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MÚSICA. Sérgio Veloso prefere a dúvida. Após duas décadas intensas –

Grammy faz homenagem ao maestro Tom Jobim, morto em 1994. B7

primeiro à frente do Mestre Ambrósio e depois na Fuloresta do Samba, com músicos do interior de Pernambuco –, aos 42 anos Siba travou

MARCOS ISSA/ARGOSFOTO

uma luta contra a estagnação e os perigos do comodismo artístico. O objetivo? Olhar para si mesmo, buscar respostas e reinventar-se como artista, compositor. Avante, disco construído em torno de sua volta à guitarra, expressa bem isso tudo, a reunião das várias facetas de um criador inquieto. Em entrevista por telefone, o compositor contou à Gazeta os detalhes que permearam essa jornada. Vale a pena conferir

Domingo 12/02/2012

TALITA MIRANDA/DIVULGAÇÃO

O SALTO DE SIBA

Mirando o alto e deixando para trás tudo, Siba colhe os frutos da reinvenção criativa no seu 1º trabalho solo

RAMIRO RIBEIRO REPÓRTER

Coragem A necessidade atávica de sair do lugar e as dúvidas sobre por quais caminhos enveredar foram carregadas de dor e aflição. Sair da zona de conforto, porém, não o amedrontou

Parar, voltar, seguir em frente. A inquietude fez morada em Siba, o músico pernambucano que somente agora, após 20 anos de estrada, lança seu primeiro trabalho solo. Não que antes de Avante houvesse sossego: pelo contrário, já no início de seu caminhar à frente do Mestre Ambrósio, nos anos 90, Sérgio Veloso encarou o desafio de retrabalhar a música regional na onda do manguebeat. Mais recentemente, há dez anos os ventos o levaram de volta à zona da mata pernambucana. O pouso foi na Nazaré da Mata dos pais e avós, da infância ao lado dos primos. Da união com o Mestre Biu Roque e artistas locais surgiu a Fuloresta. A imersão na ciranda e no maracatu de baque solto resultou em dois discos aclamados e num giro pelo mundo. E aí o sopro da mudança veio mais uma vez, e Siba parou. A necessidade atávica de sair do lugar e as dúvidas sobre por quais caminhos enveredar foram carregadas de dor e aflição. Sair da zona de conforto, porém, não o amedrontou. “O desconforto da inércia, do permanecer numa coisa que já não me satisfaz plenamente, é muito maior que o desconforto do desafio, da dúvida, do questionamento. Esse disco, especialmente, teve uma gestação muito difícil, conflituosa e cheia de questões. Foi, de certa forma, sofrido – até fisicamente –, mas ainda assim é melhor do que se estivesse me sentindo estagnado, porque seria a negação total do sentido do que tenho de procurar fazer como artista”. O caminho foi voltar aos instrumentos de corda, o que começou a ser

ensaiado em Violas de Bronze, de 2009, uma parceria com o violonista Roberto Corrêa. Após ouvir um disco de Fernando Catatau e seu Cidadão Instigado, Siba encontrou um norte possível. “Tentei pegar a minha vida como matéria-prima e fazer um trabalho metade confessional e metade como uma maneira de me resolver comigo mesmo, em relação ao meu trabalho”. A guitarra serviu como ponto de partida e veículo para trilhar o mapa do caminho criativo. Liquidificador de influências, o disco é, ao mesmo tempo, síntese de uma trajetória e preparação para um novo salto, algo bastante explícito na faixa que abre o trabalho. “Para mim, Avante é um disco como qualquer outro que fiz antes. É um disco de rima, um texto montado num veículo musical. E o veículo musical às vezes muda”. A influência de Catatau fica evidente nos arranjos e no timbre das guitarras. O cearense assina a produção do disco e o solo em Qasida, uma das mais confessionais do registro, sobre o reencontro com um passado distante. “Fala de uma sensação de desconexão, da impossibilidade de retomar os lugares da forma como eles já foram no passado. Você retorna aos lugares e não encontra mais as pessoas, aquilo que era de um jeito já não é mais”. A dobradinha A Bagaceira e Canoa Furada, que já fazia parte dos shows da Fuloresta, chega destilando bom humor com alta voltagem carnavalesca. Também dos tempos vividos na mata norte de Pernambuco é a ciranda desconstruída Brisa. O instinto aguçado que estimula a busca de novas possibilidades sonoras transparece na formação pouquíssimo usual da ban-

