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RAÍNA DE ALENCAR MENEZES

MERCADO DE VITÓRIA E REQUALIFICAÇÃO URBANA: O ENCONTRO ENTRE AS PESSOAS, A CULTURA LOCAL E A CIDADE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Vila Velha – UVV como requisito para obtenção do título de Arquiteta e Urbanista. Orientadora: Profª Mª Andreia Fernandes Muniz.

VILA VELHA 2015


RAÍNA DE ALENCAR MENEZES

MERCADO DE VITÓRIA E REQUALIFICAÇÃO URBANA: O ENCONTRO ENTRE AS PESSOAS, A CULTURA LOCAL E A CIDADE

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Vila Velha – UVV, como requisito para obtenção do título de Arquiteta e Urbanista. Aprovado em ___/___/_____.

COMISSÃO EXAMINADORA

___________________________________ Profª Mª Andreia Fernandes Muniz Universidade Vila Velha Orientadora ___________________________________ Profª Drª Simone Neiva Loures Gonçalves Universidade Vila Velha Coorientadora ___________________________________ Arq. Marcello Lindgren Convidado

Parecer da Comissão Examinadora em ____ de ________________ de 2015 ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________ ___________________________________________________________________


AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, Raimundo e Nalzira, e ao meu irmão, Fábio, por manterem viva a minha vontade de aprender, por me motivarem a enfrentar com determinação todos obstáculos e, acima de tudo, por terem acreditado na minha paixão pela Arquitetura.

Ao meu companheiro, Marcelo, por todo o apoio, incentivo e força fundamentais para que eu pudesse superar mais essa etapa.

Aos professores, pelo conhecimento compartilhado e pelos preciosos conselhos. Especialmente à Professora Andreia, orientadora e entusiasta deste trabalho, com quem partilhei esse sonho a cada reunião.

À Professora Simone, querida, que abraçou a minha ideia e contribuiu sabiamente para o resultado aqui exposto.

Ao Marcello Lindgren, membro da Comissão Avaliadora, por ser uma grande inspiração profissional e por se dispor a participar desta avaliação.

Por fim, agradeço aos meus colegas de turma, parceiros nessa jornada, com quem dividi dúvidas, aflições e noites em claro, mas também alegrias, realizações e sensação de dever cumprido. Aprendi muito nesses cinco anos de convivência, e espero que essa troca nunca cesse.


O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo.

Manoel de Barros


RESUMO

A Praça de Mercado e o Mercado Público são espaços que compõe a estrutura urbana desde o princípio da vida humana nas cidades, e proporcionam não só a troca de suprimentos, mas a troca social, o diálogo, o encontro, além de representar a cultura local com a exposição de produtos típicos da região. Este trabalho propõe o projeto do Mercado de Vitória, para a cidade de Vitória – ES, com o objetivo de requalificar o espaço urbano, como um equipamento integrador entre as pessoas, a cultura local e a cidade, através de uma arquitetura que propicia múltiplas atividades, buscando o desenvolvimento ambiental, cultural, econômico e social. Seu desenvolvimento se dá à partir da coleta de dados acerca do tema, utilizando métodos técnicos e intelectuais, como a revisão bibliográfica; estudo de caso, com a visita ao Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, no Rio de Janeiro – Brasil, e as referências projetuais do Mercado Municipal de São Paulo, nesta cidade – Brasil e do St. Lawrence Market North, localizado em Toronto – Canadá. O trabalho tem início com o entendimento da importância do mercado na formação das cidades durante a história, e posteriormente o questionamento das novas formas de comprar na era globalizada, bem como seus impactos na vida social e urbana. Analisa-se o caso de requalificação urbana, na cidade de Barcelona – Espanha, com a contribuição do Mercado de Santa Caterina. Compreende-se a multiplicidade da cultural local e sua contribuição para a formação da identidade capixaba, visto que o Mercado é uma grande vitrine para os produtos regionais. E, por fim, propõe-se um espaço dinamizador na cidade, capaz de integrar cidadeusuário, fortalecer o sentimento de pertencimento e valorizar o patrimônio cultural.

Palavras-chave: Mercado Público. Requalificação Urbana. Cultura Local.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Praça de mercado grego dos tempos clássicos ........................................ 13 Figura 2 - Mercado público no Império Romano ....................................................... 14 Figura 3 - Planta da Ágora de Priene ........................................................................ 23 Figura 4 - Planta do Fórum de Pompéia ................................................................... 24 Figura 5 - Corte esquemático dos estabelecimentos comerciais de Roma ............... 25 Figura 6 - Planta da Piazza del Signori, Verona ........................................................ 26 Figura 7 - Planta da Piazza del Popolo, Roma .......................................................... 27 Figura 8 - (a) Passage Panoramas, datado de 1800, Paris (1999) / (b)Galeria Vittorio Emanuele, 1865-1877, Milão (1996) ........................................................................ 29 Figura 9 - Plano de Ensanche de Ildefons Cerdà ...................................................... 34 Figura 10 - Mercado de Santa Caterina e seu entorno imediato ............................... 37 Figura 11 - Mercado de Santa Caterina na visão do transeunte ............................... 37 Figura 12 - Localização do Espírito Santo ................................................................. 40 Figura 13 - (a) Mapa de Relevo e Altitudes do Espírito Santo / (b) - Mapa da Imigração Europeia no Espírito Santo ....................................................................... 42 Figura 14 - Barracas na Vila Rubim .......................................................................... 44 Figura 15 - Fachada do Mercado Capixaba .............................................................. 45 Figura 16 - Mercado São Sebastião .......................................................................... 46 Figura 17 - Galpão das Paneleiras em Goiabeiras .................................................... 46 Figura 18 - Horto Mercado, na Enseada do Suá ....................................................... 47 Figura 19 - Pavilhão de São Cristóvão, do arquiteto Sérgio Bernardes, inaugurado em 1962 .................................................................................................................... 50 Figura 20 - Imagem de satélite indicando a localização do Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas e seu entorno ................................................... 51 Figura 21 - Planta baixa do Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas sinalizando os usos ............................................................................... 52 Figura 22 - (a) Loja de bolsas e sapatos / (b) Loja de produtos típicos .................... 53 Figura 23 - Barraca da Chiquita, localizada próxima ao Palco Jackson do Pandeiro 54 Figura 24 - Imagem de satélite indicando a localização do St. Lawrence Market e seu entorno ...................................................................................................................... 55 Figura 25 - Implantação do St. Lawrence Market ...................................................... 56 Figura 26 - Croqui que representa a integração entre os edifícios existentes ........... 57 Figura 27 - Maquete que demonstra a permeabilidade do edifício através do vidro . 58 Figura 28 - Interior do edifício St. Lawrence Market North: eixo visual para o St. Lawrence Hall............................................................................................................ 59 Figura 29 - Vista externa do St. Lawrence Market Nort: integração com as ruas vizinhas ..................................................................................................................... 59 Figura 30 - St. Lawrence Market North em Corte – Setorização ............................... 60 Figura 31 - (a) St. Lawrence Market North em Corte – Ventilação cruzada / (b) - St. Lawrence Market North em Corte – Iluminação natural .......................................... 61 Figura 32 - A tipologia do edifício integrada com o seu entorno................................ 61


Figura 33 - Imagem de satélite indicando a localização do Mercado Municipal de São Paulo e seu entorno .................................................................................................. 63 Figura 34 - Implantação Geral indicando acessos e circulação ................................ 64 Figura 35 - Perspectiva que retrata a relação interior do mezanino com o mercado, e exterior entre o edifício principal e os anexos ........................................................... 65 Figura 36 - Planta baixa do Mezanino sinalizando fluxos e usos .............................. 66 Figura 37 - (a) Eixo visual dos corredores para os Vitrais / (b) Vista privilegiada do Mezanino para os Vitrais ........................................................................................... 67 Figura 38 - Mapa de Localização da Área de Interesse ............................................ 70 Figura 39 - Localização das áreas potenciais ........................................................... 72 Figura 40 - Região de aterro da Ilha do Príncipe e marcação de proposições do Projeto de Mera ......................................................................................................... 73 Figura 41 - Área 1 e seu entorno imediato ................................................................ 74 Figura 42 - Projeção do Terminal BRT ...................................................................... 75 Figura 43 - Área 2 e seu entorno imediato ................................................................ 76 Figura 44 - Galpão na Vila Rubim ............................................................................. 77 Figura 45 – Quadra já consolidada, na Vila Rubim ................................................... 77 Figura 46 - Área 3 e seu entorno imediato ................................................................ 78 Figura 47 - Visada da Praça Oito de Setembro para a Cidade Alta .......................... 81 Figura 48 - Visada da calçada do terreno para a Cidade Alta ................................... 81 Figura 49 - Visada da calçada do terreno para o Maciço Central.............................. 82 Figura 50 - Edificações existentes no terreno bloqueiam a visada para a Baía de Vitória ........................................................................................................................ 82 Figura 51 - Visada para a Baía de Vitória da Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes ...................................................................................................................... 83 Figura 52 - Gabarito e Cones Visuais ....................................................................... 84 Figura 53 - Uso do Solo ............................................................................................ 85 Figura 54 - Mobilidade ............................................................................................... 87 Figura 55 - Recorte do Mapa de Zoneamento........................................................... 88 Figura 56 - Tabela de Controle Urbanístico para a ZEE 6 - Porto de Vitória ............. 88 Figura 57 - Tabela de Controle Urbanístico ZOP2 .................................................... 89 Figura 58 – Esquema de desenvolvimento do Partido à partir do volume ................ 92 Figura 59 - Esquema de desenvolvimento do Partido à partir do conceito ............... 93 Figura 60 - Logomarca desenvolvida com base na forma geométrica triangular ...... 94 Figura 61 - Diagrama de Bolhas sinalizado a setorização inicial para Implantação do Mercado .................................................................................................................... 94 Figura 62 – Esquema sinalizando a Setorização Vertical ......................................... 95 Figura 63 - Setorização dos Boxes do Mercado........................................................ 96 Figura 64 - Implantação Geral ................................................................................... 97 Figura 65 - Extensão da Praça Linear ....................................................................... 97 Figura 66 - Região 1.................................................................................................. 98 Figura 67 - Bicicletário e Estacionamento ao fundo .................................................. 99 Figura 68 - Arquibancada como mirante e área de descanso ................................... 99 Figura 69 - Região 2................................................................................................ 100


Figura 70 - Continuidade do Mercado na Região 2 ................................................. 100 Figura 71 - Região 3................................................................................................ 101 Figura 72 - Área próxima a Estação Porto .............................................................. 102 Figura 73 - Região 4................................................................................................ 103 Figura 74 - Aluguel de bicicletas e Estação do BRT ............................................... 103 Figura 75 - Estação do BRT .................................................................................... 104 Figura 76 - Terminal Catraieiros .............................................................................. 104 Figura 77 - Mercado de Vitória c Acesso pela alameda .......................................... 105 Figura 78 - Pavimento Térreo.................................................................................. 106 Figura 79 - Mezanino .............................................................................................. 106 Figura 80 - Blocos separados pela alameda ........................................................... 107 Figura 81 - Bloco Salas Comerciais ........................................................................ 108 Figura 82 - Bloco Centro Profissionalizante ............................................................ 108 Figura 83 - Cobertura .............................................................................................. 109


SUMÁRIO INTRODUÇÃO

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1.1. CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA

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1.2. OBJETIVO GERAL

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1.3. OBJETIVOS ESPECÍFICOS

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1.4. METODOLOGIA

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1.5. JUSTIFICATIVA

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2. O MERCADO E O ESPAÇO URBANO

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2.1. OS CENTROS COMERCIAIS E SEUS IMPACTOS NA VIDA URBANA

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2.2. O MERCADO PÚBLICO E A REQUALIFICAÇÃO DO ESPAÇO

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3. A IDENTIDADE CAPIXABA

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4. REFERÊNCIAS PROJETUAIS: MERCADOS DO BRASIL E DO MUNDO

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4.1. CENTRO MUNICIPAL LUIZ GONZAGA DE TRADIÇÕES NORDESTINAS

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4.1.1. LOCALIZAÇÃO E RELAÇÃO COM O ENTORNO

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4.1.2. USOS E FLUXOS

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4.2. ST. LAWRENCE MARKET NORTH

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4.2.1. LOCALIZAÇÃO E RELAÇÃO COM O ENTORNO

55

4.2.2. USOS E FLUXOS

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4.3. MERCADO MUNICIPAL DE SÃO PAULO

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4.3.1. LOCALIZAÇÃO E RELAÇÃO COM O ENTORNO

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4.3.2. USOS E FLUXOS

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5. PROPOSTA PROJETUAL

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5.1. LOCALIZAÇÃO

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5.2. ÁREAS POTENCIAIS

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5.2.1. ÁREA 1: ILHA DO PRÍNCIPE

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5.2.2. ÁREA 2: VILA RUBIM

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5.2.3. ÁREA 3: CENTRO

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5.3. DIAGNÓSTICO DO ENTORNO

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5.3.1. FIXOS

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5.3.2. FLUXOS

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5.4. PROGRAMA DE NECESSIDADES

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5.5. PARTIDO E MORFOLOGIA

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5.6. SETORIZAÇÃO

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5.7. ESTUDO PRELIMINAR

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6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho consiste na proposta de implantação de um Mercado Público na cidade de Vitória (ES), a fim de que o equipamento seja um elemento integrador entre as cidades da Região Metropolitana da Grande Vitória, bem como entre cidade e usuário, de forma a requalificar o espaço urbano oferecendo atividades múltiplas, de caráter comercial, social e de entretenimento, e valorizar o patrimônio cultural local. Para compreender a importância do Mercado Público para a cidade, é primordial entender como as cidades se desenvolveram e se transformaram, e que lugar ocupou esse equipamento. É igualmente fundamental perceber como a atividade comercial contribuiu para a evolução do espaço urbano e suas relações sociais, e quais consequências isso trouxe para a realidade atual da cidade e dos seus usuários. 1.1. CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA Nas civilizações primitivas, as aldeias eram caracterizadas pela aglomeração de indivíduos vivendo num mesmo espaço e dividindo funções para sua subexistência. Nessa época a produção dos alimentos e a caça de animais supria apenas a uma demanda local, e ainda não havia uma clara atividade de troca, mas de compartilhamento. Entretanto, nesse tipo de ocupação já se identificavam os locais de encontro, uma área ampla para a prática de jogos e danças, sempre próxima a uma árvore sagrada ou a uma fonte (MUMFORD, 2004). Ainda que a agricultura estivesse relacionada à subexistência de uma comunidade, já se mostrava nesses indivíduos a necessidade da reunião de pessoas, de espaços de convivência entre os da mesma aldeia, aqui pontuados como momentos de lazer. Nos registros mais antigos há indícios de que as funções semelhantes a de mercado, envolvendo fornecimento, armazenagem e distribuição de mercadoria, eram realizadas – em grande parte – pelo templo. Segundo Mumford (2004), "[...] o próprio recinto do templo não era uma área puramente religiosa" (MUMFORD, 2004, p. 86), possuía também uma propriedade de comércio.


