Page 1

MEMAI w w w. j o r n a l m e m a i . c o m . b r

Letras e Artes Japonesas - Edição 07 - Curitiba - 冏 Fuyu - Inverno de 2011

PESADELO NUCLEAR NOS FILMES JAPONESES Radioatividade nuclear      desde a 2ÂŞ. Guerra

8

O QUE É SER NIHONJIN? Romance de Oscar Nakasato ganha prêmio com saga de família japonesa 3

UMA CASA DE CHĂ EM PARIS Obra de Charlotte Perriand homenageia o JapĂŁo pĂłs-tsunami 6

WABI SABI, WASABI, WARABI O haicai de imigrantes japoneses e de escritores modernistas brasileiros 14


2

MEMAI

SUMĂ RIO

KOTOBA

PERMUTAÇÕES CULTURAIS

2

KOTOBA PERMUTAÇÕES CULTURAIS

3

[)>\[]?">^ O QUE É SER NIHONJIN? por Suzana Inokuchi

5

PALCO UMA REFLEXĂƒO SOBRE A VIOLĂŠNCIA COM MISHIMA por PatrĂ­cia Kamis

6

^\>["]?"_^?" UMA CASA DE CHĂ EM PARIS por Claire Sophie Dagnan

8

KINEMA PESADELO NUCLEAR NOS FILMES JAPONESES por Francisco Handa

por Marilia Kubota

10

LITERATURA CHUVA NEGRA por Marilia Kubota

11

VIDA O SENSO DE UNIDADE NA COMUNIDADE NIKKEI por Mylle Silva

12

PERFIL MUSASHI por Yuri SĂłcrates Saleh Hichmeh

14

HAIKAI WABI SABI, WASABI, WARABI por Tomoko Gaudioso e Claudio Daniel

Quem ligoua tevĂŞ no dia 11 de março poderia imaginar que o JapĂŁo seria tragado pelo tsunami. Ou, a seguir, devastado por uma tragĂŠdia nuclear. O arquipĂŠlago japonĂŞs continua no mesmo               A capacidade de reconstrução do povo japonĂŞs impressionou a todos. A força para enfrentar o imprevisĂ­vel habita o espĂ­rito dos conterrâneos do samurai Musashi. O espĂ­rito de reconstrução permanente ĂŠ admirado pelos franceses, que abriram as portas para a arte japonesa, no sĂŠculo 19. AlĂŠm de             foram os primeiros a divulgar o haiku – ou haicai, que se tornou uma febre no mundo todo. No Brasil, seus herdeiros culturais, os nikkei,     O romance Nihonjin, de Oscar Nakasato, tornou-se um best-seller poucas semanas apĂłs ser lançado. Este pode ser um dos sinais de que a cultura japonesa, hoje, nĂŁo atrai apenas os japoneses e nikkei. É admirada       !           "   mutaçþes sĂŁo permanentes e inevitĂĄveis, ao menos que sejam permutĂĄveis. O Brasil no JapĂŁo e o JapĂŁo no Brasil, ou na França, nos Estados Unidos, em todo lugar onde se perceba que para viver ĂŠ preciso conhecer o eterno deus Mu-dança, como canta o    #$ #%

VERTIGEM

NORWEGIAN WOOD Leu: Mårcia Namekata Ao ler as primeiras påginas de Norwegian Wood, de Haruki Murakami, o leitor pode perguntar, diante de tantas referências ocidentais, se se trata de romance de autor japonês. A impressão se prolonga com o avanço da leitura: Beatles,

bossa nova, aulas de AlemĂŁo e HistĂłria da Arte DramĂĄtica, modismos num JapĂŁo que,        uma modernização/ocidentalização. Isto pode ser questĂŁo de “corpoâ€?; a alma do livro ĂŠ essencialmente japonesa. Ponto chave para o desenrolar da trama ĂŠ o suicĂ­dio de Kizuki, melhor amigo do protagonista, Toru Watanabe. Naoko, namorada de Kizuki, marcada pelo trauma do suicĂ­dio, passa a se re-

Equipe

Impressão: #y{[ |y Tiragem: 2.500 unidades 冏 Fuyu (Inverno), 2011

Editoria Geral: Marilia Kubota Editoria Artes: "& Editoria Imagem: "'( )(* Editoria Palco: Patrícia Kamis Editoria Internet: +5 " Editoria História: 8" " &  Revisão: Alvaro Posselt  Gustavo Morita Ilustração: Guilherme Match Colaboradores: Jorge Yamawaki, Márcia Namekata. Colunistas: <" ( "=> ?( Convidado especial: Oscar Nakassato.    "& Diagramação: Raphael Faria Kruger

lacionar com Toru. A trajetória do protagonista Ê contada quase como um diårio, e revela uma galeria de personagens diversas, interligadas pelo amor e pela morte, e seus desdobramentos: sexo com/sem amor, paixão, loucura. Apesar da aparente complexidade, tais questþes são reveladas com sutileza por Murakami, permeadas de doses de sensuali    va envolvente e plena de emoçþes.

ASSINATURAS E-mail: contato@jornalmemai.com.br

4 EDIĂ&#x2021;Ă&#x2022;ES

CorrespondĂŞncia: Rua Mateus Leme, 314 â&#x20AC;&#x201C; Apto. 301 CEP: 80510-190. Curitiba/PR

R$ 25 (nacional)


3

MEMAI ENTREVISTA

O QUE Ă&#x2030; SER NIHONJIN? Em Nihonjin    

       !        " #$      $%& $'  (%)*+ 

 

 $    $   livrarias do paĂ­s por Suzana Tamae Inokuchi

â&#x20AC;&#x153;HĂĄ pouquĂ­ssimos nihonjins ou descendentes na nossa literatura, o que me deixou incomodado.â&#x20AC;? JORNAL MEMAI - Qual ĂŠ a sua formação acadĂŞmica e literĂĄria? OSCAR NAKASATO - Cursei Licenciatura em Letras, habilitação em LĂ­ngua Portuguesa, na Universidade Estadual de MaringĂĄ. Fiz Mestrado em Teoria da Literatura e Literatura ~_    ^  "| Fiz doutorado em Literatura Brasileira na mesma instituição. MEMAI - Em quais instituiçþes vocĂŞ leciona/ lecionou? NAKASATO - JĂĄ lecionei LĂ­ngua Portuguesa em colĂŠgios particulares e LĂ­ngua Espanhola em colĂŠgios estaduais. Fui professor substituto no Curso de Letras na Universidade Estadual de MaringĂĄ. Atualmente sou professor da Universidade TecnolĂłgica Federal do ParanĂĄ, campus de Apucarana, onde ministro aulas de LĂ­ngua Portuguesa e Literatura no Curso TĂŠcnico de NĂ­vel MĂŠdio, de Comunicação Linguistica em cursos de Tecnologia e Licenciatura e Leitura e Produção Textual em curso de Engenharia.

MEMAI - Como ĂŠ o teu processo criativo? NAKASATO - As ideias surgem de todos os lugares: de uma cena que vejo na rua, de uma conversa com um amigo, de um noticiĂĄrio de televisĂŁo, de livros que leio, de lembranças. Nas caminhadas que faço, vĂŁo tomando for    Â&#x201A;y  y Quando sento em frente ao computador, jĂĄ sei sobre o que vou escrever. ?  Â&#x192;  !   $  y   preciso transformar as ideias num texto. NĂŁo

Arquivo

MEMAI - Que prĂŞmios literĂĄrios vocĂŞ jĂĄ recebeu? NAKASATO - Em 1999 fui premiado com os contos AlĂ´ e Olhos de Peri no Festival UniversitĂĄrio de Literatura, promovido pela XeÂ&#x20AC;Â   [~ "{'  premiou cinco contos, sendo dois meus. Em 2003, fui vencedor do Concurso LiterĂĄrio da "   [ ~|y  PrĂŞmio Especial ParanĂĄ, com o conto Menino na ĂĄrvore. Esse texto foi publicado com outros contos e poemas premiados no mesmo concurso.

