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PODE ENTRAR O lado de dentro das casas de

swing de S達o Paulo RAPHAEL MARTINS


PODE ENTRAR O lado de dentro das casas de

swing de São Paulo Reportagem e Edição

RAPHAEL MARTINS Orientação

Eun Yung Park Fotografia

Mark Sebastian


AGRADECIMENTOS A Deus, que abriu caminho a todas as oportunidades para chegar até aqui. A Lucia Helena e Amilton Martins, a quem devo toda e qualquer conquista que tenha atingido. A quem deu o que podia ou não para fazer o filho acreditar e, por fim, atingir qualquer objetivo. A quem segurou as pontas quando foi preciso e sacrificou boa parte da vida pelo meu bem e finalmente vê o filho se formar. Ninguém acreditou como vocês. A Giovanna Vidmar, por ser a parceira para qualquer batalha. Por ser o suporte nos momentos mais difíceis e por colocar para cima quando foi necessário, ter fé e torcer em todos os momentos. Aos três acima novamente, por formarem o tripé que me eleva e sustenta, com amor, incentivo e apoio incondicional. A professora Eun Yung Park, por botar ordem na casa, quando a bagunça já ultrapassava o teto. A incrível dupla João Batista Jr. e Pablo Miyazawa, por aceitarem avaliar este trabalho. Mas, em especial, por fazerem parte desse projeto tão importante para mim. A Ana Paula Sousa, Roberto Martins, Afonso Legarra e todos os outros entrevistados e envolvidos neste livro. Aos Jornots 2010, que me ensinaram muito sobre paciência. Sempre foram, no entanto, meu motivo de orgulho em ser USPiano. Suas cabeças geniais muito influenciaram no que sou hoje. Uma lembrança especial a Mariana Soares e Marco Aurélio Martins, que terminam essa jornada comigo. A Superliga e Rancho, pela parceria longe das salas de aula.

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moral mo.ral adj (lat morale) Como nascem as instituições? Baseadas na mais pura moral humana. Por moral, entenda um conjunto de regras que dão as grandes diretrizes da ordem na sociedade. Podem ser fatores políticos, religiosos ou comportamentais. Não é sempre, porém, que essa é a melhor das formas de viver. Por isso, são várias as situações em que nos vemos confrontados entre o que é certo e o que é fácil. O conflito vem de tempos bíblicos e nunca foi fácil de lidar. O que se sabe é que nada se faz sem que se julgue. E essa é a principal barreira que enfrentamos, agora ou lá atrás na história.


CAPÍTULO I moral

mo.ral adj (lat morale) 1 Relativo à moralidade, aos bons costumes 2 Que procede conforme à honestidade e à justiça, que tem bons costumes 3 Favorável aos bons costumes

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ense num casamento perfeito. Já são oito anos juntos, uma conta bancária recheada e um apartamento enorme nas regiões mais nobres de Nova York. A decoração tradicional, mas de muito bom gosto, é fruto do tino criativo da esposa, antiga curadora de galerias de arte que agora dedica sua vida a cuidar da filha Helena, de sete anos. O marido tornou-se o provedor. Clínico geral de renome, faz o tipo galã. Educado, bem sucedido, bonito e rico. Trata-se do melhor exemplo de genro que toda sogra deseja ter. Mais belo que ele, só a mulher. Alta, magra, loira e linda, seria o sonho de consumo de qualquer homem e alvo de inveja da ala feminina. Seria, pois o fardo de dona de casa fez com que sua autoestima se esvaísse e ela deixasse de lado sua vaidade. Em frente ao espelho, no entanto, era costumeiro que ela procurasse os resquícios de sua beleza, escondida atrás da máscara do desleixo. Como todo par endinheirado, eram figuras constantes na alta sociedade. As festas pomposas ao estilo black-tie eram a oportunidade perfeita para que ela saísse da caixinha e mostrasse sua beleza. Uma dessas comemorações marcou o Natal de 1998, festa organizada por Victor Ziegler, um magnata, amigo dele. Trocou as roupas confortáveis por um belo vestido de renda pretas, sacou do rosto os óculos de grau e deu um charme no penteado. Ele, de smoking, era o partidão do evento. Um verdadeiro casal de filme. Chegando ao salão, dividiram-se por alguns instantes. Enquanto ele fazia o social com conhecidos, como Nick Nightingale, um pianista que fora seu colega na faculdade de medicina, ela o aguardava no bar. Bonitos que são, pouco demorou até que o assédio surgisse a ambas as

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partes.

Para ela, um homem que beirava os 60 anos, mas mantinha o charme digno de um galanteador de sucesso. O marido, por sua vez, se vê cercado por duas modelos de risinhos fáceis e apenas vinte e poucos anos de idade. De um lado, o papo é bom, ela se sente valorizada como há tempos não acontecia e já está delirante depois de algumas doses de champagne. As moças trabalham duro para seduzi-lo. A tentação ataca em duas frentes e a atração é evidente. O casal troca olhares e percebe a situação de perigo, sem, no entanto, interceder no que poderia acontecer. — Não acha que um dos encantos do casamento é que o fingimento é necessário para ambas as partes? – diz o sedutor desconhecido à esposa. — Posso perguntar por que uma linda mulher, que pode ter qualquer homem neste salão, escolhe ser casada? — Por que não ser? — ela responde. Quando caem em si e percebem que a atração física pode ultrapassar o limite do casamento, o casal toma providências. Enquanto o marido Bill se desvencilha das moças para atender ao oportuno chamado do dono da festa, a esposa Alice foge dali o mais rápido possível, repetindo: — Não posso, tenho que ir. Essa tática é comum. Os relacionamentos te ensinam a sair dessa situação. A primeira atitude é negar a todo custo que houve alguma atração. A seguir, o jeito é reprimir o sentimento e sumir dali. Esse protocolo deixa tudo mais fácil. Eles sabem disso e, no fim, tudo dá certo. O casal Harford vai para a cama, não sem esquecer do que aconteceu naquela noite. O tedioso e rotineiro dia seguinte, termina com um “baseado” para relaxar antes de dormir. Com a fala arrastada e o baque no senso de inibição, Alice puxa o assunto sobre a noite anterior. Como não podia ser diferente, pergunta sobre as garotas que avistou flertando com seu marido. — Você chegou a transar com elas?

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Bill imediatamente refuta a ideia e justifica seu sumiço: ele esteve no quarto do anfitrião para dar atendimento a uma mulher que passava mal por overdose de Speedball, uma mistura injetável de cocaína com heroína. — E quem era o homem com quem você dançava? — ele pergunta. — Um amigo do Ziegler. — O que ele queria? — O que ele queria?! Sexo... Lá mesmo, no andar de cima. Bill diz achar compreensível, já que ela é uma mulher muito bonita. Ela desconfia: “Seria esse o único motivo pelo qual os homens teriam interesse nela?” — Acho que sabemos como os homens são — diz ele. — Devo acreditar, então, que você queria comer aquelas duas? Bill diz ser uma exceção. Convenhamos, esse seria o argumento de defesa de 9 a cada 10 homens: ele não convence. Tenta dizer que ama sua esposa e nunca mentiria para ela. Fica claro que não agiu apenas por consideração à mulher, não porque não teve vontade no momento. Alice insiste. Pergunta sobre suas pacientes, se ele sente desejo ao examiná- las. Mais uma vez, ele garante que não. Ela pergunta se ele acha que as pacientes estariam fantasiando durante a consulta com o médico bonitão. Ele nega, dizendo que mulheres não pensariam dessa maneira puramente sexual. — Os homens colocam ‘o que é deles’ em todo lugar e as mulheres só querem saber de segurança e compromisso? Se vocês soubessem... — Você está chapada e tentando me deixar com ciúme. — Mas você não é do tipo ciumento, não é? Você nunca sentiu ciúme de mim. — Não.

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— E por que não? — Não sei, Alice. Talvez por você ser a minha esposa, ser a mãe da minha filha e saber que você jamais seria infiel a mim. — Você é muito autoconfiante, não é? — Não. Eu confio em você. Alice tem uma crise de riso. A conversa dá a margem necessária para que ela revele um segredo. No verão anterior, o casal foi para Cape Cod, em Massachusetts, passar férias. No saguão do hotel, ela cruzou com um jovem oficial da Marinha, que fazia o check-in acompanhado do carregador de malas. Ela o descreve detalhadamente, como quem se apaixona a primeira vista, e conta como apenas uma troca de olhares lhe despertou uma louca atração. Uma atração carnal, com potencial destrutivo para aquele casamento. Nem mais tarde, enquanto fazia sexo com seu marido, parou de fantasiar com o misterioso militar. — Se ele me quisesse, que fosse por uma noite, eu estaria pronta para largar tudo. Você, Helena, a porra do meu futuro, tudo. O estranho é que ao mesmo tempo, você era mais precioso do que nunca — confessa, observada por um olhar estarrecido do marido. Bill fica sem palavras. Pareceu um absurdo saber que sua mulher já havia sentido atração por outro homem após o casamento. Como se, ao fazer os votos de matrimônio, esse instinto fosse anulado nela, mesmo que para ele isso não tivesse acontecido. Neste momento, o telefone da casa toca. Era o aviso da morte de um dos pacientes de Bill. Ele interrompeu a conversa para ir até a casa do sujeito para prestar solidariedade e assinar documentos de óbito. O assunto acaba, mas o gosto amargo da revelação deixa seu rastro na mente do médico. Ao longo de todo o caminho, não sai de sua cabeça a imagem de sua mulher fazendo sexo com o tal oficial. Um homem, de feições genéricas e uniforme militar branco, que lhe dava muito mais prazer que ele já tenha conseguido. Ele se sente inseguro e entra numa paranoia sem fim, algo que nunca havia sentido antes e que o perseguiria por toda aquela noite. Sua mulher não poderia desejar outro homem. Ele passa então a revisitar toda a sua vida, todas as oportunidades

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que teve de traí-la e deixou passar. A quebra daquele paradigma de “a mulher não sente desejos” tinha escancarado a ferida narcisista e desencadeado seu ciúme. Por uma causa torpe, houve um abalo na confiança que sentia nela. Criado nos valores mais tradicionais, ele se sentia traído. Mesmo que por um simples desejo. Ainda perturbado ao sair da casa do falecido, cruza com Domino, uma prostituta de rua procurando por serviços. A jovem de pouco mais de 20 anos, cabelos longos num tom loiro escuro, magra e bonita, oferece um programa. O convite para que ele vá até seu apartamento, alguns metros adiante, torna-se irresistível pelo gosto da vingança. Nem a raiva, no entanto, o faz deixar de lado a timidez. Ele não sabe bem como agir. Ela o conduz devagar e tenta quebrar o gelo. Conversa sobre assuntos triviais, dando leves sugestões para tentar seduzi-lo aos poucos. Tentava tudo para que a situação constrangedora passasse. Quando as travas estavam se abrindo, o telefone toca: era Alice. Uma crise de consciência ao ouvir a voz da mulher ganha força e ele acaba desistindo da ideia. Antes de sair, paga o valor combinado — afinal, a moça perdeu tempo de trabalho — e vai embora. Pouco custa para que aquela cena de sua mulher e o marinheiro volte a atormentá-lo. Adiante na rua, ele se vê, por coincidência, em frente ao Sonata Café, local onde seu antigo colega da faculdade, Nick, tocava piano todas as noites. Eles se sentam em uma das mesas e conversam sobre a louca rotina do músico. Nick conta que toca sempre em ao menos dois lugares por noite. O segundo lugar era sempre um local secreto até momentos antes de sua apresentação. Os responsáveis pela festa entravam em contato pelo telefone, mandavam um carro para buscá-lo e lhe davam os detalhes sempre de última hora. Eram festas particulares, segundo ele, com hábitos quentíssimos e frequentadas por belas mulheres. De tão secreto o evento, seus mandatários exigem que o pianista toque vendado. Nick só sabe dos detalhes do que acontece na casa porque, vez ou outra, a venda mal colocada permite espiadinhas. Por lá, quando os convidados estão vestidos, só se anda mascarado e com uma capa preta que cobre o corpo todo. Sobre o andar de cima, ele só ouviu histórias. Bill faz questão que Nick o leve para a noite. Era, mais uma vez, o ciúme de sua mulher tomando conta de suas atitudes. Como não pode ser descoberto como delator, o músico só lhe dá o endereço e a senha de acesso: Fidelio. Dali em diante, o médico que arcasse com qualquer consequência.

