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Os Primórdios, o Modernismo

As artes visuais do Brasil começam a exprimir identidade nativa no século dezesseis com a construção das primeiras igrejas nas poucas vilas que aqui havia no século XVI, onde os mestres de obras portugueses empregaram a mão de obra de colonos, nativos e negros escravos como pedreiro e artífices para a construção da Colônia. Neste afã dos assentamentos coloniais nasceram os ornatos em pedras de cantarias, os entalhes em madeira (hoje chamados talhas) e pinturas religiosas e decorativas, onde já eram aplicados elementos locais como frutos – cajus e mangabas – e flores da região, pois os olhares dos mestres construtores que também desenhavam as imagens, e a habilidade dos artífices e artesãos, os levaram a expressar seu ambiente. Na ocupação holandesa do Recife, a criação e a produção dos ornatos das fachadas e dos interiores, na estatuária religiosa e na prática da pintura, do desenho e da gravura como auxiliar dos negócios do Príncipe Maurício de Nassau à frente da Companhia das Índias Ocidentais. Nassau trouxe para o Recife os pintores Frans Post, especialista em paisagem, documentarista preciso de nossa luz e das obras humanas aqui construídas; Albert Eckhout, pintor de figuras e costumes; o desenhista e ilustrador Marc Grave, que registrou a fauna e a flora da região. Estes artistas e seus sucessores retrataram a vida da aristocracia rural originária da monocultura da cana de açúcar. A arte da pintura foi exercida por portugueses, nativos e mestiços. Legaram-nos obras como o painel sob o coro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, de autoria atribuída ao pintor José de Oliveira Barbosa representando a primeira batalha dos Montes Guararapes, a coleção de pinturas religiosas da pinacoteca da Igreja de São Francisco de Igarassu e diversos tetos e painéis de pintura ou azulejaria. Telles Júnior, exímio pintor de paisagens terrestres e marinhas que, segundo Francisco Brennand, foi quem melhor traduziu a luz do Recife e arredores, foi o artista que se destacou na passagem entre os séculos IX e XX com uma pintura cheia da espontaneidade tropical que identifica nossa terra. Do ponto de vista do artista, na modernidade, a autonomia do pintor foi conquistada definitivamente. Fator decisivo para isto foi o desenvolvimento das técnicas de reprodução da imagem que a revolução industrial acarretou. Finalmente o artista se desencarregou da função de apêndice da história, da ciência, da sociedade quando na maioria dos casos apenas cumpria uma função, a de documentador, de registrador dos fatos, função que passou a ser cumprida pelo fotógrafo, nos primeiros momentos, depois pelas outras “mídias” desenvolvidas pela indústria – cinema, xerox, fax, informática. Importante lembrar

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que os meios modernos de multiplicação da imagem se tornaram na contemporaneidade meios artísticos também, devido às mudanças de conceito da obra de arte, como veremos no capítulo referente à arte contemporânea. O artista liberto de suas funções pragmáticas pôde mergulhar profundamente na expressão de seus sentimentos, de suas observações da vida, de suas elucubrações filosóficas. Essa liberdade propagou-se no mundo ocidental gerando também os instrumentos da modernidade, incorporando à arte novas técnicas e linguagens. No século XX, eles contaram com condições propícias para marcharem sincronicamente com seus pares em todo o mundo, na criação das expressões modernas e pós-modernas que representam o tesouro artístico que temos hoje.

A Semana de Arte Moderna de 1922 e a arte pernambucana

Recife divide com São Paulo a primazia de nossa modernidade artística, pois Vicente do Rêgo Monteiro realizara em 1920 uma exposição no Recife, com 43 desenhos, que foi apresentada em seguida no Rio de Janeiro e em São Paulo, antecipando-se dois anos da Semana de Arte Moderna que os escritores e artistas realizaram em 1922. A Semana de 22, como é mais conhecido este acontecimento, que formou as bases de nossa cultura atual, detonou o “movimento modernista” de São Paulo. Um dos pontos máximos da biografia de Vicente é a sua participação na semana de 22, ao lado de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, John Groz, Victor Brecheret e W. Haelerg. Tarsila do Amaral estava na Europa e não participou, mas aderiu ao movimento e posteriormente teve definitiva participação no Movimento Antropofágico lançado por Oswald de Andrade em 1928 que deu sequência às ideias modernistas, que teve a participação de Cassiano Ricardo e Flávio de Carvalho. A exposição foi montada no hall do Teatro Municipal de São Paulo, palco de todas as manifestações dessa semana de três dias – na verdade as atividades só ocuparam os dias 15, 16 e 17 de fevereiro. Esta não foi a primeira exposição de arte moderna realizada no Brasil. Lasar Segall, o grande artista lituano que passara pela Alemanha onde se integrou à arte de Berlim, fez em 1913 a primeira exposição de arte moderna no Brasil. Em 1916 foi a vez de Anita Malfatti realizar a tal exposição que provocou a ira de Monteiro Lobato. Em 1920, então, foi a vez da exposição da escola de Paris trazida por Vicente do Rêgo Monteiro. Este pioneirismo sugere que o pintor Vicente e seus irmãos Joaquim e Fédora, o pintor Cícero Dias, como também a cidade do Recife como referência de arte conectada com o mundo, são tão modernistas quanto São Paulo, tão antenados com o mundo quanto Oswald e Mário de Andrade e a “Paulicéia Desvairada”. É certo que alguns dos modernistas paulistas,

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ou teóricos pós-modernistas, não concordavam com isto. Mário de Andrade reivindica o modernismo para São Paulo, como estética paulistana, enquanto Aracy Amaral disse que “não se entende modernismo fora das grandes cidades”. Menotti Del Picchia, por sua vez, entendeu o modernismo em sua verdadeira universalidade. Ele a define, em “Avenida Paulista”, como “uma nova técnica para expressar a vida”. 1922 foi um ano singular para o Brasil, pois marcou o fim do governo progressista de Epitácio Pessoa e a passagem para o governo de Artur Bernardes; ano da Feira Internacional de Rio de Janeiro montada para comemorar o Centenário da Independência, que foi inaugurado com a presença do Rei da Bélgica; foi também o ano da revolta do Forte de Copacabana e da fundação do Partido Comunista, por Astrogildo Pereira. Certamente São Paulo se ressentia do acúmulo de poder do Rio de Janeiro, pois Mário de Andrade chegou a dizer que o modernismo era coisa para São Paulo, não para o Rio de Janeiro rico e aristocrático. Não se sabe ao certo de quem foi a ideia da Semana de 22. Alguns a creditam a Di Cavalcanti, outros a Menotti Del Picchia que teria encontrado Oswald de Andrade na escadaria do teatro Municipal de São Paulo e sugerido um manifesto que marcasse a posição dos intelectuais paulistanos que se opunham a “ditaduras” da academia, outros ainda atribuem a Ronald de Carvalho. Fato é que foi, num primeiro momento, um movimento de escritores que teve a participação de Oswald de Andrade que é tido como seu líder, Mário de Andrade, Menotti Del Picchia, Ronald de Carvalho, Graça Aranha, entre outros grandes escritores brasileiros. A Heitor Villa Lobos e Guiomar Novais, a grande pianista brasileira da época, foi entregue a área musical. As artes plásticas se manifestaram na exposição coletiva que comentamos acima. Como veículo do texto e da imagem modernista, foi editada por Oswald de Andrade a revista mensal Klaxon, que Mário de Andrade define: “Klaxon sabe que a humanidade existe, por isso é internacionalista”. O manifesto de autoria de Mário de Andrade colocava que a arte moderna brasileira deveria ter como base o seguinte conjunto de princípios: 1– O direito permanente à pesquisa estética;

2– A estabilização da atualização estética brasileira;

3 – A estabilização de uma consciência criadora nacional.

Basta este manifesto para afirmar o modernismo de 22 como um movimento proposto para abranger todo o Brasil, pelo menos é isto o que sugere a “consciência criadora nacional”. Mas seus desdobramentos levaram a uma cisão no meio intelectual a partir do Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre.

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A Semana de 22 e o Manifesto Regionalista O jornalista Rubens Borba de Morais declara que “o Regionalismo simplesmente precedeu o Modernismo, e nada mais”. A Semana de 22, coincidindo com o Centenário da Independência do Brasil, olhava para o futuro proclamando também a independência, mas dessa vez como desligamento da estética europeia na literatura, na música e nas artes plásticas. Não estavam comemorando os 100 anos passados, mas celebrando os anos do porvir. O jornalista pernambucano Joaquim Inojosa, em passagem por São Paulo, tomou conhecimento das ideias modernistas da Semana de 22. De volta ao Recife, ainda no fogo das ideias modernistas, repleto de imagens, documentos e indagações, entrou logo em contato com o meio intelectual e artístico local proclamando as “boas novas”. Embora Vicente do Rêgo Monteiro manifestasse a influências das correntes modernas europeias como o cubismo, o surrealismo e o dadaísmo, os princípios teóricos do movimento paulista chegaram aqui por intermédio de Joaquim Inojosa, seu maior semeador no Nordeste. Até porque, embora fosse um pernambucano em São Paulo, Vicente morava em Paris e pouco sabia da geopolítica cultural brasileira. Enquanto as ideias da Semana de 22 ganhavam corpo entre os artistas locais, Gilberto Freyre, que já ocupava importante posição na intelectualidade brasileira, insistia em colocar dúvidas em relação ao propósito dos modernistas. Ele liderava a oposição ao movimento e em seu discurso empregava palavras abolidas pelos jovens modernistas: permanência, raízes, valor ao passado e regionalismo. Regionalismo foi o termo que deu nome ao movimento que Gilberto Freyre lançou em 1926, como sucedâneo do modernismo. O Manifesto Regionalista é um texto que contou em seu lançamento com o apoio de artistas da época, inclusive de Cícero Dias cujo trabalho expressava traços modernistas, porém com temáticas regionais. De qualquer forma, a rixa entre modernistas e regionalistas acabou se transformando em uma saudável briga de ideias. Com os anos, a discussão foi sendo amenizada e, no metafórico campo de combate entre Freyre e Inojosa, sobraram sementes de uma arte que, inevitavelmente, não seria a mesma sem essas arengas. Com a convivência adquirida no meio artístico parisiense e a mobilidade transoceânica que tinha, Vicente trouxe para Recife em 1930, e instalou no Salão Nobre do Teatro Santa Isabel, uma importantíssima exposição que marcou profundamente nossa cultura visual: Artistas da Escola de Paris, que teve a participação, além dele próprio e do seu irmão Joaquim do Rêgo Monteiro, de grandes estrelas da arte internacional como Picasso, Léger, Braque, Gris, Severini, Miró entre outros, seus amigos. Além do Recife, a exposição esteve no Rio de Janeiro e São Paulo. Entre os efeitos decorrentes da exposição surgiram movimentos teóricos e se montaram ateliês coletivos e individuais que visavam vitalizar a arte pernambucana de memória colonial-

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barroca e acadêmica. Reagindo-se a este espírito efervescente, foi criada em 1932 a Escola de Belas Artes do Recife. Muito curioso é o fato de ser criada depois que o modernismo foi implantado e frutificado aqui. Em outros lugares foi o contrário, o modernismo é que reagiu ao academismo assim como o impressionismo foi, em Paris, a reação ao salão de arte parisiense que se norteava pela École de Baux Arts.

