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DOCES OLHOS DE ÁGUIA raquel p.

um encaro meu quarto copo de whisky. ele sorri pra mim, eu apenas o encaro. há alguma coisa no ar cheirando a desespero, e eu sei reconhecer porque está ali todas as noites. é como se possuísse forma, consciência e tanta necessidade de beber, quanto eu. é como um amigo sem nem mesmo saber o que seria isso. e está ali. me encarando. pedindo que eu beba porque bebe comigo. e está ali. esfregando coisas na minha cara sem dizer nenhuma palavra, apenas me olhando, apenas deixando seu cheiro me atacar enquanto ataco segundos, terceiros, quartos copos de whisky. e nada muda. o líquido amargo desce com ferocidade pela minha garganta e saí queimando tudo o que lhe defronta. sei que eu deveria parar, não é de longe uma sensação muito boa, eu sei reconhecer, todos sabem, mas à medida que eu me nego a tomar mais um gole depois de já tê-lo provado, mais o fogo se apaga e eu fico morno. não gosto do que é morno. gosto de beber, apenas. o álcool amortece dores profundas e sobrecarregadas, aquelas que não vemos e principalmente aquelas que não sabemos por que estão ali. e em todas essas noites, entre a dor a e fuga,


me sento sempre numa mesa ao fundo, perto da janela e o mais longe possível de sorrisos, conversas, os amigos os amores ou os casos. observo meu reflexo pelo vidro da janela e ainda estou sóbrio. tão sóbrio quanto o amor recém nascido. não gosto disso. levanto a mão e não digo nada. uma das coisas boas desse lugar é que não há nem mesmo muita necessidade de contanto com quem me serve, com apenas um tosco sinal com as mãos e alguém está pronto para me atender. sem encher-me o saco e sem puxar assunto. mais whisky, digo. “como quiser”, me responde uma voz feminina as minhas costas. a mesma de sempre com seu tom seco. então ela vai e volta, não demora a regressar com seus passos contados e barulhentos. lentamente enche meu copo, satisfaz-me com o álcool. não agradeço, acredito que seja o seu dever afinal. e enquanto ela me serve não a olho, me recuso. meus olhos aparentemente vagam perdidos pela noite por trás da janela, mas é apenas uma tentativa de controlar a teimosia das minhas orbitas curiosas. é nessa curiosidade que, de soslaio, vejo suas curvas estacionadas ao meu lado. belas curvas. era a primeira vez que eu as via e era paixão a primeira vista. a surpresa rouba meus olhos e lá me acorrenta: nas belas curvas daquela garçonete. ela não percebe. isso é bom. almejo ver seu rosto, mas não me permito a fazer. apenas encaro suas curvas e logo ela se vai novamente. não reclama, não diz nada. é uma boa garçonete. bebo. gole após gole. tempo comendo tempo. então acaba. peço a conta, preparo-me para ir. minha amiga garçonete reaparece com suas curvas sinuosas, traz-me o total de todo o meu consumo e eu lhe pago. sou bondoso e deixo que fique com o troco porque ainda estou encantado por suas curvas. sem saber, ela agradece. não por migalhas, me permito responder. e parto sem a olhar mas sabendo que está me olhando. daí me afogo nessas ruas desertas.


dois meia-noite. ratos trepam nos esgotos seculares. em alguma rua da cidade putas e travestis disputam calçadas. pessoas morrem em seus sonhos e vivem em seus pesadelos. eu percorro a estrada vazia com passos arrastados. conheço os asfaltos, os prédios de concreto, a mesma lua fria e muda no céu, e a sensação é de que tô perdido sem saber pronde vou. fito minha sombra extensa no asfalto, vejo os moldes da minha alma incolor. estou só. caminhando pelas ruas cariocas. vou para casa, decido. mas o que há em casa além de mais solidão? desisto. sento-me na calçada e fico ali. vejo o tempo passar e tento encontrar um motivo maior para querer prosseguir; maior que esse meu querer que quase nem quer de tanta desmotivação. “Victor?” surpreende-me uma voz masculina. “Victor Crawford?”, olho para cima e o vejo. Carlo Rumas, meu ex-colega de trabalho. traja aquele seu velho casaco bege e seus sapatos de couro falso. um miserável! pedira demissão do jornal três meses atrás e se foi, sem jamais pagar os cem reais que me devia. aposto esta quantia que nunca recebi, que ele nem mesmo se recorda dessa velha dívida. olá, Carlo, sou obrigado a levantar e cumprimentá-lo com um formal aperto de mãos. “o que faz aqui, Victor? não teme a noite, amigo?”, o que há na noite para se temer, Rumas? e ele: “mistérios. há muitos mistérios”. dou um sorriso e retruco: mistérios? coisas sem face e sem forma. não posso temer aquilo não vejo. “é cético demais, amigo.” assim me fez a vida. tem um cigarro? “parei de fumar, mas me lembro de algo agora... olhe, tenho aqui a sua grana, está lembrado?”, ele sorri. eu também. achei que você já não se lembrasse, confesso. “não sou tão miserável quanto você pensa, meu amigo.” e tira da sua carteira duas notas de cinquenta e me entrega. “e o que acha de um pouquinho de diversão, hum?”, mal me paga e já quer que eu gaste? “não se preocupe. não gastará um tostão”, diz ele, misterioso, “agora venha, mostrarei a você o que me fez parar de fumar”. e me guia para a noite. uma noite divertida? minha imaginação se eleva, atravessa meu corpo e qualquer possibilidade de freio. vejo ambientes saturados, uma alegria misturada com sei lá o que, um cheiro de sexo e whisky. seios a amostra e risos de putas jovens prontas para se servirem em doces e doces banquetes. não contesto, é o que quero. minha alma está cansada de tanta solidão.