'   ,- .  -  /,%


4

MEMAI basta ter uma histĂłria bacana para contar. Ă&#x2030; como uma piada. Ela pode ser boa, mas precisa ser bem contada para provocar o riso. Em se tratando de literatura, a escolha do narrador ĂŠ essencial. Dom Casmurro sĂł ĂŠ genial porque a histĂłria ĂŠ contada sob o ponto de vista do protagonista, e nĂŁo de um narrador em terceira pessoa. Quando comecei a escrever Nihonjin, pensei de imediato no neto do protagonista como narrador, ou seja, o avĂ´, bastante idoso, conta a sua vida ao neto, que a transforma num romance. Mas nĂŁo queria que prevalecesse o ponto de vista do avĂ´, porque, assim, o neto escreveria o que o outro dissesse. Queria um narrador mais complexo, mais verdadeiro. Como o avĂ´ se lembraria de detalhes de fatos acontecidos hĂĄ tanto tempo? Pensei, entĂŁo, num narrador com vĂĄrias fontes de informação: o prĂłprio avĂ´, um tio, livros de HistĂłria. AlĂŠm disso, a sua imaginação. O narrador de Nihonjin ĂŠ o neto, mas Hideo, o avĂ´, ĂŠ um      Â&#x192; MEMAI - VocĂŞ tem uma rotina para escrever? NAKASATO - NĂŁo tenho exatamente uma rotina para escrever, mesmo porque as minhas outras atividades nĂŁo me permitem. "   Â&#x192;     ^  de ser escritor, sou esposo, pai e professor. AlĂŠm disso, nĂŁo tenho disciplina para estabelecer uma rotina. JĂĄ li entrevistas de escritores que dizem que se levantam cedo para escrever. Eu nĂŁo consigo. Ă&#x20AC;s quintas-feiras eu acordo Ă s 06h45min porque eu tenho aula Ă s 07h30min. O Luiz Ruffato diz que encara a sua atividade de escritor realmente como  Â&#x192;[    de escrever, tambĂŠm publicar e divulgar a

A MUTAĂ&#x2021;Ă&#x192;O DE NIKKEIJIN PARA NIHONJIN Marilia Kubota

obra. Ele estĂĄ certo, eu preciso aprender a fazer tudo isso. Com disciplina. MEMAI - Como surgiu a ideia do livro e quanto tempo vocĂŞ levou para escrevĂŞ-lo? NAKASATO - A ideia de escrever um romance sobre imigração japonesa surgiu quando fazia o meu doutorado, que versa sobre per    $     Â&#x192; ^  quisa para a tese foi difĂ­cil, pois hĂĄ pouquĂ­ssimos nihonjins ou descentes na nossa literatura, o que me deixou incomodado. Defendi a minha tese em 2002. Devo ter começado a escrever o livro em 2001 ou 2002, nĂŁo me lembro direito. E demorei cerca de 4 anos para terminar. Publiquei a minha tese pela editora BlĂźcher em 2010. MEMAI  ~    Â&#x192;   de suas memĂłrias pessoais, familiares, etc, ligadas Ă  cultura japonesa? O quanto de meÂ&#x2020;  Â&#x20AC;   Â&#x192;Â&#x2021; NAKASATO - Para escrever Nihonjin, aproveitei lembranças minhas e episĂłdios que minha mĂŁe, principalmente, me contava, mas o  Â&#x192;$y Â&#x192;[     !  ! =  a minha tese em livros de HistĂłria, Antropo "     de imigração japonesa e a inserção dos japoneses e seus descendentes na realidade brasileira. A leitura desses livros (lembro-me, principalmente do livro de Tomoo Handa) me deu subsĂ­dios para a elaboração de personagens e episĂłdios para o romance. MEMAI - Alguns pormenores sobre a sua origem japonesa: se vocĂŞ ĂŠ nissei ou sansei; falante nativo de japonĂŞs ou portuguĂŞs; etc. NAKASATO"     ! 

Suzana Tamae Inokuchi Ê graduada em Relaçþes Públicas e Letras, e mestranda em Estudos Literårios na Universidade Federal do Paranå,  !  $      "(  are e Kurosawa.

mada ao trabalho da lavoura e vĂ­tima de uma paixĂŁo extraconjugal. Essa fraqueza reapa  y   " ^y primeira esposa do pai, ela assumirĂĄ a paixĂŁo por um gaijin (estrangeiro).

 ~      Â?   y Â&#x2018;   mora com a famĂ­lia em Apucarana.

&     dividida entre duas culturas â&#x20AC;&#x201C; japonĂŞs em   $  [  y Â&#x20AC;     Â&#x192; Â&#x2019; " \   Â&#x201C;<   "Â&#x2039;   ? Â&#x201D; Â&#x192; dical que nĂŁo admitia a derrota do JapĂŁo na 2ÂŞ. Guerra. Por conta dessas perdas, Hideo transformarĂĄ sua rĂ­gida personalidade.

" Â&#x201E;((    )Â&#x201A;  de Oscar Nakasato, terĂĄ uma sensação ime    Â&#x192; ^  !    dente de japoneses nĂŁo reconheceria a histĂłria que ele conta, protagonizada por Hideo Inabata ? Um imigrante japonĂŞs, ferrenho nacionalista, vem ao Brasil, com o sonho de voltar Ă  terra natal em pouco tempo. As perdas emocionais e a tensĂŁo polĂ­tica entre Â&#x2020;     Â&#x192;tam o retorno. A histĂłria de Nihonjin ĂŠ narrada pelo neto de Hideo, prestes a refazer o caminho de volta Ă  terra de seus antepassados. Antes de partir, tem uma longa conversa com o avĂ´. Este revela, em tom minimalista, suas tragĂŠdias pessoais: a perda da primeira esposa, Kimie,    & "  A questĂŁo da identidade, crucial para os descendentes de japoneses, perpassa todo o romance. O autor questiona o que representava ser japonĂŞs para o imigrante e como essa percepção foi mudando. A japonesidade ĂŠ afetada pela fraqueza de Kimie, desacostu-

eram japoneses. Durante a infância, num sĂ­tio do municĂ­pio de Floresta, onde vivi atĂŠ oito anos, conversava misturando a lĂ­ngua japonesa e a lĂ­ngua portuguesa. Nunca cha   Â&#x192;    Â&#x2C6;(Â&#x2030;Â&#x160;    Â&#x20AC; sĂľes como â&#x20AC;&#x153;itadakimasuâ&#x20AC;? ou â&#x20AC;&#x153;tadaimaâ&#x20AC;? eram comuns. E a mistura dava origem a frases Â&#x2039;Â&#x20AC;  Â&#x152; +Â&#x192;  Â&#x2030;(( (   sakakio coloca shitemo i, galinhano ovowa oishi etc. Cresci falando assim. Durante um tempo (nĂŁo sei quanto, creio que dois ou trĂŞs meses) estudei LĂ­ngua Japonesa numa escola dominical, em Floresta. Eu detestava, as aulas eram tediosas. Voltei a estudar depois que me formei em Letras, entĂŁo completei dois anos de estudo num curso que durava seis. Hoje nĂŁo me lembro de todos os hiraganas e katakanas. Quanto aos kanjis, esqueci quase todos. Na conversação, eu me â&#x20AC;&#x153;viroâ&#x20AC;? num diĂĄlogo domĂŠstico, mas me perco quando tento elaborar uma frase mais complexa. Quando ouço, por exemplo, dois tios conversando, entendo praticamente tudo, mas quando assisto a um noticiĂĄrio na NHK, entendo pouco. Gosto muito de mĂşsica japonesa, de Miyako Harumi e Murata Hideo a Tsuyoshi Nagabuchi. Ano passado li o romance â&#x20AC;&#x153;A casa das belas adormecidasâ&#x20AC;?, de Yasunari Kawabata, porque achei que estava devendo a mim mesmo ler um romance japonĂŞs. HĂĄ muito anos li â&#x20AC;&#x153;Neve de Primaveraâ&#x20AC;?, de Yukio Mishima, mas nem me lembro direito do enredo. Gostei muito do romance de Kawabata, com uma histĂłria ao mesmo tem          %

A histĂłria de Oscar Fussato Nakasato, neto de imigrantes japoneses, guarda paralelos    Â&#x2020; ? $ "     $lharam como colonos em fazendas de cafĂŠ   "Â&#x192;|    ! cer e retornar ao JapĂŁo. Desfeito o sonho de regresso, a famĂ­lia Nakasato migrou para     |y "      depois para MaringĂĄ.Oscar nasceu aĂ­, em 1963. Fez Mestrado e Doutorado em Literatura. Hoje ĂŠ professor de Literatura em Apu-

TRECHO

 ' 0 '  '    $1  2 ,%3   $ '  . $% 41$.    $ % 5 " " 6  alegria incomum em trabalhadores que lavravam terra alheia em um paĂ­s  , $%7   '   $'0  $ .   /, $ %& , $8 ',    

"6 $      $  num grande coro de vozes de homens $'%&9         .       

"    .$.. 

'    /  %


5

MEMAI PALCO

UMA REFLEXĂ&#x192;O SOBRE A VIOLĂ&#x160;NCIA COM MISHIMA  $.   .  :!7'    ; . $

  $<

   " $      e seu movimento por PatrĂ­cia Kamis

= -    .  .    $

   % Meses apĂłs o terremoto de 11 de março, o JapĂŁo leva adiante sua reconstrução. E se nĂŁo hĂĄ avanço tecnolĂłgico capaz de impedir tais embates da natureza, o melhor pode ser Â&#x192;           !   Â&#x20AC;$  ' Â&#x20AC;    Â&#x20AC; !      apĂłs ler O marinheiro que perdeu as graças do mar (Gogo no Eiko), de Yukio Mishima. A obra relata o romance da viĂşva Fusako com o marinheiro Ryuji, provocando amargas re  )$   Â&#x2022;Â&#x2013; ) ano passado o Grupo Obragem de Teatro (de Eduardo Giacomini, Olga e Alessandra NenevĂŞ, Elenize Dezgeniski e Fernando de Proença), de Curitiba, realizou um espetĂĄculo chamado Noboru, livre adaptação do romance de Mishima. Nessa peça, o grupo      Â&#x20AC;  $      lĂŞncia e intolerância com o outro, servindo-se de metĂĄforas relacionadas ao mar e seu movimento, as quais despertam a percepção da plateia para realidades diversas. O diretor Eduardo Giacomini declara que o texto abarca o tema da desesperança â&#x20AC;&#x153;para espelhar       Â&#x201A;   $ ! Â&#x192;   Â&#x2020;    "  mais que bem e mal, somos os dois e somos confusĂŁo. Acreditamos que nos deparando com os personagens de Mishima, podemos ver neles aquilo que ĂŠ mais humano em nĂłs e, assim, temos a possibilidade de repensar nossos desejos e atitudes perante o Mundo e o Outro.â&#x20AC;? No romance, Noboru participa de um gru-