Tradução Liquidificador de influências, Avante é, ao mesmo tempo, síntese de uma trajetória e preparação para um novo salto, algo bastante explícito na faixa que abre o trabalho

da. Além de Samuel Fraga na bateria (nos shows, substituído por Serginho Machado), Léo Gervázio (tuba) e Antônio Loureiro (teclados e vibrafone) são o elo das referências, a música de rua pernambucana encontrando a sonoridade da África urbana, elétrica. A música do Congo marca o arranjo da delicada Bravura e Brilho, dedicada ao filho Vicente, que aparece na capa do disco ao lado do pai, e também serviu de inspiração para Cantando Ciranda na Beira do Mar. A instrumental Mute funciona como um intervalo, guitarra e viola dialogando sobre o bloqueio e o medo de perder a voz. O tema continua em Um Verso Preso, um tiro que a arma não disparou, onde o convidado Lirinha declama sobre um ponteio de viola. Avante, a música, é o auge e o resumo de tudo. A resolução dos conflitos, o grito sufocado sobreposto por um quase solo de vibrafone e guitarra, que ronca alto. “Eu sempre prefiro a dúvida. Duvidando, você está sempre mais perto de encontrar a contradição em alguma verdade do que tendo muita certeza. A certeza não leva a lugar nenhum”. Paralelamente aos temas pessoais, a capacidade de observar e absorver o que acontece à sua volta – e pelo mundo – rendeu a viciante Ariana, embebida em sonoridade brega setentista. Surpreende saber que a balada romântica versa sobre soldados afegãos. “A história recente (e a nem tão recente) do Afeganistão começou a me chamar muito a atenção. Um dia, soube de imagens de ex-soldados afegãos envolvidos com o vício do ópio, o que me chamou atenção. As pessoas que, no meio dessa cultura de levar a guerra até o fim, em algum momento desis-

tiram e se viram presas numa situação sem saída sempre me tocaram muito. A situação do Afeganistão me toca até hoje”. Ao vivo, a faixa é a que soa mais modificada. No entanto, foi a única a ganhar bis no show de lançamento realizado no centro histórico do Recife, no último dia 28. No mais, a transposição fiel da sonoridade alcançada no disco para o palco foi marcada por um bom público, que correspondia e até surpreendeu Siba ao cantar a maioria das novas canções. Trunfo guardado na manga, A Bagaceira apareceu já na parte final, que contou com a participação de Mané Roque e de Cosmo Antônio, membros da Fuloresta. Em Avante, há um artista sem medo de se arriscar, inimigo da zona de conforto que já engessou carreiras promissoras, agora devidamente aprisionadas pela facilidade do sucesso. As respostas que Siba encontrou ao longo de sua jornada o colocam na linha de frente da música brasileira. Num terreno onde o rock se mistura ao maracatu, e o pop é genuinamente popular. ‡ Leia mais nas págs. B2, B4 e B5

Serviço Disco: Avante Artista: Siba Lançamento: independente Preço: R$ 20, em média; disponível para download em mundosiba.com.br


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GAZETA DE ALAGOAS, 12 de fevereiro de 2012, Domingo

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Franco e articulado, o cantor, compositor e instrumentista recifense conta à Gazeta como lida com os desafios e fala de sua visão sobre a música, a vida e o mundo

“EU SEMPRE PREFIRO A DÚVIDA” TALITA MIRANDA/DIVULGAÇÃO

Da infância entre a cidade e o sítio à descoberta dos sons na adolescência, o imaginário de Siba se alimenta de modo constante

Siba prefere o desafio dos caminhos desconhecidos às facilidades de percorrer uma trilha que já desbravou