três Carlo me leva ao seu centro de reabilitação para fumantes, palavras do próprio a propósito. mas não foi o que eu imaginei durante todo o percurso. e assim que descobri, me perguntei por que estávamos num lugar como aquele. fiquei curioso. era um lugar com um salão enorme, luzes bem projetadas e plateia. um casal dançava ao centro do salão de piso emadeirado. era um espetáculo sendo acompanhado por uma plateia bastante atenta. tango. eles dançavam tango. avaliei as pessoas ao meu redor. algumas em pé, outras sentadas. bebendo e assistindo. não achei que o procurava. as únicas mulheres que consegui ver estavam acompanhadas de seus supostos maridos ou amantes. um show de horror. um verdadeiro programa de família. e não era divertido participar como um intruso ou qualquer figurante. pensei que o convite do meu amigo estivesse envolvendo algo de real diversão, uma noite com putas baratas ou um show de stripper. algo assim, ou melhor. mas não era nada disso ou daquilo. tem um cigarro?, pergunto ao jovem que me ladeia. ele tem cheiro de tabaco. “aconselho a não fumar aqui, colega”, ele diz, mas eu o convenço e venço: não irei demorar. então ele tira do seu maço um cigarro. acendo com seu isqueiro e agradeço. trago. rasgo meus pulmões. entrego-me ao pudor da fumaça fatalista. por fim, após uma tragada acompanhada da minha triste noite decepcionante, tomo nota do casal que dança. de tudo o que veem, eu nada vejo. apenas pernas que se esticam. braços que se envolvem. giros. movimentos. concentração. dentro e fora. fora e dentro. para lá e para cá. união. de corpos e de alma. assim era o tango. uma dança para alguns. uma arte para outros. uma desnecessidade para mim. estava quase a questionar Carlo pela sacanagem quando a jovem dançarina suga todo o indício da minha atenção. ela tinha doces olhos de águia, mas soava amarga e era humana. uma perfeita contradição, uma inegável distração. o tipo que não se via muito por aí. o tipo que eu gostava. seus cabelos curtos e negros eram tão rebeldes quanto à dona parecia ser. seu vestido curto mostrava-me dois pares de pernas demasiadamente alvas e atraentes. me vi em estado de êxtase com o modo como aquele corpo se movimentava com toda graciosidade. era sensual e flexível, leve e exuberante. suas curvas eram... eu já havia visto aquelas curvas antes. eram as belas curvas da minha garçonete preferida, era impossível esquecê-las, mas seria ela? questiono-me. eu era um homem surpreso. “gostou da moça, amigo?”, Carlo me pergunta, atento ao meu deslumbre. a conhece? “todos a conhecem. mas não tente uma aproximação. é feroz como uma onça.” uma onça? do quê ela tem fome? abro um sorriso astuto e deixo a fumaça do meu cigarro escapar por este, sorrindo do mesmo modo. a mulher me olha, parece ter ouvido. mas seus olhos imensos não demoram mais de cinco segundos nos meus. lamento. depois a vejo cochichar com o seu parceiro e eles param. a


