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Gazeta de Alagoas

B

Da niela Nader/Divulgação

TERÇA-FEIRA, 18 DE OUTUBRO DE 2011

REVIRANDO

TUDO

Foram 48 horas de arte e cultura. Com uma maratona que tomou conta das ruas, praças e parques da capital pernambucana, a primeira edição da Virada Multicultural do Recife fez o público sair de casa para curtir shows, espetáculos de artes cênicas, intervenções urbanas, desfiles de moda, gastronomia, mostra de cinema e exposições – e tudo de graça. A Gazeta acompanhou o evento

Repórter

Recife, PE – Rios, pontes e overdrives. Antena que capta as vibrações culturais do Nordeste em seu diálogo com o mundo, no último fim de semana a cidade do Recife foi palco para as mais diversas expressões artísticas. Música, artes cênicas, intervenções urbanas, desfiles de moda, gastronomia, cinema, exposições: teve espaço para tudo e mais um pouco na primeira edição da Virada Multicultural da capital pernambucana, aberta na noite de sexta-feira e encerrada no domingo (16). Em moldes semelhantes ao dos festivais e festas literárias que se multiplicaram pelo País na última década, o formato de maratona cultural surgiu em São Paulo, em 2005, e esta talvez seja a única que faça por merecer o termo ‘virada’ – posto que é, de fato, ininterrupta. O evento paulistano, claro, não demorou a fazer escola, e em 2009 ganhou um modelo carioca, o Viradão. Neste ano, Curitiba promoverá a segunda edição de sua festa, programada para novembro. Já a Prefeitura do Recife optou por distribuir as atrações em 48 horas, com pequenos intervalos, por bairros da periferia, parques e praças. Shows e manifestações folclóricas, por exemplo, se concentraram no Centro e no bairro do Recife Antigo, na praça do Marco Zero.

Batizada de Virada Multicultural, a maratona se mostrou eficiente no sentido de funcionar como um instrumento de democratização da cultura por parte do poder público. O investimento feito pela Prefeitura do Recife girou em torno de R$ 3 milhões e parece ter alcançado seus objetivos. Por mais que a programação musical tenha investido em figuras tarimbadas do cenário local e nacional que costumam se apresentar de graça na cidade, o público abraçou a festa e compareceu às ruas do centro histórico para dançar ao som de nomes como Chico César, Fagner e a atração internacional Buena Vista Social Club, sem falar nos heróis locais Siba, Lia de Itamaracá, Alceu Valença, Naná Vasconcelos e Nação Zumbi. Para além da música, o cinema produzido no Nordeste teve seu espaço com curtas, médias e longas-metragens oriundos de toda a região, totalizando mais de 40 horas de exibição. A programação contou ainda com um festival de circo e de teatro infantil – realizado nos palcos da cidade e no Parque Dona Lindu, na praia de Boa Viagem – e com uma seção dedicada à moda, com desfiles a céu aberto. Ao meio-dia do sábado (15), por exemplo, o estilista e artista plástico MelK ZDa levou seus looks para a avenida Conde da Boa Vista, uma das mais movimentadas do centro da capital. A interação dos transeuntes com as criações exó-

A maratona se mostrou eficiente no sentido de funcionar como um instrumento de democratização da cultura por parte do poder público ticas do designer foi total. Acompanhar in loco um evento como esse, numa terra que valoriza sua própria cultura e também sabe receber de alma aberta aquilo que vem de fora, nos faz refletir sobre o fosso cultural que encontramos ao retornar para as Alagoas. Criticar a falta de comprometimento do poder público com uma política cultural séria e de longo prazo que não fique restrita a eventos mambembes e pontuais é chover no molhado – apesar da cobrança ser sempre necessária. O ‘outro lado’ – ou seja: o conhecimento e a recepção da população, que não se limitou ao papel de público passivo que apenas assiste e vê a banda passar – também chamou a atenção. Em Pernambuco há sede pelo novo, pelo belo. Ingredientes que irão se incorporar ao caldo de cultura de um lugar que festeja com orgulho o que é seu, mas aplaude a arte do vizinho sem melindres.

