2002 - relAtos eFeitos de Muita Viagem

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2002 relAtos eFeitos de Muita Viagem Ramiragem B.C


AVISOS

O significado de gírias, dialetos, neologismos e outras expressões incomuns pode ser encontrado no glossário, ou não.

Quase todos os nomes das personagens, reais, são fictícios. . . . EM CASO DE IRRITAÇÃO DESCONTINUAR O USO.


Willkommen [bem-vindo] Fazia escuro quando desci do trem. O Seu Shieber veio a mim, nos apresentamos e com paciência descabida iniciou um diálogo solo, enquanto se apressava estritamente em direção ao seu carro. Podia compreender a essência do que se me queria dizer, nada além da essência. Tudo o que eu ousava exprimir com pouca firmeza era “Ya” [Sim]. Quando notou que meu alemão esgotara-se antes de deixar a estação, sugeriu que conversássemos em inglês. A caminho do meu novo lar ele ia explicando muitas coisas que talvez tenham sido ouvidas pelo subconsciente. Fui levado a um quarto no andar inferior da casa dos Schmelzen - minha morada pelos próximos três meses. De frente, vizinho à garagem, havia um cubículo gelado com uma privada. A porta ao lado do cubículo era da lavanderia e ao mesmo tempo do depósito de lixo reciclável (um caixote de latas, outro com potes e garrafas, baterias usadas na caixinha, um saco e meio de papéis e o transparente por encher de plásticos) - só entraria ali para descartar o lixo, pois não me era permitido usar a máquina de lavar. No final do corredor gelado que levava à escadaria, um banheiro à temperatura ambiente. Tinha água aquecida a gás, pia, o chuveirinho dentro do box e um varal sanfona. O primeiro lance de escadas dava acesso à porta principal da casa, o segundo levava à residência do Schmelzen filho e sua esposa, e as duas últimas subidas culminavam no aposento do velho casal Schmelzen. Acima do subsolo tudo era aquecido, as paredes pintadas. O quarto parecia cômodo: havia uma cama, uma janela que se abria por cima, de lado ou normalmente, armário, mesinha, Mikrowelle [micro-ondas] e duas bocas de fogão elétrico.


Ainda na primeira semana me emprestariam um rádio, que continuaria em desuso por justa causa. OK, eu estava instalado. Shieber marcou dia e hora para mostrar a faculdade - foi a única gota que assimilei de tudo que ele havia derramado até então - e se despediu. Os velhos Schemelter deram as boas vindas, convidaram-me para almoçar na casa deles ao meio-dia seguinte e se recolheram. Com fome, contente, com sede e cansado dormi.


Os Schmelzen

Acordei com o mesmo ar aquecido, o mesmo ar aquecido que impregnaria todas manhãs daquele quarto. Quem dera as janelas se abrissem espontâneas por dois segundos a cada meia hora madrugada afora... Explorei o local avaliando as riquezas em seus pormenores e iniciei a ocupação do território. Quer dizer, fucei no sistema de aquecimento, no fogão sem botijão e na janela gringa, colei fotos da família no branco da parede e guardei roupas. A senhora Schmelzen veio avisar que o almoço estava pronto, aprumei-me e subi. O prato servido era uma canja, bastante parecida com a versão conhecida em casa, no Brasil. Eles quase não falavam inglês, como eu alemão. Conversamos o que conseguimos e foi um almoço animado; o primeiro e último. Em agradecimento dei a eles uma garrafa de pinga - segundo conselhos de câmbio internacional, o produto brasileiro seria apreciável presente. Arrependi-me mesmo assim. O filho deles era um sujeito enorme e foi incumbido de a mim orientar, por saber falar do inglês. Da esposa ranzinza pouco se sabe, supus que era um casal infeliz. Evoluímos algo em termos de intimidez, a família e eu. Nos víamos basicamente por alguns segundos, quando eles entravam em casa pela garagem. Enquanto guardavam o carro, eu apressava deixar a porta do quarto aberta - a única chance de fazê-los me ver, o corredor gelado a única área em comum. Nem sempre diziam oi, exceto pelo pequeno bem crescido Schmelzen, que fazia questão de cumprimentar-me - sempre e somente assim: “So... Halloo...” [algo como: Então... Olá...] uma fala grave e enfadada com longas reticências. Ao menos me notava...


Copa do Mundo

Die Fussballweltmeisterschaft quase passou despercebida. Se houvesse tempo e uma TV decente, não haveria ânimo para assistir aos jogos. A final já havia começado e eu trabalhando. Sem o lampejo de piedade que arremeteu Frau Berger, eu estaria descascando batatas enquanto o país do futebol inteiro torcia por sua seleção. Estava exatamente enchendo um balde de batatas no porão quando ela apareceu com a boa: “Pode ir, pode ir assistir ao jogo.” Uhú! Saí correndo, peguei a camiseta amarela e pedalei até a casa da Maria*. Tinha ali uma galera entusiasmada torcendo pró Brasil. Em meio à empolgação, comecei a perceber que não fazia bom senso torcer por qualquer time deste mundo... ____________________ * brasileira professora de português como língua estrangeira. Morava com a família em Langenargen, um tanto longe do hotel. Solícita, amiga de Frau Berger, havia-me arranjado o emprego.