RAMIRO RIBEIRO REPÓRTER

Gazeta. Quando você percebeu que precisava se desafiar? Como Avante começou a surgir? Siba. Foi todo um processo de buscar respostas. Tudo muito subjetivo. Tem a ver com olhar para você mesmo, como artista e como pessoa; a sua posição diante do seu tempo e do seu mundo, e as questões de sua vida pessoal que interferem nisso; a estética relacionada a essas posições que você toma. É tudo bem complexo e misturado. Tentei pegar a minha vida como matériaprima e fazer um trabalho metade confessional e metade como uma maneira de me resolver comigo mesmo, em relação ao meu trabalho. Ruptura, continuação, autoconhecimento, guitarra, música regional. Como você define Avante? Seria possível defini-lo? É engraçado porque, para mim, Avante é um disco como qualquer outro que fiz antes. É um disco de rima, um texto montado num veículo musical. E o veículo musical às vezes muda. O texto também muda, mas ele tem esse lugar central no processo de vir a ser, no sentido que a obra tem. Para mim, não tem ruptura nenhuma; é uma continuação do meu trabalho. Nesse momento, decidi fazer com esse formato musical. Ao mesmo tempo, sei que dialogo num contexto de um país em que a separação entre cultura popular e cultura pop é grande, onde as pessoas entendem tudo o que é ligado à cultura popular e a uma identidade mais brasileira como uma coisa separada e, muitas vezes, representando um passado; e tudo o que for feito de alguma forma dialogando mais com o mundo da música pop, do rock, ou de uma música mais elétrica, é entendido como algo mais atual. Acaba que eu dialogo com isso de algum jeito, porque não tenho como mudar essa concepção. Mas, para mim, essas coisas não estão separadas. Continuo cantando maracatu, enquanto estou fazendo um disco que tem guitarras. Para mim, isso tudo faz parte de uma mesma coisa. Acredito que o seu trabalho acabe tendo a função de aproximar esses conceitos, esses mundos. Talvez. Não é meu objeti-

vo como finalidade primeira. Mas, claro, de alguma forma acabo discutindo esses conceitos. Espero estar cumprindo alguma função em relação a isso.

Por mais que seja necessá- “Estou seguindo o rio, mudar pode trazer almeu camiguns desconfortos. Como nho, fazenvocê lida com os seus? do o que O desconforto da inércia, tenho que do permanecer numa coi- fazer. Tensa que já não me satisfaz tando dar plenamente, é muito mai- um passo or que o desconforto do atrás do desafio, da dúvida, do outro” questionamento. Por mais que seja dolorido e que tenha sido difícil. Esse disco, especialmente, teve uma gestação muito difícil, conflituosa e cheia de questões. Foi, de certa forma, sofrido – até fisicamente. Retomar um instrumento, da forma como foi com a guitarra, foi sofrido. Isso tudo traz uma dose de sofrimento, mas ainda assim é melhor do que se estivesse me sentindo estagnado, porque seria a negação total do sentido do que tenho de procurar fazer como artista. Procurei me tornar artista porque era uma maneira de não me sentir estagnado na vida. Então, estou seguindo o meu caminho, fazendo o que tenho que fazer. Tentando dar um passo atrás do outro. Sua produção musical é permeada de elementos e questionamentos filosóficos. Você costuma mesmo pensar nas ‘coisas da vida’, mesmo que não de uma maneira ‘teórica’? Acho que todo mundo tem que pensar um pouco. A vida pode parecer simples, natural e direta, mas está sempre impondo questões para a gente. Não é nada lógica, nem justa, nem somente bela. Muito do que é belo traz o feio, e muito do que é bom traz alguma coisa do mal também. Sei lá, acho que somos obrigados a estar pensando e nos

questionando, se não ficamos rodeados de certezas, e a vida não necessariamente as comprova de um jeito muito claro, sejam elas filosóficas, morais ou religiosas. Eu sempre prefiro a dúvida. Acho que a dúvida é uma bela forma de religião. Duvidando, você está sempre mais perto de encontrar a contradição em alguma verdade do que tendo muita certeza. A certeza não leva a lugar nenhum.