â&#x20AC;&#x153;...viver ĂŠ uma louca confusĂŁo em que temos de desmontar a existĂŞncia instante a instante, atĂŠ restabelecer o caos original... â&#x20AC;? (Yukio Mishima) po de adolescentes, cujo lĂ­der, denominado â&#x20AC;&#x153;chefeâ&#x20AC;?, ocupa-se em converter a inocĂŞncia       "   paz de preencher os vazios do mundo. Cultivando a prĂĄtica da â&#x20AC;&#x153;indiferença absolutaâ&#x20AC;? e mirando um â&#x20AC;&#x153;poder real sobre a existĂŞnciaâ&#x20AC;? esse diminuto exĂŠrcito produz barbĂĄries amparado pela impunidade legal devido Ă  pouca idade. Por causa da similaridade de violĂŞncias praticadas por jovens em idade escolar, a peça da Obragem foi criada para ser apresentada exclusivamente em salas de aula ou em espaços alternativos em escolas, nĂŁo tendo sido (ainda) encenada ao pĂşblico em geral. ApĂłs cada apresentação, o grupo abria-se para dialogar com professores e alunos, buscando compartilhar as inquietaçþes do universo dos jovens. O debate nĂŁo se esgota na escola, jĂĄ que a violĂŞncia tem se banalizado. A metĂĄfora dos adultos miĂşdos que levam a reboque imensos navios cargueiros, abarrotados de contradiçþes e arrebentam             Â&#x20AC;  minĂşscula vida e das numerosas e pesadas cargas que levamos. Mais intenso o fardo

se os marinheiros desse mar evitam ou se esquecem de levantar suas âncoras, na tentativa de nĂŁo serem levados pela marĂŠ. A pequenez humana diante da imensidĂŁo da vida  =Â&#x2C6;  Â&#x160;!  !               ção de perigo. Acham que o perigo ĂŠ alguma coisa fĂ­sica, como um arranhĂŁo e um pouco de sangue em torno do que os jornais fazem um grande escândalo. Bem, isso nada tem a ver com a questĂŁo. O verdadeiro perigo estĂĄ apenas em viver. Ă&#x2030; claro, viver ĂŠ simplesmente o caos da existĂŞncia, mas mais do que isso, ĂŠ uma louca confusĂŁo na qual temos de desmontar a existĂŞncia instante a instante, atĂŠ restabelecer o caos original, e tirar força da incerteza e do medo que o caos provoca, para recriar a existĂŞncia instante a instante. Pena que essas palavras sejam vis   Â&#x201A; Â&#x201E;!      =% Contato do Grupo Obragem de Teatro: obragem@obragemteatroecia.com.br www.obragemteatroecia.com.br

PatrĂ­cia Kamis ĂŠ atriz e dramaturga, pĂłs-graduada em Teatro pela Faculdade de Artes do ParanĂĄ (FAP). Entre os seus trabalhos como atriz destacam-se as peças: â&#x20AC;&#x153;OxigĂŞnioâ&#x20AC;?, direção de Marcio Abreu; â&#x20AC;&#x153;Lendas Japonesasâ&#x20AC;?, (vencedor do TrofĂŠu Gralha Azul 2010); â&#x20AC;&#x153;Como se eu Fosse o Mundoâ&#x20AC;?, direção Roberto Alvim; entre outros. Estuda Letras-JaponĂŞs na UFPR.


6

MEMAI ARTES VISUAIS

UMA CASA DE CHĂ EM PARIS >=  ='   $  =' $   $      "(( /     ', $ $  /, por Claire Sophie Dagnan

>   ' . $  /,       "   /,"

$? , A primeira viagem de Charlotte para o JapĂŁo, em 1940, tem origem no pedido efetuado  ! Â&#x2014;(Â&#x2DC;"((Â&#x2C6;"(Â&#x160;  o chamava a amiga, trabalhou com ela no ateliĂŞ de Le Corbusier, em Paris, de 1931 a 1937. Ele a incumbiu de estudar o mercado artesanal japonĂŞs para promover uma exportação de produtos de primeira qualidade.

A abertura do Japão para o Ocidente foi acompanhada de um forte consumo de objetos artesanais japoneses no exterior. Com o tempo, o mercado se adaptou aos gostos ocidentais, criando imitaçþes ruins e vendendo produtos artesanais de pÊssima qualidade, piorando depois do terremoto de 1923, quando os materiais tiveram que ser importa-

 )  Â?  Â&#x201A;Â&#x201E;     Â&#x2122; "   Â&#x192;  pesquisa em arte industrial. Artistas ocidentais sĂŁo convidados para pensar sobre os materiais, tĂŠcnicas e estilos originalmente japoneses que permitiriam a criação de mercadorias de boa qualidade e baixo preço. Charlotte Perriand aceita o convite com co-


7

MEMAI Designer francesa que trabalhou com Le Corbusier era fascinada pelo JapĂŁo

CrÊdito: Pernette Perriand-Barsac ŠAChP

>!\     balha na concepção da agĂŞncia. Em 1956, organiza a exposição Proposta para uma sĂ­ntese das artes, Paris 1955. Le Corbusier, Fernand LĂŠger, Charlotte Perriand com a co$Â&#x192; Â&#x2014;(Â&#x2DC;"((  dia 1o de abril nas lojas Takashimaya em TĂłquio. ApĂłs a sua volta para França, cuida  Â&#x201A;  ~ Â&#x201A;  "Â&#x192;  Artes DomĂŠsticas, em 1957 e da Embaixada do JapĂŁo em 1966-1969, ambas em Paris. Outras viagens, encontros e amizades com o escultor Isamu Noguchi e o criador de moda Issey Miyake continuam fortalecendo os laços entre a Charlotte Perriand e o JapĂŁo.

=' $  @ ()AB ragem â&#x20AC;&#x201C; a França estava ocupada pelo exĂŠrcito nazista â&#x20AC;&#x201C; e agradecimento â&#x20AC;&#x201C; ela sabe a audĂĄcia que representa a escolha de uma mulher estrangeira para essa missĂŁo. No dia 15 de junho de 1940, embarca em Marselha no navio que atracarĂĄ em Kobe no dia 21 de agosto. Ela começa visitando o paĂ­s: Kyoto, Nara, o TĂ´hoku, o centro, o Hokuriku, nas costas do mar interior e nas montanhas. Cada mĂŞs, Perriand consagra trĂŞs semanas para viagens, visitas de ateliĂŞs de artesĂŁos e usinas de fabricação, e uma semana no escritĂłrio e dando conferĂŞncias. Estuda as maneiras de viver do povo, suas habitaçþes, os â&#x20AC;&#x2DC;utensĂ­liosâ&#x20AC;&#x2122; usados no cotidiano. Comparando com a vulgaridade dos artigos vendidos nos armazĂŠns, ela sente mais apelo pelos objetos populares tradicionais, usados por milĂŞnios, carregados de valores culturais do patrimĂ´nio japonĂŞs, aderindo aos objetivos  + Â&#x2C6;" $   deiras tradiçþes nĂŁo consiste em reproduzi        partir das leis perenes que as regemâ&#x20AC;&#x2122;â&#x20AC;? diz ela. A conclusĂŁo dos seus estudos ĂŠ visĂ­vel na Â&#x20AC; Â&#x192; Â&#x2C6;>Â&#x192;  "  Â&#x192;  ~Â&#x192;Â&#x160; Â&#x20AC;posta nas lojas Takashimaya de TĂłquio e Osaka em março e maio de 1941. Devido Ă  guerra, os materiais sĂŁo cada vez mais raros e Perriand cria objetos focando no uso de bambu, madeira e cerâmica. A sua partida ĂŠ precipitada em dezembro 1942, num clima de censura e intimidação. Mas seus contatos com o JapĂŁo nĂŁo param e a sua experiĂŞncia lĂĄ irriga profundamente seu trabalho. O senso da natureza, a qualidade dos materiais e das prĂĄticas artesanais, a organização de um modo de vida equilibrado sĂŁo valores comuns. Em 1953, Charlotte Perriand efetua uma segunda viaem para JapĂŁo, juntando-se ao marido, diretor da seção Ă sia da companhia aĂŠrea Air França