MANGUE-HAVANA A fórmula já foi testada algumas vezes e sempre se revelou matadora: pegue a Nação Zumbi, banda-estandarte da música pernambucana com 20 anos de história, e escale-a para fazer a festa no Marco Zero, frente a frente com seu público fiel. Foi o que aconteceu na noite de sexta-feira, na abertura da Virada. É difícil o resultado ser menos que histórico. Ao som de ‘hinos’ como Manguetown, Da Lama ao Caos, Blunth of Judah e Meu Maracatu Pesa uma Tonelada, a catarse foi instantânea e coletiva. No bis, espaço para a lisergia viajante da guitarra de Lúcio Maia no cover de Ponta de Lança Africano (Umbamarauma), de Jorge Benjor. O sábado foi dedicado em grande parte aos expoentes da música nordestina. A Paraíba de Chico César e o Ceará de Fagner instauraram o clima de baile, com o povo dançando na praça. Fagner, em especial, roubou a cena com um repertório que privilegiou arranjos com um acento pop além do usual. Passava da 01h30 do domingo quando os ares de Cuba invadiram o Porto do Recife. A trupe do Buena Vista Social Club, panteão de bambas da música cubana que ganhou o mundo após ser tema do documentário do alemão Wim Wenders, subiu ao palco e desfilou clássicos do cancioneiro latino. O público de todas as idades foi ao delírio, levantando camisas e bandeiras alusivas à ilha.

No Molotov, o encontro das tribos Quiseram os oráculos da produção cultural que a oitava edição do No Ar Coquetel Molotov acontecesse num fim de semana dos mais concorridos da história recente do Recife. O festival teve a data da edição 2011 divulgada antes do anúncio da Virada Multicultural, que acabou por abarcar o evento – distribuindo 500 ingressos para cada um de seus dias. A noite de sexta-feira não viu o teatro do Centro de Convenções da UFPE atingir sua lotação máxima, o que pode ser visto como resultado da concorrência com a extensa maratona de shows promovida pela Prefeitura do Recife. Lúcio Maia, que horas depois comandaria a Nação Zumbi no Recife Antigo, abriu os trabalhos do Molotov com o Maquinado, projeto paralelo que já exibe dois discos na bagagem. Na sequência, os indies de plantão (acredite, não eram poucos) sentiramse em casa com a dobradinha

Helth e Guillemots. Os americanos do Helth mandaram ver no seu esporro sonoro, deixando queixos caídos entre quem não conhecia seu poder de destruição. Já o Guillemots, direto das terras inglesas, mostrou seu indie-pop perfeitinho para o pequeno grupo que cantava todas as canções, incluindo, claro, o semi-hit Trains to Brazil. A noite seria encerrada com um show redentor de Lobão. No sábado, fez-se a magia que só um festival com o esmero criativo do Coquetel pode alcançar. A apresentação dos Racionais MCs entrou para a longa galeria de shows épicos do qual já fazem parte Teenage Fanclub, Marcelo Camelo, Beirut, Clube da Esquina e Dinosaur Jr. Os rappers paulistanos foram responsáveis pela invasão da turma do hip hop ao reduto dos alternativos. O que gerou reações desproporcionais por parte daqueles que adoram reproduzir o discurso da intera-

ção entre tribos, mas que na hora de misturar cabeças e sonoridades fogem da raia. A noite teve ainda o eletropop dos paranaenses do Copacabana Club, que fez ferver a pequena e climática Sala Cine PE. No teatro, antes de um desfecho épico, o line-up eclético começou com os sambas-tortos do paulistano Romulo Fróes, que tocou faixas do elogiado álbum Um Labirinto em Cada Pé. Na sequência, o quarteto americano The Sea and Cake encantou com seu indierock anos 90 de respeito. Antes do final marcante, o compositor China, mais uma ‘prata da casa’, apresentou pela primeira vez o repertório do recém-lançado Moto Continuo. A edição 2011 do Coquetel Molotov mostrou, mais uma vez, por que merece ocupar um espaço particular na galeria dos festivais independentes que acontecem pelo País. |RR * O repórter viajou a convite da Prefeitura do Recife

INVESTIMENTO PÚBLICO NO FORMATO DAS ‘VIRADAS’

Guilherme Gatis/Divulgação

| RAMIRO RIBEIRO*

Geyson Magno/Divulgação

de perto: nesta edição, a gente traz uma panorâmica dos melhores momentos da festa. Não perca

VIRADA CULTURAL DE SÃO PAULO ›› 2008: R$ 6,8 milhões ›› 2009: R$ 5 mi ›› 2010: R$ 7,7 mi ›› 2011: R$ 8 mi VIRADÃO CARIOCA ›› 2009: R$ 2 mi ›› 2010: R$ 3 mi VIRADA CULTURAL DE CURITIBA ›› 2010: R$ 1,25 mi VIRADA MULTICULTURAL DO RECIFE ›› 2011: R$ 3 mi

No alto, Naná Vasconcelos observa a dança do magê molê no show de encerramento da Virada; acima, cenas da avidez com que o público encarou a programação


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