Como foi a sua infância? Que lembranças mais distantes voltam à sua cabeça? E a adolescência? Qasida aborda esses temas? É, a letra de Qasida fala de uma sensação de desconexão, da impossibilidade de retomar os lugares da forma como eles já foram no passado. Você retorna aos lugares e não encontra mais as pessoas, aquilo que era de um jeito já não é mais. Eu tive uma infân-

cia muito rica e privilegiada. Desde que nasci, vivi entre dois mundos bem distintos. Um era o mundo do Recife, da capital, dos subúrbios. Mesmo numa cidade grande, ainda tinha muito da natureza e da liberdade – que eram quase as do interior –, mas era a cidade grande, com tudo o que ela possibilita. O outro mundo era a minha família inteira, que vem de origem rural e com a qual sempre me mantive muito conectado. Então, essa experiência de crescer sabendo que as pessoas vivem de maneiras muito distintas, que os meus primos tinham uma vida tão diferente da minha e que eu podia circular entre esses dois mundos me possibilitou um tipo único de experiência formadora. Eu cresci entre o Recife e o agreste do pastoril dos meus tios e avós, que eram agricultores e criavam gado. Essa foi minha

infância, basicamente. Me trouxe não só esse jeito de olhar o mundo de uma maneira mais aberta para a alteridade, para a possibilidade do outro vir a ter alguma coisa que faça sentido para você, como também uma, digamos, ‘ecologia musical’ que estava ali ao meu redor, que era a música do Recife, a música de rua, do carnaval, do São João; e também a música do agreste, toda aquela coisa que se chama de cultura popular ao redor. Quando cheguei aos 14, 15 anos, entrou um novo dado, que era o rock, depois o jazz e, eventualmente, a música do mundo inteiro. Mas em algum momento eu comecei a querer juntar esses pedaços. E aí esse disco que lanço agora tem um pouco de um retrato mais complexo do que faz parte da minha cabeça musical, das coisas que ouço e que me inspiram. ‡

“Esse disco que lanço agora tem um pouco de um retrato mais complexo do que faz parte da minha cabeça musical, das coisas que ouço e que me inspiram”

DIVULGAÇÃO

FERNANDO CATATAU PRODUTOR

“Em qualquer coisa que eu faça, tenho as coisas em que acredito. Acho que é nisso que me baseio”

Catatau nas paradas Guitarrista, compositor e líder da banda Cidadão Instigado, o cearense Fernando Catatau propaga sua estética inconfundível nos sons da nova música feita hoje no Brasil. Direta ou indiretamente, seu trabalho influencia artistas, estilos e conceitos. Quando o assunto é Pernambuco, Catatau toca nas bandas de Karina Buhr e Otto, com quem aliás está gravando The Moon 1111. A amizade com Siba vem de longe. “Conheço o Siba desde 1994. Na época eu morava aqui em São Paulo. Ele veio tocar com o Mestre Ambrósio quando a gente se conheceu. Ficou hospedado lá em casa”. O segundo disco do Cidadão, E o Método

Túfo de Experiências, de 2005, serviu como uma espécie de norte para o pernambucano se decidir em meio à encruzilhada criativa. Daí para o convite e a parceria, foi um passo natural. “Ele tinha umas ideias e me chamou para produzir, até pelas coisas que já fiz. Foi massa”, diz Catatau, que fez as vezes de ponte na volta de Siba à guitarra: “Eu o vi tocando guitarra, depois largando. Fui eu, inclusive, que vendi a guitarra dele da época do Mestre Ambrósio. Mas, ao mesmo tempo, falava para ele voltar a tocar. Sempre dei um gás nisso, fiquei insistindo. Ele voltou agora e me chamou para participar do projeto. Já tínhamos feito algumas coisas antes, tocamos

juntos no projeto Compacto Petrobras. Aos poucos, começamos a caminhar para isso. Ia tocar baixo no início, mas ele foi mudando a direção do disco”. O músico deve marcar presença, eventualmente, em alguns shows na turnê de Avante, se a agenda lotada permitir. É Catatau quem assina a produção do novo álbum do mutante Arnaldo Baptista. A lista é grande: “Estou trabalhando na pré-produção do disco do Cidadão Instigado, toco com a Karina Buhr e com o Otto. Estamos gravando o próximo disco dele, que deve estar na metade, e ainda estou gravando meu disco instrumental. Tem várias coisas. Vou fazendo tudo ao mesmo tempo”, conta,