A FILOSOFIA DO CHĂ SEGUNDO CHARLOTTE PERRIAND O auge da sua obra arquitetĂ´nica e da sua relação com o JapĂŁo se concretiza nos anos 90. Em 1991, Hiroshi Teshigahara, cineas       Â&#x2C6;+     Â&#x160;  propĂľe Ă  Charlotte conceber uma casa de chĂĄ para a exposição da Foundation Cartier sobre o luxo. A famĂ­lia Teshigahara ĂŠ amiga desde os anos 50 da designer, começando  ">     ?( $ & )  Â&#x192; | and relĂŞ â&#x20AC;&#x153;O livro do chĂĄâ&#x20AC;? de Kazuko Okakura,     Â&#x2022;Â&#x161;Â?Â&#x2013;   Â&#x2014;( "(( { que mais a toca ĂŠ o pensamento do vazio, tĂŁo oposto Ă  visĂŁo ocidental. O vazio ĂŠ todo poderoso porque ele pode conter tudo. No vazio, sĂł o movimento se torna possĂ­vel, escreve Okakura. Perriand sonha com uma casa de chĂĄ que poderia ser descrita como â&#x20AC;&#x153;simplesâ&#x20AC;?, â&#x20AC;&#x153;efĂŞmeraâ&#x20AC;?, â&#x20AC;&#x153;puraâ&#x20AC;?. No entanto ela questiona muitas vezes a compatibilidade entre a celebração do luxo e a casa de chĂĄ. Finalmente a Foundation Cartier abandona o projeto de exposição, no contexto de crise econĂ´mica que a França estava atravessando. Hiroshi Teshigahara nĂŁo abre mĂŁo da sua ideia e dois anos depois, para o Festival ~Â&#x2014;Â&#x192;_)["~{ |    convida quatro artistas para que cada um realize sua prĂłpria casa de chĂĄ, exposta na pra_)["~{{   Â&#x192;Â&#x201A;Â&#x201E;  >^Â&#x2DC; [ "   coreana Yae Lun ChoĂŻ e a francesa Charlotte Perriand. O objetivo ĂŠ interpretar, por visĂľes culturais diversas, um elemento emblemĂĄtico e tradicional da cultura japonesa. O projeto tem uma carga simbĂłlica fortĂ­ssima para Charlotte Perriand, por ela ter 90 anos naquele momento. A concepção dura seis meses. Perriand decide rodear o espaço de cerimĂ´nia com um circulo de bambus para

extraĂ­-la do meio urbanĂ­stico e que sĂł deixasse passar o vento, nuvens, o cĂŠu e a luz de Paris. Com toda liberdade, ela dissocia       Â&#x201C;Â&#x203A;Â&#x2020; Â&#x153;       utensĂ­lios, â&#x20AC;&#x2DC;tokonomaâ&#x20AC;&#x2122;, a alcova onde estĂŁo expostos objetos de arte, e os tatami) da estrutura que abriga a casa. Estudando as yurtas afegĂŁs, ela adota o seu principio de construção. O tecido que cobre a habitação ĂŠ sustentado por estacas dispostas em raio que se juntam no centro sem obstruir o chĂŁo nem a luz do sol. O elemento arquitetĂ´nico nĂŁo ĂŠ japonĂŞs, mas, para ela, representa o a efemeridade, pela habitação de um povo nĂ´made que nĂŁo deixa rastros de sua pas  { !    ĂŠ o mesmo usado em velas de barco e windsurf, leve e com uma cor luminosa. A estrutura ĂŠ feita de bambus para homenagear     Â&#x20AC;Â&#x2020;        !   usou nas suas criaçþes de 1940. Agora que a casa estĂĄ protegida do vento e da chuva, ela reintroduz os elementos tradicionais: o chĂŁo feito de 4,5 tatami para receber cinco convidados, sobre seixos pretos e espelhos de ĂĄgua contida em copos de bambu. Outro $$  !     Â&#x201A;   atrĂĄs, o fundo de papel japonĂŞs no qual Hiroshi Teshihagara pintou o traço â&#x20AC;&#x153;a subidaâ&#x20AC;?.

Perriand relĂŞ â&#x20AC;&#x153;O livro do chĂĄâ&#x20AC;? de Okakura e o que mais a toca ĂŠ o pensamento do vazio A miyuza tambĂŠm estĂĄ incorporada. A casa y         $$  Cada convidado pode sentir a leveza da arquitetura, levitando e elevando-se, apreciar a luz brincando com a vela. NĂŁo estamos mais em Paris, e sim num teatro de luz e sombra. A casa de chĂĄ vive quinze dias em Paris, depois instalada no parque de bambus de Anduze, mas nĂŁo resiste Ă s quedas de neve de 1998, que fazem a estrutura se arreben "   Â&#x192;      MarchĂŠ, apesar de ser um lugar fechado,         Â&#x192;   |  " casa de chĂĄ combina seu estilo com tradição e pureza japonesas, elementos que ainda nutrem o imaginĂĄrio e a fascinação francesa pelo JapĂŁo. Nas horas difĂ­ceis que o paĂ­s estĂĄ passando, a casa de chĂĄ oferece um exemplo de comunhĂŁo cultural e um lugar de  Â&#x192;% O Petit Palais apresenta uma exposição sobre Charlotte Perriand : http://www.petitpalais.paris.fr/ en/expositions/charlotte-perriand Claire Sophie Dagnan ĂŠ formada em CiĂŞncias PolĂ­ticas, estudou Rrelaçþes Internacionais na _    "   |  | ^   produz um documentĂĄrio sobre identidade e o sentimento de pertencimento na visĂŁo de artistas nipo-brasileiros.


8

MEMAI KINEMA

PESADELO NUCLEAR NOS por Francisco Handa

 $ Godzila e em J L   /   $           +N%O 7  $ Nunca as telas de cinema revelaram tamanho desespero diante de uma ameaça capaz de tirar cidades inteiras do mapa. Mas se  Â&#x192;  Â&#x201A;     )  #=  tro um tanto desajeitado, de proporçþes imensas, ameaça e depois destrĂłi a cidade de TĂłquio. NĂŁo apenas uma vez, muitas. Era Godzila lutando com outros de iguais proporçþes. Em instantes, os viadutos eram destruĂ­dos, a linha do metrĂ´, os grandes elevados, prĂŠdios e a torre da rĂĄdio de TĂłquio. Os japoneses gostavam do cinema catĂĄstrofe do pĂłs-guerra, uma fantasia apenas realizada nas telas. Todas as possibilidades eram viĂĄveis para o cinema. Feitos nos estĂşdios, o carros voavam como papelĂľes, os telhados das casas viravam poeira, os prĂŠdios quebravam-se como paredes de isopor. Tudo montado para parecer verdade. E Godzila em poucos minutos transformava o cenĂĄrio em escombros. A respeito desse monstro, que os fĂŁs viam com simpatia, tinha surgido apĂłs uma explosĂŁo nuclear. O JapĂŁo, que conheceu as consequĂŞncias de uma bomba atirada em duas de suas cidades, temia a repetição daquela his#= $$Â&#x2DC;  voltada contra os homens. Para um povo japonĂŞs, nativo de uma ilha, o            y    )Â&#x192; y       "   Â&#x20AC; tir, poderĂĄ ser por via marinha. Era sempre pelo mar que Godzila vinha. AlĂŠm daquelas ilhas, existia o desconhecido.

PESADELO NUCLEAR _ Â&#x2039;   ^(Â&#x2122; * Â&#x2C6;8 Â&#x160;  =  Â&#x2C6;" Â&#x160;   = Â&#x2022;Â&#x161;Â&#x161; "  !  Â&#x201A;Â&#x201E;  nha transformado em cinema alguns de seus sonhos. Num deles, Monte Fuji em vermelho, o protagonista, o prĂłprio cineasta, depara-se com uma multidĂŁo em alvoroço. NĂŁo se sabe o motivo. De repente, ele tem diante de si o Monte Fuji. â&#x20AC;&#x153;Ah, o Fujisan acordouâ&#x20AC;?, fala. NĂŁo era bem isso, o velho vulcĂŁo continuava dormindo indiferente ao desespero dos outros. Uma multidĂŁo debatia-se sem destino. Caso fossem as lavas do vulcĂŁo seria fĂĄcil refugiar-se, mas nĂŁo desta vez, a situação era outra. DetrĂĄs do vulcĂŁo fogos de artifĂ­cio anunciavam algo novo, na verdade as labaredas formadas pela explosĂŁo de seis usinas nucleares. Numa outra cena, hĂĄ despojos por todos os lados. Coisas abandonadas, de uso comum. Nada mais existe. Restaram 5 sobreviventes: o personagem de Kurosawa,   Â&#x192;  Â?  !  