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De certo modo, havia sempre uma maneira para distribuição de excedentes ou de troca para produtos especiais, de demanda limitada – a própria atividade de troca, oferecendo um tipo de produto e recebendo outro, por meio de presentes, e até na realização de banquetes. Já na Antiguidade, principalmente nas Cidades Gregas, tinha-se como ponto de encontro a Ágora, que pode ser considerada uma praça de mercado (Figura 1). O comércio era consequência de uma aglomeração de consumidores, que não se encontravam somente para fazerem negócios (MUMFORD, 2004). Sobre a Ágora, sabe-se que: Ela foi uma evolução gradual dos mercados formados ao pé da Acrópole, quando a população aumentou e começou a ultrapassar as muralhas. A Acrópole adquire, então, um caráter mais simbólico, com uma função puramente religiosa, e o centro de atividades muda-se para os locais de mercado, isto é, para a Ágora (VARGAS, 2001, p.116).

Mostra-se, então, que a atividade do comércio, sempre esteve associada a outro evento ou outro espaço que recebesse, em determinado período, um contingente considerável de pessoas.

Figura 1 - Praça de mercado grego dos tempos clássicos

Fonte: VARGAS, 2001, p.118

A introdução da moeda como meio de troca aqueceu ainda mais a atividade comercial na cidade e as funções econômicas da Ágora passaram a se expandir. Além de mercado, ela era também um lugar de assembleia e um centro festivo, uma espécie de clube para o encontro de companheiros e amigos.


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A Ágora deixa como legado a combinação de funções urbanas importantes, como governo, comércio, indústria, religião e sociabilidade no mesmo espaço. Essa característica fez com que ela se tornasse um dos elementos mais vitais para a cidade grega. O Império Romano herda da cultura helênica essa noção de espaço com usos combinados, e acrescenta a ele também as funções da Acrópole. Assim, surge o Fórum, que se estabelece como mais que um simples espaço aberto, mas monumental e circundado por colunatas (Figura 2). Apresentava uma concentração de atividades variadas, no seu entorno haviam santuários e templos, prédios da justiça e casas do conselho (MUMFORD, 2004). Figura 2 - Mercado público no Império Romano

Fonte: VARGAS, 2001, p.129

Com o declínio do Império Romano, o número de pessoas foi reduzido e as antigas cidades não mais funcionavam como centros de produção e comércio. Houve então um movimento contrário às cidades povoadas. A população se refugiou nos campos, próximas a algum castelo e protegidas por muralhas. Mas, tão logo uma cidade era cercada por uma muralha, apareciam outros atributos normais da vida urbana: o recipiente restabelecido tornava-se também um ímã. O prolongamento da muralha, do castelo ou abadia à aldeia vizinha, muitas vezes, marcava o começo físico de uma cidade, embora os plenos privilégios legais de uma ativa corporação municipal só


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pudessem ser obtidos à custa de difíceis transações com o bispo ou proprietário feudal que possuía a terra (MUMFORD, 2004, p. 275).

Nesse período, entendido como Idade Média, a onda de insegurança fez com que a produção e as trocas acontecessem com mais intensidade no âmbito local, já que o comércio proveniente de outras cidades nem sempre se estabelecia de maneira regular, e tão pouco era confiável. Como os meios de transporte eram precários e não havia uma grande demanda de produtos especiais, não havia necessidade de atividades comerciais fixas e diárias, por isso feiras eram organizadas periodicamente, uma ou duas vezes por semana, quando autorizadas pelo Senhor Feudal (VARGAS, 2001). A praça de mercado, localizada no interior da muralha, era protegida pela Paz de Mercado, uma espécie de guarda que garantia a troca de produtos com camponeses próximos, pescadores e artífices em segurança. É dessa demanda de proteção e necessidade de troca que surge uma nova classe, os Mercadores, considerados intermediadores entre o produtor agrícola e os consumidores. Os Mercadores começaram a se fixar logo além das muralhas, e conforme ganhavam confiança dos senhores, se tornavam membros permanentes da corporação urbana. A atividade dessa classe foi de suma importância para a conexão e comunicação entre cidades isoladas, e posteriormente à abertura dessas cidades (MUMFORD, 2004). A movimentação de mercadorias, que iam além da base de produção local, ajudaram para que as cidades crescessem em população e riqueza, e os Mercadores, consequentemente, ganharam maior importância na sociedade. Constitui-se na cidade medieval uma nova hierarquia baseada no acúmulo de dinheiro: a burguesia. Apesar da dissolução medieval, por volta do século XVI, muitos dos hábitos e formas dessa sociedade permaneceram ativos por quase três séculos. Aos poucos, entre os séculos XV e XVIII, é introduzido na Europa um novo complexo de traços culturais, que afetaria tanto a forma quanto o conteúdo da vida urbana (MUMFORD, 2004).


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Mudanças na economia, com a ascensão do capitalismo mercantilista, de uma nova estrutura política e de novas ideologias alteraram radicalmente o modo de vida na cidade. Da noite para o dia, seis dos setes pecados mortais transformaram-se em virtudes cardiais; e o pior de todos os pecados, o pecado do orgulho, tornou-se o símbolo dos novos líderes da sociedade, tanto no escritório de contabilidade quanto no campo de batalha. Produzir e exibir riqueza, tomar e aumentar o poder, tornaram-se imperativos universais; tinham sido desde muito tempo praticados, mas agora eram abertamente admitidos, como principais orientadores de uma sociedade inteira (MUMFORD, 2004, p. 377).

A ostentação e o luxo se tornam palavras de ordem na sociedade barroca, e isso se reflete também no plano urbanístico das cidades. Enquanto na cidade medieval as classes se misturavam na rua, no mercado e na catedral – porque apesar de haver uma diferença de classes, ricos e pobres dividiam o mesmo espaço –, no novo complexo urbano o homem burguês desejava um caminho exclusivo, onde ele, seu cavalo e seu veículo sobre rodas fossem destacados. No século XVIII a avenida simboliza mais velocidade para a cidade. Como uma passarela para os veículos sobre rodas (símbolo de riqueza), "[...] a avenida faz a dissociação entre as classes superiores e inferiores [...]. Os ricos conduzem; os pobres caminham" (MUMFORD, 2004, p. 402). A avenida não só divide a relação social, como também divide a cidade. A rua passa a ser prioridade e as funções urbanas da cidade são vistas como sobras. O comércio passou a se estabelecer no sentido da linha de tráfego e não mais em um sítio especial do plano. As expressões mais antigas do mercado não desaparecem totalmente com o desenvolvimento do capitalismo, mas se restringiram aos mercadores de suprimentos. Dessa forma, as praças de mercado ficaram esquecidas no novo traçado urbano. A longa avenida que cruzava a cidade não favorecia aquele comportamento inicial que gerava concentração de pedestres. A loja ao ar livre, em que as mercadorias eram produzidas nos fundos da loja e expostas na rua, também tendiam a extinção. O novo tipo de loja abriu grandes janelas de vidro na sua fachada para servir como centro de exibição.


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Conforme essa nova tipologia de mercado se estabelecia, a relação entre consumidor e produtor se fazia mais distante. Tanto o consumidor quanto o produtor estavam à mercê de um intermediário, que detinha a maior parte do lucro. As cidades ficaram grandes demais a ponto das pessoas se tornarem anônimas umas para as outras. O estabelecimento desse padrão de mercado reforçou ainda mais o distanciamento social, de forma que a franca exibição de produtos se tornou a maneira de imprimir "[...] a sua posição na vida, o seu gosto, a sua prosperidade: todo indivíduo, toda classe, mostrava o que era [...]" (MUMFORD, 2004, p. 472) através dos produtos que adquiria. Pelo século XVIII, os mercados públicos e as lojas dos produtores da cidade medieval estavam sendo convertidos em lojas especializadas, em contínuo funcionamento. A loja de departamentos oferecia ao comprador o maior número possível de mercadorias sob o mesmo teto e diversificava as tentações de comprar, ao mesmo tempo que concentrava a oportunidade. Assim, tornou-se na realidade um mercado de muitos andares (MUMFORD, 2004, p. 474).

Cada vez mais, a impessoalidade dos supermercados e centros comerciais de maiores proporções fez com que as funções originais do mercado, de transações pessoais e entretenimento social, se perdessem. Essa perda social é ainda mais estimulada com a rápida evolução dos meios de comunicação, que suprimem a comunicação direta entre comprador e vendedor, vizinho e colega de mercado. Com base nessa evolução do espaço urbano à partir das atividades comerciais, representadas aqui pela figura do Mercado Público, se contempla que este equipamento muito contribuiu para a conformação das cidades, ora como elemento central da vida social, ora como estimulador do crescimento urbano. Verifica-se que o Mercado é um forte elemento de atração de público, e que apesar das relações virtuais e impessoais instauradas no modo de vida contemporâneo, ele se revela como uma importante ferramenta para promover interação social e para estimular o uso do espaço público.


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1.2. OBJETIVO GERAL Propõe-se projetar, neste trabalho de pesquisa, um Mercado Público na região da Grande Vitória (ES), cuja arquitetura seja promotora da integração entre cidade e usuários estimulando a ocupação e apropriação do espaço público, além de servir como vitrine para os produtos e manifestações regionais, reforçando a identidade cultural do Espírito Santo.

1.3. OBJETIVOS ESPECÍFICOS Para que o objetivo geral seja atingido, é preciso delimitar objetivos específicos que guiarão o desenvolvimento desse trabalho. São eles: 

Entender a participação de áreas comerciais para a evolução das cidades;

Compreender os impactos dos Grandes Centros Comerciais na vida urbana;

Analisar as possibilidades de requalificação urbana à partir da implantação de um Mercado Público;

Conhecer o programa de necessidades e a logística necessária para a comercialização de produtos e alimentos em um Mercado Público;

Pesquisar referências projetuais com tema semelhante e analisar sua espacialidade e funcionalidade.

Levantar soluções arquitetônicas que proporcionam espaços de interação social;

Identificar diretrizes para a escolha do terreno ideal;

Elaborar um programa básico de necessidades e pré-dimensioná-lo;

Dinamizar a região sócio e economicamente, gerando maior visibilidade dos produtos regionais;

Desenvolver um projeto de Mercado, à nível de Estudo Preliminar, que valorize o patrimônio cultural e traduza a identidade do povo capixaba.


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1.4. METODOLOGIA Para atingir os objetivos delimitados para esse estudo científico é importante definir o caminho que o pesquisador deverá seguir para desenvolver sua investigação. Assim é possível compreender a linha de raciocínio adotada na pesquisa. A metodologia será composta por um conjunto de procedimentos técnicos e intelectuais dos quais destaca-se a coleta de dados acerca do tema, através de revisão bibliográfica, estudos de caso e referências projetuais de mercados do Brasil e do mundo, bem como levantamento documental em órgãos públicos e de pesquisa.

1.5. JUSTIFICATIVA Pode-se perceber através de uma análise dos aspectos históricos da civilização ocidental que o espaço do mercado aparece não só como um elemento importante para a atividade de troca de bens, mas como um espaço de encontro. As últimas décadas foram marcadas por uma mudança de comportamento acarretada pelos avanços tecnológicos e estímulos de um consumo globalizado. Dessa forma, o comércio se afastou da sua configuração mais primitiva e se agrupou em hipermercados, grandes centros comerciais ou shoppings centers. Essa mudança de comportamento também trouxe consequências para as cidades e seus usuários. A centralização dessas múltiplas atividades num único edifício fez com que as pessoas diminuíssem seus percursos para resolverem suas demandas, se afastando, assim, das atividades da cidade. Olhando para o cidadão, este globalizado, que consome o fast food amerciano, veste roupas que vem da Europa e utiliza eletrônicos asiáticos, percebe-se que sua sensação de pertencimento local está cada vez mais fragilizada. É necessário, então, reintroduzir no cotidiano desses indivíduos a caracterização do local, estimulando a valorização de produtos e manifestações regionais.


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A implantação do Mercado Público se torna muito interessante para este contexto na Região Metropolitana de Vitória, que ainda não possui um equipamento público deste porte. O Mercado é dinâmico por reunir aspectos de importância econômica, ao concentrar diferentes níveis de atividades comerciais; social, ao promover o encontro de pessoas; ambiental, ao propiciar a interação com a paisagem da cidade; cultural, pois é capaz de representar a identidade de um grupo social; e de entretenimento, apresentando potencial turístico. Dessa maneira, o Mercado Público se mostra como um espaço importante para a cidade de Vitória por estimular a requalificação do seu entorno; promover usos múltiplos, concentrando no mesmo local diversas atividades; ser um ponto atrativo de passagem e permanência; e por fim, receber uma aglomeração de pessoas, enriquecendo o valor turístico da região em que será implantado.


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2. O MERCADO E O ESPAÇO URBANO

À partir de um breve histórico, se pode perceber que a atividade de troca de excedentes e mercadorias foi fundamental para a formação e o crescimento das cidades. Mas em que lugar das cidades isso aconteceu? Para entender melhor a relação que os espaços de comércio e as praças de mercado com o espaço urbano, serão analisadas neste capítulo a arquitetura e a espacialidade deste equipamento ao longo da História. Como visto anteriormente, a Ágora é a representação do mercado nas cidades da Grécia Antiga. Mais do que um espaço para atividades comerciais, era um ponto de encontro onde os cidadãos gregos discutiam sobre política ou conversavam durante as compras. Inicialmente sua conformação era irregular, determinada por condicionantes geográficas, mas à partir do século V A.C. passou a obedecer uma ordem regular no seu desenho, decorrente do traçado viário que se estabelecia na urbe grega. Segundo Vargas (2001), a implantação da Ágora sempre acontecia próxima à principal fonte de água da cidade, e configurava um espaço barulhento – com comerciantes gritando e oferecendo seu produtos – e extremamente colorido com a mistura de produtos expostos. Essa combinação de comunicação espontânea e interativa com as cores e cheiros é uma atmosfera expressiva presente até hoje nas feiras livres. Antes de mais nada, a Ágora é um espaço aberto de propriedade pública, que pode ser ocupado para finalidades públicas, mas não necessariamente fechado. Muitas vezes, os edifícios adjacentes são lançados ao redor numa ordem irregular, aqui um templo, ali a estátua de um herói ou uma fonte; ou, talvez, numa fileira, um grupo de oficinas de artífices, abertas para o transeunte; enquanto que, no meio, as barracas ou cobertas temporárias indicariam talvez o dia de feira, quando o camponês levava seu alho, suas verduras ou azeitonas para a cidade e comprava um pote ou mandava consertar seus sapatos pelo sapateiro (MUMFORD, 2004, p. 167).


