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PRIMEIROS PASSOS Os cabelos brancos, o andar lento e a voz embargada denunciam a idade. Aquele senhor já viveu muitas histórias em sua longa vida. No princípio, a memória dá sinais de que vai falhar, mas basta um empurrãozinho para que a conversa passe a fluir perfeitamente. E aí vêm datas, nomes, apelidos e muitas, muitas lembranças. Seu Carlos Pereira dos Santos, de 82 anos, já não é mais aquele jogador viril de futebol que outrora foi, mas em suas memórias, o esporte bretão ainda continua vivo. E para ele, futebol tem outro sinônimo: Estrela do Mar Esporte Clube. Foi no terreno que havia no Grupo Escolar Santo Antônio, localizado na atual Rua Prefeito Osvaldo Pessoa, que Carrinho, como Carlos Pereira é mais conhecido, começou a dar seus primeiros chutes na bola. Foi justamente neste local, que ficava aos fundos da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, que nasceria o Estrela do Mar Esporte Clube, time que marcou a vida de muitos jovens no bairro de Jaguaribe, na cidade de João Pessoa (PB), e que, dentre outras conquistas, conseguiu o título de campeão paraibano de futebol em 1959. A época era no fim da década de 1940, começo dos anos 1950. O número de crianças e jovens na Paróquia Nossa Senhora do Rosário era cada vez maior, tanto nas Cruzadas (composta por meninos que ajudavam nas atividades da igreja, além de se reunirem para assistirem palestras e ensinamentos relativos à fé católica), quanto na Congregação Mariana. E é exatamente nesta época que aparece uma figura central que viria a ser o principal responsável pela existência do Estrela do Mar: o alemão, frei Albino Klein.

O América era um dos times que disputavam o Campeonato Interno das Cruzadas

Vendo o grande número de crianças e jovens que frequentavam a igreja, frei Albino teve a ideia de construir um campo de futebol nos fundos da igreja do Rosário, onde ficava o grupo escolar Santo Antônio, para dar uma opção de lazer para a garotada. A princípio, o campinho serviria apenas para que a molecada jogasse futebol de vez em quando. Mas, com o passar do tempo, o número de crianças e jovens foi aumentando tanto, que frei Albino decidiu criar o Campeonato Interno das Cruzadas. Segundo o livro Tributo a um desportista, de José Taurino da Silva, o primeiro ano da competição contou com quatro equipes: América, Nacional, Sport e Náutico, tendo o Sport como o primeiro campeão interno das Cruzadas. O time também viria a vencer no ano seguinte. Um dos futuros fundadores do que viria a ser o Estrela do Mar, Antenor Pereira, mais conhecido como Izinho, que hoje está com 78 anos, lembrase dos primeiros momentos do que viria a ser o clube de seu coração.

Os primeiros jogadores do Estrela surgiram nos Campeonatos Internos das Cruzadas

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Eu comecei a frequentar a igreja em 1948, após a guerra. Então quando chegamos lá, eu e outros meninos fomos convidados para fazer a primeira comunhão. E para fazer a primeira comunhão, tinha que frequentar as Cruzadas. As Cruzadas eram uma associação religiosa de criança, hoje o pessoal chama de ensino bíblico, para preparar a criança para a primeira comunhão. Lá tinha um lugar chamado Grupo Santo Antônio e tinha um pátio bem grande para as crianças brincarem no recreio. Depois de um tempo foi feito um


campo, campo esse que deu origem ao Estrela do Mar. De repente, o padre disse que estava precisando de coroinha, e eu disse que queria ser. Eu ia assistir às aulas no sábado e quando terminava, a gente ficava brincando, chutando a bola, coisa de criança mesmo, eu tinha uns 12 anos. E em 1950 foi quando começou a brincadeira. Aí foi quando o alemão Frei Albino começou a ver aqueles meninos e decidiu fazer um campinho nesse terreno que havia no Grupo Santo Antônio. Como ele era marceneiro, conseguiu tudo, fez várias coisas, deu a bola e ficava só olhando os meninos jogarem. De repente, o negócio começou a ficar sério, tão sério que já tinha mais de um time, com camisa e tudo, que ele mesmo dava. Foi quando ele começou a fazer um campeonato interno entre esses meninos. Eu jogava no América, junto com outros garotos”, relembrou. Com o passar do tempo, o campeonato foi ficando cada vez mais disputado e com um número de competidores cada vez maior. Ao mesmo passo, promissores jogadores iam se destacando e chamando a atenção de equipes profissionais do futebol paraibano e também já não tinham tanto interesse em enfrentar sempre os mesmos adversários. A rotina estava ficando chata. Aqueles jovens e meninos queriam novos desafios e enfrentar novos adversários. Foi então que em 06 de maio de 1953, nascia o Estrela do Mar Esporte Clube. Izinho (irmão de Carrinho), conta que naquele dia, após uma reunião dos congregados marianos, alguns rapazes que disputavam os Campeonatos Internos da Cruzada e alguns congregados mais velhos decidiram se reunir e desta conversa surgiu o Estrela do Mar. Izinho lembra que, além dele, estavam nesta reunião, Pedro Gomes da Silva (que viria a ser o 1º secretário do clube), Lucemar Serrano Navarro (que se tornaria o primeiro presidente do Estrela), Severino Holanda Barbosa, o “Viu” (que viria a ser o primeiro treinador do time), João Batista Cruz (primeiro tesoureiro) e Carlos Pereira, o “Carrinho”, que além de jogador, também foi fundador, e mais outros rapazes que Izinho diz não recordar os nomes. Ao todo, 36 pessoas estavam nesta reunião que sacramentaria a fundação do Estrela. Eram os primeiros 36 sócios de um clube que ajudou a construir a identidade do bairro de Jaguaribe.

A ideia de transformar aqueles times do Campeonato Interno das Cruzadas em apenas um único clube já estava consolidada, mas ainda faltavam duas coisas importantes: o nome e as cores do clube. De acordo com Emilson Ponce Leon Ribeiro, em seu livro Retratos de Jaguaribe: Um passeio histórico de 1940 a 1970, foi um jovem de apelido Báu, que sugeriu o nome do clube. Já os irmãos Izinho e Carrinho, que estavam na reunião de onde surgiu o clube, dizem não lembrar quem foi que deu a ideia do nome. Mas se por um lado, a identidade do autor é dúbia, por outro, a inspiração é bem clara: o nome Estrela do Mar Esporte Clube foi inspirado na revista mariana Estrela do Mar, fundada no Rio de Janeiro em 01/07/1909. Escolhido o nome, as cores foram bem mais fáceis. E foi o azul e branco que mais agradou a todos. Alguns dizem que é por conta do véu da Virgem Maria, outros dizem que também é inspirado na revista carioca homônima ao clube. O fato é que tanto o nome, quanto as cores, permaneceram inalterados durante toda a

Revista que inspirou o nome do Estrela do Mar

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vida do simpático clube da Rua 24 de Maio, hoje Prefeito Osvaldo Pessoa. Apesar da fundação em 1953, o estatuto do clube só veio a ser divulgado um pouco mais de quatro anos depois, em 04 de setembro de 1957, no Jornal A União. Dentre vários artigos e parágrafos, alguns se destacam, como o Art. 2º do Capítulo I, onde consta que “O Clube terá por fins, promover a cultura física e moral, a prática dos desportos e a realização de outras diversões de caráter social e Cultural”. Uma marca que ficou bem clara durante toda existência do Estrela do Mar Esporte Clube, foi sua ligação direta com a Igreja Católica. Não é à toa que o clube foi formado por congregados marianos em uma reunião na Igreja do Rosário. E este fato é lembrado em todas as conversas com quem fez parte do quadro do Estrela. É objeto comum na fala dos ex-frequentadores do clube, que “dali só saiu gente do bem”. E isto está exposto de forma clara no Art. 4º do Capítulo III, onde diz que “Poderá ser admitidos como sócios todo cidadão de comprovado critério e moralidade, sem distinção de nacionalidade,

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mediante proposta assinada por um sócio em pleno gôzo dos seus direitos, segundo a fórmula impressa que o Clube fornecerá após aprovação pela Comissão Fiscal”. Quem também ressaltou a moralidade dos frequentadores do Estrela foi Cláudio Gomes dos Santos, o Pilunga, exjogador do Estrela do Mar e um dos fundadores da Associação Filhos da Cruzada, sobre a qual falaremos mais adiante. “Comecei a frequentar o Estrela em 56, 57. Era menino e batia pelada descalço ainda , tinha o Campeonato que Frei Albino fazia, era ele quem comandava lá. Foi quem educou um bocado de gente e de lá não saiu nem um “cabra” ruim. Saiu quem bebesse, mas quem fosse atrás de droga, nunca. Saíram muitas e muitas pessoas. Tem muita gente hoje que é médico, advogado. Muita gente passou por lá. Muitos estudaram e hoje estão lá em cima, outros não estudaram e pararam no tempo ou foram ser funcionário público, como eu. E dali saíram também jogadores, pessoas que quiseram continuar a vida no futebol profissional, como Pereira, Chiclete e outros e outros...”, lembrou.