música ainda continua. ela sorri. um sorriso para ele. um sorriso para mim. assim são os seus seguintes passos, armados em conjuntos em minha direção. tremo. há holofotes sobre mim, há doces olhos de águia encarando-me logo à frente. ela rouba dos meus lábios o cigarro, derruba-o no chão e o apaga ao esmagá-lo contra o sapato, sem piedade. descrente, apenas o observo morrer. “dança comigo, senhor?”, então me golpeia com o convite. sinto-me preso em baixo do seu salto como aquele cigarro. inferior e esmagado. não é uma boa ideia, digo. “ora. por que não?”, e a mulher me abre um sorriso que é quase impossível negar seu convite cheio de pretensões. dança comigo, senhor? dança comigo, senhor? sua pergunta se repete insistente na minha cabeça, enquanto ela me encara, de mãos estendidas e ar de amante por desafios esperando a minha resposta. me aproximo com um passo à frente, mas ainda não seguro a mão estendida para mim. apenas encaro-a. não a mão, a mulher. a bela mulher alta. uma das poucas que conseguem se aproximar dos meus 1,84 de altura. não gosto de dançar, confesso um pouco baixo para que ninguém escute. mas ela ri. ela gargalha. ela faz questão de que todos ouçam seu deboche. ela é uma grande traiçoeira. “não gosta ou não sabe?” os dois. e ela, agora séria, me volteia avaliandome como se olhasse algo exposto numa vitrine, provavelmente se perguntando se é ou não de boa qualidade. quando para, já está outra vez em minha frente. ainda mais séria e decidida. “venha me ver amanhã. ás três.” murmúrios. todo o salão parece escutar-nos. eu questiono: por que eu viria? “irei te ensinar a dançar.”, não me lembro de mostrar interesse. “mas eu digo que leva jeito. é alto, forte e tem uma postura interessante.” não vejo nisso um motivo para começar a dançar. “então prefere passar suas noites num botequim se entupindo de álcool e tragando a solidão?” como sabe? perguntei-lhe, apesar de tudo já está óbvio demais. “quem você acha que te serve todas as noites, my dear?” ergue uma de suas sobrancelhas negras e perfeitas. faço silêncio, não sei o que responder. apenas espero que ela dê seguimento à conversa por mim e ela o faz. “não se esqueça. amanhã ás três. não demore, pego no bar às cinco.” e sai, e se vai. caminhando com passos duros como se ainda me tivesse sob o solto de seus sapatos. eu a vejo se afastar, mas não gosto disso, nem de como nossa conversa termina. sigo-a. atravesso o salão e a paro. escute!, digo, e seu olhar faz minhas mãos soltarem seu braço, mas ainda continuo: não sei se poderei vir. “sua solidão é ciumenta?”, a cretina debocha na minha cara. decididamente não sei dançar, falo. “e lá vamos nós para o início...”, gira os olhos, não é muito paciente. “pela puta que te pariu, é justamente por isso que virá.”, mas não sou bom em apreender coisas. “essas coisas também se aprendem, sabia?”, outra vez me dá às costas, mas para e me olha na metade dos seus passos: “e nem pense em trazer toda aquela fumaça de veneno outra vez. aprendizado número um: odeio cigarros.” afasta-se. dessa vez por definitivo. olho para o esquecido Carlo e ele encara com descrença, aposto que nossas


expressões não se diferenciam. então tomo o rumo da saída. a música recomeça. a dança acompanha. olho para trás. vejo-a retomar a união com seu parceiro e ambos voltam a flutuar pelo salão. tango. sorriu. fujo. de maneira alguma cogito a ideia de voltar. de maneira alguma troco meu cigarro por uma dança estúpida. mas a guerra talvez fosse entre a minha solidão e essa mulher.


