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Documentário sobre Jorge Mautner empolga a plateia no Cine PE. B5

Quarta-feira 02/05/2012 20 012 1

REPÓRTER

“Heleno foi um Titanic humano. Ele se julgava indestrutível, o cara perfeito, e, no fim, afundou. Bateu no iceberg da sífilis e afundou no mar gelado que era o vício em éter”. É assim, num misto de crueza e imparcialidade, que o jornalista Marcos Eduardo Neves define o jogador Heleno de Freitas, primeiro ‘craque-problema’ do futebol nacional. O atacante marcou época com a camisa do Botafogo quando o futebol engatinhava como fenômeno de massa, nos anos 1940. O biógrafo conheceu seu biografado por meio do jornalista Luiz Mendes. O encontro rendeu um dos livros mais marcantes sobre o futebol brasileiro, Nunca Houve um Homem como Heleno, de 2006. Com o lançamento de Heleno – O Príncipe Maldito, filme do diretor José Henrique Fonseca que pode ser visto até amanhã (03) no Cine Sesi, a obra ganhou nova edição.

Literatura esportiva O biógrafo de Heleno de Freitas indica cinco livros indispensáveis sobre futebol

∫ Título: Gigantes do Futebol Brasileiro Autor(es): João Máximo e Marcos de Castro Editora: Civilização Brasileira Preço: R$ 59,90 (450 págs.) ∫ Título: O Negro no Futebol Brasileiro Autor: Mario Filho Editora: Mauad Preço: R$ 62 (344 págs.) ∫ Título: Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha Autor: Ruy Castro Editora: Companhia das Letras Preço: R$ 66 (536 págs.) ∫ Título: Puskas – Uma Lenda do Futebol Autor(es): Rogan Taylor e Klara Jamrich Editora: DBA Preço: R$ 15 (231págs.) ∫ Título: Como Eles Roubaram o Jogo – Segredos dos Subterrâneos da Fifa Autor: David Yallop Editora: Record Preço: R$ 52,90 (368 págs.)

Marcos elogia o resultado da cinebiografia, mas faz questão de ressaltar o viés ficcional da obra. “Quando soube que o filme seria uma ficção, preferi não participar do roteiro, porque era a minha credibilidade. Não posso escrever no livro que o nome de uma mulher é Ilma e no filme ser Sílvia, ou dizer que ele perdeu um pênalti em uma final contra o Fluminense que ele nunca bateu”. Para além das quatro linhas, livro e filme retratam o Rio de Janeiro do pós-guerra, com seus cassinos e boates de luxo. Em tempos de Adriano e Ronaldinho Gaúcho, Heleno correspondia em campo. É o que Marcos Eduardo Neves conta numa descontraída conversa por telefone, ao falar de seu interesse por jogadores polêmicos, que incendeiam a torcida. Confira.

Gazeta.Você afirmou ter conhecido a história do Heleno por sugestão do jornalista Luiz Mendes: vocês trabalharam juntos? Marcos Eduardo Neves. Eu tinha escrito um livro sobre o Renato Gaúcho (Anjo ou Demônio – A Polêmica Trajetória de Renato Gaúcho), outro jogador mulherengo, bonitão e polêmico, e no prefácio o Luiz escreveu que estava feliz de poder ver a história do Renato retratada no livro e que com esse potencial de pesquisa que tinha eu poderia fazer ressurgir o Heleno de Freitas. Fiquei bastante intrigado e comecei a pesquisar na internet quem era o Heleno e cada vez que eu descobria um adjetivo novo ficava mais certo de que eu tinha de mergulhar fundo na história. E não deu outra. Quando mergulhei, vi que dava um grande livro. A primeira edição é de 2006. Quanto tempo você levou entre pesquisa e produção até lançá-lo? Comecei a escrever em 2003 e lancei no comecinho de 2006. Foram três anos e alguns meses de muita pesquisa, muitos telefonemas, muitas idas à Biblioteca Nacional, muita busca por fotos. E foi difícil encontrar material da época? Muito difícil. O futebol era gravado de maneira muito incipiente. Acho que talvez só o Jofre Rodrigues (irmão de Nelson Rodrigues) que fazia gravações, e mesmo assim tudo tinha sido comprado pela Globo e se perdido num incêndio

