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OPRESSテグ FEMINISMO LIBERDADE


ÍNDICE 4 6 8 10 12 14

Estado Novo Mulher Portuguesa Feminismo Anos de ruptura Novas Cartas Portuguesas Cânticos do País Emerso

EDITORIAL Mulher portuguesa, até 1972 morreram 5.235 Soldados e ficaram feridos 20.000 na guerra colonial. Já pensaste a quem serve esta guerra? AO POVO PORTUGUÊS NÃO! Ora acontece que diariamente são gastos cerca de 60.000 contos na guerra colonial. Onde vai o Governo Português buscar este dinheiro? Esta soma é tirada todos os dias ao povo português através do impostos e do aumento do custo de vida, canalizando verbas que deveriam ser destinadas à saúde, assistência e educação os gastos militares, congelando salários já de si baixíssimos, explorando a mão-de-obra feminina e das crianças ao pagar-lhes por um mesmo trabalho um salário ainda mais baixo. Se esta guerra não serve ao povo português, então porque razão o governo português insiste nela? O Governo fascista português insiste e insistirá em mantê-la porque é formado e está ligado intimamente a uma minoria de exploradores que possuem todas as riquezas nacionais e para os quais as colónias naturalmente ricas e com mão-de-obra barata, asseguram bons investimentos e fáceis lucros. Mulher portuguesa é o governo fascista que rouba o povo para pagar a guerra! É também ele que obriga o povo a ir lutar para as colónias! Milhares de jovens são obrigados a incorporarem-se no exército fascista e a abalarem para as colónias onde em nome de um falso patriotismo, sofrem os horrores da guerra. Quantas mulheres não recebem diariamente a notícia da morte de familiares? Quantas não sofreram ao vê-los partir sãos e regressarem mutilados? Impõe-se que as mulheres sejam esclarecidas e trazidas à luta, pois a sua contribuição é indispensável para alcançar a vitória na conquista das liberdades fundamentais e bem estar social do nosso Povo. Este povo é reprimido e explorado por um regime que se mantém no poder à 50 anos, contra a sua vontade. Este regime, utilizando o povo e tentando sufocá-lo, serve um punhado de grandes capitalistas, os quais manobram o governo a seu belo prazer. O POVO NÃO TEM SIDO DONO DO SEU DESTINO.

Projecto elaborado por Ana Raquel Freitas Sara Brás

Comissão de Mulheres da CDE


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Meu caro Manholas Júnior

ESTADO NOVO Constituíção de 1933 O projecto constitucional pode considerar-se estabelecido em torno de cinco princípios fundamentais: 1. A recusa do demoliberalismo —como questão prévia de fundo, a recusa dos fundamentos liberais, democrático e parlamentaristas do Estado, isto é, da ‘liberdade’ e da ‘soberania popular’ enquanto conceitos legitimadores do regime, particularmente valiosos em muitos aspectos da situação portuguesa. 2. O nacionalismo corporativo — Nacionalismo porque ‘estão subordinados aos supremos objectivos da nação, com os seus interesses próprios, todas as pessoas singulares e colectivas que são elementos constitutivos do seu organismo. E a forma de estrutural politicamente e harmoniosamente tal sujeição de interesses atomizados ao interesse nacional seria a ‘construção do Estado social corporativo em estreita correspondência com a constituição natural da sociedade’. 3. O Estado forte — respeita à opção pelo autoritarismo, pelo Estado forte, ainda que ‘limitado pela moral pelos princípios do direito das gentes, pelas garantias e liberdades individuais’, evitando o caminho daquelas ‘reacções justificáveis mas excessivas’ orientadas no sentido da sua ‘omnipotência e divinização’.