O Grupo dos Independentes

No entanto, em agosto de 1933 alguns artistas de destaque reuniram-se em torno do que se autodenominara Grupo dos Independentes: os que não aceitavam o padrão oficializado das escolas de belas artes, incluindo a recém-criada Escola de Belas Artes do Recife. Os Independentes, como passaram a se chamar, eram os que realizavam um trabalho livre de conceitos e regras. O grupo era formado por Augusto Rodrigues, Bibiano Silva, Carlos Holanda, Danilo Ramires, Elezier Xavier, Francisco Lauria, Hélio Feijó, Luiz Soares, Manoel Bandeira, Nestor Silva e Percy Lau. O exemplar ensaio de autoria de Bise de Souza Rodrigues publicado em 2008 “O Grupo do Independentes – arte moderna no Recife 1930” esclarece para a atualidade a importância dos independentes. Nise relata: “No contexto sociocultural dos anos 1930, os Independentes apreenderam os símbolos de uma sociedade moderna emergente e praticaram valores estéticos renovadores, concretizando uma escola artística, visto que a arte moderna no Recife se constituiu abrangente ao panorama cultural brasileiro.” “Constato que a formação do grupo não se deu ao acaso. Precisou seguir os caminhos já percorridos por pioneiros brasileiros e pernambucanos, notadamente os pintores Vicente do Rêgo Monteiro, Cícero Dias e Lula Cardoso Ayres – grandes precursores da arte moderna no Brasil.” Mas a atuação dos Independentes não se limitou à oposição que fizeram à Escola de Belas Artes, a produção dos 1º e 2º Salões dos Independentes, chamados também de Salão de Arte Moderna do Recife. Estes foram os primeiros salões de arte moderna realizados em Pernambuco; sabe-se, porém, da realização de um Salão de Arte em 1929 que teve a participação de Balthazar da Câmara, Fédora Monteiro e Murillo La Greca, entre outros. Como informa Nise Rodrigues, “o 1º Salão Independente foi inaugurado pelo Governador Carlos de Lima Cavalcanti no dia 12 de agosto de 1933 na Biblioteca Pública, à Rua do Imperador, hoje Arquivo Público Jordão Emerenciano.” O 2º Salão dos Independentes integrou o Congresso

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Afro Brasileiro coordenado por Gilberto Freyre em 1936 na Sociedade dos Empregados do Comércio, na Rua da Imperatriz, segundo contou Elezier Xavier a Nise Rodrigues. Os Independentes foram sem dúvida o primeiro “coletivo de artistas”, como chamamos na contemporaneidade. Para compreendermos corretamente nossa história recente da época, é fundamental conhecermos este grupo e sua importância na arte nacional. Eis, em seguida, tópicos da carreira destes artistas: Augusto Rodrigues: Além de sua arte, especialmente seu desenho, analisada e comentada por Frederico Morais, Jacob Klintowitz e Herman Lima, autor de “História da caricatura no Brasil”, entre outros críticos de arte, se coloca na história da arte brasileira como um dos fundadores; ao lado da artista gaúcha Lúcia Alencastro Valentim e a escultora norte-americana Margareth Spencer, fundou em 1948 a Escolinha de Arte do Brasil, instituição que, por décadas, proporcionou à infância e à adolescência a arte na educação. A Escolinha propõe “estimular a autoexpressão, desenvolver projetos de interesse da arteeducação, contribuir para o reconhecimento social da arte da criança”. Esse último tópico talvez seja o mais importante, baseado nas ideias do filósofo e crítico de arte inglês Herbert Read. Entre 1950 e 1970, a Escolinha se desenvolveu e se espalhou por algumas cidades brasileiras, entre elas Salvador e Recife. São considerados desdobramentos da Escolinha o Ateliê Infantil do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro criado pelo artista e professor Ivan Serpa em 1972, e os cursos de licenciatura em educação artística, hoje obrigatórios no ensino das artes visuais das universidades brasileiras. Augusto Rodrigues atuou como um elo entre a cultura pernambucana e a carioca. Ele foi uma das primeiras pessoas a despertar no Brasil a importância da cultura popular nordestina através, por exemplo, da realização da primeira exposição de Vitalino no Rio de Janeiro. Augusto Rodrigues faleceu em 1993 quando era um dos artistas de maior prestígio no Rio de janeiro, onde fez sua carreira de artista e professor. Elezier Xavier: Pintor de grande importância local, principalmente como paisagista que plasmou, preferencialmente em aquarela, as várzeas do Capibaribe, os casarios das cidades históricas e as praias de Pernambuco. Nascido em 1907, teve uma vida intensa, foi muito amigo do poeta Manuel Bandeira, que lhe apresentou a Portinari. Faleceu em 1998. 9


Francisco Lauria: Pintor e desenhista, nasceu em Maceió em 1912 e tornou-se artista no Recife, onde participou de um ateliê coletivo com Percy Lau, Carlos de Holanda e Luiz Soares. O grande crítico de arte baiano Clarival do Prado Valadares escreveu sobre ele: “Sobre o esquema duma cidade despovoada, sem vivalma nas ruas, nas portas e nas janelas, Lauria constrói misteriosos retratos de moças. Um tipo de criatura por vezes bela, por vezes grotesca, mas sempre envolta em uma história. Ninguém necessita de legenda para logo saber de quem se trata.” Hélio Feijó: Nascido em 1913, foi desenhista, pintor, arquiteto e poeta. Estudou no Rio de Janeiro com o importante pintor de paisagens Carlos Chamberlland em 1929. Foi também discípulo de Portinari e amigo de Vicente do Rêgo Monteiro. No convite de sua exposição individual em setembro de 1973, Joaquim Cardozo comenta: “Nos quadros de sua atual exposição, Hélio Feijó exibe seus grandes recursos tonais: os efeitos de cores esbatidas; os contornos das linhas limites das formas pintadas, executadas com a pureza que se vê também em Vicente e Portinari; esbatimentos de verde esmeralda e azul cobalto, até quase branco, numa passagem que continua; o mesmo esbatimento que se encontra em Braque e Léger;”. Manoel Bandeira: O pintor e desenhista, não o poeta, nasceu em Escada, PE, em 1900 e faleceu em 1964. Sua obra pictórica é pequena, mas de grande importância para a arte pernambucana. Seu desenho, porém, assim como o desenho do peruano Percy Lau, são exemplos de habilidade e talento para o registro do patrimônio cultural e natural de nosso povo. O desenho nos dá uma dimensão que a fotografia não tem, é a observação do detalhe, do que mais impressiona o desenhista na cena registrada. Bandeira foi o ilustrador do livro fundamental de Gilberto Freyre sobre Olinda, desenhou a cidade nos seus mais relevantes ângulos, e desenhou com aparato técnico rudimentar da jangada dos pescadores locais, um desenho de importância perene pois a maioria daqueles instrumentos e implementos não são mais usados pelos pescadores. Percy Lau: Desenhou para o IBGE os aspectos das regiões brasileiras que mais chamavam a atenção nos idos dos anos 1950. Tudo está editado pelo IBGE e formam um acervo fundamental para pesquisa iconográfica, histórica e artística.

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O Museu do Estado e os salões de arte

No dia 7 de setembro de 1930, dia da independência, foi fundado o Museu do Estado de Pernambuco - MEPE, um espaço cuja proposta era guardar e expor coleções nacionais e regionais de importância social e científica. O Museu foi locado numa instalação provisória na Cúpula do Palácio da Justiça. Seu funcionamento naquele prédio, no entanto, durou apenas três anos. Em 1933, ele foi extinto e suas coleções foram anexadas à Biblioteca Pública do Estado. Durante sete anos, o museu não existiu nem mesmo no papel. Voltou a funcionar com sede própria em 40, no casarão da Av. Rui Barbosa, onde está até hoje. Além das obras de artes plásticas, encontram-se em seu acervo peças de mobiliário, objetos do período colonial, peças pré-históricas, das culturas indígena e afro-brasileiras. Em Pernambuco, alguns autores citam o aparecimento do primeiro salão de arte em 1929, com a participação de artistas como Balthazar da Câmara, Murillo La Greca, Mário Túlio, Fédora Monteiro e outros. Em 1933 e 1936 foram realizados os 1º e 2º Salões do Grupo dos Independentes. Porém, os salões de arte em Pernambuco só foram consolidados a partir de 1942 com a criação do Salão Anual de Pintura, nove anos depois do primeiro salão do Grupo dos Independentes. A finalidade do Salão Anual de Pintura era expor os trabalhos de conclusão dos alunos da Escola de Belas Artes do Recife, que apoiou a criação do Salão, outorgando-lhe prêmios de aquisição cujas obras adquiridas formam hoje a parte acadêmica do acervo do Departamento de Extensão Cultural da UFPE, ficando para o MEPE o acervo de arte moderna. Com o tempo, o Salão foi ganhando nomes diferentes, propostas diversas e novas categorias de arte, como escultura, desenho, gravura e até mesmo arquitetura. A partir de 1949, são abertas inscrições para artistas de fora do Estado, o que levou mais credibilidade ao evento. Em 1948, foi criada a Sociedade de Arte moderna do Recife – SAMR, que, por sua vez, montou o 4º Salão de Arte Moderna, dando sequência aos salões promovidos pelos Independentes, que divergiam do teor acadêmico do Salão de Pintura do MEPE, de influência belasarteana. Nos anos seguintes, os salões vão se consolidando no calendário artístico do Estado e, assim como todo evento, passam por suas crises, financeiras ou estritamente políticas. Foi o que aconteceu na década de 1970, com a suspensão dos salões até 1976, e nos anos 1990, quando o salão mofou em suas intenções até 1999, deixando de ser realizado. O evento só emergiu do naufrágio temporário em 2000, quando voltou ao cenário artístico da cidade, com o título Salão Pernambucano de Artes Plásticas, sua quadragésima quinta versão (houve um 40º Salão de Arte no Estado, fato que confunde quem pesquisa). O Salão Pernambucano de Artes Plásticas 2000 foi realizado no espaço do Observatório Cultural Malakoff.

