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Ponto de situação Raquel Martins


No fim de alguma coisa, de um processo de trabalho, de uma série de trabalhos concluídos, de ideias debatidas, mexidas, trabalhadas, ou atrás de tudo isso, adormecidas, interessa chegar-se a um ponto de situação. Perceber-se o que se fez no contexto de alguma outra coisa. Analisar-lhe latências e inerências exteriores às que se pudessem fechar pela conclusão de algum momento de processo. Perceber a linha que nunca pode ser receita, o interesse comum que pode até ser o desinteresse, o ponto de onde se partiu, mais ou menos evidente, e o ponto a que se chegou, nunca necessariamente fechado. Quando o meio é o fim, a experiência de tornar física a ideia, deixa de ocupar o caráter conclusivo que se verificaria se a tivemos por propósito de fim e validade em si, e passa a fazer parte da identidade do percurso enquanto ponto específico na sua linha. Em simultâneo, a estrutura em que criamos o que quer que seja pode assumir-se também como seu fator de identidade, e assim, então, desapropriar-lhe a ideia de todo e substituí-la pela ideia de parte. (Pôr em perspetiva. Pensar, em tudo, forma e conteúdo. E uma postura pode tornar-se objeto. – Associação livre em stand-by.) O tempo durante o qual analisamos um percurso que é sempre parte de alguma coisa que o antecedeu, e que produzirá ideias e formas consequentes deve, portanto, resultar num ponto de situação. Interessa-me pensar dentro da ideia do tempo, a linha que esteve atrás de experiências mais ou menos objetivas, pensadas ou conscientes, mais do que tê-lo como início e fim de um processo concluído, composto por experiências da mesma índole. Resultam então desta vista de olhos, desta análise, ressalvas e perceções pós momentos experienciais. Mote, a terceira mão. A ideia de terceira mão começa por ser pensada de forma imediata, que só assim cria um início de interesse genuíno, ainda que possivelmente inconsciente. Interessa à mão a ideia de ação, a ideia de que produz. Interessa que o indivíduo tenha duas, e que a terceira seja uma outra que não uma das suas. Por ser “A” está presente. Um elemento externo à ação do indivíduo, intrínseco, porém. Ao contrário das duas, não se controla, pelo menos conscientemente. A ação passa a ser uma coisa que é tanto das duas mãos (de obra), como de uma comum, conhecida, porque sempre presente, desconhecida identidade. A mão dos outros, as mãos dos outros, os outros, ou qualquer coisa que não é gente Na ideia de uma terceira mão, se parte então à experiência, que conduz à descoberta de algumas coisas… http://atmaterceiramao.tumblr.com/


http://zaplr.tumblr.com

A criação de espaços de possível ação conjunta. A noção de abrir lugares que vivam da ideia de apropriação, na medida em que dependem da relação de fora com o já criado e existente, para que se desenvolvam e tomem o rumo consequente do tempo e espaço em essa relação existiu. A ideia de fluxograma.

bancada,

encostada

a

uma

parede

com

um

E a de abandonar plantas que precisam de água, e fermentos que precisam de ser vigiados. Criar despensas e bibliotecas, e gavetas comuns com material de processo. Deixar o lugar aberto, à espera do que quer que aconteça constitui um ponto mais importante do que tudo o que possa relacionar-se diretamente com a simbologia dos elementos. Servem de pretexto ao plano, à experiência. Como serve a própria criação do espaço a uma outra ideia, que se descobre neste ponto de situação que é o rescaldo das latências maiores dos momentos de experiência, e que vêm a mostrar-se exteriores a estes.

Experiências: Criação de um tumblr do pretexto. Criação de outro tumblr objeto-ideia, forma-conteúdo análogo à linha maior. Criação de uma mesa/bancada de trabalho Criação de um fluxograma baseado no objeto pretexto - pão (Não houve interação direta, mas houve relação) Encontrar espaços da escola com um caráter de lugar-comum para esconderijos Abandonar massas por fermentar durante dias nesses lugares (Acabaram por desaparecer 3 ao fim de 3 e 4 dias) Construir um abrigo para as massas e repetir o processo (Ao fim de 5 dias, viviam e mantinham-se no lugar) Assar as massas na bancada de trabalho e reservar massa crua para poder depois ser usada como isco/fermento das seguintes fermentações nos mesmos locais ou em locais diferentes também da escola