O Estado Novo 4. O intervencionismo económico-social — também no domínio económico-social o projecto constitucional do governo e a doutrina que o inspira se desviam do paradigma abstencionista do Estado liberal. Segundo Salazar, ‘não pode aspirar-se ao constituir um Estado equilibrado e forte sem a coordenação e desenvolvimento da economia nacional’, que teria de ‘fazer parte da organização política’. 5. O imperialismo colonial —a viragem nacionalizante e centralizadora operada pela politica colonial do Estado Novo teve como expressão institucional o Acto Colonial de 1930, publicado durante a interinidade de Salazar no Ministério das Cólonias. ... A importância central atribuída pelo novo regime à redefinição ‘imperial’ da politica ultramarina — um imperialismo não tanto agressivo e expansionista, mas política e economicamente integrador das colónias sob um reforçada tutela metropolitana, como que reafirmando as políticas de ‘pacto colonial’ —levará a que o Acto Colonial seja considerado, logo desde a sua publicação, como a primeira pedra do futuro edifício constitucional a levantar pela ditadura.

Designação com que o regime institucionalizado pela Constituição de 1933 se auto-intitulava. O período cronológico do Estado Novo pode considerar-se compreendido entre a entrada em vigor, a 9 de Abril de 1933, da nova Constituição, fruto do processo politico iniciado pela Ditadura Militar saída do movimento militar que, a 25 de Abril de 1974, derruba o regime vigente e põe termo ao longo ciclo autoritário e antiliberal em Portugal. Efectivamente, o Portugal do início dos anos 30, atrasado, rural, dependente, periférico e, até certo ponto, um caso único dos processo de articulação então verificados entre as crises económicas e o advento dos novos regimes autoritários. Fortemente atingidas na sua capacidade de acumulação de divididas, acerca das estratégias particulares de resposta à crise mais consentânea com os interesses específicos de cada sector; apertadas entre a concorrência estrangeira e as reivindicações de um operariado cuja sobreexploração encaravam como questão de sobrevivência — as ‘forças vivas’ unem-se contra o liberalismo republicano em torno de um propósito singelo: a ‘ordem’, ou seja, o Estado forte, capaz de a impor a todos níveis. Salazar vai conseguir, no decurso da aguda luta intestina que marca o processo de transição da Ditadura Militar


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Pág. Esquerda António de Oliveira Salazar Pág. Direita Fotografias de homens na Guerra do Ultramar

para o Estado Novo, estabelecer a plataforma politica e ideológica indispensável para que as várias direitas da direita forjassem um compromisso de unidade indispensável não só à conservação do poder, mas à instauração de um regime autoritário estável e duradouro. Assim sendo, o novo regime comporá um delicado equilíbrio, sempre arbitrado e conduzido pela autoridade de Salazar, entre cinco fontes principais: a matriz corporativa, antidemocrática e antiliberal do catolicismo conservador do centro Católico salazarista; os contributos do ultramontanismo monárquico e tradicionalista do Integralismo Lusitano; as preocupações da direita republicana conservadora-liberal; as ambições desenvolvimentistas da ‘direita das realizações’, dos ‘engenheiros’ e dos ‘técnicos’ que associavam a viabilidade do fomento industrial ou da ‘reforma agrária’ à existência de um Estado forte, esclarecido e interventor. Mas o Estado Novo viria a incorporar também, sobretudo a partir de meados dos anos 30 e ainda que de forma subordinada aspectos do discurso e da iconografia do radicalismo fascista dos nacional-sindicalistas.

Analfabetismo

Censura

Por oposição à ideologia republicana passou-se a enaltecer as virtudes humildes da sociedade agrária e analfabeta, desvalorizando-se as vantagens do ensinar o povo a ler e realçando o carácter elitista do regime que considerava a instrução apenas necessária às elites a quem competia colaborar na resolução dos grandes problemas nacionais. O ditador continuaria consciente dos perigos que representava a extensão da escolaridade a todas as camadas pela facilidade de leitura, e circulação de obras consideradas como ‘prejudiciais’, considerou mais vantajosa a alternativa de proporcionar escola a todos, desde que o Estado exercesse apertado controlo sobre o que se lia. A situação que se manteve até ao final da década seguinte, altura em que se inicia uma acentuada aceleração da queda ao analfabetismo que, pela primeira vez, atinge valores inferiores a 50% para o sexo masculino. No caso das mulheres os valores são consideravelmente mais altos, o que revela o tradicionalismo da sociedade portuguesa em relação ao papel social da mulher.