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Já de madrugada, Bill consegue um traje adequado em uma loja de fantasias de um antigo paciente, sobe num taxi e corre para a mansão da festa. O médico chega ao portão e passa por dois guardas que controlavam a entrada de estranhos — mesmo estes já andavam mascarados. O casarão afastado do agito da cidade abrigava o encontro de uma sociedade secreta, que promovia rituais misteriosos de culto ao sexo. Quando Bill adentra o salão principal, mulheres estão dispostas em círculo, com o corpo coberto apenas pelas capas pretas. Um chefe de cerimônia fica ao centro. Em dado momento, ao seu comando, as moças deixam os panos deslizarem pelas formas e revelarem os corpos totalmente nus, exceto pelas máscaras no rosto. Uma a uma, elas saem da roda e escolhem parceiros para levar ao andar de cima. O médico é um dos escolhidos. O que ele não entende de início é que a mulher em questão usa o ritual para afastá-lo dali e alertá-lo que aquelas pessoas são perigosas. Ele deveria sair dali imediatamente. Para não levantar suspeitas, a dupla parte para o segundo andar, onde encontram um cenário das mais diversas perversões sexuais. Casais transam em cima de mesas, poltronas e sofás, enquanto são observados por tantos outros. A tentação em fazer parte daquela experiência finalmente apaga qualquer receio e a imagem da mulher de sua mente e ignora os avisos para que fuja. É desligado o racional, tomado pelo impulso. Naquela casa, ele nota, só importam os desejos. Não há envolvimento, troca de olhares, nem flertes. É uma forma impessoal de ter prazer e aliviar os instintos carnais. É só sexo. A linha é tão tênue que ele não percebe que está na mesma situação que sua mulher ao avistar o tal marinheiro: colocando na balança seu casamento, a vida ao lado da família, a raiva que tinha de sua mulher por cobiçar outro homem e o seu próprio desejo. Quando estava disposto a colocar tudo de lado, um dos funcionários da casa o chama para o salão principal. Por muito pouco não foi o início de uma traição. Na sala circular, os líderes daquela sociedade secreta estão reunidos e desconfiados que se trata de um intruso. Ele é levado até o centro, de frente para o trono do grande chefe. — Qual a senha? — pergunta. — Fidelio — responde Bill.

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— Sim, está certo para a entrada. E a senha da casa? Bill não sabe dizer. Ninguém havia lhe dado uma segunda senha. O taxi que o deixou na porta também levantou suspeitas, já que os frequentadores todos chegaram em limusines e outros carrões. Eram, como ele, gente da mais alta sociedade nova iorquina. Como castigo, ele é obrigado a tirar sua máscara. Todos saberiam quem era ele, enquanto ele não fazia ideia de quem o observava. De lá, ele é botado para fora e recebe importantes recomendações: que nunca mais volte e não tente descobrir nada sobre o grupo. Caso contrário, ele mesmo ou seus entes queridos sofreriam as consequências. Este não só parece, como é o roteiro de um filme. Datado de 1999, De Olhos Bem Abertos (em inglês, Eyes Wide Shut) é a última película dirigida pelo genial Stanley Kubrick, baseado no conto Traumnovelle, de Arthur Schnitzler. Bill e Alice Harford são, na verdade, Tom Cruise e Nicole Kidman. Não fossem as ameaças dramáticas de um grupo misterioso à vida de Bill Harford, a história que narro até aqui poderia muito bem se enquadrar na vida de qualquer casal de verdade. Tom e Nicole, inclusive, eram um casal na vida real na época. Ambos eram lindos e ricos, frequentadores de nobres círculos sociais e do tipo que sofria assédio constante. Assim como os Harford. A discussão que se abre com De Olhos Bem Fechados trata da moral nos relacionamentos. Como as mentiras dentro de um relacionamento, em especial a da supressão dos instintos de atração por novas pessoas, podem danificar o amor de um casal? Apesar de certa dificuldade em admitir, quantas vezes nos vimos atraídos por alguém diferente dos nossos parceiros e, em seguida, nos sentimos culpados por isso, como aconteceu com Alice Harford? Quantas vezes tratamos disso abertamente entre as partes? Até que ponto a honestidade e o respeito pelas vontades individuais poderiam ter evitado tudo aquilo? São perguntas difíceis e a verdadeira culpada por essa confusão mental é a influência da moral. As regras impostas pela sociedade vangloriam um padrão: namorar, noivar, casar, ter filhos e viver apenas para o outro. A quebra dessa lógica cria uma sensação de errado. No filme, vale tanto para o caso dela, que se sentiu mal em ter atração por outro, como para ele, que esperava uma atitude puritana da parte dela. Esse medo vem lá de trás. Apesar de não existirem provas reais de sua existência, as cidades de Sodoma e Gomorra, descritas na Bíblia

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Judaica, foram incendiadas por uma chuva de fogo e enxofre enviado por Deus como castigo ao local que vivia de “pecado e perversidade”. Foi um claro recado religioso do que acontece quando a moral é desviada. Safaram-se apenas os que se arrependeram de sucumbir aos confortos e prazeres, sem dó dos que ficaram para trás. E é evidente que a religião influencia nosso comportamento há séculos. Ser fiel e monogâmico, reprimindo a atração por um terceiro, é o padrão a ser seguido, sem que se possa nem pensar em sair desse caminho. Na vida real, “imoralidades” como a sociedade secreta sexual retratada no filme de Kubrick e Sodoma e Gomorra não existem — não que tenha se tornado públicas, ao menos —, mas há, sim, um grupo de pessoas que abre mão dessa moralidade imposta, privilegia o prazer e crê na realização individual sem deixar de lado o amor pelo parceiro. Na vida deles, o impasse do casal Harford não existiria. São um grupo que trata com sinceridade seus desejos e aproveita para compartilhá- los com seus cônjuges, em vez de escondê-los. São os swingers. Este é o nome dado aos adeptos da troca de casais, comum entre aqueles de relacionamento mais aberto. Deixando de lado o conceito de casamento ideal, eles veem em novos parceiros a melhor forma de explorar sua sexualidade. São seres liberais, que conseguem estabelecer bem a distinção entre amor e sexo. Verdade que o swing não é para todo mundo: veste bem a quem não consegue sucumbir às amarras de um relacionamento tradicional e não tem um pingo de ciúme. São várias as modalidades. Há aqueles que adicionam um homem, uma mulher, um homem e uma mulher... Não há padrão. Aqui, o sexo não tem envolvimento emocional, é considerado apenas uma atividade recreativa, uma forma de saciar desejos. Para chegar em tal grau de cumplicidade no casamento, em que seja possível fazer sexo com outras pessoas sem se envolver emocionalmente, a arma é conversar muito e deixar bem claro seus limites. Apesar de muitos terem a impressão de que é um mundo de safadeza sem regras, os swingers são extremamente regrados quanto a seus encontros. Seja para conhecer novos casais adeptos — e combinar encontros longe dali — ou ter o sabor de curtir uma noite com vários parceiros diferentes, os swingers frequentam casas especializadas. Nada lá dentro é obrigatório, no entanto. É possível apenas assistir exibicionistas transando, ver shows de striptease ou só beber e se divertir com amigos. Por outro lado, podem se tornar verdadeiros templos do sexo, onde é possível realizar as mais diferentes fantasias.

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Todas as casas são divididas em dois ambientes: um “espaço íntimo”, onde acontecem os segredos mais inconfessáveis, e uma balada, como outra qualquer, com pista de dança, luzes e um bar recheado de bebidas — são elas, aliás, que fazem os empresários do ramo faturarem alto. Como todo personagem que desafia a moral, os adeptos despertam preconceitos diversos das alas mais conservadoras. Por isso, muitos mantém o anonimato da porta para dentro. Em São Paulo, cerca de 10 casas de swing já têm grande relevância no mercado e vêm conquistando cada vez mais público. As mais fortes, Marrakesh, Enigma, Vogue Club e Inner Club disputam espaço com novatos como o Ápice Club, aberto recentemente. São cerca de 25 000 frequentadores por mês, contabilizando a média de público das casas. Em três perfis-chave para entender essa cena paulistana, conto em “ápice” como pensam e o que buscam os swingers, em “êxito”, um pouco de como o mercado se fortaleceu na cidade e quanto é possível faturar com o negócio, além de “pioneiro” que conta a história de como surgiu o swing na cidade.

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Ápice á.pi.ce sm (lat apice)

Ana Paula e André Luiz Sousa são ótimos exemplos tirados de um grupo que escolhe deixar de lado a moral e quebrar paradigmas em benefício próprio. Em busca de saciar seus desejos, encontraram no swing uma forma de “respeitar suas individualidades” enquanto compartilham experiências um com o outro. A insatisfação com as grandes casas de swing da cidade fez com que abrissem seu próprio clube. A ideia é fazer dele um ponto de referência na “verdadeira” cena de troca de casais de São Paulo.


CAPÍTULO II ápice

á.pi.ce sm (lat apice) 1 Cimo, cume, extremo superior ou ponta de alguma coisa, vértice 2 Partícula de algum corpo 3 O mais árduo ou delicado de alguma discussão 4 O mais perfeito, o mais sublime de alguma qualidade, o extremo da perfeição; requinte, apuro, primor

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oram dias até que eu definisse como ia me apresentar. Não sabia nada sobre swing além do que estava nos textos de qualquer busca na internet. E pouco se sabe por lá a respeito do perfil das pessoas que são adeptas da prática e frequentam as casas paulistanas. Normalmente, as impressões sobre eles ficam na superfície. Como são poucos os que gostam de se expor, é difícil analisá-los propriamente, exceto conhecendo alguém que esteja à vontade para falar sobre o assunto. De tão desapegados e confiantes, imaginei que me fariam parecer um tonto, inocente, que pouco sabe da vida — muito menos, então, do que eles chamavam de estilo de vida. Verdade seja dita, fosse esse o caso, teriam razão. Apesar das rasas leituras que se pode fazer sobre o assunto e de manter a cabeça aberta ao que viesse, um abismo me separaria da realidade de alguém que tem como natural a troca de casais. Assim como boa parte da sociedade, sempre estive acostumado aos relacionamentos tradicionais. E toda quebra de paradigma causa um choque, a princípio. Nunca me foi apresentada como normal uma relação poligâmica. Será que estaria pronto para falar daquilo com leveza? Fora que alguém com tal desprendimento daria um banho em segurança e autoconfiança em uma pessoa como eu, tímido de nascença. Sento isolado num canto, respiro fundo e digito os números. Confesso que ensaiei algumas vezes o que diria, estava nervoso. Repasso cada linha do discurso para não me deixar intimidar pela voz que me espera. Do outro lado da linha, Ana Paula Sousa é quem atende. Proponho, então, uma entrevista para traçar um perfil de seu estilo de vida.

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— Adoraria, esse é um assunto que precisa de discussão e divulgação — disse ela, ao ouvir sobre o que se tratava este livro. Um alívio toma meu corpo. Percebo que o mito que eu mesmo criei cai por terra: ela é uma pessoa normal, como todas as outras. Muda apenas seu conceito de sexualidade. Não era isso que a definiria. Noto ali que não só os leitores deste livro precisariam de tempo para entender o swing, mas eu também. O mesmo preconceito que eu quis desconstruir ao estudar o tema estava inerente em mim. E eu nem tinha percebido.

