração, retalhos de minha história. Em tua pele, marcas de meus defeitos, gomos de minha paixão. Corre em ti tempos imemoriais e toda tragédia cotidiana de nossa vida mambembe. Selvagem. Então vamo lá, minha linda, coragem: Que passa contigo? Trocaste homens de verdade por perfumados valetes? Corja afrescalhada, uns de franja, uns de topete. Mancebos frozôs em pisantes high tech ou mocorongos de cintura dura, esquecidos do tempo que atrás de ti corriam pela rua. Do desassossego, do desalinho, do sabão. Ruas que mandavam ladrilhar e várzeas enlameadas dos domingos de inverno. Não mais te cortejam como bailarinos ou capoeiras. Apressado, orgasmo precoce, taras vulgares, rasteiras. Naquele banco, um cafetão de olhos azuis e ares de sábio controla em teu movimento a féria do dia. Onde então amor, o feitiço? Os heróis mestiços de outrora tratando de nossas chagas de vira-latas? Nega, trocaste virilidade por penduricalhos, balangandãs e penachos coloridos. Carapinha tosquiada, melecada. Que vaidade, menina: dispensar guerreiros por essa molecada. Ladinos sem compromisso nem alma, Corsários sem destino, sem pátria. E.Ts alienados apagando vestígios de excelência com toadas sertanejas, pagodeiras. Tu que foi estrela reverenciada pelos melhores assim, maltratada pelos piores do que chamam seleção. Nada mais que abstração pálida, amarelada, nem é mais brasileira. Milionária, infantil e deslumbrada, atende agora por Legião Estrangeira.


OCUP(A)ÇÃO

Muita coisa acontece no meu coração. Muita coisa nesse 13, nesse Santo Antônio. Muita coisa acontece e ocupa meu coração entre a Ipiranga e a São João. Muita coisa nessa encruzilhada danada, acontece. Aconteceu João. Homem de fé e devoção. João que tanto pediu uma dama, um par, uma inspiração. Aconteceu Maria, aconteceu do santo presentear Maria a João. Que pagou vela, promessa, penitência pesada, abstinência de ano inteiro pro santo casamenteiro. Maria vestiu branco. João pagou a festa. Teve carne, champanhe, ciranda e cadê cozinha? Varanda? É tanto dengo e ardor e cadê quarto, leito gostoso pro amor? João deu comida. Maria, roupa lavada. E cadê casa, prefeito? Cadê, governador? João é homem trabalhador e tem direito. Ocupa o campo de batalha, ocupa teu lugar na história, João. Ocupa e faz valer teu nome, tua cara e nacionalidade nessa desgrama de carteira de identidade. Ocupa, brasileiro. Teu canto, teu terreiro. Ocupa, João. Ocupa assento. Ocupa e prepara o pão pro teu rebento, Maria. O vão. Ocupa esse chão. Ocupa as ruas, os quilombos, as aldeias. Ocupa aranha, tua teia. Olha o céu, o sol. Ocupa teu lugar nessa faixa de areia. Ocupa a geral. Ocupa de novo as arquibancadas nos dias de carnaval. Ocupa Moinho, Pinheirinho, Ocupa Binho, teu bar e teu sarau. Ocupa o quintal, a cidade. Nota? Cota? Ocupa a universidade. A praça, povo! Ação! Ocupa. Abraça e Ocupa Mauá, São João. João quer teto, pouso, seu porto. Pão e circo. Vinho e verso. Calor e conforto. Maria, tudo e mais um pouco porque quem não luta... Braço forte, sangue, valentia, arte. Articula. Ação. Ocupação. Sabedoria na lida do dia a dia. Ói ,João. Espia, Maria: No mundo, só morto não luta e aceita cova rasa como moradia.