Ou serĂĄ que apenas o cinema pode falar da verdade, ainda que por meio de sonhos? EstĂŁo numa praia, pois perigo havia em ter{  Â&#x2C6;{   ! Â&#x201E;   geâ&#x20AC;?, diz a mulher. O homem corrige: â&#x20AC;&#x153;NĂŁo podem fugir da radioatividadeâ&#x20AC;?. Uma ventania sopra em direção a eles, gases coloridos,         { Â&#x2DC; 229 provoca câncer, o estrĂ´ncio 90, a leucemia e o cĂŠsio 137, mutaçþes. Parece inĂştil a tentativa do personagem em afastar aquelas manchas coloridas com seu blusĂŁo. Um sonho que causa um grande mal estar, real demais, bem diferente das alegorias de

Godzila. Quase premonitĂłrio, o sonhador tem uma projeção dos perigos da existĂŞncia das usinas nucleares. Em 1990, quando Ku *  =          tĂŞncia ou, dito de outra forma, o medo que provocava um desastre nuclear. â&#x20AC;&#x153;Disseram que as usinas eram seguras, tudo mentiraâ&#x20AC;?, diz a mulher. Assim termina esse sonho. No seguinte, O 51   =' , o protagonista encontra um ser ordinĂĄrio, vestindo farrapos, logo      [     Â&#x201C;  Â&#x201A;ponĂŞs, diabo), vive num reino estranhamente ^$Â&#x2020; Â&#x192; do meio ambiente. O oni diz que viu uma lebre com duas caras, um pĂĄssaro com um olho sĂł e peixe com pelo. Isso se dava por causa da contaminação atĂ´mica. Coloca-se em dĂşvida: nĂŁo seria o oni


9

MEMAI

FILMES JAPONESES DESENHOS DE SOBREVIVENTES DA BOMBA ATĂ&#x201D;MICA

Hidehiko Hokazaki

3 R!!

@R!7 

conseqßência de uma mutação tambÊm? [        sofrerem, devido o mau karma provocado durante sua existência, perambulam naquele mundo como errantes. Os mais fortes devoram os mais fracos, que sempre fogem desesperados para sobreviverem. Talvez nesse sonho de Kurosawa, uma direção aponta para as mazelas de uma guerra nuclear, ou de um suposto desastre. O mundo dos oni, nesse mesmo planeta, em algum vale, toda a misÊria Ê consequência tambÊm da ameaça nuclear. Não para por aqui. Hå ainda o último sonho. Neste,  4$   7 ', Kurosawa quis mostrar a capacidade de o homem vencer seus caprichos. O protagonista chega a uma aldeia recortada por um rio. Os moinhos são fontes de energia. Não existe energia

elĂŠtrica no lugar, nĂŁo precisa. â&#x20AC;&#x153;A noite ĂŠ escuraâ&#x20AC;?, diz o anciĂŁo com o qual se encontra. Tudo ĂŠ diferente na vila, que parece saĂ­da de uma fĂĄbula e lembra um paraĂ­so perdido. Apenas sonhos, como o cinema ĂŠ sonho. Kurosawa morreu em 1998. Da produção de "  Â&#x2039; ^   fez ainda em 1991 RapsĂłdia em Agosto, retomando o pesadelo da bomba atĂ´mica. Deixou sua mensagem, um sonho, como prefe{Â&#x192;    pelo menos para aqueles que sobreviveram. Ou serĂĄ que apenas o cinema pode falar da   !     Â&#x2021;% Francisco Handa  Â&#x;  &  " pela Unesp, monge do Templo Busshinji - tradição "      ~ Â&#x192; ^  < y  |Â&#x201E; "       ~Â&#x2014;  ^   Â&#x201C;"|Â&#x201D;  bro fundador do GrĂŞmio LiterĂĄrio IpĂŞ.

Yoshie Koma

Yuko Nakamura


10

MEMAI KINEMA

LITERATURA

RADIAĂ&#x2021;Ă&#x192;O NUCLEAR EM FILMES

CHUVA NEGRA

@ - .  "[

  $     { Â&#x192; Â&#x192;    Â&#x201A; ^ $$ Â&#x2DC;   &  ) (   Â&#x161;   Â&#x2022;Â&#x161;Â&#x2018;¤ =  Â&#x161;  a 166 mil Ăłbitos em Hiroshima e 60 a 80 mil em Nagasaki; mais da metade mortos no primeiro dia. Outro estudo mostra que de 1950 a 2000, 46% dos casos de leucemia e 11% dos casos de câncer foram atribuĂ­dos Ă  radiação das bombas. HĂĄ, atĂŠ, um livro que trata do tema da raÂ&#x192;     Â&#x201A; Â&#x152;&$( ~ Â&#x152;&  ) ( the Nuclear Image in Japanese Film, de 1996.

7 V. /, ?"" ?-@W  & /,. +X(( *+Z  

Anatomia do Medo

RapsĂłdia em Agosto

Divulgação

Ikimono no kiroku, de Akira Kurosawa. (1955) { Â&#x2122;)(Â&#x201A;Â&#x201C;> ÂĄ+ Â&#x201D;   lĂşrgica, aterrorizado pela ameaça radioativa, quer vender o negĂłcio e mudar para uma fazenda no Brasil. O medo ĂŠ o inĂ­cio dos infortĂşnios da personagem, que acaba perdendo a razĂŁo.

The Man Who Stole the Sun

8 (  $ "  "=      " (          Â&#x192; casar por suspeita de estar contaminada pela radiação nuclear. Para se livrar da suspeita, seus tios resolvem escrever as memĂłrias do mais tenebroso dia em que o cogumelo atĂ´mico mudou a vida dos habitantes de Hirohsima. Hachi-gatsu no Kyoshikyoku, de Akira Kurosawa (1991) Centrado na vida de Kane, uma hibakusha â&#x20AC;&#x201C; sobrevivente Ă  radiação nuclear das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Ela ĂŠ uma idosa que perdeu o marido no bombardeio de Nagasaki. Contraponto do JapĂŁo do pĂłs-guerra,          Â&#x2122;   o JapĂŁo anterior Ă  guerra, representado por Kane e por outros sobreviventes da explosĂŁo nuclear. O JapĂŁo de Kane tambĂŠm ĂŠ contraposto aos Estados Unidos, representados  ~(    Â&#x192;   Â&#x2122;  "=Â&#x201A;ÂĄ  que havia emigrado para o HavaĂ­ antes do 

>5ÂĄ  )  {(    & * Â&#x2122;=(Â&#x201C;Â&#x2022;Â&#x161;¢Â&#x161;Â&#x201D;"y +( Â&#x201C;Â&#x2122; Â&#x201A; "*Â&#x201D;       ciĂŞncias e quĂ­mica que decide construir sua prĂłpria bomba atĂ´mica. Ele rouba isĂłtopos de plutĂ´nio e fabrica duas bombas, uma verdadeira e uma falsa, com plutĂ´nio enrique            Uma de suas exigĂŞncias ĂŠ que os jogos de beisebol sejam transmitidos na Ă­ntegra, sem cortes para os comerciais, outra ĂŠ que a ban (\"  * JapĂŁo. Black Rain

^ Â&#x2020;    tor para mergulhar no horror do pĂłs-guerra. { y  "   " (  bora tenham como objetivo arranjar um casamento para a sobrinha, acabam se tornando um relato impressionante. Em tom cotidiano e sĂłbrio, gradualmente induzem o leitor a perceber a tragĂŠdia pela qual passaram mais de trĂŞs geraçþes de japoneses. Os diĂĄrios relatam o caos que se instalou nas cidades atingidas, a falta de informaçþes, de comida, medicamentos e de estrutura. No meio do caos, os sobreviventes procuram se organizar. Aos poucos se dĂŁo conta de que sua realidade sofreu uma violenta transformação.

Gen PÊs Descalços Ibuse consegue dar uma dimensão poÊtica a um holocausto. A doença, o sentimento de perda, os preconceitos e traumas permeiam este romance. A destruição de casas e as ruínas nas duas cidades são pouco em relação ao estado das vítimas. AlÊm de conviver com os mortos em estado de podridão, têm que se dar conta dos efeitos da radiação nuclear.

Hadashi no Gen, (1976) " $ yÂ&#x2DC; duzido entre 1976 e 1980. O personagem ainda rendeu duas animaçþes, em 1983 e 1986, dirigidas por Masaki Mori, e um drama para a televisĂŁo de dois episĂłdios, em 2007.

Kurosawa e outros cineastas abordaram o maior medo japonĂŞs

Â&#x2122;  "ÂĄ ? Â&#x201C;Â&#x2022;Â&#x161;ÂŁÂ&#x161;Â&#x201D; Baseado no romance homĂ´nimo de Masuji ?$ {      Â&#x2022;Â&#x161;Â&#x2018;¤  retrata uma famĂ­lia atingida pela chuva negra contaminada de radiação, nas imediaçþes  &   "=  $ Yasuko. Cinco anos mais tarde, vivem em um vilarejo com outros sobreviventes. Yasuko nĂŁo manifesta sintoma da exposição, mas suas perspectivas de casamento sĂŁo remotas, devido ao risco de que desenvolva a  Â&#x192;Â&#x201C;][\\["[)&^Â&#x201D; Suzana Tamae Inokuchi

Masuji Ibuse ĂŠ um romancista japonĂŞs nascido na cidade de Hiroshima, em 1898. Estudou na Universidade de Waseda, em TĂłquio. A partir de 1922, passou a se dedicar Ă  Â&#x192;|$      marcados por uma linguagem lĂ­rica e com humor, tendo como foco a vida de homens comuns. Principais obras: Koi (A Carpa, 1924), " Â&#x2DC; Â&#x201C;^ "  Â&#x2022;Â&#x161;Â?Â&#x161;Â&#x201D;  "= Gunki (CrĂ´nica das pequenas ondas, 1938), Ekimae Ryokan (O Hotel da Estação, 1956) e ~Â&#x2DC;"Â&#x201A;Â&#x201C;{^!y Â&#x2022;Â&#x161;¤Â&#x161;Â&#x201D;+reu em TĂłquio, em 1993. (Marilia Kubota)