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eva tempo até que Ana Paula e eu encontremos um tempo livre na agenda. O tempo livre de ambos é escasso, já que eu divido meu tempo entre faculdade e trabalho, enquanto ela se reveza entre o posto de advogada e empresária. Ao lado de seu marido André Luiz, ela comanda o Ápice Club, na Avenida Cotovia, bairro de Moema. Aberta em novembro de 2013, esta é a mais nova casa de swing da cidade e que já figura entre os grandes do ramo. Ex-frequentadores das concorrentes, resolveram abrir o negócio por não estarem satisfeitos com o ambiente das casas existentes. Para eles, os clubes vizinhos já não tem mais esse foco tão definido: tornaram-se todas baladas liberais, onde é possível badalar e fazer sexo, e não um local para encontro e troca de casais, como manda a essência da prática. — Não temos concorrente. Não existe outra casa que pense como a nossa. Só querem saber da grana — diz André. Vou ao encontro deles no próprio Ápice Club, já às 21 horas de uma terça- feira de outubro. Não há expediente no começo da semana, então o lugar está vazio, exceto por nós três. Passada a recepção, entramos num salão estreito e fundo, decorado sem grandes refinos. As paredes são pintadas de tinta vermelha e as estruturas, em vez de colunas, são em arcos romanos. A pista em si é pequena, à esquerda de quem entra. A prioridade de boa parte do espaço é ocupá-lo com poltronas revestidas de couro preto para dois lugares. Cada uma faz face para outra idêntica, formando quar-

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tetos. São separadas por mesas de madeira. Formam vários bloquinhos de assentos, um atrás da outro. Cabem ali, sentados ou circulando, até 150 casais, público do pico da casa, aos sábados. Por mês, são cerca de 1 500 clientes. Nota-se, pela estrutura do salão, que a ideia é realmente formar pares de casais em um clima tranquilo para conversa. A visão para outros desses nichos e, claro, para os casais que os ocupam, é fácil. Pouco custa flertar com um par nas cadeiras vizinhas. Os 500 metros quadrados da casa parecem menos. Talvez por serem várias mesas enfileiradas e pelo espaço do labirinto ocupar bastante da área total. Por “labirinto”, entenda um corredor mantido à meia luz com cabines enfileiradas para que os casais realizem as trocas no próprio clube. São pequenos recintos, geralmente com estofados e uma janela de treliça. Se for da vontade deles, é possível abrir o vão para que sejam assistidos por quem passa. Há cabines maiores, para mais pessoas, salas coletivas e dark rooms, onde não se vê nada do que acontece — nem com quem acontece. Em alguns espaços, há buracos para que os swingers toquem os casais de dentro das cabines. Estes chamam-se glory holes. Para entrar, um casal paga 90 reais consumíveis. O preço para homens solteiros (que só são admitidos da porta para dentro de quartas às sextas-feiras) chega a 300 reais. A faixa etária do público é variada, mas a média fica por volta dos 40 anos de idade. São casais maduros, que procuram explorar toda a sua sexualidade com a troca de casais. A música do ambiente é mais ponderada para facilitar as conversas e o local é cheio de regras. É expressamente proibido, por exemplo, usar celular. Exposição é um problema sério para a cena swing. As histórias que lá acontecem, por lá mesmo precisam ficar. Logo à direita de quem entra na casa, há um pequeno bar, onde André prepara uma caipirinha enquanto nos sentamos, Ana Paula e eu, para a entrevista em um dos nichos. Ela me recebe do alto de um salto agulha que lhe dá ao menos 15 centímetros mais. Seu cabelo é longo e preto, deslizando uma franja em diagonal pela testa. O corpo faz o estilo magra com curvas e é desenhado pelo vestido estampado em preto e branco, justo e curto. Tem 34 anos, mas parece menos. Tanto as roupas como a atitude lhe conferem um ar charmoso, de mulher decidida. André, de 48 anos, por sua vez, faz o estilo malandro elegante. Veste uma camisa social azul, com três botões abertos, de forma a mostrar a grossa corrente prateada com um crucifixo dependurado. Assim como separa amor de sexo, parece separar ambos da religião. É alto e forte, não

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nos padrões malhado de academia — a barriguinha denuncia que essa não é sua praia, apesar de parecer vaidoso. A boa lábia mostra que levaria jeito para homem cafajeste, caso tivesse um casamento convencional. — Os princípios da lealdade e fidelidade são imposições sociais. Só que, lá no fundo, todos carregam o sentimento de liberdade, de ser o dono de si. — diz ele, justificando seu primeiro interesse no swing. — Um dia isso aflora. Ele dispara opiniões sobre o assunto como quem tem aquilo tudo na ponta da língua. Difícil saber se é por uma convicção tão forte naquilo tudo que a fala acaba se desenvolvendo fácil ou se já repetiu tantas vezes que tem o texto decorado. Repito, ele tem lábia e se mostra muito seguro de si. É uma característica fundamental para um swinger. Prossegue comentando que, para ele, o ser humano, por essência, não aceita ser aprisionado e por mais introspectiva que a pessoa seja, um dia ela dá um basta naquela condição. — Ninguém vive uma vida preso. Por isso que nas ‘relações tradicionais’, bem entre aspas, ocorrem as traições — filosofa. Seus exemplos continuam, separando o “mundo colorido” de um “mundo preto e branco”. — O P&B é aquela coisa tradicionalista, religiosa, em que um homem e uma mulher, quando se relacionam, não podem desviar desse padrão e só podem ficar um com o outro. O colorido é o swing, em que o casal opta por respeitar esse instinto natural e aproveitar isso com o parceiro. Quando você fala do swinger, eu posso te dizer que são pessoas extremamente evoluídas. Eles se libertaram desse estigma da sociedade e passaram a partilhar uma vida juntos. Pô, é gostoso pegar uma mulher diferente. Para ela é bom pegar um cara diferente. É só libido. Aí vem a ideia: ‘Vamos curtir isso juntos? Vamos para o swing’. Apesar de serem swingers há apenas três anos, André e Ana Paula já são casados há oito. Seguiram até então todos os passos de um relacionamento tradicional, já que ambos foram criados no padrão religioso, mas resolveram experimentar. Desde os primeiros anos de namoro, sempre fizeram o tipo sincero.

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Tinham a cumplicidade de conversaram sobre tudo e trocar confidências. Das fantasias sexuais, evoluíram até chegarem ao assunto “troca”. Pelo que contam, da vontade que tinham de viver novas experiências e manter uma liberdade individual, parece nítido que não conseguiriam levar adiante um “casamento P&B”. Em sua primeira vez num casa de swing, o susto foi grande, principalmente da parte dela, que nunca tinha visto gente tão liberal, transando sem ter vergonha de outras pessoas assistindo. — Ao mesmo tempo, desperta aquela vontade de viver a experiência — diz Ana Paula. — No início, é assim: você encontra uma mulher superbonita. Aí você chega em casa e compartilha com a parceira. Quando a conversa é franca, a coisa evolui. A discussão vai aflorando, você se abre cada vez mais. Uma coisa puxa a outra e vai tudo acontecendo. Até o ponto de eu combinei direitinho com ela e chegamos num terceiro com uma proposta — complementa o marido. Quando estavam do outro lado do balcão, também não sabiam muito bem como proceder. É algo natural e que acontece até hoje com os clientes do Ápice. Muitos chegam sem saber o que fazer, preocupados por não se sentirem tão livres ainda. Pouca gente sabe de cara que o que acontece dali para dentro é uma festa normal, em que se pode apenas sentar, tomar um drinque, dançar e fazer amizades. Está certo que, se o propósito é puritano, outros endereços na cidade podem oferecer melhor custo-benefício, mas é o preço que se paga para que as coisas possam “evoluir”. Tem quem vá só olhar o que se passa no labirinto. Tem quem curte transar para os outros verem, sem fazer trocas. Tem moças que se excitam ao fazer stripteases. É um espaço bem democrático. — É só uma maneira de viver. De que adianta ser hipócrita e dizer que, só porque casou, não vai achar ninguém bonito? Você anda na rua, convive com pessoas diariamente. É lógico que uma hora ou outra você vai achar alguém bonito. Não tem mal nenhum — ela retruca. — E porque não dividir isso com o marido? Não é porque você casou que vai ficar só naquilo. Não tem nada a ver ter seu marido só para você. Durante a conversa, o perfil de ambos vai se delineando. Apesar de se declararem livres e independentes tantas vezes em tão pouco tempo,

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eles fazem questão de reafirmar o amor que sentem um pelo outro. Faz sentido. Se viver “preso” não é opção para eles, nada melhor que renovar sempre laços fortes de paixão com quem respeita esse direito e está disposto a viver essa experiência. Não é o comportamento mais fácil de encontrar fora dali. Com o tempo me convenço que ambos, além de bons defensores da prática, são bons vendedores. Está certo que é algo necessário para atrair mais gente para gastar cifras dentro da Ápice, mas a forma como falam faz parecer que o swing é só vantagens e que é o curso natural dos relacionamentos do futuro. Talvez seja por isso que, além de minhas fontes nesse mundo, fossem também de outros grandes veículos de comunicação. Além de convidados para um programa no canal a cabo Multishow para falar sobre o assunto, foram personagens da matéria de capa da revista VEJA São Paulo de 13 de agosto. Mais recentemente, já quando nos falávamos para realizar a entrevista, o casal foi chamado também para dar entrevista ao Superpop, da RedeTV! Pena que o programa capitaneado por Luciana Gimenez não se presta a ser sério e fazer do assunto algo produtivo. Com ares mais cômicos do que úteis, as perguntas são rasas e dizem pouco sobre o que é o swing. Uma delas, porém, chama atenção. Sem muitos pudores, a apresentadora pergunta se o casal é adepto. Eles se entreolham rapidamente e respondem que não. Apresentam-se apenas como donos de uma casa, como simples empresários da noite. Fico pouco tempo sem entender. Logo adiante, a produção do programa leva dois repórteres à casa para um teste. Um deles é o ator Pierre Bittencourt, que teve pouca relevância na carreira depois de sua participação na novela infantil Chiquititas, como o personagem Mosca, quando ainda era criança. Munido dos dotes da atuação, ele arma um circo de baixaria, típico de Casos de Família, programa do SBT, relatando o desconforto que teria sentido dentro da Ápice ao se aproximarem de sua parceira — note que a dupla não tem qualquer relação afetiva. Ele se mostra reativo e machista. Era o comportamento típico de um homem ciumento e possessivo, algo que o swinger repudia. De casa, anoto a observação no caderninho e aguardo o dia para confrontá- los a respeito. — Eu procurei passar naqueles momentos o que eu estou falando aqui. Que o swing é uma coisa séria, um pacto de confiança, de lealdade,

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de entrega! Então se não tiver confiança e um amor muito puro e verdadeiro, não faz. Não entra nessa forma de viver. — diz Ana Paula — Aqui não tem lugar para o ciúme. Onde existe confiança, não tem espaço para isso. gunto.

— Por que ainda existe tanto problema em torno disso? — per-

— Falsidade! Medo de falar! Eu não costumo abrir a vida pessoal porque as pessoas não tem medida. Entrevistas como as do Superpop, pela postura dela, nos expõe demais. Tenho certeza que ela seria extremamente invasiva, beirando a falta de respeito. O público swinger não gosta disso. A matéria da VEJA São Paulo foi muito correta. Falou e acabou, não quis entrar em detalhes, nem desmereceu. Não precisava saber do que eu gosto, de que tipo de fantasias eu realizei, nada a ver. O que importa é o meu pensamento em torno disso. O ato sexual em si não acrescenta. Todos têm fantasias, swingers ou não, mas quando as pessoas sabem que você é swinger, a curiosidade faz extrapolar os limites. ‘Como é? O que você faz?’. É difícil entender que o terceiro da relação é só um instrumento para que você possa se satisfazer e satisfazer o seu parceiro. O terceiro não significa nada, só o momento. Acabou o momento, você nem lembra mais daquela pessoa específica. Não existe pensar: ‘Nossa, como foi bom’ etc etc. Tudo é para um prazer momentâneo e para que o meu marido se satisfaça com o que vê. Pensamos em dupla. André entra na conversa. — Existe uma ligação maior entre ela e eu. Mas existe sobretudo um respeito com as vontades individuas de cada um — diz. — Ela é de carne e osso, pode sentir desejo por outro homem a qualquer momento. Quem sou eu para impedir isso? Isso, e o que o cara fez no palco, é machismo pura e simplesmente. É uma falta de respeito para com o outro. Faz sentido, mais uma vez.