quatro no dia seguinte eu volto. volto sem uma resposta sensata de por que voltei. mas é complicado negar o desejo de revê-la. é impossível não pensar em suas belas curvas e querê-las sob as minhas mãos, ligadas por uma aproximação mais íntima possível. sonhei com ela aquela noite, com o movimento das suas pernas sápidas e seus olhos de águia que tocavam profundamente cada extensão do meu espírito devasso. ela é má. desafia-me, me deixa mais vulnerável do que um pobre leão cercado por homens ferozes. e seu pior defeito é não gostar de cigarros. mas ela bebe? do que tem sede? do que tem fome? almejo conhecê-la, penetrar em sua mente, lhe roubar os pensamentos, conhecer os sentimentos e o que mais houver. ela é um mistério. e tem face, e tem formas, e tenho medo. “não tema.”, ela me diz. está de costas, mas sabe que estou ali. não sei se sente o meu cheiro ou o meu medo, talvez sinta o cheiro do meu medo. mas que mulher fascinante! dou um passo à frente, mas não consigo prosseguir. tento não ser fraco, mas ela me enfraquece. então vejo uma fumaça. e um cigarro entre seus dedos. ela está fumando. “venha. sente aqui comigo.” sua voz é penetrante. é envolvente. eu obedeço e vou. puxo uma cadeira e sento. ela está em minha frente. pernas cruzadas, olhos em mim e o cigarro na mão. traga-o. e não sei se olho para ele ou para o seu rosto. tento entender. achei que odiasse cigarros, é a única coisa que consigo falar. “isso não quer dizer que não fumo.” é complicado. “eu sei.”, mas se odeia, por que fuma? “você gosta da vida? digo, gosta de viver essa sua vida morna?” silêncio. penso. não o que responder, mas se devo responder. e respondo: não. “e por que vive?” silêncio. penso. não se devo responder, mas o que responder. e respondo: é complicado. “eu sei.” ela repete, agora com um sorriso nos lábios pintados de vermelho. “mas a verdade é que a culpa é toda sua, por isso precisei fumar. me fez esperar. não sou paciente. esse é o aprendizado número dois.” bom... eu só não sabia se eu deveria vir. “você nunca sabe nada.” aí está o problema. “não quero ouvi-los.” não quero conta-los. “então vamos.”, apaga o cigarro esmagando-o contra o cinzeiro. então se levanta e a vejo se afastar com suas belas curvas balançando dentro daquele vestido negro e curto. observo extasiado. mas que mulher fascinante! ela me serve, me embriaga. mais até mesmo que a cachaça. e eu já disse o quanto ela é traiçoeira? de repente ela para e me olha, dizendo: “o que tá esperando? levanta logo, seu verme infeliz.” volto a obedecê-la e caminho até o centro do salão vazio e silencioso onde ela está. paro a sua frente e encaro seus olhos que me fazem o mesmo. quero confiar em seu olhar seguro de si e de tudo, mas percebo que nada sei sobre ela. nem mesmo de onde veio, nem mesmo como se chama ou o que quer. me diria o seu nome se eu perguntasse agora?, tento saber. “coloque sua mão direita em minhas costas.”, ela me ignora. isso é um não? “entre meus ombros e minha cintura.”, mas...


me interrompendo, ela mesma a coloca, e me puxa, e nos aproxima. meu rosto fica a poucos centímetros do seu. meu corpo sente o quente da sua pele. é quente, não morno, não frio. eu gosto, mas ainda temo. temo-a. “agora segure minhas mãos com a sua mão esquerda”, diz. como quiser. seguro sua mão, meus dedos praticamente engolem os dedos miúdos e finos que são os dela. há uma vibração que nasce desse toque e se extravasa por todo o meu corpo. não sei se a princípio vem de mim ou se vem dela, mas é nosso, pois percebo que ela o sente, e que gosta tanto quanto eu. e agora? o que faço? “irá me conduzir. é seu papel de homem nessa dança.” só na dança?, provoco. “e é seu papel de aprendiz seguir minhas ordens e escutar sem interromper.” faço silêncio. deixo-a dar as ordens e apenas obedeço. passos para trás, para os lados. minhas pernas, suas pernas. eu vou e ela me encontra. eu guio e ela se deixa guiar. mas na verdade eu estou sendo guiado por ela. é ela quem tem o total controle sobre mim; com sua voz, seus olhos, suas mãos na minha. tento não distrair-me das suas instruções, mas me distraio. são os seus olhos os culpados. vejo neles um pássaro escondendo-se dentro. a águia. ela me olha, me intimada, mas me convida para entrar. quero aceitar, mas algo me diz que não devo. não me importo. e nada escuto e tudo penso. foda-se. eu vou entrar. “está escutando o que eu digo?”, despertar-me ela. desculpe. não posso. “qual o problema agora?” seus olhos não deixam. “o que há com meus olhos?” tudo. há tudo neles. e quero decifrá-los. “ficará querendo.”, e ela se afasta de mim como se eu houvesse lhe tocado num ferimento, depois diz: “aqui é área restrita pra você. não me venha com essa.” o que esconde aí dentro? “o que escondo aqui não interessa. que merda você pensa que é?” nada. mas estou disponível pra ser qualquer coisa que você queira. “dispenso. não há nada que me interesse em você.” e por que me chamou aqui se sou tão desnecessário? “está me desafiando?” estou lhe fazendo uma pergunta. “não quero responder.” isso é medo? “vá embora.” e as aulas? “as aulas?” ela ri. “procure outra professora se deseja mesmo aprender.” o que fiz de errado? tentei te entender, não gosto de mistérios. “aí está o x da questão.” então isso é realmente medo? não quer que eu veja o que esconde? “que se foda.” eu já o fiz, respondo. ela me dá sua última olhada. eu sinto isso, sinto que é última. um estranho espasmo de desespero me toma o corpo e então minhas suspeitas se tornam reais. vejo-a virar e se afastar de mim. está tão furiosa que mal sabe controlar o bater forte do seu sapato no chão de madeira. fico escutando o som e encarando suas costas nuas e brancas que faz silêncio ao me encarar. quero chama-la, pedir desculpas, implorar por uma nova chance, mas minha voz se recusa a sair, está ocupada demais me xingando intimamente. ela se vai. batendo forte a porta ao fechá-la. não há mais passos. não há mais nenhuma bela curva. não há mais doces olhos de águia. há apenas eu. e isso não é lá grande coisa.


