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1999   

A epistemologia da  complexidade  Edgar Morin – CNRS, Paris   

Os 13 mandamentos do paradigma da simplificação   

Edgar Morin  Diretor honorário de pesquisas do CNRS, Paris, França  1999 


Edgar Morin  CNRS ‐ Paris 

A epistemologia   da complexidade 

 


Conteúdo    Introdução 

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Mandamentos do paradigma da simplificação 

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1. Geral e universal X particular e singular. 

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2.  Tempo reversível 

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3. Redução ou complementaridade 

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4. Ordem‐Rei 

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5. Causalidade linear 

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6.  A problemática da organização 

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7.  Separação Sujeito e Objeto 

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8. a 11. Ser e existência; formalização e quantificação 

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12. e 13 Confiança absoluta na lógica. 

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A epistemologia complexa 

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À guisa de conclusão 

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Resumo 

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Abstract 

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Notas 

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A epistemologia da complexidade 

A epistemologia da complexidade         

Página 2 


A epistemologia da complexidade   

Introdução  

 questão da complexidade é complexa! 

Em  uma  escola  essa  questão  foi  colocada  a  um  grupo  de  crianças:  “Que  é  a  complexidade?”  A  resposta  de  uma  aluna  foi:  “a  complexidade  é  uma  complexidade  que  é  complexa”.  É  evidente  que  se  encontrava  no  âmago  da  questão.  Mas  antes  de  abordar essa dificuldade, é necessário dizer que o dogma, a evidência  subjacente  ao  conhecimento  científico  clássico  é,  como  dizia  Jean  Perrin,  que  o  papel  do  conhecimento  é  explicar  o  visível  complexo  pelo  invisível  simples.  Para  além  da  agitação,  da  dispersão,  da  diversidade,  há  leis.  Assim,  pois,  o  princípio  da  ciência  clássica  é,  evidentemente,  o  de  legislar,  estabelecer  as  leis  que  governam  os  elementos  fundamentais  da  matéria,  da  vida;  e  para  legislar,  deve  desunir,  quer  dizer,  isolar  efetivamente  os  objetos  submetidos  às  leis.  Legislar,  desunir,  reduzir,  esses  são  os  princípios  fundamentais  do  pensamento  clássico1.  De  modo  algum  pretendo  decretar  que  esses princípios estejam a partir de agora abolidos.   

Legislar, desunir, reduzir,  esses são os princípios  fundamentais do  pensamento clássico.  Enquanto que a ciência de  inspiração cartesiana ia  muito logicamente do  complexo ao simples, o  pensamento científico  comtemporâneo  intenciona ler a  complexidade do real sob a  aparência simples dos 

Mas  as  práticas  clássicas  do  conhecimento  são  insuficientes.   Enquanto  que  a  ciência  de  inspiração  cartesiana  ia  muito  logicamente  do  complexo  ao  simples,  o  pensamento  científico  contemporâneo  intenciona  ler  a  complexidade  do  real  sob  a  aparência  simples  dos  fenômenos.  De  início,  não  há  fenômenos  simples.  Tomemos  o  exemplo  do  beijo.  Pensemos  na  complexidade  que é necessária para que nós, humanos, a partir da boca, possamos  expressar uma mensagem de amor. Nada parece mais simples, mais  evidente. E a despeito disso, para beijar, faz falta uma boca, a forma  emergente da evolução do focinho. É necessário que tenha havido a  relação própria nos mamíferos em que a criança mama da mãe, e a  mãe  que  amamenta  o  filho.  É  necessário,  pois,  toda  a  evolução  complexizante que transforma o mamífero em primata, e a seguir em  humano,  e  anteriormente  toda  a  evolução  que  vai  do  unicelular  ao  mamífero.  O  beijo,  ademais,  supõe  uma  mitologia  subjacente  que  identifica  a  alma  com  o  sopro  que  sai  pela  boca:  depende  de  condições  culturais  que  favorecem  sua  expressão.  Assim,  há  cinqüenta anos, no Japão o beijo era inconcebível, incongruente.  Dito  de  outro  modo,  essa  coisa  tão  simples  surge  de  uma  região  distante  de  uma  complexidade  assombrosa.  Temos  crido  que  o  conhecimento tinha um ponto de partida e um término; hoje penso  que o conhecimento é uma aventura em espiral que tem um ponto  de  partida  histórico,  mas  não  tem  término,  que  deve  sem  cessar  realizar  círculos  concêntricos2;  quer  dizer,  o  descobrimento  de  um  princípio simples não é o final; reenvia de novo ao princípio simples   

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A epistemologia da complexidade  ao  qual  esclareceu  em  parte.  Assim,  pensemos  no  caso  do  código  genético que, uma vez descoberto, nos reenvia à pergunta: Por que  existe  essa  diversidade  extraordinária  de  formas  nos  animais  e  nos  vegetais?  Cito  uma  frase  de  Dobzhansky,  o  biólogo,  que  diz:  “Desgraçadamente  a  natureza  não  foi  gentil  o  bastante  para  fazer  as coisas tão simples como nós gostaríamos que fossem. Devemos  afrontar  a  complexidade.”  Um  físico,  que  é  ao  mesmo  tempo  um  pensador,  David  Bohm,  e  que  ataca  o  dogma  da  elementaridade  –  sobre o qual retornarei – diz: “As leis físicas primárias jamais serão  descobertas por uma ciência que procura fragmentar o mundo em  seus constituintes”.  Ainda que Bachelard dissesse que, de início, a ciência contemporânea  buscava – porque ele pensava na física – a complexidade, é evidente  que  os  cientistas  desconheciam  que  isso  era  o  que  lhes  concernia.  Freqüentemente  têm  uma  consciência  dupla;  crêem  sempre  obedecer  à  mesma  velha  lógica  e  outros  princípios  do  conhecimento3.  Mas  custou  até  que  a  complexidade  emergisse.  Custou  que  ela  emergisse,  antes  de  tudo,  porque  ela  não  foi  o  centro  de  grandes  debates  e  de  grandes  reflexões,  como  por  exemplo,  foi  o  caso  da  racionalidade com os debates entre Lakatos e Feyerabend ou Popper  e  Kuhn.  A  cientificidade,  a  falsabilidade  são  grandes  debates  dos  quais falamos; mas a complexidade nunca foi debatida. A bibliografia  sobre a complexidade é, ao menos pelo que conheço, muito limitada.  Para  mim,  a  contribuição  importante  é  o  artigo  de  Weaver,  colaborador  de  Shannon,  como  vocês  sabem,  na  teoria  da  informação,  quem,  em  1948,  escreveu  o  artigo  “Ciência  e  complexidade”  no  Scientific  American,  artigo  que  é  um  resumo  de  um  estudo  mais  extenso.  É  Von  Neumann  quem,  na  teoria  “On  self  reproducing automata” aborda com uma visão muito profunda essa  questão da complexidade das máquinas, dos autômatas naturais em  comparação com os automatas artificiais. Referiu‐se a ela Bachelard  em “Le nouvel esprit scientifique”; Von Foerster em diversos escritos,  particularmente  em  seu  texto,  agora  bem  conhecido,  “On  self  organizing  systems  and  their  environment”.  Temos  H.  A.  Simon:  “Architecture of complexity”, que foi primeiro um artigo autônomo e  que  foi  a  seguir  compilado  em  seu  livro.  Podemos  encontrar  a  complexidade, na França, nas obras de Henri Atlan: Entre Le cristal ET  La  fumée,  e  temos  Hayek  que  escreveu  um  artigo  entitulado  “The  theory  of  complex  phenomena”  em  Studies  in  philosophy,  politics  and economics, que é bastante interessante. 4  Sem  dúvida  tratou‐se  muito  da  complexidade  no  domínio  teórico,  físico, no domínio sistêmico; mas com freqüência, em minha opinião,  tratou‐se,  sobretudo  do  que  Weaver  chama  a  complexidade  desorganizada  que  irrompeu  no  conhecimento  com  o  segundo  princípio  da  termodinâmica,  o  descobrimento  dessa  desordem   

A idéia da complexidade é  uma aventura. Eu diria  inclusive que não podemos  tentar entrar na  problemática da  complexidade se não  entramos na da  simplicidade, porque a  simplicidade não é tão  simples assim. 


A epistemologia da complexidade  microscópica,  micro  corpuscular,  no  universo.  Mas  a  complexidade  organizada  é,  com  freqüência,  reconduzida  à  complicação.5  Que  é  a  complicação?  Quando  há  um  número  incrível  de  interações,  por  exemplo,  entre  moléculas  em  uma  célula  ou  neurônio  em  um  cérebro,  esse  número  incrível  de  interações  e  de  inter‐retroações  supera  evidentemente  toda  a  capacidade  de  computação  –  não  somente  para  um  espírito  humano,  mas  também  para  um  computador  muito  aperfeiçoado  –  e  então  efetivamente  é  melhor  ater‐se  ao  input  e  ao  output6.  Dito  de  outro  modo,  é  muito  complicado;  a  complicação  é  o  emaranhado  de  inter‐relações.  Certamente,  é  um  aspecto  da  complexidade,  mas  creio  que  a  importância da noção está em outra parte. A complexidade é muito  mais  uma  noção  lógica  do  que  quantitativa.  Ela  possui  certamente  muitos  suportes  e  características  quantitativos  que  desafiam  efetivamente os modos de cálculo; mas é uma noção de outro tipo. É  uma noção a explorar, a definir. A complexidade nos aparece, antes  de  tudo,  efetivamente  como  irracionalidade,  como  incerteza,  como  angústia, como desordem.  Dito  de  outro  modo,  a  complexidade  parece  primeiro  desafiar  o  nosso conhecimento, e de algum modo, produzir nele uma regressão.  Cada vez que há uma irrupção de complexidade precisamente sob a  forma  de  incerteza,  de  aleatoriedade,  se  produz  uma  resistência  muito  forte.  Houve  uma  resistência  muito  forte  contra  a  física  quântica, porque os físicos clássicos diziam: “é o retorno à barbárie,  não é possível nos situarmos na indeterminação quando desde dois  séculos todas as vitórias da ciência têm sido as do determinismo.”  Foi  necessário  o  êxito  operacional  da  física  quântica  para  que  finalmente,  se  compreenda  que  a  nova  indeterminação  constituía  também um progresso no conhecimento da mesma determinação.7  A  idéia  da  complexidade  é  uma  aventura.  Diria  inclusive  que  não  podemos  tentar  entrar  na  problemática  da  complexidade  se  não  entramos  na  da  simplicidade,  porque  a  simplicidade  não  é  tão  simples  assim.  No  meu  texto  “Os  mandamentos  da  complexidade”  publicado em Science avec conscience, tentei extrair treze princípios  do  paradigma  da  simplificação,  quer  dizer,  princípios  de  intelecção  mediante simplificação, para poder extrair de modo correspondente,  complementar e antagonista ao mesmo tempo – eis aqui uma idéia  tipicamente  complexa  –  princípios  de  intelecção  complexa.  Vou  simplesmente  retomá‐los  e  fazer  alguns  comentários.  Essa  será  a  primeira  parte  de  minha  exposição;  a  segunda  parte  estará  consagrada  um  pouco  mais  precisamente  ao  problema  do  conhecimento  do  conhecimento8  ou  à  epistemologia  complexa  que  está relacionada a tudo isso. 

 

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A epistemologia da complexidade    Mandamentos do paradigma da simplificação   1. Geral e universal X particular e singular  2. Tempo reversível  3. Redução ou complementaridade  4. Ordem‐Rei  5. Causalidade linear  6. A problemática da organização  7. Separação Sujeito e Objeto  8. a 11. Ser e existência; formalização e quantificação  12. e 13 Confiança absoluta na lógica. 