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V

endo essa enxurrada de propagandas maravilhosas, sou obrigado e pensar em porque esse estilo de vida não tem mais adeptos. É inegável que a dupla é extremamente bem resolvida com seu estilo de vida, mas o ponto-chave dessa questão é: como chegar nesse estado de desapego? Como não reagir com boçalidade, assim como fez Pierre Bittencourt no palco do Superpop, ao se ver naquela situação? Parte da resposta está nos tabus que a sexualidade ainda enfrenta, em especial na nossa cultura latina, que tem forte influência religiosa. Quem explica é Desirée Monteiro Cordeiro, psicóloga formada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em comportamento sexual. — Somos muito fechados, possessivos e monogâmicos — conta. — O que temos que ter em mente é que o swing não define o caráter de ninguém, é só uma forma de expressão da sexualidade. A única diferença é que são pessoas mais abertas e liberais em relação a sexo. Fazer sexo com pessoas fora do casamento e continuar amando o parceiro indica que a questão do apego é o fator decisivo para fazer a prática dar certo. O quanto é possível separar o amor do sexo vai de casal para casal. De acordo com Desirée, é fundamental que quem queira se aventurar nesse mundo converse muito para saber todos os seus limites e do parceiro. O que pode se tornar um problema e o que não. Aqui que a tal cumplicidade que André e Ana Paula alegam ter faz toda a diferença. Quem tem esse instinto de apego, não vale nem tentar. Enquanto os sentimentos ficam de fora, tudo bem. Mas se a pessoa se envolve com mais facilidade, tudo pode ficar perigoso. — Não sei até que ponto isso é controlável. A chance de um casal que não tem o perfil consiga apimentar ou salvar o casamento numa casa de swing é mínima. Tem tudo para dar errado, pois todos os sentimentos vão aflorar na hora. O que a psicóloga diz vai de encontro com o que pensam os swingers. É proibido o sentimento de posse. O ciúme então, mais ainda. — Você vive numa lealdade, numa cumplicidade. Não existe mentira — conta Ana Paula. — No swing não existe traição. É tudo de comum acordo.

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Vale repetir que os swingers se põem muitas regras. Como os pactos entre casais no meio são dos mais variados, sempre há como achar alguém com interesses em comum. Há pouca frustração. Entre Ana Paula e André, só não acontece interação entre homens, por veto pessoal dele. De resto, tudo é opção se previamente combinado. Outra regra, esta bastante comum entre os praticantes, é fazerem tudo sempre juntos. Caso um dos dois não participe, estará no recinto para assistir. Mesmo para os mais liberais, o respeito aos limites é o principal dogma do grupo. Definir um modo de viver e fugir daquilo que pactuou, é, para eles, o equivalente ao que os relacionamentos tradicionais têm como traição. — Aí realmente azeda a relação — conta ela. — É tão bom não ter que sufocar suas vontades, seus desejos, como a maioria dos casais faz. Não tem porque não respeitar alguns limites. Mas nós temos liberdade. Eu jamais vou sentir a vontade de fazer nada escondido. Tanto no swing como fora, é isso que acaba com casamentos de 20, 30 anos. — Ela compartilhando os desejos comigo só vai me fazer enxergar a atitude com bons olhos. Mais: vou viver a emoção e a sensualidade dela, com ela. Se tivesse uma mulher aqui e eu quisesse tentar algo, era só falar com ela. Ela vai ver, sentir prazer em perceber o que eu faço com essa mulher. E voltar para os braços dela com o mesmo amor que eu sempre tive. Nada muda esse amor — diz André. E quem não tem essa facilidade de desapegar? E quem não consegue separar o amor do sexo? De fato, o swing não é para todo mundo. É possível desenvolver esse perfil, mas tem que ser algo que ocorra em sintonia. A história de convencer ou forçar o parceiro só coloca a relação em risco. — Pode ser surpreendente, mas pode rachar de vez o casamento. O ideal é que os dois tenham uma vontade real de tentar esse algo novo — conta a psicóloga Desirée. — Tem que vir da pessoa — explica Ana Paula. — Meu marido e eu sempre fomos livres. Carregamos isso desde sempre em nossa personalidade. Isso que nos conduziu para esse meio. Sempre tivemos a vontade de viver coisas novas, viajar, conhecer gente. Essa liberdade passou das nossas fantasias para isso. Para a gente, dá certo. Existem casos de separa-

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ção no swing? Claro que sim. Mas eu acredito que se separou porque não existia amor entre aquele casal. Não foi o swing. — Se há amor e transparência, não tem porque acabar — finaliza o marido.

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uitos anos atrás, uma época que nem pensava em abrir um negócio, Ana Paula viajava de carro pelo Nordeste. Sempre preferiu assim: sair sem roteiro definido, com tempo para parar e descobrir pequenos picos diferentes, novas praias, lojinhas e outros achados. Foi passando por uma das estradinhas que avistou um pequeno motel de nome Ápice. O sentido ali aplicado foi o que a conquistou, já que o tal ápice poderia ter vários significados, sendo o ponto mais alto de qualquer coisa, não só do prazer. Seria o ápice de felicidade, de uma amizade, de um amor ou financeiro... No fim do ano passado, com a inauguração da casa por vir, pendente apenas de um bom nome, uma pequena epifania a trouxe de volta o local. Adicionaram “Aqui seu prazer acontece” como slogan e abriram as portas. Ela resiste em revelar como anda o faturamento da casa, mas diz que vai buscar crescimento lentamente. A casa é nova e ainda vem conquistando seu público em meio a tantos concorrentes no mercado. A briga no bairro é forte: só em Moema são outros cinco clubes liberais, fora prostíbulos famosos, como o Bahamas, de Oscar Maroni, para os solteiros. Mas nem a comparação entre Ápice e os outros agrada o casal de empresários. Eles fazem grandes esforços para fazer do Ápice Club uma “verdadeira casa de swing”. Tamanha a preocupação em “controle de qualidade” que André se presta a elencar fatores que fazem do Ápice um lugar diferente para quem é adepto do swing tradicional. Por lá é proibido a entrada de prostitutas, apesar de ser impossível controlar se elas estão acompanhando algum cliente. Conta ainda que, para “selecionar seu público”, colocou cinco casais para fora do clube naquele fim de semana. — Enquanto tem gente passando o laço para puxar cliente para dentro, estou colocando para fora. Aqui é para swing, não para bagunça.

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— Colocou para fora por quê? — Não é a praia deles. Chamei delicadamente e falei: ‘amigo, vocês estão no lugar errado. Pode ir embora. Não precisa pagar nada, não’, Aqui é assim: estude o swing, escolha o que você é nesse meio e aí sim você vem. Swing não é orgia, ‘meteção’, terra sem lei. O cara acha que pode tudo, começa a trocar carícias aqui no salão? Tem que ter muito respeito. Se não tiver uma formação cultural, você não entra nesse mundo. Tem que saber o que quer. Até lá, você não tem lugar aqui. Falo sem o menor receio. — Com isso você não tem medo de perder potenciais clientes? — Não! Os clientes nossos são os swingers. E esse público está nos descobrindo dia a dia. Quando chegam aqui e veem como é, eles ficam. Quando esses que colocamos para fora por ventura se decidirem a entrar no mundo swinger, eles vão voltar. Não vão se sentir bem em outros lugares. A primeira coisa que falamos para os casais aqui é: ‘Vocês sabem o que vieram buscar?’. A gente esclarece. Se eles acham que não é bem isso, podem ir embora. A gente não amarra ninguém aqui para ganhar o dinheiro. Nosso objetivo é ter uma comunidade swinger realmente esclarecida e de alto nível. Isso vem crescendo à cada dia.

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Êxito

ê.xi.to sm (lat exitu) Perseguir o êxito nos negócios uma tarefa árdua: um trabalho incansável em busca do sucesso, tentando sempre cativar o público. No swing não poderia ser diferente. Cada vez mais frequentadores se espalham nas mais de dez casas que surgiram na cidade. Tratase de uma concorrência feroz, em que as cifras são altíssimas. Se algo os difere, talvez seja a ambição. Como não é raro um cliente deixar mais de 500 reais ao passar pelo caixa, proprietários tem na mão uma mina de ouro — basta cuidar bem do tesouro.


CAPÍTULO III êxito

ê.xi.to sm (lat exitu) 1 Saída 2 Fim, acabamento 3 Resultado, sucesso final 4 Resultado feliz, auspicioso 5 Sorte

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hego à Alameda dos Carinás por volta das 23h30. Naquela noite, peguei a chave do carro sem saber o que esperar. Vou sozinho para um sábado a noite que promete casa cheia no Vogue Club. Está é uma das grandes casas de swing de São Paulo, se não a maior. Antes de entrar, paro na porta para observar os arredores. O lugar é tranquilo, cheio de comércios fechados, sem muita proximidade com endereços residenciais. Aos poucos vão chegando os frequentadores da casa. São muitos fatores curiosos que noto já no começo. São carrões e carrinhos parando no valet parking, gente com muita grana, outros nem tanto. Um Lamborghini Gallardo, estacionado na porta, contrasta com carros dignos de reles mortais. É interessante como os clientes interagem com intimidade com os funcionários da casa. Já se cumprimentam ao chegar, dão “oi” aos manobristas, à hostess da casa e papeiam rapidamente sobre as novidades desde a última vez que se viram. Boa parte se conhece pelo nome, sabem no que trabalham, onde moram. Uma das caixas da boate, inclusive, está de namorado novo, caso queiram saber. Chamam atenção também as roupas de quem chega. No “tapete vermelho” do Vogue Club passa de tudo. As regras da casa determinam trajes no estilo esporte fino, vetando bonés, bermudas e chinelos para rapazes. Um rapaz musculoso e de cabelos arrepiados por muito gel fugia a regra. Um típico representante dos ratos de academia, o homem respondia por Breno e era o único no clube que vestia uma camiseta sem mangas estampada com os dizeres “Fika Grande Porra”. Certamente, ele era co-