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Os Salões de Arte do Estado de Pernambuco foram responsáveis pela formação de um acervo de altíssima qualidade reunido através dos prêmios de aquisição que se acumulam desde suas primeiras versões e que formam um verdadeiro tesouro cultural. Deste acervo constam obras de Vicente, Fédora e Joaquim do Rêgo Monteiro, Mário Nunes, Reynaldo Fonseca, Francisco Brennand, Murillo La Greca, Ladjane Bandeira, Wellington Virgolino, Lenine de Lima, João Câmara, Adão Pinheiro, Oriana Duarte, Ismael Caldas, Gil Vicente, Luciano Pinheiro, Raul Córdula, Roberto Lúcio, Montez Magno, Rodolfo Mesquita, Rinaldo, Humberto Magno, Flávio Emanuel, Dantas Suassuna, entre outros. A Escola de Belas Artes do Recife, afinal Sabe-se que havia uma tensão política e social no ar com mobilizações operárias e greves. Entre os anos 20 e 30, Pernambuco vivia uma inquietação em todos os sentidos, inclusive no setor cultural, que recebia então suas primeiras influências da Semana de 22. Em meio a discussões entre o novo e o tradicional, do moderno e o acadêmico surgiu a Escola de Belas Artes do Recife - EBAR, instituição destinada à formação acadêmica de artistas. O currículo dos cursos e a forma de acesso à escola batiam de frente com os questionamentos dos Independentes. Os embates entre o velho, tradicional, e o novo, o moderno, deram vez às articulações de um grupo de jovens artistas que propuseram a criação de um salão de arte independente. Para recordar, eram eles: Augusto Rodrigues, Bibiano Silva, Carlos de Holanda, Danilo Ramires, Elezier Xavier, Francisco Lauria, Hélio Feijó, Luiz Soares, Manoel Bandeira, Nestor Silva e Percy Lau. Em “Tratos da Arte em Pernambuco”, José Cláudio acrescenta ainda os nomes de J. Pimentel, José Norberto e Neves Deltro. A Escola de Belas Artes seria uma instituição destinada à capacitação dos artistas em nível universitário. A formação proposta batia de frente com as tendências modernas que aqui se desenvolviam, tendo como pioneiros Vicente, Cícero e Lula. Conta-se que o pintor paisagista Telles Júnior reivindicava a criação de uma escola de belas artes no Recife. Sua ideia interessou a muitos artistas ao longo do tempo. É importante dizer que a maioria dos artistas que formaram o grupo que criou a Escola era contrária à arte moderna que já se praticava no Recife. Ocorreu que, estando reunidos no ateliê de Mário Nunes e Álvaro Amorim, no dia 29 de março de 1932 os artistas Balthazar da Câmara, Bibiano Silva, Emílio Franzosi, Georges Munier, Jayme Oliveira, Heinrich Moser, Henrique Eliot, Luiz Matheus, Mário Nunes e Murillo La Greca, em cerimônia simples que constou da abertura de um livro de atas, criaram a Escola de Belas Artes do Recife. Eles conseguiram ao endereço nº 150, da Rua Benfica, a mansão chamada de “Solar dos Amorim”. A arquitetura do local já demonstrava por si a proposta da escola: uma construção neoclássica e pomposa. Dez anos depois da Semana, em 22 de agosto de 1930, no “Solar dos Amorim”, se iniciaram os

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cursos de arquitetura, pintura e escultura. A instituição contou com apoio de vários artistas e professores, que doaram livros para a biblioteca e quadros para a pinacoteca. Inicialmente, os currículos dos cursos da EBAR seguiam o modelo da Escola Nacional de Belas Artes criada no Rio de Janeiro pelo Imperador Dom Pedro II, mecenas da arte brasileira. De caráter acadêmico, os cursos, porém, faziam concessões aos estilos neoclássico e eclético que norteavam a arquitetura e a arte ornamental de décadas nos séculos XVII e XIX. A partir dos anos 1950 foram criados os cursos livres da EBAR oferecendo oficinas de arte com duração de três anos. Entre seus professores, estavam artistas renomados que trabalhavam no Estado tais como os irmãos Fédora e Vicente do Rêgo Monteiro, Lula Cardoso Ayres, Murillo La Greca, Laerte Baldini, Aurora Lima, Roberto Correia, Queralt Pratt, entre outros. Passaram artistas como Ypiranga Filho, João Câmara, José Tavares e Jairo Arcoverde, entre outros. Nos anos da ditadura, o Curso de Belas Artes foi extinto e começou a funcionar no mesmo prédio os cursos de Licenciatura em Educação Artística, Desenho Industrial e Comunicação Visual. Nos anos de 1970, foram transferidos para o Centro de Artes e Comunicação no Campus da UFPE.

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A Sociedade de Arte Moderna do Recife e o Atelier Coletivo

Em 1948, 12 anos depois da criação do Grupo dos Independentes, o ambiente artístico no Recife vibrava de entusiasmo, mas não contava com apoio institucional que correspondesse à sua instigante produção artística. Naquele ano, o jovem escultor Abelardo da Hora realizou sua primeira exposição na Associação dos Empregados do Comércio do Recife que ficava na Rua da Imperatriz, a mesma instituição que abrigara em 1936 o 2º Salão Independente. A partir da exposição de Abelardo, surgiram questionamentos motivados pela conjunção de muitas ideias e projetos grandiosos carregados de queixas constantes sobre a academização das artes plásticas. A questão acadêmica eivada do formalismo e dos cânones colocados sobre a prática artística provocava um estado de inércia nos jovens artistas, que sofriam com a carência de exposições e com a falta de contatos e, consequentemente, de conhecimento à produção da arte em outras cidades e regiões brasileiras. A exposição de Abelardo não foi importante apenas para ele. Uma consequência fundamental para a história da arte moderna no Recife foi a sua decisão, ao lado de Hélio Feijó, de fundarem uma sociedade que tinha como propósito pensar e discutir a arte moderna de forma interdisciplinar, conectada com outras categorias de arte, numa perspectiva de atualização e crescimento coletivo: a Sociedade de Arte Moderna do Recife – SAMR. Hélio Feijó era ainda um jovem artista e arquiteto que trabalhava no Departamento de Documentação e Cultura – DDC, da Secretaria de Educação e Cultura do Estado, dirigido pelo Sr. Césio Regueira. Hélio Feijó redigiu o parecer que autorizou o patrocínio do DDC para a exposição. A aproximação dos dois gerou uma forte amizade, e a ideia e realização da SAMR sua melhor consequência. Os dois conseguiram arregimentar a participação dos principais nomes da cultura artística no Recife da época. Em “Memória do Atelier Coletivo (Recife 1952 – 1957)”, editado pela Galeria Artespaço e Renato Magalhães Gouveia na década de 1970, José Cláudio, memória viva, nos informa o nome de quase todos os associados da SAMR: “Durante o 4º Salão, e no ir e vir das visitações e da exposição de Abelardo, foi criada a Sociedade de Arte Moderna do Recife por Abelardo da Hora e Hélio Feijó, tornando-se este seu primeiro presidente, de onde sairia o Atelier Coletivo. Da Sociedade faziam parte Augusto Reinaldo, que desenhou o emblema, Lula Cardoso Ayres, Francisco Brennand, Reynaldo Fonseca, Darel Valença Lins, Maria de Jesus Costa, Ladjane Bandeira, os fotógrafos Delson Lima e Alexandre Berzin, cabendo a este um ano depois, quando a presidência passou a Abelardo, dirigir um curso de fotografia dado pela Sociedade no qual saíram muitos fotógrafos, sendo um deles Clodomir Bezerra,

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o escultor e poeta Waldemar das Chagas, um Moacir amigo de Delson (e que tinha sido muito amigo de Nestor Silva), Abelardo Rodrigues, Tilde Canto e seu marido, o escritor Antonio Franca, Aderbal Jurema, o poeta Carlos Moreira, o engenheiro Manuel Caetano, que desenhava muito e fazia “móbiles”, o filho de Aníbal Bruno, Maurílio Bruno, da revista ”Resenha Literária” e o seu fundador Permínio Asfora, Edson Régis, que dirigia a revista “Região”, Waldemar de Oliveira, que editava a revista Contraponto, todas de literatura e arte, os petas Craveiro Leite, pai de Paulo Fernando Craveiro, José Gonçalves de Oliveira e Cezário Melo, pintores Eliezer Xavier e Mário Nunes, o escritor Hermilo Borba Filho, Ziembinski – que estava ajudando Hermilo na criação do Teatro do Estudante de Pernambuco – Joel Pontes, José Laurênio, Gilvan Samico, Barbosa Leite, Otávio de Freitas Júnior, Bernardo Ludemir, Geraldo Seabra, Gilberto Freyre, José Teixeira, Otávio Morais.” É importante notar que as pessoas citadas, a maioria intelectuais conhecidos até hoje, aderiram à discussão da arte moderna quando ainda era motivo de preconceito na tradicional sociedade pernambucana. A participação de pessoas como Gilberto Freyre, Pelópidas da Silveira, Abelardo Rodrigues, Aderbal Jurema e Waldemar de Oliveira, avalizou e prestigiou a SAMR. A princípio, o entusiasmo transbordava em forma de reuniões frequentadas pelos interessados em fazer algo novo e diferente, especialmente em oposição à disciplina acadêmica tradicional da Escola de Belas Artes. Era o tempo em que se consagraram os primeiros artistas modernos de Pernambuco e modernistas da Semana de 22, e artistas como Portinari, Segall, o Grupo Santa Helena de São Paulo, entre outros vigorosos artistas da ‘era’ moderna, como Dejanira, Emeric Marcier, Guignard, Iberê Camargo, entre outros. Foi ainda quando os concretistas e neoconcretistas se lançaram em Rio e São Paulo e a pintura naïfe se colocou no mercado através da pintura de Dejanira e de Heitor dos Prazeres. A SAMR colocava essas novas realidades em foco e com isso mexia com a cultura da cidade incentivando discussões e incrementando teorias ao produzir textos, conferências, palestras e encontros. O Atelier Coletivo do Recife Havia, porém, no âmago dos artistas, a necessidade de se incrementar o ofício da arte, a oficina, o ateliê. Embora a Sociedade de Arte Moderna fosse a válvula de escape de muitos artistas que não se viam encaixados no perfil convencional, ela privilegiava a teoria em detrimento da prática. Foi então que surgiu a ideia do Atelier Coletivo do Recife, criado em 07 de fevereiro de 1952, para dar continuidade ao trabalho já desenvolvido pela SAMR. O Atelier (assim mesmo, escrito em francês) funcionou até 1957, mudando, nesses seis anos, três vezes de lugar, localizando-se primeiro na Rua da Soledade, depois na Rua Velha e por

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fim na Rua da Matriz. As mudanças foram motivadas por problemas de caixa. A proposta era criar um ambiente artístico, voltado para as tendências vigentes na época. Abelardo liderava um grupo composto inicialmente por Gilvan Samico, Wilton de Souza e seu irmão Wellington Virgolino. Num segundo momento entraram José Cláudio, Corbiniano Lins, Celina Lima Verde, Ivan Carneiro, Marius Lauritzen Bern, Anchises Azevedo, Guita Charifker, Ionaldo Cavalcanti, Ladjane Bandeira, Bernardo Dimenstein, Genilson Soares e Armando Lacerda, entre outros. Com um novo conceito de arte transmitido pelos cursos livres, esses artistas tornaram-se figuras ímpares no circuito da arte pernambucana. Os mais jovens tornaram-se devotos do Atelier. O aluguel da casa era mantido por uma cota dividida entre alguns participantes e associados. Não se vendia, nem se comprava, mas a vontade de aprender era intensa. A proposta temática que Abelardo defendia, e praticada pelos outros participantes, buscava a expressão cultural do cotidiano do povo: a realidade das ruas e a imagem dos mocambos, a religiosidade cristã e os xangôs, as festas populares como o São João e o Carnaval, as visões do Sertão com o drama da seca – tudo o que representasse o povo pernambucano.