Em Maio de 1936, nova postura alargou as competências deste departamento que passou a deter a propriedade de autorizar ou proibir a fundação de novos periódicos e, pela primeira vez, também a circulação de livros: era a ‘censura repressiva’ que ficava regulada. Uma análise que dê conta do funcionamento e do alcance preciso deste aparelho de coacção — quer a vigilância quotidiana quer a apreensão liminar foram continuamente legitimadas pelo regime como meios essenciais para ‘impedir a perversão da opinião pública na sua função de força social’, concretizando-se na anulação de todos os ‘factores’ susceptíveis de ‘desorientar’ os portugueses ‘contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e do bem comum’ — não é de modo nenhum passível de ser feita na actualidade. in ROSAS, Fernando; BRITO, José Maria Brandão, Dicionário da História do Estado Novo, vol. I e II, Venda Nova: Bertrand, 1996 *Excerto de Carta Aberta a Salazar de Henrique Galvão, objecto de exposição


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Mulheres, cozinha e cama. MULHER PORTUGUESA Movimento Democrático de Mulheres

Mocidade Portuguesa Feminina

Obra Das Mães para a Educação Nacional

O MDM é uma associação de mulheres cujas raízes se encontram nos antigos movimentos femininos e que surge das comissões eleitorais de mulheres, criadas em 1968 no seio do Movimento de Oposição a Salazar. Após as eleições, as Comissões transformaram-se, por decisão unânime das mulheres que as compunham, no Movimento Democrático de Mulheres — MDM. Apesar das dificuldades, porque o direito de reunião era proibido pelo governo, o MDM festejou o 8 de Março de 1969, por sua própria iniciativa, constituindo este acto, a primeira manifestação pública, que marca o seu início como movimento feminino. Desde logo estabelece contactos a nível internacional, passando a ser membro da Federação Democrática Internacional das Mulheres — FDMI — utilizando, então este importante fórum para denunciar a situação das mulheres e do povo português sob o regime fascista. A 21 de Outubro de 1973, realiza-se o primeiro congresso nacional do MDM. Após o 25 de Abril de 1974, o MDM tornou-se uma organização legal. Nessa altura, as suas aderentes participaram em numerosas actividades: comissões de moradores, reforma agrária, brigadas de alfabetização e educação sanitária, sempre numa perspectiva de intervenção em defesa dos direitos da mulher. No plano internacional, o MDM pertence ao comité directivo da FDMI. No plano nacional, o MDM integra a sessão das organizações não governamentais do conselho consultivo da CIDM —Comissão para a Igualdade e Direitos das Mulheres — desde a sua formação em 1977.

Criada pela Obra das Mães para a Educação Nacional (OMEN), por incumbência do MEN, a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) propunha-se «estimular na jovens portuguesas a formação do carácter, o desenvolvimento da capacidade física, a cultura do espírito e a devoção ao serviço social no amor de Deus, da Pátria e da Família ». Através da «educação moral, cívica, física e social» pretendia formar, desde a infância, a «nova mulher», boa católica e portuguesa, futura mãe «prolífica» e esposa obediente. O Estado Novo, para quem a mulher era o «esteio» da família — núcleo de base da orgânica corporativista —, reservava-lhe o papel de educadora dos filhos e o serviço da caridade, substituto da quase inexistente política de assistência social. Os objectivos iniciais da MPF eram tendencialmente totalitários na medida em que o Estado pretendia, por seu intermédio, abranger a «Juventude de todo o Império» dos 7 aos 14 anos, penetrar no domínio privado e ético e «formar», através da «educação integral», mulheres «regeneradas» pela ideologia autoritária e nacionalista. No entanto, a MPF só atingiu os estratos escolares e liceais e partilhou sempre a formação das jovens com a escola, a Igreja e a família em cuja esfera privada não penetrou.