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Figura 3 - Planta da Ágora de Priene

Fonte: VARGAS, 2001, p.119 – Adaptado pela autora

Geralmente rodeada por colunatas em três de seus lados, a Ágora (Figura 3) apresenta ao centro uma grande área aberta e permeável, mas a composição de edifícios em seu entorno concebia a este espaço uma sensação de fechamento. No período do Império Romano esse espaço destinado ao comércio e ao encontro permanece, mas com algumas modificações que caracterizam as obras romanas. Obedecendo um plano axial com grandes edifícios construídos nas adjacências, este espaço – agora monumental – combinava atividades comerciais, religiosas e políticas, além de atender as necessidades da vida social. Há neste equipamento um maior fechamento dos espaços abertos por intermédio da proporção dos edifícios em seu entorno. Surge dessa evolução da Ágora o que se conhece como Fórum Romano (VARGAS, 2001).


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O projeto do Fórum de Pompéia (Figura 4) é um bom exemplo para se entender a distribuição das atividades que aconteciam nos Fóruns do Império Romano.

Figura 4 - Planta do Fórum de Pompéia

Fonte: VARGAS, 2001, p.127 – Adaptado pela autora

Percebe-se pela planta baixa que o Fórum possui uma forma mais longitudinal, marcada pelo eixo do grande espaço aberto na sua centralidade (1). O Mercado (4), conectando a rua (externo) e o espaço aberto do Fórum (interno), acontecia comumente ao lado oposto da Basílica (2), caracterizando então a divisão entre divino e profano, já que a atividade comercial estava ligada ao acúmulo de dinheiro, o que não era bem visto pelos cidadãos. Nas extremidades longitudinais estão


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importantes edifícios com característica mais políticas. E do outro lado havia o Eumachia, um edifício que reunia prestadores de serviço como tintureiros, alfaiates e tecelãos (VARGAS, 2001). Além das tendas distribuídas pela área aberta, haviam também lojas moduladas de 4 em 4 metros dispostas ao longo das colunatas. A Figura 5 ilustra a disposição desses espaços, em que a parte frontal era reservada para a exposição de produtos e nos fundos da loja ou pavimento superior, geralmente haviam oficinas ou mesmo cômodos onde os artesãos viviam com suas famílias.

Figura 5 - Corte esquemático dos estabelecimentos comerciais de Roma

Fonte: VARGAS, 2001, p.131

Diferente da Ágora na cidade grega, e do Fórum no Império Romano – que tinham um espaço determinado para a atividade comercial –, o mercado da cidade medieval acontecia ocasionalmente em alguma praça subordinada, geralmente próxima a uma igreja – onde a frequência dos habitantes era certa – ou a importantes vias de circulação e encontro de vias, em que se sabia que haveria um fluxo grande de pessoas. A cidade medieval, de crescimento orgânico, não apresentava espaços abertos formais cuja conformação geralmente tinha relação com os vazios oriundos da


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implantação de edifícios. Assim, o mercado também não se apresentava como uma figura regular (MUMFORD, 2004), como pode-se ver na Figura 6, que mostra a planta da Piazza del Signori, na cidade de Verona. Figura 6 - Planta da Piazza del Signori, Verona

Fonte: VARGAS, 2001, p.141 – Adaptado pela autora

Na cidade barroca, em que as vias de circulação de veículos ganham uma maior importância, as praças passam a se concentrar em áreas de convergência de avenidas ou em lugares em que os eixos viários precisam ser desviados (Figura 7). A função e o espaço da praça barroca são muito mais complexos do que da medieval. O tamanho maior das cidades barrocas permite a especialização e vários serviços são oferecidos para as classes privilegiadas, promovendo uma infraestrutura requerida pela nova sociedade. A praça barroca torna-se uma extensão do pátio do palácio (VARGAS, 2001, p.143).

Inicia-se à partir do século XVI uma transição na localização do mercado. A cidade barroca cresce graças à industrialização e sociedade burguesa se volta para o


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espaço interno de suas luxuosas residências. Dessa forma, as praças perdem a sua função característica de acumular pessoas. Como o mercado necessita da presença dos pedestres para garantir sua sobrevivência, adaptou-se a essa mudança no traçado urbano. Assim, a disposição das lojas passa a ocupar também as margens das grandes vias de circulação. Figura 7 - Planta da Piazza del Popolo, Roma

Fonte: VARGAS, 2001, p.142 – Adaptado pela autora

Segundo Araújo (2011), surgem no século XVII ciclos de feiras regionais e interregionais que se estabelecem como um mercado contínuo, evitando apenas as épocas de mau tempo. Essa cultura também é incorporada no Brasil com a influência europeia dos portugueses no período colonial.


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O Brasil Colônia, do seu início até meados do século XVIII, teve sua atividade comercial acontecendo principalmente no entorno dos engenhos, dos armazéns, dos portos e através dos mascates, que levavam mercadorias às regiões interiores do país (ARAÚJO, 2011). Na Europa, nesse mesmo período, começa a decadência da imagem de mercado como espaço público por excelência. As lojas que antes garantiam contato direto com a rua mudam a sua configuração. A loja aberta é fechada por portas e vitrines, que eram formadas por pequenas peças de vidro fixados com divisões de madeira, já que naquela época não havia domínio da tecnologia para grandes planos de vidro (VARGAS, 2001). Esta é a primeira segregação do espaço de comércio e do espaço público, entretanto, o uso do material transparente garante ainda uma conexão visual com o interior da loja. Mesmo quando não estivesse em funcionamento, era possível que o consumidor visualiza-se os produtos expostos. Assinala-se aí a indução da compra por impulso. A afluência e a moda no período barroco e o começo das monarquias absolutas no século XVII, juntamente com a ascensão de uma nova classe social, os comerciantes, levaram a uma mudança no caráter das lojas e no ato de comprar. A loja ao ar livre, venda direta da produção, do artesão nos fundos de sua casa começaram a ceder lugar ao comerciante, que se transformou numa força econômica (VARGAS, 2001, p. 159).

Por uma questão de conveniência, as lojas individuais que apresentavam semelhança entre os produtos comercializados começaram a se concentrar nas mesmas ruas. O traçado estreito da cidade medieval e a associação entre os comerciantes daria origem aos mercados cobertos. De acordo com Vargas (2001) as ruas recebiam o nome que remetesse ao comércio predominante, e os comerciantes passam a cobri-las com arcadas para proteger os consumidores do sol ou da chuva (Figura 8). O espaço mais confortável e as ruas reservadas somente para os pedestres se tornavam muito mais atrativas para o consumo. Outras atividades como tabernas, manutenção e consertos, também se aproveitam dessa oportunidade de público e se instalam nas proximidades do mercado, gerando ainda mais fluxo e compondo uma dinâmica interessante para o equipamento.


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Figura 8 - (a) Passage Panoramas, datado de 1800, Paris (1999) / (b)Galeria Vittorio Emanuele, 1865-1877, Milão (1996)

(a)

(b)

Fonte: VARGAS, 2001, p.158

O desenvolvimento capitalista baseado nas relações comerciais, o avanço das tecnologias e a decadência do sistema feudal contribuíram para que uma nova fase de transição se estabelecesse na atividade do mercado nas cidades. Os lugares com uma presença significativa de pessoas vão, aos poucos, perdendo sua essência de espaço público e, usando artifícios arquitetônicos que restringem sua relação com a cidade, adotando cada vez mais características de espaço privado (VARGAS, 2001). No século XIX surgem novas configurações de lojas, dentre elas as lojas de departamento, essas consideravelmente maiores que as lojas individuais, que passam a oferecer uma variedade de produtos dentro de um mesmo espaço. Assim, de acordo com Vargas (2001), o mercado se torna centro de atração para compras de necessidades diárias, principalmente de suprimentos. Pode-se entender a relação umbilical que existe entre o mercado e as atividades sociais da cidade no decorrer da história. O século XX revela ainda maiores mudanças nessa relação, com a evolução das lojas de departamento para os


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Centros Comerciais, o surgimento dos super e hipermercados na América e a febre dos Shopping Centers no contexto urbano.

2.1. OS CENTROS COMERCIAIS E SEUS IMPACTOS NA VIDA URBANA As transformações do espaço do comércio – cada vez mais privatizados –, e do comportamento de compra – estimulado pelo impulso –, vão contribuir para que o Mercado Público, assim como as áreas centrais das cidades, sejam esquecidos. Essas mudanças impactam não só a relação de comércio de suprimentos de primeira necessidade, mas também a relação do homem com a sua cidade, com a sua identidade local. Pintaudi (apud ARAÚJO, 2001) aponta dois fatores que muito contribuíram para esse comportamento por volta da década de 1960. O primeiro foi o aperfeiçoamento da tecnologia para equipamentos refrigerados – produzidos em larga escala e, consequentemente, com preços mais acessíveis –, o que popularizou o seu uso doméstico. O segundo fator apontado pela autora é a aquisição do automóvel – também produzido em escala industrial – por faixas da população com rendimento médio. Pois, se era possível comprar uma maior quantidade de produtos alimentícios perecíveis e mantê-los armazenados por períodos mais longos, não se via necessidade em visitar o mercado com tanta frequência. Já o automóvel ofereceu autonomia ao seu proprietário, que não mais restringia suas compras a sua vizinhança e podia buscar novos produtos em outros bairros da cidade. Inicia-se, então, um processo de afastamento do homem com o seu espaço local. O fenômeno da globalização, principalmente em meados dos anos 1980, contribuiu para que o afastamento se acentuasse. Araújo (2011) destaca que a globalização estreitou distâncias e facilitou comunicações internas e externas de qualquer lugar do mundo em pouco tempo. Santos afirma que o espaço-tempo contraído assinala a ideia de Aldeia Global, de um mundo só, em que "[...] coisas, relações, dinheiros, gostos largamente se difundem sobre continentes, raças, línguas e religiões" (SANTOS, 2006, p. 41).


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Assim, todo o legado, construído através da história de cada povo, é esgarçado. Deixa-se de dar importância as características locais para se adaptar a esse padrão globalizado. Passa-se, então, a estimar o mundo das coisas, em que o consumo tem maior valor, e se esquece das relações dos homens. Segundo Milton Santos (SANTOS, 2006), o processo da globalização atrelado ao consumismo influencia, direta e indiretamente, diferentes aspectos da vida humana. A mudança de comportamento padronizou o valor cultural com base no estilo de vida dos países desenvolvidos, enfraqueceu as relações interpessoais e confundiu a própria subjetividade do indivíduo. Nessas condições, o cidadão do lugar busca ser visto como um cidadão do mundo. Assim, o consumo de produtos globalizados passa a representar status, e seu ato logo se relaciona com o prazer. Araújo (2011) diz que os centros comerciais e shopping centers "[...] constroem um cenário diferente do real e as pessoas por estarem consumindo aquilo que supostamente acreditam ser a realidade, se tornam felizes" (ARAÚJO, 2011, p. 206). Esses espaços oferecem conforto e praticidade no ato do consumo: ambientes climatizados, de onde, muitas vezes, não se percebe se é noite ou dia, se há sol ou chuva do lado de fora; que dispõe de segurança; que concentra uma diversidade de opções de serviços e compras; além de proporcionar espaços de entretenimento. Portanto, ao longo do século XX, os centros comerciais se estabelecem como um lugar dinamizador e coopera para a reorganização urbanística das cidades (ARAÚJO, 2011). Os centros comerciais e shopping centers suprem uma gama de demandas do cotidiano com a oferta de múltiplos serviços num mesmo espaço, sem que haja necessidade de grandes deslocamentos. Eles se tornam uma cidade dentro da própria cidade, tornando os centros das cidades cada vez menos imprescindíveis (ARAÚJO, 2011). Logo, qualquer lugar onde haja um centro comercial passa a ser o centro da cidade. Percebe-se, mais uma vez, o afastamento do homem do seu lugar de origem, do seu aspecto local.


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Neste mundo globalizado, a competitividade, o consumo, a confusão dos espíritos constituem baluartes do presente estado de coisas. A competitividade comanda nossas formas de ação. O consumo comanda nossas formas de inação. E a confusão dos espíritos impede o nosso entendimento do mundo, do país, do lugar, da sociedade e de cada um de nós mesmos (SANTOS, 2006, p. 46).

Chega-se aqui a um ponto de discussão. O comportamento pautado no consumo globalizado, disseminado nas últimas décadas, tem contribuído para que o homem se afaste de sua origem, do seu lugar, e isso tem gerado consequências para a conformação da cidade? Ou a forma como as cidades estão sendo construídas, privilegiando a arquitetura cada vez mais privativa, tem criado limites para que o homem possa usufruir do seu espaço? Deve-se atentar para o fato de a cidade, desde seu princípio, ter se desenvolvido para atender às necessidades do homem, e mesmo que essas necessidades mudem através do tempo na história, ela continua a ser o cenário que emoldura a vida do indivíduo. Santos (2008) diz que entender a continuidade do território é "[...] fundamental para afastar o risco de alienação, o risco da perda do sentido da existência individual e coletiva, o risco de renúncia ao futuro" (SANTOS, 2008, p. 137). Por isso teme-se a ascensão desse distanciamento do homem com o seu espaço, o seu lugar. As novas formas de viver tem ameaçado a contiguidade e a noção do território compartido. Para reduzir esse comportamento é imprescindível avaliar o valor de ordem local, baseada na escala do cotidiano, que estima a relação de vizinhança, de intimidade, emoção e cooperação (SANTOS, 2008). A ordem local, que reterritorializa, é a do espaço banal, espaço irredutível, porque reúne numa mesma lógica interna todos os seus elementos: homens, empresas, instituições, formas sociais e jurídicas, e formas geográficas. O cotidiano imediato, localmente vivido, traço de união de todos esses dados, é a garantia da comunicação (SANTOS, P. 170, 2008).