afastando com humildade o possível rótulo de autor de uma sonoridade típica, particular. “Não me vejo como um produtor que traz a sonoridade nordestina. Só produzi os meus discos do Cidadão, do Arnaldo Antunes, da Karine Alexandrino, o do Siba, e agora o do Arnaldo Baptista. Não produzo os discos do Otto nem da Karina Buhr, apenas toco com eles. O que tenho é a minha particularidade. Produzir, tocar, em qualquer coisa que eu faça tenho as coisas em que acredito. Acho que é nisso que me baseio. Se mostra que sou nordestino ou se não, é da visão de cada um. Mas que eu sou, eu sou. Nunca vou deixar de ser”. RR


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GAZETA DE ALAGOAS, 12 de fevereiro de 2012, Domingo

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Na segunda parte da entrevista, Siba explica como se deu a reaproximação com o instrumento e fala da importância da Fuloresta – e de Mestre Biu Roque – em sua trajetória

NA VOLTA À GUITARRA, MIL E UM CAMINHOS RAMIRO RIBEIRO REPÓRTER

Gazeta. Como se deu seu encontro com Fernando Catatau, que assina a produção de Avante? Siba. Ele seria a pessoa mais próxima de mim nesse universo. Temos uma relação de amizade há muito tempo. Essa coisa de retomar a guitarra não foi só retomar um instrumento, veio junto toda uma problemática. Tem a questão da adaptação física, técnica, mas também outro lado, que é a cultura da guitarra. Ela é um instrumento que não se acaba em si. Vem acoplada numa tecnologia que lhe complementa, o uso de amplificação e pedais de efeito. Um mundo muito diverso que possibilita mil caminhos; cada um determina um tipo de resultado diferente. Precisei reconstruir e dinamizar a minha cultura de guitarra, que estava hibernando. Acho que a figura de Catatau me ajudou muito nessa reaproximação, porque temos uma base muito em comum, que é o rock dos anos 60 e 70. Ele foi um grande interlocutor da minha volta à guitarra, encurtou muitos caminhos na minha reaproximação com o instrumento e com essa cultura ao redor dele. Como foi ter o disco produzido por ele? Ele foi um parceiro para encontrar a sonoridade correta, se é que existe isso. Quando Catatau entrou na parada, já tínhamos um nível de concepção muito avançado, em termos formais. Mas ele teve um papel definidor das sonoridades, da forma de gravar, para que o disco tivesse o som que hoje ele tem. Me ajudou a formatar o som da banda. Como surgiram A Bagaceira e Canoa Furada, faixas com potencial de hits carnavalescos? Elas têm a ver com o processo todo. Tentar tirar da minha vida a matéria-prima para o texto. São bem autobiográficas, têm uma pegada mais humorística, são tentativas de rir de mim mesmo. Uma conta, com muito exagero, esse meu começo de vida como folião no Recife. A outra tem essa coisa de buscar a capacidade de rir de si mesmo numa situação difícil, que todo mundo pas-

sa na vida. Às vezes, quando não tem solução, é melhor rir um pouco do que se desesperar. Elas vêm de um pouco antes, têm a ver com a Fuloresta, mas estão nesse processo de tentar tirar de mim mesmo o material para o texto.

É verdade que Ariana teve como inspiração o Afeganistão? É verdade. A história recente (e a nem tão recente) do Afeganistão começou a me chamar muito a atenção. Desde a invasão americana, aquela desproporção de forças. A maior potência do mundo entrando no lugar mais oprimido do mundo, que vinha da opressão do império inglês. Primeiro, passou pela opressão de Alexandre, O Grande, império otomano, império inglês, depois ainda a opressão da Rússia, o Talibã. Aí vêm os Estados Unidos... Uma história de muito esmagamento e, ao mesmo tempo, muita força de resistência. Um tipo de código de honra que, por mais distante dos valores que a gente tem hoje como norteadores do tipo de civilização que a gente tem, não deixa de me causar espanto porque, de alguma forma, ele sobreviveu no lugar de onde eu venho, no tipo de mentalidade de honra que aprendi com meus pais e meu avós, num mundo semiárido. Toda essa coisa da luta honrada, mesmo sem nenhuma esperança, me chamou muito a atenção. Um dia, soube de imagens de ex-soldados afegãos envolvidos com o vício do ópio, o que me chamou a atenção. As pessoas que, no meio dessa cultura de levar a guerra até o fim, em algum momento desistiram e se viram presas numa situação sem saída sempre me tocaram muito. A situação do Afeganistão me toca até hoje. Isso demonstra também que você usa muito do que vê, lê e pesquisa como inspiração para o seu trabalho. É assim mesmo? Faz parte, também. É você ficar se fertilizando das coisas. Não sou muito sistemático em termos de pesquisa, mas costumo tentar me rodear de coisas que me interessam em algum nível. Hoje, a gente lida com um dia a dia muito cheio de tarefas e informação. Mil celulares, in-