concepção gráfica: Thiago Carvalheiro


Travessia... pensei. pensei demais. Pensei muito em como começar este texto. sabia da necessidade de começar. qualquer texto é um parafuso carente do primeiro aperto. começar é tudo. no começo está contido o fim, e o texto é este ato de atravessar e as reticências que sobram, onde pára. Poema é ritmo fotografado. O Poema nada contra a brutalidade do tempo e atravessa verticalmente a Angústia, suspendendoa. mas começar este texto com a palavra que guimarães termina suas Veredas, não foi um ato consciente, e o foi. precisava começar. comecei. palavra pescada. foi uma jogada de puro oportunismo e brincadeira, mas, neste exato instante, a Travessia é todo o sentido. pesquei-me, fui pescado. a Pescaria é uma via de mão dupla, uma hora se é o pescador, noutra, o próprio peixe. brincadeira de água. o Poeta tem a linhada, mas não tem a isca. o Poema é uma criança que ri de nós o tempo todo: é o bullying que engenhamos para nos caçoarmos eternamente e lembrarmos que esta brincadeira de lágrimas é só uma brincadeira. os poemas estão prontos. nós não estamos prontos. há os fisgados por completo: um peixe com cabeça, guelra e mil camadas escamadas. há os que pego pelo rabo, quase por acaso. toda pescaria é Acaso. há, ainda, os que vem em pedaços, estes costumam nadar ou morrer em blocos de notas espalhados no celular, no pc, perdidos na carteira. não sou de bajular o poema. às vezes, pela preciosidade da cauda, imagina-se o tamanho da pesca. mas não bajulo o poema. o pior pescador é aquele que lança o anzol no meio do cardume: o peixe, como você, respira melhor se desafiado. muito tem se falado do Poema. palavras soltas. Poema é o que sobra da Poesia. Poesia é tudo o que se move, tudo o que nos move, e nada do que se tenha encontrado. Poesia é o que nos resta, e até diria que é somente o fruto de um mecanismo mental, racional, que ela é o resultado do trabalho e da técnica apurada, mas não: este é o poema, não

a Poesia. livros e livros eu poderia escrever para tentar defini-la, e ainda não dizer nada. posso falar do Poeta, deste inquilino que me aluga, de graça, e me tem por usucapião. mas deste, eu deixo que o poema que lá se vai, fale mais. posso falar, então, da relação que estabeleço com tudo isso. talvez seja o justo. talvez seja mesmo o que leitor espera e o melhor a se extrair desta desconstrução anunciada. cada Poeta tem seu código de barras, como todo Ser o seu código genético. eis aqui uma palavra que me fisga: Código. decodificar a Poesia é pescar seu mecanismo e transformá-la em mais um código, o linguístico: esta apertada e flexível camisa-de-vênus do poema. não sei, sinceramente, se a Poesia serve para a humanidade. sei que a humaniza, como toda obra de arte. ser Humano é nossa maior utopia, e a Poesia me serve como armadura, potência, máscara, e realização deste Humano que persigo. Ademais, tem a função social e política que também me dou a ela, sendo ela tão somente meu instrumento de crítica e denúncia. ela é minha. ela é de todos. basta nascer para ser Poeta. não sei das plantas nem dos bichos. as pedras carregam em si o silêncio poético. a Poesia é solidária e serve para qualquer coisa que queira usá-la: engodo de amor, panfleto ideológico, palavra cruzada. há, por fim, o Encantamento: aquilo que atribuo a ela e que só me diz respeito. ela é o Discurso, existencialmente elaborado, que construo contra todas as intempéries do mundo de fora. neste sentido restrito, ela cumpre uma função que, ora amuleto, ora armadura, me protege da solidão de mim mesmo, aumentando a libido e meu campo de ação: é minha zona de desconforto, o espelho refletido no vazio do meu vazio e, por significar-me, tudo o que tenho abraçado com unhas e dentes para tocar toda essa Merda em frente e, mais que viver, para além de viver, sentir que estou vivo.