O objeto à volta do qual se desenvolve o trabalho é representativo de muito mais do que de tudo aquilo que lhe está associado e é simbólico. É, neste ponto de situação, percebido como pretexto, analisado enquanto ponto de identidades específicas na linha maior. Acreditar que as ideias fixam muito mais, e ganham uma muito maior importância, quando nos são colocadas na nossa esfera, e à nossa escala, não na medida em que não podemos construir um homem gigante, mas na medida em que o homem gigante teria de funcionar numa ideia de proporcionalidade direta para que nos aproximássemos de uma sensação de verdade, interessa. O pão. Objeto pretexto. Simbologia fácil e evidente. Coisa do tempo e da história, próxima. É de mexer e depende de um agente externo na intervenção. É sempre processual, e na história podia ter havido sempre só um pão, se tivesse sido mantida por assar parte da massa. É cultural, geral, e quase inato que o ímpeto que juntou os ingredientes pela primeira vez. Implica um certo ritual, e é adaptável a uma imensidão de formas, climas, e todos os possíveis afins. É representativo da ideia de alimento, mais do que os alimentos que lhe são cronologicamente anteriores. Passa fases e estágios. São também objetos de referência as ações como o assar pão, comê-lo e dividi-lo. E os lugares em que se criam as experiências e situações. É objeto a ideia de intermediário, mais do que a de tamagochi morto. Implica passos de entremeio, mensageiros que transitam, e o uso de recursos que têm em si um peso de meio e não fim.

Experiência Criar um intermediário com o qual existisse uma relação próxima, e referente de uma esfera diferente, e responsável pelas mais terríveis sensações de distância. Um tamagochi, de asas abertas, porque é assim que fica quando morre. Transformá-lo em sticker e espalhá-lo pelas massas em fermentação Colá-lo na base dos vasos Estampá-lo no aventar com que se coze o pão, que é também a cobertura do abrigo. Criar ao mensageiro uma história. Dar-lhe alguma identidade, e torna-lo responsável pelo fim, ainda que o fim seja só um novo passo do meio. Criar-lhe o respetivo tumblr. Usá-lo (total stand-by)


http://openatm.tumblr.com

ATM. Deposita-se e levanta-se. Atm a terceira mão. Analgias próximas e fáceis. Que têm a ver com despensas e ingredientes de pão. Que têm a ver com o contributo de uma participação coletiva, que têm a ver com a ideia de processos e intermediários. Com a ideia de coisas que existem nas passagens de tempo, num certo espaço, que pode ser vários. Ideia de openatm enquanto projeto. Possível linha orientadora de todos os momentos de experiência e ação do tempo que se analisa agora… Encontrar locais de interesse e de implícita passagem de tempo, da vida real do espaço. Locais em que se evidencie o resultado dessa vida real em tudo o que se produz. Locais em que essa estrutura de orientação seja intrinsecamente apreendida enquanto meio constante e sempre presente na ação e na identidade de todos os objetos que dela resultam.


Uma publicação resulta, em forma, numa estrutura funcional, que é geralmente pensada, ou que simplesmente acaba por acontecer, servindo mais ou menos o propósito do seu conteúdo. Implica uma coerência entre ambos os aspetos. É alguma coisa que é tornada pública e que pode ser distribuída, ou pelo menos, dependendo então do meio (congruente) em que se publica, alcançada por um público. Tem autor, ou autores, e implica uma relação “de-para”. Depois de apreendida, com mais ou menos premeditação e iguais ou diferentes predisposições, deve resultar em qualquer coisa, nos então recetores, Coisa que pode ser feita em número, e cujo caráter me parece implicar, de forma diferente daquele que associo a um livro, que um certo imediato inerente, produza resultados muito semelhantes e, também, em certa parte premeditados, ou com vista a um fim mais claro e provável, do que mais indefinido, difuso e possível. A cópia é quase sempre reprovável, e há, por isso, a necessidade de salvaguardar os direitos de autor.

Experiência Publicar um pão, forma de um conteúdo estrutural que lhe será necessariamente coerente, pelo desenvolvimento da estrutura de glúten e fermentação que dependendo de todos os fatores de matéria, de tempo e de espaço reais, criam aquele único objeto. Os direitos de autor ficam salvaguardados só e exclusivamente pela estrutura particular que se desenvolveu, independentemente de quem amassou o pão, ainda que daí resulte também uma influência na forma como esta se vem a desenvolver. O pão em questão é criado a partir de um isco de massa do seu protótipo, pão publicado na semana anterior na sala de aula, no dia, ora então, de se olhar para protótipos. Pão de massa velha, como o são as publicações. Criar um desdobrável acessório, quase livro de instruções, cuja estrutura/forma, resultasse da forma com que se “dobra” o pão para que repouse, depois de amassado. Nas diversas faces do papel, a indicação da direção/sentido em que dobrar. Do resultado final, coesão das partes num todo que aguenta a forma sem se abrir, a não ser que sofra interferência exterior, qual pão, qual publicação, qual ideia, a imagem em camadas de um copyright reconhecido, impossível de conseguir sem a relação específica das partes, que implicam processo, antes e depois. Que implicam sempre as especificidades da vida real.