Outro ponto que mostra a estreita relação entre clube e Igreja, está no parágrafo único do Art. 9º do Capítulo VI, onde fica bem claro que “Em caso de dissolução do ESTRELA DO MAR ESPORTE CLUBE, seu patrimônio passará a pertencer à Congregação Mariana de N. Senhora do Rosário e S. José e se por ventura esta não mais existir, ao convento do Rosário.”. Porém, nem os mais pessimistas achariam, em 1957, que de fato o clube um dia iria deixar de existir. Fato que aconteceu no início dos anos 2000. Mas falaremos mais tarde deste episódio triste e marcante na história do Estrela do Mar. Primeiro Campeonato Interno das Cruzadas

Congregação Mariana é uma associação pública de leigos católicos. É formada por cristãos católicos que procuram seguir melhor o Cristianismo através de uma vida consagrada à Mãe de Deus, a Virgem Maria. “Santidade e apostolado” são suas metas para uma transformação cristã da Sociedade humana.

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ESTREIA NAS COMPETIÇÕES OFICIAIS Voltando aos tempos bons, após a fundação, o Estrela do Mar se filiou à Federação Paraibana de Futebol e começou a disputar alguns campeonatos organizados pela entidade. E em 1956, o time já começou a colher seus frutos. Com apenas três anos de existência, o Estrela do Mar sagrouse campeão amador, de forma invicta, e vicecampeão Juvenil (naquela época não existia a 2ª divisão do Campeonato Paraibano). O time era formado por Brandão, André, Pinheiro, Hélio, Breno Formiga, Gilberto Cara de Gato, Hermes Taurino, Caju, J. Heráclito, Roberto Biribita, Izinho, Valdecir Pereira, Adjamir, Carrinho e Lauro Almeida. O jogador Carrinho, que jogava como centro-médio ou center-half, uma espécie de quarto zagueiro dos dias atuais, lembra-se daquela conquista. “O primeiro campeonato oficial que o Estrela disputou foi em 56, e ai nós fomos campeões do torneio de abertura de forma invicta e aí foi quando nós nos classificamos para disputar o Campeonato Misto da Federação (equivalente ao atual Campeonato Paraibano). A Federação exigia que tivessem três jogadores não amadores no quadro do clube e no Estrela do Mar fomos eu, Izinho, meu irmão e Hermes Taurino”, lembrou. Com a conquista de 56, o Estrela do Mar ganhou o direito de participar do Campeonato Paraibano de 1957, este seria o primeiro campeonato semiprofissional que o clube iria participar. A competição contou com cinco clubes, sendo eles, além do Estrela do Mar, Botafogo Futebol Clube (que viria a ser campeão daquela edição), Auto Esporte Clube, Oitizeiro Esporte Clube e Santos Futebol Clube. O Estrela ficou na terceira colocação, com nove pontos ganhos, após vencer

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quatro das suas oito partidas, empatar uma e perder duas (naquela época, a vitória valia dois pontos, diferente de hoje, que vale três). Porém, o ano de 1957 que marcaria a estreia do Estrela do Mar em uma competição profissional realizada pela Federação Paraibana de Futebol, não começou do jeito que todos gostariam. Em 06 de janeiro daquele ano, o time excursionava para a cidade de Camutanga, no interior de Pernambuco. A viagem marcava uma das festividades em comemoração ao Dia de Reis, padroeiros da cidade. O dia foi marcado por festas e futebol. A equipe do Estrela do Mar derrotou os donos da casa pelo placar de 4 a 2. Após o jogo, mais comemorações. Porém, foi na volta para João Pessoa que um acontecimento triste ficou marcado na história do clube. Na estrada, o ônibus em que a delegação do Estrela estava chocou-se com um caminhão que estava parado na pista e virou. No acidente, um dos atletas, José Panta das Neves, mais conhecido como Panta, não resistiu aos ferimentos e morreu. O ex-jogador Carrinho lembra bem deste dia.

O Estrela do Mar costumava fazer excursões para a cidade de Camutanga-PE

“Nós fomos jogar em Camutanga, interior de Pernambuco. Íamos todos os dias 6 de janeiro. Pedro Gomes, que foi nosso 1º secretário, era filho de lá, apesar de ter sido criado em Jaguaribe, e todo dia 6 de janeiro a gente ia jogar lá. Aí em uma dessas viagens o ônibus estava com um problema na bateria e ficava acendendo e apagando o farol. De repente tinha um caminhão parado carregado de fardos, não sei se era no acostamento ou na estrada, só sei que esse ônibus bateu na traseira do caminhão, virou e saiu se arrastando no asfalto e um dos nossos colegas depois, quando já esperava que retirassem algumas pessoas do ônibus, acendeu um fósforo, mas havia escorrido gasolina na pista


e aí pegou fogo. E nesse acidente morreu um jogador nosso José Panta das Neves, que a gente chamava de Panta. Ele fraturou a perna direita e os ossos ficaram fragmentados e aí houve uma hemorragia interna e ele morreu no outro dia. Ele era novo, tinha 19 anos. Eu tive apenas alguns cortes na cabeça. Lembro bem que um rapaz, que era chamado de Galego, ficou com uma pancada na cabeça, deitado. Ficou em estado de coma por um bom tempo, foi o mais grave, além do que morreu. Já era de noite isso, porque lá depois dos jogos sempre ofereciam uma festinha para a gente e nesse dia ofereceram um baile para gente, e nós participamos com o pessoal de lá, as meninas de lá”, contou Carrinho. Já José Taurino da Silva, irmão de Hermes Taurino, conta em seu livro Tributo a um desportista, que seu irmão se livrou do acidente. José conta que Hermes não viajou com o elenco, pois uma lesão no tornozelo direito o cortara da viagem. Ainda segundo José Taurino, no acidente, frei Albino teve queimaduras por todo o corpo e que também o radialista Ivan Bezerra, que também estava no ônibus, sofreu algumas queimaduras. Ivan diz se lembrar do acidente, mas afirma não lembrar mais dos detalhes.

PB, o Comerciários, o Íbis-PB e o Arsenal-PB (que não disputou o returno). Os clubes de Campina Grande e do Botafogo-PB não participaram do campeonato, por divergências de seus dirigentes com a FPF. O regulamento previa que todos os times se enfrentariam em turno e returno. No primeiro turno, o Estrela do Mar conseguiu nove pontos, vencendo quatro das suas seis partidas e empatando uma e perdendo a outra.

TIME DE 56 EM PÉ Brandão, André, Carrinho, Cara de Gato, Pinheiro e Helio Pinto AGACHADOS - João Heráclito, Roberto Biribita, Izinho, Valdeci Pereira e Adjamir

Já no segundo turno, o time não foi tão bem e somou apenas quatro pontos, vencendo uma de suas cinco partidas, empatando duas e perdendo as outras duas. O Auto Esporte venceu os dois turnos e se sagrou campeão paraibano daquele ano. O time-base do Estrela era o mesmo que havia disputado a competição em 57 e que em 59 conseguiria a maior conquista do clube. Apesar de não ter conseguido o título no Campeonato Paraibano, o Estrela do Mar se sagrou campeão aspirante neste mesmo ano.

Time base dos anos de 1956 até 1959

1958 – O começo do ápice Se em 1957 marcou a estreia do Estrela do Mar no Campeonato Paraibano, o ano de 1958 veio para consolidar a força do time no futebol da Paraíba. Já com sua segunda participação no certame estadual, o Estrela do Mar não fez feio e ficou com o vice-campeonato da competição (o Íbis-PB se diz vice-campeão desta edição, mas a Federação Paraibana de Futebol declara o Estrela do Mar como segundo colocado). O campeonato contou com a participação de sete times, sendo eles: o próprio Estrela do Mar, o Auto Esporte (que viria a ser campeão), o Oitizeiro, o Santos-

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O ÁPICE O ano era 1959, o Brasil ainda estava em êxtase com a sua primeira conquista na Copa do Mundo de Futebol, no ano anterior, e com o surgimento de um jovem que espantara o mundo no ano anterior devido às suas peripécias em solo sueco: Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Juscelino Kubitschek era o Presidente da República. A cidade de Brasília, hoje capital federal, não passava de um canteiro de obras e só viria a ser inaugurada no ano seguinte. No mundo, Cuba vivia o ápice de sua revolução e instaurava seu governo socialista. A corrida espacial começava a dar seus primeiros passos e Elvis Presley já colocava todo mundo para dançar com o seu rock and roll. No fim do ano, o Esporte Clube Bahia, viria a se tornar o primeiro vencedor da Taça Brasil, que hoje equivale ao Campeonato Brasileiro de Futebol.