É com base nesse questionamento que no próximo item deste capítulo serão expostas as contribuições do Mercado Público para a requalificação das cidades neste sentido, e como este equipamento pode contribuir para apropriação do espaço urbano por parte do usuário, tomando como referência o caso de Barcelona – Espanha, e o seu Mercado de Santa Caterina.


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2.2. O MERCADO PÚBLICO E A REQUALIFICAÇÃO DO ESPAÇO Até agora se pode compreender a importância das atividades do mercado no desenvolvimento das cidades e entendê-lo como um elemento dinamizador da vida social no espaço urbano. Ele se apresenta de diferentes formas no tempo e no espaço, ora espaço aberto, ora coberto ou semicoberto, mas mantém sua característica de aglomerar pessoas e proporcionar o convívio. Também foi possível perceber os impactos na vida urbana com o advento da industrialização e o fenômeno da globalização, resultando no afastamento do usuário em relação à cidade, bem como a disseminação de espaços cada vez mais privatizados. Faz-se necessário, então, refletir em como o Mercado Público pode contribuir, enquanto equipamento arquitetônico, para recuperar as ações de outrora e requalificar o espaço urbano. Segundo Mumford, o novo estilo de vida contemporâneo, veloz e impessoal, não pode superar o encontro e o diálogo humano, pois "[...] são essas coisas que sustentam o crescimento e a reprodução da cultura humana, e sem elas toda a complicada estrutura passa a ser sem significado – e até mesmo hostil, de maneira ativa, às finalidades da vida" (MUMFORD, p. 614, 2004).

Mas de que forma o Mercado ajuda a minimizar os impactos resultantes desse novo comportamento social, que influencia na forma das cidades? Para ilustrar essa ideia, temos como exemplo o caso da cidade de Barcelona, localizada na comunidade autônoma da Catalunha, na Espanha. A capital catalã e a segunda maior cidade espanhola possui mais de dois mil anos de história. Não se conhece ao certo a origem da cidade, mas se sabe que o período Medieval

foi

de

grande

importância

para

a

conformação

de

Barcelona,

principalmente para o seu Centro Antigo, conhecido como Ciutat Vella, em português Cidade Velha (CONFEDERAÇÃO EMPRESARIAL DE PORTUGAL, 2013). Durante nove séculos Barcelona manteve-se limitada às muralhas do seu entorno, resquícios de seu histórico medieval. No século XIX, depois da destruição das muralhas, a cidade se expandiu e passou por grandes transformações diante do


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aquecimento econômico oriundo da instalação local de fábricas com máquinas à vapor (ANDREATTA, 2010). A instalação de indústrias do setor têxtil, automobilístico, farmacêutico e atividades comerciais na região periférica, foi a base do desenvolvimento de Barcelona no início do século XX, e resultou em novos limites para a cidade (CONFEDERAÇÃO EMPRESARIAL DE PORTUGAL, 2013). A atividade industrial atraiu imigrantes em busca de melhores condições de vida e de trabalho, que se alojaram na região do Centro Antigo, aumentando ainda mais a densidade populacional da região, saturando esse espaço e alimentando uma situação de insalubridade (SILVEIRA, 2007). Esse fator contribuiu para uma imagem negativa da Cidade Velha, e nesse contexto degradante e sem perspectivas, o lugar foi cada vez mais abandonado. Nessa época, então, Barcelona passa por sua primeira grande intervenção urbana que objetiva melhorar as condições de vida e transformar a cidade em uma cidade moderna. Ildefons Cerdà publicou, em 1859, o Plano de Ensanche (Figura 9), que propunha a expansão da urbe existente através de uma malha regular – quadrícula – para unir os bairros periféricos (ANDREATTA, 2010). A reorganização do espaço urbano promoveu o crescimento da cidade para além do Centro Antigo. Figura 9 - Plano de Ensanche de Ildefons Cerdà

Fonte: CONFEDERAÇÃO EMPRESARIAL DE PORTUGAL, 2013, p. 156

Barcelona atravessa sua história recente passando por inúmeras modificações, motivadas por diversos eventos e políticas públicas, como a Exposição Universal de


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1888, que expandiu a cidade para a porção leste do Ensanche; a Exposição Internacional, em 1929, que ofereceu melhores condições de vida e maior mobilidade; a elaboração do Plano Geral Metropolitano, na década de 1970, que definiu diretrizes e soluções para as políticas urbanas nos anos posteriores; e à partir de 1982, quando a cidade voltou seus esforços para a renovação urbana visando os Jogos Olímpicos de 1992 (ANDREATTA, 2010). A partir do breve entendimento de sua história, Barcelona se mostra um modelo interessante de crescimento urbano, que combina em sua paisagem traços do seu passado e presente de forma planejada. O Mercado de Santa Caterina é um exemplo, dentre tantos, que representa essa preocupação da cidade em sem manter nova, sem esquecer do seu legado, da sua história e da essência do seu povo. O equipamento fica localizado no distrito da Cidade Velha, um dos destinos turísticos mais conhecidos mundialmente e que possui atrativos tanto no quesito de recursos naturais ou histórico-culturais, quando em espaços urbanos sejam eles modernizados, preservados, renovados e/ou gentrificados. O distrito é formado por quatro bairros: Gótico, considerado o núcleo original da cidade; Centro Antigo, que reúne pequenos bairros, entre eles Sant Pere, Santa Caterina e San Augustí, cujos nomes remetem às instituições religiosas medievais que existiam na região, além do bairro da Ribeira, que possui forte caráter comercial; Raval, que representa a primeira expansão da cidade além das muralhas; e Barceloneta, localizada na orla e essencialmente ligada a atividades marítimas. Essa região da cidade concentra a maior parte dos imigrantes de Barcelona, indicando que quase 37% da população desses bairros é formada por estrangeiros (O DISTRITO DA CIDADE VELHA, 2014). O distrito ficou abandonado e esquecido por década, mas as ações para as Olimpíadas de 1992 buscaram a valorização e renovação do patrimônio. Isso gerou impactos positivos se pensarmos que a mudança de uso significou uma regeneração ambiental e tornou a Cidade Velha atrativa para atividades econômicas, para o uso residencial e, consequentemente, ponto turístico (ABELLA, 2014). O Mercado de Santa Caterina foi um elemento importante para a reabilitação do espaço urbano no Centro Antigo, principalmente da Ribeira. A atividade do mercado


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estimulou a interação social e desenvolveu a economia local, promovendo dinamismo e suscitando interesse tanto da população quanto do turista. Datado do século XIX, este foi o primeiro mercado coberto de Barcelona. Construído sobre terrenos eclesiásticos, no Centro Antigo, e inaugurado em 1848, quando a cidade ainda era cercada por muralhas, abastecia quase toda a cidade. Em 1930 o Mercado sofre sua primeira intervenção, com a reforma do seu telhado, quando foram encontradas ruínas arqueológicas do Convento de Santa Caterina. Na década de 1970 o Mercabarna, grande mercado público afastado do centro histórico, é inaugurado e o Mercado de Santa Caterina paralisa suas atividades, contribuindo para o esquecimento do Centro Antigo (CAMPOS; RODRIGUES, 2012). Com o intuito de restaurar e dar uma nova imagem aos mercados tradicionais de Barcelona, nos anos 1990 é fundado o Instituto Municipal de Mercados de Barcelona (IMMB), que impulsiona e mobiliza o retorno das atividades do Mercado de Santa Caterina (CAMPOS; RODRIGUES, 2012). Em 2005, o projeto elaborado pelos arquitetos Enric Miralles e Benedetta Tagliabue é finalizado, e a edificação do Mercado é restaurada, mantendo elementos originais na fachada, entretanto sua cobertura é completamente remodelada. A quinta fachada, multicolorida e multifacetada remete a um mosaico que combina as cores dos produtos comercializados no Mercado de Santa Caterina (Figura 10). A composição é associada ao repertório de Gaudi, ícone da arte e arquitetura catalã, o que auxilia na aproximação e identidade da estrutura com as características da arquitetura local.


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Figura 10 - Mercado de Santa Caterina e seu entorno imediato

Fonte: Wikiarquitectura. Acesso em: 06 de outubro, 2014

O elemento, do nível da rua, se destaca, entretanto seu maior impacto é da visão aérea. Na escala do olhar humano, o conjunto do mercado acompanha a horizontalidade do entorno (Figura 11). É uma intervenção emblemática que rompe com a tipologia das edificações vizinhas, mas que juntas compõe de forma equilibrada a paisagem urbana. Figura 11 - Mercado de Santa Caterina na visão do transeunte

Fonte: Wikiarquitectura. Acesso em: 06 de outubro, 2014

Além da restauração, o projeto contempla ainda um estacionamento para os usuários do Mercado, um pequeno museu arqueológico de um antigo convento descoberto durante as obras e um bloco de habitações voltado para a moradia de


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idosos, próximas ao parque, demonstrando uma preocupação que contempla aspectos de inclusão social. Para Silveira (2007) a reabilitação completa do Mercado de Santa Caterina é a pedra angular de uma remodelação urbanística completa de um bairro emblemático e histórico. E, assim como o Santa Caterina, outros mercados de Barcelona – Sant Antoni, la Barceloneta e la Concepción, por exemplo – são instrumentos que auxiliam na estruturação de bairros destinados à moradia, cumprindo a reivindicação dos habitantes por espaços públicos atrativos. As ações de requalificar e integrar o patrimônio cultural edificado existente através da adequação ou de novos usos incentiva a população a ocupar o lugar e evitar a degradação proveniente do abandono, além de fortalecer a identidade tanto da cidade quanto das pessoas que ali vivem. O próximo capítulo abordará a formação histórica, geográfica e cultural que culminou na identidade do povo capixaba. Dessa forma, será possível entender os traços característicos dessa população que deverão ser levados em consideração no desenvolvimento do projeto de Mercado Público proposto neste trabalho.


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3. A IDENTIDADE CAPIXABA

O Espírito Santo, localizado na região Sudeste do Brasil, se limita ao norte pelo estado da Bahia, faz fronteira ao sul com o Rio de Janeiro, ao leste faceia o Oceano Atlântico e ao oeste o estado de Minas Gerais (Figura 12). Em seus 46.078 km², que abriga quase 4 milhões habitantes atualmente (CENSO, 2010), o estado apresenta uma diversidade de relevos e climas, que muito contribuiu para o seu povoamento diversificado, e consequentemente para a formação da identidade capixaba. Para entender como isso ocorreu, é necessário remontar a história da ocupação do Espírito Santo. Figura 12 - Localização do Espírito Santo

Fonte: KILL, 2002, p. 9 – Adaptado pela autora

Assim como aconteceu na maior parte do litoral brasileiro, a ocupação do Espírito Santo se dá a partir da chegada de fidalgos portugueses em busca de novas terras para a coroa, no século XVI. Recepcionados por indígenas muito agressivos, os portugueses investiram numa batalha pelo domínio do território, que após alguns anos de luta, se estabelecem na região com cota mais elevada da vila, delimitada pelo mar, pelo maciço central e


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pelas áreas alagadiças, hoje conhecida como Cidade Alta, no Centro de Vitória. Durante o período colonial, as atividades da vila se concentraram nos seus arreadores (OLIVEIRA, 2008). Dessa época, pode-se pontuar a influência – mesmo que reprimida – dos povos primitivos desta terra, os indígenas, bem como dos negros africanos que vieram nas embarcações portuguesas como escravos. É também nesse período que se inicia o intercâmbio entre o Espírito Santo e a cultura europeia, com a introdução de costumes portugueses (DADALTO, 2007). No século XVI, a capitania do Espírito Santo era considerada uma das mais próspera das capitanias por conta da sua atividade de engenhos de açúcar. Entretanto, a descoberta de ouro e pedras preciosas na parte mais continental do país acarretaram num entrave no desenvolvimento da Villa da Victória. A capitania do Espírito Santo apenas recebia reforços para a estrutura de defesa, a fim de salvaguardar o território de exploração mineradora. Por isso, a cidade não passa por grandes transformações até o fim do século XIX (OLIVEIRA, 2008). Segundo Oliveira (2008), o declínio da mineração auxiliou para que outras atividades econômicas se desenvolvessem, como o comércio e a cultura do café. Esse progresso gerou uma demanda de expansão da vila. É neste período que grande parte dos imigrantes estrangeiros e migrantes chega ao estado. A explosão da atividade cafeeira e a abolição da escravatura impulsionou a vinda de imigrantes europeus para trabalhar nas lavouras. De acordo com Dadalto (2007), são inúmeras as etnias europeias que desembarcaram em terras capixabas, mas as de contribuição mais representativa são das populações italianas e alemãs, que se estabeleceram nas regiões serranas, de clima mais ameno, por fatores de adaptação (Figura 13).


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Figura 13 - (a) Mapa de Relevo e Altitudes do Espírito Santo / (b) - Mapa da Imigração Europeia no Espírito Santo (a)

(b)

Fonte: KILL, 2002, p. 23 e p.30

Também é válido ressaltar a migração nacional espontânea. O café impulsiona a procura de fazendeiros do Rio de Janeiro e de Minas Gerais por novas terras para expandir sua produção agrícola, principalmente na região Centro-Sul do Estado (DADALTO, 2007). Este período é, portanto, de grande importância para a construção da identidade do indivíduo capixaba, resultado da troca entre índios, negros africanos, europeus, cariocas e mineiros, dividindo um mesmo espaço. Justamente aí está a nossa identidade, um produto da fusão, da interação de rica mistura, processada em um ambiente rico em relevos e recursos naturais que enriqueceu ainda mais essa pluralidade, adaptando as nuances culturais segundo a convivência dos espaços encontrados por cada cultura, mas interagindo entre si (GUIZZARDI, 2001, p. 199).

Pode-se entender, então, que o capixaba é multicultural na sua essência. Seus costumes misturam traços de todas as culturas que se estabeleceram no Espírito Santo, talvez por isso seja tão delicado apontar apenas um elemento que represente essa diversidade.