Heleno de Freitas morreu no dia 08 de novembro de 1959, aos 39 anos

REPRODUÇÃO

O OCASO DO HOMEM-GOL RAMIRO RIBEIRO

JULIANA TORRES/DIVULGAÇÃO

BIOGRAFIA. Se hoje o futebol repercute em diferentes setores da vida brasileira e mobiliza paixões por todo o território nacional, foi por causa de jogadores como Heleno de Freitas. Um dos nossos primeiros ídolos nas quatro linhas, o atacante que aliava técnica, raça e elegância brilhou com as camisas do Botafogo e da seleção na década de 1940. De família rica, formado em Direito e frequentador dos cassinos do Rio de Janeiro, era e ainda é a antítese do jogador pobre que supera obstáculos. Sua personalidade intensa e trajetória marcante foram retratadas no livro Nunca Houve um Homem como Heleno, do jornalista nalista Marcos Eduardo Neves, que serviu de base para o filme Heleno, protagonizado por Rodrigo Santoro. Em entrevista à Gazeta, azeta,, Neves revê os bastidores de sua pesquisa e fala sobre o a aumento umento do interesse pela literatura esportiva no País. Confira fira

nos anos 1970. Material em vídeo consegui achar em Buenos Aires. Achei muito material de época; quem for ler o livro achando que vai ver só a história do Heleno vai dar um mergulho profundo nos anos 1940 e descobrir um Rio de Janeiro que tinha glamour, cassinos, boates luxuosas que competiam com as de Paris. Fiz uma pesquisa adicional muito grande sobre o contexto histórico; creio que um personagem só sobrevive diante do seu contexto.

Você encontrou muitas pessoas que o conheceram? Encontrei umas cem pessoas. Mas aí vinha o problema. Entrevistava uma pessoa e falava: “Olha, posso te ligar de novo se eu precisar?”. Aí ligava duas semanas depois e essa pessoa tinha morrido. Lidava com um universo de pessoas de mais de 80, 90 anos. Fãs, torcedores, contemporâneos, dirigentes, gente que conviveu com o Heleno. Hoje ele estaria com 92 anos. A dificuldade foi essa, lutar contra o tempo para não perder possíveis depoimentos. Qual foi a sua participação no filme? Como foi seu contato com o produtor Rodrigo Teixeira? O projeto do filme já rolava enquanto eu fazia o livro, mas eu não sabia do filme nem ele sabia do livro. A última pessoa a quem fui pedir autorização para publicar foi o filho único do Heleno, Luiz Eduardo de Freitas, que sempre buscou juntar o quebra-cabeça do pai. Ele ficou muito feliz de ver minha pesquisa sobre o Heleno, mas não me deu a autorização porque tinha vendido os direitos para o Rodrigo. O Luiz então nos apresentou, e foi uma felicidade muito grande para nós dois. Para mim foi ótimo saber que teria a biografia mais completa de

alguém que viraria filme, e mais do que isso, viraria um filme com Rodrigo Santoro. Foi bom para mim e bom para eles. Quando soube que o filme seria uma ficção, preferi não participar do roteiro, porque era a minha credibilidade. Não posso escrever no livro que o nome de uma mulher é Ilma e no filme ser Sílvia, ou dizer que ele perdeu um pênalti em uma final contra o Fluminense que ele nunca bateu. O filme é uma ficção e dá uma grande ideia para o espectador que não tem o menor conhecimento sobre o Heleno, suscita a curiosidade para saber mais, o que ele vai conseguir no livro. E é uma ficção de altíssima qualidade. Uma grande atuação do Rodrigo Santoro, uma bela direção do Zé Henrique, uma fotografia linda do Walter Carvalho. Provavelmente é o grande filme de 2012, e fico muito feliz com isso. A minha participação no filme foi com consultoria, eles me ligavam quando tinham algum tipo de dúvida, e de ter liberado o livro para que usassem seis ou sete cenas, transportando-as para a tela.

Os jogadores ditos ‘rebeldes’ são os que rendem as melhores histórias? Não tenho a menor dúvida. Se você for tentar escrever sobre o Zico ou sobre o Kaká, o leitor vai dormir no terceiro capítulo. É tudo muito certinho, muito exemplar. A roupa dobradinha, a comida perfeita, dentro de campo ele é amigo de todo mundo. Se você for escrever sobre Edmundo, Renato Gaúcho, Heleno de Freitas, Serginho Chulapa ou Mário Sérgio, é uma pancada por parágrafo. Quando você acha que ele chegou ao limite, o Edmundo, por exemplo, vai lá e chuta a câmera do cinegrafista no Equador. Esses caras são saborosos porque eles têm

o que falar, se expõem, vivem. Vivem com vigor. Eu prefiro sempre os polêmicos. O Kaká e o Zico são ótimos de ver o que eles fazem com a bola. Mas para ler, tem de ter um misto entre herói e vilão. Hoje está tudo muito pasteurizado, os jogadores dão a mesma entrevista. Aí o Romário fala aquilo que ninguém fala – “O Pelé calado é um poeta” –, e isso já dá um sabor, alguém falar algo diferente. É o transgressor, o James Dean, o Elvis Presley, é o rebelde sem causa, juventude transviada...

