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RAUL CÓRDULA | 5 0 a n o s d e a r t e | u m a a n t o l o g i a


MinistĂŠrio da Cultura Apresenta

RAUL CĂ“RDULA 50 anos de arte, uma antologia


RAUL CÓRDULA 50 anos de arte, uma antologia

CURADORIA Olívia Mindêlo e Raul Córdula


Muito além das geometrias Olívia Mindêlo

A primeira vez que soube da existência de Raul Córdu-

geração de artistas visuais contemporâneos, nos quais

la estava diante de uma parede. Uma tela com cerca

eu sempre esbarrava em minhas descobertas pela arte

de um metro de largura – imagino eu – se estendia na

pernambucana, uma pintura do tipo me jogava dire-

superfície plana, onde figuras geométricas negociavam

tamente a um passado artístico. A uma história que,

um lugar no espaço. Me lembro de um cinza recorrente,

seguindo a “lógica” dos livros, ficara para trás.

talvez, mas principalmente de linhas retas e diagonais delimitando uma composição na qual havia um triângu-

O ponto é que, com algum conhecimento em arte e já

lo. Não recordo bem em que museu ou galeria do Recife

me arvorando a tecer os primeiros comentários sobre a

(ou Olinda) estava o quadro, mas foi ele o responsável

produção plástica pernambucana, tirei prontamente do

por me introduzir ao artista – se não me falhe a memó-

meu (curto) repertório uma conclusão para o que via

ria, entre outros nomes de uma exposição coletiva.

ali. Raul Córdula seria, portanto, um legítimo exemplar do Concretismo, movimento que, a partir dos anos

Confesso que aquilo me intrigou e, apesar de eu não ter

1950, colocou régua nos pincéis e apartou a pintura

registrado tudo muito bem, o nome de Raul Córdula fi-

do mundo exterior comumente idealizado. Foi assim

cou. Percebi que era importante. Minha primeira impres-

na Europa, nos Estados Unidos e também no Brasil

são diante de sua obra, contudo, misturou estranhamento

– todos com uma boa dose de influência da corrente

e curiosidade. O quadro parecia deslocado do tempo e

construtivista. Uma onda de abstracionismo marcou a

do lugar. E logo depois comecei a entender por que: o

produção pictórica num momento em que o interesse

abstracionismo geométrico não é (nem era) mesmo muito

dos criadores se curvou em direção à “estética pura”,

comum pelas bandas de cá do Nordeste, onde a pintura

a uma pintura com um fim em si mesma – mínima,

figurativa acabou se impondo. O próprio crítico Paulo

racional, geométrica, formal e antimimética, rompida

Sérgio Duarte e o pintor José Cláudio1 já haviam reparado

com o realismo tradicional e o “subjetivismo artístico”.

nisso quando escreveram a respeito de sua obra. Com relação a Raul Córdula, minha observação E tinha mais uma questão provável. Tendo sido o início

incipiente não era de todo equivocada. Era, na verda-

dos anos 2000 marcado pelo despontar de uma nova

de, precipitada, porque pela tela (e por outras que vi

1 Paulo Sérgio Duarte e José Cláudio fizeram alusão a esse aspecto em textos para exposições de Raul Córdula. Duarte, em 2000, e Zé Cláudio, em 1984 (Arte Galeria, Fortaleza/CE). 6


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50 anos de arte | uma antologia

depois) eu enquadrei o pintor no rigor de suas formas.

de 1965 até agora, as nove séries escolhidas apontam

Mas estava apenas diante de uma de suas fases – que,

para tempos e estilos distintos, capazes de atestar uma

aliás, jamais recebeu do artista o título de “concre-

obra que, não raro, carrega na sua complexidade. Não

ta” . Por sorte, o conhecimento e o tempo nos livram

podia ser diferente. Raul é um desses artistas cons-

de vereditos apressados. Na medida em que fui me

cientes do seu ofício. Ele sintetiza a história da arte no

aproximando do trabalho deste paraibano, acolhido por

próprio trabalho e ainda traz a reboque conhecimentos

Olinda há mais de 30 anos, descobri um artista de mui-

de outros campos, como o religioso e o político. Pode-

tos predicados. Um nome que Pernambuco e outros

ríamos afirmar, portanto, que ele se encaixa no hall dos

estados ainda parecem desconhecer em sua amplitude.

artistas cultos, no qual estão nomes como Francisco

2

Brennand, Montez Magno e João Câmara, seu conMuitos estudiosos e admiradores da arte certamente

terrâneo. Ele não gosta muito de ser visto assim, mas

conhecem o curador, o crítico, o pintor abstrato e até o

esta me parece uma chave para acessarmos a densi-

cenógrafo. Mas o que dizer do artista com mais de meio

dade das pinturas, dos desenhos, dos grafismos e das

século de trabalho e uma porção de obras relevantes

demais empreitadas do seu arsenal criativo.

