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rauer

da vida o humano horror

microcontos


Brasil, 2010


COMO UM RELÓGIO A cada hora, com a carícia da brisa ou o troar do tufão, cresce a dolorosa angústia.


CICATRIZES Se a saudade fosse um talho no peito, eu teria mais cicatrizes do que poros.


ESTÉTICA A atomização da vida, do cotidiano, do trabalho, do lazer, da convivência, do próprio ser, ganham tal representação estética: o #microconto.


FIM DE CASO Chegou em casa e confirmou: sim, terminara. Ao anĂşncio, sobreviveu cinquenta anos. Nunca mais sorriu.


ÂNIMA O amor que me acata, aquece o que me enlouquece, é dor que me mata.


CASAL TRIVIAL Quanto doce encanto abunda na รกria, no canto e รณcio da Cigarra! Jรก Dona Formigona, que barra!, cai na tunda e no trampo se afunda.


ADIVINHA O que é, diga-me, o que é: Que história aqui morre, Morre agora nesta página, Sem nunca, ao fim, ser o fim, Pois de verdade não o é?


PRIMEIRA VEZ Nua, à cama, viu-se nele: o sorriso de todos os dentes era o beijo da vitória.


AO TELEFONE, na voz doce e amarga, de expectante promessa, revivo o que ĂŠ dor.


POÉTICA #curtaconto #microconto #miniconto = narrativa mais que curta, ultracurta; mais que mínima-sintética, um raio, um flash: prosapoesianocaute


AO ALTAR, DECLARO Extático talho: doce ara em que se declara, à cona, o caralho.


O ASTRONAUTA Após bater o recorde de permanência solitária no espaço sideral, com 1461 dias, lhe perguntaram onde se sentia mais feliz, se na terra ou na nave estelar. Ele respondeu: ―Aqui, logo depois de um vôo, com minha mulher, minhas amantes, meus filhos, os amantes de minhas mulheres. Olhe como, felizes, me aguardam. Não, não há nada mais belo‖.


CRISÁLIDA Teu amor me aninha, tua presença me enlouquece, teu silêncio me cala, tua ausência me mata.


AUTOPSICOGRAFIA Eia, o anti-Midas sou. Em pó o ouro torno, tão só. É o mundo em que estou.


ESPLÊNDIDO BERÇO KAFKIANO Sem remissão: até prova em contrário, culpados todos são.


O CARACOL Triste no arrebol – amor, saudade, que dor! – chora o caracol.


MEU MEL Bucetinha em mel, loucura que me captura, por quĂŞ viras fel?


A FUGA, O ETERNO RETORNO A cada baldeação, sem que nada lhe seja acrescentada, a mala fica mais pesada.


QUÍMICA Dor não quer calar: a química vai rolar, ou está a nos tapear?


VULCテグ Os lテ。bios ardentes, e a lava que nos lavava, morrem nada quentes.


JOGO Como n達o te odiar? Pois sei que apertastes play. E evitas brincar.


ANIVERSÁRIO Raiva. Ódio. Dor. Festa no ar. Solidão no pomar. Vida sem cor.


CONTO Ei-lo, elipse — do incognoscível ao inescrutável.


MAROLA Tu, ideia mรก e carola, ao anti-Midas nรฃo intimidas, com a tua marola.


MINAS Venho das Geraes. Sou esquivo, s贸, atento e ativo. Se h谩 amor? Demais.


AMOR Louca paixão, jamais cruz, amor não é tortura crível: Só na saudade é dor, vida que à obra é semiose imiscível.


EM CHAGAS — Por quê o amor se esconde? Em chagas e em dor indagas: — Existe amor? Aonde?


KAMA-SUTRA PĂŞnis pequenino cresce e em mil artes teu corpo fescenino tece.


NO SONHO Riso cascateia. Corpo onĂ­rico me enleia. Riscam minha teia.


TRISTE NÉVOA Na nÊvoa, cerrada, estraleja o bambuzal: monotonia errada.