A escultura e suas interações – arte pública e muralística

Do Grupo dos Independentes constavam os escultores Bibiano Silva e Carlos de Hollanda. Infelizmente pouco se conhece sobre suas vidas e obras, assim como quase nada se sabe dos escultores anteriores a eles. Um dos grandes feitos de Abelardo da Hora, porém, fez com que o Recife se tornasse pródigo na arte da escultura: seu empenho na aprovação pela Câmara Municipal da Lei de Obrigatoriedade da inclusão de obras de arte nos edifícios com área maior de 1000m², conhecida como Lei das Obras de Arte. Esta lei resiste até hoje, a inclusão da arte é condição sine qua non para o “habite-se”. Com isto não só os escultores, mas também os pintores que trabalham com material de alta resistência, que permita ser aplicado em fachadas, como cerâmica de alta queima, beneficiam-se desde então. Do ponto de vista do mercado e da profissionalização do artista, essa Lei é um avanço, embora, como acontece na dinâmica dos processos artísticos, encontra-se desatualizada tornando-se necessária uma revisão profunda que vise disciplinar a escala e o material e a habilitação dos projetos em relação à qualidade da obra e a adequação à arquitetura do edifício. Outra questão referente ao assunto é a distinção que se deve fazer entre a arte vista no conceito de arte aplicada e o simples ornato ou objeto de decoração. Mesmo que este curso refira-se à arte moderna e contemporânea, em uma abordagem

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ampla, é necessário maior conhecimento dos escultores acadêmicos, pois, como professores da Escola de Belas Artes, eles instruíram os modernistas. Infelizmente pouco se conhece da obra e vida dos escultores de antes da Lei, pois não tiveram o mercado desbravado por ela. Neste meio estavam Edson Figueiredo, pai do escultor Jobson Figueiredo e orientador de Abelardo da Hora na Escola de Belas Artes e o português também professor da Escola Cassimiro Correia, além de Álvaro Amorim, Rosa Soares e Roberto Correia. Abelardo da Hora: Em “Memórias do Atelier Coletivo”, lê-se que, ao se referir à sua própria obra, Abelardo falava do sofrimento e do drama do povo: “Meus trabalhos eram de uma linguagem nova e de um expressionismo muito forte.” Abelardo e seus pares, principalmente Corbiniano Lins, Armando Lacerda e Wilton de Souza, na fase em que estavam reunidos no Atelier Coletivo, interpretaram os valores estéticos do povo manifestando-os através de admiráveis sínteses formais, sendo Abelardo, no entanto, o precursor desse “estilo”. De sua fase social-expressionista, constam obras como “A Fome e o Brado”, “Seu Birunga” e “Água Para o Morro”. Abelardo passou a ter influência da cerâmica popular, especialmente de Caruaru, que se pode notar nas esculturas como “Cantadores” e “Vendedor de Caldo de Cana” – Parque 13 de Maio, Sertanejo – Praça em frente ao Clube Internacional; Monumento ao Frevo; Monumento ao Maracatu – Rua da Aurora; Memorial aos Retirantes – Parque Dona Lindú – Monumento a Miguel Arraes – entorno do Aeroporto. Há também o mural cerâmico Nabuco e a Abolição, realizado em 1950, na fachada do edifício Joaquim Nabuco, na Praça Joaquim Nabuco. Abelardo desenhou no ano de 1962 o álbum Meninos do Recife, poética denúncia da miséria dos entornos da cidade e a série Danças Brasileiras, ambas em bico de pena; Família, de 1977, aguadas de nanquim; e em 2004, a série É Hora de Brincar, em aguada de nanquim colorido. Francisco Brennand: Ao lado de Abelardo e Corbiniano Lins, são os mais presentes escultores da cidade. Brennand é o autor do maior acervo público do Recife, um conjunto de obras composto de esculturas e murais cerâmicos de alta queima cuja matéria é desenvolvida por ele próprio por meio das pesquisas da tradição cerâmica que herdou de sua família, tradicionais empresários e industriais dessa atividade no Brasil. Ele é o autor do magnífico conjunto de esculturas instalado no molhe de pedras dos arrecifes em frente ao Marco Zero do Recife e do importante mural cerâmico realizado em 1952 na Rua das Flores, centro da cidade, sobre a Batalha dos Guararapes.

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Brennand recebeu de Abelardo suas primeiras orientações artísticas, no período em que trabalhou para Ricardo, seu pai, na fábrica da família. Brennand foi estudar na Europa com diversos mestres, inclusive André Lothe. Ao retornar de seus estudos na Europa ele montou o seu ateliê-oficina na antiga fábrica de cerâmica da famíia, na Várzea, onde trabalha até hoje. Seu ateliê é uma atração do turismo cultural por sua beleza arquitetônica e pela importância do acervo escultórico lá existente - pode-se mesmo chamá-lo de templo, graças ao silêncio e ao respeito que o ambiente inspira. Brennand é pintor na origem, mas sua convivência com a cerâmica fez com que seu material expressivo transcendesse à cor e abarcasse a terracota (outro nome para cerâmica – terra cosida – geralmente chama-se de terracota a cerâmica escultórica que passou por uma só queima, geralmente baixa e sem cobertura de engobe, vidro ou esmalte). Analisando a linha do tempo em sua obra, verificamos então que cerâmica e pintura sempre travaram intenso diálogo, mas hoje são aspectos diferentes de sua arte: a matéria cerâmica contaminou, com as possibilidades tridimensionais, a escultura que realiza agora, e a pintura, em muitas ocasiões, foi contaminada pela cor morna da terra queimada e seus esmaltes. É um escultor dos raros que empregam a cerâmica como material expressivo, gesto comumente afeito ao artesão ou ao designer. Esta opção influenciou outros artistas de Pernambuco e da Paraíba, como Ferreirinha, Plínio Palhano e os paraibanos Miguel dos Santos e Chico Ferreira. Brennand transformou-se neste artista monumental que o Nordeste e o Brasil conhecem hoje. Monumental não apenas pela dimensão física de sua enorme produção, mas pela dimensão simbólica de sua obra. Corbiniano Lins: Assim como Abelardo, dedica-se a esculpir as características populares do Recife representando aspectos da vida dos trabalhadores, como pescadores, lavadeiras, jornaleiros, músicos, vendedores, etc. Também é, como Abelardo e Brennand, admirador do corpo feminino, grande e constante tema de sua obra. Ele desenvolve seu trabalho em dois materiais principais, a madeira e o alumínio. Em alumínio, onde está plasmada a maior parte de sua obra, ele também desenvolveu uma técnica de fundição a partir da “cera perdida”, também usada para a fundição de joias de ouro e prata, porém com o molde feito em isopor que, com a cera, volatiliza-se com o calor deixando na areia de fundição o vazio para ser ocupado pelo alumínio liquefeito, que, ao esfriar, torna-se a escultura. Ypiranga Filho: Grande mestre da arte e da técnica, ex-aluno da escola de Belas Artes, integrante do

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Movimento da Ribeira, em Olinda. Ypiranga é pioneiro no Nordeste da assamblage – técnica escultórica de criação de objetos através da colagem de diversos materiais – que ele faz a partir do ferro e de objetos de origem metalúrgica. Ele morou na Alemanha nos anos de 1960 e no seu retorno para Recife se integrou no Movimento da Ribeira, ao lado de Adão Pinheiro, Guita, José Tavares, José Barbosa e outros. É um vanguardista, um dos pioneiro da arte contemporânea no Nordeste. Tiago Amorim: Também pintor e precursor da “talha” de Olinda, desenvolveu a terracota como sua matéria escultórica junto aos artesãos e artistas de Tracunhaém, onde por muito tempo manteve ateliê e foi orientador. Ele foi Monge Beneditino e conservou em Tracunhaém a mesma atitude sacerdotal que mantém em Olinda, apoiando e transmitindo seus conhecimentos de mestre a garotos da comunidade do entorno de seu ateliê. É uma referência como líder comunitário e pensador das questões que envolvem arte e artesanato. Sua esculturas de maior porte se encontram em jardins residenciais e institucionais. José Cláudio: Outro pintor, este por excelência, que também lança mão da escultura. José Cláudio experimentou diversas matérias escultóricas optando finalmente pelo granito a partir de oficina que ministrou aos artesãos da cantaria em granito na região de Nova Jerusalém, sertão pernambucano. Na ocasião ele também orientou os artesãos na direção da criação de suas esculturas, tendo como modelo a cultura do povo do lugar. José Cláudio é um artista eclético, pintor e desenhista que já foi ligado à arte de vanguarda. A escultura representa uma das mais importantes sequências de sua obra. Além de artista plástico, José Cláudio é escritor e pesquisador da arte pernambucana, autor de títulos como “Tratos da Arte em Pernambuco” e “Memória do Atelier Coletivo do Recife”. Como ele, também escrevem: Brennand, João Câmara, Marcos Cordeiro, Paulo Bruscky, Plínio Palhano, Maria do Carmo Nino e Sebastião Pedrosa, entre outros, praticantes e interessados na teoria e crítica de arte - e mesmo literatura. Na 4ª aula voltaremos ao assunto. Armando Lacerda: Sua obra principal é a “Estátua do Padre Cícero”, no Horto do Juazeiro do Ceará, com a altura de oito andares. Possui no Bairro do Recife a “Cabeça de Ascenso Ferreira”, na Praça com seu nome. Assim como Corbiniano Lins, autor de obras em várias cidades nordestinas, seguiu os caminhos simplificados da escultura popular, sintetizando curvas dinâmicas à procura de harmonia e expressão. 20


Marianne Peretti: Escultora e vitralista nascida em Paris que vive em Pernambuco desde 1953, e há décadas reside em Olinda. Ela é filha de pai brasileiro. É patente sua participação em obras de grandes arquitetos no Recife e em outras cidades brasileiras, mas suas obras mais conhecidas estão nos edifícios de Oscar Niemeyer desde que o conheceu na Europa quando de seu exílio. Sua obra mais importante talvez seja o conjunto de vitrais da Catedral de Brasília, mas sua obra está também presente em outros edifícios assinados por Niemeyer na Capital Federal, como os vitrais do Panteão da Pátria, do Palácio do Jaburu, do Memorial JK e da Câmara dos Deputados, por exemplo. No Recife, além das obras particulares em fachadas e halls de diversos edifícios, ela tem o vitral do Tribunal Regional Federal e a escultura em bronze da Escola de Contas Públicas Professor Barreto Guimarães. Digno de citação também é o vitral do Memorial da Cabanagem, em Belém do Pará. Jobson Figueiredo: Outro escultor presente na cidade com obras como os monumentos militares que estão em frente ao Quartel do Derby e outros na pracinha atrás do Cemitério dos Ingleses. Ele também é autor de muitas obras em edifícios produzidas a partir da Lei das Esculturas, principalmente em prédios de Boa Viagem. Demétrio: Tem obras por todo o centro do Recife, pois ele é autor das diversas esculturas, geralmente feitas em concreto moldado, de poetas da cidade, como Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, João Cabral de Mello Neto, Joaquim Cardoso, entre outras que estão distribuídas pela cidade. Além disso, ele é autor do monumento “Tortura Nunca Mais”. Helder Ferrer: Outro escultor que trabalha com diversos materiais. Suas obras mais conhecidas são ligadas ao movimento Manguebeat e refletem o ambiente vegetal e a fauna dos mangues do entorno do Recife. Uma de suas obras conhecidas é um enorme caranguejo de chapas de ferro moldadas e soldadas que por muito tempo ficou na Rua da Aurora ao redor do monumento “Tortura Nunca Mais”, onde estão também outras esculturas de autores diferentes. Paulo Andrade: Escultor e designer que utiliza, sobretudo, o metal em suas peças moldadas e dobradas em alumínio e ferro. Designer de joias, mobiliário e instalações de supermercados e lojas. Sua arte reflete sua condição metropolitana, seu gosto pela estética da organização e da ordem.