para a nossa história? Fazer um apanhado desse extenso percurso é, portanto, mais do que a proposta da expo-

Paradoxalmente, o hermetismo que resvala de boa

sição Raul Córdula: 50 anos de arte (uma antologia). É

parte de seus trabalhos parece contradizer – ou no mí-

um papel e tanto. A seleção dos trabalhos feita por ele,

nimo tensionar – seu desejo de fazer arte para o povo.

nesse exercício de revisitar a própria obra, se mostra aqui

Mas justo nesse impasse reside a poética do artista,

generosa e reveladora. Um convite para adentrarmos

que busca se equilibrar entre o esteta e o político, sem

melhor num universo ainda pouco explorado, apesar das

necessariamente romper essas duas dimensões (qual-

suas muitas facetas e consagrações mundo afora.

quer ruptura mostra-se arbitrária ou é somente uma tentativa de abstração).

Este não é um trabalho simples, muito menos se resume ao abstracionismo geométrico – apesar de sua pre-

A meu ver, ambas as tendências – ou essa dualida-

sença recorrente. Abrangendo uma produção datada

de – pontuam de maneira crucial o conjunto escolhido

2 Como verei adiante, mesmo dialogando com a estética do movimento, Raul Córdula buscou em sua pintura um jeito peculiar de lidar com elementos geométricos. 7


por ele para representar seus 50 anos de arte. Uma

centrais da época, além da idade semelhante – muitos

representação, aliás, para ser encarada não pela

deles nasceram também na década de 1940 – e do

perspectiva cronológica, típica de efemérides como esta

convívio direto em momentos históricos, como na expo-

– por sinal, retroativa a 2010, quando Raul relembrou

sição Nova objetividade brasileira, realizada em 1967,

sua primeira individual, realizada na João Pessoa de

no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/

1960. O apanhado deve ser antes visto em seu poten-

RJ), por iniciativa de Hélio Oiticica.

cial de antologia, que, como toda ela, produz um olhar, um dado discurso. Não se trata de uma tentativa de

Foi o artista carioca quem de fato puxou uma revisão

reducionismo, mas de uma interpretação possível, de

crítica do movimento Concretista, reclamando uma

uma estratégia talvez mais proveitosa, através da qual

“nova figuração”, “uma nova objetividade” à arte

podemos reter, em maior profundidade, o sentido deste

brasileira. Seu projeto voltava-se à ideia de “objeto”

nome para a história da arte no Brasil.

(inter-relacional, “perceptivo”, “ambiental”, o princípio da instalação), em contraponto ao que chamou

Um artista de 60

de “descrença nos valores esteticistas de quadro de cavalete”3. Curiosamente, ele mesmo havia pintado

Pela sua fala, pela sua arte, Raul Córdula parece se si-

abstrações geométricas nos anos 1950, mas logo

tuar melhor na geração de artistas como Hélio Oiticica,

deixou de lado, diante do contexto de mudança no

Antônio Dias (também paraibano), Carlos Zilio e Lygia

Brasil e no mundo. Na visão da historiadora Maria de

Pape, do que na anterior. Tidos por historiadores como

Fátima Morethy Couto4, o rompimento, teorizado pelo

a neovanguarda brasileira, que despontou com a dé-

próprio Oiticica, marca a passagem de dois momentos

cada de 1960, foram eles os responsáveis por colocar

na história da nossa arte: do Concretismo para o Neo-

a produção visual do País num novo patamar. À sua

concretismo, a partir do eixo Rio-São Paulo. Em outras

maneira, talvez menos extrema no experimentalismo,

palavras, da “arte pura” para uma arte experimental e

Raul comungou com eles alguns dos ideais artísticos

engajada, comprometida, em seus princípios, com o

3 Referência à fala de Hélio Oiticica (1979) transposta em: SOARES, Paulo Marcondes Ferreira. Arte, política e juventude no Brasil: questões de arte e participação social. In: GROPPO, Luís Antonio et. al. Juventude e movimento estudantil: ontem e hoje. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2008. 4 COUTO, Maria de Fátima Morethy. Por uma vanguarda nacional: a crítica brasileira em busca de uma identidade artística (1940-1960). Campinas: Editora da Unicamp, 2004. 8


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envolvimento do público ou, nas palavras do sociólogo

o público, as criações artísticas foram quase sempre

Paulo Marcondes Soares , com a “participação social”.

tentativas nessa direção, o que decerto levou parte da

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produção brasileira a trilhar novos rumos, ainda mais Apesar de ele ter trilhado seu próprio caminho, Raul

radicalizados na geração seguinte, dos anos 1970.

