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LAZER & CIA

CE/17/12/2012

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LAZER & CIA

CE/17/12/2012

BRUNO GOMES/AQUICE/D.A PRESS

A cidade Peixe de Pedra não existe. Talvez, por isso, seja o ambiente ideal para as aventuras do primeiro romance do cearense Xico Sá, “Big Jato”. A localidade é uma mistura de Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha e Santana do Cariri. O título do livro é inspirado no nome de caminhões limpa fossas da região do Cariri na década de 1970. A história é pouco convencional. Um garoto fica dividido entre o pai austero, dono do veículo coletor Aqui CE - É preciso viver uma história para escrevê-la? Xico Sá - Escolhi fazer o primeiro romance a partir de uma trajetória que já vivi, por conta da influência do jornalismo na minha vida. Talvez esse livro não passe de uma matéria em primeira pessoa. Isso me deu mais segurança para me aventurar na ficção, gênero que eu ainda não tinha feito nada. Queria prestar conta com a minha região, dizer de onde vim. O cara que ignora isso, acho, no mínimo, uma covardia com o seu lugar. Escrevia sobre tudo, menos sobre o meu lugar. Foi um belo acerto de contas.

fazendo uma grande obra naquele lugar. Apesar do mau cheiro do livro, o lirismo salva, seja qual tema for. AC - O que seria um pequeno passo para o homem e um grande passo para a humanidade? XS - Pessoalmente, o grande passo foi ser leitor. Tudo o que consegui foi por conta da leitura, foi o que fez a diferença. A leitura é um grande passo para qualquer pessoa. Tornar-se um leitor é coisa muito revolucionária e muda a vida de uma pessoa pra valer. É um dos raros recursos que é pra sempre. AC - E a poesia em sua vida? XS - Toda minha origem de escrita veio da poesia. Comecei fazendo poema. Publiquei amadoristicamente, ainda em mimeógrafo, no tempo da Geração Mimeógrafo. Eu era um grande leitor de poesia, hoje leio mais ficção. Tenho muita influência da poesia. Gosto

escolher um tema vivido por ele para desenvolver o novo trabalho, fugindo um pouco da crônica de costumes, gênero que o consagrou nacionalmente. Também fala sobre a experiência de fazer TV, que, de início, foi dolorosa, mas consegue, agora, sentir mais prazer com o veículo. Lembra-se da amizade com o ex-jogador Sócrates e das saídas, noite a fora, importantes para os dois, antes da morte do craque do Corinthians e da Seleção Brasileira.

muito de quando estou escrevendo, ler poesia, como um exercício para transformar o que estou querendo dizer. AC - Tem vontade de ter filhos? XS - Criei dois filhos. Fui casado com uma menina que já veio com dois, o tal

AC - Sempre teve vontade de ser jornalista? XS - Eu não morria de amores por esse tipo de jornalismo. Talvez quisesse desde cedo ser escritor, mas o jornalismo ficava embarreirando. Porque você começa a ganhar a vida, começa a ganhar cada vez mais. Eu tinha uma carreira bem s u c e d i d a d e re p ó r t e r. Estava indo mesmo para outro canto e não voltava mais para onde eu achava que devia ir, que era o lance dos livros.

pacote completo. Não me assustei, foi minha grande experiência, porque eu os considero como filhos. Um tinha seis meses e o outro um ano e tanto. Fiquei junto deles 12 ou 13 anos. Até hoje, a gente tem uma relação de pai e filho, conversamos toda semana, vou para o Recife participar das coisas deles. Talvez isso tenha me feito não ter essa obsessão toda em ter filho e ter relaxado nesse sentido.