Time base do Campeonato de 59

Na Paraíba, Pedro Moreno Gondim era o governador, após ter assumido o posto depois que o atual mandatário do estado, Flávio Ribeiro Coutinho, ter renunciado ao cargo para tratar de sua saúde. Na capital, o ano começou com o prefeito Apolônio Sales de Miranda e terminou com Luís Gonzaga de Miranda Freire, que assumiu em novembro de 1959. No futebol, o Auto Esporte, que havia sido campeão paraibano no ano anterior, representaria a Paraíba na Taça Brasil de 1959. O Macaco Autino, como o time também é conhecido, encarou o Sport na primeira fase da competição. Os times se enfrentaram duas vezes, sendo a primeira no dia 23 de agosto e a segunda na semana seguinte, no dia 30. A equipe paraibana foi derrotada nas duas oportunidades. Na primeira, 3 a 0 para

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os pernambucanos, em partida realizada no Estádio Olímpico. No segundo confronto, que fora realizado na Ilha do Retiro, vitória do Leão por 5 a 2. Apesar do Auto Esporte ter feito feio em Recife, diante do Sport, outra equipe paraibana chamava a atenção dos pernambucanos. No dia 15 de fevereiro daquele ano, os marianos do Estrela do Mar foram chamados para jogar contra a equipe local do Yolanda. O jogo marcara a preliminar da partida entre Sport Club Recife e Vasco da Gama. Segundo Walfredo Marques, em seu livro A história do Futebol Paraibano, apesar da derrota por 3 a 2, “os rapazes da cruzada agradaram bastante aos que compareceram na Ilha do Retiro”. Um dos destaques desta partida foi o paraibano Hermes Taurino. No livro Tributo a um Desportista, escrito por seu irmão, José Taurino da Silva, há um relato que após o jogo contra o Yolanda, um dos diretores do Sport Recife procurou Hermes para ingressar nos quadros do Leão, mas que ele havia negado a proposta e que só iria pensar nisto, caso ainda houvesse o interesse dos pernambucanos, após o término do Campeonato Paraibano daquele ano. O sucesso do Estrela do Mar em terras pernambucanas era tão grande, que em março de 1959, o simpático time de Jaguaribe voltou a Recife para mais um amistoso, desta vez, diante do Santa Cruz. A partida terminou empatada por 2 a 2. O jogo havia servido para o Tricolor de Pernambuco avaliar alguns atletas paraibanos, dentre eles, Hermes e Valdeci Pereira. Com um bom início de ano, o Estrela do Mar foi para a disputa do Campeonato Paraibano de 1959 com boa expectativa. Após ter participado nos dois anos anteriores, o time das Cruzadas vinha com mais experiência para o certame. Sem a presença dos clubes de Campina Grande, os principais nomes da competição eram o Auto Esporte, que havia ficado com o título no ano anterior, e o Botafogo-PB. Além destes dois times e o Estrela do Mar, o Paraibano daquele ano contou com a participação de mais cinco equipes, sendo elas: Santos-PB, Íbis-PB, Comerciários, Red Cross e Oitizeiro (que não disputou o segundo turno). A primeira partida da competição foi marcada para o dia 06/06/1959, entre Auto Esporte e Comerciários, com a vitória para os Automobilistas pelo placar de 7 a 2. O Estrela do Mar só viria a estrear na competição no dia 27 de junho. Em seu primeiro jogo, o time de Frei


Albino derrotou o Red Cross, que também era de Jaguaribe, pelo placar de 2 a 1, no Estádio da Graça. E com uma campanha quase que perfeita, o Estrela do Mar terminou o primeiro turno com seis vitórias em sete jogos e apenas uma derrota, somando assim 12 pontos, campanha idêntica à do Auto Esporte. A esta altura, por algumas paralisações no campeonato estadual, o ano de 1959 já havia acabado e o campeonato seguia em 1960. Como naquela época não havia critérios de desempate, as duas equipes precisaram realizar uma partida para conhecer quem seria o campeão do primeiro turno. E no dia 17 de janeiro de 1960, no Estádio da Graça, o Estrela do Mar derrotou o Macaco Autino pelo placar de 1 a 0 e ficou com o título do primeiro turno do Campeonato Paraibano de 1959.

Após a campanha arrasadora que fez no primeiro turno, o mesmo não se pode dizer da trajetória do Estrela na segunda metade do certame. Desta vez foram apenas seis jogos, já que o Oitizeiro havia desistido de disputar o segundo turno. E o que a equipe mariana conseguiu foram apenas duas vitórias, perdendo os outros quatro jogos, somando apenas quatro pontos e ficando na quinta colocação. Quem mais uma vez fez uma boa campanha foi o Auto, ficando com o título do segundo turno do Paraibano. Em seis partidas disputadas, o time obteve cinco vitórias e um empate, somando assim 11 pontos. O segundo colocado foi o BotafogoPB, que venceu quatro, empatou uma e perdeu outra, somando nove pontos. Como o Estrela do Mar e o Auto Esporte venceram um turno cada, a decisão seria em uma melhor de três. A primeira equipe que conseguisse obter quatro pontos, ou seja, duas vitórias ou uma vitória e dois empates, iria se sagrar campeã daquela edição. E o primeiro embate estava marcado para o dia 08 de maio no Estádio Olímpico José Américo de Almeida, localizado atualmente na Vila Olímpica Ronaldo Marinho.

De um lado estava o Auto Esporte, clube com maior torcida e que estava em busca do bicampeonato paraibano. Do outro, o modesto Estrela do Mar, cujas maiores conquistas até então haviam sido um contestado vice-campeonato paraibano em 58 e o título do primeiro turno do estadual em 59. Mas não havia quem cravasse quem ficaria com o status de campeão paraibano de 1959, visto as duas ótimas campanhas das equipes. Até aquele dia, a equipe mariana levava vantagem no retrospecto entre as duas equipes dentro do campeonato. Em três partidas disputadas, o Estrela havia vencido duas (ambas por 1 a 0) e perdido apenas uma, por 3 a 0, no segundo turno da competição. Mas nem o retrospecto, nem a forma ideal de jogar foram suficientes para dar a vitória ao time de Jaguaribe. Com uma atuação irretocável, o Auto Esporte sapecou 5 a 3 no time mariano e ficou na vantagem na final do Campeonato Paraibano de 1959. Rinaldo, Marajó e Chiclete infernizaram a vida da defesa mariana. Do lado do Estrela, apenas Izinho tentava, de forma isolada, levar algum perigo ao gol do Auto. Somando-se a isto, o Estrela do Mar ainda perdeu o responsável por criar suas jogadas. Após desentendimento com Piau, Coelhinho foi expulso pelo árbitro Aluísio Ribeiro de Lima. Os gols da partida foram marcados por Chiclete (duas vezes), Vavinho (duas vezes) e Marconi, para o Auto Esporte e Izinho (duas vezes) e Adjamir para o Estrela. O resultado frustrou alguns jogadores da equipe alvi-azulina. Como relata o livro de José Taurino da Silva, Izinho deixou o campo sem acreditar na derrota. “Não é justo, por tudo que fizemos durante o ano todo, não merecemos isto”, lamentou Izinho.

Uma semana se passou e a nova partida estava marcada. No outro domingo, no dia 15 de maio de 1960, as duas equipes voltariam a se enfrentar, desta vez no Estádio da Graça, em

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Cruz das Armas. O árbitro da partida seria Sátiro Pereira, que substituíra Valdemir Vanderley, que havia desistido de apitar a decisão. Uma vitória do Auto Esporte daria o título ao Alvirrubro do Colosso. O público comparecera em grande número, tanto pela partida, como também pela presença de Marilene Fialho, que era candidata a Miss João Pessoa e Paraíba e havia sido convidada para dar o pontapé inicial do confronto, como conta José Taurino em seu livro. O jogo foi bem diferente da primeira peleja entre as duas equipes, realizada uma semana antes. Segundo José Taurino, o treinador do Estrela, Severino Holanda, mais conhecido como Viu, “percebia que assim era ruim para sua equipe que precisava ganhar. Exigiu mais velocidade e determinação. Daí, Beta passou a marcar de perto Rinaldo, evitando que o mesmo fizesse os lançamentos a meia distância. Com isso, o Auto Esporte perdia muito de sua força ofensiva”. E a tática de Viu surtiu efeito, tanto que aos 36 minutos do primeiro tempo, Valdeci Pereira fez uma boa jogada e cruzou na cabeça de Izinho, que empurrou a bola para o fundo do gol e abriu o placar no Estádio da Graça. O resultado ia deixando tudo igual na decisão, com cada equipe com dois pontos, ou seja, uma vitória cada. Mas aos 35 do segundo tempo, veio a reação do Auto e Marajó deixou tudo igual em Cruz das Armas e o jogo terminou mesmo empatado por 1 a 1. Com o resultado, o Auto precisaria apenas de mais um empate na última partida para se sagrar campeão, mas esqueceu de que do outro lado havia o Estrela do Mar, o time do frei Albino. A data da última peleja já estava marcada: 22 de maio de 1960, um domingo. O confronto começou antes mesmo de a bola rolar. Segundo conta José Taurino em seu livro, o Auto Esporte queria que a partida fosse no Estádio Olímpico José Américo de Almeida, já o Estrela do Mar queria jogar no Estádio da Graça. Mas prevaleceu a ordem da Federação Paraibana de Futebol e a partida foi marcada para o Estádio Olímpico às 15h30. O árbitro da partida foi o pernambucano Torres Sidrônio. O dia estava ensolarado, com poucas nuvens e uma temperatura agradável para uma partida de futebol. Para o Auto Esporte, um empate bastava. Já o Estrela tinha que ganhar para forçar uma prorrogação. O Estrela do Mar não contara com um dos seus principais defensores, Carrinho. “Eu não joguei a última partida porque eu arrumei um emprego à noite e estava sem tempo

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de treinar e quem jogou o último no meu lugar foi Teófilo e eu fui beber”, explicou Carrinho aos risos após 56 anos. Durante o jogo, o Auto Esporte bem que tentara, mas parecia que a vontade dos jogadores do Estrela conseguia superar qualquer coisa e os atletas tinham o controle da partida. Apesar do domínio mariano, o primeiro tempo acabou empatado por 0 a 0, o que dava o título à equipe automobilista. Beta e Valdeci Pereira comandavam as jogadas ofensivas do Estrela do Mar. E aos 20 minutos a pressão deu resultado. Beta recebeu a bola, avançou e já próximo à grande área, encobriu o goleiro Lafayete, que nada pôde fazer. Estava aberto o placar da decisão.