cinco estou em um estado que nunca me vi antes. destruído em mil pedaços tolos. e saber a razão me deixa ainda pior. passaram-se uma semana depois do meu último encontro com a mulher dos olhos de águia. uma semana de pensamentos entorno dela, rondando-a sem nem mesmo ela imaginar. sou um homem. um simples homem, um fracasso de homem. ela é uma mulher. com uma grandeza que jamais vi em outra e talvez não houvesse, e olha que pouco a conheço, e olha que pouco conheço outras mulheres. mas é em uma noite de quinta-feira que eu me encho de coragem, voltando do trabalho e a caminho de casa. queria um banho, comer alguma besteira e depois deitar na cama. dormir. morrer. qualquer coisa assim seria bom, seria ótimo. mas, como eu disse: nessa noite me enchi de coragem. eram umas nove horas quando meus pés desviaram do caminho de casa, me levando para o meu querido bar daquela rua qualquer. fazia também uma semana que por ali eu não aparecia. também não tive a coragem de voltar, eu sabia que a reencontraria. ela e suas belas curvas de garçonete, seus doces olhos de águia de dançarina. entrei e sentei na mesma mesa de sempre. aquela do fundo com uma janela. por um tempo não fiz nenhum gesto para que alguém viesse. eu esperei. esperei ouvir sua voz perguntando o que eu desejava. imaginei cuspindo-lhe todas as verdades e puxando-a para perto de mim. ela me xingaria de algo, mas eu jamais saberia qual havia sido o insulto já que toda a minha atenção estaria em seus lábios. tão rápido para que ela não fugisse, eu lhe tomaria a boca num beijo. por isso esperei. mas não houve nada. meus olhos encararam mais intensamente a noite pela janela, eu levantei a mão. passaram-se dois minutos. e foram os dois minutos mais longos de toda a minha vida. foram os dois minutos que eu mais sofri. eu suei. eu tremi. eu quase gritei para que todos escutassem, e para que ela escutasse, o quanto eu precisava ver as suas curvas. eu estava louco. estupidamente louco nesses apenas dois minutos que antecederam a sua vinda. “deseja alguma coisa, senhor?”, sua voz foi à música mais bela que eu já tinha escutado. ela estava as minhas costas, eu ainda não a via e nem me virei para fazer. mas eu sabia que era ela. eu escutaria aquela voz e saberia reconhece-la até mesmo no inferno. você, eu pensei comigo. desejo você. mas o que digo é: o de sempre, por favor. “como quiser”, e ainda sendo a boa garçonete de outros tempos, ela vai e não tarda a voltar. traz-me uma garrafa de whisky e um copo. despeja uma grande quantidade neste e meus olhos tem o reencontro evitado e desejado com as suas curvas. a paixão cresce. “mais alguma coisa?”, ela pergunta. agora eu a olho. pela primeira vez eu a olho naquele bar. está diferente. sem maquiagens, sem o forte batom vermelho. o cabelo curto está puxando para trás por uma bandana. o rosto pálido, os olhos foscos. a águia dorme lá dentro. rapidamente penso que se aquela fosse realmente a primeira vez que eu