Depois da criação da Mocidade Portuguesas, Carneiro Pacheco, o novo titular da pasta da Educação Nacional, virava-se para a ‘educação integral’ das mulheres — ‘esteitos da família e da ordem social’. A OMEN propunha-se ‘estimular a acção educativa da família’, ‘assegurar a cooperação entre esta e a Escola’ e ‘preparar melhor as gerações femininas para os seus futuros deveres maternais, domésticos e sociais’, objectivos especificados no seu programa inicial: promover a ‘habilitação das mães para a educação familiar’ e para o ‘embelezamento da vida rural’; desenvolver ‘nos filhos o gosto pelos trabalhos domésticos e manuais pela cultura física’; assegurar e a educação pré-escolar’ e ‘os meios de cumprir a obrigatoriedade escolar’; ‘organizara secção feminina da Mocidade Portuguesa’ e ‘contribuir para a educação nacionalista da juventude portuguesa’. in ROSAS, Fernando; BRITO, José Maria Brandão, Dicionário da História do Estado Novo, vol. I e II, Venda Nova: Bertrand, 1996 *Frase proferida por homens contra uma manifestação feminista no Parque Eduardo VII, Lisboa, a 1975

Pág. Esquerda Mulheres da Mocidade Feminina Portuguesa Pág. Direita Mulher simbolicamente vestida com camisa de homem


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Vou ser feminista e seja o que Deus quiser!

FEMINISMO A noção de feminismo para as mulheres engloba um movimento com três grandes componentes — luta política, ideologia e (auto) consciência — que se complementam entre si. É um movimento político de luta por uma sociedade nova, por novos valores e maior equilíbrio de poder entre homens e mulheres. É um movimento politico, também sociocultural e quotidiano, de luta por uma sociedade nova, onde o masculino e o feminino tenham valores de paridade. A questão está fundamentalmente nessa paridade, entre esses valores. Portanto, nada daquilo que seja feminino ou masculino seja considerado superior ou inferior. O feminismo é a luta das mulheres por si próprias! Sim, por se honrar, pela dignidade, pelo seu encontro consigo próprias, pela sua sexualidade, com a sua dignidade! É essencialmente isto: a luta das mulheres pela sua dignidade, pela sua autenticidade. Mais ainda, feminismo é a tomada de consciência das mulheres quer da história da situação do género feminino na sociedade, quer de si próprias, enquanto mulheres: Ser feminina é, em primeiro lugar, ter consciência do papel que as mulheres têm na sociedade em que vivemos e até um pouco da história da evolução desse papel nas várias sociedades, ao longo do tempo, e como é que as mulheres foram conseguindo adquirir alguns direitos através da sua luta. É ter consciência da discriminação a que as mulheres estão sujeitas; ter consciência de que os papéis rígidos, que esta sociedade impõe ao homem e à mulher, podem ser um obstáculo à felicidade das pessoas e ao desenvolvimento das suas capacidades; ter consciência também de que alguma coisa tem a ver com a falta de poder da mulher, o que a conduz a situações de indignidade humana, em que elas são violentas de várias formas e submetidas a relações de dominação...