FOTOGRAFIA Lúdica flor és: tua tez - aleluia, sol, lua; e eu beijo teus pés.


APOCALIPSE Quando — intranquilo sonho — acordou, o Verbo já o espreitava.


HYMENAEUS Dulciamara flor pĂşrpura, dor quente e pura, mata-me sem cor.


ROMANTICOERร“TICO Voa voa borboleta, frรกgil, diรกfana, nua e tรกtil, e beije a violeta.


DOR E DOR Dói, como dói não tê-la, seja na página branca do email, seja na voz quente ao telefone, seja ao alcance do olhar cúpido, seja para cheirar murmúrios, ver o frêmito, ouvir o calor que emana do corpo, tatear o perfume, degustar o pressentido...


BATISMO Sem ar e sem idas, faรงo a vida no fio do aรงo, pois que sou o Antimidas.


CARNAVAL Isto ĂŠ Carnaval: muita saudade devassa, na alma nenhum mal.


AO AMANHECER O bobo, entretido, chilreia na alvorada azul o mamĂŁo corroĂ­do.


PALESTRA Depois de por meia hora ouvir o PhD pontificar nulidades, sintetizou: — Quanto mais vazia a cabeça, mais a boca fala.


MEIO-DIA Sob a pr贸pria sombra, ao meio-dia, o ser se escondia: triste solid茫o.


À RUBAIYAT Crisântemo doce. Riso alvar. Doce sorriso. Isso, um vinho, e você.


ESCREVER Do Complexo de Houaiss à Sindrome de Aurélio, o TOC epifânico.


CONTO DE FADAS Era uma vez um príncipe encantado, moço respeitador, e sua donzela, moça de puro recato. Nas núpcias, ela flutuava, feliz para sempre. Então, sentiu no peito, de cima abaixo rasgaçalhando o vestido de noiva, as mãos dele.


SAUDADE Essa flor do sol, acima das demais rima: amor no arrebol.


NA ALMA Cristal, seu sorriso risca em minha alma tal traรงo: isso, me desfaรงo.


BORBOLETAS Das suas mãos, em miríade, asas multicores ganhavam forma. Em meio às borboletas, eu o via, nu, viril, enquanto de mim me escorria incandescente magma.


SONHO? Doce maluquinha, arrebol, luz, sombra e sol, ĂŠs sonho que eu tinha?


VÊNUS Amo a ébria jovem. À morte, vivo boa sorte: Belo sol me vem.


FLERTE Se o ar triste eternece, se o lรกbio fino enlouquece, por que o olhar nรฃo permanece?


IGNOTO AMOR Ígnea, magna flama: Quê bunda abunda em tua bunda, Ígneo amor que inflama.


HAI – KAI Pia aflito o filhote No ninho do passarinho Dor na alma e na glote.


O ANJO TOLO Do doce ar a trama, O anjo c_ego s贸 v锚 a lama, Na flama que inflama.


DANTIANA És louco amor torto, Num triz faz a vida em dor: Minha cruz, Beatriz.


DEDICAÇÃO Se o nome é trabalho e o sobrenome hora-extra, já passou do momento de ir para o Pinel.


VINGANÇA Na madrugada, a criança de três anos, insone, vê o notebook em que, de dia, os pais trabalham. Pega o punhal corta-papel e dilacera — em vários golpes — o cristal líquido que o reflete. Fascinantes e assustadoras, faíscas sangram o ralo da noite.


BANZO Eis a cor da vida: saudade do amor n達o amado, da dor n達o vivida.


CRUCIAL Se me sobrevivem paix천es e dores e ardores, por que me suicido?


CONTRATEMPO Treme a voz no fio: ah!, como corre o cart찾o, sem d처, no orelh찾o.


AMOR dor


VIDA serรก?


JAVÉ Quem?


DEUS

Ø


HOMEM

!


EXPLODIU Esperanรงoso saudoso exausto, o soldado voltava da guerra quando pisou no explosivo.