 


A epistemologia da complexidade  1. Geral e universal X particular e singular. 

odemos dizer que o princípio da ciência é: legislar. Corresponde  ao  princípio  do  direito,  talvez.  É  uma  legislação,  mas  não  é  anônima, que se encontra no universo, é a lei. E esse princípio é  um  princípio  universal  que  foi  formulado  pelo  lugar  comum:  “Só  há  ciência no geral”, e que comporta a expulsão do local e do singular.  Pois  bem,  o  que  é  interessante  é  que,  inclusive  no  universo,  no  universal,  interveio  a  localidade.  Quero  dizer  que  hoje  parece  que  nosso  universo  é  um  fenômeno  singular,  que  comporta  determinações  singulares  e  que  as  grandes  leis  que  o  regem,  que  podemos  chamar  de  leis  de  interação  (como  as  interações  gravitacionais,  as  interações  eletromagnéticas,  as  interações  fortes  no seio dos núcleos atômicos) essas leis de interação não são leis em  si, mas leis que somente se manifestam, somente atuam a partir do  momento  em  que  há  elementos  em  interação;  se  não  houvesse  partículas materiais não haveria gravitação, a gravitação no existe em  si.  Essas  leis  não  têm  um  caráter  de  abstração  e  estão  ligadas  às  determinações  singulares  de  nosso  universo;  tivesse  podido  haver  outros  universos  possíveis  –  talvez  os  haja  –  e  que  tivessem  outras  características  singulares.  A  singularidade  está  a  partir  de  agora  profundamente  inscrita  no  universo;  e  ainda  que  o  princípio  da  universalidade  resida  no  universo,  vale  para  um  universo  singular  onde  aparecem  fenômenos  singulares  e  o  problema  é  combinar  o  reconhecimento  do  singular  e  local  com  a  explicação  universal.  O  local e singular devem cessar de serem rejeitados ou expulsos como  resíduos a eliminar. 9 

...o problema é combinar o  reconhecimento do  singular e local com a  explicação universal.  O local e singular devem  cessar de serem rejeitados  ou expulsos como resíduos  a eliminar. 

 

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A epistemologia da complexidade  2.  Tempo reversível  O  segundo  principio  é  a  desconsideração  do  tempo  como  processo  irreversível;  as  primeiras  leis  físicas  puderam  muito  bem  ser  concebidas  em  um  tempo  reversível.  E  de  alguma  maneira,  a  explicação estava depurada de toda evolução, de toda historicidade.  E  também  aqui  há  um  problema  muito  importante:  o  do  evolucionismo  generalizado.10  Hoje  o  mundo,  quer  dizer  o  cosmos  em  seu  conjunto  e  a  matéria  física  em  sua  constituição  (particular,  nuclear,  atômica,  molecular),  tem  uma  história.  Já  Ullumo,  nessa  epistemologia piagetiana com a qual François Meyer colaborou, dizia  muito firmemente: “A matéria tem uma história”; hoje tudo o que é  material é pensado, concebido através de sua gênese, sua história. O  átomo é visto historicamente. O átomo de carbono é visto através de  sua  formação  no  interior  de  um  sol,  de  um  astro.  Tudo  é  profundamente  historicizado.  A  vida,  a  célula,  ‐  François  Jacob  o  sublinhava  com  freqüência  ‐  uma  célula  é  também  um  corte  no  tempo.  Dito de outro modo, contrariamente a essa visão que reinou durante  um  tempo  nas  ciências  humanas  e  sociais,  segundo  a  qual  se  acreditava  poder  estabelecer  uma  estrutura  por  eliminação de  toda  dimensão  temporal  e  considerá‐la  em  si  fora  da  história,  hoje  de  todas  as  outras  ciências  chega  a  chamada  profunda  para  ligar  o  estrutural ou organizacional (prefiro dizer este último e direi por que)  com  o  histórico  e  evolutivo.  E  o  que  é  importante  efetivamente,  é  que  o  problema  do  tempo  foi  colocado  de  maneira  totalmente  paradoxal no último século.11  Com  efeito,  no  mesmo  momento  em  que  se  desenvolvia  o  evolucionismo  ascensional  sob  sua  forma  darwiniana,  quer  dizer,  uma idéia de evolução complexante e diversificante a partir de uma  primeira protocélula vivente, no momento em que a história humana  era  vista  como  um  processo  de  desenvolvimento  e  de  progresso,  nesse  mesmo  momento  o  segundo  princípio  da  termodinâmica  inscrevia,  ele  mesmo,  uma  espécie  de  corrupção  inelutável,  de  degradação  da  energia  que  podia  ser  traduzida  sob  a  ótica  boltzmaniana  como  um  crescimento  da  desordem  e  da  desorganização.  Estamos  confrontados  com  uma  dupla  temporalidade;  não  é  uma  flecha  do  tempo  o  que  surgiu,  são  duas  flechas  do  tempo,  e  duas  flechas  que  apontam  em  sentido  contrário12. A despeito disso, é o mesmo tempo; e a mesma aventura  cósmica:   •

certamente, o segundo princípio da termodinâmica inscreve um  princípio de corrupção, de dispersão do universo físico;  

 

Há limites para a  elementaridade; mas esses  limites não são somente  intrínsecos; têm também  que ver com o fato de que,  uma vez que tenhamos  inscrito todo o tempo, a  elementaridade aparece  também como  eventualidade, quer dizer  que o elemento  constitutivo de um sistema  pode também ser visto  como evento.

...hoje, de todas as outras  ciências, chega a chamada  profunda para ligar o  estrutural ou  organizacional, com o  histórico e evolutivo.  ... não é uma flecha do  tempo o que surgiu, são  duas flechas do tempo, e  duas flechas que apontam  em sentido contrário. 


A epistemologia da complexidade  •

mas ao mesmo tempo, esse universo físico, em um movimento  de dispersão, constituiu‐se e continua se constituindo. 

Constitui‐se  de  galáxias,  de  astros,  de  sóis,  dito  de  outro  modo  desenvolve‐se mediante a organização ao mesmo tempo em que se  produz mediante a desorganização. O mundo biológico é um mundo  que evolui; é a vida; mas a vida, ao mesmo tempo, se faz através da  morte  das  espécies.  Houve  quem  quisesse  justapor  esses  dois  princípios;  é  o  que  Bergson  fez;  Bergson,  um  dos  raros  pensadores  que  olhou  de  frente  o  segundo  princípio;  mas,  segundo  ele,  esse  princípio  era  a  prova  de  que  a  matéria  biológica  era  diferente  da  matéria  física,  já  que  a  matéria  física  tem  algo  de  corrompido  nela,  enquanto que a substância biológica não padece o efeito do segundo  princípio. 

(...) proponho o tetragrama  ODIO:   Ordem – Desordem –  Interações – Organização  (...) este não poderá ser a  ordem, nem uma lei, nem  uma fórmula mestra   E = MC2,   nem a desordem pura.  Os princípios de ordem  podem inclusive crescer ao  mesmo tempo que os de  desordem, ao mesmo  tempo que se desenvolve a  organização. 

Desgraçadamente  para  ele,  descobriu‐se  a  partir  dos  anos  50  que  a  originalidade da vida não está em sua matéria constitutiva, senão em  sua complexidade organizacional.13  Estamos,  pois,  confrontados  a  esse  tempo  duplo  que  não  somente  tem  duas  flechas,  senão  que  ademais  pode  ser  a  um  só  tempo  irreversível e reiterativo. 14   Foi, evidentemente, a emergência do pensamento cibernético o que  mostrou  isso.  Não  era  somente  o  fato  de  que,  a  partir  de  um  fluxo  irreversível, se pode criar um estado estacionário, por exemplo, o do  turbilhão;  no  encontro  de  um  fluxo  irreversível  e  de  um  obstáculo  fixo,  como  o  arco  de  uma  ponte,  cria‐se  uma  espécie  de  sistema  estacionário que é ao mesmo tempo móvel, já que cada molécula de  água  que  turbilhoneia  é  arrastada  de  novo  pelo  fluxo,  mas  que  manifesta  uma  estabilidade  organizacional.  Tudo  isso  se  reencontra  em  todas  as  organizações  vivas:  irreversibilidade  de  um  fluxo  energético  e  a  possibilidade  de  organização  por  regulação  e,  sobretudo por recursão, quer dizer, autoprodução de si. Assim temos  o  problema  de  uma  temporalidade  extremamente  rica,  extremamente múltipla e que é complexa.  

Na linguagem, o discurso  toma sentido em relação à  palavra, mas a palavra só  fixa seu sentido em relação  aos discursos nos quais se  encontra encadeada. Aqui  também há uma ruptura  com toda visão  simplificante na relação  parte‐todo; faz‐nos falta  ver como o todo está  presente nas partes e as  partes presentes no todo. 

Faz‐nos  falta  ligar  a  idéia  de  reversibilidade  e  de  irreversibilidade,  a  idéia  de  organização  de  complexidade  crescente  e  a  idéia  de  desorganização  crescente.  Eis  aqui  o  problema  com  o  qual  se  defronta  a  complexidade!15  Enquanto  que  o  pensamento  simplificante elimina o tempo, ou mesmo não concebe mais do que  um tempo único (o do progresso ou o da corrupção), o pensamento  complexo  se  defronta  não  somente  o  tempo,  mas  o  problema  da  politemporalidade na qual aparecem ligadas a repetição, o progresso,  a decadência. 

 

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A epistemologia da complexidade   

3. Redução ou complementaridade O  terceiro  princípio  da  simplificação  é  o  da  redução  ou  também  da  elementaridade. O conhecimento dos sistemas pode ser reduzido às  suas  partes  simples  ou  unidades  elementares  que  os  constituem.  Sobre isso, serei muito breve.  Resumo.  É  no  domínio  físico  onde  esse  princípio  parecia  haver  triunfado  de  modo  incontestável,  domínio  que,  evidentemente,  se  encontra mais afetado por esse princípio. Fiz alusão ao problema da  partícula  que  é  aporética16  (onda  e  corpúsculo),  e,  portanto  a  substância  é  flutuante;  demo‐nos  conta  de  que  naquilo  que  se  acreditava ser o elemento puro e simples, a partir de agora existia a  contradição, a incerteza, o composto – aludo à teoria do bootstrap.   Há limites para a elementaridade; mas esses limites não são somente  intrínsecos;  têm  também  que  ver  com  o  fato  de  que,  uma  vez  que  tenhamos inscrito todo o tempo, a elementaridade aparece também  como  eventualidade,  quer  dizer  que  o  elemento  constitutivo  de  um  sistema  pode  também  ser  visto  como  evento.17 Por  exemplo,  existe  uma  visão  estática  que  consiste  em  considerarmos  nós  mesmos  enquanto  organismos;  estamos  constituídos  por  de  30  a  50  bilhões  de  células.  De  algum  modo,  e  creio  no  que  Atlan  justamente  precisou; não estamos constituídos por células; estamos constituídos  por interações entre essas células.18  Não  são  ladrilhos  umas  ao  lado  das  outras;  estão  em  interação.19  E  essas  interações,  são  acontecimentos,  eles  mesmos  ligados  por  acontecimentos repetitivos que são estimulados pelo movimento do  nosso  coração,  movimento  ao  mesmo  tempo  regular  e  inscrito  em  um  fluxo  irreversível.  Todo  elemento  pode  ser  lido  também  como  evento.  E  está,  sobretudo  o  problema  da  sistematicidade;  há  níveis  de emergência; os elementos associados formam parte de conjuntos  organizados;  ao  nível  da  organização  do  conjunto,  emergem  qualidades que não existem no nível das partes.20  Certo, descobrimos que finalmente tudo isso se passa no nosso ser,  não somente no nosso organismo, mas inclusive no pensamento, em  nossas idéias, em nossas decisões, que podem reduzir‐se a turbilhões  de elétrons. Mas é evidente que não se pode explicar a conquista da  Gália  por  Júlio  César  somente  pelos  movimentos  de  turbilhões  eletrônicos  de  seu  cérebro,  de  seu  corpo  e  do  dos  legionários  romanos.  Inclusive  se  um  demônio  conseguisse  determinar  essas  interações  físicas,  nada  compreenderia  da  conquista  da  Gália  que  somente  pode  ser  compreendida  ao  nível  da  história  romana  e  das  tribos  gaulesas.  Do  mesmo  modo,  eu  diria,  que  em  termos  de   

Faz‐nos falta ligar a idéia  de reversibilidade e de  irreversibilidade, a idéia de  organização de  complexidade crescente e  a idéia de desorganização  crescente.   Eis aqui o problema com o  qual se defronta a  complexidade! 