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Ferreira: Como Brennand, também utiliza a cerâmica como matéria, e produz suas esculturas em alta queima na sua oficina-ateliê de Campo Grande. Sua produção envolve esculturas e painéis cerâmicos, mas também produz azulejaria pintada em painéis e cria elegantes objetos de porcelana. Ferreira também é pintor e desenhista de muita presença nas galerias de arte da cidade. É autor do mural Navio Chegando, da Capitania dos Portos, de uma série de painéis cerâmicos no Country Club e na Universidade Católica de Pernambuco. Ele também experimentou a escultura em ferro soldado e o mosaico. Outros artistas da escultura: João Batista de Queiroz que trabalhou com madeira, principalmente, e com resina plástica, matéria dos marcos da entrada do Porto do Recife – um verde outro vermelho; Cavani Rosas, escultor e desenhista, mestre da moldagem em concreto, desenvolveu técnicas de moldagem e desmoldagem formando assim diversos novos escultores; Alex Mont’Elberto, escultor e designer de mobiliário presente nas fachadas dos edifícios em várias regiões da cidade; Nicola, mais conhecido como santeiro, utiliza a madeira para esculpir grandes cabeças de São Francisco que, embora sejam colecionadas como artesanato de qualidade, são na verdade esculturas sacras; Pedro Índio, escultor de pedra, Adolfo Sérgio, mestre da madeira, Amaro Maciel e Zeferino, “ferreiros” já falecidos, formam uma geração de escultores espontâneos de Olinda. Na arte contemporânea, assunto que veremos na 4ª aula, citaremos as obras dos artistas Marcelo Silveira, Marcelo Coutinho, Braz Marinho, Cristina Machado, José Paulo, Maurício Castro,

A gráfica moderna e o desenho no Recife

O Gráfico Amador: Em 1954, muito antes da criação da Oficina Guaianases de Gravura, o escritor e editor Gastão de Holanda, acompanhado do designer Aloísio Magalhães, dos escritores Orlando da Costa Ferreira e José Laurênio Melo, criaram uma oficina experimental de artes gráficas que nomearam de O Gráfico Amador. Esta casa de criação, composta escritores e artistas do livro, colocou o Recife na vanguarda das artes gráficas e nos legou uma profícua produção de textos e imagens. A concepção do livro como objeto de arte fixou-se na concepção dos escritores e do público, e orientou a criação de mídias expressivas que apareceram posteriormente, como a arte postal (ou mail-art) e o Livro de Artista.

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O Gráfico Amador produzia pequenas edições tipográficas numeradas e assinadas, a exemplo da praxe existente na produção de gravura. A experimentação foi sua tônica – veja-se, por exemplo, a obra e a vida de Aloisio Magalhães, o precursor do desenho Industrial (design) no Brasil, mentor da criação da Escola Superior de Desenho Industrial, ESDI, no Rio de Janeiro. O Gráfico Amador contava com a colaboração de 57 sócios, entre artistas e intelectuais, mantinha contatos com o Corbusier Graphique, de Paris, e o Curwen Press, de Londres. Segundo a pesquisadora Lúcia Gaspar, da Biblioteca da Fundação Joaquim Nabuco, estão catalogadas 27 edições tipográficas ilustradas por artistas como Adão Pinheiro – que ilustrou, a partir da xilogravura, o livro de poemas “Gesta”, de Jorge Wanderley. Entre estas publicações constam “Pregão Turístico do Recife“ e “Aniki Bobó” de João Cabral de Mello Neto; “Ode” de Ariano Suassuna; “Memórias do Boi Sarapião” de Carlos Pena Filho; A “Tecelã”, de Mauro Mota; “Ciclo”, de Carlos Drummond de Andrade e “O Burro de Ouro”, de Gastão de Holanda”. O livro como objeto de arte, característica fundamental na concepção dos que fizeram O Gráfico Amador, é um conceito que cinge a relação entre escritor e artista, haja vista a produção das “iluminuras”, ilustrações manual dos livros na Idade Média, primórdios da imprensa. A evolução da imprensa nos levou à alta tecnologia que agrega hoje várias categorias de arte, principalmente a fotografia. Na contemporaneidade, porém, além da adoção do design gráfico moderno, como O Gráfico Amador, chega-nos também a concepção do “Livro de Artista”, consequência do olhar abrangente dos novos tempos da arte que, entre tantas fronteiras rompidas, se concretiza pela utilização de novos meios – novas mídias – como o correio (mail art, arte postal), a fotocópia (xerografia), o cinema e o vídeo (cinema de artistas e videoarte). O desenho como arte O desenho em papel tornou-se produto artístico das galerias do Recife nas décadas de 50/60, ocupando seu lugar nas coleções particulares e acervos públicos. Esta foi uma das conquistas da modernidade, desde que no período acadêmico o desenho não existia isoladamente como categoria de arte, ele tinha apenas a função de estrutura para a pintura, embora sendo o elemento básico para sua prática. As artes gráficas sempre se destacaram no Recife pelo reflexo da obra de artistas desenhistas como Manuel Bandeira, Percy Lau, Hélio Feijó, Augusto Rodrigues, Aloisio Magalhães; e dos ilustradores da imprensa literária nos anos 50/60, como Ladjane Bandeira e Zuleno, e ainda pela arte desenhada por artistas de outras categorias, como a pintura e a escultura, como Lula Cardoso Ayres, Abelardo da Hora, Francisco Brennand, Adão Pinheiro, João Câmara e Delano, por exemplo.

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Foi também nas décadas de 50 e 70 que surgiram as obras de Maria Carmem e Gita Charifker, duas das mais importantes artistas brasileiras que se destacaram através do desenho e da aquarela – técnica artística que muitas vezes, na arte moderna, se coloca na fronteira entre o desenho e a pintura. Maria Carmem chegou a ser colocada criticamente por Pietro Maria Bardi, curador do MASP, onde ela realizou uma grande exposição, como a mais importante artista do desenho brasileiro. Gita também se destaca no mesmo afã pelo desenho. Em 1972 o crítico de arte carioca Roberto Pontual escreveu: ”Desde a vinda para o Rio de Janeiro, em fins de 1970, depois de longa atividade como desenhista no Recife, Guita tem dado sequência a um desenho que absorve, acasala, manipula e organiza o sonho.” Interessante é notar que desde Percy Lau se pratica um tipo de desenho minucioso, de traços finos que se entrelaçam como uma malha. Vejam-se as ilustrações de Percy Lau para o livro “Tipos e Aspectos do Brasil”, de 1949, obra chave para a geografia física e humana tratada oficialmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que o editou. Este desenho como malha, como Bardi referiu a arte de Maria Carmem, se repetiu também na obra ilustrativa de Manuel Bandeira – veja-se o livro de Gilberto Freyre.

A gravura em Pernambuco

A necessidade de expandir o conhecimento: a partir desse princípio a gravura surgiu na história humana. Na concepção moderna, a gravura é originária da China e sua técnica primeira foi a gravura em Madeira – xilogravura, que atingiu seu auge no Japão no período Ukuioê (século XIX). A gravura é, em essência, a técnica de repassar uma imagem gravada numa matriz para outro meio, geralmente o papel. Mãe da imprensa, a gravura adquiriu com o tempo o status de arte. A matriz gravada saiu da madeira para o metal (buril, ponta seca, água forte e água tinta), para a pedra (litogravuras), até às técnicas modernas de reprodução de imagens como o estêncil e a serigrafia. A xilogravura foi em determinada época o principal meio de editar imagens na imprensa. Trabalhadas em tacos de madeira, a xilo, como é popularmente chamada a matriz de xilogravura, cabe perfeitamente no equipamento de impressão tipográfica, especialmente nos prelos ou nas pequenas máquinas, como as “Minervas”, responsáveis pela impressão dos cordéis com as capas em xilo. Este uso não se restringe ao Nordeste do Brasil. Durante a guerra do Paraguai, existiu um jornal em Assunção editado em Guarani, intitulado Cabchui, onde as reportagens de guerra eram impressas em xilo, e durante a revolução mexicana o grande artista Guadalupe Posada imprimia em xilo, na sua pequena oficina gráfica, em

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Guadalajara, um pasquim diário sobre os combates e os fatos políticos. Em Pernambuco, a gravura tem uma importância fundamental a partir da xilogravura popular e a obra gráfica de Gilvan Samico, e da obra litográfica do pintor e gravador João Câmara. Samico tornou-se um dos mais importantes eruditos do Brasil, foi o mestre da xilogravura erudita pernambucana. Inspirado nos contos e lendas populares e nos textos dos folhetos de “cordel”, como fizeram também os xilogravadores que ilustravam as capas, ele aprofundou este universo simbólico e com isto determinou a identidade de sua obra única. Viveu no Rio de Janeiro e em São Pulo, conviveu com as obras de Lívio Abramo e Oswaldo Goeldi na década de 50. Câmara, por sua vez, além de ser o grande artista que todos conhecem, foi o responsável pela criação da Oficina Guaianases de Gravura, fundada em Olinda em 1974. Depois de realizar o conjunto de 100 litogravuras da antológica série “Cenas da Vida Brasileira”, resolveu socializar com um grupo de artistas amigos, entre eles o pintor Delano, os equipamentos adquiridos para tal: pedras e prensas, principalmente. O resultado foi a criação da Oficina Guaianases, assim nomeada por ter como início o antigo ateliê de Câmara na Rua Guianeses, em Campo Grande. A abrangência da gravura em Pernambuco vai muito mais longe, como veremos a seguir. Os Clubes de Gravura Ainda no final da década de 1950, em busca da ideologia sócio-política que procurava para expandir suas ideias, o artista gaúcho Carlos Scliar, com um grupo de amigos, criou do Clube de Gravura de Porto Alegre. Ele assumira a tarefa de divulgar pelo Brasil a importância da gravura como expressão artística ideal para expandir a problemática social brasileira em um raio de alcance maior que a obra de arte convencional. Scliar procurou Abelardo da Hora, dirigente do Atelier Coletivo, em busca da ideologia sócio-política por ele difundida e vigente no Atelier através das ideias de Abelardo. A intenção do artista gaúcho era propor a criação de um clube de gravura no Recife. Com esta inspiração, os artistas do Atelier Coletivo fundaram, em 1952, o Clube da Gravura do Recife, composto pelos artistas Abelardo da Hora, Wellington Virgolino, Wilton de Souza, Gilvan Samico e Ionaldo Cavalcanti. O Clube editou em 57 um álbum pioneiro de xilogravura. A ideia dos clubes de gravura foi facilitar e democratizar a aquisição de arte por edições comercializadas entre seus sócios, que pagavam uma mensalidade e eram sorteados com quatro gravuras por ano. Isto inspirou a formação dos chamados “consórcios de arte”, nos quais obras de maior valor são vendidas em grupo e a prazo, isto é, uma vez o grupo completo, as prestações são divididas em número igual aos dos consorciados. Outros clubes de gravura foram criados, sendo o mais ativo o Clube de Gravura da Oficina Guaianases, que