ternets e vários facebooks e coisas para lidar. Mesmo assim, vamos tentando, ao mesmo tempo, tirar algum tipo de conteúdo que exija um ritmo mais lento e no qual você possa se aprofundar um pouco mais. E a leitura é um bom campo para isso, acho, porque ela te obriga a reduzir o ritmo e processar as coisas com mais calma.

No texto de divulgação do disco, você usa a expressão “punk rock baque solto”. Quais os possíveis caminhos que unem o maracatu ao rock? Na verdade, nenhum. É uma invenção da minha cabeça. Eu vim do rock, desse gosto por uma música de pegada mais agressiva. Quando eu me cansei do rock como o caminho, a verdade e a vida, saí procurando e percebendo que, no meu lugar, havia outros caminhos. Um dos primeiros com que me deparei foi o do maracatu de baque solto, que tinha a pegada intensa e agressiva do rock. O baque solto, para mim, foi uma revelação. Desde então, mudou a minha vida. Sempre tento ressaltar esse lance, porque às vezes o senso comum desconecta coisas que, na verdade, estão desconectadas, mas poderiam, de alguma forma, dialogar. Acho que quem gosta de rock, de punk, poderia muito bem gostar de maracatu de baque solto, numa boa. No que o relacionamento com o Mestre Biu Roque te transformou, te acrescentou como músico? Ah, Biu Roque me ensinou tanta coisa que tenho dificuldade de formular, porque foi uma relação de amizade muito intensa, de quase 20 anos. Primeiro, ele me ensinou, como músico, a buscar uma relação com a música que era a relação dele, muito natural, orgânica, muito ‘de berço’. A entrega dele para a música era muito desmedida, sem nenhum tipo de autoanálise ou autoquestionamento. Com ele, aprendi a admirar e, depois, a buscar isso, mesmo com alguma limitação. Essa é uma lição que não tem preço, você não aprende pedindo ou perguntado, aprende porque estava perto e viu, teve a sorte de conviver. Teve também o aprendizado dele como amigo, que é outro capítulo. O tipo de sabedoria e alegria que pude ter, de convivência, de troca. Saber que você está dividindo tempo e espaço com uma pessoa que é muito especial e muito provavelmente vai partir antes de você, pela dife-

rença de idade, ensina a aproveitar o tempo presente com uma intensidade maior.

A Fuloresta pode voltar? Ela continua recebendo convites para se apresentar por aí? A Fuloresta não parou. É uma banda que está ativa, tem um show supermaduro, tem rodado. Continua tendo uma demanda forte de shows. Ela continua. Em algum momento, eu vou mexer naquele conceito ali, tentar trazer uma renovação para mim mesmo. Mas, por enquanto, ela continua. Você morou quanto tempo em Nazaré? Nesse processo da Fuloresta, foram quase cinco anos. Onde tive uma base lá, fixa, em função da Fuloresta e do maracatu de baque solto. Mas minha história com a mata norte e Nazaré está somando 20 anos agora. Aquele momento em que fui morar lá é só o momento mais intenso de uma relação que começou de um jeito, teve um mergulho e hoje continua de outro jeito, só não estou lá o tempo inteiro. Não separo muito esses momentos, não. É o fluir da vida que, às vezes, te coloca num lugar e depois em outro. Mas não tem que, necessariamente, quebrar a conexão que você tem com as pessoas. É como ter um grande amigo que você não vê, mas sabe que, quando encontrá-lo, vai ser sempre igual. A mata norte é assim, é uma coisa que existe dentro de mim. Quando chego lá, vou encontrar tudo mudado, mas do mesmo jeito. ‡