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Tem-se na panela de barro e na moqueca capixaba, herança indígena, um forte símbolo muito associado quando se fala de cultural local. A torta capixaba, outro item culinário típico da região, resultado de contribuições da cozinha portuguesa, africana e indígena, também é bastante lembrada. Mas a identidade não se molda apenas por hábitos alimentares. Garcia (2004) aponta outros elementos de igual importância, citando as manifestações artísticas culturais, como as congadas e as procissões religiosas; o artesanato, utilizando cerâmica e conchas; e a própria paisagem, composta por praia, mangue e montanhas. Trata-se, portanto, de uma combinação de elementos simbólicos que, associados, constroem o perfil dessa identidade. O capixaba é a culinária que mistura a polenta italiana e a farinha de mandioca indígena; é o ritmo africano misturado com a religiosidade portuguesa; é a cachaça e o café, remanescentes do seu cultivo durante a história desta terra. O capixaba remonta dentro do seu pequeno território a miscigenação tão própria do povo brasileiro. Na contemporaneidade, o sujeito não se apresenta em uma identidade fixa. Ele se comporta de formas diferentes dependendo do momento e o lugar em que está. Essa contradição contribui para a crise de identidade (ARAÚJO, 2011). Por isso se torna tão relevante a questão de reforçar o valor do local, a essência do lugar. A atmosfera do Mercado Público permite que produtos mais modernos sejam comercializados, assim como em grandes centros comerciais, mas estes se embaralham com produtos regionais. Em meio às ofertas dos comerciantes e seus jargões para atrair clientes, na confusão de cheiros e cores, tudo que está exposto nesse espaço se integra harmonicamente e remete às lembranças de outros tempos, "[...] que colaboram com a identificação de momentos da vida destes sujeitos: infância, adolescência e fase adulta" (ARAÚJO, 2011, p. 240). Compreende-se até aqui que o capixaba possui uma identidade caracterizada pela diversidade cultural, sob influência de diversas etnias, e que esta concepção não se deve estar associada somente ao trio "panela-de-barro/moqueca capixaba/torta capixaba". Este é, sim, um símbolo muito representativo, mas não é o único.


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Na cidade de Vitória existem alguns lugares, cada um com suas especificidades, que

contribuem

para

a

valorização

da

identidade

capixaba

através

da

comercialização de produtos típicos regionais. Entretanto, são estruturas de pequeno e médio porte, localizadas isoladamente, o que dificulta a associação dessas culturas de maneira integrada. Pode-se citar, no Centro de Vitória, a Vila Rubim e o Mercado Capixaba; no bairro de Jucutuquara, o Mercado de São Sebastião; em Goiabeiras, o galpão das Paneleiras; e na Enseada do Suá, o Horto Mercado. O tradicional Mercado da Vila Rubim existe desde a década de 1940. Como a sua formação se deu de maneira espontânea, com o comércio de rua, sua composição não se limita apenas a um edifício, mas ocupa várias ruas do bairro Vila Rubim (Figura 14). São aproximadamente 425 lojas que comercializam os mais diversos produtos, de artesanato e artigos religiosos, à ervas medicinais e produtos de pesca (RIBEIRO, 2010). Figura 14 - Barracas na Vila Rubim

Fonte: RIBEIRO, 2010


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Locado num edifício eclético da década de 1920 na Av. Princesa Isabel, também no Centro de Vitória, o Mercado Capixaba (Figura 15) possui um pátio interno, por isso suas lojas são distribuídas como internas e externas. As lojas internas comercializam principalmente artesanato e peças de madeira, cerâmica e cestaria. Já as lojas externas atendem demandas mais comuns, como farmácia e alimentação. Por consequência de um incêndio ocorrido em 2002, o prédio teve a cobertura comprometida e permanece com essa patologia, contribuindo para a degradação do edifício (RIBEIRO, 2010).

Figura 15 - Fachada do Mercado Capixaba

Fonte: Autora

O Mercado de São Sebastião (Figura 16), em Jucutuquara, foi reinaugurado em 2010 para abrigar o Centro de Referência do Artesanato Capixaba. O edifício de 1949 esteve abandonado por 20 anos, e reabriu as portas com o intuito de abrigar trabalhos feitos manualmente, como bordados, peças customizadas, artesanato em palha, bambu, madeira e material reciclado. Além do comércio, o espaço também é palco de atividades culturais periódicas – Mercado Literário, Mercado do Samba e Mercado da Música –, organizadas pela Secretaria de Cultura de Vitória (RIBEIRO, 2010).


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Figura 16 - Mercado São Sebastião

Fonte: RIBEIRO, 2010

Goiabeiras é a casa do Ofício das Paneleiras, em que se confeccionam, de maneira mais tradicional, as Panelas de Barro. No galpão inaugurado em novembro de 2011 (Figura 17), é possível acompanhar o processo de feitura desse item típico do Espírito Santo, além de adquirir um exemplar, dentre tantos modelos expostos nos boxes (REIS, 2012). Figura 17 - Galpão das Paneleiras em Goiabeiras

Fonte: Autora


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O Horto Mercado (Figura 18), situado na Enseada do Suá, possui uma diversidade de lojas, que comercializam desde produtos artesanais, a itens de cervejaria e cachaçaria, todos com foco na produção local. Abriga também um supermercado e restaurantes. O ambiente climatizado e privativo se distancia da atmosfera de um Mercado Público, apesar da valorização do produto regional (RIBEIRO, 2010). Figura 18 - Horto Mercado, na Enseada do Suá

Fonte: Autora

É possível entender que todos esses ambientes apostam, de alguma forma, na valorização de elementos da cultura local. Mas como estão situados em bairros distintos, e alguns comercializam produtos muito específicos, não se tem uma referência emblemática de Mercado. O Mercado Público se torna, então, um equipamento de grande valor para a cidade, visto a sua capacidade de unir no mesmo espaço mercadorias e costumes das mais variadas origens de maneira holística. No próximo capítulo, serão apresentadas referências projetuais de mercados e analisadas as escolhas arquitetônicas que servem como exemplo para a elaboração do projeto do Mercado Público.


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4. REFERÊNCIAS PROJETUAIS: MERCADOS DO BRASIL E DO MUNDO

O espaço do mercado se apresentou até aqui como uma área de passagem e/ou de permanência, que proporciona a troca, seja ela cultural, econômica ou social. Nesta fase da pesquisa, serão elucidados ambientes e escolhas projetuais que, de alguma forma, apresentam contribuições positivas para a definição de circulação, conforto ambiental, setorização e programa de necessidades do projeto proposto neste trabalho. 4.1. CENTRO MUNICIPAL LUIZ GONZAGA DE TRADIÇÕES NORDESTINAS A Feira de São Cristóvão teve início em meados dos anos 1940, época em que nordestinos migraram para o Rio de Janeiro em busca de trabalho na construção civil. Os caminhões que traziam os retirantes chegavam ao Campo de São Cristóvão, e o encontro dos que chegavam com parentes e conterrâneos já instalados no Rio de Janeiro era motivo de festa, regada a música e comida típica. Essa manifestação espontânea deu origem à feira, apelidada de Feira dos Nordestinos, que se constituiu ao redor do Campo de São Cristóvão e por ali se conservou durante 58 anos. (CENTRO MUNICIPAL LUIZ GONZAGA DE TRADIÇÕES NORDESTINAS, 2014). Consolidado como um ponto de encontro de nordestinos que buscam resgatar suas origens, mas também de cariocas e turistas em busca de entrar em contato com essa cultura, a feira recebeu uma atenção especial da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em 2003, o Pavilhão de São Cristóvão (Figura 19), projetado pelo arquiteto Sérgio Bernardes, foi reformado para receber o novo Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas (CENTRO MUNICIPAL LUIZ GONZAGA DE TRADIÇÕES NORDESTINAS, 2014).


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Figura 19 - Pavilhão de São Cristóvão, do arquiteto Sérgio Bernardes, inaugurado em 1962

Fonte: CABRAL, 2011


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4.1.1. Localização e Relação com o Entorno O Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, popularmente conhecido como Feira de São Cristóvão, fica situado no bairro de São Cristóvão, numa região central e com características históricas na capital do Rio de Janeiro – Brasil (Figura 20). Fica localizado próximo à Baía de Guanabara e da Linha Vermelha, eixo estruturante da cidade, e ao lado da Praça da Liberdade. Características que lembram a conformação das praças de mercado, com relação de proximidade com fontes de água, espaços abertos e contiguidade das principais vias de circulação da cidade.

Figura 20 - Imagem de satélite indicando a localização do Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas e seu entorno Baía de Guanabara

LEGENDA Linha Vermelha Sentido de Fluxo Acesso

Fonte: Google Earth – Adaptado pela autora


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4.1.2. Usos e Fluxos No espaço interno do edifício (Figura 21) pode-se entender a relação de circulação e usos. Destacam-se dois eixos importantes de circulação que ligam as entradas Padre Cícero e Luiz Gonzaga (no sentido norte-sul) e os palcos João do Vale e Jackson do Pandeiro (sentido leste-oeste), articulados no centro pela Praça dos Repentistas. Essa relação axial é também refletida na disposição das lojas.

Figura 21 - Planta baixa do Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas sinalizando os usos LEGENDA Lojas Alimentação Serviços Entretenimento Vazio

Fonte: CENTRO MUNICIPAL LUIZ GONZAGA DE TRADIÇÕES NORDESTINAS, 2014 – Adaptado pela autora


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No eixo norte-sul ficam há uma predominância de lojas, cujas mercadorias estão relacionadas bolsas e sapatos, bijuterias, artesanato e produtos típicos do nordeste (Figura 22). Os boxes são de pequeno porte, com a vitrine de aproximadamente 4 metros, dispostas em conjuntos de 4 a 6 lojas. Essa avenida apresenta, portanto, um caráter comercial.

Figura 22 - (a) Loja de bolsas e sapatos / (b) Loja de produtos típicos

(a)

(b)

Fonte: Autora

O eixo leste-oeste possui caráter de entretenimento e lazer, já que faz a ligação entre dois palcos, onde semanalmente se apresentam grupos musicais nordestinos. Nota-se que as atividades relacionadas à alimentação são predominantes em toda a feira, entretanto, nesta avenida ficam localizados os bares e restaurantes de maior porte que oferecem cardápio de comes e bebes típicos do Nordeste (Figura 23). Suas fachadas possuem no mínimo 8 metros e a loja conta com pé direito duplo.


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Figura 23 - Barraca da Chiquita, localizada próxima ao Palco Jackson do Pandeiro

Fonte: Autora

Além dos eixos principais, existem ruas intermediárias que ajuda a compor a disposição de quadrícula da circulação do Centro de Tradições Nordestinas. Nelas, as atividades acontecem de forma aleatória, oferecendo lojas, serviços como lan house, revelação de fotos, bancos, agência de turismo, salão de beleza e estúdio de tatuagem, e locais de entretenimento como boates e espaços destinados à apresentações de música e dança. A multiplicidade de usos ofertados garante uma diversidade de público em todos os horários de funcionamento da feira, que fica aberta das 10h de sexta-feira às 21h do domingo sem interrupção de programação, e de segunda à quinta-feira das 10h às 18h. Mesmo estando no Rio de Janeiro, na região sudeste, quando se entra no Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, a sensação que se tem é de estar no Nordeste brasileiro. A atmosfera criada com a composição de produtos típicos, artesanato, sotaque, música, comida, cores e texturas remete ao ambiente festivo e hospitaleiro daquele lugar. Isso mostra como a presença de símbolos que representam uma cultura é capaz de causar identificação imediata com a sua identidade.


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4.2. ST. LAWRENCE MARKET NORTH O St. Lawrence Market, ou Mercado de São Lourenço em português, localizado na cidade de Toronto, no Canadá, é composto por três edifícios principais: o mercado do Sul, o mercado do Norte e o St. Lawrence Hall. Neste estudo, será enfatizado o projeto do mercado do Norte, elaborado pelo escritório Rogers Stirk Harbour + Partners para um concurso realizado pela Prefeitura de Toronto, no ano de 2010 (ST. LAWRENCE MARKET).

4.2.1. Localização e Relação com o Entorno

Figura 24 - Imagem de satélite indicando a localização do St. Lawrence Market e seu entorno LEGENDA Via de Alto Fluxo Sentido de Fluxo Acesso

Fonte: Google Earth – adapatado pela autora

Assim como o Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, no Rio de Janeiro, este mercado se encontra nas proximidades de uma via estruturante da cidade (Figura 24). O St. Lawrence Market também tem relação de contiguidade com uma área verde, a praça da Catedral de St. James. Como visto, a localização do mercado está intimamente relacionada ao fluxo de pessoas, seja através de uma via, seja através de uma atividade atrativa como a igreja.


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Para compreender o conceito do projeto, é necessário compreender, inicialmente, o conjunto do qual o St. Lawrence Market North (Mercado Norte) faz parte (Figura 25).

Figura 25 - Implantação do St. Lawrence Market LEGENDA Edificação Existente Edificação Proposta

St. Lawrence Hall

St. Lawrence North (Mercado do Norte)

St. Lawrence South (Mercado do Sul)

Fonte: ST. LAWRENCE MARKET NORTH – Adaptado pela autora

O edifício do St. Lawrence Hall foi construído em 1850 e foi restaurado em 1967, para o Centenário da Cidade de Toronto. No térreo abriga lojas comerciais e no segundo pavimento escritórios empresariais. O terceiro andar funciona como um centro de convenções, com salas de múltiplo uso que podem se transformar em salões para eventos de maior porte. O Mercado do Sul funciona como salão de vendas no térreo, que comporta 120 boxes e oferece uma variedade de produtos, principalmente de suprimentos, como hortaliças, frutas, legumes, carnes e peixes e padaria. Já o segundo pavimento é ocupado pela Galeria Market, com espaço para exposições.


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A área do Mercado Norte era tradicionalmente utilizada, desde 1803, por produtores do Sul de Ontário para expor produtos sazonais, e por feiras de antiquários. O espaço também era utilizado para eventos e exposições (ST. LAWRENCE MARKET). O projeto vencedor do concurso realizado pela Prefeitura de Toronto propõe um edifício que integre o St. Lawrence Hall e o Mercado do Sul, criando uma peça única no tecido urbano (Figura 26).

Figura 26 - Croqui que representa a integração entre os edifícios existentes

Fonte: ST. LAWRENCE MARKET NORTH

4.2.2. Usos e Fluxos A proposta para o St. Lawrence North é de um edifício misto de 20.000m², divididos em área de mercado, escritórios empresariais e uma área voltada para a atividade jurídica, com salas de audiência, visto que o St Lawrence Hall já foi um símbolo cívico na história da cidade.


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O conceito do projeto é criar integração, entre os edifícios existentes e entre os usuários com a cidade. Por isso, utilizou-se o elemento translúcido, com panos de vidro que percorrem toda a fachada do edifício de cinco andares, formando uma rua coberta que une o complexo de edifícios (Figura 27).