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nhecido e influente no pedaço, já que não foi incomodado por nenhum dos rigorosos seguranças. De resto, a ala masculina tinha pouca variação nas vestimentas. Eram muitos os moços com enormes cavalos do lado direito do peito de suas camisas polo, outros de camisas das mais altas grifes, como Lacoste e Tommy Hilfiger. Para os pés, os preferidos eram sapatos sociais ou os sapatênis Oskley. Em menor quantidade, tênis esportivos também faziam a cabeça de alguns. Absolutamente todos usavam calças jeans. Eu era o único que vestia uma camisa xadrez. Entre as mulheres, o ambiente é mais democrático, embora haja preferências. Os modelitos favoritos são parecidos com o de Ana Paula, da Ápice. Saltões, vestidos curtíssimos e decotados. Encontra-se, no entanto, moças de calças jeans e tênis. Tanto para uma como para outra, o tratamento é idêntico. Se em uma balada comum as moças de roupas mais provocantes seriam assediadas de forma extremamente rude e indiscreta, na Vogue ninguém dá diferença de tratamento. Estão todos acostumados ao visual provocante e são extremamente respeitosos quanto a isso. Algo que deveria ser normal, mas é admirável se comparado ao que essas moças sofreriam fora dali. A fachada da Vogue tem as paredes azuis e colunas brancas, fazendo a referência ao estilo da Grécia Antiga, onde os “prazeres eram permitidos”. Acima da porta, estão cravados os nomes “Vogue Asha”. Uma briga na justiça com a revista Vogue, das Edições Globo Condé Nast, fez com que os proprietários rebatizassem a casa para Asha. Um oficial de justiça chegou a ordenar a retirada de tudo que trouxesse o antigo nome na casa. Depois de mais de um ano e meio de peleja, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo deu parecer favorável aos empresários da noite, que estão agora autorizados a usar o nome. A estratégia da defesa neste caso foi argumentar que são vários os empreendimentos que usam o termo “Vogue”, como a marca de vasos. Para não perder toda a divulgação em cima do nome, o dono da rede pretende abrir um novo clube na cidade com o segundo nome. O estilo clássico da casa só se faz presente, porém, na fachada. Ao entrar na casa, passa-se por um corredor de papéis de parede pretos e modernos, onde ficam os caixas para entrada e saída da casa. As comandas têm preços salgados para homens solteiros. Logo no começo, desembolsam 350 reais. As moças sozinhas, 35 reais. Casais, que são a grande maioria, deixam 110 reais. Assim como na Ápice, a planta da casa faz com que os 600 metros

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quadrados de área pareçam muito menos. Ao entrar, as margens da pista são ocupadas por camarotes pagos, além do preço de acesso à casa. Custam, em média, 500 reais cada. A área dançante é pequena: em 30 passos é possível caminhar por ambas as laterais. Como artifício para deixar o ambiente mais amplo, todas as paredes são espelhadas. É útil para que se observe quem está do outro lado da pista e prospectar novos alvos. Na playlist do DJ reina a batida forte da house music. Há quem não tenha saído um minuto da pista de dança, apesar da balada ter o propósito de promover o swing. O bar fica à esquerda de quem entra e é bastante grande. Há estruturas metálicas para que moças se segurem enquanto dançam em cima do balcão. Não são poucas ao longo da noite que se arriscam no spotlight. Vários homens se acumulam para ver pequenos shows das mais atraentes. Quando a moça não é das mais belas, a plateia diminui sem constrangimento. Uma estante ocupa toda a parede de fundo da casa, com luzes coloridas e garrafas iluminadas por LEDs coloridos. Atrás do balcão, quatro garçons trabalham a todo vapor. Ali que se nota que a casa não lucra só com ingressos. O cardápio tem valores que beiram o absurdo. O mais barato dos itens é a água sem gás, por 8 reais. Mas, claro, ela não está entre as preferidas dos frequentadores. Em cima das mesas, é comum ver baldes de gelo com garrafas de whisky a serem compartilhadas entre alguns amigos. A que mais se vê é a garrafa de Johnny Walker Red Label, que custa 400 reais a unidade. Um dos clientes, inclusive, ostentava uma garrafa etiquetada com seu nome. Ele conta que, por ser habitual na casa, os garçons guardam garrafas que ele não terminou de consumir na noite. São poucos que têm o privilégio. A saber, é possível encontrar uma destas por 70 reais em qualquer empório de bebidas da cidade, quase seis vezes mais barato em relação ao preço praticado pela Vogue. Os preços feitos por fornecedores são ainda mais baixos, o que aumenta ainda mais a lucratividade. Outro bom exemplo do que se encontra no cardápio: para combinar uma lata de Red Bull com uma dose de vodka importada Ciroc, gasta-se incríveis 95 reais. São 30 pelo energético e 45 pelo alcoólico. Nesta receita, a casa chega a faturar, em um mês, cerca de 500 000 reais. — Tudo é muito caro e mesmo assim as pessoas pagam. Uma cerveja no bar custa quanto? Uns 7 reais? Lá, é 15. Num sábado bom, tem 500 pessoas lá dentro, sendo uns 30 homens sozinhos, que pagam uma grana para entrar. Qualquer coisa que for gastar lá dentro, já deixa 500

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reais. Entendeu? — conta Roberto Martins, proprietário do Vogue Club. — Com o tempo, depois de conquistar uma clientela, o negócio tem uma rentabilidade perto de 40%. Que negócio te dá hoje 40%? É muito difícil. Restaurante que dá muito lucro dá 20%. De volta à estrutura da festa, a principal diferença para uma balada normal é a orientação da pista. Enquanto em qualquer boate as pessoas se espalham sem muita organização pela área dançante, na Vogue existe o que se pode chamar de “pole-centrismo”. Explico: ao centro há um cano para pole dancing, onde moças arriscam alguns passos. Todos os clientes do entorno dançam virados para o centro para prestigiar quem sensualiza no meio. Em determinado momento da noite, já depois das 2 horas da manhã, o cano é usado para shows de striptease contratados. Para agradar todo o público, há um para cada gênero. Alguns sortudos ganham carícias do dançarinos. Breno, o malhadão da regata foi um deles, ganhando uma lap dance de aniversário. São algumas particularidades, mas a Vogue em nada se difere de uma balada normal. Na verdade, na Vogue é mais difícil ver “pegação” na pista que em qualquer festa na cidade. À esquerda do bar, na ponta oposta à entrada, uma pequena portinha com cortinas indica a entrada do labirinto. É dali para frente que as coisas mudam de figura. Passado portal, há duas opções. Seguindo adiante, há um corredor livre para todos. Virando à esquerda, só casais são permitidos. É na área que permite solteiros que vagam sem parar homens e mulheres desacompanhados. Eles circulam o tempo todo, procurando incessantemente por treliças abertas, que permitam assistir a quem transa dentro das cabines. Talvez por saberem dessa “marcação forte”, boa parte dos casais mantinha a janela fechada. Eu mesmo fiquei desconfortável naquele meio, só consigo imaginar quem procurava alguma intimidade. As poucas que estavam abertas, juntavam amontoados de curiosos e voyers — pessoas que sentem prazer em assistir atos sexuais. Ali, de fato, não havia troca. Os swinger de verdade só se sentiam a vontade na área que só permite casais, em que há mais compreensão da arte da troca e mais discrição de quem quer ver alguma coisa. Ana Paula me confidenciou em entrevista que o faturamento da Ápice não chega nem perto do meio milhão de reais que Roberto Martins alega faturar na Vogue. Lembro de pensar que o fato de botar “casais inadequados” para fora tinha boa influência nisso. Ao voltar para casa depois da minha noite na Vogue, começo a entender melhor o que ela dizia. Se para ter uma comunidade swinger que se sinta confortável é preciso fazer

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essa “seleção”, o caminho está certo. O faturamento uma hora vem.

Q

uem cruza com Roberto Martins já percebe o jeito de empreendedor. Tem gente que esbanja o tino para os negócios. Depois de passar pela área de marketing promocional de empresas como Quaker e Cereser, montou sua própria agência de publicidade para trabalhar na área como chefe. A Work On Group tem quase 25 anos no mercado e uma carteira de 140 clientes com gigantes como P&G, Panco e Brasil Kirin. Há escritórios em 10 cidades em todo o Brasil (Brasília, Fortaleza, Recife, Salvador, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Campinas, Belo Horizonte), sendo a unidade de São Paulo na Avenida Luís Dumont Villares, no bairro de Santana, Zona Norte da cidade. É lá que ele me recebe para entrevista. Sua sala de CEO é bonita, sem grandes luxos. Suas roupas também não ostentam, exceto pelos sapatos Louis Vuitton como toque de requinte. Nem parece um homem que fatura o salário de um jogador de futebol. Dos bons. Se por um lado ele não rasga dinheiro, por outro, nem o sucesso inegável de seus negócios o fez parar. Há quase 10 anos, sua ideia para ampliar os lucros era abrir um bar ou choperia ali próximo a seu escritório da agência. A avenida vizinha é um famoso ponto boêmio da região, a ideia era aproveitar. Sua primeira ação de pesquisa de mercado foi fazer contato com um cliente especialista em vinhos para pedir consultoria. — Ele respondeu: ‘Não! Que choperia... Monta um casa de swing!’. Eu nem sabia o que era e como funcionava isso, mas ele insistiu: ‘Meu, isso dá muita grana’ — relembra o empresário. Não satisfeito, o tal cliente bateu por dois meses na mesma tecla até que Roberto aceitasse ir com ele até uma das grandes casas de São Paulo. A escolhida foi o Inner Club, também em Moema. Muito observador, reparou imediatamente nas mesas cheias de garrafas de whisky, vodka, com o público consumindo altas cifras. O esquema era o mesmo, com preços bastante inflacionados. — Percebi que o pessoal unia o útil ao agradável: ali eles bebiam,

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ali eles curtiam e ali eles transavam. Não precisava parar um para fazer o outro. Não tinha porque sair da casa. A partir dali, Roberto passou a frequentar o Inner com interesses “estritamente profissionais”, segundo alega. Bastou observar o comportamento de um público gastão e de alto poder aquisitivo para convencê-lo de que se tratava de uma mina de ouro. Fez pesquisas de mercado e amizade com Cláudio, gerente da casa na época. As informações que conseguiu arrancar dele, como faturamento, o que vendia bem e o que empacava no bar entraram no balanço até que se decidisse que era esse o investimento a fazer. Como Roberto não entendia absolutamente nada de swing, tentou a todo custo tirar Cláudio do Inner Club para ser seu sócio e aplicar todo o seu know how no empreendimento. Ele ficaria com o investimento financeiro. O que um swinger procura ou gosta, ele não fazia ideia. — A priori, ele não quis porque estava bem no Inner. Por ‘bem’, entenda que, em 2006, ele ganhava 30 000 reais por mês como gerente da casa. Óbvio que eu desconfiei, mas averiguei posteriormente e era verdade mesmo. Eu já tinha quase desistido quando ele me ligou dizendo: ‘Eu me desliguei da casa e agora estou interessado em montar uma casa com você’. Cláudio tinha tudo na mão. Com todo o conhecimento que trazia, chegou às primeiras conversas munido até de cotações de locações para instalar a casa. Eram dois edifícios: o primeiro, com prédios residenciais no entorno, foi rejeitado por Roberto. Ele quis a todo custo evitar problemas com vizinhança. O segundo é onde fica o clube até hoje. Antes, tratava-se de uma casa de parafuso, desses armarinhos de construção, e uma academia no andar de cima. Todas as reformas terminaram em seis meses. Foram 1,17 milhão de reais de investimento à época, algo que chegaria perto dos 2 milhões com valores corrigidos pela inflação do período. Em novembro de 2006, o Vogue Club abriu suas portas. — Com um ano de funcionamento, o investimento começou a responder e atingimos um patamar de público para dar lucro. — conta Roberto — A sociedade acabou não dando certo porque descobri que ele estava ‘metendo a mão’ no caixa. Eu não podia bater ponto toda hora por lá, então ele que ficava encarregado. Ou ficava ele, ou eu. Ele vendeu a