11

MEMAI VIDA

O SENSO DE UNIDADE NA COMUNIDADE NIKKEI         . $ - ' /   $    



6       $6  . $'  por Mylle Silva

NĂŁo tenho ascendĂŞncia japonesa, mas com o passar dos anos minha convivĂŞncia com essa cultura se tornou muito forte. A todos os lugares que eu vou, estou envolta por pessoas e preceitos japoneses, seja em casa ou no trabalho. Quando comecei a conviver com os nikkeis, acabei me deparando com algo fantĂĄstico: o senso de unidade. Cada vez que me olho no espelho, me vejo como uma pessoa extremamente egoĂ­sta. Quando estou cansada, triste ou com preguiça ĂŠ sempre difĂ­cil eu me mexer para ajudar o prĂłximo. O grupo de japoneses com os quais eu convivo sempre se ajuda e me surpreende. A primeira vez que percebi isso foi quando,       Â&#x192;       e começam a empilhar as cadeiras de plĂĄstico que estavam usando. Todos fazem isso, tanto os mais novos quanto os mais velhos. Juntam as cadeiras num canto, arrumam seus lixos, papĂŠis, louças num lugar, papĂŠis em outro â&#x20AC;&#x201C; uma organização de dar inveja. Eu, por outro lado, sempre tive receio de fa-

zer coisas erradas na frente dos outros. Eu tinha receio, quando pequena, de quebrar as louças que estava enxugando, de ajudar a minha mĂŁe sem ser chamada com medo de incomodar. O irresistĂ­vel medo de errar. Diante de uma situação em que todos se ajudam, o que eu deveria fazer? JĂĄ tem tanta gente fazendo algo, serĂĄ que farei a diferença? Parece terrĂ­vel, mas atĂŠ hoje eu me pergunto essas coisas. Com o passar do tempo percebi que a ação conjunta nĂŁo se limitava Ă s cadeiras. Notei que as pessoas se ajudavam sempre, a todo instante. Pequenos gestos sem palavras, mas com açþes diretas, como ajudar a carregar coisas, oferecer comida, emprestar dinheiro pra completar a quantia que se precisa, cuidar de algo enquanto o outro vai ao banheiro, dar carona, emprestar guarda-chuva, dizer obrigado para as pequenas coisas. NĂŁo estou dizendo que os japoneses sĂŁo perfeitos, que todos farĂŁo as mesmas coi             todos sĂŁo diferentes. O que eu quero dizer ĂŠ que boa parte ĂŠ assim, eles tĂŞm o senso de unidade, de ajuda mĂştua, de grupo. Foi esse mesmo senso de grupo que fez com que eles se fechassem em comunidades por tanto tempo. Parte por preconceito, parte   Â&#x192;      !   Â&#x201E; do diferente atrapalhasse um pouco o senso de unidade. Apesar de parecer, nĂŁo ĂŠ apenas a boa educação que os leva a ser assim, mas ĂŠ um elemento da cultura japonesa, ĂŠ ensinado desde sempre a eles. Talvez com o tempo isso se perca entre os descendentes que estĂŁo no Brasil, mas serĂĄ bem mais difĂ­cil que se perca no paĂ­s de origem, jĂĄ que em casa e na escola se aprende o senso de unidade. Claro que o senso de unidade tem suas desvantagens. Uma delas para nĂłs ĂŠ quase inconcebĂ­vel: nĂŁo ĂŠ o fulano ou beltrano quem se destaca, mas o grupo. Tudo ĂŠ feito em prol do grupo e a sua satisfação como integrante daquele grupo ĂŠ milhĂľes de vezes maior do que a sua satisfação individual. O indivĂ­duo, no JapĂŁo â&#x20AC;&#x201C; mesmo hoje em dia â&#x20AC;&#x201C; nĂŁo tem direitos como os de se frustrar, de se sentir cansado, de se destacar, etc. Por isso lĂĄ acontecem tantos suicĂ­dios e tantas pessoas buscam alternativas para desabafar, como o erotismo exacerbado â&#x20AC;&#x201C; e muitas vezes estranho aos nossos olhos â&#x20AC;&#x201C; que vemos nos ani-

NĂŁo ĂŠ apenas a boa educação que os leva a ser assim, mas um elemento da cultura japonesa mĂŞs e mangĂĄs. Enquanto isso eu, como espectadora e eterna aprendiz da cultura japonesa, tento lidar    Â&#x192;  nossa cultura, como o de ajudar sempre o grupo e nĂŁo se acomodar diante da quantidade de pessoas trabalhando. Tentar me esforçar um pouco mais mesmo que o cenĂĄrio nĂŁo pareça bom, para nunca me esquecer que o que importa nĂŁo ĂŠ o meu agora, mas um ideal maior que pode demorar muito tempo para ser realizado, mas que vĂĄrias pessoas contribuĂ­ram para que acontecesse. Tentar transformar o senso de unidade em respeito e consideração aos que amamos e ajudĂĄ-los sempre que for possĂ­vel. Mylle Silva  Â&#x201A;     " > e estudante de Letras - JaponĂŞs da Universidade Federal do ParanĂĄ

?  Â&#x152;"'( )(*

    todos se levantam e começam a empilhar as cadeiras que estavam usando


12

MEMAI PERFIL

O LENDĂ RIO MIYAMOTO MUSASHI  '0  #$$     

 .   30 ?   por Yuri SĂłcrates Saleh Hichmeh

Miyamoto Musashi nasceu em 1584, na proÂ&#x2020; &        " + )  Â&#x2020; arquipĂŠlago japonĂŞs encontrava-se dividido entre os diversos daimyo, que detinham o poder militar e polĂ­tico sobre seus territĂłrios, contexto que tornava a guerra uma rotina prolongada atravĂŠs das geraçþes. Na ĂŠpoca do nascimento de Musashi, os portugueses jĂĄ haviam chegado ao arquipĂŠlago japonĂŞs hĂĄ aproximadamente 40 anos, introduzido as armas de fogo como novos artefatos bĂŠlicos, o que trouxe severas mudanças Ă  arte da guerra japonesa do sĂŠculo XVI. Em sua obra #"Â&#x201C;{< ~^ Â&#x201D; +sashi descreve sua criação e ensinamentos, contando que: \5  '   "<

  "    "      '  -  %7$     '  6             $  ]'  >  J'%>6  '.$     '   @  ' >!R  %>   " 9  $   '         , sendo nunca derrotado em nenhum

 W%^_ Esse trecho revela o abismo existente entre a realidade do herói e a que vivemos, uma vez que, nesta Êpoca, desde cedo, homens eram treinados para a arte da guerra, sendo preparados para o cenårio belicoso em !     >   " )  te. Percebe-se a inclinação de Musashi em apresentar-se como estrategista, demonstrando que a própria guerra não exigia dos soldados apenas o controle sobre as armas, mas, especialmente, sobre emoçþes e pensamentos. A obra de Musashi Ê lida ainda hoje como            bÊm como guia para o sucesso empresarial. Não foi o Livro dos Cinco AnÊis que tornou Musashi um herói japonês, mas sua famosa tÊcnica de luta baseada no uso de duas espadas. O tradicionalismo Ê frequentemente relacionado aos japoneses e, na arte da guerra, esta característica foi marcante. Os guerreiros eram treinados desde cedo conforme ensinamentos antigos com sutis

A obra de Musashi ĂŠ lida ainda hoje como manual de





como guia para o sucesso ÂŚ     rias em quadrinhos, jogos eletrĂ´nicos e livros apresentando, como protagonista, o lendĂĄrio samurai Miyamoto Musashi. Muitas vezes, duvida-se de sua existĂŞncia histĂłrica, uma vez que a indĂşstria cultural de hoje o retrata com uma riqueza de habilidades e dominando tĂŠcnicas de espada, bem como enorme sabedoria, quase sobre-humanas. A importância de Musashi no cenĂĄrio histĂłrico e cultural do JapĂŁo ĂŠ indiscutĂ­vel, Ă­dolo abraçado como modelo exemplar de guerreiro samurai, viveu durante um dos mais conturbados   & Â&#x2014; Â&#x152;" (-Jidai, ou Estados em Guerra.

>  $'  7R 7 '7@! '  !