Figura 27 - Maquete que demonstra a permeabilidade do edifício através do vidro

Fonte: ST. LAWRENCE MARKET NORTH

O prédio, setorizado em dois módulos laterais, cria no centro um átrio pelo qual a ideia de permeabilidade se fortalece. Dessa rua central, é possível ter contato visual com os edifícios existentes e com a parte externa ao edifício (Figura 28). O usuário está dentro, mas a sensação que se tem é que ele está num ambiente aberto, tamanha a relação interior x exterior criada no projeto. A área do térreo foi pensada para maximizar a ideia de espaço permeável. A repetição das portas de vidro, quando abertas, cria uma flexibilidade do espaço, transformando o térreo em uma grande área livre que se integra com o exterior do edifício. É possível que o mercado que acontece dentro do edifício se espalhe pelas ruas vizinhas (Figura 29). A área do mercado conta ainda com um mezanino, com espaço para cafés e galerias, além de atender como apoio para as funções do mercado.


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Figura 28 - Interior do edifício St. Lawrence Market North: eixo visual para o St. Lawrence Hall

Fonte: ST. LAWRENCE MARKET NORTH

Figura 29 - Vista externa do St. Lawrence Market Nort: integração com as ruas vizinhas

Fonte: ST. LAWRENCE MARKET NORTH


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Figura 30 - St. Lawrence Market North em Corte – Setorização

Salas de Audiência

Escritórios

Mezanino Mercado

Estacionamento

Fonte: ST. LAWRENCE MARKET NORTH – Adaptado pela autora

Acima do Mezanino estão localizados três pavimentos de escritórios, e no último andar, abaixo do telhado, ficam as salas de audiência (Figura 30). A fachada translúcida combinada com elementos de proteção solar, e o átrio central, proporcionaram a todos os ambientes do edifício iluminação e ventilação natural (Figura 31). As escolhas projetuais se mostram de grande relevância pois privilegiam a relação humanizada do edifício com o seu entorno e proporcionam condicionantes de conforto ambiental.


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Figura 31 - (a) St. Lawrence Market North em Corte – Ventilação cruzada / (b) - St. Lawrence Market North em Corte – Iluminação natural (a)

(b)

Fonte: ST. LAWRENCE MARKET NORTH

A integração desejada no conceito do projeto, pensa ainda na relação do edifício com o seu entorno. A escala do Mercado Norte respeita a tipologia local e privilegia a continuidade da paisagem urbana (Figura 32).

Figura 32 - A tipologia do edifício integrada com o seu entorno

Fonte: ST. LAWRENCE MARKET NORTH


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4.3. MERCADO MUNICIPAL DE SÃO PAULO O Mercado Municipal de São Paulo, também conhecido como Mercadão, surgiu em meados da década de 1930, com o intuito de substituir o antigo Mercado Central, que funcionava a céu aberto na Rua 25 de Março. O edifício, com 12.600 metros quadrados, foi idealizado por Francisco de Paula Ramos de Azevedo – que também assina outros edifícios emblemáticos na cidade de São Paulo como o Teatro Municipal e a Pinacoteca –, e por oito décadas foi uma referência importante para a região do Centro da cidade (O PORTAL DO MERCADÃO, 2015). Entretanto, com o passar do tempo e com o desenvolvimento de outras áreas de São Paulo, seu papel de abastecimento da população se enfraqueceu, e o edifício monumental de outrora ficou esquecido na paisagem urbana. Mas em 2003, uma proposta de recuperação ambiental e urbana do Parque Dom Pedro II incluiu o projeto de Requalificação Espacial do Mercado Municipal Paulistano, visto a sua importante função urbana e representação histórica para a cidade (PORTAL VITRUVIUS, 2003). Compreender-se-á neste estudo de caso, portanto, como se deu essa intervenção, cujo autor é o escritório paulistano Pedro Paulo de Melo Saraiva Arquitetos Associados S/C Ltda.

4.3.1. Localização e Relação com o Entorno O Mercadão está localizado no Centro Histórico de São Paulo, na Rua da Cantareira, por onde se tem o acesso principal ao edifício. Seu terreno faceia pela lateral esquerda com a Rua Comendador Assad Abdalla, por onde se tem uma área de estacionamento e um acesso secundário para o interior do Mercado, o mesmo acontece na face lateral direita, onde se tem uma via de fluxo intenso – Avenida Senador Queirós –. O terreno confrontando-se ainda aos fundos com a Avenida dos Estados, também de fluxo alto de veículos, onde se tem a área de docas (Figura 33). Além das vias que conectam o Centro ao restante da cidade, a região do Mercado fica próxima à Rua 25 de Março, bastante conhecida pelo extenso comércio


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atacadista e varejista, que é um polo atrativo de pessoas não só de São Paulo, mas de todo Brasil. Ainda é importante citar sua proximidade com o Rio Tamanduateí, que remete à relação com fontes de água das Praças de Mercado antigas, e com a Praça São Vito, que hoje perdeu sua função original de praça e dá lugar a um estacionamento.

Figura 33 - Imagem de satélite indicando a localização do Mercado Municipal de São Paulo e seu entorno LEGENDA Via de Alto Fluxo Sentido de Fluxo Rua 25 de Março Rio Tamanduateí Acesso

Praça São Vito

Fonte: Google Earth – Adaptado pela autora

O projeto busca recuperar e requalificar não só o Mercado Municipal de São Paulo, mas também o seu entorno como promover o desenvolvimento da micro região regenerando o tecido urbano, aquecer a economia local renovando o entorno imediato do edifício e requalificá-lo com novas funções para alçar o posto de novo Centro Varejista e Gastronômico na cidade (PORTAL VITRUVIUS, 2003). As intervenções propostas são multidisciplinares, e vão desde a conservação e restauro do bem tombado, passando por implementação e modernização de infraestrutura, projeto de iluminação interna e externa, até acessibilidade local, incluindo urbanização e sistema viário.


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4.3.2. Usos e Fluxos Na Implantação Geral (Figura 34) é possível perceber a preocupação de integrar o edifício com o seu entorno, através das inúmeras faixas de pedestre, bem como na disposição de vagas de estacionamento para clientes em três das quatro ruas confrontantes. Outro ponto interessante foi a escolha para a área de carga/ descarga, que com acesso independente, evita o conflito entre fluxo de serviço e fluxo de usuários. Pode-se compreender também que o ritmo das aberturas na fachada principal (Rua da Cantareira), ajuda a determinar as faixas de circulação bem como uma prévia setorização do espaço.

Figura 34 - Implantação Geral indicando acessos e circulação

carga/ descarga

Fonte: PORTAL VITRUVIUS, 2003 – adapatado pela autora

Além da atividade de mercado no edifício principal, nota-se que os edifícios vizinhos, de menor porte, abrigam novos usos (Figura 35). O Museu do Mercado (Anexo I) e o Museu da Gastronomia (Anexo II) são atividades atrativas para diferentes públicos, mas também são relevantes para perpetuar a valorização do patrimônio cultural da cidade.


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Figura 35 - Perspectiva que retrata a relação interior do mezanino com o mercado, e exterior entre o edifício principal e os anexos

Fonte: PORTAL VITRUVIUS, 2003

A reformulação do edifício incluiu também um mezanino conectado às torres A e B, estabelecendo uma "Varanda de Alimentação" para a implantação de restaurantes, lojas, quiosques para café e flores, todos com um apelo para a área da gastronomia, a fim de legitimar a ideia de Centro Varejista e Gastronômico da cidade. Para isso, as torres também foram reformuladas para abrigar restaurantes temáticos, escola, padaria, choperia e um piano bar. Através da planta baixa do Mezanino (Figura 36), pode-se entender a composição dessa área gastronômica, bem como a circulação entre os quase 300 estandes da área do mercado. Os estandes possuem tamanhos variados e comercializam uma grande variedade de produtos, desde hortifrutigranjeiros e especiarias até refeições e lanches.


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Figura 36 - Planta baixa do Mezanino sinalizando fluxos e usos

Fonte: PORTAL VITRUVIUS, 2003 – Adaptado pela autora

Como observado anteriormente, os acessos induzem uma espécie de malha que ajuda a definir as vias de circulação. As entradas da fachada principal e as laterais vindas do estacionamento, direcionam os corredores criando eixos visuais para os Vitrais alemães de Conrado Sorgenicht (Figura 37), que retratam a vida no campo. A posição do Mezanino também buscou criar uma visual privilegiada para esses vitrais, reforçando o valor do patrimônio (Figura 38).


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Figura 37 - (a) Eixo visual dos corredores para os Vitrais / (b) Vista privilegiada do Mezanino para os Vitrais (a)

(b)

Fonte: O PORTAL DO MERCADテグ

Figura 38 - Corte esquemテ。tico indicando a visual do Mezanino

Fonte: PORTAL VITRUVIUS, 2003


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5. PROPOSTA PROJETUAL

Baseando-se no levantamento histórico do Mercado Público enquanto espaço na cidade e nas referências projetuais apresentadas neste trabalho, é possível traçar algumas diretrizes que guiaram a escolha do terreno para a implantação deste equipamento. Foi observado que o Mercado Público e as vias de grande circulação estão intimamente ligados, e que sua localização está relacionada a convergência de fluxo de pessoas. Por isso, é almejado que o local de implantação seja atendido pelas mais variadas formas de locomoção pela cidade. Com o intuito de criar uma maior interação entre o usuário do Mercado e a cidade de Vitória, se mostra desejável a conexão entre ambiente externo e interno. Desta forma, é fundamental que a sua localização permita essa relação. Pensando na identificação do público com a cultura local, é também importante, mas não essencial, que o lugar tenha sido cenário de um momento histórico relevante para o desenvolvimento de Vitória e do Espírito Santo, e que seja um símbolo recorrente no imaginário do capixaba. Como já exposto, o mercado é um elemento capaz de requalificar o espaço urbano. Entende-se, assim, que a região de sua implantação deve apresentar um diagnóstico de abandono e/ou subutilização, apontando precariedade de espaços públicos. Levando em consideração todas essas diretrizes para implantação, foi delimitada a região do Centro de Vitória, buscando-se vazios urbanos.


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5.1. LOCALIZAÇÃO Para a escolha de um terreno que atenda o máximo de diretrizes da proposta projetual, é necessário entender as relações urbanísticas, sociais e econômicas desta área. Figura 38 - Mapa de Localização da Área de Interesse

Fonte: Google Earth – Adaptado pela autora

A região do Centro de Vitória possui uma estreita relação com duas vias importantes para a cidade, a Av. Jerônimo Monteiro e a Av. Marechal Mascarenhas de Moraes, ambas que direcionam fluxos para as pontes que fazem conexão com as cidades vizinha de Vila Velha e Cariacica (Figura 38). Atendendo, portanto, à premissa de que o terreno deve se localizar em uma zona de convergência de fluxo. Esta área também está relacionada com a paisagem natural de Vitória, visto que o Centro representa uma faixa da cidade entre a Baía de Vitória – um afluente do Rio Santa Maria – e o Maciço Central – formação rochosa que pode ser vista de vários pontos da cidade. Ambos trazem aspectos interessantes, já que também é desejável que o Mercado Público crie uma interação entre ambiente interno e externo.


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Em se tratando da identidade e cultura local, o Centro, por ocupar a porção original da cidade, apresenta inúmeros cenários históricos. Visto que a expansão da cidade para além do Centro acontece de maneira mais intensa após a década de 1960, a maior parte da história de Vitória se passou nessa região. Entre as décadas de 1960 e 1980, em consequência da substituição do modelo econômico baseado em agro-exportação (cultura cafeeira) pelo padrão industrialexportador (grandes projetos industriais), o Espírito Santo recebeu importantes investimentos em infraestrutura econômica e urbana. Dessa forma, a cidade se ampliou principalmente para a região continental de Vitória, e o Centro passou por um longo período de esquecimento e abandono. Desde os anos 2000 existem algumas tentativas de programas públicos e privados para reascender o interesse da população por essa área. Por isso a implantação do Mercado é ainda mais interessante, para contribuir também como equipamento requalificador do espaço público. Com as características desejáveis na região do Centro de Vitória delimitadas, foi necessário levantar áreas potenciais para a receber o projeto de um Mercado Público.

5.2. ÁREAS POTENCIAIS Considerando que a relação com vias de grande fluxo e a articulação entre municípios é desejada, foram delimitados os bairros que são cortados pelas Avenidas Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel: Centro, Parque Moscoso, Vila Rubim e Ilha do Príncipe. Buscou-se, nesses quatro bairros, terrenos que apresentassem características como grande vazio urbano, deficiência em espaço público, áreas subutilizadas, relação com a paisagem da cidade e área compatível para a atividade de um Mercado Público. Visto que o bairro Parque Moscoso já possui um relevante espaço público para a cidade, que dá nome ao bairro, este foi desconsiderado.


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Figura 39 - Localização das áreas potenciais

Fonte: GeoWEB VITÓRIA – Adaptado pela autora

Foram levantadas, portanto, três áreas potenciais para a implantação do Mercado Público (Figura 39). A primeira área, na Ilha do Príncipe, fica entre Rodoviária de Vitória e a Ponte Florentino Avidos, popularmente conhecida como Ponte Seca. A área número 2 não se configura como um terreno, mas um conjunto deles, que delimita a quadra onde se iniciou o mercado da Vila Rubim. E a área 3 é uma fração do Porto de Vitória, onde ficam os Armazéns 4 e 5, no Centro. 5.2.1. Área 1: Ilha do Príncipe Este terreno é resultado de um dos aterros que aconteceram no Centro de Vitória com o intuito de melhorar as condições de saneamento da cidade. A Lei Municipal nº 664, de 1957, previa o aterramento da área de mar entre a Ponte Florentino Avios e o Cais Schimidt, com intuito de embelezar a cidade e oferecer novas áreas necessárias para o crescimento da capital, entretanto essas obras permaneceram inacabadas até a década de 1960 (PREFEITURA DE VITÓRIA). Visto que as tentativas de melhorias do saneamento não foram suficientes, já que a área continuava sendo usada como depósito de lixo, e aproveitando as obras de dragagem para aprofundamento do canal de acesso e da baía de Vitória, em 1967


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um projeto de urbanização para a região foi elaborado, envolvendo um grupo de pesquisadores dos cursos de Sociologia e Engenharia de Universidade Federal do Espírito Santo, liderado pela urbanista argentina Adina Mera. O projeto (Figura 40) previa área para Recreação Pública, para Estação Rodoviária, Espaço Verde, Centro Comercial e um Mercado Central (FREITAS, RODRIGUES, 2013).