Feminismo é, portanto, um movimento social heterogéneo, englobando uma ideologia da transformação social que tem em conta os problemas específicos das mulheres e uma (auto)consciência da sua situação de subordinação, no sentido de conduzir a acção política por uma sociedade sem horizonte definido, mas onde o masculino e o feminino tenham valores de paridade. Tornar-se feminista como diz Maria de Lourdes Pintasilgo, ‘não há feminismo que se refugie na generalidade e na abstracção: o único lugar onde pode nascer a minha consciência feminista é a minha condição de mulher’. O contexto político, social, cultural em que emergiu o feminismo português das décadas de 70 e 80 — pouco antes do 25 de Abril e naqueles anos que se seguiram a Revolução dos Cravos — estava tão longe das reivindicações pela libertação das mulheres como o que as primeiras feministas enfrentaram em todo o mundo no século XIX e, em Portugal, no início do século xx. O peso da moralidade católico-salazarista era esmagador e prolongou-se muito para lá do 25 de Abril, apesar da radicalização do movimento popular em muitos aspectos da vida social — mas não nos aspectos morais, privados, íntimos. Como exemplos, poderíamos dizer que o próprio termo mulher tinha, na altura, uma conotação ligada a prostituição ou ao serviço doméstico. Era um termo depreciativo e está presente na memória das feministas portuguesas a coragem necessária para se assumirem como mulheres, por oposição a senhoras, e o esforço para os grupos se denominarem de mulheres. Mesmo dentro dos grupos se achava a palavra mulher no nome serviria para afastar outras mulheres.

A primeira etapa, a luta pelos direitos cívicos da mulher, pode ser subdivivida em duas fases, a antes do 25 de Abril de 1974, sensivelmente desde 1970; e depois de 74, até à aprovação do novo Código Civil, em 1978. Antes do 25 de Abril, algumas mulheres com consciência de feminista levantaram corajosamente o problema dos direitos das mulheres, sobretudo no que dizia respeito ao Código Civil — é a publicação das Novas Cartas Portuguesas de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, que lhes valeu um processo instaurado pela PIPE e a edição confiscada pela censura. É também o tempo da contestação ao completo poder paternal atribuído pela lei salazarista, o que impedia até as mulheres de passarem a fronteira com os filhos sem autorização escrita dos maridos, criando até situações caricatas. O processo “pidesco” instaurado às autoras das Novas Cartas Portuguesas, popularmente conhecidas pelas “Três Marias”, foi acompanhado da solidariedade por parte de alguma da oposição portuguesa, sobretudo dos escritores, embora a “censura” tudo tenha feito para não deixar passar a informação à população portuguesa. in MAGALHÃES, Maria José, Movimento Feminista e Educação: Portugal, décadas de 70 e 80, 1ª ed., Oeiras: Celta, 1998 *Frase proferida numa entrevista anónima por uma escritora portuguesa, em Movimento Feminista e Educação: Portugal, décadas de 70 e 80


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O espírito da inquietude. ANOS DE RUPTURA A década de 60 seria demonstrativa, contudo, do dinamismo transformador e libertário do processo artístico, quer este se condicione ou se descondicione, vindo bem cedo abrir caminhos diversos (coexistentes) nos domínios da expressão plástica, do cinema, do teatro, da literatura. Essa mutabilidade, de resto, acertava-se com o próprio espírito da inquietude geral — uma envolvência que passava pela guerra fria, pelas crises de regime, pelo inconformismo estudantil, pelas lutas de libertação em África, pelos “ventos de mudança” no quotidiano, entre nossas mudanças “tradicionais” e a força causatória que as várias emigrações acabavam por nos impor dramaticamente. Salazar, envelhecido, fingia não dar por isso; e o país, omitindo-se como sempre, deixava que o fizessem viver uma guerra inútil, politicamente insustentável, a par do desassossego intrínseco a esse facto e mal diluído nos desvaneios importados. Os artistas pouco falavam dessas coisas, e muito menos os críticos: primeiro porque a arte se distanciara do real, não sabia nada de política nem psicodramas; depois porque as opiniões desse âmbito, vigiadas pela polícia do Estado, deveriam apenas estender-se às cerimónias de café sem nunca macular, de forma ilustrativa ou alegórica, a autonomia específica da experiência estética. Quem hoje percorre as escolas de arte não pode imaginar o esforço e dilaceração desses tempos, o que era aceder às fontes inovadoras, a ausência de livros, a pobreza das exposições, a quase impossibilidade de ter e publicar uma opinião, o cerco intelectual numa cidade apesar de tudo amável, que podíamos visitar e viver de diferentes modos. Ao contrário do que se supõe, a história do ensino superior em Portugal, antes, durante e depois dos anos 60, explicam muita coisa da nossa realidade sócio-politica e sócio-cultural; uma pequenez congénita, uma dependência das notícias do mundo, a criação de mitos passageiros, a invenção e abate de génios aparentemente finais, a fome do institucional numa vozearia da discordância vanguardista ou das radicalidades ao mesmo tempo delirantes, oficiosas, desmontáveis. Os artistas que surgiram para o público nesses anos deviam pouco ao ensino, se possuíam diplomas das áreas plásticas, e muito a uma certa escola da vida, o autodidactismo, aos autores que os haviam precedido. As gerações encadeavam-se mais, articuladas no sentido da história e de alguma informação laboriosamente partilhada. É verdade que na primeira metade da década o conflito entre abstractos e figurativos