Recorrência na ideia de que ter o meio (neste caso também de media) por fim é a forma mais óbvia de produzir relações de proximidade com os objetos, sejam materiais ou não, e consequentemente produzir ação consequente de interesse genuíno. Publicar forma e estrutura de publicação, enquanto publicação.


Grupo e a ideia de todo enquanto junção de partes. Partes enquanto indivíduos, mútua e ciclicamente influenciados. Publica-se sempre o todo, juntam-se as partes e cosem-se as folhas. Cosem-se ideias e imagens em estruturas funcionais. A valorização da parte anula-se em detrimento do todo. Experiência Produzir um caderno cuja forma nos parecesse apta a ser considerada uma publicação standart, manuseado por cada um dos elementos do grupo, pelo período de tempo que cada um considerasse adequado e da forma com que, no momento em questão, desejasse fazê-lo. Filmar o processo. Fotografar as folhas depois de manuseadas por todos os elementos, juntar o material, e imprimir um novo livro, publicação, com a mesma exata forma do caderno standart inicial, no local mais próprio dentro da estrutura a ser produzida pelo interesse da publicação. Assim, neste caso em particular, a fotografia de cada página passou a figurar na página correspondente à seguinte. Apresentar a publicação enquanto o registo do processo, e procurar conseguir alguma relação de tensão entre o vídeo e o caderno. (enquanto, meio, forma, conteúdo e fim).


Grupo. Ressalva-se, novamente mais do que as particularidades simbólicas do objeto/situação, a ideia de produzir situações, momentos, experiências, que se vão construindo enquanto vão acontecendo, pela troca direta de opinião relativamente à estrutura que as propiciou, e à estrutura na qual se vão depois desenvolver. Interessa perceber de que forma, ou por que motivo, se usa uma situação particular enquanto resposta a um estímulo que poderia ter resultado em qualquer outra coisa, havendo na resposta toda a possibilidade de liberdade. Interessa perceber de que forma se relaciona a escolha da forma com a ideia do conteúdo e da identidade das formas que conduziram a esta. E as implicações no facto de, para um trabalho que envolve inter-relação, se optar por procurar companheiros e aliados. Interessa pensar qual é o interesse de produzir mais do que exclusivamente uma experiência pessoal, se nesta vai estar tudo aquilo que antecedeu o presente da forma em que resulta, e assim, vai ser ponte, necessariamente, de todo o processo de adaptação e construção que protagonizou, no contacto com a sensação de diferença e estranheza de todos os que sejam exteriores a esta construção de uma situação pessoal e marcada pelo tempo, pelo processo, pela intensidade, dentro das noções do projeto. Interessa pensar se faria sentido que se percebesse tudo o que anunciávamos e pensávamos enquanto a tal ideia, projeto, ou momento experiencial, sem que o tivéssemos que expor explicitamente, ou se não fará parte legítima da identidade da experiência, que ela seja despretensiosamente anunciada, em tudo o que são os seus objetivos e motivações. E se não é isto também a melhor forma e conteúdo, os mais coesos, e verdadeiros, dentro do que nos interessa que resulte da “coisa” que criámos.


Ponto de situação e partida para novo período temporal, e outras coisas em stand-by

Noção de proximidade e de distância. E noção de verdade. Ou da criação de um contacto mais ou menos subconsciente com ela. A conclusão da ideia fora da experiência. O processo, a vida real, como conclusão do trabalho que passa por um momento de exposição, por um dito ponto de situação. A importância do todo. O que resulta como forma de perceber alguma coisa que existe. O fazer para pessoas em particular que levanta a questão da universalidade. Porém, tudo tem o ponto contrário. Retirar às coisas os referentes que lhes são exteriores. Procurar-lhes, até ao extremo, tudo aquilo que lhes é realmente estrutural, o sítio de onde vêm, o lugar em que são reais, e evitar saltos entre o centro e das coisas e construções cujas bases ficaram pela superfície e tomam alturas imensas em estruturas de vazio. Coisas que não me interessam para nada… Interessa-me legitimar que posso fazer do meio fim, e usar como experiência para uma construção de ideias e reformulação de outras, e depois das mesmas, momentos de projeto, momentos de experiências, de exposição de situações, de redistribuição de objetos, e que o que realmente interessa enquanto resultado é ter na ponte que se estabelece em ter nesse processo uma postura constante, o maior referente de um trabalho.

As experiencias enquanto coisas de que se tira partido como parte e meio. Uma experiência, ou momento, que apesar de tudo o que possa implicar simbolicamente, é, porque eu o digo, e tenho na palavra a mesma precisa legitimidade do que numa outra coisa qualquer, e na conversa direta, diálogo e discurso, uma igual estética, e forma para determinado conteúdo, acima de qualquer outra coisa, uma apresentação final de escola, e o regresso ao contexto, o regresso à estrutura, é um dos pontos mais importantes da linha que existiu atrás das experiências deste tempo de um ano.


Coiso