estivesse vendo-a, nada me interessaria naquele rosto. não é feio, mas é morno. a garçonete era diferente da dançarina. eram duas em uma única mulher. me perguntei quantas faces ela ainda tinha. “mais alguma coisa, senhor?”, ela repete a pergunta, impaciente. sim, eu digo, poderia me fazer companhia? “o senhor não acha que já está bem fornecido?” ela aponta para a garrafa de whisky. eu sorrio. acho engraçado ouvi-la me chamar de senhor. leve a bebida então, prefiro você. “se ainda não percebeu, eu sou a garçonete e você não é o único cliente daqui. agora, com licença, há outros bêbados solitários que preciso alimentar.” ela me deixa. mas meus olhos vão com ela. assim passam a maior parte do tempo. seguindo-a, amando-a, querendo-a. não consigo controla-los dentro dos meus olhos, não consigo controlar porra nenhuma. quando o relógio aproximase da meia-noite, eu volto a levantar a mão. outra garçonete vê e se aproxima, mas não dispenso seu atendimento. faço-a ir chamar a minha garçonete preferida. brava, ela obedece. a outra vem. não parece nada satisfeita, isso até me diverte. “o que quer?” a conta. e ela anota algo em sua caderneta e me entrega o papel. o mesmo valor de sempre. eu tiro as notas da carteira e entrego. entrego mais que o valor, é a sua gorjeta. “obrigada.” agradece, mas ainda parece aborrecida. não por migalhas, eu repito a minha frase. agora vejo como ela reage. seu rosto delicadamente se franze como se tivesse experimentado uma bebida forte pela primeira vez. há ali uma hostilidade que possui braços e vem me atacar. eu desvio, dou-lhe um sorriso e digo: estarei a sua espera lá fora, sei que já está na hora do bar fechar. após o aviso não digo mais nada, ela também não. não lhe dou tempo, afinal. saiu atravessando o bar que já está praticamente vazio. fico lá fora, do outro lado da rua, sentado na calçada com os olhos fixos na porta do bar. vejo as últimas pessoas saírem. vinte minutos depois ela deixa o local. está sem a sua roupa seu aventalzinho de garçonete. usa uma calça jeans, um moletom que esconde suas curvas e coturnos. os cabelos estão soltos e ela carrega uma bolsa. não me vê e nem me procura. pega o lado da direita, caminha com passos longos. está com pressa. mas eu também. está indo dançar? é a minha pergunta quando me aproximo. ela continua andando e não me olha. tomo o lugar ao seu lado. “só danço aos sábados e aos domingos.” diz e fazemos silêncio. ela já não está tão brava assim, eu avalio o seu rosto. mantem-se sem expressão alguma, mas parece pensar em alguma coisa. então diz: “ficará aí me seguindo?” bom, se você parasse e me escutasse, certamente eu não precisaria te seguir. ela não diz nada. continua a andar, atravessa a rua sem olhar para os lados e caminha até uma praça. lá se senta no banco. eu a acompanho. “seja rápido. não quero perder mais tempo com você.” quero que me diga o seu nome, sou direto. “por que isso é tão importante pra você?” só diga, por favor. não é um crime querer saber. ela encara a noite. não sei se é a noite, seus pensamentos ou apenas a praça, mas ela olha fundo para algum lugar. há mais algumas pessoas ali, bêbados e mendigos, talvez tão


perdidos quando eu e essa bendita mulher. “Luiza. a porra do meu nome é Luiza.” ela finalmente diz. Luiza? repito. ela não tinha cara de Luiza. “sim. foi o que eu disse não foi?” obrigado. é um lindo nome, digo. “eu sei.” e por que se recusou a dizê-lo? “por que eu diria meu nome para alguém que eu mal conheço?” bem, me disse agora. “não pense que há outra intenção além de querer que você me deixe em paz. então, agora que já sabe, adeus. não me siga e nem me procure. aproveite e encontre outro lugar pra encher a cara.” ela levanta e volta a caminhar. fico quieto no banco, mas falo como se eu tivesse cantando uma música que sei de cor: espero que goste de desapontamentos, nos vemos amanhã! e a propósito, me chamo Victor! não ouço mais nada. não ganho nenhum olhar. vejo apenas a fumaça elegante do cigarro que ela acabara de acender.