Heleno pode ser considerado o precursor desse tipo de jogador midiático, afeito a polêmicas? Eu tinha dúvidas se ele era o primeiro bad boy do futebol brasileiro e hoje não tenho mais. O primeiro craque-problema foi o Leônidas da Silva. Mas porque ele não aceitava o racismo vigente na época, então se rebelava contra o status quo, quanto ao fato dele ser um negro, pobre, que jogava muito e ninguém gostava disso. E ele jogava demais. O Heleno era o contrário. Ele tinha tudo para ser um Kaká, por exemplo, um garoto de família, articulado, estudou em grandes colégios, se formou em Direito, elegantíssimo, frequentador do Copacabana Palace; e era um monstro dentro de campo. Não tinha nenhuma causa para ser um rebelde, e era o mais rebelde de todos. Os adversários morriam de medo, mas os próprios companheiros o temiam também. Os dirigentes tinham medo de falar com ele. Você acredita que o ‘reinado’ de Ricardo Teixeira na CBF poderia render uma reportagem de fôlego? Quem poderia escrevê-la? Juca Kfouri. Quero ver se ele vai fazer, porque ele é muito maior que isso,

acho que não deveria perder seu tempo. Ele poderia fazer um livro-denúncia sobre o Ricardo Teixeira, biográfico, que não fosse chapa branca. Seria um livraço. Só com o que teria de podridão, daria um grande livro de máfia.

Você acha que o interesse pela literatura esportiva tem aumentado no Brasil? Quando eu era criança reclamava bastante. Queria ler livros sobre futebol e os que existiam eram apenas aqueles almanaques, achava arcaico. Acredito que de 1994 pra cá, quando a gente enfim voltou a ganhar uma Copa do Mundo depois de tanto tempo, houve um resgate dessa paixão nacional. Acho que isso fez bem também para o mercado editorial. Desde meados dos anos 1990 a quantidade de livros sobre futebol que é publicada – sejam eles biografias, retratos de época, manuais, histórias de times e campeonatos – tem sido bastante legal. Qualquer jovem torcedor que queira conhecer sobre a história do futebol hoje tem mais oportunidade. ‡ Leia mais sobre Heleno na pág. B2

Serviço Título: Nunca Houve um Homem como Heleno Autor: Marcos Eduardo Neves Editora: Jorge Zahar Preço: R$ 44 (360 págs.)


B 2 Caderno B

GAZETA DE ALAGOAS, 02 de maio de 2012, Quarta-feira ROMEU DE MELLO LOUREIRO

ROMEU DE LOUREIRO emsociedade@gazetaweb.com

EDILSON OMENA/CORTESIA

Posse na AAL O jurista, escritor e poeta Carlos Barros Méro, presidente da Academia Alagoana de Letras, convida este colunista para a sessão solene que será realizada esta noite, a partir das 19h30, para a posse do escritor e desembargador James Magalhães de Medeiros (atual corregedor-geral da Justiça), como sócio-efetivo, na Cadeira nº 30 (antes, ocupada pelo folclorista José Tenório Rocha) e que será saudado pelo acadêmico e médico dr. Milton Hênio Netto de Gouveia (do Conselho Estratégico da OAM e colaborador da Gazeta). Haverá um intermezzo lítero-musical, a cargo da declamadora Neílda Costa Cavalcanti e da cantora Madalena Oliveira. Depois, serviço de coquetel.

Acadêmico dr. Milton Hênio Netto de Gouveia, que proferirá o discurso de saudação ao novel imortal da AAL

EDILSON OMENA/CORTESIA

ESTREIA DE BALLET Enquanto isso, no Teatro Deodoro, acontece (a partir das 19 horas) a estreia do novo espetáculo da Companhia de Dança Maria Emília Clark, 1912: Oração e Vozes, baseado em roteiro do historiador Fernando Gomes de Andrade (sócio efetivo do Ihgal e sócio-correspondente do Iahg-PE), que contextualiza o estigma da intolerância aos cultos afros que explodiu na Quebra dos Xangôs, em 1º de fevereiro de 1912.