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funcionou por mais de dois anos e editou gravuras de Liliane Dardot, José Patrício, Pérside Omena, Maurício Silva, entre outros. Oficina Guaianases de Gravura A Guaianases serviu a cerca de cem sócios artistas que criaram, e ainda criam suas obras, pois a Oficina ainda existe funcionando no Centro de Artes da UFPE, através de seus equipamentos e da habilidade do impressor Hélio Soares. O impressor Alberto, o outro grande artífice pernambucano do delicado conhecimento da impressão litográfica, já é falecido. A Guaianases ainda cumpre um grande papel na formação e na socialização dos artistas do Recife, pois dela foram sócios artistas como Delano, José Carlos Viana, Liliane Dardot, Luciano Pinheiro, Gil Vicente, Tereza Costa Rêgo, Petrônio Cunha, Marcos Cordeiro, Maria Carmem, Mariza Lacerda, José de Moura, José Patrício, Alexandre Nóbrega, Piedade Moura, Pérside Omena, Maria Tomaselli, Dulce Lobo, Samico, Maurício Silva, José Paulo, Maurício Castro, Amélia Couto, entre tantos outros. A Guaianases deu a Olinda a posição de referência nacional da produção de gravura e recuperou uma técnica tradicional de produção de imagens colocando-a a serviço dos artistas, preservando também o saber dos antigos litógrafos. Exemplos da gravura pernambucana são encontrados em acervos como a coleção de Giuseppe Baccaro, do Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco – acervo iconográfico e fotográfico, com coleções de estampas (rótulos de cachaça e cigarro), alguns de origem popular em lito e xilogravura; no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco – principalmente o acervo que pertenceu ao colecionador Abelardo Rodrigues, composto de gravuras, documentos, fotografias e desenhos procedentes de várias personalidades relacionadas à sua vida intelectual; na Biblioteca Joaquim Cardoso do Centro de Artes e Comunicação da UFPE, que abriga o acervo de litogravuras da Oficina Guaianases. A gravura de Samico Gilvan Samico é, para muitos historiadores, críticos e curadores de arte, um dos mais importantes artistas da gravura do mundo. Utilizando a xilogravura como seu meio principal, ele criou um universo fantástico tomando como base o imaginário popular nordestino. Em suas entrevistas ele lembra a importância determinante de Ariano Suassuna na sua arte quando o procurou em busca de conselhos do amigo, e Ariano lhe disse que “procurasse” no mundo mágico da poesia e da gráfica de cordel. Daí sua arte se alinhou numa vertente de representações do mundo ao modo, podemos dizer, binário que só a xilogravura comporta. Vemos hoje seu nome ao lado dos mestres da gravura moderna brasileira, como Oswald Goeldi, Lívio Abramo, ambos seus antigos mestres, e Maria Bonnomi, a grande gravadora experimentalista de São Paulo, a única ainda viva dos quatro.

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Porém, Samico não é somente o gravador, é sobretudo, o desenhista e o pintor. O desenhista tendente à fantasia da perfeição que nos surpreende quando vemos seus desenhos dos ano 50, o pintor quando conhecemos as duas direções de sua arte: a imagística, que reproduz o universo de sua xilogravura, e a virtuosa, representada por suas paisagens e seus retratos.

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A Figuração do Recife

Os artistas cujos nomes estão citados acima, com alguns acréscimos, formam o ambiente artístico de Pernambuco na primeira metade do século passado. O surgimento de Olinda como cidade propícia à atividade artística na década de 1950 provocou a descentralização não apenas dos artistas plásticos, mas também dos artistas do teatro e da música. A partir de então, mesmo com o advento da ditadura, o meio artístico se ampliou e sedimentou-se com níveis críticos de excelência. Em meados do século passado, Recife se torna um polo de arte figurativa chamada também de Figuração do Recife. Alguns jornalistas ligados à crítica de arte, talvez inspirados pelo movimento filosófico do século XIX intitulado de Escola do Recife, nomearam, assim, nas décadas de 1960/1970, os artistas de Recife e Olinda. Tinham em comum algumas características, como a paisagem, a temática popular e a superabundância formal própria da arte barroca. Mas a Escola filosófica do Recife foi um acontecimento muito diferente que vale a pena ser lembrado: Nascida na Faculdade de Direito do Recife entre os anos de 1860 e 1880, a Escola do Recife teve a liderança do filósofo sergipano Tobias Barreto, que foi acompanhado por personalidades de grande importância intelectual, como Sílvio Romero, Artur Orlando, Clóvis Beviláqua, Capistrano de Abreu, Graça Aranha, Martins Júnior, Faelante da Câmara, Urbano Santos da Costa Araújo, Abelardo Lobo, Vitoriano Palhares, José Higino Duarte Pereira, Araripe Júnior, Gumercindo Bessa e João Carneiro. A comparação entre estes filósofos e juristas do século XIX com o meio artísitico certamente se deve à identidade de propósitos em relação à autenticidade – do pensamento, em relação aos filósofos, e do olhar, em relação aos artistas. Pode-se, no entanto, pensar em resquícios do Regionalismo pernambucano próprio do pensamento de Gilberto Freyre. Paralamente, porém, em Olinda nascia uma variação da mesma visão de arte, que Adão Pinheiro apelidou, inteligentemente, de Neobarroco, algo que pronunciava o interesse pela desordem estética que caracteriza este “estilo” que vigorou na Europa advindo da contrarreforma e, com a colonização, vigorou na América Ibérica, quando adquiriu “cor local”. Adão referia-se ao ornamento das igrejas, tanto pintados como entalhados, e a influência disto em artistas locais como José Barbosa, Guita Charifker, José Tavares, Ladjane Bandeira, Reynaldo Fonseca, Wellington Virgolino e, inclusive, ele mesmo, entre outros. No entanto, para o meio artístico do Recife àquela época vingou o termo Figuração do Recife,

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muitíssimo utilizado para classificar a quase totalidade da produção da arte local antes da contemporaneidade, e muito criticado por correntes críticas exteriores ao Nordeste. Figuração do Recife abrangeu a quase todos. Na “crônica” artístico-social da época, relacionamos os pioneiros Vicente, Cícero e Lula, e ainda o Grupo dos Independentes, além dos artistas de Olinda, com destaque para João Câmara, Tereza Costa Rêgo, Bernardo Dimenstein, Roberto Amorim, Tiago Amorim e muitos outros.

Olinda

Quem conhece o Sítio Histórico de Olinda sabe que ele é uma joia urbana, arquitetônica, paisagística e comunitária. Um lugar onde todos se conhecem, se respeitam, se gostam e quase todos que aqui moram, de alguma maneira, são artistas de Olinda, como se proclamou um Bajado um dia. Nos primórdios de seus movimentos artísticos modernos, iniciados na década de 1950 por Adão Pinheiro e seus companheiros de ateliê Anchises Azevedo e Montez Magno, e, posteriormente, a presença de vários outros artistas atraídos por fatores como a tranquilidade, a disponibilidade de sobrados com ótimos espaços para ateliês para alugar por preços mais em conta do que no Recife, e o conforto de sair do foco que era Recife na época da ditadura, como Ypiranga Filho, Guita Charifker, José Tavares, José Amorim, João Câmara e Vicente do Rêgo Monteiro, que a convite do Prefeito Eufrásio Barbosa, o incentivador dos artistas na década de 1960, foi Secretário Municipal de Cultura e Turismo, substituindo Adão . Eles foram para Olinda e criaram suas famílias e, consequentemente, aqui nasceu uma nova geração de artistas que hoje estão adultos, colocando-se com sucesso no meio artístico nacional como pintores, escultores gravadores, “designers”, artesãos, fotógrafos, performáticos – aliás, uma tradição da cidade – e contemporâneos, no sentido da atualidade da arte que não se limita mais a categorias artísticas. Eis a Olinda de hoje, a “cidade dos artistas” com suas diversas faces, miscigenada de novas e antigas manifestações artísticas, com seu carnaval impregnado nas ladeiras de som e movimento, e sua democracia barroca. Cidade impregnada de uma arte que almeja às visões do paraíso, basta percorrer a obra dos seus artistas: José Barbosa, Luciano Pinheiro, Guita Charifker, Gilvan Samico, Tereza Costa Rêgo, Maria Carmem, Tiago Amorim, José Cláudio, Humberto Magno, Liliane Dardot, Petrônio Cunha, Roberto Peixe, Marisa Varela, Marisa Lacerda, e os filhos-artistas Mané Tatu , de José Cláudio, Marcelo Peregrino, de Samico, Catarina Aragão e Paulinho do Amparo de Humberto Magno e Iza do Amparo, Marilah Dardot, de Liliane Dardot, Juliana Notari, de Roberto Peixe e Juliana Calheiros, de Sônia e Ivaldevan

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Calheiros, por exemplo. A pintura é a principal arte praticada aqui. Desde os primeiros movimentos artísticos dos anos sessenta até agora, os pintores dominam a cena, mesmo aqui existindo excelências em todas as outras categorias da arte. Mas, no campo das artes visuais, este domínio é apenas quantitativo, pois os desenhistas, gravadores, fotógrafos escultores e artistas de várias linguagens modernas e contemporâneas, também exercem um papel qualitativo. Há década se falou em Arte Provincial - a crítica e curadora Aracy Amaral foi quem proclamou esta, digamos, categoria sociológica da arte. Nada mais correto, pelo menos se conhecemos Olinda e seus artistas. Não estamos colocando “província” como “atraso”, mas como um privilégio urbano, um tesouro vivencial de cultura preservada, patrimônio humano e material. Os artistas que para aqui vieram nos anos 60 eram, na maioria, alunos da Escola de Belas Artes da UFPE ou de seu famoso Curso Livre e tiveram formação ou treinamento pelas mãos de artistas como Vicente do Rêgo Monteiro, Lula Cardoso Ayres, Reynaldo Fonseca, para citar somente estes três integrantes do notável naipe de artistas-professores da época. Eles são, entre outros, João Câmara, Jairo Arcoverde, José Tavares, Ypiranga Filho – que se iniciou nos ateliês livres e depois, através de concurso, tornou-se professor do curso regular de nível superior. Portanto, os pioneiros da modernidade olindense foram treinados pela persistência do olhar sobre as obras de arte nas casas-ateliês onde viviam com seus pais; depois, nas questões pragmáticas, pelos próprios pais, quando os filhos apontavam para a velha mania da arte. Agregaram-se a eles Guita Charifker, Tiago Amorim, José Cláudio, Samico e Baccaro, que também nasceram para a arte a partir de estudos e orientações com os mestres da época. Os Naïfes Nos anos de 1950, Bajado, artista naïfe por excelência – ou ingênuo – já estava aqui e assistiu a chegada dos novos que interagiram com ele. É necessário distinguir o universo da arte dita “popular”, que é mais complexo do que a maioria das pessoas pode imaginar, pois este conceito é duvidoso quando se nota que por popular se quer dizer pobre de cultura ou pertencente a uma classe na qual a cultura não passa de vulgar. Quem pensa dessa maneira, coloca-se numa posição preconceituosa. Não, arte é arte em qualquer contexto. Para comentar e definir este campo de conhecimento gosto de usar os preceitos com os quais o crítico de arte Oscar D’Ambrósio, professor da USP, analisou a pintura da paraibana Analice Uchoa no prefácio do seu livro. Ele coloca que a arte naïfe é uma produção simbólica ingênua onde o detalhe tem um papel preponderante. Citando o teórico Georges Kasper, ele coloca a arte naïfe como “arte primitiva moderna”. Falamos então de “arte primitiva”. Esta é a arte de povos que vivem defasados no tempo,

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povos tribais, comunidades rurais, oleiras, indígenas ou semelhantes, que se expressam artisticamente. Podemos falar também em “pintores folclóricos”, aqueles que plasmam em suas cores vivas as danças e os ritos populares. Isto ocorre em Olinda nos quadros que retratam os caboclos de lança, maracatus, carnaval, cirandas, etc. Os “maneiristas” são aqueles que elaboram cuidadosamente a superfície da tela em busca de uma suposta perfeição. Os pintores “ínsitos”, ou inatos, são universais, estão em todas as sociedades sem necessitarem formação ou inclusão em movimentos artísticos eruditos. Os “instintivos” são os “pintores do coração”, da religiosidade mágica ou negra como o Candomblé. Há ainda os que fazem “arte bruta”, classificação vinda de Jean Dubufet, como os psicopatas, malucos, drogados ou alucinados. Tudo isto ocorre na cultura do mundo, e Olinda está no mundo, vê o mundo, é o mundo, como simbolicamente se considera qualquer cidade.