Córdula é cria desse momento. Isso transparece tanto em boa parte das obras aqui reunidas quanto no seu

Sob o ponto de vista imediato, que reduz Raul Córdula

próprio discurso. Logo na primeira vez em que conver-

a um mero pintor formal, é difícil enxergá-lo nesse

samos sobre os trabalhos da mostra, me chamou aten-

meio. Mas isso não acontece se estivermos dispostos

ção a maneira enfática com que afirmou “Sou de uma

a mergulhar nos trabalhos escolhidos para representar

geração que ainda acredita na arte para o povo”. Ora,

sua trajetória até aqui. Mesmo as suas pinturas mais

até pela carga utópica da frase, ela é típica da geração

abstratas são motivadas por um desejo de mundo, de

1960. Está no discurso de críticos como Mário Pedrosa

olhar para o outro. As telas da série Geometrias recen-

e Ferreira Gullar, assim como do próprio Hélio Oiticica.

tes, por exemplo, têm como uma das suas inspirações a arquitetura popular das casas de interior. O resultado,

Na visão de Couto, existiram pontos cruciais que uni-

claro, dialoga com a estética formal do Concretismo ou

ram artistas desse momento. Desejos de uma arte para

do Construtivismo, mas há elementos que o tornam um

o povo e pelo povo; de uma arte participativa e coletiva,

pintor diferente dentro da corrente abstrata.

para o público; de uma arte experimental e libertária, sem “ismos”; de uma arte para além da pintura e do

Na verdade, Raul não começou por aí. A obsessão pela

caráter visual – “politecnomorfa”, de múltiplas lingua-

geometria se tornou uma característica imponente de

gens; de uma arte ligada ao cotidiano e à realidade,

sua obra, é verdade, mas jamais definidora de tudo.

sem o dever da mímese; em suma, de uma arte polí-

Ele mesmo nunca se inseriu entre artistas “concre-

tica. Embora essas vontades tenham, algumas vezes,

tos”, como Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros e o

se distanciado da prática, e mesmo da relação com

próprio Hélio Oiticica, nos anos 1950. Enquanto estes

5 SOARES, Paulo Marcondes Ferreira. Arte, política e juventude no Brasil: questões de arte e participação social. In: GROPPO, Luís Antonio et. al. Juventude e movimento estudantil: ontem e hoje. Recife: Editora Universitária da UFPE, 2008.

9


se detinham nas formas, no Sudeste, Raul começava

O engajamento segue seu rumo em obras subsequen-

na Paraíba a pintar flores, pássaros, mulheres, peixes

tes, como as telas de 1968, censuradas na Paraíba, por

e outros temas da região. A relação estabelecida com

ordem do Conselho Universitário da UFPB, onde Raul

triângulos, quadrados e círculos só veio anos depois. E,

trabalhava e expunha na ocasião. Não foi a Polícia Fe-

de maneira recorrente, com mais vinculação simbólica,

deral e tampouco uma “proeza” do AI-5, que ainda nem

de carga religiosa e mística, do que puramente formal.

havia baixado seu capuz negro sobre a liberdade artísti-

A conhecida série de aquarelas feitas em Paris, em

ca. A direção da universidade viu nos quadros do pintor

1991, é um exemplo disso e também pode ser vista

uma “ofensiva à moral e ao pudor público”. A série de

nas escolhas da exposição.

pinturas trazia algumas imagens de mulheres virgens e nuas, rodeada de guardiões felinos, o que deve ter

O trabalho mais antigo do conjunto antológico aqui

incomodado os conservadores da instituição. Isso fez o

exposto, aliás, não compactua com nenhuma tentativa

agitador Jomard Muniz de Brito soltar, num manifesto6,

de formalidade estética. Ao contrário, os desenhos da

provocações como: “A imoralidade está na obra ou na

série João Pessoa 1965 nascem do interesse do artista

perspectiva de quem vê? Os nossos doutores provincia-

pela arte espontânea, quase primitiva, das garatujas de

nos se escandalizariam diante da Vênus de Milo?”.

criança ou dos rabiscos deixados por pessoas comuns no muro. Uma atitude bastante moderna, no sentido

Havia na série imagens mais impactantes, que dialoga-

artístico da palavra, que já aponta nos seus quadros

vam muito bem com o contexto sociohistórico brasileiro

também uma postura política, própria de sua geração.

daquele momento. Em um dos quadros, também vistos

Basta observar, por exemplo, a subversão que ele faz

nesta antologia, um homem aponta um revólver para

da imagem dos três macacos do “não vejo”, “não falo”,

o espectador. Em quase todas as telas, é direta a refe-

“não ouço”, colocando-os para ver, gritar e ouvir, numa

rência de Raul a episódios e símbolos de um período

representação figurativa mais humana. E há ainda ou-

repressor, como arma, coturno e sangue no chão. Mas

tras sutilezas, como a frase “Cuidado com este chão”,

estes não foram, ao que parece, o motivo da censura,

em alusão às Ligas Camponesas.

tanto que ele mesmo voltou a montar a exposição no

6 Manifesto Por uma exposição censurada, redigido por Jomard Muniz de Brito e Wills Leal após censura sofrida pela exposição de Raul Córdula, no hall da reitoria da UFPB.