haveria de criar distâncias ou fronteiras entre todos, na falsa argumentação de uma crítica que lia primeiro os desafios teóricos de cada tendência antes de ver a natureza e o fio condutor dos objectos existentes à sua volta. Os anos sessenta, sobretudo em Lisboa, Porto e Coimbra, foram um tempo de desassossego inovador, uma transição fecunda marcada por sinais de resistência ao crescente envolvimento do pais nas guerras de África. O aprisionamento por Henrique Galvão do paquete Santa Maria, embora não se reflectisse na produção artística senão num ambíguo quadro de Joaquim Rodrigo, teve o mérito de pôr a nu certas fragilidades do regime, o seu desprestígio internacional, a necessidade de equacionar à partida, de um ponto de vista politico, o problema das “províncias ultramarinas”. Jorge Marchel, pintor praticamente esquecido, garatujou sarcasticamente, numa exposição individual, os oficiais generais comprometidos na comédia daquelas opções de futuro duvidoso - e a policia política, como já não fazia há muito tempo, retirou da galeria as duas peças de mais clara denúncia. De resto, a nova figuração, quer alinhada pelo modelo pop ou inserindo iconografias de cunho português, interpretou por vezes a incomodidade geral. Autores de raiz humorística, como Henrique Manuel, viriam a reconduzir para a actualidade os temas daquele constrangimento, assegurando com frequência mensagens de cunho sóciopolitico. Na literatura, na poesia, no novo cinema, um sopro de nostalgia juntava a crise do isolamento do pais a uma consciência latente dos seus valores, do seu mudo protesto. E as paisagens silenciosas de Joao Hogan, que ele produzia como um artesão proficiente, deixavam no ar uma tonalidade lirica para esse desassossego sempre a emergir de falsas branduras, de impossíveis ausências, mensagem incomoda que Pessoa nos legara no intimo da nossa identidade menos superficial. in AA.VV, Anos 60. Anos de Ruptura, Livros Horizonte, Lisboa, 1994 *Excerto de Anos de Ruptura

Pág. Direita Superior Obra de Joaquim Rodrigo, o aprisionamento do capitão Henrique Galvão. Inferior Esquerdo Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Hora e Maria Velho da Costa Inferior Direito Cântico do País Emerso, de Natália Correia


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Pág. Esquerda Três Marias Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa

A minha escrita é escrever feminismo.