Os irmãos Izinho (esq.) e Carrinho (dir.)

O resto da partida foi de muito nervosismo para as duas equipes. O resultado estava levando a partida para a prorrogação, mas um empate do Auto daria o título à sua equipe. E após os 90 minutos, o Estrela conseguiu segurar o resultado e levar a decisão para mais 30 minutos de prorrogação. O futuro campeão paraibano de 1959 seria conhecido naqueles 30 minutos. Quem vencesse, ficaria com o título. Ao perdedor, restariam as lamentações. Como era de se esperar, a prorrogação foi bastante nervosa, com os dois times bem cautelosos. Porém, os atletas do Estrela do Mar demonstravam mais vigor


físico. Como relatou José Taurino, “o tempo ia passando lentamente e ninguém conseguia balançar a rede. De repente, bola na área, Izinho, ganha de Xavier, na hora do chute, foi derrubado, pênalti marca o juiz. Os jogadores automobilistas reclamaram bastante. Mas, a decisão do árbitro pernambucano estava mantida”. Euforia entre os marianos, já que eles tinham Izinho, eleito o melhor cobrador de pênaltis daquele campeonato, como ele mesmo lembrara citando um causo em uma partida contra a equipe do Íbis da Torre. “Teve um jogo que houve uma disputa lá, um pênalti em mim, aí perguntaram se eu poderia bater e eu disse: eu vou bater. Fui considerado na época o melhor batedor de pênalti e sabia bater mesmo, o próprio frei Albino me ensinou. No dia estava jogando o Estrela do Mar e o Íbis da Torre. A partida terminou empatada e o jogo foi para os pênaltis e naquela época quem batia as cinco penalidades era só um jogador, hoje mudou. Eu fui bater do lado do Estrela do Mar e Gogoia foi bater para o Íbis. Ele dizia assim: Izinho, eu vou ganhar. E eu dizia: tudo bem, eu vou fazer força para ver se ganho. Ele bateu os cinco primeiros, aí quando ele perdeu um, eu disse: você perdeu companheiro, e bati nas costas dele (risos). Quando eu fiz os cinco, nós ganhamos, ele veio e me abraçou”, recorda. Mas, apesar de estar em campo naquele dia 22 de maio de 1960, não foi Izinho quem bateu o pênalti que poderia dar o título ao Estrela do Mar. José Taurino conta em seu livro que o goleador se

recusara a bater, causando uma tensão entre os jogadores. O fato é que quem foi para cobrança foi Hermes Taurino. E a converteu. Goleiro de um lado, bola do outro. Naquela altura, o Auto Esporte já não tinha mais fôlego para tentar uma reação, cabia ao Estrela apenas esperar o apito final para comemorar o tão sonhado título de campeão paraibano. E assim o fez: o Estrela do Mar Esporte Clube sagrava-se campeão do Campeonato Paraibano de 1959. O técnico Severino Holanda, o Viu, comemorou bastante. “Foi o título da união, da garra e do amor à camisa”, escreve assim José Taurino, em seu livro, reproduzindo as palavras do treinador campeão. Fizeram parte da campanha vitoriosa do Estrela: Jola, Carrinho, Davi, Gilberto Cara de Gato, Aderbal Pitombeira, Hermes Taurino, Teófilo Luna, Coelhinho, Caju, Lúcio Câmara, Izinho, Emilson, Adjamir, Valdecir Pereira, Celso e Piaba, além dos diretores Severino Holanda, o Viu, (que também era o treinador), Lucemar Navarro, Pedro Gomes, Rômulo Cambuim e João Batista Cruz. O Estrela do Mar conseguira o tão sonhado título. O pequeno time que começou com as peladas das Cruzadas sob comando do alemão frei Albino Klein, tornara-se gente grande, conquistara o Campeonato Paraibano de 1959 e iria representar a Paraíba na Taça Brasil de 1960. Sobre isto, o Jornal A União trouxe em sua edição de 23 de maio de 1960, a conquista do Estrela do Mar: “A Paraíba tem novo representante na Taça Brasil: Estrela do Mar, campeão de 1959!”.

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PARTICIPAÇÃO NA TAÇA BRASIL Com a conquista do Campeonato Paraibano de 1959, o Estrela do Mar se classificou para ser o representante paraibano na Taça Brasil de 1960, apenas a segunda edição do certame. No ano anterior, o Auto Esporte havia sido o representante e fora eliminado pelo Sport. Diferente da edição anterior, desta vez, a equipe da Paraíba iria duelar com um time do Rio Grande do Norte, e não um de Pernambuco. E o adversário dos marianos seria o ABC de Natal. O ex-jogador Izinho lembrou-se disto, ressaltando que o esquadrão paraibano tinha mais chances que no ano anterior. “Antigamente na Taça Brasil, disputavam Paraíba contra Pernambuco, mas no ano que nós fomos disputar foi Paraíba contra o Rio Grande do Norte e isso foi melhor para gente, porque já éramos fregueses dos pernambucanos”, ressaltou. Todos os jogos da Taça Brasil de 60 foram disputados em modo eliminatório, em dois jogos, sendo um de ida e outro de volta. A equipe que somasse mais pontos passava para a fase seguinte. Caso nos dois jogos as equipes tivessem o mesmo número de pontos (dois empates ou uma vitória para cada lado independente do número de gols entre os jogos) era disputado um jogo extra. Nesta partida, caso persistisse o empate, o time que tivesse o maior saldo de gols nas três partidas da fase era o vencedor. Se mesmo assim o empate persistisse, a vaga seria decidida no cara ou coroa. E a estreia do Estrela do Mar na competição estava marcada para o dia 21 de agosto de 1960 no Estádio Olímpico José Américo de Almeida. A equipe mariana jogou com os seguintes jogadores: Aderbal; Edson (David) e Lola; Bita, Teófilo e David (Carrinho); Cajú, Andrade, Izinho, Coelhinho e Celso. A partida terminou com vitória dos paraibanos por 2 a 1. Os gols foram marcados por Izinho e Bita para o Estrela e Jorginho para o ABC. Com este resultado, o Estrela iria jogar em Natal precisando apenas de um empate para passar para a próxima fase da competição e fazer história no futebol paraibano. A peleja estava marcada para a semana seguinte, no dia 28 de agosto. O palco do confronto seria o Estádio Juvenal Lamartine, em Natal. Mas apesar de

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precisar apenas de um empate, o Estrela foi massacrado pela equipe potiguar e foi goleado pelo placar de 5 a 1. O gol de honra dos marianos foi marcado por Coelhinho, cobrando pênalti. Com a derrota da equipe paraibana, foi necessário realizar uma terceira partida entre as duas equipes para saber quem passaria para a próxima fase. O jogo então foi marcado para o dia 30 de agosto, apenas dois dias depois do último confronto. O local da partida era o mesmo, o Estádio Juvenal Lamartine, em Natal. E para esta partida, o Estrela ganhou um reforço de última hora. O atacante Izinho não havia jogado a segunda partida entre as duas equipes, porque o seu patrão não o havia liberado para sair mais cedo para poder viajar para Natal, mas para este confronto decisivo, ele conseguiu dar um jeito. “Na Taça Brasil, nós havíamos vencido aqui e apanhado lá, e eu quase não ia para o terceiro jogo, porque o meu patrão, na época eu trabalhava na Sousa Cruz, não quis me liberar. Aí quando acabou o expediente, fomos eu e o presidente de avião para Natal”, relembrou. Mas nem o reforço de última hora ajudou o Estrela do Mar. Como se parecesse um replay, a equipe potiguar sapecou novamente um 5 a 1 nos paraibanos e avançou na competição. O gol de honra dos paraibanos foi novamente de Coelhinho. E em apenas três partidas, o sonho de seguir em frente em uma competição nacional ficou para trás. O Estrela do Mar e a Paraíba estavam fora da Taça Brasil de 1960. Carrinho falou um pouco sobre esta derrota. “Nessa Taça Brasil eu não era titular, mas em Natal eu entrei no jogo, porque o time estava perdendo. Foram três jogos contra o ABC, um aqui e dois lá. Aqui nós vencemos, mas perdemos as duas lá. Eu já nem treinava mais e também farreava muito, era farra toda semana. O time deles era muito superior ao nosso, éramos praticamente todos amadores”, explicou. Com a eliminação na Taça Brasil, o Estrela voltara suas atenções para o Paraibano daquele ano, que já estava em andamento. O Estadual daquele ano contava com Campinense, BotafogoPB, Paulistano, Auto Esporte, Santos-PB, Estrela do Mar, Íbis-PB e Comerciários. Até a última partida contra o ABC pela competição nacional, o Estrela do Mar já havia realizado duas partidas pelo certame estadual, sendo uma derrota para o Paulistano por 2 a 0, no dia 31 de julho e um empate contra o Auto Esporte por 1 a 1, no dia 14 de agosto.


Ainda pelo primeiro turno do Paraibano de 60, o Estrela disputou mais cinco partidas, sendo uma vitória, um empate e três derrotas. A equipe mariana acabou o primeiro turno em sexto lugar, com apenas quatro pontos em 14 possíveis.