se saio pela manhã, conveniente é apertar a gravata, alinhar a gola, o cinto, e aprisionar o Poeta na gaveta. conveniente é passar a chave, uma, duas, três voltas, e sair de través. nem sempre isso é possível, verdade mesmo é que está cada vez mais impossível. ele fica a se debater como Cará na tarrafa, Pintado no anzol, não, uma Traíra de enormes dentes afiados a roer os papéis ali guardados, os sonhos programados, tudo o que comporta uma gaveta. se foge e fica a cutucar a retina por dentro, se retorcendo em meu peito, desfiando o lodo no verniz espesso do Real como quem ceva os cantos do lago (aqueles mais assombrados, resguardados pela sombra das folhagens, protegidos por Cascudos e rãs, Bagres, Enguias e sapos), repletos de todo Enrosco; se deixo-o mesmo vazar da gaveta, acender o dia torna-se muito arriscado. este Poeta insurgente não parece ser mesmo um ente domável, uma entidade que aceita a ordem de subida, um encosto qualquer que se retira com banhos, rezas e oferendas. desconfiado de tudo, grave por excelência, não sei como tratá-lo nas conversas de bar, no brincar por brincar, naquele chute furado na cara do gol. sei que ele deseja minha mulher, que vive sondando suas curvas, seus abismos

sei que ele quer queimar minhas contas, mandar meu patrão pro espaço ou para qualquer puta que o tenha parido. sei que ele gosta de tocar um instrumento e meter o bedelho em tudo o que faço. por isso, conveniente mesmo é trancafiá-lo na gaveta até que seu grito fique insuportável e do seu silêncio eu rabisque um garrancho engraçado, um sol, um livro, um pássaro... mas eis que ele entra num cio incurável! levo-o para pescar na rua, jogo a linhada em qualquer palco. se é para fingir Poesia, deixo-o de Corpo-e-alma em mim, e até gosto mesmo de receber os louros lançados a ele, assinar os livros dele, e fingir seriedade. disso ele não gosta, vive a me repreender... mas quando chega o fim do poema ele volta ao seu estado de ausência, um balão a espera do sopro, e toda a vida se constitui nesta Falta. porém, fiel a própria lei do Desejo, que retorna momentos depois do Orgasmo, o balão volta a inchar, inchar, e a cada Sopro ele me pede uma pena, uma tecla, um giz, um tijolinho-baiano; só que não posso acelerar a fila do banco, interromper meu sono, engolir o bife rapidamente. não, não posso, mas acabo cedendo... acabo cedendo porque vem a Noite. à noite, liberto, ele voa alto, vai à forra, bebe todos os goles, chuta todas as bolas;


mete uma boina na cabeça, um riso cínico e feliz, dá fim nos meus óculos e se põe a perambular por aí. entrego-o meus sapatos, minha mulher e meu cartão de crédito; entrego-o minha agenda; entrego-o meu Medo, minha Azia, meu Soluço entravado, minha Ânsia de morte; dou voz ao seu Canto inútil e lhe ofereço a madrugada... se tudo funcionar, - como o sempre tratado às pressas no outro dia a gaveta ficará aberta e, da escrivaninha, ele há de incensar toda a casa, esparramar no sabonete sua Volúpia, seu Desprezo, sua Potência de Vida em meu lençol para quando, exausto, retornar, eu possa ali me banhar, me deitar, me es-t---i----c-----a------r...

voltar a Respirar.

(poema inédito do projeto “PEQUENO Peixe grande”)

e, no travesseiro, (antes de apagar o dia) cegar dois Olhos-de-peixe, tossir a última Espinha,


poetas em com alguns dos sonetos que compõem o seu pocket pornô “99 sonetos sacanas e 1 canção de amor”.