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS As Novas Cartas Portuguesas (NCP) são duplamente ficcionais, enxertando-se nas que se disse serem da ‘freira portuguesa’ — estas também obra da ficção, como se julgava saber em definitivo desde a primeira organizada por F. Deloffre e J. Rougeout. As NCP, por sua vez, são abertamente situadas na corrente politica e social da segunda metade do nosso século. As três Marias — Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa — não foram as primeiras a reescrever as Lettres Portugaises para fazer um romance à sua maneira. O papel da mulher é revalorizado: repudiada pelo amante, adquire a sua verdadeira personalidade na abnegação — e isto faculta-lhe uma certa independência perante o homem. Este ponto de vista não contradiz inteiramente o das autoras modernas, que afirmam também o desejo de independência da mulher. Mas, para elas, a personalidade feminina manifesta-se na sensualidade por forma idêntica à do homem. A outra linha das NCP a que atrás se aludiu é o desenvolvimento de um certo número de situações modernas paralelas em que outras ‘Marianas’ se sentem vítimas da dominação do homem, de que foram separadas por razões ‘históricas’, tal como a freira de Beja. Mariana, para as autoras, é também um mito para o

qual se procuram para paralelos e uma metáfora. É uma ‘amazona’ e reivindica os direitos da mulher, por demasiado tempo submetida a ‘hábitos de útero e convento’ (Primeira Carta III), para assumir o papel dominante, a ‘posse do cavaleiro’. A conjugação da ficção com a realidade está de acordo com o tom do texto original. As autoras modernas mostram acreditar na autenticidade da Lettres Portugaises para melhor enxertarem nelas o seu romance-documento, romance de tese que não cessa de pregar um intransigente feminismo, pessoal e político, mas sem nada de profissional. O romance serve-lhes por conseguinte, para se libertarem e se confrontarem exprimindo as suas reivindicações e razões de queixa. O lado erótico do livro foi uma das causas da causas da sua condenação oficial em 1972; mas as autoras foram absolvidas em 1974, a seguir à libertação de Portugal. O livro, entretanto, reforçou o movimento feminista no País.

E as auto-perguntas não ficaram por aqui, fincando-me sobretudo nesta: mas o vosso livro será de facto ofensor dos bons costumes. (E é um bom costume a tirania sobre as mulheres que dura há séculos?) E os livros terão assim tanta influência, tanto impacto pervertedor na opinião pública de um país cuja característica principal, para nossa vergonha, é o analfabetismo, não só o total, dos labrostes que nunca viram um livro na vida, mas também o analfabetismo com diploma dos ex-alunos dos postos escolares? Aliás, nas Novas Cartas Portuguesas tornam-se bem evidentes duas intenções que não me parece lícito confundir. A primeira, um protesto simpático e veemente contra a situação subalterna das mulhe­res portuguesas, tentando destruir, com a violência descarnada dos combates puros, a imagem da mulher-objecto — objecto não só das humilhações sociais marialvistas, mas também das parvoíces líricas que servem admiravelmente o machismo reinante e que vocês, com justiça, repelem enojadas.

in A mulher e a paixão: das ‘Lettres Portugaises’/1969 às ’Novas Cartas

Excerto de Carta de José Gomes Ferreira a Maria Isabel Barreno

Portuguesas’/1972, Revista Colóquio de Letras nº 102 Mar/Abril 1988 *Frase proferida numa entrevista anónima por uma escritora portuguesa, em Movimento Feminista e Educação: Portugal, décadas de 70 e 80

in VIDAL, Duarte, O Processo das Três Marias: defesa de Maria Isabel Barreno, Ed. Futura, Lisboa, 1974


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por mãos de maina recusava a só estar presa O nojo conheceste e o mordeste o trocaste em fruto de paisagem na rua desenhada que escolheste para gerares futuro em tua casa Que abandonada estás fátima por ti e bem amada Faminta te darás avessa te conheço a deixares embora sem desgosto que alguém te possua pelo corpo se caça fores sòmente e de seu preço teres de ceder à arma a linha do pescoço Pecado de mudez que não a tua só maina na herança de outras vozes nunca pactua in BARRENO, Maria Isabel; HORTA, Maria Teresa; COSTA, Maria Velho da; Novas Cartas Portuguesas, Ed. Futura, Lisboa, 1974


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Liberdade de um país das maravilhas.