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parte e fiquei sozinho. Depois de dois anos, a casa se pagou. — E foi difícil aprender a cuidar de tudo? Teve que se inteirar no swing? — pergunto. — Na verdade, você não tem que entender nada de swing. Lá no começo, eu fui ao Inner umas 10 vezes para observar o funcionamento, depois meu sócio coordenou tudo e ele tinha muito conhecimento na área que trouxe do tempo de gerente. Para ser dono só tem que ter o know how de gerenciar, como qualquer balada normal. É como se fosse o gerente de um restaurante. Lá para dentro do labirinto você nem entra. No máximo, um segurança que passa por lá para dar uma olhada, mas só. Lá é só colocar um gerente para atender aos clientes, um porteiro para receber, uma hostess, seguranças, barman e deixa correr. Não precisa de nenhum curso, não. A agência é bem mais complicada de tocar. Começa a ficar fácil de entender as diferenças de gestão entre Ápice e Vogue. Não que Roberto faça mal (afinal, as cifras provam o contrário), mas Ana Paula e André parecem mais preocupados com um conceito “artesanal” de negócio. É como comparar ovos de Páscoa caseiros com a Nestlé. Não tem certo, nem errado, é só diferente. Funcionários da casa, sob condição de anonimato, dizem que o “Seu Roberto” pouco aparece. São três ou quatro vezes no mês, quando muito. O gerente, também chamado Roberto, é quem bate ponto e administra a noite. Fato é que a Nestlé do swing cresceu. Foram sete anos de marca consolidada até que Roberto decidisse abrir, no ano passado, uma unidade da Vogue no Rio de Janeiro, mais precisamente na Barra da Tijuca. Com 9 milhões de reais em investimentos, o empresário adquiriu um terreno, construiu uma unidade da Work On Group e a Vogue Rio lado a lado. Só para construção e decoração da casa, destinou cerca de 3,5 milhões de reais. Está certo que os processos se aceleram quando você tem um nome forte e uma marca de sucesso nas mãos, mas o espaço, maior e mais moderno que a versão paulista, já responde com apenas um ano de funcionamento. São 750 metros quadrados de área total, com capacidade ideal para 800 pessoas em um dia bom. Roberto ainda é cauteloso. Ele ainda não sabe dizer se o mercado do Rio é melhor que o daqui, já que lá são menos concorrentes no estilo. Mas é certo que ele aposta tudo no maior apelo turístico da Cidade Maravilhosa. Ele acredita que dentro de um ano poderá comprovar qual dos

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mercados é mais poderoso. De qualquer forma, são tão bons os ventos que levam o barco da Vogue, que Roberto já estuda até onde abrirá uma nova unidade fora da capital paulista. O local com maiores chances é a cidade de Goiânia, em Goiás. — Então você está montando um monopólio de casas! É mais uma aqui, outra em Goiania... — comento. — A verdade é que isso é um ótimo negócio. Se eu encontrasse um terreno para fazer uma casa igualzinha à do Rio aqui, eu faria. Não tenha dúvida. Com aquela casa do Rio aqui em São Paulo, eu arrebentaria. A de lá é muito mais bonita, maior. Mas quanto às ampliações, estou pensando ainda, quero explorar mais o movimento e tenho informações que o mercado de Goiânia é muito bom. Soube que são três casas de swing por lá, todas muito ruins e sempre lotadas. Estrutura ruim, casa cheia? Já pensou com um serviço legal? Preciso ir até lá e comprovar isso tudo. Penso também em montar uma na região de Campinas. — É tão fácil administrar? Para conseguir manejar várias... — É fácil... Para manejar a agência, tenho cerca de 5 000 funcionários. A Vogue São Paulo tem 30. Rio, mais 25. É muito mais fácil. Enquanto sai 100 confusões no Villa Country, sai uma lá. Você já separa, tira da casa e está tudo certo. As pessoas vão com o mesmo propósito, rola muito menos desentendimento. A gerente geral da Vogue daqui administra a de lá. Tenho caixas de confiança... Então é tranquilo demais. A família Martins atua em peso nos negócios. Atualmente, a marca Vogue nem pertence mais, nominalmente, a Roberto. Apesar de ele ainda ser a voz final do negócio, os sócios nominais são agora sua mulher e filho. Foi tudo passado para os familiares por questão de herança e para que abram um pé de meia. Sua filha também é envolvida na causa e sua cunhada é a gerente geral — pela função, leva o generoso salário de 16 000 reais, mais 2% do faturamento da unidade carioca. Praticar swing, no entanto, não é para nenhum deles. — Para mim, isso é negócio. Até porque, minha mulher é meio sargentão. Se eu falo: ‘Ah, Rosana, vou dar uma passada na Vogue’, ela já quer ir junto.

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— Até hoje é assim? Mesmo com oito anos de casa? — Ah, sabe como é... A mulherada vem para cima mesmo. Ainda mais quando sabe que é o dono. E também temos filhos, preferimos não nos envolvermos em respeito a eles. Então, para a gente, é business. Não tenho esse interesse. Pessoal fala: ‘Pô, seu Roberto, o senhor não vai lá para o fundo?’ Não gosto de ir lá para o fundo, não gosto nem de ser visto lá. É para que não fique aquele burburinho de ‘o patrão está lá no fundo’. Qualquer coisa, mando um segurança, mas não vou, não. Quando estou na casa, fico no bar ou em qualquer lugar da festa. Veja bem, poucas pessoas sabem que eu sou o dono, mas imagine assim: um casal que me conhece sempre vai lá. É um médico japonês e a mulher, uma loira bem bonita. Eu já ouvi dizer que a mulher dele faz um estrago lá atrás, com todo mundo. Mas eu nunca vi. Penso assim: ‘Eu não vou lá, porque posso deixar ele constrangido’. E do cara que sempre volta, o que me interessa de verdade é lá no caixa. — E a Vogue já dá mais dinheiro que a agência? — Proporcionalmente, sim. Mas a Work age mais amplamente, então ganha na quantidade. — E você pensa em se dedicar exclusivamente ao swing? — Quer que eu fale uma coisa? Se eu tivesse que vender essa empresa aqui [Work On Group] e montar mais umas cinco casas de swing com a mesmo rentabilidade que a Vogue de São Paulo me dá hoje, eu ganharia mais do que ganho com a empresa. Não tenha dúvida. Menos dor de cabeça, menos problema, mais retorno. São 24 anos de empresa também, não é de todo mal. Mas se alguém quiser comprar, eu vendo.

D

e fato, foram poucos os pesares para a Vogue. Só com seis anos, em 2012, que acontece o principal problema de mídia. Um técnico de informática de 37 anos foi à noite da Vogue Club para curtir com amigos. À época, ele afirmou à reportagem do jornal Folha de S. Paulo que

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teria sido espancado por seguranças da casa. De acordo com o texto da publicação, o rapaz teria percebido que perdeu a sua comanda. Ao avisar a recepção, teria sido cobrado em 300 reais pela liberação. É uma prática comum em casas de shows e baladas, cobrar bem acima do valor inicial para que evite negligência com o controle de consumo. Mesmo assim, ele se recusa a pagar, já que fazia pouco que havia chegado ao local. Depois de discutir com dois seguranças, o homem teria ligado para a polícia e, em seguida, agredido com socos e pontapés. A Vogue, por sua vez, alegou ao jornal que o rapaz estava “muito alterado” e a briga que teria se envolvido foi com outro cliente. Pela versão oficial, tudo teria acontecido porque o reclamante teria assediado a esposa do agressor por três vezes e que os seguranças apartaram a briga e os retiraram da casa. A casa também negou cobrar os 300 reais, dizendo que as comandas perdidas são identificadas pelo número de telefone do cliente, os gastos verificados e o valor a ser pago é acessado por lá. Como o Boletim de Ocorrência corre em sigilo, não foi possível verificar consequências legais do episódio, mas na mídia o caso caiu em esquecimento. E foi isso. Fora esse caso policial, a Copa do Mundo foi o maior problema que a Vogue teve nesses anos todos. O movimento caiu exponencialmente ao longo do mês de competição por um motivo simples: acabou a grana. —Toda semana tinha jogo, certo? Então o cara pegava o cartão de crédito, ia ao açougue e levava carne, carvão, a cachaça, a cerveja... Gastava o dinheiro, enchia o rabo e não ia para a Vogue à noite. Semana que vem, a mesma coisa. Até na Vila Madalena, que tava lotada, quem ganhou dinheiro foi o ambulante. Porque no bar, ninguém entrava para gastar. Para as casas de swing, foi péssimo. Perdi dinheiro. Espero que nunca mais tenha Copa do Mundo no Brasil. Note que nenhum dos fatores, no entanto, difere do que acontece com alguma balada da cidade ou tenha a ver com o swing em si. As curvas ascendentes de sucesso da Vogue Club tiveram tão poucos obstáculos quanto ajuda. Como a prática ainda é muito mal vista pelo preconceito, é difícil criar mídia espontânea, como matérias em jornais, revistas e televisão, exceto logo após o lançamento da casa. Cria-se o ciclo: sem divulgar a prática, pouca gente conhece, poucos entendem como funcionam e as impressões erradas continuam. Mesmo fabricando anúncios, esses só são veiculados em canais adultos, com baixíssimo alcance (especialmente

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durante intervalos), ou em revistas mais voltadas ao assunto. Lá em 2006 e 2007, logo depois da inauguração da primeira unidade, Roberto conta que a divulgação era feita toda com o nome “swing”, mas quem não era frequentador assíduo e conhecia os rituais da prática se afugentava por impressões erradas. A simples mudança para o termo “balada liberal” fez com que o público dobrasse. A versão carioca da Vogue ainda aproveita os louros da fase de estreia, já que, além de ser novidade, alguns famosos deixaram a timidez de lado e foram conferir o que havia lá dentro no ano que passou. Até mesmo o recém-eleito senador e ex-jogador de futebol Romário foi fotografado por lá, em 2013.

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Pioneiro pi.o.nei.ro sm (fr pionnier) Mesmo que não carregue a mais original das ideias, ser o primeiro nunca é fácil. Espera-se muito de um precursor: um diferencial em qualidade ou inovação. Quando este para no tempo, a decadência é inevitável. Quem tira o pé do acelerador, não deixará de ser ultrapassado. Aconteceu com o Marrakesh, primeiro centro swinger de São Paulo. Quem chegou a dominar a cena na cidade, sofre hoje para não fechar. Mas, se depender de Afonso Legarra, o gerente mais fiel e longevo deste mercado, isso só acontecerá sob seu cadáver.


CAPÍTULO IV pioneiro

pi.o.nei.ro sm (fr pionnier) 1 Aquele que primeiro abre ou descobre caminho através de uma região mal conhecida 2 Explorador de sertões 3 Precursor 4 Aquele que prepara os resultados futuros

H

á quem diga que Wilson Camarero, dono do Marrakesh Club, já foi do tipo que “pegava dinheiro com pá”. É fácil entender de onde saiam as altas cifras que faturava, tratando-se da primeira casa de swing de São Paulo no formato que se conhece. O segredo do sucesso foi juntar a balada comum que funcionava ali desde 1985 ao mote de sua vizinha, a casa Bon Vivant. Também na Alameda dos Arapanés, paralela à Avenida Ibirapuera, em Moema, esse era um clube onde adeptos da troca de casal se reuniam para saciar seus desejos. O swing propriamente dito começou ali, mas a ideia de ouro de juntar as coisas só veio em 1997, quando o Marrakesh reabriu depois de reformas para adaptação. Parte da casa foi destinada às cabines e salas privativas, mas sem abrir mão de um bom bar e uma pista de dança. Lá trás, a grande maioria era realmente marido e mulher, ou “casais de verdade”. Como a cena era muito nova na cidade, só estava disposto a praticar quem já conhecia o procedimento. Era uma cena mais pura. Todo aquele público acabou migrando para lá. A junção com o público baladeiro fez do Marrakesh um ponto de união entre dois mundos. Quem não era necessariamente praticante passou a conhecer o mundo do swing e acabava se inserindo naquilo. Aumentando o número de pessoas, gera-se mais variedade, mais lucro e mais “opções” para os swingers, ou seja, mais adeptos. Demorou pouco até que o Marrakesh, uma balada comum do bairro, começasse a lotar. É certo que o potencial deste mercado cresceu muito nos últimos anos, mas para os 400 metros quadrados que o Marrakesh ocupava na época, a concentração em uma só casa na cidade formava enormes filas