A epistemologia da complexidade  mudanças  bioquímicas,  os  amores  de  César  e  Cleópatra  são  totalmente ininteligíveis. Assim, pois, é certo que não reduziremos os  fenômenos  antroposociais  aos  fenômenos  biológicos,  nem  estes  às  interações físico‐químicas.   

4. Ordem­Rei

 quarto  principio  simplificador  é  o  da  Ordem‐Rei.  O  Universo  obedece  estritamente  a  leis  deterministas,  e  tudo  o  que  parece desordem (quer dizer, aleatório, agitador, dispersivo) é  somente uma aparência devida unicamente à insuficiência de nosso  conhecimento.  As noções de ordem e de lei são necessárias, mas insuficientes. Sobre  isso,  Hayek,  por  exemplo,  mostra  bem  que  quanto  mais  complexidade  houver,  menos  útil  é  a  idéia  de  lei.  Hayek  pensa,  obviamente,  na  complexidade  socioeconômica;  é  o  tipo  de  preocupação dele; mas ele se dá conta de que é muito difícil, porque  são  complexos,  predizer  os  fenômenos  sociais.  É  evidente  que  as  “Leis”  da  Sociedade  ou  as  “Leis”  da  História,  são  tão  gerais,  tão  triviais, tão planas, que carecem de interesse. Hayek diz: “Portanto, a  busca  de  leis  não  é  a  marca  do  procedimento  científico,  mas  somente  uma  característica  própria  das  teorias  sobre  fenômenos  simples”21.  Vincula  muito  fortemente  a  idéia  de  leis  com  a  idéia  de  simplicidade.  Eu  penso  que  se  esta  visão  é  bastante  justa  no  que  concerne aos fenômenos sociais, não o é menos no mundo físico ou  biológico, o conhecimento deve ao mesmo tempo detectar a ordem  (as  leis  e  determinações)  e  a  desordem,  e  reconhecer  as  relações  entre  ordem  e  desordem.  O  que  é  interessante  é  que  a  ordem  e  a  desordem  têm  uma  relação  de  complementaridade  e  de  complexidade.  Tomemos  o  exemplo,  que  freqüentemente  cito,  de  um  fenômeno  que  apresenta,  sob  uma  perspectiva,  um  caráter  aleatório  surpreendente,  e,  sob  outra  perspectiva,  um  caráter  de  necessidade;  esse  fenômeno  é  a  constituição  do  átomo  de  carbono  nas caldeiras solares. Para que esse átomo se constitua é necessário  que  ocorra  o  encontro,  exatamente  no  mesmo  momento,  de  três  núcleos  de  hélio,  o  que  é  um  acontecimento  completamente  aleatório e improvável. A despeito disso, desde que esse encontro se  produza, uma lei entra em ação; uma regra, uma determinação muito  estrita  intervém;  o  átomo  de  carbono  é  criado.  Assim,  pois,  o  fenômeno  tem  um  aspecto  aleatório  e  um  aspecto  de  determinação.22  Ademais,  o  número de  interações  entre  núcleos  de  hélio é enorme no seio do Sol; e, além disso, houve muitas gerações  de sóis no nosso sistema solar; finalmente com o tempo, se cria uma  quantidade considerável de átomos de carbono, se cria em todo caso  uma  ampla  reserva  necessária  para  a  criação  e  desenvolvimento  da   

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A epistemologia da complexidade  vida.  Vemos  como  um  fenômeno  que  parece  ser  extremamente  improvável,  pelo  seu  caráter  aleatório,  finalmente  é  quantitativamente  bastante  importante  e  pode  entrar  em  uma  categoria estatística. Tudo isso depende, pois, da perspectiva desde a  qual se veja e eu diria, sobretudo que é interessante – é necessário –  reunir  todas  essas  perspectivas.  É  neste  sentido  que  proponho  um  tetragrama, que de nenhum modo é um princípio de explicação, mas  que  é  muito  mais  um  modo  de  memorizar  indispensável;  é  o  tetragrama ODIO: Ordem – Desordem – Interações – Organização.  Também devo precisar bem isto; quando se diz tetragrama se pensa  em um tetragrama muito famoso, aquele que o Eterno proporcionou  a Moisés no Monte Sinai para revelar a ele seu nome, nome sagrado  e  impronunciável:  JHVH.  Aqui  o  tetragrama  do  qual  falo  não  é  a  Fórmula suprema: expressa a idéia de que toda a explicação, toda a  intelecção  jamais  poderá  encontrar  um  princípio  último;  este  não  poderá ser a ordem, nem uma lei, nem uma fórmula mestra E = MC2,  nem  a  desordem  pura.  Desde  que  consideramos  um  fenômeno  organizado,  desde  o  átomo  até  os  seres  humanos  passando  pelos  astros,  é  necessário  fazer  intervir  de  modo  específico  princípios  de  ordem,  princípios  de  desordem  e  princípios  de  organização23.  Os  princípios  de  ordem  podem  inclusive  crescer  ao  mesmo  tempo  em  que  os  de  desordem,  ao  mesmo  tempo  em  que  se  desenvolve  a  organização. Por exemplo, Lwoff escreveu um livro intitulado L’ordre  biologique,  é  um  livro  muito  interessante  porque,  com  efeito,  há  princípios  de  ordem  que  são  válidos  para  todos  os  seres  viventes,  para toda organização vivente. Apenas que esses princípios de ordem  válidos  para  toda  organização  vivente  podem  existir  se  as  organizações  viventes  são  viventes;  assim,  pois,  não  existiam  antes  da  existência  de  vida,  senão  em  estado  virtual,  e  quando  a  vida  se  extinga  cessarão  de  existir.  Eis  aqui  uma  ordem  que  tem  a  necessidade  de  autoproduzir‐se  mediante  a  organização  e  essa  ordem  é  bastante  particular  já  que  tolera  uma  parte  importante  de  desordem,  inclusive  até  colabora  com  a  desordem  como  Von  Neumann o viu acertadamente na sua teoria dos autômatas. Assim,  pois,  há,  ao  mesmo  tempo  em  que  cresce  a  complexidade,  crescimento  da  desordem,  crescimento  da  ordem,  crescimento  da  organização  (e  perdoem  que  utilize  essa  palavra  quantitativa  “crescimento”).  É  certo  que  a  relação  ordem‐desordem‐organização  não  é  somente  antagônica,  é  também  complementar  e  de  antagonismo onde encontramos a complexidade. 

 

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A epistemologia da complexidade 

5. Causalidade linear

 antiga  visão,  a  visão  simplificante,  é  uma  visão  na  qual  evidentemente a causalidade é simples; é exterior aos objetos; é  superior a eles; é linear.  24 Pois bem, há uma causalidade nova,  que  introduz  pela  primeira  vez  a  retroação  cibernética,  o  feedback  negativo, na qual o efeito faz anel com a causa e podemos dizer que  o  efeito  retro  atua  com  a  causa.  Esse  tipo  de  complexidade  se  manifesta  no  exemplo de  um  sistema  de aquecimento  de uma  casa  provido  de  um  termostato,  no  qual  efetivamente  o  mesmo  termostato inicia ou detém o funcionamento da máquina térmica. O  que é interessante, é que não é somente esse tipo de causalidade em  anel  que  se  cria;  é  também  uma  endo‐exo‐causalidade,  já  que  é  efetivamente também o frio e o calor exterior o que vai desencadear  a  interrupção  ou  ativação  do  dispositivo  de  calefação  central;  mas  neste  caso,  a  causa  exterior  desencadeia  um  efeito  interior  inverso  do seu efeito natural: o frio exterior provoca o calor interior. Porque  faz frio fora, a casa fica quente. Claro, tudo isso pode ser explicado de  maneira  muito  simples  quando  consideramos  os  segmentos  constitutivos do fenômeno do anel de retroação; mas o anel que liga  esses segmentos, o modo de ligar esses elementos resulta complexo.  Faz aparecer a endo‐exo‐causalidade.  

...na visão simplificante a  causalidade é simples; é  exterior aos objetos; é  superior a eles; é linear; há  uma causalidade nova, que  introduz pela primeira vez  a retroação cibernética, o  feedback negativo, na qual  o efeito faz anel com a  causa. 

A visão simplificante, logo que se trata de máquinas viventes, busca  primeiramente  a  exocausalidade  simples;  esta  tem  sido  a  obsessão  condutivista,  por  exemplo.  Pensa‐se  que  o  estímulo  que  provocou  uma  resposta  (como  a  saliva  do  cachorro)  produziu  essa  resposta.  Depois, nos demos conta de que o interessante era também saber o  que  se  passava  no  interior  do  cachorro  e  reconhecer  qual  era  a  natureza organizadora da endocausalidade que estimulou o cachorro  a  alimentar‐se.  Tudo  o  que  é  vivente,  e  a  fortiori  tudo  o  que  é  humano,  deve  ser  compreendido  a  partir  de  um  jogo  complexo  ou  dialógico  de  endo‐exo‐causalidade25.  Assim,  é  necessário  superar,  incluindo  no  desenvolvimento  histórico,  a  alternativa  estéril  entre  endocausalidade  e  exocausalidade.26  No  que  concerne  à  extinta  URSS,  por  exemplo,  duas  visões  simplificantes  se  enfrentam:  a  primeira concebe o estalinismo segundo uma causalidade puramente  endógena que vai de Marx a Lenin e deste a Stalin como uma espécie  de  desenvolvimento  quase  dedutivo  a  partir  de  um  quase‐gen  doutrinário;  ao  contrário,  outros  vêem  isso  como  um  fenômeno  acidental,  quer  dizer,  vêem  no  estalinismo  o  efeito  das  determinações  do  passado  czarista,  da  guerra  civil,  do  cerco  capitalista, etc.  

 

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A epistemologia da complexidade  Resulta  evidente  que  nem  uma  nem  a  outra  dessas  visões  são  suficientes; o interessante é ver a espiral, o anel de fortalecimento de  causas  endógenas  e  de  causas  exógenas  que  faz  que  em  um  momento  o  fenômeno  se  desenvolva  em  uma  direção  mais  do  que  em  outra,  dando  por  pressuposto  que  existem  desde  o  começo  virtualidades  de  desenvolvimento  múltiplas.  Temos,  pois,  sobre  o  tema da causalidade uma revisão muito importante a fazer.   

6.  A problemática da organização

obre a problemática da organização, não quero insistir.  

Direi  que  na  origem  está  o  princípio  de  emergência,  quer  dizer,  que  qualidades  e  propriedades  que  nascem  da  organização  de  um  conjunto retro atuam sobre esse conjunto; há algo de não dedutivo  no aparecimento de qualidades ou propriedades de todo o fenômeno  organizado.  