seis no dia seguinte eu estava lá como a minha promessa teimosa. ela também estava e odiou me rever. percebi pela sua olhada benzida de hostilidade e confirmei quando não veio me atender. eu pedi que a chamassem e ela ainda se recusou, mas a notícia pareceu ter corrido pelo lugar: a garçonete não queria servir o freguês, o freguês não desistia de ter o seu atendimento. o gerente pareceu não gostar nada daquilo. eu o vi segurá-la pelos braços levando-a para o fundo, no corredor onde ficavam os banheiros. os segui, pateticamente me escondendo entre as pilastras e mais pateticamente ainda intencionado a escutá-los. e então, o que eu ouvi em seguida mudou algumas coisas. “aqui não tem essa de escolher quem você irá servir” o seu patrão dizia, “mas que porra! se o freguês pede que você o sirva então você o servirá. agora engula a merda desse orgulho e vá.”, “não pode me obrigar!” ela o desafiou. “Lola, Lola...” ele disse, eu procurei a Lola, mas não havia ninguém além dos dois. o patrão e Luiza. ela era a Lola. Lola! “já me basta ter o prejuízo de liberá-la cedo nos finais de semana, justo nos finais de semana, quando a porra desse bar enche e eles estão loucos pra encher a cara enquanto um rabo gostoso os serve, mas você sempre tem que ir pra dançar sei-lá-o-que e eles acabam indo embora também.”, “se você me quebrar essa, eu juro que fico no sábado até o bar fechar.”, ela tentou negociar. “acho que você não entendeu” ele continuou. “ou você vai agora, ou pode pedir suas contas e se mandar daqui. a escolha é sua, Lola.” numa troca de olhares que durou alguns segundos, ela finalizou a conversa assentido. o patrão amenizou seu semblante irritado e se afastou. não deixei que ele me visse, mas assim que a mulher passara, eu me pus em sua frente, carregado de raiva e ironia: Lola, não é? ela não respondeu, parecia levemente surpresa. continuei: por que mentiu pra mim? perguntei, e a minha vontade era tanto de entender quanto de socá-la, nem que fosse só com aquelas palavras. porém, a sua resposta foi um olhar fixo e penetrante. além de um sorriso. um sorriso que, jesus cristo, o que ele dizia? eu não sabia, eu não fazia ideia. parecia desdenhar-me, parecia zombar. zombava da minha tolice em acreditar na sua mentira ou havia outra razão? passei o resto da noite pensando naquilo e nenhuma conclusão me fez companhia.


sete queimo todos os neurónios em uma porcaria de matéria sobre as áreas de entretenimento pouco conhecidas. a realidade é que não havia nenhuma palavra naquela página em branco do Microsoft Word 2011. triste página em branco. tristes pensamentos meus, incapazes de autocontrole e sequer livres de certos desejos enroscados nas minhas entranhas. um monstro! estou criando um mostro! – e inconscientemente escrevo isso na triste página em branco. leio três vezes antes de apagar. bufo. passo as mãos pelos cabelos sentido a nota de desespero começando a tocar numa maldita trilha sonora. suo. sinto dor nas costas. o tic tac do relógio parece mais a risada do diabo no meio da guerra. o meu prazo estava se esgotando, eu já tinha desperdiçado duas boas horas dele e nada havia sido produzido. era o seguinte: ou eu terminava aquela matéria de merda ou meu emprego estaria em risco, e não era a primeira vez que malditos bloqueios tentavam me foder. escuto passos. são pesados, lentos e traz consigo um cheiro de charuto vagabundo misturado com alguma colônia barata. Santo Santos, meu chefe. vem arrastando o planeta que tem no lugar de barriga, as pernas tortas e a calvície formando uma grotesca careca no topo da sua cabeça. ele é grande. tão grande quanto meu desprezo por ele. “terminou a matéria, Crawford?” ele pergunta arrumando as calças. ainda não, respondo. “e quando o fará?” quando eu conseguir. “você é uma decepção, Crawford. uma grande decepção. e preguiçoso. até de viver tem preguiça.” e eu não digo nada. suas palavras fazem um imediato fuzuê no meu cérebro. maldito bastardo. o que sabe de mim? o que te faz pensar que me conhece? passa por essa sua cabeça horrorosa o quanto eu já estou fodido? já ouviu falar da mentirosa Luiza? e Lola, a garçonete daquele botequim de classe média a uns três quarteirões daqui? por acaso já teve a maldita sorte de assistir alguma apresentação da bela dançarina de tango que sabe-se lá qual nome ela deve dizer que tem? conhece alguém que tenha encantadores doces olhos de águia, meu amigo? vamos! enfie essa língua venenosa para dentro da boca, seu grande velho miserável! saia daqui. saia daqui. e ele sai. sai rindo e balançando a cabeça negativamente. é claro, não leva nenhuma dessas palavras cuspidas aí em cima. tudo foi só o que pensei enquanto o encarava em um silêncio estúpido. os dentes tão trincados que talvez aquilo tenha formado uma careta na minha cara. a máscara que eu usava de homem fracassado. e assim, os dias que se sucederam foram loucos. era como eu me sentia. a culpa era daquela mulher. a mulher que eu não sabia o nome, que não me dizia como realmente se chamava, que sempre mentia a respeito. não era honesta comigo e pelo visto com mais ninguém. a mim ela se deu o nome de Luiza. no emprego do bar se chamava Lola. não tardou e eu logo descobri que onde dançava nos fins de semana era conhecida por Yolanda. depois das descobertas pensei em