INÚTIL ARDOR O ardente verão, sem tento arde quente ao vento: não me aquece, não.


CANTATA vamos celebrar por todos os meios. pulsar todas as veias. excitar todos os poros. amar alma, corpo, coração. beijar, explodir em estre las.


ESCRITOR Vive ah!gonia íntima de convulsões que explodem, florescem.


RODOVIรRIA Motores. Fumaรงa. Frenesi. Despedidas. Na face da crianรงa, corre uma lรกgrima.


tem.po substantivo neutro de odor feminino; sêmen que apodrece; pó; é ;


CONSELHO Mas viole as violetas caralho que acre olha o talho a sonhar punhetas.


NARRADOR O texto é livre-prisão no latente limite do sofrimento e gozo.


O GÊNESIS Todo criador é irresponsável. Vide Deus.


MORTE Inconsoada plenitude.


agorrantiquus Com o vulcão em chamas, no novel êxtaserótico que vibralucina, em dor e ardor ela, revogável, relembra primiçia outra, e revive, e renega, e desfalece no agorantigo, enquanto, agonizante seta, o falo fumegante em incertas, inconsoadas grutas grita, lacrimeja e morre.


MICROCONTO Narrativa. Cristal-Vivo. Uma s贸 visada. Um 煤nico golpe. Nocaute.


DECLARAÇÃO DE AMOR Escrevo, escrevo, escrevo, desesperadamente escrevo, sempararescrevo, pois que só assim sublimo pulsões irrealizadas.


DANTESCO Por aquele amor que os uniu e se esvai, que n達o perdoa se n達o lhe volta amor, morto cai, como um corpo morto cai.


QUERIDO, Se nos encontrarmos, você terá meu corpo, não a mim, pois não mais me sou: Eu.


SCRIPTOR Coração, tripas e ratio reverberam demônios do irracional.


EPIFANIAS A moça fala que tem pressão baixa. Ele passa os dedos sobre as costas da outra mão. — Não entendi... — O sal. — E daí? — É só lamber. — Gracinha.


METEOROLOGIA Em v達o flutua, ao vento, a ardente luz do ver達o: n達o me aquece, n達o.


EPITÁFIO Sultão, gozei festas, carrões, consumo, mulheres mil. Deixo filhos às dezenas, para que acabem logo com o planeta.


O O

vazio

VERBO

o espreita: louco de esperanรงa, fita a pรกgina em branco.


ETERNO RETORNO No motel, lábios loucos, olhar em fogo. Depois, dor e culpa. Até que de novo o toque do telefone desfaz o ar triste.


AO LÉU Borboletinha que flutua ao vento do verão, Ah!, venha, venha adejar aqui em meu coração.


O SINO TOCA AS LAUDES Lua dos c達es urbanos, arrehbol dos grilos, clarinada dos fieis, lamento das corujas, tortura dos amantes e ah!gonia do insone.


CAPETÃO GARRANCHO Quando livrelevesolto se imaginou, voltou-lhe à presença o próprio Pater Pânico.


O CÚMULO DA TRAGÉDIA — Qual é o cúmulo da tragédia? — É estar no motel com a gatinha nota mil e o marido ligar avisando que chega mais cedo. — Que nada. Muito pior é sua mulher pegar você com o jardineiro no auge do ralae-rola.


PREFERÊNCIAS — Coito? — Primícias... — Orgasmo? — Carícias! — Que prefere? — Ah!... bis-coitos.


QUADRINHA Flor que voa e me atordoa, Cá estou sempre, e à toa, à tua espera, e sem loa: tu, longe, me atordoa.


FIM DE FESTA Vozes ébrias. Karaokê. Olhares. Faíscas incendeiam desejos.


DAS NARRATIVAS : . . . , o antes. Então, fez-se o Verbo — dor; sangue; tripas : chàos,i ::: logos ::: tohuvabohu Vetrovatto. Nevozmozhna. Unheimliche. Peráu. E após, :


KAI - HAI No poste de luz, elétrico, Mora o João-de-Barro, Seus filhotes e sua Cruz.