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50 anos de arte | uma antologia

Teatro Santa Rosa, logo depois. Meu pai, que é pa-

que viu os dois nascerem, mas pelo trilho artístico no

raibano e militou contra a ditadura, me confessou dia

qual ambos deslizaram suas poéticas.

desses que jamais esqueceu do revólver apontado para ele na juventude – tempos depois o quadro foi exposto

As séries O país da saudade, Araguaia e Made in

numa sorveteria de João Pessoa e foi lá que ele viu.

PB – feito em chumbo, também reunidas na presente antologia, não dialogam tão diretamente com a Pop

Interessante observar a estética utilizada por Raul

Art, mas seguem rumo semelhante na obra de Raul.

Córdula nesse trabalho, um dos primeiros da arte bra-

Em especial, apontam para um percurso político e

sileira a revelar influências da Pop Art, numa pegada

experimental mais evidente na geração de 1970,

bem cartunesca. Nesse sentido, e mesmo à distân-

embora sejam trabalhos produzidos posteriormente. Se

cia, o artista revela mais uma vez seu diálogo com a

a geração anterior já havia apontado para um engaja-

geração 60 que, lá do Rio de Janeiro e de São Paulo,

mento como resposta a um dado momento na arte e

também cuidava de enaltecer a vanguarda pop norte-

na política brasileiras, a década seguinte “desdobra-se

americana. Os brasileiros viam no movimento artístico

em diferentes situações inseparáveis dos contextos

dos Estados Unidos uma aproximação com as mas-

sociopolíticos decorrentes da ditadura”, como enfatiza

sas, uma linguagem original, atual e popular, mesmo

a curadora Glória Ferreira7.

bebendo da estratégia da publicidade, como fez Andy Warhol. Hélio Oiticica era um dos que se identificavam

Raul não passou ao largo desse desdobramento. De

com o movimento, cujas características ajudaram a

1982, O país da saudade é um exemplo inserido nesse

colocar mais tintas nos seus ideais de construção no

tempo, seja pela linguagem, seja pela temática. Política

País de uma arte “para o povo”. Tudo isso reverberou

desde o processo, a série em arte postal segue a linha de

nas criações surgidas dos anos 1960 em diante no

trabalhos que buscaram formas coletivas de produção

Brasil, fazendo quadros como Anywhere is my land, de

– como a do Grupo Fluxus – e vias alternativas para a

Antônio Dias, serem primos-irmãos das telas de 1968

arte – a exemplo dos trabalhos em arte correio feitos por

pintadas por Raul. E, vale dizer, não pela mesma terra

Paulo Bruscky no Recife, ou da série história Inserção

7 No seu texto para o catálogo da exposição Anos 1970 – arte como questão, promovida pelo Instituto Tomie Ohtake em 2007 | Arte como questão: anos 70 = Art as question: the 1970s. Curadoria: Glória Ferreira. Versão para o inglês: Stephen Berg et al. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2009. Meio século de arte brasileira; 2. 11


em circuitos ideológicos, de Cildo Meireles, na qual se

geração. Seja ao evidenciar o nome dos desaparecidos

apropria de cédulas de dinheiro e garrafas de coca-cola.

políticos na Guerrilha do Araguaia (1972-1975), ainda arquivados pela história oficial; seja ao sacudir a própria

Na sua obra, Raul enviou um papel em branco, endere-

simbologia da sua terra natal – a bandeira paraibana.

çado a artistas e amigos com os quais via identificação. Na folha, estava o tema (O país da saudade) e o seguinte

Pelas mãos do artista, a flâmula rubro-negra está longe de

pedido carimbado: “Por favor, interfira e me devolva”.

balançar orgulhosa. Apropriando-se da sua imagem e ge-

Mais de 60 respostas estão reunidas na série, sendo qua-

ometria, Raul procura fazer sua leitura dos acontecimen-

se metade de Jomard Muniz de Brito. As interpretações

tos que regem a origem do signo onde se lê, em letras

são múltiplas e dialogam muitas vezes com o contexto

garrafais, “NEGO”. No lado preto da bandeira, o artista

sociopolítico do qual falou Glória Ferreira.