No segundo turno, que contou com a participação de apenas seis clubes que se enfrentavam em jogos de ida e volta, o Estrela do Mar teve uma participação um pouco melhor. Em dez jogos, foram três vitórias, dois empates e cinco derrotas, somando ficando com oito pontos, na quarta colocação. O campeão daquele ano, e que viria a ser pelos próximos cinco anos, foi o Campinense Clube.

Carrinho em seu tempo de Estrela

Carteira de Registro Profissional do atleta Carrinho

Izinho era o goleador do clube mariano


O COMEÇO DO DECLÍNIO Além da eliminação precoce na Taça Brasil e na fraca campanha no Campeonato Paraibano, o ano de 1960 marcaria a última participação do Estrela do Mar na elite do futebol da Paraíba. Até então, o campeonato estadual da 1ª divisão era considerado misto, ou seja, contava com jogadores amadores e profissionais. Já a partir de 1961, a elite da competição passou a ser apenas com atletas registrados como profissionais. Como na equipe do Estrela do Mar havia apenas três jogadores com carteira de profissional, o time não figurou mais entre os melhores do estado. A partir de 1961 até 1969, a Federação Paraibana realizava, além da primeira divisão profissional, o Campeonato Paraibano da 1ª divisão mista, competição esta que o Estrela disputou em todas as edições. Sendo campeão em 1962, 1964 e 1966. E é exatamente nesta época que surge a figura de Cláudio Gomes dos Santos, o Pilunga. Nascido em 31/12/1944, Pilunga ainda era um adolescente quando o Estrela do Mar viveu a sua época de ouro, principalmente nos anos 1959 e 60. Ele foi um dos que ajudou a construir a sede do clube e hoje é o responsável pela Associação Filhos da Cruzada, que ainda guarda algumas lembranças da equipe mariana. Pilunga, que também foi jogador do clube, relembrou alguns momentos que teve no Estrela do Mar.

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Em 59 eu tinha 15 anos e torci muito. Era menino, e depois de 59 o primeiro campeonato, que eu também disputei foi o de 62, que a gente ganhou a primeira divisão, que na época era o mais próximo do profissional, era uma espécie de divisão de acesso. Aí vencemos em 62,64 e 66. Eu era zagueiro e depois eu passei mais uns dois ou três anos jogando, mas o tempo vai passando e a gente vai ficando com mais idade e pouco fôlego”, lembrou com um semblante bastante saudosista.

Sobre a equipe que conseguiria três vezes o título da primeira divisão mista, Pilunga disse o time tinha muitos bons jogadores. “Tinha muito ‘caba bom’. Esse aqui, Ciro, ficou de vir aqui hoje e não veio. Ele jogou até no América de Fortaleza, profissional. Esse aqui, Chiclete, foi profissional, jogou até no Palmeiras, olha o teu tio aqui também (referindo-se a Izinho). Mas o resto era amador mesmo. Saiu pouca gente daqui, esse aqui jogou muito bem também no futebol de salão... alguns falecidos já também...”, disse Pilunga segurando uma foto antiga e apontando para os velhos companheiros de equipe. Time campeão da 1ª divisão de 1962- Em pé: Chico Alicate, Beta cabeção, Valdeci Lambaio, Valdo Cavalinho, David Fusil e Pilunga. Agachados - Raminho, Gonzaga, Izinho, Amarelou, Celso Piaba.


PERDA DE FREI ALBINO Depois de uma década de afirmação e conquistas, entre 1956 e 1966, o Estrela começou a ter um papel inexpressivo no cenário do futebol paraibano. Com o fim do Campeonato Paraibano da 1ª divisão mista em 1969, o Estrela entrou na década de 1970 longe das competições oficiais. Porém, o clube continuava com sua missão a que foi predestinado: resgatar as crianças e jovens do bairro de Jaguaribe e proporcionar a eles lazer, diversão e bem-estar. Tudo isto sob o comando de frei Albino.

todos de surpresa. A causa-mortis foi um infarto fulminante. O ocorrido aconteceu justamente no dia sete de setembro, conhecido por ter o tradicional torneio da Independência, realizado pelo alemão. Izinho, que conviveu por muito tempo com frei Albino falou sobre sua morte. “Eu lembro que eu estava chegando à Igreja do Rosário e aí me falaram que ele acabara de morrer, ele morreu de infarto fulminante em Alagoas, foi uma perda terrível”, disse. E duas coisas são praticamente unanimidades por todos que passaram no Estrela do Mar. Uma é que o ambiente era algo maravilhoso. E a outra é que a “culpa” disto é toda do frei Albino. Quem conheceu e conviveu com o religioso, se

Tudo ia bem no clube mariano, até que no dia 7 de setembro de 1974, aconteceu o que ninguém no Estrela queria: a morte de frei Albino. O idealizador, incentivador e principal fundador do clube deixava seus filhos, como os frequentadores do Estrela eram chamados, sem um pai. A morte aconteceu na cidade de Penedo, em Alagoas, onde frei Albino foi para consertar os bancos da igreja da cidade. A notícia pegou

derrete em elogios. Foi a partir da iniciativa dele que surgiu o Estrela do Mar, como já foi dito anteriormente. Um dos fundadores do clube, Carrinho, falou sobre o frei alemão. “Nosso ambiente era muito bom. A nossa viga mestre era Frei Albino. Ele era rigoroso e disciplinador. Para bater bola ali a gente tinha que pelo menos assistir a missa e pagar as mensalidades. Ele intercedia muito por nós junto aos frades, o que foi conseguido ali dentro

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foi mérito dele, porque aquele terreno era dos frades. Ali eles criavam uns cavalos, vacas. Aquele ambiente era muito bom”, relembra. Pilunga também falou sobre frei Albino. “Era um pai para gente. No ano passado completou 40 anos da morte dele e nós fizemos uma homenagem aí na igreja, uma missa, um café da manhã, um encontro. Tinha muita gente até que nem era do Estrela, mas que o admirava e foi também”. Carlos Pereira de Carvalho, outro que frequentou o Estrela e foi sócio fundador do clube, falou sobre a morte de frei Albino em um artigo publicado em 7 de setembro de 1999, no extinto Jornal O Norte. “... O outro sete de setembro que me liga a Frei Albino foi 25 anos depois, exatamente em 1974, ou seja, há também 25 anos. Se é certo quer o desfile cívico-militar não deixou de ocorrer, não é menos certo de que dele poucos de Jaguaribe participaram. Na hora do desfile, estavam quase todos os meninos e jovens do bairro, juntos na Igreja do Rosário, junto a um esquife em que jazia morto o Freio Albino, querido de todos. Ele que havia sobrevivido, quase por milagre, a um terrível acidente com o ônibus que transportava o time do Estrela do Mar, sofrendo então graves queimaduras, começou a maior a partir daquela tragédia.

Foi definhando e aqueles que o visitavam já davam conta da fragilidade que o abatia e já temiam o pior – que veio a acontecer exatamente na madrugada do dia da independência. E até no seu enterro, Frei Albino exigiu esforço físico dos que o acompanharam até sua última morada. Com dedicação, entoando cantos de louvor a Deus, a multidão atravessou todo o bairro de Jaguaribe, entrou pela João Machado, cruzou a Rua das Trincheiras e foi, a pé, em peso entregar o seu caixão ao cemitério Senhor da Boa Sentença. Eram milhares de pessoas, entre crianças de 1950, crianças de 1960 e crianças de 1970, além de pais e religiosos que sempre tiveram em Frei Albino um exemplo de vida”, escreveu. E foi justamente na época da morte de frei Albino que surgia outra figura importante no Estrela do Mar: Jobério Pereira Martins, mais conhecido como Quinca, hoje com 60 anos. Com 20 anos na época da morte do frei, Quinca começou a fazer parte da diretoria do Estrela e foi, por várias vezes, diretor de futebol, vicepresidente e também presidente, além de jogador de futebol de salão. Ele lembra também da importância do religioso para o Estrela e para a sua vida. “Eu entrei no Estrela, eu acho, que com oito anos, em meados de 62, 63. Através de Ciro, um

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amigo nosso que a gente chama de Rei Ciro, foi ele quem levou a mim e aos meus irmãos. A minha família todinha foi para o Estrela do Mar, só quem não foi para o Estrela da minha família foram minha mãe e minhas duas irmãs, o resto todinho participou, como atleta amador e também da diretoria. Nós gostávamos do Estrela, porque ele agregava as pessoas. Nós éramos uma família. O Estrela sempre foi uma família. O principal de frei Albino era não deixar aquela meninada ficar na rua. Então o intuito de frei Albino foi esse. Ele tinha 36 pessoas que juntamente com elas criaram o Estrela do Mar e ele criou o Estrela já para isso. E quando ele saiu, quando ele morreu em 74, lá em Alagoas, ele já tinha 356 sócios, pessoas que estavam no meio da gente e que fazia só o bem. Ele foi uma pessoa que só temos lembranças boas dele. Foi ele que reuniu o pessoal para não deixar que as coisas ruins passassem para a criança. Ele era doido por criança, fazia questão que o pessoal estivesse junto dele. Era como se fosse uma mãe. Todo mundo queria estar junto dele, porque ele era uma pessoa do bem”, relembrou.