FUNERÁRIA BOA SAUDADE — MEMORIAL — 3234-3536 Privacidade — Exclusividade — Conforto — Segurança — Bom aqui, hem? — Uma bosta. Qual morto precisa disso? E o Pai nem merecia nadica de nada.


PAPOULA Lúdica!, és flor: urge tê-la, mas não surges; detenho só a dor.


ENCRUZILHADA Na aurora estรก a treva, vida inerte nรฃo vivida, morte que me leva.


LOCUS AMOENUS No Lar, pousa e medita: Homem sem aventura, Ser sem existĂŞncia.


ANTI-MIDAS Todo ouro em que toco perverto enlameio e pus verto รกcido e sem troco.


O SONHO DA BELA ADORMECIDA Terr鱈ficas saudades da cama que n達o me aqueceu, do amor que n達o tive, do beijo que n達o me ressuscitou.


AI - AI Tuiuiu plana no alto VĂŞ o ninho na ĂĄrvore seca E em fogo o planalto.


POALHA - RÉSTEA Nenê à sombra estica a mão pega o sol.


HAMLETIANA #microconto ou #microc ontos... eis a questão, eis a dúvida entre ser e não ser, a angústia diante do inexistente que prefigura o inesperado.


Microconto Narrativa


Micronarrar Micronarrar é poesia fascinante-assustadora, jogovida :: literatura, vapor condensado em lágrima, faísca erótica sangrante no ralo da noite.


RECADO NA GELADEIRA Ao chegar, acorde-me na sua boca, fazendo-me crescer, e então me coloque na xana, úmida e quente, até você ver estrelas, até que eu morra.


CONDENAÇÃO Aos berros, exige consulta ao regimento, respeito, decência. Ofegante, olhos vítreosaltados com raias sanguíneas, vê em si todos os olhares.


A QUEDA A mão cheia de dentes na boca cheia de dedos. — Que meleca, menino! — irrompe a bronca. E o choro transforma a tarde em Bastilha inconsolável.


CRISPAÇÃO vidamor é dor é luaurora solcrepúsculo é luz e é langor


SIGNIFICAÇÃO No meio, pedra: trauma. Caminho. Fome. Olhar. Vinho. Desejo quer alma.


LEMBRANร‡A Canto. Riso. Graรงa. Pรกssaro raro, mui avaro. Grinalda que enlaรงa.


AGORA Expulso do Amor, desabrocho a toda hora: n達o tenho mais dor.


PROPAGANDA ELEITORAL Eleitor amigo, fora com a tramóia. Na selva política, serei um Lírio pântano, uma Luz no breu. Para vereador, 69.666, Lírio da Luz.

no


CARTA DE UMA AMANTE Ao amado Don Juan São inumeráveis paixões para muitos em um só. Sua multiplicidade — quem és, Don Juan? — é cantiga fria, mas em minhas entranhas você tremia. Por mim, por muitas, por nenhuma ou por você? Nossos ardores saberiam?


QUEM ÉS, DON JUAN? Resposta a uma amante Sou cadáver inescrutável em cujos braços, ilimitada nas múltiplas formas do gozo, incensavas Eros, reverenciavas Sade, sopravas — incansável, insaciável — a trombeta do Anjo Gabriel. Sou o outro que sou você mesma.


ĂšNICA CHAMA Amor e erotismo, Bataille, o prazer do texto, Sade, Masoch, as veias azuis de sua pele em ĂŞxtase.


RELIGIÃO O crente é o agnóstico do tudo-ter. O agnóstico, um ateu sem medo de nada-ser. E o ateu? Um crente sem medo de não-crer. — Aah, que sono!


BODAS Grinalda, rosas, alegria. Para ir Ă s bodas, espera o que lhe sorri da foto. Penteia-se... Onde, onde o fervor, a completude, o futuro?


riverrun ...radiante esplendor em harmonia, epifania e cor: estesia...


FINES


Microcontos de Rauer