Fátima (nascida Alves) e des. James Magalhães (ele novel imortal da AAL), clicados na Serata Italiana do colunista

MÊS DE MARIA A Igreja Católica Romana proclamou maio o mês de Maria – programando liturgias especiais em homenagem à Virgem Maria. Não custa lembrar que esse culto mariano foi implantado na Idade Média, como forma de combater crenças pagãs.

MÊS DAS NOIVAS Por tradição, maio é considerado o mês das noivas, em virtude do grande número de casamentos que acontecem no seu transcurso, lotando as agendas das igrejas com antecedência de até um ano. Para alegria dos colunistas sociais, que têm nos casamentos matéria-prima para suas colunas. Isso porque o casamento ainda é um evento conspícuo por excelência – aquele que serve para alardear a riqueza (nem sempre real) da família da noiva. VESTIDO DA NOIVA A praxe do vestido branco para a noiva nasceu no casamento da rainha Vitória, da Grã-Bretanha, com o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gotha. Até então, as noivas vestiam-se luxuosamente, de qualquer cor (menos preto, claro!).

Carlos Barros Méro, presidente da Academia Alagoana de Letras, que esta noite dará posse ao des. James Magalhães de Medeiros

Festejou idade nova, ontem, Zilda de Oliveira ∫Hansen (sra. Paulo Affonso Hansen).

Mudando de idade, hoje, a socialite Simone Caju Wanderley (sra. dr. José Wanderley Neto), devidamente festejada. Outro festejado aniversariante deste dia: o socialite e empresário Pedro Rocha Cavalcanti Nogueira.

EDILSON OMENA/CORTESIA

CONTRADIÇÃO No seu ensaio Mitologia Cristã: Festas, Ritos e Mitos da Idade Média (que vem de ser publicado, sob o alto patrocínio do Cesmac), o professor e doutor Philippe Walter, da Universidade Stendhal-Grenoble III (França), ensina que em Roma e na Idade Média vigorava a interdição de casamentos no mês de maio, pois o mesmo era consagrado aos ancestrais, havendo a crença na efração do mundo sobrenatural ao mundo humano, com o perigo de alguém desposar um fantasma ou uma mulher enfeitiçada do outro mundo.

Teomirtes de Barros Malta, imortal da Academia Alagoana de Letras e do Ihgal, clicada em evento deste colunista

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. “Pela consciência que tinha de sua derrocada, a história de Heleno é mais triste que a de Garrincha”, avalia o escritor, pesquisador e crítico musical João Máximo

O TRISTE FIM DE UM CRAQUE DOS GRAMADOS ROGÉRIO FAISSAL/DIVULGAÇÃO

JOÃO MÁXIMO AGÊNCIA O GLOBO

Rio de Janeiro, RJ – “Eu era mais feliz quando tinha raiva”, diz Heleno de Freitas pela voz de Rodrigo Santoro. Verdade. O Heleno de Freitas da vida real era muito mais feliz antes de a sífilis e o éter transformarem raiva em loucura. Sua história, das mais dramáticas vividas por um jogador de futebol no Brasil, é a de um ídolo – bonito, elegante, inteligente, rico, famoso, excepcionalmente bom de bola – que em pouco tempo perdeu tudo isso para viver seus últimos anos entre as paredes de um sanatório em Barbacena. Nisso, e pela consciência que tinha de sua derrocada, a história de Heleno é mais triste que a de Garrincha. Sua raiva era de um craque diferente, pela vontade de ganhar, pelo desespero com que buscava a perfeição, pela intolerância com os pernas de pau, pela aversão aos adversários desleais e a reação explosiva aos árbitros incompetentes. O futebol era a sua vida. E quando o domínio da bola começou a perder-se nos pés do homem de nervos estropiados, foram-se a raiva e a felicidade. Na época, chamavamno de “temperamental”, poucos percebendo, por trás dos destemperos com os adversários e com próprios companheiros, vestígios da paralisia progressi-