Quanto  ao  conhecimento  de  um  conjunto,  é  necessário  pensar  na  frase de Pascal que costumo citar:   “Tenho  por  impossível  conceber  as  partes  à  margem  do  conhecimento do todo, tanto como conhecer o todo sem conhecer  particularmente as partes”27.  Isso  remete  a  questão  do  conhecimento  a  um  movimento  circular  ininterrupto. O conhecimento não se interrompe.  28 Conhecemos as  partes o que nos permite conhecer melhor o todo, mas o todo volta a  permitir conhecer melhor as partes.29 Nesse tipo de conhecimento, o  conhecimento  tem  um  ponto  de  partida  quando  se  põe  em  movimento, mas não tem término. Temos que ver na natureza, não  somente  a  biológica  como  a  física,  com  fenômenos  de  auto‐ organização  que  apresentam  problemas  enormes.  Não  insisto  sobre  isso.  Os  trabalhos  de  Pinson,  que  conhecemos  e  considero  muito  notáveis,  dão  origem,  do  ponto  de  vista  organizacional,  a  uma  concepção que podemos chamar de hologramática. O interessante é  que temos dele um exemplo físico que é o holograma produzido pelo  laser; no holograma cada parte contém a informação do todo. Não a  contém,  de qualquer  modo,  no  seu  todo;  mas  a  contém  em  grande  parte,  o  que  faz  que  efetivamente  possamos  romper  a  imagem  do  holograma,  reconstituindo  outros  micro‐todos  fragmentários  e  atenuados. Thom disse: “A velha imagem do homem‐microcosmos,  reflexo do macrocosmos, mantém todo seu valor; quem conheça o  homem conhecerá o universo”. 30  Sem  ir  tão  longe,  é  notável  constatar  que  na  organização  biológica  dos  seres  multicelulares  cada  célula  contém  a  informação  do  todo.  Contém  potencialmente  o  todo.  E  nesse  sentido  é  um  modo   

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O produto é ao mesmo  tempo o produtor; o que  supõe uma ruptura total  com nossa lógica das  máquinas artificiais na qual  as máquinas produzem  produtos que lhes são  exteriores. Ver a nossa  sociedade à imagem dessas  máquinas é esquecer que  essas máquinas artificiais  estão no interior de uma  sociedade que se  autoproduz ela mesma.

Qual é nosso lugar, nós  observadores‐ conceituadores, em um  sistema do qual fazemos  parte?  Sem dúvida, em física, se  pode prescindir da noção  de sujeito, na condição de  precisar bem que toda  nossa visão do mundo  físico se faz mediante a  intermediação de  representações, de  conceitos ou de sistemas  de idéias, quer dizer, de  fenômenos próprios do  espírito humano.  Mas podemos prescindir da  idéia de observador‐sujeito  em um mundo social  constituído por interações  entre sujeitos?


A epistemologia da complexidade  hologramático  de  organização.  Na  linguagem,  o  discurso  toma  sentido  em  relação  à  palavra,  mas  a  palavra  só  fixa  seu  sentido  em  relação aos discursos nos quais se encontra encadeada. Aqui também  há uma ruptura com toda visão simplificante na relação parte‐todo;  faz‐nos  falta  ver  como  o  todo  está  presente  nas  partes  e  as  partes  presentes  no  todo.  Por  exemplo,  nas  sociedades  arcaicas,  nas  pequenas  sociedades  de  caçadores‐coletores,  nas  sociedades  que  chamamos  “primitivas”,  a  cultura  estava  entranhada  em  cada  indivíduo.  Havia  nelas  alguns  que  possuíam  a  totalidade  da  cultura,  esses  eram  os  sábios,  eram  os  anciões;  mas  os  outros  membros  da  sociedade  tinham  em  seu  espírito  o  conhecimento  de  saberes,  normas, regras fundamentais.  Hoje as sociedades nas sociedades nações, o Estado conserva nele as  Normas  e  as  Leis,  e  a  Universidade  contém  o  saber  coletivo.  Não  obstante  passamos  muitos  anos  na  família  primeiro,  e  a  seguir,  sobretudo  na  escola,  a  adquirir  a  cultura  do  todo;  assim  cada  indivíduo porta praticamente, de um modo  vago, inacabado, toda a  sociedade em si, toda a sua sociedade. 

Por outra parte, o  pensamento simplificante  se fundou sobre a  disjunção absoluta entre o  objeto e o sujeito que o  percebe e concebe.   Nós devemos apresentar,  pelo contrário, o princípio  de relação entre o  observador conceituador e  o objeto observado,  concebido. 

Os problemas de organização social só podem ser compreendidos a  partir  desse  nível  complexo  da  relação  parte‐todo.  Aqui  intervém  a  idéia  de  recursão  organizacional  que,  a  meu  ver,  é  absolutamente  crucial para conceber a complexidade da relação entre partes e todo.  As  interações  entre  individualidades  autônomas,  como  nas  sociedades animais ou inclusive nas células, dado que as células têm  cada uma sua autonomia, produzem um todo que retro atua sobre as  partes  para  produzi‐las.31  Dito  de  outro  modo,  as  interações  entre  indivíduos fazem a sociedade; de fato, a sociedade não teria nem um  grama de existência sem os indivíduos viventes; se uma bomba muito  limpa,  como  a  bomba  de  nêutrons,  aniquilasse  toda  a  França,  permaneceriam  todos  os  monumentos:  o  Eliseu,  a  Câmara  dos  Deputados,  o  Palácio  da  Justiça,  os  Arquivos,  a  Educação  Nacional,  etc.;  mas  não  haveria  sociedade,  porque  evidentemente,  os  indivíduos produzem a sociedade. Não obstante, a sociedade mesma  produz  os  indivíduos  ou,  ao  menos,  consuma  a  humanidade  deles  ministrando a eles a educação, a cultura, a linguagem. Sem a cultura  seríamos rebaixados ao mais baixo nível dos primatas. 

E é um convite ao  pensamento rotativo, da  parte ao todo e do todo à  parte. 

Dito de outro modo são as interações entre indivíduos que produzem  a sociedade; mas é a sociedade que produz o indivíduo. Eis aqui um  processo  de  recursividade  organizacional;  o  recursivo  se  refere  a  processos nos quais os produtos e os efeitos são necessários para sua  própria produção. O produto é ao mesmo tempo o produtor32; o que  supõe uma ruptura total com nossa lógica das máquinas artificiais na  qual as máquinas produzem produtos que lhes são exteriores. Ver a  nossa  sociedade  à  imagem  dessas  máquinas  é  esquecer  que  essas  máquinas  artificiais  estão  no  interior  de  uma  sociedade  que  se  autoproduz ela mesma.   

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A epistemologia da complexidade  7.  Separação Sujeito e Objeto

 pensamento simplificante foi fundado sobre a disjunção entre o  objeto e o meio ambiente. Compreendia‐se o objeto isolando‐o  do seu meio ambiente; era tanto mais necessário isolá‐lo como  era  necessário  extraí‐lo  do  meio  ambiente  para  colocá‐lo  em  um  novo  meio  ambiente  artificial  que  controlava,  que  era  o  meio  da  experiência,  da  ciência  experimental.  Efetivamente,  graças  à  experiência,  podia‐se  variar  as  condições  do  comportamento  do  objeto,  e,  pelo  mesmo,  conhecê‐lo  melhor.  A  experimentação  fez  progredir  consideravelmente  nosso  conhecimento.  Mas  há  outro  conhecimento que só pode progredir concebendo as interações com  o  meio  ambiente.  Este  problema  se  encontra  na  física,  onde  as  grandes  leis  são  leis  de  interação.  Encontra‐se  também  na  biologia,  onde o ser vivente é um sistema ao mesmo tempo fechado e aberto  inseparável  do  seu  meio  ambiente  do  qual  tem  necessidade  para  alimentar‐se,  informar‐se,  desenvolver‐se.  Faz‐nos  falta,  pois,  não  desunir, mas distinguir os seres de seu meio ambiente.33  Por  outra  parte,  o  pensamento  simplificante  se  fundou  sobre  a  disjunção  absoluta  entre  o  objeto  e  o  sujeito  que  o  percebe  e  concebe.  Nós  devemos  apresentar,  pelo  contrário,  o  princípio  de  relação  entre  o  observador  conceituador  e  o  objeto  observado,  concebido.   Mostramos que o conhecimento físico é inseparável da introdução de  um  dispositivo  de  observação,  de  experimentação  (o  aparelho,  supressão,  grade)  e  por  isso  inclui  a  presença  do  observador‐ conceituador em toda a observação ou experimentação. Mesmo que  não  houvesse  até  o  presente  nenhuma  virtude  heurística  no  conhecimento  astronômico,  é  interessante  apontar  aqui  o  princípio  antrópico extraído por Brandon Carter: “A presença de observadores  no  universo  impõe  determinações,  não  somente  sobre  a  idade  do  universo  a  partir  da  qual  os  observadores  podem  aparecer,  mas  também sobre o conjunto de suas características e dos parâmetros  fundamentais da física que se depreende aí”. Acresce que a versão  débil do princípio antrópico estipula que a presença de observadores  no  universo  impõe  determinações  sobre  a  posição  temporal  destes  últimos; a versão forte do princípio antrópico supõe que a presença  de  observadores  no  universo  impõe  determinações  não  somente  sobre  sua  posição  temporal,  mas  também  sobre  o  conjunto  de  propriedades do universo.   Quer dizer, o universo pertence a uma classe de modelos de universo  capazes de abrigar seres viventes e de ser estudado por eles. O que é  uma  coisa  extraordinária,  já  que  todo  nosso  conhecimento  do  cosmos,  efetivamente,  faz  de  nós  seres  cada  vez  mais  periféricos  e  marginais.  Não  somente  estamos  em  uma  estrela  de  periferia,  de   

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Dito de outro modo, estas  categorias do ser e da  existência que parecem  puramente metafísicas são  reencontradas em nosso  universo físico; mas o ser  não é uma substância; o  ser só pode existir a partir  do momento em que há  auto‐organização.   Se podemos nos referir no  que segue a princípios  científicos que permitem  conceber o ser, a  existência, o indivíduo, o  sujeito, é certo que o  status, o problema das  ciências sociais e humanas  se modifica.