colocou chumbo (literalmente) com três tiros. No vermelho, suprimiu o “n”, deixando transparecer a palavra

O compromisso com a história do Brasil, na perspectiva

“EGO”, que, na sua versão, surge de forma velada, como

de revisão, também transparece em Araguaia e Made

se largada num muro8. Há outras obras em Made in PB,

in PB – feito em chumbo, independente de terem sido

mas esta cumpre, sem dúvida, uma função sintetizadora.

produzidas nos últimos cinco anos. Aliás, o encontro, no mesmo momento, destas e de outras séries descritas aci-

Apesar das inclinações ideológicas de esquerda, Raul

ma parece não só oportuno como cumpre um papel: nos

conta que nunca assumiu uma postura combativa ou

atira inevitavelmente na direção da crítica e do questio-

partidária – como se seus quadros não gritassem para o

namento. Nunca é tarde para revermos o discurso sobre

mundo... De outro lado, não desconsidera seu frequente

nosso passado. E Raul nos incita a isso, assumindo nova-

envolvimento com questões coletivas e sociais, que mar-

mente a postura artística e política que mobilizou sua

caram, de forma indelével, sua visão de mundo. Como

8 Esta não foi sempre a bandeira da Paraíba. A mudança aconteceu depois do assassinato de João Pessoa, então presidente do estado (o equivalente a governador), num episódio tido como o estopim da chamada Revolução de 1930, que inaugurou a Era Vargas no Brasil. Conta a história que cerca de um ano antes, João Pessoa havia negado apoio ao candidato da situação à presidência Júlio Prestes, mas as insatisfações relacionadas a ele (e à sua morte) nasceram antes, dentro da própria Paraíba. Os perrepistas eram seus principais opositores. O avô de Raul fazia parte deste grupo. E o próprio artista se diz até hoje um perrepista, embora o Partido Republicano Paulista tenha sido extinto. Dados por Otávio Citone, amigo de Raul e sobrinho neto de Zé Pereira, famoso perrepista, os tiros no quadro representam a morte do político que virou nome de cidade, mitificada em seu passado registrado como heroico. 12


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ser humano, como artista. Quando perguntei sobre a

nismo geométrico. Claro, ele também tem apego pelas

participação dele nas lutas contra a ditadura, responde

geometrias, mas, de alguma maneira, elas parecem ca-

que nunca foi de fato militante, mas solidário com a cau-

muflar uma renúncia do artista aos seus ideais, à sua

sa, ajudando na fuga de amigos ou dando sua contribui-

vocação – o que o faz voltar agora para fazer justiça

ção artística. “Essas coisas nunca saíram da cabeça e

com a própria obra. Está certo. Seu trabalho é mais do

do coração das pessoas da minha geração.”

que triângulos, quadrados e círculos, sem eximir a relevância dessa produção em sua trajetória. Afinal, não

É preciso dizer que mesmo quando se ocupa da formali-

por acaso está na antologia.

dade pictórica, Raul não se esquece de sua humanidade, no sentido menos “racionalista”. Há nas suas pinturas

Seu repertório, contudo, é mais vasto do que o discur-

abstratas uma “geometria do próprio ser”, como assinala

so que o enquadrou nos últimos tempos, embora não

a artista Amélia Couto . Ora relacionada a figuras simples

deixe de ser fruto da própria escolha do artista. Pelo

e populares, ora a uma dimensão transcendental, repleta

menos em parte. Mas é tarefa nossa, como observa-

de mistério e espiritualidade. Em nenhum momento, ele

dores da arte, abrir novas trilhas interpretativas, novos

se mostra puro ou frio. Tudo isso pode ser observado mais

campos de fruição. São mais de 50 anos de arte e

de perto no seu livro de artista, no qual revela, de maneira

quase 70 de vida. De resto, não há mais nada a dizer.

inédita, um pouco do seu processo criativo.

Ainda precisamos conhecê-lo melhor.

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Realmente me impressionei quando ele me confessou que passou a pintar figuras abstratas por medo da repressão – e depois por necessidade de sobrevivência, haja vista o potencial comercial de seu abstracio-

Recife, maio de 2012.

9 Do texto “A simbologia de Raul Córdula”, escrito para uma exposição do artista realizada na Galeria Vicente do Rêgo Monteiro, no Recife, em 1990.