Christiana Helena Nóvoa Soares Carneiro Nasceu em 28 de dezembro de 1968 no Rio de Janeiro. Formou-se em Artes Cênicas (Faculdade da Cidade/RJ) e em Psicologia (PUC-Rio), com especializações em Arte-Educação e Arte-Terapia. Fez teatro, teve loja esotérica, deu aula de artes, teve consultório, deu consultoria, teve filho (não necessariamente nessa ordem)… e, nesse meio tempo, foi escrevendo. Em 2004 começou a publicar seus textos na internet e, desde 2005, mantém o blog Nóvoa em Folha. Ganhou a Bolsa para Autores com Obras em Fase de Conclusão da Fundação Biblioteca Nacional em 2007, pelo poema (inédito) Pirilampo Rastaqüera. Atualmente trabalha como redatora e webwriter. Desde 2009, organiza Saraus e Oficinas de Poesia. Em 2012 foram publicados 2 poemas seus no romance novo do escritor angolano José Eduardo Agualusa (como se tivessem sido escritos pela personagem, que vive isolada na própria casa e escreve poemas, a carvão, pelas paredes). O livro vai ser lançado no Brasil em Novembro, mas já está à venda em Portugal:

blog: http://dobardo.blogspot.com.br/ Revista da Semana: http://www.semanaonline.com.br Revista Rebosteio: http://issuu.com/rebosteiodigital/docs/montagem_rebosteio_n_0

Livro: http://www.lifeeditora.com.br/crbst_100.html

Igor K. Marques Natural do Rio de Janeiro, é artisa plástico e poeta. Escreve e expõe seus trabalhos no blog Desenhospoemas: http://desenhospoemas.blogspot.com/

http://www.fnac.pt/Teoria-Geral-do-Esquecimento-Jose-Eduardo-Agualusa/a570490

email: christiana.novoa@gmail.com site: http://novoaemfolha.com

Henrique Pimenta é poeta, professor de Português e Literatura, mantém o blog Bar do Bardo com seus textos mais recentes e escreve todos os sábados na Revista Semana On-Line sobre arte e cultura. Participou do número zero da Rebosteio - Revista Digital,

Lúcia Santos Maranhense, nasceu em Arari, em 1964. Aos dez anos mudou-se para São Luís. Começou a escrever ainda criança, mas só se assumiu poeta aos 20 anos, quando cursava Serviço Social na UFMA. Depois vieram os cursos de Letras e Filosofia, mas não concluiu nenhum deles. Em 1992 publicou seu primeiro livro, Quase Azul Quanto Blue. Entre algumas premiações, levou o primeiro lugar na XXIII edição do concurso Literário e Artístico "Cidade de São Luís", com o livro Batom Vermelho, lançado em 1998. Sua publicação mais recente foi Uma Gueixa pra Bashô (2006), terceiro livro de poemas, primeiro de haicais.


(des)construção Participou de várias coletâneas, como Mulheres Emergentes (MG), Circuito de Poesia Maranhense, Afluência e Ekos (RS) e Poesia Sempre (RJ). Ano passado teve um poema seu na exposição TrezeAtravésTreze, reunindo poesia e artes plásticas. Seu nome também consta no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, organizado por Nelly Novaes Coelho. Ao lado de atores, músicos e/ou poetas, roteirizou e apresentou vários recitais performáticos: Batom Vermelho, Cordel Technicolor, Eros&Escrachos, Dentro da Palavra, Cochichos de Bruxas, Ménage à Trois, Papas na Língua, Companhia Ausente e Versos sem Tarja. O trabalho com poesia falada veio após cursar teatro em São Luís, em 1990. Como letrista, coleciona diversas parcerias, algumas gravadas, como: Afins, Farsa, Febre, Ela é a Tal e Último Post - com Zeca Baleiro; Asas de Corvo - Daffé; Esperanto - Cássio Gava; Transversa - Tutuca; Noite Seca - Rubens Kurin; Aposta Pedro Moreno. Em 2009 a poeta foi tema de duas monografias do curso de Letras da Faculdade Atenas Maranhense: "A Imagem e a Palavra na Poética de Lúcia Santos" e "Erotismo na obra Batom Vermelho de Lúcia Santos". Morou dois anos em Belo Horizonte e oito em São Paulo. Atualmente vivendo em São Luís, busca patrocínio para realizar oficinas de Poesia Falada. Tem inéditos vários livros, de poesias, crônicas e histórias infantis. Seus poemas podem ser lidos também no blog: http://nufrontalcomtarja.blogspot.com/

