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TEATRO. Um encenador inquieto encontra o rock. Inspirado numa peça que marcou época em plena ditadura militar no Brasil, Rock-me passeia por hinos do estilo que se transmutou em síntese da juventude e da rebeldia, indo de Elvis Presley a Pink Floyd e de Janis Joplin a Rita Lee. Em entrevista à Gazeta, o diretor Lael Correa fala do novo espetáculo do Infinito Enquanto Truque e de sua relação com a música, além de comentar a trilha sonora da montagem num faixa a faixa revelador. Confira

RICARDO LÊDO

Com uma viagem por clássicos roqueiros, em Rock-me Lael dá continuidade a seu diálogo com a música e com o teatro

DIVULGAÇÃO

Depois de cancelar festival, Paulínia realiza mostra não-competitiva. B2

Sexta-feira 08/06/2012

MENSAGEIRO

DO ROCK RAMIRO RIBEIRO REPÓRTER

Lael Correa é um homem insistente. Ator e diretor que desde 1990 capitaneia o grupo teatral Infinito Enquanto Truque, ele não abre mão da postura crítica, mesmo combativa, no modo de enxergar o estado de coisas da arte produzida em Alagoas. “Tem que ter um pouco de limão nessa garapa. É difícil, mas alguém tem de fazê-lo. Não canso, se cansar eu morro. Ainda tem muita coisa para fazer”. E o mais novo rebento dessa inquietação criativa permanente é Rock-me, montagem que faz temporada até o final de julho no teatro do Espaço Cultural Linda Mascarenhas, sempre aos sábados, com sessões às 20h (ver serviço). A ideia de retratar a saga de uma família sertaneja e seu primeiro contato com canções dos anos 1950, 60 e 70 que se converteram em verdadeiros hinos do rock (e da cultura jovem) surgiu da proposta de homenagear a peça Hoje é Dia de Rock, do dramaturgo mineiro José Vicente de Paula (1945-2007) – fenômeno de público poucas vezes visto na história do teatro brasileiro, o espetáculo foi encenado pela primeira vez no Rio, em outubro de 1971, em pleno desbunde pós-tropicália. “A escolha do estilo musical que vai embalar o espetáculo teatral nunca é feita a priori. A peça nasce antes. Foi assim com Ensaio nº 2, onde a música era eletrônica, e também com Uma Dose de Chuva, na qual o jazz dos anos 1950 era a melhor pedida. No caso de Rock-me, que tem suas raízes em Hoje é Dia de Rock, a viagem musical não poderia ser outra”, explica Lael. A identificação com os valores e a rebeldia professados em clássicos de figuras como Elvis Presley, Janis Joplin e Jimi Hendrix fez da ‘costura’ da trilha um processo de certo modo confortável, ainda que

difícil – afinal, a oferta era interminável. Em Rock-me, há canções que acompanham Lael desde a juventude. “Ouço música o tempo inteiro. Tenho a facilidade de trabalhar em casa, então estou sempre ouvindo algo. Hoje mesmo pus um CD com mp3 que era metade Wado e metade Paulinho da Viola”, conta, revelando o gosto eclético de quem viu o alvorecer do rock brasileiro dos anos 1980 e hoje presta atenção nos novos nomes da cena, a exemplo do rapper Criolo. Com a montagem de Rock-me, Lael Correa dá continuidade a uma preferência pessoal pelo diálogo entre teatro e música, ‘comunicação’ que costuma se fazer bastante presente nas peças que produz. “Gosto da música em cena e tanto pode ser ao vivo quanto gravada. Fiz algumas peças com músicos alagoanos de tendências muito distintas, como o Aldo Jones e o Wilson Santos. É algo muito bacana quando isso é possível, e é uma pena que nem sempre possamos ter uma trilha original, pois o custo é alto e exige um envolvimento muito intenso do músico com o espetáculo”. No novo trabalho do IET, é o rádio o responsável pelo trânsito dos personagens pelas sensações e sentimentos trazidos pelas canções. “É necessário estabelecer links entre o passado e o presente para poder inventar o futuro. Especialmente numa época como a nossa, quando tudo é velozmente virtualizado e desumanizado, a vitalidade reflexiva da música e também do teatro são mais do que importantes: são necessárias”.

TRILOGIA Rock-me é o capítulo inicial de uma trilogia, e brotou na cabeça do diretor somente depois do que será sua sequência – com previsão de estreia para o segundo semestre, Poetase abordará o universo da poesia beatnik nos EUA da década de 1950, a partir

de nomes como Allen Ginsberg e Jack Kerouac. “Pensei na trilha sonora para Poeta-se... ‘E por que não fazer um espetáculo com o rock como tema?’ Na peça, Rock-me é o nome do programa de rádio por meio do qual os personagens conhecem as músicas”, anota Lael. A última parte da ‘trinca’ de espetáculos será sobre o teatro. Mas os projetos para o futuro não param por aí. Cada vez mais envolvido com as artes plásticas, Lael Correa também se encarrega de preparar a linguagem visual de suas produções – uma exposição sobre o universo do grafite e da arte de rua em Maceió está em gestação, em busca de patrocínio. Já nos palcos, o desejo do diretor é experimentar formatos pouco usuais em sua trajetória, a exemplo da comédia e do teatro infantil. Além disso, há o interesse permanente pela história de Alagoas narrada via literatura, interesse que já rendeu montagens de obras de Graciliano Ramos e Jorge de Lima. “Tenho vontade de adaptar Ninho de Cobras, do Lêdo Ivo. É ácido, irônico. Uma grande crítica à sociedade da época. Tanto que ele teve de ir embora depois. Também penso em fazer algo com o Dirceu Lindoso. Gosto muito das coisas dele”, diz Lael. Definitivamente, ficar quieto não é com ele. ‡