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Geometrias Recentes Apesar de dialogar visualmente com movimentos que levaram a pintura na direção do abstracionismo geométrico, estas telas de Raul Córdula não buscam um fim em si mesmas. Não são a expressão da arte pela arte, da forma pela forma, da autorreferência preconizada pelo ideal da “estética pura”. Neste caso, é preciso ir além de códigos reproduzidos pela história da arte. Não há aqui um rompimento total da pintura com a “realidade”, ou seja, com a sua função representativa. Não raro, as composições monocromáticas do artista remetem a diversas referências de seu repertório visual. São alusões, muitas vezes, ao arsenal de uma rica memória imagética; de uma arquitetura afetiva, sobretudo. Detalhes de platibandas das casas de interior, com adornos losangulares, por exemplo, são trazidos à cena pelo seu olhar geometrizado. O grafismo de um carro, visto pelo artista nas paredes de uma casa do Sertão do Ceará, nos anos 1980, ganha nova representação pelas mãos dele. São trabalhos recentes contaminados por questões antigas, como diz o pintor. Entre trípticos e dípiticos, pinturas ganham volume e cores saltam aos olhos, camada a camada. É como se quisessem confirmar o título de “colorista” dado usualmente pela artista Amélia Couto a ele, seu marido. Explorando uma geometria figurativa, ele parece querer buscar, outra vez, o princípio das coisas; o “grau zero” da pintura brasileira, usando a expressão de Paulo Sérgio Duarte, que Raul acompanhou em pesquisas sobre casas de interior. Mas não há nem uma pretensão minimalista, tampouco um pacto de fidelidade com o “real”. Raul Córdula trafega entre as brechas e segue seu percurso sem querer saber de muitas distinções.

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Conjunto 5 pinturas em tela 2012 331 x 120 cm

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Grafite Fotografia impressa em tela 1980 (fotografia original) / 2012 (interferĂŞncia e impressĂŁo) 150 x 100 cm


Conjunto e Grafite TrĂ­ptico 2012 280 x 100 cm

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Fachada 5 pinturas em tela 2012 270 x 120 cm

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Fachada 3 pinturas em tela 2012 300 x 120 cm

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Platibanda DĂ­ptico 2012 300 x 100 cm

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Paris 1991 Esta série representa uma das fases mais longas e bem-sucedidas da carreira de Raul Córdula. Foi através do estilo desenvolvido nessas aquarelas – também explorado em outras técnicas – que ele ficou mais conhecido entre galeristas e colecionadores de arte, sobretudo no Recife. Curiosamente, é um trabalho bastante “cerebral”e hermético na produção do artista, que aqui se acha em sua fase mais exotérica. De forma recorrente, Raul faz nestes quadros um mergulho em elementos simbólicos que mesclam misticismo e racionalidade. A tetraktys, de Pitágoras, é uma das figuras mais exploradas. Nela, dez bolas (quatro de cada lado) formam um triângulo equilátero, representando uma harmonia sintetizada pelo número quatro. É considerada uma das figuras mais transcendentais do pensamento pitagórico. Para o teórico grego, os números eram muito mais do que uma maneira de mensurar as coisas da vida. Eram, antes, o fundamento do universo. Como estudioso de Pitágoras e observador atento, Raul faz também neste trabalho suas incursões por números e geometrias, marcando com cores, pinceladas e outras referências visuais sua interpretação do mundo. Um mundo onde há diferentes movimentos, infinitas possibilidades e um limite tênue entre o abstrato e o figurativo.

Paris Conjunto de 15 aquarelas sobre papel 1999 50 x 35 cm

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Araguaia Sob o chão do Norte brasileiro, ainda mora a dúvida. Às margens do Rio Araguaia, rondam nomes de desaparecidos políticos. Onde estarão Valquíria, Chico, Mané, Duda e Osvaldão? O que dizer de Landinho, Amauri, Mundico, Joaquim e tantos outros filhos e filhas, mulheres e maridos, amigos e amigas? Quem sabe? Nesta série, feita nos últimos cinco anos, o artista retoma um capítulo duro e ainda obscuro de nossa história: a Guerrilha do Araguaia. Movimento político de resistência à ditadura militar, organizado por militantes de esquerda entre 1972 e 1975, a guerrilha tinha ideiais comunistas e buscava construir uma estratégia alternativa na zona rural brasileira, longe do clima da repressão urbana. Acabou sendo esmagada pelas Forças Armadas. O saldo foi de mortos, desaparecidos e alguns sobreviventes, que saíram presos. Até hoje, mais de 50 nomes encontram-se sumidos, arquivados. Destinos perdidos de famílias ainda à procura de seus direitos. Numa alusão ao movimento, Raul Córdula procura fazer, digamos, a sua justiça. Com as mãos de artista, derrama em tintas, desenhos, colagens e outros artifícios criativos uma versão possível para um episódio a que a história ainda deve muitas páginas.