esquecê-la. definitivamente. eu queria deixar para trás todos esses dias que me infiltrei em seu mundo cheio de mentiras e mistérios. quis manda-la para o raio que a partisse, quis fingir que não me importava em deixar de frequentar o meu bar preferido e deixar de ver suas curvas, seus olhos. deixar de ouvir a sua voz. parar de ter ideias insanas que a envolvesse e nos envolvesse. mas a essa altura eu já era um homem contaminado. continuei a segui-la. ela não me via, mas eu estava lá. indo aonde ela ia, observando onde morava, esperando-a sair de casa, esperando-a deixar o trabalho. a via dançar, a via mentir, a via viver. já não conseguia mais trabalhar, não terminava uma sequer matéria e acabei sendo demitido e tendo que sobreviver apenas com os auxílios desemprego. as coisas andavam de feias a horríveis. e para piorar, naquelas minhas seguidas descobri outros nomes da mulher dos doces olhos de águia. para o cara do cachorro-quente ela era Carolina. para o padeiro, seu nome era Sara. para um conhecido que encontrara na rua, chamava-se Isabel. era também Teresa, Clarice, Sabina, Laura, Ana, Inês, até um nome que parecia estrangeiro e eu não fazia ideia da origem. era todas elas. era tudo isso. e eu não sabia qual delas ela realmente poderia ser.


oito o que contarei agora, eu dou o nome de fim. era uma manhã comum de domingo. o sol brilhava no céu carioca, havia pessoas de um lado para o outro. uma variação de rostos que eu desconhecia e me desconheciam. Luiza estava atrasada dez minutos. lembro-me do bilhete que lhe entreguei noite passada logo após a sua apresentação. ela estava em uma das mesas, estrategicamente sozinha, como eu. no guardanapo que se tornara bilhete eu havia escrito: “querida Luiza, doeria em ti me conceder um encontro?” após anotar o endereço e o horário do outro lado, pedi a um garçom que a entregasse. minutos depois veio a sua resposta: “querido Victor, doeria em ti receber um não como resposta?”, “não chega a doer. mas eu devo insistir.”, “acha que terá um bom resultado?”, “claro. por exemplo, há poucos minutos achei que nem a esses bilhetes você responderia.” depois disso ela parou de responder. do outro lado do salão eu a olhei mais uma vez. estava com um cigarro nos dedos e os olhos em mim. nos lábios vermelhos-sangue um sorriso de presente. era inteiramente meu. era um sim. por isso eu esperei mais vinte minutos naquela lanchonete. foram vinte minutos de pura aflição para um homem profundamente ansioso. ainda pior que os dois minutos de espera para que ela me atendesse no bar. me vi meio desistente, um tanto raivoso, outro tanto desesperado. desejei tolamente ir até a sua casa alguns quarteirões de lá e trazê-la aqui, pelos cabelos, pelos braços, pelas pernas. respirei fundo. olhei pela parede de vidro que dava visão a rua e vi surgir de repente uma balburdia por lá. havia uma fila de carros parados buzinando como loucos. pessoas correndo na direção de algo, barulho e rostos espantados. que se foda, eu pensei, não me importa, não me importa. mas não contive minha curiosidade, não me segurei naquela cadeira e continuei apenas esperando a mulher de mil e um nomes. fui ao encontro das outras pessoas, seus olhares dando pistas e a minha própria intuição e curiosidade me guiando. quando vi, pensei que a atração fosse somente um carro parado no meio da pista. três segundos depois notei que na verdade rodeavam alguém. um corpo caído no chão, logo a frente do carro. com sangue e olhares. “ela está morta...”, alguém diz. não vi quem, nem me interessei em saber. ali estava no chão a mulher que eu esperava. a dançarina de doces olhos de águia, a garçonete de belas curvas, a mulher dos mil e um nomes. ali estava Luiza. morta, foi o que o homem disse. morta, foi o que eu vi. outro homem se aproxima e pega a pequena bolsa ao lado do corpo. com a intenção de que talvez aquilo desse a morta um pouco de dignidade, tira de dentro a sua identidade e por longos segundos a fita. “como se chama?”, pergunta a ele uma senhora. “Maria”, ele dissera, “se chamava Maria”. e a águia, revelada uma simples Maria, nunca mais acordou.



doces olhos de águia