CÂNTICO DO PAÍS EMERSO Num dia em que os antigos pinhais se puseram novamente a caminho de prodígios marítimos, abriram-se as lendas molhadas pelas lágrimas portuguesas de que e feito o mar e, da mais funda e temerária, saiu, numa “dourada tarde caribiana” em 21 de Janeiro de 1961, o Capitão dos Impossíveis. Aliado e representando-o nesse feito de argonautas do velo de ouro da libertação de um povo, de um general de nome Humberto Delgado que, entre a fome e a sede da liberdade, ia oferecer o peito as balas da infâmia, surgia o Capitão profetizado pela lua ébria dos desaparecidos piratas guiados pelos anjos da insurreição. E, pondo-se ao leme da nação que era um navio de relâmpagos de sonhos a faiscarem na pátria escurecida, ao milagre de realizar essa metamorfose em que obraram seus vinte e poucos companheiros Portugueses e espanhóis a cuja audácia se renderam, fascinados, passageiros e tripulantes, pôs o Capitão o nome de DULCINEIA. Porque tudo eles faziam pela sua dama que era a Nossa Senhora da Liberdade dos povos ibéricos, hasteada no castelo da proa do navio. E o mostrengo que estava no pais de breu que era o povo em chaga do Capitão, três vezes rodou imundo e disse: E logo os papagaios do mostrengo que era uma ditadura com olhos de PIDE e dormia com eles abertos, palraram telegraficamente. Dinheiro de Moscovo! Era o costume. O habitual churrasco de comunistas servido num prato de gargalhadas despejadas pelo asco que tudo aquilo nos causava. Mas o conto que ia crescendo com o acrescento de pontos insidiosos lá convenceu uns da

NATO a despacharem torpedeiros e aviões em perseguirão do Santa Maria que, tornado invulnerável por sua iluminada conversão em Santa Liberdade, se lhes escapava com asas de condor. E mulheres com magnólias despenteadas na cabeça abriam nos cais lenços de sonho com que acenavam ao Capitão. E sentindo-se as passageiras as belas por quem aqueles magriços da revolução quebravam as suas lanças, pois liga-se o cerne da mulher ao cosmos no mistério da liberdade ser feminina, fogosamente os atraiam para a festa do amor. E eu era uma égua inteira de estrofes chamadas por aquele Portugal errante, marinheiro e amoroso que como uma grande vento abalava os telexes. E antes do mundo nisso livre se vergar a razão muito seria daquela aventura fabulosa, este meu livro escrevi de um jacto pelos esconderijos de raivosas guitarras da pátria agrilhoada. Por contorcionismos editoriais do Luiz Pacheco que safava os malditos das coisas proibidas, veio ele a luz da publicação de onde a garra da treva o retirou. Mas escrito ficou para que nos tempos Portugueses que hão-de vir soe esse grito da liberdade de um pais das maravilhas que pode ser um navio quando por Capitão tem um dos Cavaleiros do Impossível que faz a nossa historia. in GALVÃO, Henrique, CORREIA, Natália,Carta Aberta a Salazar seguida de Cântico do País Emerso, Ed. Esfera do Caos, Campo Grande, 2010 *Frase retirada de Carta Aberta a Salazar de Henrique Galvão, objecto de exposição


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Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos Minha mãe era ninfa meu pai chuva de lava Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos Sou de mim mesmo pomba húmida e brava De mim mesma e de vós, ó Capitães trigueiros Barbeados pelo sol penteados pela bruma! Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma A génesis a pluma do meu país natal. Não sou daqui das praias da tristeza Do insone jardim dos glaciares Levai minha nudez minha beleza E colocai-a à sombra dos palamares. Não sou daqui. A minha pátria não é esta Bússola quebrada dos impulsos. in CORREIA, Natália, Cântico do País Emerso 1923 – 1993, Ed. Contraponto, Porto, 1961


REVOLUÇÃO 9 Jornal de Exposição

Opressão Feminismo Liberdade  

Jornal da exposição Opressão Feminismo Liberdade

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