Diário Extrovertido: http://diarioextrovertido.blogspot.com e O Azul Temporário: http://azultemporario.blogspot.com Seus trabalhos em artes plásticas podem ser vistos no blog-portfólio Cadernosde Arte: http://cadernosdearte.wordpress.com

Mariana Botelho Nascida em Padre Paraíso, Vale do Jequitinhonha, no ano de 1983, Mariana Botelho é poeta. Publicou em 2010, pela Ateliê Editorial, seu livro de estréia, «O silêncio tange o sino». Tem poemas publicados na revista Ciência e Cultura, da SBPC (2009 e 2010), no Suplemento Literário de Minas Gerais (2010) e em diversos sites literários na internet. Participou de eventos como Festival Internacional de Leitura de Campinas (2009) e ZIP/Zona de Invenção Poesia & (abril de 2010 no Centro Cultural da UFMG e maio de 2010 na Casa UNA). Participou como convidada do poeta Ricardo Aleixo do projeto Sentimentos do Mundo, promovido pela UFMG. Em maio de 2011 foi ao ar, na Rede Minas, o programa Imagem da Palavra, dedicado à sua poesia. Escreve no blog Suave Coisa: www.quelevequenada.blogspot.com

Marcantonio Costa Natural do estado do Rio de Janeiro, é artista plástico e poeta (ainda não editado). Escreve nos blogs:

Mauro Brito Combo Nascido a 17/02/1990 em Nampula, residente em Maputo. Estudante e membro do Movimento


poetas em Literário Kuphaluxa desde a sua fundação. Foi um dos classificados do “Premio Poetize 2012 do Brasil”, com o poema intitulado “Remendos”. Sem livro publicado, as suas crônicas, poemas e ensaios são publicadas em revistas literárias, a destacar, revista Tarja Preta da Academia Onírica de Piauí, revista Blecaute do Brasil e Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona – Literatas.

Sempre leu tudo o que lhe caísse nas mãos, mas sua relação mais estreita com a linguagem antes de embarcar de cabeça na poesia foi a formação em Neurolinguística, nos anos 90. Pode ser lida/vista nos seguintes links: blog: http://cosmunicando.blogspot.com site fotográfico: http://mercedeslorenzo.com

Para contato: manducho1@hotmail.com Blog: pontosdosiiis.blogspot.com Endereço do grupo: Centro Cultural Brasil - Moçambique Av. 25 de Setembro, N°1728, C. Postal: 1167, Maputo Blog do grupo Kuphaluxa: kuphaluxa.blogspot.com Site da revista Literatas: literatas.blogs.sapo.mz E-mail do grupo: kuphaluxa@gmail.com ou kuphaluxa@sapo.mz

Mercedes Lorenzo Paulistana, fotógrafa de profissão, comete poemas em seu blog Cosmunicando, além de ser coeditora e co-responsável pela parte gráfica da revista Rebosteio. Não tem livro publicado até o presente momento. Alguns de seus poemas e fotopoemas já foram divulgados em portais culturais da internet, como o Germina Literatura e o Diversos Afins. Também teve seu trabalho fotográfico «Poesia Onde Não Há Via» exposto no Centro Cultural Quilombaque, onde o cotidiano da cidade é mostrado em dípticos, fazendo uma analogia com pequenos poemas de apenas dois versos.

Nina Rizzi (SP, 1983), escritora, historiadora e educadora, vive atualmente em Fortaleza/ CE. Participa em diversas antologias, suplementos e revistas literárias, lançou em 2012 tambores pra n’zinga, pelo selo Orpheu/ Ed. Multifoco. Edita a revista eletrônica Ellenismos – Diálogos com a Arte e a Literatura [www.ellenismos.com], e escreve seus textos literários no quandos [http://ninaarizzi.blogspot.com].