A Arte Armorial

Ainda na década de 1960, Ariano Suassuna codifica sua visão da arte nordestina, tendo lançado o Movimento Armorial, que repercute em todas as manifestações artísticas encontradas aqui no Nordeste: artes visuais, música, dança, teatro e literatura. Nas artes visuais, sua própria obra desenhada, pintada ou realizada em outras técnicas, define formalmente a “Arte Armorial”, por muitos denominada de “estilo armorial” por conter elementos estilísticos preponderantes. Nem todos concordam com isto, pois o principal motivo da existência do “armorial” reside no conteúdo historicamente nordestino, fruto do embasamento ibérico de nossa cultura e do aspecto medieval da representação gráfico-plástica de nosso olhar, principalmente se vermos a xilogravura das capas dos “cordéis”, que por sua vez são o receptáculo literário desta herança. Ariano enxerga em todas as manifestações de nossa cultura autêntica e pura, ainda sem as máculas da civilização contemporânea pelo capital, pela vulgaridade trazida pelo lucro fácil, os mesmos traços da narrativa medieval – poesia de cordel e menestréis –, da música – moda de viola e música medieval, e das manifestações das artes plásticas que se alinham com a estética dos “brasões”, isto é, das “armas” das famílias, grupos, clãs e reinados. Armorial é o coletivo de “armas”, no sentido de “brasões”, e para Ariano a tradução disso está na linearidade do desenho, na dimensionalidade da figura e da composição, como foi na tapeçaria e na pintura medieval. Ariano, ele mesmo, é um grande artista e designer, desenvolveu um “alfabeto armorial”

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baseado nos “ferros de gado”, que são o equipamento para marcar com ferro-em-brasa as reses de um determinado rebanho. Elegendo a cidade de Taperoá como sua cidade – ele nasceu em João Pessoa, no Palácio do Governo, pois seu pai, João Suassuna, era à época Presidente da Província da Paraíba –, Ariano a transformou em centro das visões históricas eivadas da magia de sua arte, e construiu um mundo paralelo de imagens fantásticas que, se vistos por sua mente sem fronteiras formais ou acadêmicas, mostrará uma realidade sóciopolítica belíssima, embora assustadora. Muitos artistas visuais pernambucanos se ombrearam com Ariano, sendo o mais importante, como uma baliza deste movimento, o pintor e xilogravador Gilvan Samico. Muitos outros o seguiram e seguem: seu filho Manuel Dantas Suassuna, sobrinho Romero Andrade Lima, seu genro Alexandre Nóbrega, o escultor em cerâmica e pintor Miguel dos Santos – pernambucano de Caruaru residente em João Pessoa - , Bernardo Dimenstein, Aluísio Braga, entre outros.

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A arte contemporânea

É comum a incompreensão do termo “arte contemporânea”. Normalmente, o público geral entende contemporâneo com coetâneo, da mesma época, o que é correto do ponto de vista da língua, mas não da arte. Arte contemporânea não é a que é feita ao mesmo tempo, pois assim, uma instalação e uma pintura naïfe, ambas realizadas em 2014, seriam exemplos de arte contemporânea. O que aconteceu com a criação das artes visuais, chamadas de artes plásticas, desde o Renascimento até meados do século XX, foi uma sucessão lógica de causas e efeitos que acompanhou a evolução social atrelada aos mesmos valores e conceitos técnicos e estéticos caucionado por uma academia que inclusive tratou a arte mais como uma forma de habilidade do que de pensamento. Em meados do século XIX, algo importante aconteceu: foram os primeiros estertores da arte moderna com o aparecimento de artistas como Manet, Monet, Renoir, Cezanne e outros: o impressionismo. O impressionismo mudou a expressão da arte, mudando seus modos e técnicas de pintar, principalmente, pois a pintura evoluiu antes das outras categorias de artes plásticas, porém os conceitos básicos da estética belasarteana, como equilíbrio cromático, composição aérea e harmonia, por exemplo, permaneceram, mesmo que em alguns momentos tenham sido utilizados como meta linguagem, como uma crítica sobre si mesma. A razão das mudanças está na história: revolução industrial, observação do mundo, evolução da ciência e invenções como a fotografia, o cinema e os atuais meios de reprodução de imagem no nível que estavam na segunda metade do século passado. A cada passo da humanidade, a criação de arte mostra uma feição nova. Na tentativa de traçar uma linha no tempo, partindo do impressionismo, chegamos ao seguinte: pós-impressionismo – expressionismo – cubismo – futurismo – construtivismo – suprematismo – dada – surrealismo – realismo socialista – informalismo – expressionismo abstrato – neoconcretismo – happening – minimalismo – land art – arte povera – arte conceitual – Arte Performática – Arte Tecnológica – body art – vídeo arte – grafite e outras manifestações de arte de rua – instalação. Vemos que, em um século e meio, mais de vinte movimentos da arte internacional se sucederam, enquanto que nos três séculos e meio anteriores vimos apenas o Renascimento e seu desdobramento, a Arte Barroca – mesmo assim com a função de arma da Contrarreforma -, o Romantismo e o Academismo, com as variações que possibilitaram a arte heroica do período da Revolução Francesa e o surgimento da Academia de Belas Artes.

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Nesta sequência, porém, assistimos ao aparecimento de movimentos que, nas décadas de 1910/1920, preconizavam o que aconteceria no final do século XX. Refiro-me a Marcel Duchamp e seus seguidores que propuseram as mudanças mais profundas existentes num sistema de arte. Muitos consideram o ready made, inventado por Marcel Duchamp em 1917, como o primeiro objeto da arte contemporânea. As categorias artísticas foramse transformando em experiências linguísticas e se “desmaterializando”, no sentido de abandonar os “materiais nobres da arte”. Fato é que a arte tradicional, com o olhar no passado, pouco convive com a realidade que conduz a arte contemporânea no século XXI. Fala-se mesmo no “fim da arte” como verdade marcante do século XX. O filósofo e crítico de arte Arthur Danto escreveu sobre isto no importante livro “Após o Fim da Arte – a arte contemporânea e os limites da história”, que esmiúça a independência da arte dos últimos quarenta anos preconizando o seu fim, o que não significa término, mas uma nova relação da arte com o mundo. É comum se dizer hoje que arte é atitude. Este conceito é defendido por Jerome Stelnitz, no importante artigo “A atitude estética”. Ele definiu o espírito da contemporaneidade da arte como: “Atenção e contemplação desinteressadas e complacentes de qualquer objeto da consciência em função de si mesmo”. Isso nos leva a Foucault quando fala em “uma estética da existência” que não se pode colocar apenas do ponto de vista do objeto, mas também, ou principalmente, do artista que se envolve em atitudes que podem ser pensadas como estéticas da indiferença. O grande artista contemporâneo alemão Joseph Beuys, depois da 2ª Guerra, quando retomou seu caminho na vida, adotou atitudes absolutamente relacionadas à estética, o que podemos colocar como uma estética da existência. Para ele, a arte é o único meio “evolucionário – revolucionário” capaz de “combater os efeitos repressores de um sistema social senil que continua a capengar na direção da morte”. Em Pernambuco, a arte contemporânea esboça-se na década de 1970 com as obras de Montez Magno, Anchises Azevedo, Daniel Santiago, Paulo Bruscky e Silvio Hansen. A criação do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães – MAMAM foi decisiva para sua consolidação, com as políticas implantadas pelo curador Marcos Lontra, seu diretor na época, e pelos que lhe sucederam, como Moacir dos Anjos, Cristiana Tejo e Beth da Matta. A fundação Joaquim Nabuco, através de sua Superintendência de Cultura, ofereceu na década de 1990 uma série de cursos ministrados pelo curador Agnaldo Farias, que contribuíram fundamentalmente para a formação deste olhar. Em 1999, com a finalidade de reativar o antigo Salão dos Jovens, do qual o Museu de Arte Contemporânea de Olinda realizara várias versões, a secretaria de Cultura do Estado, sob nossa curadoria, produziu o “Prêmio Pernambuco de Artes Plásticas – Novos Talentos”, que revelou a existência de jovens artistas contemporâneos como Bruno

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Monteiro, Carlos Mélo, Renata Pinheiro, Rodrigo Braga, Kilian Glasner, André Aquino, Juliana Calheiros, Marcos Costa, Beth da Matta, Jeims Duarte, Adriana Aranha e Marina Mendonça. Em 2000, a 45ª versão do Salão do Estado, intitulado pelo secretário de cultura Carlos Garcia de Salão Pernambucano de Artes Plásticas 2000, também teve nossa curadoria, e colocamos no seu programa o seminário intitulado “O Curador Como Coautor da Obra de Arte”, que teve a coordenação da Fundação Joaquim Nabuco sob a responsabilidade de Moacir dos Anjos. Neste seminário foram conferencistas curadores como Lisethe Lanhado, Agnaldo Farias, Rodrigo Naves e o próprio Moacir dos Anjos.