A epistemologia da complexidade  uma galáxia periférica, mas, além disso, somos seres viventes, quiçá  os  únicos  seres  viventes  do  universo  –  para  abreviar,  não  temos  prova  de  que  haja  outros  nele  –  e  desde  o  ponto  de  vista  da  vida,  somos  o  único  ramo  onde  apareceu  essa  forma  de  consciência  reflexiva  que  dispõe  de  linguagem  e  que  pode  verificar  cientificamente seus conhecimentos.34  O universo nos marginaliza totalmente.  Certamente,  o  princípio  antrópico  em  absoluto  suprime  essa  marginalidade;  mas  diz  que  é  necessário,  de  uma  determinada  maneira, que o universo seja capaz, inclusive de um modo altamente  improvável, de fazer seres vivos e seres conscientes. Na versão mais  fraca, o exemplo que dá é bastante interessante; diz: “Nosso sol tem  cinco bilhões de anos; é um adulto; tem assegurado, salvo erro, 10  bilhões de anos. A vida começou talvez há quatro bilhões de anos,  quer  dizer,  praticamente  no  princípio  do  sistema  solar.  Nós,  seres  humanos, surgimos no meio da idade solar”. Há aqui algo que não é  puramente arbitrário, ao azar. Supondo que a vida tivesse começado  mais  tarde,  não  haveria  tido,  sem  dúvida,  condições  de  desenvolvimento  possível;  mas,  se  a  vida  tivesse  começado  mais  tarde, a consciência humana haveria aparecido no momento em que  o  sol  tivesse  começado  a  estinguir‐se,  quer  dizer,  no  momento  em  que  quiçá  não  haveria  sido  mais  do  que  um  relâmpago  antes  do  crepúsculo  final.    Dito  de  outro  modo,  tem  certo  interesse  intentar  pensar  nosso  sistema  em  relação  a  nós  mesmos  e  nós  mesmos  em  relação ao nosso sistema.  E é um convite ao pensamento rotativo, da parte ao todo e do todo à  parte.  Já  a  reintrodução  do  observador  na  observação  havia  sido  efetuada na micro‐física (Bohr, Heisenberg) e a teoria da informação  (Brillouin).  Ainda  de  modo  mais  profundo  o  problema  se  apresenta  em  sociologia  e  em  antropologia:  Qual  é  nosso  lugar,  nós  observadores‐conceituadores,  em  um  sistema  do  qual  fazemos  parte?  Atrás  da  noção  de  observador  se  esconde  a  noção,  ainda  que  desonrosa, de sujeito.35 Sem dúvida, em física, se pode prescindir da  noção de sujeito, na condição de precisar bem que toda nossa visão  do mundo físico se faz mediante a intermediação de representações,  de  conceitos  ou  de  sistemas  de  idéias,  quer  dizer,  de  fenômenos  próprios do espírito humano.36  Mas  podemos  prescindir  da  idéia  de  observador‐sujeito  em  um  mundo social constituído por interações entre sujeitos? 

 

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A epistemologia da complexidade 

8. a 11. Ser e existência; formalização e quantificação

á também uma outra questão que me parece importante, é que,  no conhecimento simplificante, as noções de ser e de existência  estavam  totalmente  eliminadas  pela  formalização  e  pela  quantificação.37 Pois bem, creio que foram reintroduzidas a partir da  idéia  de  autoprodução  que,  ela  mesma,  é  inseparável  da  idéia  de  recursão organizacional.   Tomemos um processo que se autoproduz e que assim produz o ser;  cria o “si mesmo”.   O processo  autoprodutor da vida produz seres viventes. Esses seres  são, ao mesmo tempo em que sistemas abertos, dependentes do seu  meio ambiente, submetidos a aleatoriedades, existentes. A categoria  de  existência  não  é  uma  categoria  puramente  metafísica;  somos  “seres‐aí”, como diz Heidegger, submetidos efetivamente à iminência  ao mesmo tempo totalmente certa e totalmente incerta da morte.   Dito  de  outro  modo,  estas  categorias  do  ser  e  da  existência  que  parecem  puramente  metafísicas  são  reencontradas  em  nosso  universo físico; mas o ser não é uma substância; o ser só pode existir  a partir do momento em que há auto‐organização.   O sol é um ser que se auto‐organiza evidentemente a partir, não de  nada, mas a partir de uma nuvem cósmica; e quando o  sol explodir  perderá seu ser...  Se  podemos  nos  referir  no  que  segue  a  princípios  científicos  que  permitem conceber o ser, a existência, o indivíduo, o sujeito, é certo  que  o  status,  o  problema  das  ciências  sociais  e  humanas  se  modifica.38  É  muito  importante,  já  que  o  drama,  a  tragédia  das  ciências  humanas  e  das  ciências  sociais  especialmente,  é  que  querendo  fundar  sua  cientificidade  sobre  as  ciências  naturais,  encontraram princípios simplificadores e mutilantes com os quais era  impossível  conceber  o  ser,  impossível  conceber  a  existência,  impossível  conceber  a  autonomia,  impossível  conceber  o  sujeito,  impossível conceber a responsabilidade.39 

 

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O verdadeiro problema é  que é a mesma lógica que  nos conduz a momentos  aporéticos os quais podem  ser superados. O que  revela a contradição, se ela  é insuperável, é a presença  de um nível profundo da  realidade que deixa de  obedecer à lógica clássica  aristotélica.  Assim, no âmago do  problema da  complexidade, aloja‐se um  problema de princípio de  pensamento ou paradigma,  e no coração do paradigma  da complexidade se  apresenta o problema da  insuficiência e da  necessidade da lógica, do  enfrentamento “dialético”  ou dialógico da  contradição. 


A epistemologia da complexidade 

12. e 13 Confiança absoluta na lógica. 

gora  chego  ao  último  ponto,  que  é  o  mais  dramático.  O  conhecimento  simplificante  se  fundamenta  sobre  a  confiança  absoluta  na  lógica  para  estabelecer  a  verdade  intrínseca  das  teorias,  uma  vez  que  estas  estão  fundamentadas  empiricamente  segundo os procedimentos de verificação.   Pois bem, descobrimos, com o teorema de Gödel, a problemática da  limitação  da  lógica.  O  teorema  de  Gödel  demonstrou  os  limites  da  demonstração  lógica  no  seio  dos  sistemas  formalizados  complexos;  estes comportam ao menos uma proposição que é indecidível, o que  faz que o conjunto do sistema seja indecidível.   O  que  é  interessante  nessa  idéia,  é  que  ela  pode  ser  generalizada:  todo sistema conceitual suficientemente rico inclui necessariamente  questões  às  quais  não  pode  responder  desde  ele  próprio,  mas  às  quais só pode responder referindo‐se ao exterior desse sistema.  Como diz expressamente Gödel: “O sistema só pode encontrar seus  instrumentos  de  verificação  em  um  sistema  mais  rico  ou  metasistema”.   Tarski disse isso também claramente para os sistemas semânticos. Os  metasistemas, embora mais ricos, comportam também uma brecha e  assim consecutivamente; a aventura do conhecimento não pode ser  fechada; a limitação lógica nos faz abandonar o sonho de uma ciência  absoluta e absolutamente certa, mas é necessário dizer que não era  só  um  sonho.  Era  o  sonho  finalmente  dos  anos  20,  o  sonho  do  matemático Hilbert que acreditava efetivamente que se podia provar  de modo absoluto pela matemática, matematicamente, logicamente,  formalmente,  a  verdade  de  uma  teoria.  Era  o  sonho  do  positivismo  lógico que acreditou fundar com certeza a teoria científica. Pois bem,  Popper, depois Kuhn, cada um a seu modo, mostraram que o próprio  de uma teoria científica é ser biodegradável. Há aqui uma brecha na  lógica  à  qual  se  adiciona  outra  brecha,  que  é  um  problema  da  contradição. É um problema muito velho, já que o contraditório ou o  antagonismo está presente em Heráclito, Hegel, Marx.  A  questão  está  em  saber  se  o  aparecimento  de  uma  contradição  é  sinal  de  erro,  quer  dizer,  se  é  necessário  abandonar  o  caminho  que  conduziu  a  ela  ou  se  pelo  contrário,  nos  revela  níveis  profundos  ou  desconhecidos  da  realidade.40  Existem  contradições  absurdas,  às  quais nos conduz a observação, como a partícula que se apresenta ao  observador  tanto  como  onda  quanto  como  corpúsculo;  esta  contradição  não  é  uma  contradição  absurda;  ela  se  fundamenta  sobre  um  desenvolvimento  lógico;  partindo  de  determinadas  A epistemologia da complexidade              

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A epistemologia da complexidade  observações,  se  chega  à  conclusão  de  que  o  observado  é  algo  imaterial, uma onda; mas outras observações, não menos verificadas,  nos  mostram  que,  em  outras  condições,  o  fenômeno  se  comporta  como  uma  entidade  discreta,  um  corpúsculo.  É  a  lógica  que  nos  conduz a essa contradição. O verdadeiro problema é que é a mesma  lógica  que  nos  conduz  a  momentos  aporéticos  os  quais  podem  ser  superados.  O  que  revela  a  contradição,  se  ela  é  insuperável,  é  a  presença de um nível profundo da realidade que deixa de obedecer à  lógica clássica aristotélica.  Diria,  em  duas  palavras,  que  o  trabalho  do  pensamento,  quando  é  criador, é realizar saltos, transgressões lógicas, mas que o trabalho da  verificação  é  retornar  à  lógica  clássica,  ao  nó  dedutivo,  o  qual,  efetivamente, só opera verificações segmentárias. Podemos formular  proposições  aparentemente  contraditórias,  como  por  exemplo:  eu  sou  outro.  Eu  “sou”  outro,  como  dizia  Rimbaud,  ou  essa  formosa  frase  de  Tarde,  para  citar  um  precursor  da  sociologia,  que  reza:  “O  mais  admirável  de  todas  as  sociedades,  essa  hierarquia  da  consciência,  essa  feudalidade  de  almas  vassalas  da  qual  nossa  pessoa  é  a  de  cima”,  quer  dizer,  essa  multiplicidade  de  personalidades  no  eu;  na  identidade  existe  um  tecido  de  noções  extremamente diversas, existe a heterogeneidade no idêntico. Tudo  isto é muito difícil de conceber, mas é assim. 

A primeira instância é o  espírito.   Que é o espírito?   O espírito é a atividade de  algo, de um órgão  chamado cérebro.  A complexidade consiste  em não reduzir nem o  espírito ao cérebro nem o  cérebro ao espírito. O  cérebro, evidentemente, é  um órgão que podemos  analisar, estudar, mas que  nomeamos do mesmo  modo pela atividade do  espírito. 

Assim,  no  âmago  do  problema  da  complexidade,  aloja‐se  um  problema  de  princípio  de  pensamento  ou  paradigma,  e  no  coração  do  paradigma  da  complexidade  se  apresenta  o  problema  da  insuficiência  e  da  necessidade  da  lógica,  do  enfrentamento  “dialético” ou dialógico da contradição. 

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A epistemologia da complexidade   

A epistemologia complexa

 segundo  problema  é  o  da  epistemologia  complexa  que,  em  última  instância,  é  aproximadamente  de  uma  mesma  natureza  que  o  problema  do  conhecimento  do  conhecimento.  É  uma  continuação  de  questões  do  que  eu  disse,  mas  ultrapassando‐as,  englobando‐as.   Como conceber esse conhecimento do conhecimento?  Podemos  dizer  que  o  problema  do  conhecimento  científico  podia  apresentar‐se em dois níveis.   •

Havia  o  nível  que  podíamos  chamar  de  empírico,  e  o  conhecimento  científico,  graças  às  verificações  mediante  observações e experimentações múltiplas, extrai dados objetivos  e,  sobre  estes  dados  objetivos,  induz  teorias  que,  se  pensava,  refletiam o real.  

Em  um  segundo  nível,  essas  teorias  se  fundamentavam  sobre  a  coerência  lógica  e  assim  fundavam  sua  verdade,  os  sistemas  de  idéias.  

