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tualmente, histórias com temática “futurística” estão na moda. Vários livros vêm retratando o nosso mundo anos adiante e como poderá ser a vida do ser humano. Um dos últimos que li me fez pensar sobre o que nos espera. Destino, de Ally Condie, narra a vida de Cassia, uma adolescente do futuro. A princípio, achei o livro um pouco frio, mas logo entendi que essa foi exatamente a intenção da autora, passar toda a apatia de pessoas que são dominadas por um sistema que visa ao “bem-estar” geral. Esse governo cuida de tudo para todos. É ele que entrega o alimento básico para cada pessoa no horário determinado, que escolhe a profissão, onde morar e até o momento da morte de cada um. E é esse sistema também que, através de uma interseção de dados pelo computador, define quem é o par perfeito, a pessoa com quem cada um irá se casar e constituir uma família. Fiquei um pouco impressionada com a história, mas pensei que fosse apenas ficção. Imaginei que o mundo nunca chegaria a esse ponto, onde não possuiríamos nenhum poder de escolha e já teríamos a nossa vida toda definida antes mesmo de nascermos. Acontece que, pouco tempo atrás, me deparei com uma reportagem que me deixou completamente surpresa. No Estado americano de Indiana, foi aprovada uma lei que torna facultativo o ensino da letra cursiva, enquanto digitação se tornou matéria obrigatória nas escolas. Outros 40 Estados americanos devem seguir essa medida em breve. Imediatamente me lembrei do livro que mencionei acima. Em uma passagem PAULA PIMENTA É ESCRITORA, AUTORA DAS SÉRIES FAZENDO MEU FILME E MINHA VIDA FORA DE SÉRIE. SITE: WWW.PAULAPIMENTA.COM.BR TWITTER: @PAULAPIM

dele, a personagem fica encantada por um garoto, pelo fato de ele saber escrever com letra de mão, já que essa prática havia sido extinta (e se tornado proibida) quando os dois nem mesmo eram nascidos. Quando li essa parte da história, achei completamente irreal, pensei que nunca deixaríamos a caligrafia de lado, afinal, isso ainda é muito presente. Agora, porém, depois de saber dessa lei, começo a pensar que aquele futuro mostrado no livro pode não estar tão distante assim... Pode me chamar de conservadora, de tradicionalista ou até de atrasada, mas eu gostaria que certas coisas nunca mudassem. Acho que os computadores vieram para facilitar a nossa vida, mas deixar que eles tomem conta de tudo é permitir que o ser humano fique em segundo plano, em um mundo dominado por máquinas. Eu adoro digitar, mas gosto de fazer isso por vontade própria, não por obrigação. Acho que nada tem mais personalidade do que uma letra manual. O mundo já está tão automático, cheio de dígitos e bytes... Gostaria muito que essa característica, que ainda aparenta alguma individualidade, permanecesse. Eu gosto de surpresas. Gosto de escolher a roupa que vou usar a cada dia apenas me olhando no espelho em vez de usar um programa que trace a combinação ideal entre o sapato e a blusa. Gosto de comer na hora que a fome aparece e escolher qual vai ser o cardápio. Gosto de trabalhar na profissão que eu mesma optei e, especialmente, gosto de saber que eu e o meu namorado nos escolhemos, e não que um software nos uniu. Pelo visto, o futuro que nos aguarda não é nada romântico. Só espero que ainda demore muito até que os torpedos de celular substituam de vez as manuscritas cartas de amor.

ILUSTRAÇÃO: DÉBORA ISLAS

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DM 93 PAULA PIMENTA É ESCRITORA, AUTORA DAS SÉRIES FAZENDO MEU FILME E MINHA VIDA FORA DE SÉRIE. SITE: WWW.PAULAPIMENTA.COM.BR TWITTER: PAUL...