“Frei albino foi como um pai que a gente teve e que queria ter. Quem o conheceu, nunca vai deixar de ter lembrança boa dele. Teve tantos episódios que a gente pensava que ele ficava com raiva, mas ele tinha um coração tão bom e dali a pouco quando a gente via, ele chegava e dizia: ‘Homem, está tudo certo. Não estou mais com raiva de você’. Você ficava como se seu pai tivesse dado uma tapa em você e depois chegasse e desse um afago. Frei albino era uma pessoa extremamente do bem”, disse.

Quinca (de azul) conviveu com frei Albino em seus últimos anos de vida

Com a morte do patrono do clube, o Estrela do Mar perdeu um pouco o rumo. Há quem diga que a morte de frei Albino foi a morte do

Facha da Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Quinca falou também de alguns episódios protagonizados por frei Albino. Interior da Igreja de Nossa Senhora do Rosáio

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Estrela. Porém, é bem verdade que o clube ainda sobreviveu algumas décadas e ainda conseguiu algumas conquistas. A principal delas foi o título de campeão paraibano de futebol de salão, no início da década de 80. Além disto, o clube ainda tinha representantes em outras modalidades, como vôlei, basquete, atletismo e tênis de mesa, o qual conseguiu também alguns títulos, como o Campeonato Paraibano e o Norte-Nordeste da modalidade. Quinca relembra isto. “O Estrela participou vários anos de futebol de salão, vôlei, tênis de mesa, foi várias vezes campeão, vice, terceiro lugar, com Zé Maria Teixeira de Carvalho que era o nosso representante do tênis de mesa. Disputou também o basquete e o

atletismo, na década de 70 para cá e foi campeão de futebol de salão na década de 80. Quando a gente foi campeão, eu era diretor e jogador ao mesmo tempo. Eu consegui trazer os melhores jogadores de futebol de salão da época. Quem conhece o futebol de salão sabe que na época tinha Tito, Rosalvo, Telmo, Osmar, Ito, Toinho, esse pessoal todinho jogava e eu consegui levar tudinho para o Estrela. Nós fomos campeões invictos de futebol de salão. Tito foi o artilheiro e eu fui o vice-artilheiro. Foi o primeiro ano que o Estrela foi campeão de futebol de salão frente a times como Cabo Branco, Astrea, Aliança, equipes mais profissionais que a gente e nós conseguimos o título”, relembra.

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ESTATUTO

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O FIM DO BRILHO Os anos foram se passando e as histórias se acumulando. Era um futebolzinho aqui, uma cervejinha ali e gerações e mais gerações iam crescendo e frequentando o Estrela do Mar. Se, por um lado, o clube já não era mais aquela força no futebol paraibano, continuava bem na sua parte social e de lazer. Pelo menos até o fim dos anos 1990, começo dos anos 2000. Presidentes iam se revezando no comando do clube a cada ano. Todos com a mesma intenção de sempre: manter o espírito de família no Estrela do Mar e, principalmente, a união entre clube e igreja católica. Tudo parecia ir bem. Uma confusãozinha aqui, outra ali, mas nada que fugisse do controle, nem que abalasse a relação com a congregação mariana. Foi quando assumiu a presidência no final da década de 90, Gladson Castro, mais conhecido como Estaca. O motivo é incerto. O assunto parece ser meio proibido entre os que frequentaram o Estrela, mas uma coisa é certa: no início dos anos 2000, o clube entrou em litígio com a igreja, perdeu sua sede e viu quase meio século de história ruir. Há quem acuse o último presidente de ter rompido com a igreja, causando revolta entre nos religiosos, que reivindicaram a posse do imóvel, despejando assim o clube. Outros dizem que foi uma sucessão de erros que causou a perda da sede. Mas o fato é que hoje, naquele prédio que fica na Rua Osvaldo Pessoa, habitam apenas as lembranças do Estrela. Atualmente, o imóvel é usado pela igreja em eventos como Encontro de Jovens com Cristo e outra solenidades. O campo que revelou tantos craques, hoje já não existe mais. A quadra, de onde surgiu tanta revelação, é apenas um bocado de cimento sem graça. Um dos últimos presidentes do clube, e que ainda tenta reaver a situação do Estrela, Quinca, falou sobre o fim da agremiação. “Quando frei Albino saiu, surgiu outra geração. Formou-se uma diretoria nova que cuidou do Estrela de 74 até início dos anos 2000, foi quando houve o problema entre a igreja e o Estrela, e a igreja então se desvinculou. Não foi propriamente a igreja, foi através do presidente, que não adianta a gente dizer o nome. E o Estrela chocou-se com a igreja e eles entraram na justiça e o clube perdeu o espaço físico. Isso foi em 2004, se não me engano. Até hoje essa ação continua na justiça e o Estrela não tem mais aquele espaço físico que era da

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Igreja. Regimentaram-se outras pessoas e depois fizeram uma associação denominada Filhos da Cruzada, que já é o pessoal remanescente do Estrela do Mar. Quando nós deixamos de participar da Igreja, nós deixamos o espaço físico e nós não temos mais como agregar a meninada. Nós fizemos uma comissão e fomos ao frei Hermano e ele de imediato disse que não podia fazer nada porque já havia dado uma oportunidade ao Estrela e houve só problemas, entre o pessoal do Estrela, que não era mais aquele pessoal antigo e quando veio esse pessoal mais novo não teve mais aquela sincronia com a Igreja e eles disseram que não tem mais a confiança de devolver esse espaço”, lamentou. Quinca também explicou a situação cadastral do clube na Receita Federal e também na Federação Paraibana de Futebol, onde consta a última atualização do Estrela do Mar em 1999.

Quinca ao centro

“Qualquer clube, principalmente de futebol, ele tem o CNPJ e tem o alvará de funcionamento junto à Federação. Para você ter esse alvará, você tem que ter participado no mínimo de três modalidades olímpicas, no caso o Estrela tinha o futebol de campo, o basquete, tênis de mesa, vôlei e atletismo. Quando houve esse rompimento, a primeira coisa que esse cidadão, que mais uma vez não quero dizer o nome, fez foi deixar de participar. Deixando de participar, a federação não emite o alvará de funcionamento, não tendo o alvará, a gente não tem como sobreviver. Então esse CNPJ tornou-se inválido. Ele tentou fazer do Estrela outra coisa e deixou de participar de campeonato, não recebeu mais o alvará e automaticamente foi desvinculado da Federação e do Conselho Nacional de Desporto”, explicou. Pilunga foi outro que lamentou o fim do Estrela, mas eximiu Estaca de toda a responsabilidade pelo fim do clube. “Aquela sede ali fomos nós que ajudamos a


construir. Mas depois, alguns foram se afastando, ninguém queria ser presidente. A culpa mesmo foi nossa de ter perdido a sede. Na última eleição, ganhou um rapaz que ficou como presidente, que inclusive pouco frequentava lá, mas pegou na hora quem podia votar, e ele ganhou e assumiu e não foi de acordo com as metas da igreja. Ele pensava que ia ser o dono do negócio e aí disse que o Estrela era independente da igreja, que nunca foi e nem podia ser, e aí começou a discussão entre o Estrela e a igreja. Então, o padre pediu o despejo e despejou o Estrela e pronto, acabou-se. Mas faz muita falta aquilo ali, poderíamos ter lá o campo, que poderia estar funcionando, pelo menos a igreja, que é a dona, poderia usar o campo para a mocidade da paróquia, porque a paróquia é o bairro. Acabaram com o campo, acabaram com tudo... eles plantaram coqueiros no campo, eles trabalham com umas equipes de idosos, segundo eu tenho conhecimento, mas poderia ter também com os jovens, que é o que se precisa mais hoje em dia. A gente está vendo tudo se perder aí, todo dia morre gente de 15, 16 anos e naquela época não acontecia. A igreja poderia ter conversado para continuar com a turma, tirar da rua, mas é isso mesmo, cada cabeça é um mundo. Ele está fazendo do jeito dele e a gente tem que aceitar”, lamentou. Foram inúmeras tentativas para reaver a sede, mas Quinca revela que ainda vai tentar uma última cartada, apesar de não ter mais tanta esperança. “Com sinceridade, eu acho muito difícil (conseguir a sede de volta). Só se fosse um político ou uma pessoa com muito dinheiro que fizesse isto. Mas politicamente a gente acha que não volta e a igreja também não dá mais espaço. O Estrela do Mar era um clube iminentemente ligado à igreja, era uma continuação da igreja, depois que houve esse rompimento, eu acho difícil voltar. Eu vou tentar mais uma vez, porque o vigário saiu e entrou um novo e eu vou tentar, mas não tenho muitas esperanças. Mas como quem gosta do Estrela e quem teve frei Albino como exemplo, a gente sempre tem assim um fiozinho de esperança, mas é muito difícil”, afirmou. Quinca também falou dos troféus e bens do Estrela do Mar.

“Quando houve o rompimento, o presidente na época, ele levou os troféus, levou os quadros e ficou na casa de terceiros. Depois de muita conversa, foi que a gente conseguiu recuperar os troféus, mas os quadros e outros bens que o Estrela tinha, a gente perdeu. Se eu não estou enganado, o troféu de 59 está com um ex-presidente, Marcos Macena, que ele ficou para recuperar. Parece que esse de 59 está com ele, acho que é o único que está faltando. Mas falta fazer uma melhoria, porque estão muito deteriorados. Mas a gente recuperou quase todos”, disse.