Renato Silva Autor do livro “Uma cidade nas nuvens”, pela Editora Patuá, é aquariano peixe fora d´água. Nefelibata, paulistano, dislexo e agnóstico, escreve para respirar: Dois pulmões? Muito pouco. Para tudo um pouco depois da metade, como se isso fosse meta. Publicou no site Terra, em alguns jornais e diversos blogs de Literatura. Não crê no homem, mas acredita na humanidade. e-mail: dasnuvens@yahoo.com.br facebook: http://www.facebook.com/renato.silva.3551380 blog: www.umacidadenasnuvens.blogspot.com/


(des)construção Roberta Silva Pinto (Belo Horizonte/MG, 1971). Escritora, edita o blogue Ragi Moana e escreve no Putas Resolutas. Tem poemas publicados na internet, entre outros sites, na revista Germina. Faz parte de Dedo de moça — uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Vive em Belo Horizonte.

Rubens Guilherme Pesenti vivendo em um futuro inconcebível, ainda tenho um passado por construir. ah, também co-editor da revista Rebosteio. blog: http://ru666.blogspot.com

Ragi Moana: http://www.ragimoana.blogspot.com.br/ Putas Resolutas: http://www.putasresolutas.blogspot.com.br/ Escritoras Suicidas: http://www.escritorassuicidas.com.br/roberta_silva.htm

Germina Literatura: http://www.germinaliteratura.com.br/rsilva.htm

Walner Danziger Escritor, dramaturgo e diretor de teatro. Autor dos livros “Entre a Fome e a Fúria” (contos, crônicas e poemas), “Giletenamãodomacaco” (contos e outras narrativas) e “Teatro Vol.1 – 3 Peças”. Fundador e diretor artístico do Grupo de Arte Pixaim, desenvolve os projetos literários “Crônicas de 2ª” e “Na Cidade, Na Perifa, Na Função” para a web. Escreve diariamente no blog: www.nasubidadomorro.wordpress.com

Rodrigo Machado Freire Willian Delarte eu não e a que me nego pouco importa! digo de minha áspera inconstância: eu não antes de tudo digo "eu não" nisto vou agarrado porque antes de tudo já não me perdoam "não ser» e me inventam "imperdoável» "eu não" é como eu sou não principalmente.

Autor do livro de poesia “Sentimento do Fim do Mundo” (Editora Patuá, 2011), foi um dos vencedores do II e III Festival de Literatura da Faculdade de Letras da USP na categoria “Conto”. Graduado pela mesma faculdade, foi também finalista da 15ª edição do “Projeto Nascente” (USP). É co-editor da Revista Rebosteio e escreve periodicamente no jornal “Conteúdo Independente” e em seu blog:

link do blog: http://entimesmado.blogspot.com

http://williandelarte.blogspot.com/


A Editora Patuá - Livros são amuletos - é uma alternativa no mercado editorial: com o objetivo principal de publicar bons autores que ainda não encontraram espaço nas grandes editoras, mas que também não desejam pagar pela edição da própria obra, pretendemos apresentar ao público livros com excelente qualidade gráfica e, sobretudo, literária. O foco editorial é a Literatura Brasileira Contemporânea, nos gêneros poesia, conto, crônica e romance. São realizados gratuitamente, após a seleção da obra, todo o trabalho de edição do livro: registro, revisão, projeto gráfico, diagramação, ilustração, impressão e venda. Acompanhe as novidades da Editora no site: www.editorapatuá.com.br. Ou entrando em contato com os editores (Aline Rocha e Eduardo Lacerda), pelo e-mail: editorapatua@editorapatua.com.br