13

MEMAI aprimoramentos tÊcnicos. Com a entrada das armas de fogo, atravÊs dos portugueses, não apenas muitos soldados aderiram, temporariamente, à nova tecnologia de guerra, como tambÊm as armaduras deveriam se tornar mais rígidas, espessas e pesadas, na tentativa de impedir a penetração das balas. Musashi, assim como os demais samurais, manteve-se adepto da espada, dedicando-se ao aprimoramento de tÊcnicas tradicionais e ao desenvolvimento de novas tÊcnicas, como o uso de duas espadas simultaneamente, na luta contra mais de um adversårio.

os confrontos, o herĂłi japonĂŞs ĂŠ considerado um lutador invicto, tendo participado de mais de sessenta duelos. Especula-se que sua morte, em 1645, ocorreu por doença. Como herança, legou a seu mais prĂłximo discĂ­pulo os manuscritos de #  "    Â&#x201A;Â&#x201E;     que tĂŠcnicas de espada, um nome heroico, reverenciado ainda hoje por seus ensina        HistĂłrias e ensinamentos de Musashi trans      Â&#x201A;Â&#x201E;  " $    romances produzidos sobre ele foram tradu-

zidos em diversos idiomas. Ă&#x2030; o herĂłi de pelo      =      !    retratar a histĂłria do guerreiro e seus ensinamentos. As referĂŞncias a ele sĂŁo constantes em desenhos japoneses como Ninja Resurrection, " ~  8 8 &(       Â&#x201A;  Â&#x2020;  "rai Warriors. Miyamoto Musashi representa um dos Ă­cones do passado mais lembrados (se nĂŁo o mais lembrado) da histĂłria japonesa em se  Â&#x192; % 8 "  "  &     (UFPR), professor de HistĂłria e consultor empresarial de GestĂŁo da Qualidade. Ă&#x2030; um dos co-autores da coletânea de ensaios O TĂşnel do Tempo (JuruĂĄ, 2010). §+_"^"&? +5#">(5 Â&#x2022;Â&#x161; Â&#x2013; >Â&#x192; 8" 

? Â&#x192;Â&#x152;"Â&#x2122;Â&#x201C;***   Â&#x201D;

A atuação de Musashi como guerreiro no cenĂĄrio em que viveu foi decisiva para a HistĂłria do JapĂŁo: participou das famosas batalhas   " ( Â&#x201C;Â&#x2022; Â&#x201D;    { ( Â&#x201C;Â&#x2022; Â&#x2022;Â&#x2018;Â&#x201D; Em ambas Musashi lutou contra o clĂŁ Tokugawa. Apesar da derrota da famĂ­lia Toyotomi, pela qual Musashi lutou, em ambos

A obra e os romances produzidos sobre Musashi foram traduzidos em diversos idiomas

Miyamoto Musashi

Seja um Memaijin, assine o Jornal Memai Sim, aceito assinar o Jornal Memai por um ano - quatro ediçþes - R$ 25,00 (vinte e cinco reais) a ser depositado na Conta de Marilia Kubota - Caixa Econômica Federal - Ag. 370 - Conta corrente 9357-3.

Nome:_________________________________________________________________________________________________________ Endereço:______________________________________________________________________________________nÂş______________ Complemento _______________Bairro_________________Cidade:____________________________________Estado____ CEP.: _________________________________________________________________________________________________ Fone: (___) _____________________email.: _________________________________________________________________ Assinatura:________________________________________________________________________________________________ Envie esse cupom para o Jornal Memai - Rua Mateus Leme, 314 â&#x20AC;&#x201C; Apto. 301. CEP: 80510-190. Curitiba/PR, ou para o e-mail: contato@jornalmemai.com.br, juntamente com o comprovante de depĂłsito.


14

MEMAI HAICAI

WABI SABI, WASABI, WARABI

Ilustraçþes: Lúcia Hiratsuka

5$' .'    $" -             

Ă&#x20AC; primeira vista, o haicai, constituĂ­do de apenas dezessete sĂ­labas ou menos, divididas em trĂŞs versos, parece nĂŁo dizer nada. Tendo como seu elemento essencial o kigo, palavra que aponta as peculiaridades de cada momento das estaçþes do ano, possibilita ao poeta descrever o momento, tal qual captação da imagem como uma câmera fotogrĂĄ

dido, atualmente o haicai tem seguidores no mundo inteiro.

Com poucas palavras, o haicaĂ­sta tenta reproduzir o que vĂŞ Ă  sua frente, sem interferir com seus conceitos ou preconceitos (no sentido de ideia prĂŠ-concebida).O espĂ­rito silencioso do povo japonĂŞs, observador por natureza, vĂŞ, grava e reproduz o que capta em poucas palavras. Ă&#x2030; o momento de exteriorização do espĂ­rito zen, a simplicidade ĂŠ !    

BRASIL

Como usa poucas palavras, a percepção não se perde no tempo. A ilustração chamada sashi-e que acompanha o poema complementa a informação. Fåcil de ser compreen-

Em espanhol, o haicai tomou peso com a traÂ&#x192; "   {(  + Â  Â&#x2DC;  por Octavio Paz. Por outro lado, o conceito do zen, essĂŞncia da vida japonesa, que busca a paz interior, contida no poema, tambĂŠm contribuiu para sua difusĂŁo pelo mundo.

O haicai em lĂ­ngua portuguesa foi introduzido no Brasil pelo diplomata Oliveira Lima, em 1903, cinco anos antes da chegada dos imigrantes. O novo estilo foi incorporado pela    y $     vĂĄrios escritores que conheciam sĂł os poe        $Â&#x201A;  " poetas como Oldegar Franco Vieira, Afrânio | Â&#x20AC;   !    Â&#x2020;    teriores e outros escritores. Com o tempo, o    Â&#x201E;         renovados, adquirindo nova identidade com

elementos brasileiros. Haicai brasileiro, naturalizado, nos dias de hoje jĂĄ se permite uso de palavras bem brasileiras como erva de "Â&#x192;Â&#x2014;Â&#x192; $     $ Atualmente grupos e associaçþes se reĂşnem para compor e apreciar o haicai, tanto em lĂ­ngua portuguesa como em japonĂŞs. Associaçþes, como GrĂŞmio Haicai IpĂŞ e Associação dos Haicaistas Brasileiros tĂŞm efetu    Â&#x192; Â&#x20AC;    y$     Â&#x2019;  diçþes climĂĄticas brasileiras para elaborar o haicai, mostrando integração dos imigrantes japoneses Ă  terra brasileira. Ou ainda, uma apropriação do Brasil como sua segunda terra natal, se nĂŁo ĂŠ de nascimento, como renascimento do espĂ­rito nipo-brasileiro. Tomoko Gaudioso ĂŠ Coordenadora do NĂşcleo de Estudos Japoneses - Instituto de Letras da UFR#"  ~   +    ?Â&#x192;  ~_'\#"


15

MEMAI

CONCEITOS ESTĂ&#x2030;TICOS DO HAICAI

A poesia clĂĄssica japonesa, cujo primeiro registro ĂŠ a antologia Manyoshu, ou â&#x20AC;&#x153;coletânea de dez mil folhasâ&#x20AC;?, publicada no sĂŠculo VIII,   Â&#x2020;& Â&#x201C;¢Â&#x161;Â&#x2018;Â&#x2022;Â&#x2022;Â&#x161;Â?Â&#x201D;  ciou o processo criativo de autores brasileiros desde o inĂ­cio do sĂŠculo XX. Representação direta do mundo dos fenĂ´menos, em linguagem substantiva e dicção coloquial, ainda que o inusitado, a ironia, a sutileza e a prĂłpria estrutura da lĂ­ngua japonesa criem sensaçþes de estranheza e imprevisto, como no conhecido poema de BashĂ´: â&#x20AC;&#x153;velha lagoa / o sapo salta / o som da ĂĄguaâ&#x20AC;?. A interferĂŞncia criativa do acaso na elaboração da obra de arte e a ação intuitiva do artista sĂŁo outros elementos valorizados na arte japonesa, porque remetem Ă  simplicidade, Ă  espontaneidade, Ă  naturalidade, rompendo com as limitaçþes da lĂłgica rotineira e das convençþes formais. Um mestre, no sentido japonĂŞs da palavra, nĂŁo ĂŠ aquele que maneja com habilidade as tĂŠcnicas de composição poĂŠtica, de pintura Ă  nanquim ou de luta com a espada, mas sim aquele que, tendo assimilado essas tĂŠcnicas, superou o mero domĂ­nio formal, atingindo shado, a arte sem arte, ou criação natural e sem artifĂ­cios, que corresponde ao ideal zen-budista de desapego e volta Ă  natureza original da mente, que ĂŠ o estado de vacuidade, ou sunyata, a harmonia que transcende todas as oposiçþes entre sujeito e objeto, o interno e o externo, o efĂŞmero e o eterno. A criação artĂ­stica, nesse contexto cultural, nĂŁo ĂŠ vista como mera representação da natureza ou de conceitos ĂŠticos e metafĂ­sicos, mas como modo de conduta, ascese, prĂĄtica para iluminação espiritual. _ Â&#x2020;        japonesa ĂŠ o makoto, que pode ser traduzido â&#x20AC;&#x153;palavra verdadeiraâ&#x20AC;?, â&#x20AC;&#x153;essĂŞnciaâ&#x20AC;?, â&#x20AC;&#x153;since Â&#x160; Â&#x2C6;  Â&#x160; Â&#x2C6; Â&#x192;Â&#x160; Â&#x2C6;  Â&#x160;  â&#x20AC;&#x153;honestidadeâ&#x20AC;? ou â&#x20AC;&#x153;coraçãoâ&#x20AC;?. Esse princĂ­pio diz respeito a uma atitude interior, e ao mesmo tempo a um princĂ­pio cĂłsmico. Ă&#x2030; a lei suprema do universo, segundo o tratado Chuang-Yung, a essĂŞncia mais profunda do homem e do cosmo. Um poema tem makoto se ele tem sinceridade, se vem do coração, e nĂŁo ĂŠ apenas um artifĂ­cio ou ornamento. Outro princĂ­pio importante ĂŠ yugen, que sigÂ&#x2C6; Â&#x160; Â&#x2C6;  Â&#x160;{    !    cam, respectivamente, mistĂŠrio e obscurida " Â&#x;8 Â&#x2122;  Â&#x2C6;5      Â&#x201E;  (...) â&#x20AC;&#x153;Os fatores primordiais que constituem o yugen sĂŁo a beleza e a elegância, aliadas Ă   ¨  Â&#x2020;   Â&#x160; Â&#x201C;Â&#x201D;Â&#x2C6;"Â&#x192;   Â&#x20AC;   5  beleza ideal, sublime, com uma aura de mistĂŠrioâ&#x20AC;?.