Prédio onde funcionou a sede do Estrela, pertence hoje à Igreja

A reportagem procurou Gledson Castro, o Estaca, para dar a sua versão sobre o que aconteceu em seu mandato que fez com que a igreja pedisse de volta o prédio da sede, porém o mesmo não foi encontrado. Já a igreja se recusa a falar sobre o assunto, visto que o novo vigário assumiu recentemente e alegou desconhecer o assunto.

Quinca (azul) no encontro em 2014

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MEMÓRIAS Dentro de campo foram poucas conquistas. Um título estadual aqui, outros campeonatos amadores ali e só. Porém, engana-se quem pensa que o Estrela do Mar Esporte Clube foi um clube fracassado. Se dentro das quatro linhas muitos troféus não foram levantados, o mesmo não se pode dizer fora delas. O verdadeiro legado do Estrela não está em uma sala de troféus e sim no coração de quem por ali passou. Foram muitas histórias vividas naqueles muros da Rua Prefeito Osvaldo Pessoa, no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa, Paraíba. Inúmeros jovens por ali passaram e não conseguem esquecer daquele campo, da mesa de bilhar, das brincadeiras dentro e fora do gramado, do saudoso frei Albino e também das inúmeras “cachaçadas” que ali tomaram, por que não? Hoje, toda essa memória fica apenas na cabeça dos que por ali passaram. Várias foram as gerações. Alguns, já nem estão mais entre nós. Os que ainda estão vivos, jamais se esqueceram dos momentos que passaram na sede do clube mariano. E para não deixar estes momentos serem esquecidos, um dos ex-frequentadores do Estrela do Mar, Pilunga, decidiu criar, juntamente com outros amigos, uma associação no bairro de Jaguaribe. O local é uma casa na rua 1º de Maio, onde todos os sábados os que passaram pelo Estrela e os que não passaram se reúnem para tomar cerveja, tocar e cantar algumas músicas e, principalmente, relembrar o passado. O local é bem simples, fica no quintal de uma casa. Quando se passa pelo corredor, já se consegue ouvir as canções que vêm lá do fundo. O repertório é vasto, porém bem antigo. Nas cordas vocais e do violão são entoados Benito de Paula, Fernando Mendes, Lupicínio Rodrigues, Ângela Maria e outros grandes nomes que outrora já fizeram sucesso, assim como o Estrela do Mar. Quando se chega ao quintal, logo se vê a simplicidade do local. Logo de cara se vê dois avisos. A primeira mostra onde é a área dos fumantes. O segundo diz: “A PARTIR DESTA DATA FICA (29/10/14) PROIBIDA A ENTRADA COM BEBIDAS QUE SÃO COMERCIALIZADAS NESTE LOCAL – A DIRETORIA”, assim mesmo, em letras garrafais. No canto esquerdo, ficam as mesas. Não muitas, no máximo uma meia-dúzia. Nas paredes, a história. São várias fotos, atuais e antigas, todas remetendo ao Estrela do Mar. No fundo, bem escondido ficam alguns dos troféus conquistados pelo clube mariano. Todos

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Troféus ficam em estante ao lado de televisão antiga e garrafas de cachaça

empoeirados, em cima de uma estante velha, disputando lugar com algumas garrafas vazias de cachaça. As cores predominantes do local são uma clara referência ao Estrela do Mar: azul e branco. Os músicos estão em seus lugares com seus violões e microfones. A música é alta e ecoa por todo o local, que nem é lá tão grande. Ao fundo fica o bar, bem ao lado da estante dos troféus. E ele tem um guardião. É Pilunga. Um sujeito calmo, de passadas bem lentas e uma voz tranquila. Afinal de contas, ali não tem com o que se estressar. É um reduto de calma e resgate do passado. Pacientemente, ele atende todos os frequentadores do local. Alguns, a certa altura, já estão até um pouco ébrios. Nada que tire a calma do velho Pilunga. A conversa é ali mesmo, na frente do bar. Até chamo para irmos para um


local menos barulhento, mas a resposta vem logo em seguida: “não posso sair daqui. Tenho que ficar aqui no bar, porque vez ou outra alguém vem pedir algo”. E era verdade. Fomos interrompidos algumas vezes para que ele pudesse ir pegar uma “branquinha” ou uma cerveja para um dos clientes. São poucos. Não passam de dez. Mas ali todos têm histórias para contar. E para ouvir. Quando começo a conversar com Pilunga, logo se forma uma roda ao nosso redor para ouvir também o que aquele senhor tem a falar sobre o Estrela do Mar. A fala, como já disse, é mansa. O olhar parece meio perdido no tempo. Só parece. Na verdade, o que se pode perceber é que ao me contar a sua história, Pilunga consegue visualizá-la simultaneamente. De repente, um sorriso no meio do nada. Pausa para um suspiro. E voltam os relatos. São muitas histórias, de quem viveu intensamente boa parte delas. A emoção é clara, visível aos olhos. E como quase que em sintonia, Fernando Mendes é interpretado no violão e ao fundo surge a música: “Você não me ensinou a te esquecer”. A trilha sonora perfeita. Pergunto a ele qual a falta que o Estrela faz para ele e para todos do bairro. A resposta é aparentemente fria, mas os olhos marejados denunciam a saudade. “Está fazendo muita falta o Estrela, não deveria ter acabado. Pelo menos deveríamos poder usar aquela sede, que inclusive fomos nós que construímos. Eu mesmo carreguei cimento para fazer as placas. Eu e muitos outros. Foi na luta. Trabalhamos no campo também, que ele era pequeno e a gente aumentou, ajudamos na plantação de grama, foi a turma ajudando... É impossível falar de Jaguaribe sem falar do Estrela. Jaguaribe tem o Estrela no meio. Jaguaribe é Estrela e Estrela é Jaguaribe. O Estrela movimentou muito isso aqui, infelizmente a gente nasceu para

Na geladeira enferrujada, uma lembrança ao momento mais importante do Estrela do Mar

morrer e o padre morreu. Morreu o padre, morreu o Estrela, mas a vida é essa mesmo, a gente não veio para ser semente. O bom das coisas é enquanto estão acontecendo, nada é para a eternidade, o bom é fazer demorar o máximo possível”, recordou.

Carrinho é homenageado na Associação Filhos da Cruzada pelos seus 80 anos

Entre uma pergunta e outra, o velho Cláudio, ou Pilunga, é interrompido para atender um cliente. Perguntei então como surgiu a ideia de criar a associação, que leva o nome Filhos da Cruzada. “A gente começou se reunindo lá no Mercado Central, o pessoal do Estrela e outros amigos nossos também. Começamos a frequentar e passou a ir cinco, seis pessoas, depois dez, 15, 17, aí achamos melhor alugar uma casa em Jaguaribe, perto da igreja, para se reunir também. Foi quando surgiu isso aqui. Alugamos essa casa aqui, já que o dono já passou pelo Estrela também e estamos por aqui há mais de três anos e todo sábado é isso aqui que você está vendo. Vem a turma do violão, dos cantores, das bebidas e do papo também, às vezes tem aqui cinco ou seis só falando de futebol. Tem uma diretoria, mas sempre tem que ficar um na frente e aí eu fico. Eu moro no Cabo Branco, mas venho aqui quase todos os dias. Quando não venho de manhã, venho de tarde e vice-versa. Aqui a gente relembra de tudo, bate papo, diz o que foi, o que fez e o que não faz. Aí sempre tem um papinho aqui de jogo, de futebol e assim vamos levando a vida. Nós criamos a associação e colocamos o nome dos Filhos da Cruzada, para não se afastar do Estrela, porque o Estrela do Mar é de onde saiu a maioria do pessoal que vem aqui”, explicou. Mas não é só Pilunga que sente saudade do Estrela. Outro que frequenta o local é Carrinho, um dos criadores do clube. Ele disse que é bom para relembrar as histórias, mas pondera que

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nunca vai ser igual à sede da Rua Prefeito Osvaldo Pessoa. “Frequento a associação sim. Hoje mesmo passei por lá, mas não é a mesma coisa não. Nada é igual ao Estrela”, disse. Outra maneira encontrada pelos exfrequentadores do Estrela para se reencontrarem e relembrarem todo o passado foi criar um evento anual com todos que já passaram pelo Estrela. Todo ano, em algum sábado do mês de dezembro, o pessoal que passou pelo clube mariano se reúne em uma festa de confraternização. Já são oito anos que o evento acontece. O último aconteceu em dezembro de 2014 no Clube Veteranos, outro local importante no bairro de Jaguaribe. O momento é de rever os amigos, relembrar as histórias e confraternizar. A cada ano, são confeccionadas camisas e acessórios

vê o cara e reencontra lá. Estamos no oitavo ano. É o momento para falar de tudo. A gente fala das peladas, do Frei Albino e de tudo mais. E é claro que ainda tem a brincadeira. Um brincando com a cara do outro e vice-versa”. Quinca, que também é um dos fundadores da associação, explicou como funciona essa festa de confraternização e a importância dela para a memória do Estrela do Mar.