Rodrigo Santoro como Heleno na cinebiografia dirigida por José Henrique Fonseca: filme tem último dia em cartaz hoje em Maceió

va que começava a minálo. “Eu sou a própria vontade de vencer”, diz Heleno novamente pela voz do ator que o representa soberbamente no filme de José Henrique Fonseca. Um filme que enfatiza a derrocada do ídolo em relaç��o à glória de Heleno como centroavante clássico, de passes e chutes precisos, excelente cabeceador, titular do Botafogo, da seleção carioca e do escrete brasileiro, no tempo em que se escrevia scratch. Em mais de uma cena, fica-se sabendo do sonho (na verdade, obsessão) de Heleno em relação à Copa do Mundo que se realizaria no Brasil em 1950. Outra vez, verdade. Heleno

tinha sido um dos grandes nomes do Campeonato Sul-Americano de 1945, no qual, com Tesourinha e Zizinho de um lado, Jair e Ademir do outro, formara um ataque “cheio de luzes”, como o definiu a revista argentina El Grafico. Tinha cumprido, também, excelentes temporadas de 1946 a 1949. Neste último ano, com a camisa do Vasco, pelo qual sagrou-se campeão invicto (triste ironia para um botafoguense que jamais passara de vice em seu clube de coração). Enfim, com Leônidas da Silva perto de aposentar-se e sem outro centroavante de seu nível à vista, Heleno tinha todo o direito de sonhar.

A quem assiste ao filme – sem ter tido a oportunidade de viver aquela época – talvez ocorra uma pergunta: não fosse a briga com Flávio Costa, técnico do Vasco e da seleção brasileira (briga de revólver que o filme revive), será que Heleno teria realizado seu sonho? E, com ele no ataque, o Brasil teria melhor sorte? Resposta negativa para as duas perguntas. A briga com Flávio já era atestado de que a raiva de Heleno dera lugar à loucura. E o admirável craque que ele tinha sido já saíra de campo para não mais voltar. No final, no sanatório, mal lhe restavam as lembranças de quando fora feliz. ‡

Trecho do livro Em Nunca Houve um Homem como Heleno, o jornalista e escritor Marcos Eduardo Neves reconstitui não apenas a brilhante trajetória de um craque, mas também sua instável personalidade. Não à toa, a biografia do ídolo do Botafogo recebeu elogios de nomes de peso das letras, a exemplo de Ruy Castro. “Marcos Eduardo Neves resgata um ser humano que teria sido patético e marcante em qualquer atividade. O acaso quis que Heleno jogasse futebol, daí o ineditismo dessa narrativa: um drama quase cinematográfico, estrelado por um galã de calções e chuteiras – da praia aos estádios, das boates ao hospício”, escreveu o autor de Estrela Solitária sobre o livro. A seguir, um trecho da obra. Começava o jogo. Aquele berro despertou a argúcia da torcida pó de arroz, a do Fluminense, assim chamada com desdém pelas massas rivais por causa de seu perfil aristocrático. Gilda remetia à personagem de Rita Hayworth no filme homônimo de Charles Vidor, que estreara cinco dias antes na cidade. Não havia apelido melhor. Gilda era mulher linda, glamourosa e temperamental. Capaz de derrubar homens cantando e jogando suas luvas para eles. Atributos que se encaixavam, exceto pelas luvas e melodias, em Heleno de Freitas de forma perfeita. Nao tardou em virar coro da multidão. – Gilda! Gilda! Gilda! – os torcedores do time da casa já começavam a incomodar. Heleno não podia pegar na bola que escutava a saudação. Comecava a ser travada uma espécie de guerra psicológica, que, embora tentasse disfarcar, o desestabilizava emocionalmente. Corajoso, impetuoso, Heleno seguia lutando, louco para fazer um gol.

Quando errava um chute, não escapava da gozação: – Gilda! Gilda! Gilda! – a massa se divertia, aliviava o espírito. Sujo, no empurra-empurra da área, nos escanteios, segurava os colhões de adversários, artimanha que aprendera com os argentinos. – Gilda! Gilda! Gilda! Num lance, atracou-se com o meia Orlando Pingo de Ouro. – Gilda! Gilda! Gilda! Assim que o juiz Mário Vianna virou as costas para os dois, Orlando deu uma cotovelada em Heleno. Irascível, o goleador alvinegro se vingou sem medir consequências. Com força diabólica, arrancou o cordão do pescoço dele. – Gilda! Gilda! Gilda! A torcida teimava em não se calar. Nas arquibancadas e sociais, uma festa só. Ainda mais com o resultado nitidamente dando certo. Ainda que o Botafogo estivesse vencendo, Heleno estava a um passo da insalubridade.


O ocaso do homem-gol