Tínhamos, então, dois tronos, o trono da realidade empírica e o trono  da verdade lógica, desse modo se controlava o conhecimento.   Os princípios da epistemologia complexa são mais complexos: não há  um  trono;  não  há  dois  tronos;  de  modo  algum  há  trono.  Existem  instâncias  que  permitem  controlar  os  conhecimentos;  cada  uma  é  necessária; cada uma é insuficiente.  A primeira instância é o espírito.   Que é o espírito?   O espírito é a atividade de algo, de um órgão chamado cérebro.   A  complexidade  consiste  em  não  reduzir  nem  o  espírito  ao  cérebro  nem  o  cérebro  ao  espírito.  O  cérebro,  evidentemente,  é  um  órgão  que  podemos  analisar,  estudar,  mas  que  nomeamos  do  mesmo  modo pela atividade do espírito.  Dito  de  outro  modo,  temos  algo  que  podemos  chamar  o  espírito‐ cérebro  ligado  e  recursivo  já  que  um  produz  o  outro  de  alguma  maneira.  Mas  de  todas  as  formas,  este  espírito‐cérebro  surgiu  de  uma  evolução  biológica,  via  a  hominização,  até  o  homo  chamado  sapiens.  Portanto,  a  problemática  do  conhecimento  deve  absolutamente  integrar,  cada  vez  que  elas  aparecem,  as  aquisições 

 

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A epistemologia da complexidade  fundamentais da bioantropologia do conhecimento. E quais são essas  aquisições fundamentais?  A  primeira  aquisição  fundamental  é  que  nossa  máquina  cerebral  é  hiper‐complexa.   O cérebro é uno e múltiplo. A menor palavra, a menor percepção, a  menor  representação  põem  em  jogo,  em  ação  e  em  conexão  miríadas  de  neurônios  e  múltiplos  estratos  ou  setores  do  cérebro.  Este  é  bi  hemisférico;  e  seu  funcionamento  favorável  acontece  na  complementaridade  e  no  antagonismo  entre  um  hemisfério  esquerdo  mais  polarizado  sobre  a  abstração  e  a  análise,  e  um  hemisfério  direito  mais  polarizado  sobre  a  apreensão  global  e  o  concreto.   O  cérebro  é  hipercomplexo  igualmente  no  sentido  em  que  é  “triúnico”, segundo a expressão de Mac Lean; tem em si, não como a  Trindade três pessoas em uma, mas três cérebros em um:41  •

o cérebro reptiliano (preservação, agressão);  

o cérebro mamífero (afetividade);  

o neocórtex humano (inteligência lógica e conceitual),  

sem que haja predominância de um sobre o outro. Ao contrário, há  antagonismo  entre  essas  três  instâncias,  e  às  vezes,  amiúde,  é  o  impulso  quem  governa  a  razão.  Mas  também,  nesse  e  por  esse  equilíbrio, surge a imaginação.  O  mais  importante  talvez  na  bioantropologia  do  conhecimento  nos  retorna  às  críticas  kantianas,  em  minha  opinião  iniludíveis;  efetivamente,  descobriu‐se  mediante  novos  meios  de  observação  e  de  experimentação  o  que  Kant  descobriu  mediante  procedimentos  intelectuais  e  reflexivos42.  Nosso  cérebro  está  em  uma  caixa  preta  que é o crânio, não tem comunicação direta com o universo.43 Essa  comunicação se efetua indiretamente via a rede nervosa a partir de  terminais sensoriais. Quê é o que chega à nossa retina, por exemplo?  São estímulos, que na nossa linguagem atual chamamos fótons, que  vão impressionar a retina e essas mensagens vão ser analisadas por  células especializadas, depois transcritas em um código binário o qual  vai chegar ao nosso cérebro aonde, de novo, vão, segundo processos  que  não  conhecemos,  traduzir‐se  em  representação.  É  a  ruína  da  concepção do conhecimento‐reflexo.44  Nossas  visões  do  mundo  são  traduções  do  mundo.  Traduzimos  a  realidade  em  representações,  noções,  idéias,  depois  em  teorias.  Desde  agora  está  experimentalmente  demonstrado  que  não  existe  diferença  intrínseca  alguma  entre  a  alucinação  e  a  percepção.  Podemos efetuar determinados estímulos sobre determinadas zonas  do  cérebro  e  fazer  reviver  impressões,  lembranças  com  uma  força  alucinatória  sentida  como  percepção.    Dito  de  outro  modo,  o  que   

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O cérebro é hipercomplexo  igualmente no sentido em  que é “triúnico”, segundo a  expressão de Mac Lean.  Tem em si, não como a  Trindade três pessoas em  uma, mas três cérebros em  um, o cérebro reptiliano  (preservação, agressão), o  cérebro mamífero  (afetividade), o neocórtex  humano (inteligência lógica  e conceitual), sem que haja  predominância de um  sobre o outro.


A epistemologia da complexidade  diferencia  a  percepção  da  alucinação  é  unicamente  a  intercomunicação  humana.  E  talvez  nem  isso,  pois  há  casos  de  alucinação coletiva. A menos que se admita a realidade da aparição  de  Fátima,  é  certo  que  milhares  de  pessoas,  que  uma  multidão,  podem produzir uma mesma alucinação.  Assim,  do  exame  bioantropológico  do  conhecimento  se  depreende  um  princípio  de  incerteza  fundamental;  existe  sempre  uma  relação  incerta  entre  nosso  espírito  e  o  universo  exterior.45  Só  podemos  traduzir  sua  linguagem  desconhecida  atribuindo‐lhe  e  a  ele  adaptando  nossa  linguagem.  Assim,  chamamos  de  “luz”  ao  que  nos  permite  ver,  e  entendemos  hoje  por  luz  um  fluxo  de  fótons  que  bombardeiam  nossas  retinas.  É  já  a  hora  de  que  a  epistemologia  complexa  reintegre  um  personagem  que  ignorou  totalmente,  quer  dizer,  o  homem  enquanto  ser  bioantropológico  que  tem  um  cérebro.46  Devemos  conceber  que  o  que  permite  o  conhecimento  é  ao mesmo tempo o que o limita. Impomos ao mundo categorias que  nos permitem captar o universo dos fenômenos. Assim, conhecemos  realidades, mas ninguém pode pretender conhecer A Realidade com  “A” e “R”. 

É necessário, pois, ver o  mundo das idéias, não só  como um produto da  sociedade somente ou um  produto do espírito, mas  ver também que o produto  tem, no domínio do  complexo, sempre uma  autonomia relativa. 

Não  há  somente  condições  bioantropológicas  do  conhecimento.47  Existem, correlativamente, condições sócio‐culturais de produção de  todo  conhecimento,  incluído  o  científico.  Estamos  nos  começos  balbuciantes  da  sociologia  do  conhecimento.  Uma  de  suas  enfermidades  infantis  é  reduzir  todo  conhecimento,  incluindo  o  científico, unicamente ao seu enraizamento sócio‐cultural; pois bem,  desgraçadamente, não se pode fazer do conhecimento científico uma  ideologia  do  mesmo  tipo  que  as  ideologias  políticas,  embora  –  e  voltarei sobre isso – toda teoria seja uma ideologia, quer dizer, uma  construção, um sistema de idéias, e ainda que todo sistema de idéias  dependa  por  sua  vez  de  capacidades  próprias  do  cérebro,  de  condições  sócio‐culturais,  da  problemática  da  linguagem.  Nesse  sentido,  uma  teoria  científica  comporta  inevitavelmente  um  caráter  ideológico.  Existem  sempre  postulados  metafísicos  ocultos  embaixo  da atividade teórica (Popper, Holton). 

É já a hora de que a  epistemologia complexa  reintegre um personagem  que ignorou totalmente,  quer dizer, o homem  enquanto ser  bioantropológico que tem  um cérebro. Devemos  conceber que o que  permite o conhecimento é  ao mesmo tempo o que o  limita. Impomos ao mundo  categorias que nos  permitem captar o  universo dos fenômenos.  Assim, conhecemos  realidades, mas ninguém  pode pretender conhecer A  Realidade com “A” e “R”. 

Mas a ciência estabelece um diálogo crítico com a realidade, diálogo  que a distingue de outras atividades cognitivas.48  Por  outro  lado,  a  sociologia  do  conhecimento  está  ainda  pouco  desenvolvida  e  comporta  nela  um  paradoxo  fundamental;  seria  necessário  que  a  sociologia  fosse  mais  potente  que  a  ciência  que  estuda para poder tratá‐la de modo plenamente científico; pois bem,  desgraçadamente a sociologia é cientificamente menos potente que  a  ciência  que  examina.  Isso  quer  dizer  evidentemente  que  é  necessário  desenvolver  a  sociologia  do  conhecimento.  Existem  estudos  interessantes,  mas  muito  limitados,  que  são  estudos  de  sociologia  dos  laboratórios;  afirmam  eles  que  um  laboratório  é  um   

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A epistemologia da complexidade  micro‐meio  humano  onde  fervem  ambições,  ciúmes,  rivalidades,  modas...  Duvidava‐se  um  pouco  disso.  É  verdadeiro  que isto  imerge  novamente a atividade científica na vida social e cultural; mas não se  trata  somente  disso.  Há  muito  mais  que  fazer  do  ponto  de  vista  da  sociologia da cultura, da sociologia da intelligentsia (Mannheim). 49Há  todo um domínio extremamente fecundo por prospectar. A este nível  é  preciso  desenvolver  uma  sócio‐história  do  conhecimento,  incluída  nela a história do conhecimento científico. Acabamos de ver que toda  teoria  cognitiva,  incluída  a  científica,  é  produzida  pelo  espírito  humano e por uma realidade sócio‐cultural. Isso não basta.  É  necessário  também  considerar  os  sistemas  de  idéias  como  realidade  de  um  tipo  particular,  dotadas  de  uma  determinada  autonomia “objetiva” em relação aos espíritos que as nutrem e delas  se nutrem. É necessário, pois, ver o mundo das idéias, não só como  um  produto  da  sociedade  somente  ou  um  produto  do  espírito,  mas  ver  também  que  o  produto  tem,  no  domínio  do  complexo,  sempre  uma  autonomia  relativa.50  É  o  famoso  problema  da  superestrutura  ideológica  que  atormentou  gerações  de  marxistas  porque,  evidentemente,  o  marxismo  sumário  e  fechado,  fazia  da  superestrutura  um  puro  produto  das  infra‐estruturas,  mas  o  marxismo complexo e dialético, começando por Marx, percebia que  uma  ideologia  retro  atuava,  evidentemente,  e  jogava  seu  papel  no  processo histórico. É necessário ir ainda mais longe. Marx creu voltar  a  colocar  a  dialética  de  pé  subordinando  o  papel  das  idéias.  Mas  a  dialética não tem cabeça nem pés. É rotativa. 51  A  partir  do  momento  em  que  se  toma  a  sério  a  idéia  da  recursão  organizacional,  os  produtos  são  necessários  para  a  produção  dos  processos.52   As  sociedades  humanas,  as  sociedades  arcaicas,  têm  mitos  funcionais, mitos comunitários, mitos sobre ancestrais comuns, mitos  que  lhes  explicam  sua  situação  no  mundo.  Pois  bem,  essas  sociedades só podem constituir‐se como sociedades humanas se têm  esse  ingrediente  mitológico;  o  ingrediente  mitológico  é  tão  necessário como o ingrediente material. Pode‐se dizer: não, claro que  temos  primeiro  a  necessidade  de  comer  e  depois  ...os  mitos,  sim,  mas não tanto! O mito mantém a comunidade, a identidade comum  que  é  um  vínculo  indispensável  para  as  sociedades  humanas.  Formam parte de um conjunto no qual cada momento do processo é  capital para a produção do todo.53  Dito de outro modo, quero falar do grau de autonomia das idéias e  tomarei  dois  exemplos  extremos;  um  exemplo  que  sempre  me  impressionou resulta evidentemente de todas as religiões. Os deuses  que são criados por interações entre os espíritos de uma comunidade  de  crentes  têm  uma  existência  plenamente  real  e  plenamente  objetiva;  eles  não  têm  certamente  a  mesma  objetividade  de  uma   

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Os problemas  fundamentais da  organização dos sistemas  de idéias não resultam  somente da lógica, existe  também o que chamo de  paradigmatología. Esta  significa que os sistemas de  idéias obedecem a alguns  princípios fundamentais  que são princípios de  associação ou de exclusão  que os controlam e  comandam. 