Placa deixa bem claro que ali é proibido fumar

Vista geral da Associação

“Criar a festa foi uma maneira da gente trazer aquele pessoal antigo para junto, pelo menos uma vez por ano. O ano passado nós fizemos o oitavo encontro dos amigos do Estrela do Mar, tinha 157 pessoas antigas, não são pessoas novas não. Faz mais de dez anos que o Estrela acabou e a gente ainda conseguiu reunir essa quantidade de pessoas. A festa funciona única

Associação Filhos da Cruzada fica nos fundos de uma casa simples na Rua 1º de maio, no bairro de Jaguaribe

para a festa. Pilunga falou um pouco sobre este momento. “É bom demais, tem até ali uma foto do penúltimo (apontando para a parede). Vem turma que muito tempo a gente não via, mesmo morando perto, mas passa um ano que você não

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Pilunga em seu reduto - o bar da Associação Filhos da Cruzada


e exclusivamente através das vendas de camisa, não temos patrocínio. Quem tem um poder aquisitivo um pouco maior, dá um dinheirinho aqui, outro ali. Mas nesse tempo todo, nunca deu lucro. A gente faz porque a gente gosta e é uma maneira de rever os amigos e os verdadeiros frequentadores do Estrela”, explicou. Na nossa conversa, Quinca relembrou de vários bons momentos que teve na sede do clube mariano. Às vezes, a fala era até interrompida para uma respirada um pouco mais funda. A saudade estava estampada no rosto. Apesar de ter vivido várias histórias, ele destacou uma como a mais importante em sua trajetória pelo Estrela. “A importância do Estrela é muito difícil falar, porque são tantas coisas, que se eu fosse enumerar, iria passar muito tempo falando. Mas o grande marco do Estrela foi quando nós conseguimos fazer a iluminação no campo. Isto era um sonho de frei Albino e de todo os ex-

diretores, pessoas que já tinham até falecido. E nós colocamos na cabeça, eu e mais uns quatro diretores, que iríamos fazer isto e a gente tanto batalhou que conseguiu. Então no dia que foi feita essa inauguração da iluminação, foi a parte mais feliz da vida da gente, porque foi o objetivo e o sonho que foi alcançado”, relatou. São inúmeras histórias e lembranças. Saudade é palavra comum entre os ex-frequentadores do Estrela. O que um dia foi o caminho para a alegria e lazer, hoje fica apenas na memória. Memória esta que se confunde em vários momentos com a história do bairro de Jaguaribe. O clube que um dia brilhou e fez muitas pessoas brilharem, hoje vive o ostracismo e beira o esquecimento. Esta revista traz a história do Estrela, mas poderia ser também do Red Cross, do Astrea, do Cabo Branco e de tantos outros clubes que um dia já estiveram na boca de todos e hoje apenas na memória de alguns.

Cozinha e bar da Associação Filhos da Cruzada

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O FILHO PRÓSPERO Foram quase 60 anos de existência. Neste tempo, inúmeros jovens vestiram a camisa do Estrela do Mar. Alguns, já não são mais nem vivos. Outros, ainda costumam jogar aquela velha “peladinha” nos fins de semana. E no meio de tantos atletas, fica praticamente impossível cravar quem foi o melhor deles. Há quem diga que viu jogadores do nível de Pelé e Maradona vestirem as cores do clube mariano. Outros são mais comedidos, mas ainda assim afirmam que ali surgiram muitos craques. Porém, uma coisa é certa. Dos vários meninos e adultos que passaram no Estrela do Mar, um deles foi bem longe. Conquistou a Paraíba, o Brasil e o mundo. Trata-se do ex-jogador Iomar do Nascimento Alcântara, mais conhecido como Mazinho. Nascido em Santa Rita, na Região Metropolitana de João Pessoa, em 08 de abril de 1966, Mazinho chegou ao Estrela quando tinha seus 12, 13 anos. Foi levado para lá pelo seu primeiro treinador, Roberto Oliveira, que era professor de Educação Física na escola em que Mazinho estudava, em Santa Rita. Foram aproximadamente quatro anos jogando no clube mariano. De lá, ele foi defender as cores do time de sua cidade, o Santa Cruz. O escrevente Cláudio Humberto, hoje com 48 anos, amigo de Mazinho até os dias atuais, lembra bem de quando eles jogavam juntos na infância. “Eu lembro que a gente tinha uns 12 para 13 anos quando ele chegou. A nossa diferença de idade é de apenas um ano. Lá no Estrela ele jogava futebol de salão de manhã e futebol de

Mazinho exibe orgulhoso os seus filhos

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campo de tarde. Lembro que era difícil para ele vir de Santa Rita para Jaguaribe. Quando Roberto Oliveira não ia busca-lo lá, ele vinha de ônibus de Santa Rita até a rodoviária de João Pessoa, e de lá ia andando até o Estrela. No caminho, ele ia comendo os jambos que achava na rua. Era como se fosse o café-da-manhã dele”, relembrou. Após uma breve passagem pelo Santa Cruz de Santa Rita, Mazinho foi levado pelo treinador Roberto Oliveira para fazer um teste no Vasco da Gama no início da década de 1980. Lá ele foi aprovado e permaneceu no clube até o ano de 1990. No Vasco, o paraibano conquistou os Campeonatos Carioca de 1987 e 1988, além do título do Campeonato Brasileiro de 1989. Também pelo Vasco, ele conquistou o troféu Bola de Prata (premiação da Revista Placar que coroa os melhores jogadores do Brasileirão de cada temporada) nestes três anos. Em 1987, ele foi eleito o melhor lateral-esquerdo do Brasil. Feito repetido em 1988 e 1989. Ainda no fim da década de 1980, Mazinho começou o que viria a ser uma passagem de sucesso pela Seleção Brasileira. Em 1988, ele ficou com a medalha de prata nas Olimpíadas de Seul, ao lado de outros que viriam a ser grandes nomes do futebol brasileiro, como Romário, Bebeto e Taffarel. Em 1989, o atleta que havia saído de Santa Rita, conseguia o seu primeiro título com a camisa canarinho: o da Copa América, em edição realizada no Brasil. Jobério Pereira Martins, o Quinca, que já falamos anteriormente, foi um dos treinadores de Mazinho no Estrela do Mar e falou sobre seu início de carreira e o comparou com outros atletas da época que também passaram pelo clube mariano. “Vou te revelar um segredo: Mazinho foi meu atleta. Eu fui treinador dele, quando ele jogava futebol de salão pelo Santos e pelo Assex e jogava futebol campo pelo Estrela. Várias vezes, nós fomos, eu e o professor Roberto Oliveira busca-lo na feira de Santa Rita, onde o pai e a mãe dele eram feirantes. No futebol, nem sempre o melhor aparece. Mazinho era uma pessoa humilde, que jogava como tantos outros. Eu vi pessoas de qualidade, talvez até melhor que ele, mas não tiveram oportunidade que Mazinho teve. Ele vivia aqui com a gente e de uma hora para a outra, o Vasco veio jogar aqui e Roberto Oliveira conversando com o pessoal, disse que tinha um jogador que poderia servir para o Vasco. E ele foi falar com Roberto Dinamite na época e Roberto Dinamite o levou para o Vasco e hoje Mazinho é o que é. Não é desmerecendo, pois ele é um


tetracampeão, é uma pessoa de qualidade e foi um craque, mas há pessoas no Estrela que se tivessem oportunidade, não vou dizer que seriam um Mazinho da vida, mas eles seriam com certeza, profissionais de qualidade”, explicou. Em 1990, o Brasil ficava pequeno para Mazinho. O jogador foi convocado para disputar a sua primeira Copa do Mundo, que aconteceria na Itália. A campanha no Mundial não foi boa e o time acabou eliminado nas oitavas de final pela Argentina, o que viria a ser conhecido como Era Dunga. Mas foi exatamente neste ano que Mazinho teve sua primeira transferência internacional. O jogador foi defender as cores doLecce, justamente na Itália, onde ocorrera a Copa do Mundo. Lá, ele ficou apenas uma temporada. No ano seguinte, em 1991, ele foi transferido para a Fiorentina, também na Itália. Em 1992, ele voltou ao Brasil para compor um dos times que mais encantaram o país naquela década: o Palmeiras. No Verdão, ele ficou até 1994 e conquistou dois Campeonatos Paulista, em 1993 e 1994 e um Campeonato Brasileiro, em 1994. 1994 não marcou apenas a conquista de mais um Brasileirão para Mazinho. Naquele ano, ele iria conquistar o maior título de sua carreira. No dia 17 de julho daquele ano, Mazinho, atuando agora no meio de campo, e toda a Seleção Brasileira conquistariam a Copa do Mundo, realizada nos Estados Unidos. Aquele seria o quarto título da seleção canarinho, que ainda viria a vencer mais um, em 2002. Após esta conquista, Mazinho ainda passou por muitos times, como Celta de Vigo, onde é ídolo até hoje, até encerrar a carreira no Vitória-BA, em 2001. Hoje, ele é empresário e cuida da carreira dos filhos Thiago e Rafinha Alcântara, ambos jogadores de futebol. O primeiro defende o Bayern de Munique e o segundo atua no Barcelona. Para Cláudio Humberto, toda essa trajetória é justa e já se vislumbrava isto nos seus primeiros passos no Estrela do Mar. “Ele jogava ali no meio de campo, uma espécie de camisa 8. Ele já era diferenciado. Já dava para ver isto. Se não fosse, não iriam leva-lo para o Estrela. Ele merece tudo isto”, finalizou. A reportagem entrou em contato com Mazinho inúmeras vezes, porém não foi respondida até o fechamento desta edição.

Mazinho no Estrela

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Estrela do Mar E.C  

Do Brilho ao Ostracismo

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