ARAGUAIA Barro cozido 2004 28 x 46cm

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ARAGUAIA Nanquim e carv達o sobre papel 2012 150 x 100 cm

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ARAGUAIA Pintura sobre papel 2012 450 x 150 cm

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1968 Marcas da história percorrem estas pinturas como se quisessem contar tudo o que viveram até aqui. Estar diante delas é muito mais do que perceber símbolos fortes, alusivos a um período de violência militar no Brasil, que podiam, de outra maneira, também falar de hoje. Estar frente a esta série é, além de tudo isso, conhecer uma vida cujo percurso se confunde com a própria trajetória política e artística do país. Com estas mesmas pinturas, Raul Córdula sentiu o peso da censura e o constrangimento de ver suas obras serem retiradas do hall da reitoria da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde estavam sendo expostas. Não foi uma determinação do regime militar, tampouco teve relação com o AI-5, que ainda não havia sido instituído, embora o ano fosse 1968. A censura aconteceu antes disso e partiu de uma ordem do Conselho Universitário da UFPB, que viu nestes quadros uma “ofensiva à moral e ao pudor público”. O episódio na capital paraibana acabou sendo amenizado por uma intervenção de João Agripino, então governador da época, que determinou que a série voltasse a ser exposta. O Teatro Santa Rosa recebeu as telas, o que não evitou a demissão do artista da UFPB, onde trabalhava como coordenador do setor de artes plásticas do Departamento Cultural. Em seguida, o Recife e Olinda também viram a mostra. Na abertura desta última, Caetano e Gil leram o manifesto tropicalista “Inventário do feudalismo cultural nordestino”, escrito por Jormard Muniz de Brito. Todas as obras vistas aqui carregam esse histórico – mesmo as telas repintadas, por terem sido vendidas ou perdidas. E revelam ainda os primeiros flertes da produção brasileira com a pop art norte-americana.

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Primavera Negra 1 Pintura sobre madeira e relevo (Coleção Otacílio Cartacho) 1968 95 x 140 cm


Primavera Negra 2 Pintura sobre tela (releitura) 2008 180 x 150 cm

Primavera Negra 3 Pintura sobre tela (dĂ­ptico, repintura) 2012 80 x 160 cm

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Livro O designer, o artista, o pintor, o meticuloso, o estudioso, o religioso... Este é um trabalho que revela as muitas facetas de Raul Córdula e, de alguma forma, desnuda um pouco da sua intimidade, escancarando, em brechas, um pouco do mistério de suas criações no momento do processo. Não era para ser, mas acabou virando um livro de artista, um objeto de arte. Destes que dá vontade de virar as páginas repetidas vezes, com olhar de curiosidade – para não dizer de voyer. No início, era para ser só um caderno de pautas, mas aos poucos foi virando um companheiro inseparável de Raul, onde ele derrama até hoje seus esboços, seus estudos. O início foi nos anos 1980 e nunca mais deixou de ser o começo de muitos trabalhos. Vários princípios estão aqui desde então. O esboço de obras que se materializaram – como se pode ver – e o projeto de outras que talvez fiquem por aí. De uma forma ou de outra, o livro nos ajuda a entender a arte de Raul. Nunca revelado ao público até então, surge como uma pista nova para o entendimento de um conjunto significativo. Neste contexto, aparece como peça-chave. Uma peça viva, através da qual podemos compreender um processo artístico que passa necessariamente por um labor intelectual; por um hermetismo carregado de simbologia. A geometria, a espiritualidade, a história e o grafismo são alguns dos pontos recorrentes. Não há intenção didática, mas o percurso por essas páginas amareladas pode nos lançar muitas luzes.

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Livro de contabilidade com desenhos e colagens 1980 a 2012


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A Gaivota Cega Uma obra para ser vista com as mãos. Eis o propósito deste trabalho: ser alcançado através do tato, uma forma de acesso menos imperativa no território visual da arte. O tocar é aqui o instrumento, o mecanismo por meio do qual o artista oferece sua sensibilidade ao mundo e, em especial, aos cegos – a quem dedica esta série. O trabalho parte do conto A gaivota cega, escrito pelo próprio Raul Córdula. Na mostra, as palavras do texto são apresentadas em braile, para serem lidas com a pele... O enredo gira em torno de um suposto encontro entre o artista e Aristides, um homem cuja deficiência visual chama sua atenção de um jeito inesperado, e isso acabado aproximando os dois para uma conversa sobre pintura. Na metáfora explorada por Raul neste conto, o não enxergar é relativo. Neste caso, é uma maneira de transcender o sentido da arte; das cores, das formas. Enquanto o artista fala de pintura e de uma de suas criações, o seu novo amigo o surpreende com interpretações quase sinestésicas: “... o vermelho é como o grito do pavão!”. Além do texto, ele expõe seis placas de acrílico, com desenhos em relevo para serem tateados pelo público. São contornos retirados de trabalhos antigos, pelos quais ele tem apego. Se na “conversa” com Aristides a palavra dele é como “uma luz”, neste trabalho propostas alternativas de fruição nos levam a outras formas de visão.