A relação de quase 20 anos com a cultura da zona da mata pernambucana foi decisiva para o compositor: “O baque solto, para mim, foi uma revelação, mudou a minha vida”

PRISCILLA BUHR/DIVULGAÇÃO

“Essa coisa de retomar a guitarra não foi só retomar um instrumento, veio junto toda uma problemática”, observa o músico


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Domingo, 12 de fevereiro de 2012, GAZETA DE ALAGOAS

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Fechando o bate-papo com a Gazeta, Siba fala de sua suas influências musicais e destaca os discos – de conterrâneos – que têm feito sua cabeça

ENTRE PERNAMBUCO, A ÁFRICA E O MUNDO

DIVULGAÇÃO

A moderna música africana funcionou como estímulo para a mistura que Siba faz entre os sons regionais e as linguagens universais

“Me interessei pela música da África há muito tempo”, conta ele RAMIRO RIBEIRO REPÓRTER

Gazeta. Pernambuco tem sido apontado como a ‘locomotiva’ do desenvolvimento no Brasil. Como você, que conhece a realidade da zona da mata pernambucana, enxerga essa afirmação? Siba. Tem circulado muito dinheiro no estado, muita obra, muitos investimentos em estrutura. Sinto que a prioridade não é tanto a distribuição de renda e a transformação disso numa sociedade mais igualitária, mas, de uma maneira geral, tem melhorado para todo mundo. Espero que esses projetos, em médio prazo, tenham uma contrapartida de melhor educação e vida para os que estão mais embaixo, que ainda carecem de muita coisa. Principalmente no setor de educação, a gente ainda carece de um projeto que tenha um compromisso mais assumidamente sólido e de longo prazo para a transformação real do país.

E musicalmente, como está Pernambuco? Posso dizer, ironicamente, que está sem novidades. Pernambuco continua com uma saída constante de trabalhos que têm uma proposta contundente e, de alguma forma, inquieta. Nesse sentido, está igual aos anos 90, quando isso começou de maneira mais intensa. O que mudou foi o jeito de funcionar do País. Acho que nenhum lugar vai ter mais o protagonismo que o Recife teve nos anos 90, porque não tem mais essa coisa das gravadoras e da grande mídia envolvida. Agora é tudo meio igual, em todo canto. Todo mundo é independente da grande mídia, independente das grandes gravadoras, o que torna o cenário da música no Brasil muito mais fragmentado. O que é bom, porque agora, em cada lugar, você tem os artistas interessantes dali. Deixou de haver a necessidade de protagonismo de qualquer cidade ou região do país para se atingir o novo. O novo agora está em cada

um, em cada lugar. Deixou de ser importante essa separação por estados. Claro que alguns lugares têm mais ou menos produção ativa. Acho que Pernambuco, em termos de quantidade, continua tendo muita coisa saindo.

Entre os últimos lançamentos, tem algo que você ouviu com atenção e mereceria destaque? Tem. O disco do Caçapa, Elefantes na Rua Nova, acho especial. O disco do Lira, também muito especial. Os discos recentes da Eddie e do Mundo Livre S/A. É muita coisa saindo, não dou conta de ouvir tudo. Nem me considero um representante bom para dar um panorama. Mas, das coisas que ouvi, posso citar essas. São trabalhos que vêm maduros, com uma proposta definida, que dizem a que vieram.