Figura 40 - Região de aterro da Ilha do Príncipe e marcação de proposições do Projeto de Mera

Área para Mercado Central

Área para Recreação Publica Área para Centro Comercial

Área para Estação Rodoviária Área para Espaço Verde Fonte: FREITAS, RODRIGUES, 2013 – Adaptado pela autora

Foi construído no local destinado a Recreação Pública o Parque Tancredo de Almeida Neves, também conhecido com Tancredão, que hoje é um centro esportivo e a principal área de lazer da região. Na área indicada para a Estação Rodoviária, a mesma também foi executada, bem como a para o Espaço Verde. A área reservada para o Centro Comercial recebeu o comércio da região conhecida hoje como Vila Rubim. Entretanto, a área para o Mercado Central continua até hoje sem uma função urbana satisfatória.


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Figura 41 - Área 1 e seu entorno imediato

Avenida Nair de Azevedo

Ponte Seca

Avenida Elias Miguel

Fonte: GeoWEB VITÓRIA – Adaptado pela autora

Entende-se então a vocação natural e já planejada desta área para receber um Mercado Público. Esse terreno (Figura 41), fracionado em três lotes, possui uma área aproximada de 30.900 m², em que um lote é caracterizado pela densa massa verde, e os outros dois hoje são utilizados como estacionamento. A Área 1 se destaca pelo acesso facilitado, já que confronta-se com a Avenida Nair de Azevedo (continuação da Avenida Jerônimo Monteiro, que dá acesso às cidades vizinhas) e a Avenida Elias Miguel (que se liga a Avenida Princesa Isabel e dá acesso ao Centro de Vitória. E ainda como contribuição à mobilidade, sua proximidade com a Rodoviária de Vitória possibilita a integração de meios transporte. Desta forma, pode-se atender a necessidade de convergência de fluxo de pessoas. Outra característica bastante interessante é a relação visual com um patrimônio histórico e representativo para a identidade local, a Ponte Seca e o comércio da Vila Rubim.


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Apesar de apresentar fatores atrativos para a implantação do Mercado Público nessa região, a área hoje é destinada ao Programa de Mobilidade Urbana BRT Grande Vitória, da Secretaria dos Transportes e Obras Públicas do Governo do Estado do Espírito Santo. Figura 42 - Projeção do Terminal BRT

Fonte: SETOP

Intitulado como Portal Príncipe (Figura 42), o projeto propõe ligar as cidades de Vitória, Vila Velha e Cariacica, de forma a organizar o tráfego na região de entrada da Capital, direcionando o fluxo de acesso ao Porto e criando um percurso exclusivo para o transporte coletivo. Por entender a importância desta obra para a melhoria das condições de mobilidade urbana da Região Metropolitana da Grande Vitória, a Área 1 foi descartada. 5.2.2. Área 2: Vila Rubim O desenvolvimento do bairro Vila Rubim está intimamente associado a passagem obrigatória para a porção continental da cidade de Vitória na época de sua expansão. A ocupação do bairro se intensificou de acordo com a evolução dos aterros na região e, na década de 1940, se consolidou como uma referência de comércio, principalmente de frutas e verduras (PREFEITURA DE VITÓRIA).


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Figura 43 - Área 2 e seu entorno imediato

Praça Manoel Rozindo Ponte Seca

Rua Pedro Nolasco

Avenida Elias Miguel Fonte: GeoWEB VITÓRIA – Adaptado pela autora

Nota-se que a região também é conectada através da Rua Pedro Nolasco e da Avenida Elias Miguel, às principais vias do Centro, Avenida Jerônimo Monteiro e Princesa Isabel. A Área 2 (Figura 43) foi uma das primeiras regiões ocupadas por comerciantes, que expunham seus produtos a céu aberto até 1955. Essa troca de produtos deu origem ao então "Mercado da Coréia", que se caracterizava pela informalidade e ocupação desordenada (PREFEITURA DE VITÓRIA). Alguns desses aspectos ainda se fazem presente nos aproximados 5.200 m². A região é, portanto, tradicionalmente conhecida pela atividade de mercado. Próximo à área delimitada já existem dois galpões com infraestrutura de caráter comercial (Figura 44) e uma praça, Manoel Rozindo, que abriga quiosques com antigos vendedores ambulantes.


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Figura 44 - Galpão na Vila Rubim

Fonte: Autora

Entende-se que a Vila Rubim apresenta a qualidade de convergência de pessoas por conta da sua localização, e possui grande apelo popular, visto sua tradicional atividade de comércio. Entretanto, a área delimitada (Figura 45) é um conjunto de lotes, nos quais existem inúmeros imóveis, o que caracterizaria uma intervenção agressiva se pensarmos na demolição de uma área já consolidada na cidade.

O fato de apresentar dimensões reduzidas e uma relação com a paisagem cultural da cidade muito tímida, desfavorece a escolha deste terreno para a implantação do Mercado Público. Figura 45 – Quadra já consolidada, na Vila Rubim

Fonte: Autora

5.2.3. Área 3: Centro Assim como as duas áreas potenciais anteriores, a Área 3, no bairro Centro, também faz parte de um aterro. Até o final do século XIX, região do Porto de Vitória


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era uma sequencia de pequenos atracadouros como o Cais do Schmidt, o Cais das Colunas e o Porto dos Padres. Mas o fomento da cultura cafeeira no Espírito Santo ajudou a transformar esse espaço num único e grande porto, que pudesse centralizar o comércio do estado e tornar Vitória uma praça comercial de exportação de café autônoma e independente do Rio de Janeiro (FREITAS, 2004). O Porto de Vitória foi uma região próspera para a economia do Estado até a década de 1950, entretanto, a expansão da cidade de Vitória e o desenvolvimento de outros portos como o o Porto do Tubarão, na porção norte de Vitória, e o Porto de Capuaba, em Vila Velha, acarretou na diminuição de cargas e consequente enfraquecimento das atividades do Porto de Vitória.

Figura 46 - Área 3 e seu entorno imediato

Av. Jerônimo Monteiro

Av. Princesa Isabel

Av. Mal. M. de Moraes Praça Oito

Fonte: GeoWEB VITÓRIA – Adaptado pela autora

A Área 3 (Figura 46), faz face com a Baía de Vitória e com a Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, importante via de ligação entre as cidades de Vila Velha, Cariacica e Vitória. Além disso, também está próxima das Avenida Princesa Isabel e


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Jerônimo Monteiro, que também articulam esse fluxo entre cidades da Região Metropolitana, o que garante a convergência de pessoas e facilidade de acesso. Há ainda nessa região a atividade dos Catraieiros, que fazem a travessia de Vitória para Vila Velha através de pequenas embarcações. Essa é uma característica tradicional da região, expressão de uma identidade local, e que apresenta um potencial a ser explorado, se integrado a outros meios de transporte coletivo. É importante destacar também a relação deste terreno com a cidade, de onde se pode contemplar a Baía de Vitória, a Cidade Alta e o Maciço Central, que compõem uma paisagem urbana interessante e única. A área também está próxima a duas praças, a Praça Oito de Setembro e a Praça Francisco Teixeira da Cruz, ambas com características de percurso de passagem, por não apresentar atrativos para permanência das pessoas. Portanto há a possibilidade de integrar esses espaços públicos a fim de requalificá-los. Outro fator que torna o terreno interessante para a implantação do Mercado Público é a presença de um Patrimônio Edificado. O Armazém 5 hoje abriga a Estação Porto, administrada pela Prefeitura de Vitória, que promove atividades culturais como exposições e apresentações musicais, e ajudam fortalecem a ideia de múltiplos usos para o espaço público. A área, com aproximadamente 27.000m², reúne todas as características desejadas para a implantação do Mercado Público, e apresenta diversas oportunidades de requalificar o espaço urbano. Por isso, dentre as três opções citadas, é a que melhor atende às demandas levantadas.


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5.3. DIAGNÓSTICO DO ENTORNO A fim de proporcionar um melhor entendimento sobre a atual situação da área escolhida para abrigar um Mercado Público e, consequentemente, possibilitar a elaboração de um projeto que atenda a todas as expectativas levantadas, alguns aspectos do seu entorno devem ser analisados. Para a caracterização dessa área, foram considerados o que chamamos de elementos "Fixos", analisando sua composição natural, infraestrutura existente, tipos de usos do solo, polos atrativos de pessoas e a morfologia urbana, no que diz respeito à ocupação da região. E, posteriormente, são expostas as características de "Fluxos", avaliando os caminhos e percursos, bem como a estrutura de mobilidade urbana existente. Por fim, é analisado o enquadramento da área de estudo de acordo com o Plano Diretor Urbano de Vitória (Lei Nº 6.705/06).

5.3.1. Fixos A área de intervenção apresenta uma relação interessante no que diz respeito à sua composição natural. São dois os pontos principais dessa análise: a relação com o Maciço Central (Morro da Fonte Grande) e a Cidade Alta, e a relação com a Baía de Vitória. À partir do levantamento de campo, pode-se notar ambas paisagens naturais apresentam visadas interrompidas ou bloqueadas seja por elementos naturais, seja pela ação do homem. A vertcalização das edificações, por exemplol, interrope a visada para a Catedral Metropolitana (Figura 47). Deste ponto da Praça Oito de Setembro, é possível enxergar apenas a prte mais alta da torre da igreja. De dentro dos limites do terreno (Figura 48), essa visada é ainda mais prejudicada, mas dessa vez pela vegetação da Praça, que impossibilita, inclusive, a visualização de um monumento histórico, o Relógio da Praça Oito.


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Figura 47 - Visada da Praรงa Oito de Setembro para a Cidade Alta Catedral Metropolitana

Fonte: Autora

Figura 48 - Visada da calรงada do terreno para a Cidade Alta Relรณgio da Praรงa Oito

Fonte: Autora


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Figura 49 - Visada da calçada do terreno para o Maciço Central

Maciço Central

Fonte: Autora

Quando se busca o cone visual para o Maciço Central (Figura 49) nos limites do terreno, este também é interrompido, seja por vegetação, sinalização aérea e edificações verticalizadas. Figura 50 - Edificações existentes no terreno bloqueiam a visada para a Baía de Vitória

Fonte: Autora


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Nesta localização da cidade, se direcionarmos o olhar no sentido da Baía de Vitória, as próprias edificações existentes no terreno bloqueiam totalmente essa visual (Figura 50). Portanto, nesse sentido, é possível entender a necessidade de se valorizar as relações visuais com a composição natural da região, como acontece mais adiante na Av. Marechal Mascarenhas de Moraes (Figura 51). Figura 51 - Visada para a Baía de Vitória da Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes

Fonte: Autora

Mesmo com a ação do homem e a verticalização das edificações no entorno da área de intervenção, que acaba por bloquear ou interromper visuais interessantes, ainda há vazios e espaços que proporcionam alguma ligação visual que pode ser potencializada com o projeto (Figura 52).


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Figura 52 - Gabarito e Cones Visuais

Fonte: Autora

Além das visuais, é importante também entender quais atividades acontecem nessa parte do Centro, que tipo de público frequenta essa região e quais são os principais polos atrativos de pessoas. Em uma breve visita à Avenida Princesa Isabel se pode compreender o seu enorme potencial para o comércio. Nela há muitas lojas, vendedores ambulantes e edifícios comerciais. Esses edifícios se estendem também para a Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, entretanto, nesta há também a presença de edifícios residenciais e edifícios-garagem, o que torna o fluxo de pessoas bem menos intenso se comparado à outra avenida (Figura 53). A Avenida Princesa Isabel deve ser destacada também como um polo cultural. Recentemente tem recebido atividades que estimulam uma espécie de "corredor cultural", como a inauguração do SESC Glória. Além deste, há outras instituições


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que fomentam a cultura como a FAFI, o Museu MAES, e nas proximidades, o Palácio Anchieta e Teatro Carlos Gomes. Como a intenção desse trabalho é facilitar o encontro entre as pessoas, a cidade e a cultura local, é de grande valia que o Mercado se integre a Avenida Princesa Isabel.

Figura 53 - Uso do Solo

Fonte: Autora

Outro fator que deve ser levado em consideração quando se pensa na atração de público para o Centro de Vitória é a questão da mobilidade. Um dos motivos para escolha dessa região como área de interesse para a implantação do Mercado foi exatamente a sua localização privilegiada em relação às cidades vizinhas de Cariacica e Vila Velha.


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5.3.2. Fluxos O Centro se caracteriza como local de passagem para aqueles que trafegam entre Vitória, Cariacica e Vila Velha, além daqueles que cruzam esse caminho para chegarem ao interior o estado. Por isso, essa região é muito bem abastecida de pontos de ônibus. Nesse sentido, há ainda a previsão de que o BRT (Bus Rapid Transporting) faça seu percurso pela Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, o que irá otimizar o acesso a esta área. Ultimamente a região também recebeu melhorias que incentivam o uso da bicicleta como meio de locomoção, mas esse projeto ainda não foi implementado em sua totalidade, portanto as ciclovias e ciclofaixas não tem uma continuidade. Também se nota uma deficiência em relação aos equipamentos de apoio para os ciclistas. No percurso de Centro há poucas paradas para descanso e bicicletários. Há ainda nesta localidade a atividade dos catraieiros, que fazem a travessia de Vitória-Vila Velha em pequenas embarcações. Apesar de muito tradicional e fazerem parte do cartão postal da cidade, os catraieiros possuem uma infraestrutura precária, o que acaba inbindo o uso desse meio de transporte como cotidiano.


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Figura 54 - Mobilidade

Fonte: Autora

5.3.3. Legislação

O Plano Diretor Urbano de Vitória, Lei nº 6.705/2006, classifica a zona em que se encontra a poligonal do terreno como Zona de Equipamentos Especiais (Figura 55), ou seja, uma zona que abriga atividades com características especiais capaz de exercerem impactos econômicos, urbanísticos, ambientais e funcionais na cidade de Vitória. Para a subcategoria ZEE 6 está prevista a atividade do Porto de Vitória (VITÓRIA, 2006).