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AC - Hoje há um saneamento de sentimentos? XS - Nesse pacote do politicamente correto, o pessoal acaba escondendo as partes mais sujas. Fiz questão de ressaltar muito essa escatologia, que não é sujeira pura, ela se mostra de forma poética no livro. Po rq u e o p e rso n a ge m começa a acreditar que está limpando o mundo, que está

dos excrementos do povoado, e o tio doidão, aficionado em Beatles. Ele tenta criar sentido para a vida a partir desse embate. Entre devaneios e objetividades, o menino mostra que uma cabeça inquieta possibilita a criação de um mundo interessante, mesmo em uma terra que o deixa desconfortável. Pasmem, ele é capaz até de conversar com cabras e bodes para tornar as coisas mais suportáveis. Ao Aqui CE, o autor conta como foi

AC - Um personagem do seu livro diz que sorte é desculpa para vagabundo. Você acredita nisso? XS - No mínimo, a sorte só vem para quem batalhou muito. Como repórter, creio que tive muita sorte. No caso PC Farias, que a Folha de São Paulo acabou revelando o paradeiro dele, e fui eu quem fiz, todo mundo escolheu ir para o exterior. Eu escolhi ficar em Maceió, porque achava mais fácil encontrá-lo onde a família dele estava. Era ali que apareceria qualquer rastro dele. Tive muita sorte de estar no lugar e o fato acontecer.

AC - Como foi a decisão de se afastar do jornalismo? XS - Teve uma hora que eu decidi. Continuei até prestando serviço para a Folha, BRUNO GOMES/AQUICE/D.A PRESS

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mas resolvi trabalhar em casa. Aí me livrei dos plantões, da pauta diária. Foi quando comecei a cuidar dos meus livros. Organizar as crônicas para fazer livro: quando dei a virada mesmo. Era uma retomada do que eu tinha sido no comecinho da história. AC - A ordem não é ser esquecido, mesmo que seja muito lembrado? XS - Fico, às vezes, questionando, achando que estou enchendo o saco das pessoas. Mas é necessário hoje. Se eu fosse um gênio, fosse um Dalton Trevisan, eu ficaria na minha casa, enclausurado. Eu tenho uma escrita boa, mas eu preciso me mostrar, defender o meu livro, publicamente. Gosto da conversa com o leitor. Preciso defendê-lo nas redes sociais, na internet, mostrar o que fiz. AC - Se sente bem fazendo TV? XS - Ainda é um pouco estranho, mas melhor do que no início. Para gravar uma coisa de meia hora, é preciso passar muito tempo no estúdio. Precisa de muita gente. Eu sou acostumado a resolver minhas coisas sozinho, porque a escrita é uma coisa individual. Eu sofri no começo, porque eu levava muito a sério o veículo, o

debate. Depois, eu relaxei e vi que era mais importante dizer uma frase x, que fique marcada, do que tentar desenvolver um raciocínio. Isso não é pra linguagem televisiva de um programa mais pop, mas rápido. AC - E a amizade com o Sócrates? XS - Veio antes do Cartão Ve r d e ( T V C u l t u r a ) . Estreitou-se mais com o programa, passou a ser um encontro com regularidade. A gente saia depois para beber, para conversar. Foi um encontro muito rico mesmo. Sócrates era uma grande leitor também, um cara do mundo do futebol, que é um mundo que eu gosto, mas que pensava pra cacete. Eu o consultava sobre as coisas, ele a mim. A gente estava sempre pensando junto as coisas, fosse política ou literatura. AC - Você usa a escrita como uma forma de conquista? XS - Escrevo para ser mais amado. Tem hora que me pego fazendo coisas para uma determinada musa, na crença que o relacionamento possa dar certo em algum

momento. Escrever é uma sedução. Tem leitora que se ilude, pensando que eu sou um grande exemplo de homem. Vai lá em casa pra ver o desastre que eu sou, igual a qualquer homem. AC - E o caprinês? XS - Eu sempre via muito nos bichos, na hora do berro. Achava que eles estavam fa l a n d o a l g u m a co i sa . É muito memória de infância. Você tem a sensação de que o bicho está falando e que entende o que ele diz. Aí, a partir daí, na ficção, coloquei isso no livro, o menino dizendo que sabia o caprinês, que consegue falar com os bodes. AC - Vai haver um filme a partir do livro? XS - Tem dinheiro aprovado para ser feito. A gente escreveu um roteiro inicial, para colocar nas leis de captação. Vou trabalhar meio como o consultor do roteiro. Acho que as filmagens acontecem no segundo semestre do próximo ano. Quem vai filmar é Claudio Assis, fez “Febre do Rato “ e “Amarelo Manga “. Talvez seja filmado em Santana do Cariri.

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