Enfim, o Brasil ganhou o campeonato e eu estava feliz, embora minha felicidade não tivesse nada a ver com aquela taça. Saímos de carro para comemorar pelas janelas em uma cidade vizinha. Imitava a família da Maria gritando (Brasilien!) ora em português, ora em alemão (Brasil!) Sabe o que revidavam auf Deutsch [em alemão]? — Parabéns! Ponto pra eles. Voltei ao hotel sem segurar o guidão, com a bandeira hasteada em mãos. O auge da alegria foi entrar na cozinha gritando ‘Brasilien’ pros bigodes do cozinheiro chefe, que se


dedicava ao mau-humor diário. Para completar a desforra solitária pulei na piscina e curti, ou tentei, como turista aquele instante de privilégio. Os funcionários continuavam, trabalhando, indiferentes.


e-m@il* Sommerhaus [casa de verão]

Hallo, liebe Leute! [Olá, pessoas queridas!] Aqui está tudo bem. Estou vivo depois de trabalhar sábado, domingo e segunda. Vou dormir até sábado que vem para poder trabalhar mais três dias e depois comeßa** o trampo diário. A preocupaßaum é: quando vou dormir de novo? (Hahhahahah!!!) Bom, os tempos de internetes gordas estão acabando. Mas a partir de junho terei à minha disposißaum, no corredor do alojamento, um telefone que recebe chamadas de qualquer lugar do mundo!! Além disso, o telefone permite fazer ligaßoens com 4 (quatro!!) números locais distintos - para casos de emergência. Caso algum alemaum atenda (vai ser fácil perceber), somente diga o meu nome pausadamente várias vezes. Naum tente entender o que eles falam! (isso pode demorar cerca de 3 meses e, ainda assim, com muitas dificuldades). Caso eu naum venha atender o telefone despeßa-se com ‘Danke’ [obrigado(a)] e ‘Tchau’. O número é: (049) 7543-932... Mais uma vez: naum tente entendê-los em casa sem o auxílio de um adulto alemaum. Valeu! Ramiragem

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* e-mail coletivo, enviado à família e amigos. ** os teclado alemaens naum possuem til (~) nem ‘c-cedilha’ (ç). Por mero charme, algumas adaptaßoens feitas outrora foram preservadas. A letra ‘ß’ (estztt) faz parte do alfabeto alemaum, onde equivale a ‘ss’.


Marraquech, Núcleo dos Meios

No final da principal, o centro de conversões cruzamento de cinco grandes ruas congestionadas: um caos atiçado por buzinas, mobiletes, bicicletas, pedestres e carros que se enroscavam entre si como a poeira ao calor. Algum espanto admirando a agitação toda incompreensível: bemvindos ao núcleo decomposto pelos sujeitos! Exceto no dia santo, a área central lotava todo santo dia. Mercadores, negociantes e comerciantes vegetativos procurando a atenção periférica dos pedestres, uma plateia em trânsito parassimpático. Barraquinhas constituíam os nervos noturnos da praça de alimentação a céu aberto. Envoltas em fumaça de cozinha, lâmpadas ocultavam detalhes do largo - atmosfera ideal para experimentar cérebro de carneiro, iguaria cozida em caldeirão cheio de cerebrozinhos e servida com molho no intacto formato original. É como morder um pedaço de manteiga psicologicamente modificada. Dois pedaços garantem genuíno sentimento de bravura.


(!)

Berman delongou-se em Athenas para agilizar seu futuro - tentaria uma vaga para trabalhar em navio de cruzeiros. O combinado era encontrá-lo em Munique, de onde sairia nosso voo para Nova Delhi. Passei em Ravensburg para apanhar umas coisas e aproveitei para revisionar Langenargen, aonde o final do outono trazia folhas desoladas pelo vento. Frau e Herr Berger deixaram eu pernoitar em um dos melhores quartos da Sommerhaus - já que o hotel estava fechado, vazio, vazio, vazio. Senti enorme gratidão, entretantos, por tudo. A mudança dos planos mandou um baque por e-mail Berman conquistara o cargo exigente: “Consegui o emprego, Ramiragem. Não vou mais pra Índia.” O chão ficou liso, encolheu, e sumiu. “Ah… Que bom… Parabéns!” Sem o combinado nos encontramos por acaso no aeroporto internacional - eu voaria pra Índia (sem metade da bagagem), ele pro Brasil (para matar as saudades antes de embarcar no navio). Perderia o bom camarada mas não a melhor viagem.


Piquenique no Parque Nacional

Fui atrás da naturaleza. Hospedei-me em um hotelzinho que era uma casa com varanda, onde supostamente morava o cardápio que me convenceu. Encomendei alguns salgados para a manhã, quando fui, de bicicleta alugada, visitar o Keoladeo National Park. Era pra ser um santuário ecológico, refúgio de bastantes pássaros migratórios e lar de incontáveis espécies residentes. Mas contudo, porém e todavia haviam trazido a seca praquele ano e os bichos abundantes estavam escassos. Restava saborear do piquenique ao meio-dia, em alguma sombra tórrida além das trilhas. Suei pra comer*. ____________________ * especiarias de sobra amorteceram o paladar da cozinha indiana. Os efeitos da condimentação excessiva são: ardência na língua, amortecimento da boca, calor súbito e suor facial descontrolado (em bicas). Em seguida sede e mais tarde indigestão.


Pósfácio

Botucatu-SP, 2016 Reconheço os malefícios do álcool e da maconha para o ser humano, nos mais diversos âmbitos. E desaconselho o consumo de tais substâncias* especialmente pelos adolescentes, em pleno desenvolvimento e formação. ____________________ * ambas não fazem mais sentido para mim há anos, exceto pelo fato de que, sim, fazem parte de minha história.

Contudo, reconheço também que pode haver muito aprendizado nessas experiências, e com este livro me abro para uma conversa sábia e amorosa sobre tudo isso.


Ramiragem B. C.* é: - turismólogo formado pela Universidade Federal do Paraná; - pseudônimo. ____________________ * aprendeu a escrever quando criança, um fenômeno.


Continue a viagem em: www.relatosefeitos.com.br


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