Livros, discos e filmes Entre a poesia épica, o jazz norte-americano e filmes recentes que o marcaram, Siba lista algumas obras que fazem a sua cabeça

LITERATURA

MÚSICA

Minha leitura é muito contingenciada, depende do momento. Durante o processo de Avante, teve uma coisa muito forte de leitura de poesia épica, o que está muito presente no disco. Ao longo desse tempo, li Homero, aquela coisa da poesia épica grega me fez muito a cabeça no momento do nascimento do meu filho. A poesia de Borges, que não conhecia e foi bem impactante. Paulo Leminski. Coisas distintas, como Allen Ginsberg, também curto muito. Ao mesmo tempo, tenho interesse por poesia épica, ou cosmogônica. A poesia do começo do mundo. Gosto de uma poesia que está muito próxima da energia vital do nascimento das coisas. Essa poesia me fertiliza muito. Mas sempre me sinto falando a esmo, porque leio tanta coisa... Um favorito, entre muitas coisas, posso citar Borges. E Guimarães Rosa. Podem entrar no norte das minhas leituras.

O que está sempre presente na minha vida e ouço o tempo inteiro é jazz. Principalmente o jazz na sua fase mais inquieta, do fim dos anos 50 até o começo dos 70, quando o gênero se colocou sempre no limite da ruptura, no limite das suas propostas. Me interessa muito, estou sempre ouvindo.

CINEMA REPRODUÇÃO

A minha relação com o cinema é muito, muito informal e descompromissada. É um espaço onde procuro simplesmente a diversão e a leveza. Então, não tenho uma cultura cinéfila que justifique muitas citações. Mas, por exemplo, me causou muito impacto o último filme do Lars von Trier, Melancolia. Um filme realmente difícil de esquecer. Biutiful, do Alejandro González Iñárritu. São filmes que têm uma mensagem especial, falam as coisas por um caminho não óbvio, e me fizeram muito a cabeça.

Discografia COM O MESTRE AMBRÓSIO

∫ Mestre Ambrósio (1996)

∫ Fuá na Casa de Cabral (1998)

∫ Terceiro Samba (2001)

COM A FULORESTA

∫ Fuloresta do Samba (2003)

∫ Toda Vez que Eu Dou um Passo o Mundo Sai do Lugar (2007)

SIBA E ROBERTO CORRÊA

∫ Violas de Bronze (2009)

Agenda PARA SEGUIR SIBA NO CARNAVAL DO RECIFE

∫ Sábado (18), Festival Rec-Beat

∫ Terça (21), Polo Casa Amarela

Como começou seu interesse pela música africana? Que nomes você destacaria nesse universo? O que te influenciou? Me interessei pela música da África há muito tempo. Talvez por vir do rock, daí você chega ao jazz, do jazz ao blues, e, com um pouco de curiosidade, você chega à África. Através do reggae também, foi meio que uma consequência natural. A música moderna da África, que começa nos anos 50, a música das cidades, tem uma lição muito importante, que é o processo da música em si, e não necessariamente os seus resultados musicais. No momento da primeira grande urbanização de vários países que estavam nascendo, a mistura de pessoas que vinham de vários lugares e com vários tipos de cultura no contexto urbano e de surgimento

das identidades nacionais gerou a necessidade de uma música que se transformou em elétrica e muito misturada, que para mim serviu como referência para, lá trás, fazer o Mestre Ambrósio. Ou seja, pegar uma matéria-prima local, particular, e ao mesmo tempo pôr ela em diálogo com seja lá o que for. O que, de alguma forma, faça parte da sua formação. No nosso caso, muito rock. Esse processo foi muito inspirador para mim. Desde então, para além dessa questão da inspiração intelectual de tentar entender o processo e se fertilizar dele, tem também o lado de gostar da música e procurar me manter conectado com ela, aprendendo, descobrindo. Tive uma relação forte com a música do Senegal, Mali, Guiné. Um pouco da tradicional, mas

principalmente a música urbana. Então, é Bembeya Jazz, Super Rail Band, Ali Farka. Do Senegal, Star Number One. Mais recentemente, tive contato com uma música que eu ignorava, por simples preguiça, talvez, que é a música do Congo, tanto a atual quanto a dos anos 60 e 70. A música do Congo foi bem determinante para o som de Avante, especialmente o trabalho de Franco, o grande guitarrista formador da música congolesa moderna. Foi uma descoberta muito inspiradora.

E você já teve oportunidade de ir à África? Fui a Dakar, no Senegal. Foi uma experiência bem rica, entrar em contato com outra cultura que admirava e com a qual já tinha um mínimo de intimidade por meio da música. ‡


O salto de Siba