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na porta. Eram tempos de glória absoluta. — Devemos ser a casa mais famosa do Brasil. Não digo em faturamento, mas em nome. Quase impossível alguém não ter ouvido falar no Marrakesh. Pode não ter vindo, mas ouviu falar. Não existe casa nenhuma no Brasil que tenha 30 anos. Duram cinco, sete, oito... A única tão longeva, é o Marrakesh. — diz Afonso Legarra, gerente de lá desde sempre. — O que aconteceu de mais louco nesse tempo todo? — Ah, tudo, tudo... É difícil a gente comentar, porque às vezes o swinger pode se ofender. Já vi muito político, muito artista, repórter da Globo, muito famoso fazendo de tudo por aqui. Coisas inconfessáveis que acabariam com a moral que eles pregam. Chego ao Marrakesh com as portas ainda fechadas. À porta, algumas caixas de papelão desmontadas e jornais mostram que alguém passou a noite embaixo do tradicional toldo de entrada da casa. Quem me atende é o porteiro, que não me fala seu nome nem depois que pergunto por três vezes. Ele parece não ser muito fã de jornalistas. Entro e ele pede que eu me sente e aguarde. O dia de rodízio significa que Afonso chega mais tarde no trabalho. São quase três décadas batendo ponto naquele mesmo endereço. Dos 56 anos de idade, são 31 morando no Brasil e trabalhando na noite. Assim como seu chefe Camarero, ele é uruguaio e veio para cá a pedido da família de empresários. Começou como gerente em uma balada em Porto Alegre, mas em apenas 3 anos já veio para São Paulo comandar o Marrakesh, logo após a abertura. Desde 1985, só se afastou da casa por um ano para cuidar da boate Casablanca, do mesmo grupo. Foi uma tentativa de salvação da balada, que acabou vendida em 1998. Nem com tanto tempo no país perdeu o forte sotaque de sua língua nativa. O gerente fala de boca cheia que todos os donos de casas de swing da cidade foram frequentadores da casa e de lá tiraram a ideia de negócio, caso de Nefertiti, Inner e Enigma. São tantos anos que basicamente toda a cena swing da cidade conhece seu rosto. Mesmo tendo ganhado algum peso, que faz pressão na camisa social, e perdido uns cabelos ao longo do tempo (além de ganhar um brilho grisalho), não há como desassociar seu rosto do Marrakesh, nem o contrário.

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São poucos os funcionários que vestem a camisa de onde trabalham como Legarra. Não poderia ser diferente: ele deve muito àquele lugar. Além de ser seu emprego há tanto tempo, foi por causa do Marrakesh que Legarra conheceu sua esposa, que morava ali perto. Todos os dias, enquanto ele trabalhava na porta, ela passava na frente da casa em direção a seu prédio, há 28 anos. Começou como uma paquera diária até o ponto que ele a convidou para sair. Já são 25 anos de casado e dois filhos. Faz o tipo discreto e amigo de todos. Os casais que vão chegando à casa para curtir a noite em plena quinta-feira o cumprimentam pelo nome. A entrevista é interrompida várias vezes para que ele possa dar o atendimento aos preferenciais. O Marrakesh não é uma casa para muito jovens. A média de idade do público está acima dos 40. O ambiente e músicas agradam mais essa faixa mais madura e o clima é bem estilo retrô sofisticado. — Somos muito rígidos, temos regras. Cuidamos do cliente. O fato de eu não dar com a língua nos dentes para você de todas as histórias que eu conheço é algo que nosso público preza muito. Dificilmente sai um bafafá. Não tem ninguém transando no salão. É um ambiente de muito respeito e isso agrada muito o mundo dos swingers. Nosso patrão é nosso cliente. Então queremos que todos aqui se sintam seguros e resguardados como ele. São muitos lugares para sentar, onde se pode ver shows contratados pela casa e o ambiente é mais propício para beber que dançar. Contraria bastante o ideal do Vogue Club, com um estilo, em tese, mais “classudo”. Ao entrar, logo à esquerda há o bar. É pequeno e com luzes decorativas. Não há, no entanto, espaços para que frequentadores dancem em cima do balcão, como em outras casas. São paredes vermelhas em arcos romanos e jardins naturais nos cantos. Em meio às aberturas dos arcos, são espelhos que dão o tom da pista, que fica num quadrado um nível abaixo do resto da casa. Um pequeno palco dá espaço para pole dancing e, acima, muitas luzes dão o clima de festa. À direita, o labirinto pouco difere dos outros conhecidos. — Se você é dançarino, aqui não é seu lugar. ‘John Travolta’ tem que ir para as outras casas. Quem vem no Marrakesh tem que gostar de sexo — brinca Legarra. — Chega gente uma hora da manhã, olha o salão e fala: ‘Pô, está vazio?’. Respondo: ‘Olha lá atrás’. Quem gosta de sexo,

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Marrakesh é o melhor lugar do mundo. — E no gerente? Rola um assédio? — Não. Eu fui muito mulherengo quando era jovem, antes de casar. Tenho 25 anos de casado, já tem muita amizade entre nós. Antigamente, que eu era mais bonitão, até podia rolar um pouco. Mas eu nunca dei abertura. Sempre fui simpático, sempre valorizei as moças, mas um respeita a distância do outro. O assédio fica para os mais novinhos aí [seguranças]. Mas sabemos manter o respeito. Não pode entrar nessa, não. Um dos seguranças da casa se apresenta e confessa que já traiu a mulher com clientes em horário fora do trabalho. Obviamente, ele pede anonimato. Não tem o menor pudor em dizer que aproveitou uma viagem a trabalho da esposa para deixar a filha com a sogra e pular o muro. Cada um sabe o que faz.

É

verdade que o lugar já teve dias melhores. Todo esse ambiente bonito e numa onda mais moderna é fruto de uma grande reforma que a casa passou em 2014. Fruto de adequação para tentar trazer mais público que acabou perdendo para os concorrentes. Apenas três anos depois de sua mudança para o swing, em 2000, casas com espaço físico maior, mais recursos e mais modernidades, começaram a surgir e se espalhar pela cidade, abrindo uma forte batalha pelo público. — No começo, as outras demoraram a pegar o jeito, então ficamos tranquilos. Mas demoramos muito a reagir. As outras casas saiam do zero e tinham uma tela em branco para fazer o que quisessem. Podiam fazer labirintos enormes e salas de cinema diferentes. Coisas novas para atiçar a curiosidade do público. Aqui não tem espaço, fomos perdendo principalmente os curiosos. Mesmo o auge, entre 1997 e 2007, o clube sofreu muito com adaptações. Não tinha fumódromos até a aplicação da lei antifumo em São Paulo, por exemplo. O público swinger que não suporta estar exposto

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se via obrigado a fumar do lado de fora da porta, em plena rua. Outros fatores, como a lei seca, que atrapalharam todos os empresários da noite, terminaram de colocar a faca no corpo do Marrakesh. Obsoleto, cheio de concorrentes modernos e com necessidade de gastar rios de dinheiro em melhorias, ficava difícil se manter vivo. Foram muitos os boatos que o lugar poderia fechar a qualquer momento. — E há como alavancar o mercado ou vocês estão trabalhando no limite? — pergunto. — Tem! Daria para voltar aos anos mais cheios, como era antigamente. Mas é difícil. São cada vez mais casas, cada vez maiores e mais luxuosas. Então complica, não temos para onde expandir em melhorias. Até hoje, o público que se mantém fiel ao Marrakesh são os clientes antigos. Daí a elevada média de idade do lugar. Isso se torna argumento de muitos para escolher outras casas. Ao mesmo tempo, Legarra usa o fato para defender “uma cena mais pura de swing no mais tradicional clube da cidade”. Ele diz que, antigamente, sim, era “swing de verdade” e depois, com a abertura de novas casas, a coisa foi “virando mania”, com muita gente aparecendo com amigos e amigas. Ele garante que o Marrakesh mantém esse público, sobretudo aos fins de semana. — Procuro não falar mal da casa deles, apesar de falarem mal da nossa sempre. Mas hoje em dia, não vou citar quais por respeito, tem casas de swing que são baladas. De cinquenta casais, não tem dez de verdade. Não que aqui não entre homem solteiro. Tem casais que procuram homens solteiros. Garotas de programa, você vai perguntar se vem... Vem. Vem aqui, vão na padaria, na farmácia... Se ela vier como cliente, mesmo que tenha sido contratada lá fora, não podemos fazer nada. Cobrar aqui dentro, não pode, mas vou barrar? Eles vêm falar que aqui tem muita puta... Puta vai em todo lugar! Já vi puta na missa do Padre Marcelo. E aí? É proibido ela entrar? O Marrakesh é rival de todas as casas da cidade. Somos como o Corinthians do swing. — Por que ainda rola esse rivalidade em cima de vocês? — Temos muito nome. Somos a Coca-Cola do swing. Quando você pensa em refrigerante, você vai direto na Coca-Cola. Quando você

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pensa em swing, vai para o Marrakesh. Não tem como não pensar. Para eles, é uma pedra no sapato. O swinger de antigamente continua frequentando aqui. Temos muitos que tem mesa cativa, bebida de preferência... — O que falta para o Marrakesh voltar para o auge? — É complicado. O nosso público é mais adulto, que quer fumar e beber. As leis acabam tirando o interesse. Para outras casas de swing, que são baladinha para a moçada, não afeta tanto. Eles dão um jeito. E tem casas fantásticas também, com atrativos mesmo. Não temos esse espaço físico. Trabalhamos com o nome e bom atendimento: que conhece o cliente pelo nome e sabe o que ele gosta. Se já não tem o mesmo prestigioso, nem é o mais bonito clube da capital, o trunfo de verdade que o Marrakesh guarda é a presença de Legarra no staff. Nota-se com pouco tempo o tamanho do respeito que os funcionários da casa têm com o que sai de sua boca. São poucos comandos que dão rápidos resultados. Ele é um líder nato, que manda e desmanda sem perder a simpatia. Enquanto conversávamos, um cliente chega à casa. Estava recém-aberta, por volta das 22 horas. Um homem alto e forte, com porte atlético e cabelo partido ao meio, à “mauricinho”, apresenta-se como Ronaldo. Ele desconfia do potencial que a noite o reserva e pergunta se há prospecto de movimento numa quinta-feira. O texto quase decorado de Legarra vende o peixe do lugar quase por milagre. Naquele momento, não havia ninguém no salão. Legarra garante que está cedo e em breve o lugar enche. Soa quase como um palpite, mas a firmeza das palavras passa alguma credibilidade. Chegam outros funcionários para tentar convencer o rapaz que em meia hora já será possível ver bom movimento. Deu certo, ele paga adiantado os 220 reais da entrada em dinheiro, provavelmente para não deixar rastros no extrato bancário. Essa habilidade é conhecida de todos. Mais que isso, o que pode defini-lo no posto de bom gerente é a fidelidade que ele tem pelo lugar. Ele fala do Marrakesh como se fosse seu e não trai seu chefe por nada. Não revela dados de faturamento ou nomes de clientes famosos nem que se pergunte mais que uma vez. Não adianta insistir. É um zelo enorme com a discrição. Um orgulho próprio de um lugar que é quase seu sobrenome há tanto tempo. Por tudo isso, ele é querido por quem quer que

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passe por ali e cobiçado pelos concorrentes. — Veja bem, são muitas pessoas que passam aqui, é mais fácil lembrarem de um gerente do que eu de muitos e muitos clientes. Mas tenho contato com muitos deles. Tudo isso, sem ser invasivo. Em trinta e tantos anos, nunca peguei o telefone de um cliente. Um o outro se tornou meu amigo, mas por opção dele. Se cruzo com algum cliente no shopping, não cumprimento. Espero sempre a iniciativa dele. Muitos guardam segredos que não estão prontos para revelar. Não sou eu que vou constranger. Ele pode ter receio, eu não. Essa é minha profissão — E se tivesse uma proposta para ser gerente de outra casa? — Ah, não. Já tive muitas. Muitas. Sou o mais antigo no swing, então sempre que querem abrir uma casa me fazem convites. Sabem que o cliente me conhece. Mas não sairia, não. O dia que eu sair daqui é para aposentar. — Nem com uma proposta milionária? — Hahaha. Não... Sou fiel ao Marrakesh. Não teria interesse, não.