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Placa de acrílico com desenho gravado – 6 peças 2012

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O País da Saudade O País da Saudade é uma série de arte postal e outra expressão do sangue político que corre nas veias de Raul Córdula. Bem no espírito coletivo que marca sua personalidade e a da sua geração, o trabalho vai na trilha dos que buscaram, por meio de circuitos alternativos, romper as fronteiras institucionais da arte no Brasil. Através de envios postais, Raul estimulou amigos, artistas e outras pessoas com as quais tinha identificação a colaborar com a série. O ano era 1982 e a troca consistia no seguinte: ele mandava um papel em branco, apenas com o mote “O país da saudade”. No envio também ia um recado carimbado – “Por favor, interfira e me devolva”. Vários colaboradores enviaram suas respostas. As interferências visuais e verbais, como se pode ver aqui, foram tão sintomáticas quanto o momento pelo qual passava nosso país de então – em vias de reabertura e muito longe ainda de trazer seus exilados de volta para casa. O inquieto Jomard Muniz de Brito foi o artista que mais contribuiu com a série. Em cada uma de suas plaquetas, é possível sentir o espírito libertário e utópico que marcou a arte postal brasileira, tanto política quanto esteticamente.

O País da Saudade 66 folhas de papel ofício com interferências gráficas 1982

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Made in PB - feito em chumbo Neste trabalho, feito nos últimos anos, PB é uma sigla tomada em seu duplo sentido: remete tanto à Paraíba quanto ao elemento chumbo. A junção é uma metáfora da historiografia política do estado de origem de Raul Córdula, que é paraibano, e funde-se numa pintura bastante significativa – embora haja outras obras na série. Sob uma perspectiva crítica, o artista procura rever, através deste trabalho, o passado de sua terra – e também o seu. Apropriando-se da imagem da atual bandeira paraibana, ele revisita os acontecimentos por trás da própria criação do símbolo rubro-negro, onde se lê originalmente “NEGO”. No lado preto da bandeira, ele colocou chumbo (literalmente) e no lado vermelho, suprimiu o “n”, deixando transparecer a palavra “EGO”, que, na sua versão, surge de forma velada, como se tivesse sido deixada sobre um muro. Sabe-se que esta não foi sempre bandeira da Paraíba. A mudança aconteceu depois do assassinato de João Pessoa, então presidente do estado (o equivalente a governador), num episódio tido como o estopim da chamada Revolução de 1930, que inaugurou a Era Vargas no Brasil. Conta a história que cerca de um ano antes, João Pessoa havia negado apoio ao candidato à presidência Júlio Prestes, mas as insatisfações em relação a ele nasceram antes, dentro da própria Paraíba. Os perrepistas eram seus principais opositores. O avô de Raul fazia parte deste grupo. E o próprio artista se diz até hoje um perrepista, embora o Partido Republicano Paulista tenha sido extinto. Os tiros no quadro representam a morte do político que virou nome de cidade. Made in PB também é um rock de Zé Ramalho, amigo do artista.

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Made in PB – Feito em Chumbo Tinta acrílica em tela 2005 100 x 80 cm

Bandeira do EGO Chumbo e tela pintada – Díptico 2005 230 x 100 cm (conjunto)

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João Pessoa 1965 Nesta série de desenhos aquarelados, feitos também com outros materiais – como carimbos –, vemos um Raul Córdula mais solto, espontâneo, quase primitivo. Eis uma relíquia de seu acervo, ainda pouco explorada. Vem bem do início de sua trajetória, quando o olhar do artista se curvava, com frequência, aos desenhos ou garatujas de criança; aos dizeres e grafismos largados nos muros, nas calçadas, nas árvores; aos rabiscos feitos ao telefone por qualquer pessoa. O conjunto dessas figuras orgânicas remete à busca de Raul pelo espontâneo na arte e talvez até pelo “puro”. Não no sentido formal dado à procura por uma “estética pura”, levada a cabo por muitos nomes de sua geração. Mas no sentido intuitivo, de quem busca o princípio do fazer artístico. O processo, contudo, não é inconsciente. Basta observar, por exemplo, a subversão que ele faz da imagem dos três macacos do “não vejo”, “não falo”, “não ouço”, colocandoos para ver, falar e ouvir. São sutilezas de quem já afirmou um dia que, de forma conciente, “o grotesco como engajamento, sem querer ser sartreano, representará o ‘absurdo do cotidiano’”.

Desenhos 1965 8 desenhos em Aquarela e nanquim em papel 1965

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Catalogo | Raul Córdula | 50 anos de arte | uma antologia