Serviço O quê: espetáculo teatral Rock-me, do Infinito Enquanto Truque (IET) Direção: Lael Correa Onde e quando: no teatro do Espaço Cultural Linda Mascarenhas (av. Fernandes Lima, Centro Educacional Antônio Gomes de Barros – Ceagb), até o dia 28 de julho; aos sábados, sempre às 20h Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) Informações: 8887-8795, 8800-1087 e 8826-6626

Faixa a faixa, a trilha de Rock-me LAEL CORREA ATOR E DIRETOR

“Gosto da música em cena e tanto pode ser ao vivo quanto gravada. Fiz algumas peças com músicos alagoanos de tendências muito distintas, como o Aldo Jones e o Wilson Santos. É algo muito bacana quando isso é possível, e é uma pena que nem sempre possamos ter uma trilha original, pois o custo é alto e exige um envolvimento muito intenso do músico com o espetáculo”

A seguir, Lael Correa comenta as canções que compõem a trilha sonora do espetáculo. Confira!

‡ Rock me Baby, de B.B. King, abre a peça. King é um bluesboy fundamental, base para muita pedra que rolaria depois.

‡ Elvis Presley marca presença em dois momentos da peça, com Kiss me Quick e Love me Tender. O Elvis é uma lenda bacana, imprescindível ao se contar alguma coisa sobre o rock’n’roll. E, além das extravagâncias, tinha uma voz fantástica.

nilidade despojada e uma espontaneidade quase infantil.

‡ The Beatles, claro, é obrigatório. A escolha foi Revolution, porque tem a ver com a peça, com o rock e com tudo na vida e no mundo.

‡ Led Zeppelin aparece com Dazed and Confused. Uma zoeira celestial que pontua uma cena onde o sagrado e o profano se esbarram.

‡ A música do Pink

Verve ativa Quem acompanha a trajetória de Lael Correa sabe que o diretor costuma ser implacável em suas avaliações sobre a produção teatral em Alagoas. E o cenário atual não parece animá-lo, como dá para perceber em seu comentário acerca dos espetáculos que têm ocupado nossos palcos Não vejo mais quase nada da produção local, pois já não me interesso pelo que a maioria dos grupos está produzindo. Isso é algo novo, pois sempre vi tudo o que acontecia nos palcos alagoanos. Mas a alienação é cada vez maior – e as mentiras também. Por bastante tempo eu me senti no dever de interagir com a classe e analisar o movimento teatral. Mas não tem valido a pena. Não gosto da maior parte dos discursos e das atitudes que vejo nos palcos. Portanto, pretendo permanecer distanciado do movimento cênico de Alagoas.

‡ Lucille, de Little Richard, faz a marcação de uma cena bastante divertida, uma espécie de ‘bailinho doméstico’. Richard era exagerado e ousado, e fazia um som que influenciou bandas importantes. Um maluco essencial.

‡ A guitarra distorcida de Jimi Hendrix em Red House faz a festa em duas cenas.

‡ Tema do musical Hair que ficou conhecido na voz de Melba Moore, Aquarius colabora com o clima solar da peça, e é um rock emblemático para o teatro da década de 1970.

‡ Bye Bye Baby, com Janis Joplin, e Ovelha Negra, de Rita Lee, sublinham a intensidade de alguns momentos do espetáculo. São duas rainhas. E vejo semelhanças entre elas. Além do espírito transgressivo, em ambas há a femi-

Floyd marca uma das cenas mais importantes de Rock-me. A escolha de Time se deu por várias razões, inclusive pela letra, que tem muito a ver com a poesia do texto da peça.

‡ Bob Dylan e The Doors passam de raspão pela peça, numa cena na qual as personagens ouvem um programa de rock no rádio. I Want You (Dylan) e Waiting for the Sun (Doors) aparecem como vinhetas radiofônicas.

‡ Abrindo mais o leque musical dos anos 1960/70, a trilha apropria-se também de referências atípicas como a banda irlandesa Thin Lizzy e a japonesa Yoko Kanno. A primeira produziu algumas pérolas como Whiskey in the Jar, e a segunda fez composições preciosas para harmônica (gaita), criando uma onda ‘blue’ que também embala a viagem do IET.

Mensageiro do Rock  

Entrevista com o dramaturgo Lael Correa sobre sua nova peça, Rock-Me

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