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Oposição o.po.si.ção sf (lat oppositione) Se é preciso coragem para ir na contramão da sociedade, estar do lado de lá é puro conforto. O lugar comum é bem aceito e encontra apoio. Escancarado ou velado, o preconceito que os swingers enfrentam em muito se assemelha com as típicas situações enfrentadas por grupos homossexuais ou expresidiários. Costumam ser rechaçados e até mesmo inferiorizados pela pura associação com os que representam a velha “moral e os bons costumes”. É de praxe que suas personalidades sejam reduzidas à forma de expressão sexual. E incomoda demais que eles tenham empregos e frequentem os mesmos locais que a “patrulha do bem”.


CAPÍTULO V oposição

o.po.si.ção sf (lat oppositione) 1 Ação de opor ou de opor-se 2 Dificuldade, impedimento, obstáculo que se opõe à realização de alguma coisa 3 Caráter ou natureza do que é oposto 4 Posição de uma coisa em frente de outra 5 Contraste entre duas coisas contrárias

E

nquanto foi apenas mais uma swinger, Ana Paula Sousa preferiu, como tantos outros frequentadores, manter a prática em segredo. Ainda hoje, boa parte da sociedade não aceita a prática, categorizando-a como luxuriosa, perversa, entre outros nomes que tentam desclassificar seus frequentadores. Nos últimos meses, no entanto, a empresária se tornou um dos ícones na cena swinger paulistana, já que o Ápice Club é a carne nova no pedaço. Foi só em agosto, com a publicação de VEJA São Paulo, que familiares descobriram o que ela e o marido faziam na noite. Mesmo entre pessoas tão próximas, muitos a rechaçaram, como se esperava. — Foram vários, mas o mais marcante foi um compadre que se afastou. O que eu posso fazer? Tem que respeitar... Sou madrinha do filho deles, mas eles resolveram me deixar de lado — desabafa. — Talvez por achar que nós não sejamos as pessoas ideais para conviver com eles e com o filho. Nunca anunciamos que somos swingers, mas não escondemos se o assunto sai naturalmente. O preconceito é achar que é errado, que traímos um ao outro, que os dois são ‘cornos consentidos’ e outros pensamentos de baixo nível. Mas quando você é bem resolvida, você não liga para o que os outros vão falar. Não tenho vergonha em dizer que sou swinger. Temos muitas mães de família, esposas, mulheres de respeito! As mulheres do swing têm muita autoestima. É comum usarem roupas mais provocantes sem problema algum. É um ambiente sensual, envolvente, você sente na pele. Dá gosto de se arrumar, pois as pessoas vão valorizar

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e admirar. Não vão achar que você é uma puta. Agora sai assim na rua... Vão todos te julgar. Aqui dentro, ninguém pensa assim. A verdade é que tenho muito orgulho de ser bem casada, por sentir um amor puro e verdadeiro, por ter essa reciprocidade. Me entristeço apenas porque a maioria do público swinger se esconde. Não deveriam, mas entendo o medo. — Mais que preconceito, é hipocrisia. Todo mundo que está lá fora tem vontade de praticar o swing. De viver nesse mundo livre de amarras — acrescenta André. — Em dias que é permitida a entrada de homens desacompanhados aqui, eles não deixam e-mail ou telefone para que não liguemos e a mulher descubra. Por que não vem com a mulher? É um hipócrita, que vem para trair a esposa ou namorada e fora daqui prega o moralismo! Ele faz, mas não quer que a mulher faça. Vivemos hoje em um mundo de direitos iguais. As mulheres e movimentos feministas lutaram muito para que elas chegassem a esse patamar. Hoje, ela ocupa cargos de chefia e tem igualdade de direitos. Por que não a mesma liberdade sexual? Ela é dona de si. A mulher é a rainha no mundo swinger. Você percebe aqui, que a mulher alcançou um patamar bem superior. Ela expressa suas vontades tranquilamente, sem medo. Para a psicóloga Desirée Monteiro Cordeiro, da PUC-SP, o machismo que existe na sociedade predominantemente heteronormativa faz com que se julgue como “baixa” um mulher que é liberta sexualmente e transa com vários homens. Por outro lado, o homem que aceita isso é tido como “frouxo” e “corno manso”. Esses rótulos que são impostos são levados para outros âmbitos da vida, que nada tem a ver com isso. De acordo com ela, o preconceito ganha forma quando as pessoas que não aceitam a prática se veem de alguma forma relacionadas aos swingers, seja por terem a mesma profissão, hobbys ou gostos. — Tem gente que tem dificuldade de perceber que é só uma expressão de sexualidade. Dentro de uma casa de swing você vai encontrar todos os tipos de profissão, de níveis socioeconômicos, gente boa, ruim, feliz, triste. Mas esse preconceito acontece com outros, como os gays, que são promíscuos, as lésbicas, que são mal comidas... Isso faz com que os swingers usem nomes falsos, mantenham uma vida secreta... Não sei até que ponto isso é necessário para que os frequentadores não sofram represálias na vida social e profissional, mas, ao mesmo tempo, perde-se a oportunidade que esses ‘mártires’ virem símbolos e briguem pelos di-

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reitos. — Será que tem chance de esse preconceito acabar? O que falta para o swing ser mais aceito? — pergunto. — O que está faltando é as pessoas se libertarem. Todos já sabem que existe. À medida que todos forem se libertando desse padrão, tudo fica legal. E digo, tem muita gente querendo sair desse armário. Só precisa se assumir — filosofa André. É evidente que, por mais livres que os swingers sejam consigo mesmos ou entre eles, ainda esbarram com as amarras que o resto da sociedade os coloca. O bairro de Moema, onde ficam 60% das casas de swing da cidade, é conhecido por ser um “polo sexual” em São Paulo. Essa posição de referência no mercado a tornou requisitadíssima entre os novos empresários da noite, apesar dos alugueis que sobem em ritmo galopante para o comércio. Uma pequena oficina mecânica pode pagar 15 000 reais por mês pelo imóvel. Apesar de se tratar de um dos mais desenvolvidos e seguros bairros da capital, esse estigma vinculado ao sexo desagrada boa parte dos mais de 40 000 moradores da região, grupo que é bastante conservador e já tem uma média de idade elevada. De acordo com estimativas da Associação de Moradores e Amigos de Moema (Amam), cerca de 20% dos residentes são absolutamente contra as casas de swing baseadas apenas em fatores morais ou preconceituosos. Parece pouco, mas, em números absolutos, a quantia gira em torno de 8 000 pessoas só no bairro. — É inaceitável ter que assistir a isso da janela, essa sem-vergonhice — comenta Adelia*, moradora de um edifício vizinho ao Ápice Club, na Avenida Cotovia. — Não bastavam todas as outras da região, veio abrir uma aqui? Deixando de lado os julgamentos morais, depois de dizer que acha errado o que “esse povo vem fazer”, a vizinha, que pede anonimato por medo de represálias, reclama de ruídos incômodos provenientes da casa. Além da música alta, ela reclama do barulho do público ao sair das festas. Ela não é a única. De acordo com José Roosevelt Júnior, presidente da Aman, boa parte das reclamações que chegam à associação com relação às casas são de moradores vizinhos irritados com a questão do barulho

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tarde da noite. — Basicamente, só nos mexemos quando as casas causam algum tipo de incômodo que não seja do ponto de vista moral. Mas aí nessa conta entram bares, escolas... Não cabe à associação julgar a questão moral da coisa, mas a partir do momento que traga algum problema para a sociedade, a associação entra para garantir os direitos do cidadão. Direito de ir dormir, circular livremente etc. O resto, ficamos de fora, não entramos no mérito. O presidente da associação relata que, além de denúncias por telefone, o grupo também fica sabendo de inconvenientes causados pelas casas através de reuniões do Conselhos Comunitários de Segurança, os Consegs. No distrito de Moema são dois, que reportam os eventos para as delegacias do Brooklin (97º DP) e do Campo Belo (26º DP). É pelo 97º DP que chegam as várias reclamações de problemas causados pelo Nefertiti Club. — Eles dizem que o pessoal faz sexo na rua, saem gritando, fazem bagunça a altas horas da noite... Mas o grande problema, na realidade, é que nenhuma esfera pública, seja prefeitura, subprefeituras ou polícia, conseguem definir de quem é a responsabilidade por fiscalizar a coisa. Durante a madrugada, em horário de saída de duas das casas do bairro, não flagrei nenhum episódio que pudesse caracterizar algo do tipo. Outro aspecto que prejudica o crescimento do mercado, além do preconceito social, é a falta de união entre empresários. Sem uma associação para unir a classe, enfrentar problemas e se fortalecer, as casas de swing na cidade vivem uma espécie de Guerra Fria: ao conversar com proprietários, todos tentam ser ponderados nas críticas, mas não perdem a oportunidade de alfinetar a concorrência. Todos dizem se respeitar, mas parecem se odiar. A Vogue é chamada de “baladinha”, Ápice de “propaganda enganosa” e Marrakesh de “decadente”. Enquanto isso, todos tentam vender seu peixe como “a melhor de São Paulo”. Certo é que sem parceria no setor, algumas casas são arrastadas para baixo e faz com que clientes sejam disputados de forma quase desleal. Por mais que tenha 15 anos de estrada, a cena swing é algo “novo”. Todo o desconhecimento que ronda esse assunto ainda faz com que a prática seja relativamente amadora. Uma frase de Roberto Martins, do

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Vogue Club, define bem o avanço que o setor busca. Só quando isto estiver na mente de uma grande camada da população, dentro e fora da cena, o swing será bem aceito por aqui: — Acho que em cinco anos esse mercado vai crescer muito. Hoje em dia, as pessoas já conhecem o que é, mas precisam perder o medo de tentar ou não tem respeito com o que acontece lá dentro. Falta entender que não precisa acontecer nada que elas não tenham vontade e, ao mesmo tempo, pode haver tudo que elas quiserem. O que falta de verdade é entendermos que a sociedade é algo extremamente plural. Há gente de todo o tipo, com todos os gostos, mais liberais, mais conservadores. O importante é respeitar essas escolhas. Ainda há muito incômodo em boa parcela das pessoas ao se ver, de alguma forma, associada às outras que tenham hábitos diferentes. Da mesma forma que alguém não se engrandece por uma única virtude, não se desqualifica por um gosto. O ser humano é mais complexo que isso e deveria ser entendido livre de preconceitos, sem rótulos. E mais, não é porque você não compartilha daquele gosto ou opinião que o outro está errado ou é pior por isso. Falta entender e respeitar as individualidades. O dia que chegarmos lá, seremos bem mais felizes e seguros de nós mesmos. Vale tentar, não?

* Nomes reais omitidos a pedido dos entrevistados

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Raphael Martins tem 23 anos de

idade e é estudante de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECAUSP). Por um ano, foi estagiário da Revista Espaço Aberto – USP, até se transferir para a Editora Globo, em junho de 2012. Lá ficou até o fim de 2013, como estagiário das revistas Autoesporte, Casa e Jardim, Época São Paulo e Galileu. Desde janeiro deste ano, estagia na revista VEJA São Paulo. Com a ideia chancelada pela reportagem de capa da revista a respeito do mercado de sexo em Moema, recortou o tema swing para a elaboração de “Pode Entrar – O lado de dentro das casas de swing de São Paulo”, seu primeiro livro-reportagem apresentado em 2014 como Trabalho de Conclusão de Curso.


Pode Entrar — O lado de dentro das casas de swing de São Paulo  

Trabalho de conclusão de curso de Raphael Candido Martins. ECA-USP 2014.

Pode Entrar — O lado de dentro das casas de swing de São Paulo  

Trabalho de conclusão de curso de Raphael Candido Martins. ECA-USP 2014.

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