Um haicai tem yugen se ele consegue enfocar o tema de modo raro, brilhante, mas com sutileza, leveza, sem ostentação ou vulgaridade. Assim, por exemplo, neste poema de   Â&#x2DC;Â&#x152; Â&#x2C6;     ÂŤ  Â&#x201A;  !  Â&#x192; ÂŤ   Â&#x160;Â&#x201C;<[+?)"Â&#x2122;? Â&#x2022;Â&#x161;ÂŁÂ&#x2013;Â&#x152;Â&#x2022;Â&#x2018;Â&#x201D;{ poema se refere ao costume japonĂŞs de co       Â&#x201E;      dos, no dia comemorativo dos mortos; num   Â&#x192; Â&#x2019;   Â&#x2DC;        y    y  Ushin refere-se ao poema que consegue expressar uma emoção poĂŠtica profundamente sentida. O ideograma de ushin ĂŠ formado por dois kanjis que se traduzem por â&#x20AC;&#x153;ter coraçãoâ&#x20AC;? (FRANCHETTI, 1990: 20). Esse conceito, a princĂ­pio, denominava um estilo poĂŠtico em que as qualidades predominantes eram a gentileza e a elegância; depois, passou a designar o poema que estĂĄ repleto de emoção, como neste haicai de Buson, tambĂŠm traduzido por Leminski: â&#x20AC;&#x153;outono a tarde cai / penso apenas / em minha mĂŁe e meu paiâ&#x20AC;?. Â&#x201C;<[+?)"Â&#x2122;? Â&#x2022;Â&#x161;ÂŁÂ&#x2013;Â&#x152;Â&#x161;Â&#x2013;Â&#x201D; JĂĄ mushin Â&#x2C6;$  =      intuitivaâ&#x20AC;?, nĂŁo redutĂ­vel Ă  explicação ou anĂĄlise. Mushin, nesse caso, nomeia um estĂĄgio de desenvolvimento espiritual em que vige a pura intuição e que sĂł encontra paralelo na  Â&#x192;           sim e do nĂŁo, na iluminação budista. (FRANCHETTI, 1990: 21). |        essenciais Ă  arte japonesa: sabi e wabi. Conforme Franchetti, sabi â&#x20AC;&#x153;se aplica a poemas caracterizados pelo clima de solidĂŁo e de tranquilidade: um texto tem sabi quando mostra a calma, a resignada solidĂŁo do homem no meio da beleza brilhante, da gran-

LANĂ&#x2021;AMENTO EDIFĂ?CIO

BRIGADEIRO TOWERS Rua Brigadeiro Franco, 2190, entre Av. Visc.Guarapuava e Dr. Pedrosa, ao lado do "~_\?>? ^ Plantão no local Tel.: 3232-6894

IMOBILIĂ RIA PANAMERICANA Rua Tibagi ,285 CURITIBA Creci 940J (41) 3233-6225

deza do universoâ&#x20AC;? (idem). Como ilustração a esse conceito, podemos citar um poema de Issa, cheio de recolhimento e interiorização: â&#x20AC;&#x153;Em solidĂŁo, / como a minha comida / e sopra o vento de outonoâ&#x20AC;? (idem). Wabi tambĂŠm conota solidĂŁo, mas desta vez com referĂŞncia Ă  vida do eremita, do renunciante. â&#x20AC;&#x153;Designa um calmo saboreio dos aspectos agradĂĄveis da pobreza, do despojamento que liberta o espĂ­rito dos desejos que o prendem ao mundo. Ă&#x2030; wabi a arte que, com o mĂ­nimo de elementos,      !   lize o momento de integração entre o homem e o que o rodeiaâ&#x20AC;? (idem). Ă&#x2030; a perfeição do imperfeito, a beleza do assimĂŠtrico, humilde, irregular, que corresponde Ă  visĂŁo budista da realidade como algo efĂŞmero e mutĂĄvel. Um exemplo de wabi ĂŠ o conhecido jardim de pedra e areia de um templo em Kyoto, cujo despojamento recorda o princĂ­pio de economia formal de artistas do sĂŠculo XX, como Mondrian. Outro exemplo de wabi ĂŠ a histĂłria tradicional que conta um episĂłdio do mestre zen Riyoki: convidado por um nobre poderoso a mostrar sua perĂ­cia na arte dos arranjos  \5(  $y           $  ĂĄgua, sem os apetrechos necessĂĄrios para fazer o arranjo. Em poucos minutos, Riyoki cortou as pĂŠtalas e as dispĂ´s de maneira harmĂ´nica na ĂĄgua da bacia, com elegância e beleza. Um poema que expressa com per Â&#x192; Â&#x2020; *$   "ki, traduzido por MaurĂ­cio Arruda Mendonça: Â&#x2C6;) ÂŤ$ÂŤ   desconhecidoâ&#x20AC;? (MENDONĂ&#x2021;A, 1999: 116). Claudio Alexandre de Barros Teixeira (Claudio Daniel) ĂŠ doutrando em Literatura Portuguesa  _   [  "Â&#x192;|


16

MEMAI

HAICAI DE IMIGRANTES č&#x2030;˛ă &#x201A;ă &#x203A;ă &#x;ćŻ?㠎形čŚ&#x2039;ă Žă&#x201A;Ťă&#x201A;śă&#x192;&#x192;ă&#x201A;łç?&#x20AC;

č&#x201D;&#x201C;ă&#x201A;ľă&#x192;łă&#x201A;¸ă&#x192;§ă&#x192;łé &#x17D;ç&#x2013;&#x17D; ă Žć?&#x2018;ă&#x20AC;&#x2026;ă &#x160;ă &#x2020;ă &#x152;ĺŚ&#x201A;

ă&#x192;&#x2013;ă&#x192;Šă&#x201A;¸ă&#x192;Ťă Žé&#x203A;&#x203A;ă&#x201A;&#x201A;飞㠣㠌é&#x203A;&#x203A;ă žă ¤ă&#x201A;&#x160;

Visto o casaco de cores esmaecidas W $  ,

> ],?, envolve as vilas W $

   %  $     / a boneca brasileira

棎ç&#x201D;° é&#x2C6;´ćą&#x;ÂŤ"= +

é˝&#x2039;č&#x2014;¤ ĺ&#x2039;?ĺ&#x2C6;ŠÂŤ""

ć?&#x2018;岥㠞ă &#x2022;ć ľ / Masae Muraoka

ć&#x2C6;¸çą?ç°żă ŻçĽ&#x2013;ĺ&#x203A;˝äş&#x152;㠤㠎渥ă&#x201A;&#x160;鳼 Com os cadastros de duas nacionalidades      0 ç&#x;˘ç&#x201D;° ĺł° / Mine Yada

ĺ˘&#x201C;ĺ?&#x201A;ă&#x201A;&#x160;ĺ&#x2026;&#x2C6;çĽ&#x2013;ă Ťç&#x;Ľ(ă&#x201A;&#x2030;ă &#x2122;ç&#x2022;°äşşĺŚť Visito o tĂşmulo mostro aos antepassados a esposa brasileira 大ć?&#x2018;â&#x20AC;&#x192;ĺ?&#x2014;é&#x20AC;˛ / Nanshin Oomura

Os poemas acima estão incluídos no livro: Cem anos de haicai no Brasil. Curitiba: Associação dos Haicaistas Brasileiros, 2008.

OS HAICAIS E A EXPERIĂ&#x160;NCIA PORTUGUESA O livro De Frente para o Mar â&#x20AC;&#x201C; poesia haiku contemporânea, organizado pelo professor universitĂĄrio David Rodrigues, traz a produção de dez haicaĂ­stas portugueses. A obra ĂŠ um lançamento do selo Palimage, de Coimbra, patrocinada pela Associação de Amiza  |Â&#x2014;Â&#x192; >5  +=  | co, e pode ser adquirida pelo endereço:

As ondas do mar  '  9  ,0x Casimiro de Brito

Na cumieira do telhado â&#x20AC;&#x201C; uma gaivota atenta ao temporal LucĂ­lia Saraiva

chove â&#x20AC;&#x201C;

  , pegadas na areia Lecio Ferreira

>  ].8   $ . / 

   % Yvete Centeno

LLL% $ %f$%'2$jAB >$ 8 .$ das rainhas do mar destronadas Albano Martins

Vista do mar A terra ,$#.% Liberto Cruz

Monica Martinez Ê jornalista, autora do blog Espaço do Haicai. E-mail: monicamartinezhaicai@gmail.com.


Jornal Memai 07  

MEMAI Jornal de Letras e Artes Japonesas Edição 07

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you