“99 sonetos sacanas e 1 canção de amor” livro de Henrique Pimenta

Livros de Lúcia Santos: - Quase Azul Quanto Blue - Batom Vermelho (esgotado) - Uma Gueixa para Bashô * Compras diretamente com a autora no email: luciamcsantos@gmail.com

O livro é um conjunto de poemas que podem ser classificados como eróticos e pornôs, isso porque se diz comumente que o erotismo tem o caráter nobre e que a pornografia possui um caráter vulgar. Mas Henrique Pimenta parece desafiar características estanques, mesclando num mesmo soneto libertinagens ao mais cândido lirismo, cruzando tentativas de sublimação amorosa ao mais grosseiro improviso licencioso. Senhor de seu fazer poético, Pimenta constrói com suas misturas a medida certa para um soneto com fôlego e fogo contemporâneos. O livro pode ser adquirido no site da editora Life: http://www.lifeeditora.com.br/crbst_100.html

livro de Mariana Botelho "o silêncio tange o sino" Vendas no site da Ateliê Editorial: http://www.atelie.com.br/shop/detalhe.php?id=537 e em algumas livrarias, como a Cultura: http://www.atelie.com.br/shop/detalhe.php?id=537&fb_source=message

livro de Nina Rizzi Tambores pra N’Zinga Nos links há duas resenhas do livro, uma de Claudio Daniel e outra de Hercília Fernandes, que prefaciou. http://cantarapeledelontra.blogspot.com.br/2012/05/agora-e-quandos.html http://novidadesevelharias-fernandeshercilia.blogspot.com.br/2012/03/nina-rizzi-e-os-tambores-pra-nzinga.html

Ou compras diretamente com a autora: http://ninaarizzi.blogspot.com

PARA OUVIR: Audio Book "Play na Poesia": http://playnapoesia.com.br/multimidia Buteco no Divã http://obuteconodiva.blogspot.com.br/2012/07/divacast-4-poesia-contemporanea.html#comment-form


Livro de Renato Silva: Uma Cidade nas Nuvens compras pelos sites: www.editorapatua.com.br www.livrariacultura.com.br ou com o autor pelo e-mail: dasnuvens@yahoo.com.br

Livros de Walner Danziger: - GILETENAMÃODOMACACO - ENTRE A FOME E A FÚRIA - TEATRO VOL.1 - 3 PEÇAS - VÊNUS DE ALUGUEL PaRA COMPRAR: BLOG: nasubidadomorro.wordpress.com e livraria "SUBURBANO CONVICTO" (BIXIGA/SP)

antologia com Roberta Silva Pinto e outros poetas: «Dedo de Moça» vendas no site: http://terracotaeditora.com.br/catalogo/?p=427

Sites e Blogs de Literatura : Portal Cronópios: http://www.cronopios.com.br/ Musa Rara: http://www.musarara.com.br/ O Buteco no Divã: http://obuteconodiva.blogspot.com.br/ Garganta da Serpente: http://www.gargantadaserpente.com/ Revistas de Literatura: Revista Celuzlose: http://celuzlose.blogspot.com.br/ Revista Opniães: http://revistaopiniaes.wordpress.com/

livro de Willian Delarte «Sentimento do Fim do Mundo» Compra pelos sites: www.editorapatua.com.br www.livrariacultura.com.br ou diretamente com o autor: wdelarte@hotmail.com

Alguns Saraus Periféricos: Sarau Poesia na Brasa: http://brasasarau.blogspot.com/ Sarau Coperifa: http://cooperifa.blogspot.com/ Sarau do Binho: http://saraudobinho.blogspot.com/ Sarau da Ademar: http://www.sarau-da-ademar.blogspot.com/ Sarau Elo da Corrente: http://elo-da-corrente.blogspot.com/ Sarau D´Quilo: http://comunidadequilombaque.blogspot.com.br Sarau da Cesta: http://sarau-da-cesta.blogspot.com/


ilustra do tiago



REBOSTEIO Digital Nº 4