A epistemologia da complexidade  mesa,  do  que  uma  casa;  mas  têm  uma  objetividade  real  na  medida  em  que  se  crê  neles:  são  seres  que  vivem  como  os  crentes  e  estes  operam  com  seus  deuses  um  comércio,  um  intercâmbio  de  amor  pago  com  amor.  Demandam  dos  deuses  ajuda  ou  proteção  e,  em  contrapartida,  fazem  a  eles  oferendas.  Melhor  ainda:  há  muitos  cultos nos quais os deuses aparecem, e o que sempre me fascinou na  macumba  é  esse  momento  em  que  chegam  os  deuses,  os  espíritos,  que se apoderam de tal ou qual pessoa, que bruscamente falam pela  boca  do  deus,  com  a  voz  do  deus,  isto  é,  a  existência  real  desses  deuses é incontestável.   Mas esses deuses não existiriam sem os humanos que os protegem:  eis  aqui  a  restrição  que  é  necessária  fazer  para  sua  existência!  No  limite,  essa  mesa  pode  ainda  existir  sem  a  nossa  vida,  nosso  aniquilamento, ainda que não tivesse já a função de mesa; isso seria  o  que  continuaria  sua  existência.  Mas  os  deuses  morreriam  todos  desde que deixássemos de existir.  Então, eis aí seu tipo de existência!   Do mesmo modo, diria que as ideologias existem com muita força. A  idéia  trivial  de  que  podemos  morrer  por  uma  idéia  é  muito  verdadeira!  Claro  está,  mantemos  uma  relação  muito  equivocada  com  a  ideologia.  Uma  ideologia,  segundo  a  visão  marxista,  é  um  instrumento  que  mascara  interesses  particulares  sob  interesses  universais.    Tudo isso é verdade; mas a ideologia não é apenas um instrumento;  ela nos instrumentaliza. Somos possuídos por ela. Somos capazes de  atuar  por  ela.  Assim,  existe  o  problema  da  autonomia  relativa  do  mundo das idéias e o problema da organização do mundo das idéias. 

O mito mantém a  comunidade, a identidade  comum que é um vínculo  indispensável para as  sociedades humanas.  Formam parte de um  conjunto no qual cada  momento do processo é  capital para a produção do  todo. 

Existe  a  necessidade  de  elaborar  uma  ciência  nova  que  será  indispensável  para  o  conhecimento  do  conhecimento.  Essa  ciência  seria  uma  noologia,  ciência  das  coisas  do  espírito,  das  entidades  mitológicas e dos sistemas de idéias, entendidos em sua organização  e seu modo de ser específico.  Os  problemas  fundamentais  da  organização  dos  sistemas  de  idéias  não  resultam  somente  da  lógica,  existe  também  o  que  chamo  de  paradigmatología. Esta significa que os sistemas de idéias obedecem  a alguns princípios fundamentais que são princípios de associação ou  de exclusão que os controlam e comandam.54  Assim, por exemplo, o que podemos chamar o grande paradigma do  Ocidente,  bem  formulado  por  Descartes,  já  citado,  que  consiste  na  disjunção  entre  objeto  e  sujeito,  a  ciência  e  a  filosofia;  é  um  paradigma  que  não  somente  controla  a  ciência,  mas  controla  também  a  filosofia.  Os  filósofos  admitem  a  disjunção  com  o  conhecimento científico tanto quanto os cientistas a disjunção com a  filosofia.  Eis  aqui,  pois,  um  paradigma  que  controla  tipos  de   

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A epistemologia da complexidade  pensamento  totalmente  diferentes,  inclusive  antagonistas,  mas  que  são igualmente obedecidos. Pois bem, tomemos a natureza humana  como  exemplo  do  paradigma.  Ou  bem  o  paradigma  faz  que  essas  duas  noções,  as  de  natureza  e  homem,  estejam  associadas,55  como  ocorre  de  fato  em  Rousseau,  quer  dizer,  que  só  podemos  compreender  o  humano  em  associação  com  a  natureza;  ou  bem  essas duas noções estão disjuntas, quer dizer, que somente podemos  compreender o humano por exclusão da natureza; este é o ponto de  vista da antropologia cultural ainda existente.  Um  paradigma  complexo,  pelo  contrário,  pode  compreender  o  humano  ao  mesmo  tempo  em  associação  e  em  oposição  com  a  natureza.  Foi  Kuhn  quem  colocou  em  relevo  fortemente  a  importância crucial dos paradigmas, ainda que haja definido mal essa  noção.  Ele  a  utiliza  no  sentido  vulgar  anglo  saxão  de  “princípio  fundamental”. Eu a emprego em um sentido intermediário entre seu  sentido  lingüístico  e  seu  sentido  kuhniano,  quer  dizer  que  esse  princípio  fundamental  se  define  pelo  tipo  de  relações  que  existem  entre  alguns  conceitos  mestres  extremamente  limitados,  mas  cujo  tipo  de  relações  controla  todo  o  conjunto  dos  discursos  incluindo  a  lógica dos discursos.   Quando  digo  lógica,  é  necessário  ver  que  de  fato  cremos  na  lógica  aristotélica;  mas  nesse  tipo  de  discurso  que  é  o  discurso  do  nosso  conhecimento  ocidental,  é  a  lógica  aristotélica  a  que  nos  faz  obedecer,  sem  que  o  saibamos,  a  esse  paradigma  de  disjunção,  de  simplificação  e  de  legislação  soberana;  e  o  mundo  do  paradigma  é  evidentemente algo muito importante que merece ser estudado em  si mesmo, mas com a condição de abri‐lo sempre sobre um conjunto  das condições sócio‐culturais e de introduzi‐lo no coração mesmo da  idéia de cultura.   O  paradigma  que  produz  uma  cultura  é  ao  mesmo  tempo  o  paradigma que reproduz essa cultura.   Hoje,  o  princípio  de  disjunção,  de  distinção,  de  associação,  de  oposição que governa a ciência não somente controla as teorias, mas  ao  mesmo  tempo  comanda  a  organização  tecno‐burocrática  da  sociedade. 56  Essa  divisão,  essa  hiperdivisão  do  trabalho  científico  aparece  de  um  lado,  evidentemente,  como  uma  espécie  de  necessidade  de  desenvolvimento  intrínseco,  porque  desde  que  uma  organização  complexa  se  desenvolve,  o  trabalho  se  especializa  enquanto  que  as  tarefas  se  multiplicam  para  chegar  a  uma  riqueza  mais  complexa.  Mas esse processo, não somente é paralelo, mas também está ligado  ao  processo  de  heterogeneização  de  tarefas,  ao  processo  da  não‐ comunicação,  do  parcelamento,  da  fragmentação  das  atividades  humanas  em  nossa  sociedade  industrial;  resulta  evidente  que  há   

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Existe a necessidade de  elaborar uma ciência nova  que será indispensável  para o conhecimento do  conhecimento. Essa ciência  seria uma noologia, ciência  das coisas do espírito, das  entidades mitológicas e  dos sistemas de idéias,  entendidos em sua  organização e seu modo de  ser específico. 


A epistemologia da complexidade  nisso uma relação muito profunda entre o modo como organizamos  o conhecimento e o modo como a sociedade se organiza.   A  ausência  de  complexidade  nas  teorias  científicas,  políticas  e  mitológicas  está  ela  mesma  ligada  a  uma  determinada  carência  de  complexidade  na  própria  organização  social,  quer  dizer,  que  o  problema  do  paradigmático  é  extremamente  profundo  porque  remete  a  algo  muito  profundo  na  organização  social,  que  não  é  evidente em princípio; remete a algo muito profundo sem dúvida, na  organização do espírito e do mundo noológico.     

 

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A epistemologia da complexidade   

À guisa de conclusão  

oncluo:  O  que  seria  uma  epistemologia  complexa?  Não  é  a  existência  de  uma  instância  soberana  que  seria  o  Senhor  epistemólogo  controlando  de  modo  irredutível  e  irremediável  todo  o  saber;  não  há  trono  soberano.  Há  uma  pluralidade  de  instâncias.  Cada  uma  dessas  instâncias  é  decisiva;  cada  uma  é  insuficiente.  Cada  uma  dessas  instâncias  comporta  seu  princípio  de  incerteza.  Falei  do  princípio  da  incerteza.  Falei  do  princípio  da  incerteza  na  bio‐antropologia  do  conhecimento.  É  necessário  também  falar  do  princípio  da  incerteza  da  sociologia  do  conhecimento; uma sociedade produz uma ideologia, uma idéia; mas  isso não é sinal de que ela seja verdadeira ou falsa. Por exemplo, na  época  em  que  Laurent  Casanova  (é  uma  recordação  pessoal)  estigmatizava  o  existencialismo  sartreano  dizendo  dele:  “É  a  expressão da pequena burguesia espremida entre o proletariado e a  burguesia”, o desafortunado Sartre dizia: “Sim, pode ser; é verdade;  mas  isso  não  quer  dizer,  entretanto,  que  o  existencialismo  seja  verdadeiro ou falso”. Do mesmo modo, as conclusões “sociológicas”  de  Lucien  Glodmann  sobre  Pascal,  inclusive  se  elas  estiverem  fundamentadas, não afetam aos Pensées.  Lucien  Glodmann  dizia:  “A  ideologia  de  Pascal  e  de  Port‐Royal  é  a  ideologia  da  nobreza  de  toga  espremida  entre  a  monarquia  e  a  burguesia  ascendente”.  Talvez,  mas  será  que  a  angústia  de  Pascal  diante  dos  dois  infinitos  pode  reduzir‐se  ao  drama  da  nobreza  de  toga que está para perder sua toga? Não está tão claro.  Dito de outro modo: inclusive as condições mais singulares, as mais  localizadas, as mais particulares, as mais históricas da emergência de  uma idéia, de uma teoria, não são prova de sua verdade – isso está  claro  –  nem  tampouco  sua  falsidade.  Dito  de  outro  modo,  há  um  princípio  de  incerteza  no  fundo  da  verdade.  É  o  problema  da  epistemologia; é o problema da dialética; é o problema da verdade.  Mas também aqui a verdade se escapa; e também aqui o dia em que  se  houver  constituído  uma  faculdade  de  noologia,  com  seu  departamento de paradigmatologia, esse não será o lugar central de  onde se poderia promulgar a verdade.  Há  um  princípio  de  incerteza  e,  como  dizia  há  instantes,  há  um  princípio de incerteza no coração mesmo da lógica. Não há incerteza  no  silogismo;  mas  no  momento  da  montagem  de  um  sistema  de  idéias,  há  um  princípio  de  incerteza.  Assim,  há  um  princípio  de  incerteza no exame de cada instância constitutiva do conhecimento.  E  o  problema  da  epistemologia  é  fazer  comunicar  essas  instâncias  separadas; é de alguma forma fazer o circuito. Não quero dizer que   

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Tudo isso é verdade; mas a  ideologia não é apenas um  instrumento; ela nos  instrumentaliza. Somos  possuídos por ela. Somos  capazes de atuar por ela.  Assim, existe o problema  da autonomia relativa do  mundo das idéias e o  problema da organização  do mundo das idéias. 