Os Coletivos

Os artistas sempre se organizaram em grupos, talvez herança das guildas de artesãos da Idade Média (artesão não é necessariamente artista, mas a arte na Idade Média não tinha o mesmo significado da arte atual. Hoje, esta prática existe como forma de abrir novas possibilidades e permitir trocas de experiências, ainda que o artista trabalhe a sua linguagem pessoal). No Recife, se observa este espírito gregário desde sempre, quando alguns artistas se juntaram para organizar a Escola de Belas Artes, e outros formaram o Grupo dos Independentes, ou quando outros seguiram Abelardo da Hora criando o Atelier Coletivo. Tivemos também em Olinda o Movimento da Ribeira, o Atelier +10, a Oficina, a Oficina Guaianases, o Atelier Coletivo de Olinda e Artistas de Iputinga. Na arte contemporânea, as organizações de artistas em torno de ateliês coletivos ou grupos criativos foram denominados “Coletivos”. Consideramos o primeiro “Coletivo”, por estarem desde os anos de 1970 inseridos no conceito de arte contemporânea, a Equipe Bruscky Santiago, responsável por atitudes de vanguarda nos anos 70 e 80, inclusive um Festival de Arte Door onde vários artistas pintaram em papéis e os resultados foram colados nos out door da cidade; nos anos de 1980, foi criada a Quarta Zona de Artes, os Carasparanabuco e os que seguem: Grupo Camelo, Branco do Olho, Telefone Colorido, Molusco Lama, A Menor Casa de Olinda, entre outros. Quarta Zona de Arte O Quarta Zona de Arte foi um espaço cultural dedicado à arte contemporânea e à sua discussão. Decorreu do envolvimento dos artistas José Paulo, Maurício Castro, Fernando Augusto, Márcio Almeida e Flávio Emanuel, do cartunista Humberto Araújo, do comunicador

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visual Aurélio Velho e de interessados nas suas propostas de articulação e desenvolvimento da arte no Estado. Nos três andares de um edifício neoclássico na Av. Marquês de Olinda, esse espaço pioneiro do Bairro do Recife possuía galeria de arte, ambiente para cursos, oficina de gravura e ateliê coletivo. O Quarta Zona existiu de 1988 a 1994 com uma proposta autônoma e independente, lançando ideias e abordagens que ajudaram a colocar a arte pernambucana no nível de atualidade em que se encontra. Por lá passaram muitos artistas, tais como: Tereza Costa Rego, Luciano Pinheiro, Rinaldo, Eduardo Araújo, José de Barros, José Patrício, entre outros. Carasparanabuco Todos eram ‘caras’ de Pernambuco, daí o nome ao grupo: Carasparanabuco. Os ‘caras’ em questão eram, naquela época, fim dos anos 80, jovens artistas plásticos, a maioria sócios da Oficina Guaianases que tinham em mente montar um ateliê próprio onde pudessem criar e questionar o velho dilema tradição x contemporaneidade, como também interagir na comunidade e divulgar seus trabalhos. Faziam parte do grupo: Maurício Silva, João Chagas, Marcelo Silveira, Rinaldo, Eduardo Melo, Alexandre Nóbrega, José Patrício e Félix Farfan. Juntos, fizeram exposições coletivas e desenvolveram suas obras até o nível de importância que todos conquistaram. Grupo Camelo Em 1996, os artistas Jobalo, Ismael Portela, Marcelo Coutinho, Oriana Duarte, Paulo Meira e Renata Pinheiro reuniram-se em torno da formação do Grupo Camelo. O nome Camelo nasceu de uma pitoresca história: o Imperador Dom Pedro II pretendeu importar camelos para o sertão nordestino, animal supostamente mais resistente que o nosso jumento. Este fato remete à velha discussão sobre a autenticidade e a pureza da cultura regional. Para os integrantes do Grupo Camelo, parece inútil e despropositado um país naturalmente mestiço pretender qualquer pureza cultural, como defendem os integrantes do Movimento Armorial, ou ainda a vontade internacionalista que norteou o concretismo paulista. Apostando na mestiçagem e inspirados na metáfora do camelo de Dom Pedro, o grupo adotou, com o nome Camelo, um jumento com duas corcovas como símbolo. A força da iconografia popular é marca profunda da cultura regional, e a ausência desses elementos é uma das características mais fortes do Camelo. Dentro dessa relativa homogeneidade de pensamento, porém, existem peculiaridades diferentes em cada autor: Jobalo investe na pintura modulando superfícies em busca da representação do corpo e seus símbolos; Ismael Portela propõe uma arqueologia do acaso, fixando em suas esculturas as surpresas que o material pode lhe oferecer; Marcelo Coutinho investiga da obra do filósofo austríaco Wittgenstein que tentou limitar a fronteira entre o que é possível e o que é impossível de ser expresso com palavras, construindo sua obra na fronteira da incomunicabilidade; Oriana

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Duarte afirma seu interesse criativo no encontro entre as coisas que estão no mundo e a possibilidade do desdobramento significativo dessas coisas nesses encontros; Paulo Meira utiliza qualquer material que seja vital para a construção de seu ruído plástico; e Renata Pinheiro trabalha com construções de ambientes marcados pela passagem de personagens fictícios, um ser exaurido pela condição de encarceramento urbano. Submarino O Submarino foi um coletivo fundado em 2001 por Maurício Castro com a participação de Juliana Notari, Isabela Stampanoni, Jacaré e Fernando Augusto. Uma das realizações do grupo foi a exposição “Casa Coisa”, uma sátira à “Casa Cor”, evento realizado em várias cidades, promovido por arquitetos e lojas de decoração. Em “Casa Coisa”, o grupo apresentava ambientes como o “Quarto de Empregada”, o “Galinheiro”, a “Área de Serviço”, o “Quarto da Donzela com a Calcinha Pendurada”, etc. “Show da Monga” foi outra produção do Submarino, onde foi recriado o show popular no qual uma moça se transforma em macaco através de um jogo de espelho, comentando assim questões da genética e do preconceito. “Show da Monga” foi uma performance de Juliana Calheiros. Balneário de Água Fria Outro coletivo liderado por Mauricio Castro, que funcionou na fábrica de móveis da arquiteta Janete Costa e teve a participação de Fernando Augusto, Maurício Silva, Cristina Machado e a galerista Lúcia Santos. O Balneário produziu uma oficina de serralheria onde artistas trabalharam com chapas, perfis e vergalhões de ferro. Nesta oficina, Cristina Machado produziu sua escultura “Armadura”, uma cópia de si mesmo feita como uma malha de ferro que ela pode vestir. Branco do Olho Entre julho e dezembro de 2004, um grupo de jovens artistas alugou por seis meses a casa 155 da Ladeira da Misericórdia, que hoje é o ateliê-galeria do artista naïfe J. Calazans, com o objetivo do encontro, da conversa e da tertúlia. Dois deles, Bruno Monteiro e Augusto Japiá, participaram do Prêmio Pernambuco de Artes Plásticas 1999, alémd de Bruno Vieira e Bruno Vilela. Aí nasceu o coletivo Branco do Olho, cujo nome foi sugestão de Bruno Vilela. O Branco do Olho, ou BO, como é simplificado, em seus nove anos de vida percorreu um rico caminho e formou um currículo que é referência na arte contemporânea daqui, tendo outras constituições ao longo deste caminho, como na fase pós-Olinda: Rodrigo Braga e Clarissa Diniz, Bárbara Collier, João Manuel, Eduardo Romero, Luciana Padilha, Xanxa, Romo, Zel, Sérgio Vasconcelos, Roy Rêgo, Séphora, Maurício Castro, todos artistas atuantes. O BO se modificou na sua dinâmica e em 2012 estava constituído pelos artistas Bruno Monteiro, Daniel Santiago, Luciana Padilha, Eduardo Romero, Charles Martins, Rodrigo Cabral,

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Marcela Camelo e Braz Marinho, que faleceu em fevereiro de 2013. No semestre que o BO se localizou em Olinda, ele realizou um programa exemplar de manifestações de arte contemporânea iniciado com exposição Frankenstein 2, que saiu de Olinda numa itinerância pelo Rio de Janeiro e São Paulo. Em seguida, o BO realizou a exposição ‘Fotografias no Jardim’, com participantes argentinos, portugueses e norteamericanos, além dos artistas do coletivo. O BO participou com todo o grupo do festival Olinda Arte em Toda Parte 2004. Rádio Frei Damião e Telefone Colorido Paulinho do Amparo é um artista atuante na Olinda de hoje: “Sou um artista fora de qualquer sistema”. Com isto ele se afina não apenas com os artistas contemporâneos fora do eixo Rio/ São Paulo, mas também, paradoxalmente, com os artistas tradicionais, como os pintores de paisagens e retratos, por exemplo. Ele diz me disse que se orgulha, ao lado de sua irmã, de viver exclusivamente de arte. Ambos são artistas “multimídiáticos”, pois empregam diversos suportes, físicos ou sonoros, nas suas criações. Paulinho integra com Ernesto Teodósio, filho do importante teórico comunista Mano Teodósio, o grupo Rádio Frei Damião – Ernesto também integra o coletivo Telefone Colorido ao lado do grafiteiro Grilo. O SPA das Artes Na década de 1980, foi criado no Recife um Salão Municipal de Arte que realizou apenas uma versão. Em 2002, duas décadas depois, porém, Maurício Castro assumiu a Diretoria de Artes Visuais da Fundação Cultural Cidade do Recife que tinha como um dos seus projetos a reativação desse Salão. De imediato, ele pensou em reformular o Salão, pois seu modelo estava defasado e, como havia um tradicional Salão do Estado, este seria uma repetição em menor escala. Com sua coordenação, foi reunido um grupo de artistas e pensadores da arte, experientes em gestão cultural, para discutir o destino do Salão. Da equipe de Maurício já fazia parte Fernando Augusto, que também participara da Quarta Zona de Arte. Foram convidados José Paulo, que na época era membro do Conselho Municipal de Cultura e também integrara a Quarta Zona; Fernando Duarte, que veio a ser Secretário Municipal de Cultura em três gestões; e Rinaldo Silva, artista e ativista. Contaram também com a participação do artista Goto, artista curitibano que vivenciara experiência do Faxinal das Artes realizado no Paraná, e do curador Moacir dos Anjos. Todas as ideias apontaram para um festival de artes visuais que envolvesse a cidade do Recife. Assim, foi criada a Semana de Artes Visuais do Recife – SPA, título que com o tempo foi simplificado para SPA das Artes (segundo Maurício Castro, autor da “marca”, SPA é uma sigla aleatória). Trata-se de um festival anual de arte contemporânea com edições diferentes de ano para ano que movimenta os jovens artistas. O SPA produziu dezenas de eventos

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como exposições, performances, instalações e oficinas, além de editar a REVISPA (veículo de crítica e teoria da arte mostrada e produzida no SPA), semanas de fotografia, bolsas de incentivo a jovens artistas, assim como residências artísticas, intervenções urbanas, grafitagens, confecção de um mapa das artes visuais da cidade com indicações dos ateliês, galerias, institutos de arte, museus de arte e monumentos de arte pública, e colagens de cartazes conceituais, como fez Cristina Machado. O SPA é um evento cultural oficial que atende à política cultural do Recife. Outras iniciativas e atuações do poder público são, da mesma forma, importantes para a consolidação da arte, especialmente a arte contemporânea que tem pouco apelo comercial. Citamos a programação da Galeria Vicente do Rego Monteiro da Fundação Joaquim Nabuco, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, o Museu Murillo La Greca, as últimas versões dos salões de artes visuais do Estado, o Instituto de Arte Contemporânea da UFPE, e as agências culturais da Caixa Econômica, do Banco Santander e dos Correios. Finalmente não se pode esquecer das galerias particulares das quais citamos Arte Plural Galeria, Amparo 60, Dumaresc e Mariana Moura.

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ARTE PERNAMBUCANA MODERNA E COMTEMPORÂNEA