A epistemologia da complexidade  cada um deva passar o seu tempo lendo, informando‐se sobre todos  os domínios. Não! Mas o que digo é que se apresenta o problema do  conhecimento,  e,  portanto  o  problema  do  conhecimento  do  conhecimento,  estamos  obrigados  a  conceber  os  problemas  que  acabo  de  enumerar.  São  inelutáveis;  e  não  porque  seja  muito  difícil  informar‐se  conhecer,  verificar,  etc.,  seja  necessário  eliminar  esses  problemas.  É  necessário,  com  efeito,  dar‐se  conta  de  que  é  muito  difícil  e  que  não  é  uma  tarefa  individual;  ´[e  uma  tarefa  que  necessitaria o encontro, o intercâmbio, entre todos os investigadores  e  universitários  que  trabalham  em  domínios  disjuntos,  e  que  se  encerram, para sua desgraça, como ostras quando são solicitados. Ao  mesmo  tempo,  devemos  saber  que  não  há  mais  privilégios,  mais  tronos,  mais  soberanias  epistemológicas;  os  resultados  das  ciências  do cérebro, do espírito, das ciências sociais, das histórias das idéias,  etc.,  devem  retro  atuar  sobre  o  estudo  dos  princípios  que  determinam  tais  resultados.  O  problema  não  é  que  cada  um  perca  sua competência. É que se desenvolva bastante para articulá‐la com  outras  competências  as  quais,  encadeadas,  formariam  um  anel  completo  e  dinâmico,  um  anel  do  conhecimento  do  conhecimento.  Esta  é  a  problemática  da  epistemologia  complexa  e  não  a  chave  mestra da complexidade, da qual o próprio, desgraçadamente, é que  não facilita chave mestra alguma. 

 

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A epistemologia da complexidade   

Edgar Morin   

 

 

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A epistemologia da complexidade  ________________________________________  Nota: Este texto corresponde às páginas 43‐77 de L'intelligence de la  complexité,  editado  por  L'Harmattan,  París,  1999.  Agradecemos  a  Edgar  Morin  sua  amável  autorização  para  traduzi‐lo  e  publicá‐lo.  Tradução para o espanhol de José Luis Solana Ruiz.   ________________________________________  Edgar Morin. Diretor honorário de pesquisas do CNRS. París, França.  ________________________________________ 

Resumo   A epistemologia da complexidade  As  teorias  da  complexidade  às  quais  estão  relacionadas  não  poucas  disciplinas,  tanto  nas  ciências  físicas  como  nas  biológicas,  nas  matemáticas  ou  nas  ciências  sócio‐culturais,  estão  apontando  para  um  cenário  no  qual  se  constrói  uma  nova  epistemologia:  a  epistemologia da complexidade. Como entendê‐la?  

Abstract   Epistemology of complexity   The  theories  of  complexity  developed  in  many  disciplines  ‐like  physics,  biological  sciences,  mathematics  or  socio‐cultural  sciences,  are  aiming  at  a  background  in  which  to  construct  a  new  epistemology:  the  epistemology  of  complexity.  How  to  understand  it?  ________________________________________  epistemologia | complexidade | paradigma | noología | Edgar Morin  epistemology | complexity | paradigme | noology | Edgar Morin  2004‐02 

 

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A epistemologia da complexidade 

A epistemologia da complexidade              

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A epistemologia da complexidade  Notas                                                           1

  Há um pensamento clássico cujos princípios são legislar, desunir, reduzir 

2

 OK que o pensamento realize círculos concêntricos na geração de conhecimento, mas para que possa  ser utilizado, em um dado momento depois do seu início, deve haver uma versão do conhecimento,  aquela adotada para uso provisório 

3

 Mas se há uma velha lógica, então há um modo de ser do pensamento que precisa ser enterrado,  substituído por outro. 

4

 (!) John Dewey, Michel Foucault, et alii. Todas as citações de autores pioneiros da complexidade são no  campo da ciência! 

5

 Complexidade organizada será o tipo de ordem a que se refere Ilya Prigogine? 

6

 A opção de ater‐se ao input‐output é sugerida como alternativa possível em decorrência da superação  do limite de computabilidade. 

7

 Menção da física quântica como exemplo de complexidade, em contraposição à opinião de Prigogine,  que coloca a opção de formalização da física quântica entre as formalizações deterministas. 

8

 Epistemologia: conhecimento do conhecimento (formada por cacarterísticas de características dos  modelos. 

9

  Parece‐me uma suposição de que haja universos com características diferentes das que o que vemos  apresenta.   Temos que considerar também o desaparecimento de espécies e não apenas o seu desenvolvimento  complexizante. 

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 Quais ciências humanas, e quando? Não seria o mesmo que dizer que tais produções nessas ciências  ditas ‘humanas’ destoavam da própria razão de ser da criação dessa nova classe de saberes? 

11

 São mecanismos diferentes. A evolução relaciona‐se aos organismos vivos, e a flecha do tempo ao  contexto em que tudo acontece, incluindo a evolução das espécies. Preciso pensar melhor sobre  isso. A flecha do tempo relaciona‐se com as descontinuidades temporais de fenômenos (todos eles)  que evoluem no tempo em séries complexas; em certos trechos tudo se comporta  deterministicamente, e há pontos em que se apresentam descontinuidades. 

12

 ? ... mas não é isso mesmo o que ele dizia?  

13

 A reiteração não é característica do tempo, mas do tipo de ordem (do fenômeno) que evolui no tempo  apresentando séries complexas. 

14

 A ligação das reversibilidades e das irreversibilidades que surgem no contexto é o ponto. A ligação é  feita vendo o que acontece no mundo como eventos separados por histórias, etc. etc. de John  Dewey. Essa visão tem o que mesmo a ver com a evolução? 

15

 Aporética – estudo sistemático das aporias. 

16

Aporia:  1. Rubrica: filosofia.  dificuldade ou dúvida racional decorrente de uma impossibilidade objetiva na obtenção de uma  resposta ou conclusão para uma determinada indagação filosófica [As aporias foram cultivadas pelo  ceticismo pirrônico como demonstração da ausência de qualquer verdade absoluta ou certeza  filosófica definitiva.]  2 

Rubrica: filosofia. 

em Aristóteles (384 a.C.‐322 a.C.), problema lógico, contradição, paradoxo nascido da existência de  raciocínios igualmente coerentes e plausíveis que alcançam conclusões contrárias  3 

Derivação: por extensão de sentido. Estatística: pouco usado. 

situação insolúvel, sem saída  4 

Rubrica: retórica. 

figura pela qual o orador simula uma hesitação a propósito daquilo que pretende dizer   

 

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A epistemologia da complexidade                                                                                                                                   “uma vez que tenhamos inscrito todo o tempo...” a visão do mundo com homem e experiência e  natureza juntos, como séries de eventos separados por histórias, de John Dewey. 

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 Total consistência com a visão de Humberto Maturana sobre o ser vivo, com os dois domínios, o da  dinâmica das interações, e o do suporte físico dado pelos órgãos. 

18

 Exitem analogia e sucessão em vez de caráter e similitude. 

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 Nem toda interação entre o que quer que seja é um evento. Daí a necessidade dos níveis  

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 Claramente, as teorias sobre fenômenos não‐simples exigem um outro tipo de formalização. 

21

 Está sendo desconsiderado, aparentemente, o caráter da outra flecha do tempo, que leve em  consideração algo análogo ao que o átomo de carbono apresentará, depois de criado, ‐ de ser um  átomo que facilmente se liga a muitos outros átomos fazendo parte das cadeias orgânicas – só que  para os átomos de hélio. 

22

 Está falando de um certo tipo de ordem, em vez de desordem, porque está falando de uma desordem  que tem seus princípios, o que evidentemente não é desordem pura. É o que Prigogine explica, em  poucas palavras. 

23

 Princípios organizadores Análise e Síntese. É exterior aos objetos porque não inclui o propósito em  relação ao qual se faz a analogia. Os princípios organizadores limitam‐se ao [É UM], em vez de [E  UM] e [É PARTE DE]. 

24

 Parece‐me ser uma exo‐endo‐exo causalidade. 

25

 O elemento de ligação entre endo e exo causalidade é o propósito, e seus estados, cujas histórias que  os separam permitem fazer a ligação. 

26

 Impossível conhecer as partes sem a visão do todo. Elementar, meu caro Pascal.  

27

 Um movimento de ida e de volta, circular mas com paradas provisórias tidas provisoriamente como  boas. 

28

 É necessária a visão global das operações de obtenção de um ‘algo’. Para ver a relação entre os  elementos. 

29

 A visão global das operações de obtenção de um ‘algo’ mostra claramente essa característica  hologramática. 

30

 Recursão oranizacional – SSS Simetria, Sinergia e Simbiose. 

31

 É a negociação entre a Visão do produto e as estratégias disponíveis para produção que dá origem ao  componente factível na realidade que pode substituir o produto.  

32

 “disjunção” está sendo usada no sentido não de separação, desunião, mas no de oposição. A separação  do objeto de seu meio ambiente corresponde à desconsideração das negociações entre Visão e  Estratégias de produção disponívbeis. 

33

 Limitação à verificação do conhecimento pela ciência. Falta de compreensão do funcionamento do  pensamento. 

34

 Parece uma alusão a palavras de Foucault, só que para o papel do homem trocado!!! Morin reputa  desonroso o papel de sujeito, e Foucault, o papel de elemento do que é empírico, ou raiz de toda  positividade. 

35

 Por que mesmo na física se pode prescindir da noção de sujeito??? 

36

 Ser e existência eliminados pela formalização e quantificação, dado que o que existia era restrito à  quantificação na estrutura intpu‐output. 

37

 Uma modificação que ocorreu na virada dos séculos XVIII para o XIX. 

38

 Essa situação foi exatamente objeto da mudança na configuração geral do saber ocorrida entre 1775 e  1825. 

39

 Podem ser as duas coisas. 

40

 Os três tipos de cérebro: reptiliano (preservação e agressão), mamífeto (afetividade) e neocórtex  humano (inteligência lógica e conceitual) correspondem aos prpincípios constituintes das ciências  humanas Vida(biologia) [função‐nomra]; Trabalho (economia) [conflito‐regra];  Linguagem(filologia) [significação‐sistema]. 

41

 Caminhos diferentes dos apresentados para a ciência (experimentação e lógica) mas ainda assim  permitindo encontrar aspectos da realidade. 

42

 Por que colocar os terminais nervosos fora do cérebro? Não é a velha e boa compartimentação do  paradigma da simplificação? 

43

 A ruína do conhecimento reflexo estabelece‐se a partir de um desconhecimento, em vez de um  conhecimento. 

44

 

32 


A epistemologia da complexidade                                                                                                                                   O conhecimento é o resultado de CCCC – coordenações de coordenações consensuais de condutas. 

45

 O modelo constituinte das ciências humanas descrito por Michel Foucault corresponde termo a termo  às áreas do cérebro descritas. 

46

 Parece que estão sendo deixados de fora os aspectos da economia e da linguagem, ao falar de uma  bioantropologia. 

47

 Filosofia também, e principalmente. 

48

 Deve ser feita uma ampliação no modelo constituinte da sociologia para adequá‐lo ao modelo  constituinte de uma ciência humana Vida, Trabalho e Linguagem. 

49

 ECA’s – Estruturas Conceituais Abstratas 

50

 Mas deve haver estações de parada da dialética, para que o conhecimento levado até esses estados,  possa ser utilizado na prática, ainda que de modo provisório. 

51

 Como funciona isso de ‘produtos são necessários para a produção de processos’? Não pode ser que já  tenhamos o produto, e que ainda assim desencadeemos o esforço da produção patrocinando as  operações necessárias, que envolvem os processos. O produto que é necessário para para a  produção dos processos (definição, seleção, configuração das operações) é o resultado das  negociações Visão X Estratégias de produção disponíveis. 

52

 ? 

53

 EDR mais o edifício das ciências, com as configurações do saber descritas por Foucault arranjadas  

54

 Experiência e homem, e natureza, segundo John Dewey. 

55

 Disjunção, distinção, associação, oposição 

56

 

33


A Epistemologia Da Complexidade  

1999 Edgar Morin – CNRS, Paris Edgar Morin Diretor honorário de pesquisas do CNRS, Paris, França 1999 Os 13 mandamentos do paradigma da simp...

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