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Figura 55 - Recorte do Mapa de Zoneamento

Fonte: VITÓRIA, 2006

De acordo com a Tabela de Controle Urbanístico (Figura 56), não existem índices preestabelecidos para essa área. De acordo com o Artigo 111, citado na tabela, os responsáveis por equipamentos implantados nesse zoneamento deve apresentar um plano específico que promova, entre outros itens, a acessibilidade, a integração do equipamento com a cidade, a compatibilização com o sistema viário, a preservação do Patrimônio Histórico Ambiental Paisagístico e manutenção de visuais de marcos, que busque otimizar a infraestrutura e integrar o entorno, bem como garantir o direito ao uso e fruição dos espaços livres de uso público (VITÓRIA, 2006). Figura 56 - Tabela de Controle Urbanístico para a ZEE 6 - Porto de Vitória

Fonte: VITÓRIA, 2006 - Adapatado pela Autora


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Como a legislação prevê um plano específico e elaboração deste não caberia neste trabalho de pesquisa, tomou-se como referência os índices urbanísticos do zoneamento vizinho, Zona de Ocupação Prioritária - ZOP2/02 (Figura 57), principalmente no que diz respeito aos afastamentos mínimos. Figura 57 - Tabela de Controle Urbanístico ZOP2

Fonte: VITÓRIA, 2006 – Adaptado pela autora

Essa leitura de diagnóstico tem como resultado o diagrama síntese, que apresenta oportunidades e necessidades da área de intervenção, e reúne as características mais relevantes para a elaboração de um programa de necessidades e para a concepção do partido arquitetônico, bem como a volumetria do edifício.

5.4. PROGRAMA DE NECESSIDADES

Como já se viu no início deste trabalho, a praça do mercado sempre esteve associada ou a um lugar que atraísse um grande público, ou a uma atividade que fosse cotidiana e garantisse a presença das pessoas. Por isso, é inevitável que o Mercado de Vitória esteja integrado com outras atividades. Quando se tem um acúmulo de produtos do gênero alimentício sendo comercializados no mesmo lugar, fatalmente se pensa em alimentação. Portanto, uma praça de alimentação com alguns restaurantes é desejável.


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Hoje, um dos prédios que fazem parte do conjunto edificado no terreno abriga escritórios relacionados principalmente a administração do Porto de Vitória. Sabendo dessa demanda, e de que a região já apresenta uma vocação para áreas comerciais, um centro empresarial é uma opção a ser considerada. Visando uma diversidade ainda maior de público e atender a uma necessidade das comunidades vizinhas, propõe-se também um centro de formação profissional com foco em alimentação e turismo, em que serão ofertados cursos como de assistente de cozinha e cozinheiro, garçons, guia turísticos para o Centro de Vitória, idiomas e empreendedorismo, para que os estudantes possam ali mesmo aplicar seu conhecimento. Pensando na intenção do encontro entre as pessoas, a cidade e a cultura local, é impreterível que o terreno abrigue um espaço público de onde as pessoas poderão ter contato com a composição natural da cidade, principalmente com a Baía de Vitória. Da mesma forma, é preciso que a Estação Porto, centro cultural localizado no Armazém 5, esteja associada a esse espaço público e possa expandir suas atividades para além do edifício. Para que o equipamento seja ainda mais atrativo, além de múltiplas atividades, que garantam o seu uso por diversos públicos e em todos os horários do dia, é interessante que a mobilidade seja facilitada, ou seja, um módulo que reúna diferentes modos de locomoção. Com os usos definidos, é preciso listar as áreas demandadas para que essas atividades.


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Área para exposição dos produtos

Área de Carga e Descarga

Circulação Ampla

Vestiários

Sanitários

Restaurantes

PRAÇA DE

Depósito

ALIMENTAÇÃO

Vestiários

Sanitários

Área para disposição de mesas

Salas Comerciais (dimensões variadas)

Salas de Aula

Sala de Professores

Sanitários

Área para exposições ao ar livre

Área para eventos e shows

Estacionamento de Veículos

Bicicletário

Estação BRT

Catraieiros

MERCADO

CENTRO EMPRESARIAL

CENTRO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL

ESTAÇÃO PORTO

MOBILIDADE


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5.5. PARTIDO E MORFOLOGIA Os dados levantados em campo e a leitura da legislação vigente para o diagnóstico somados aos itens apontados no programa de necessidades, resumem três pontos primordiais para o Partido Arquitetônico do Mercado de Vitória: a permeabilidade do terreno, o uso múltiplo e a interação com o entorno. Para garantir a permeabilidade do terreno, é necessário eliminar o bloqueio total e permanente que se tem com as edificações existentes no terreno. Em razão dos Armazéns representarem um momento da história, e hoje, o Armazém 5 ter uma função, ainda que subutilizada, optou-se por mantê-lo. Já o Armazém 4 e o edifício anexo que os une serão demolidos. A nova edificação, o Mercado de Vitória, descola-se do prédio do Armazém 5, a fim de dar-lhe um posicionamento de destaque no terreno. Entre ele e a nova edificação, forma-se um vazio, que prolonga a ideia de espaço público da Praça Oito de Setembro para a Baía de Vitória. Buscando aumentar ainda mais essa permeabilidade, a edificação também se descola do chão, criando um vão livre no pavimento térreo. Esse mesmo volume ainda se divide ao meio, criando uma alameda que direciona o fluxo até a orla (Figura 58). Figura 58 – Esquema de desenvolvimento do Partido à partir do volume

Fonte: Autora


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A diversidade de usos acontece não só na edificação do Mercado de Vitória, mas também na Praça Vertical que se estabelece onde antes se tinham plataformas do Porto de Vitória. A integração com o entorno se dá pela oportunidade de acesso por toda a testada do terreno, as também através da volumetria. O novo edifício procura manter as proporções do antigo Armazém 4, e trata sua cobertura com um elemento que mescla placas solares e jardins, a fim de criar uma nova fachada, visto que no entorno próximo há uma presença importante da verticalização. No decorrer desta pesquisa outros três temas são levantados e que são ponto chave para a elaboração deste equipamento para Vitória: proporcionar o encontro entre as pessoas, a cultura local e a cidade. Não há sentido propor a implantação de um Mercado se algum deles não for levado em consideração. A recorrência do número três, portanto, também contribuiu como partido (Figura 59). Figura 59 - Esquema de desenvolvimento do Partido à partir do conceito

Fonte: Autora

Esse ciclo de relação entre os elementos fundamentais para o projeto, induziu a uma forma geométrica que o representa de forma sutil, e que se fez presente em vários detalhes do projeto (Figura 60).


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Figura 60 - Logomarca desenvolvida com base na forma geométrica triangular

Fonte: Autora

5.6. SETORIZAÇÃO A Setorização deve ser vista aqui em dois momentos, o primeiro, em relação a implantação, que chamamos de Setorização Horizontal, e o segundo, em relação ao edifício do Mercado de Vitória, que chamamos de Setorização Vertical. A Setorização Horizontal (Figura 61) foi dividida a partir do vazio entre a edificação existente e a nova edificação. A praça central dá continuidade ao espaço público da Praça Oito de Setembro, e amplia o cone visual para a Cidade Alta. Figura 61 - Diagrama de Bolhas sinalizado a setorização inicial para Implantação do Mercado

Fonte: Autora


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Em frente ao Mercado pensou-se numa área para contemplação, descanso e alimentação. Próximo a ele também, uma área de Carga e Descarga de mercadorias, e um estacionamento. Do outro lado da praça central, em frente ao Armazém 5, uma espécie de praça cultural com espaço para exposições, eventos e shows integrada às atividades da Estação Porto. Com essa demanda, uma área de estacionamento e a região para integração de modais. Já a Setorização Vertical (Figura 62) se dá a partir da alameda criada no centro do edifício do Mercado de Vitória. Como o Centro Empresarial e o Centro de Formação Profissional não necessariamente precisam dividir os mesmos acessos, estes foram distribuídos em blocos distintos, um de cada lado da alameda, ocupando os pavimentos superiores. Figura 62 – Esquema sinalizando a Setorização Vertical

Fonte: Autora

Abaixo deles, fazendo uma conexão entre os dois blocos, está o Mezanino, com uma praça de alimentação, restaurantes e uma varanda voltada para a Baía de Vitória, privilegiando esta contemplação. No térreo, quase que desconectado dos pavimentos superiores, está o Mercado (Figura 63), cujas atividades foram setorizadas à partir das circulações, que


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promovem a permeabilidade do terreno. Na porção central dos conjuntos de boxes existe uma circulação de serviço conectada à área de Carga e Descarga. Mais próximo dessa área estão os boxes de Carnes e Peixes, pois o manuseio desta mercadoria demanda mais cuidado em relação a refrigeração, e por exalar um odor característico, é desejável que seu caminho até o local de venda seja o mais curto possível. Figura 63 - Setorização dos Boxes do Mercado

Fonte: Autora

Na parte central e próximo ao acesso principal, ficam os boxes de frutas e verduras, que traduzem em cheiros e cores o que é a vivência do mercado. Foram locados na alameda do edifício justamente por ser um elemento convidativo. Já do outro lado, próximo do acesso à praça de eventos, estão os boxes de produtos artesanais. Essa disposição, assim como das carnes e peixes, seguiu a necessidade de cuidados no manuseio dos produtos. A evolução do pensamento sobre o espaço público e sobre a área de intervenção, com o diagnóstico do entorno e a setorização dos usos do terreno, trazem como resultado o estudo preliminar que será apresentado no item seguinte.


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5.7. ESTUDO PRELIMINAR As plantas apresentadas neste item também estão disponíveis no caderno anexo em escala de 1:1000 e 1:200, para melhor leitura e entendimento do projeto. A implantação do Mercado de Vitória se deu respeitando a morfologia já existente. O novo edifício ocupa a mesma proporção do antigo Armazém 4, mas foi locado distante da testada do terreno, aumentando o espaço de calçada e dando oportunidade ao pedestre (Figura 64). Figura 64 - Implantação Geral

MERCADO

ARMAZÉM 5

Fonte: Autora

Figura 65 - Extensão da Praça Linear

Fonte: Autora

A antiga plataforma do Porto de Vitória agora dá lugar a uma praça linear, uma espécie de calçadão com quase 500m de extensão, com ciclovia, quiosques, área de eventos, playground, skate park e áreas de contemplação (Figura 65). O projeto


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ainda engloba um espaço cedido para um Terminal de Catraieiros, para uma Estação de BRT e um módulo de aluguel de bicicletas, que garantem uma integração ainda maior do Mercado com a cidade. Visto que o terreno para implantação do Mercado de Vitória é bastante extenso, sua área foi subdividida em quatro regiões. A Região 1 que faz face com o terreno vizinho também do Porto de Vitória, é considerada uma área de chegada, por onde se pode acessar a pé, de bicicleta ou por automóvel. Figura 66 - Região 1

Fonte: Autora

Ali se tem uma pequena praça por onde passa a ciclovia, com bicicletário e área de descanso, ao lado a área de estacionamento de veículos e o acesso a carga/descarga do Mercado de Vitória. Mais próximo da margem da Baía de Vitória, há um equipamento que remete a forma de uma arquibancada, que pode ser usada tanto como mirante quanto como área de descanso e lazer.


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Figura 67 - Bicicletário e Estacionamento ao fundo

Fonte: Autora

Figura 68 - Arquibancada como mirante e área de descanso

Fonte: Autora

A Região 2 (Figura 69), localizada em frente ao edifício do mercado, dá continuidade ao espaço do mercado, mantendo a mesma paginação de piso. Essa área, com dois


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quiosques, tem um espaço para descanso e permanência (Figura 70). Os quiosques, com cerca de 9,00m² atenderão pequenas demandas, como venda de água de coco, açaí e sorvetes ou sucos e sanduíches, ou seja, atividades que não demandam de muito espaço e não competem com os serviços ofertados na Praça de Alimentação. Figura 69 - Região 2

Fonte: Autora

Figura 70 - Continuidade do Mercado na Região 2

Fonte: Autora


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A Região 3 (Figura 71) engloba o acesso através da Praça Central, que é uma zona de transição, tanto entre as edificações do Armazém 5 e do Mercado de Vitória, quanto de quem vem da Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes para adentrar o terreno. Essa Praça direciona os caminhos de quem chega, através da paginação de piso, e cria um eixo entre Baía de Vitória e a Praça Oito de Setembro. Figura 71 - Região 3

Fonte: Autora

Nesse mesmo quadrante temos a praça de eventos da Estação Porto, que tem uma área livre, que pode ser usada tanto para exposições ao ar livre quanto para pequenas apresentações teatrais ou musicais. Seguindo a mesma ideia da arquibancada da Região 1, aqui se tem dois elementos escalonados, que podem ser utilizados como suporte para exposições, para plateia de apresentações ou como um local para descanso.


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Figura 72 - Área próxima a Estação Porto

Fonte: Autora

A Região 4 (Figura 73) ocupa a parte final da plataforma se configura como uma parte de lazer, com playground e skate park, e como integrador de modais, pois foram cedidas áreas do terreno para uma Estação do BRT, um módulo de aluguel de bicicletas e o Terminal Aquaviário para os Catraieiros (Figuras 74, 75 e 76). A ideia é que com apenas uma tarifa o usuário possa usufruir desses três meios de transporte.


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Figura 73 - Região 4

Fonte: Autora

Figura 74 - Aluguel de bicicletas e Estação do BRT

Fonte: Autora


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Figura 75 - Estação do BRT

Fonte: Autora

Figura 76 - Terminal Catraieiros

Fonte: Autora

Além do espaço público configurado como praça linear na orla da Baía de Vitória, o Mercado também abriga uma diversidade de atividades. Em função do desnível existente entre a plataforma do Porto de Vitória e a calçada da Avenida Marechal Mascarenhas de Moraes, os acessos não só do Mercado mas de toda a intervenção foram implementados com rampas e escadas, que se repetem por toda a testada do


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terreno, possibilitando inúmeros acessos e proporcionando permeabilidade ao mesmo. Figura 77 - Mercado de Vitória c Acesso pela alameda

Fonte: Autora

A permeabilidade também foi premissa na disposição dos boxes do Mercado, que acontece no pavimento térreo da edificação proposta (Figura 77). A circulação entre os módulos da feira livre promovem um prolongamento do acesso por rampas e escadas até a orla. O Mercado possui 73 boxes no total, que fornecem carnes e peixes, fruta e verduras e produtos artesanais, e ocupam cerca de 1.800,00 m² (Figura 78). Para a área de comércio de suprimentos, tem-se ainda uma área de apoio, para Carga e Descarga de produtos,Sala de Controle, Montacarga e Vestiários. Essa área é restrita e pode ser acessada por uma circulação de serviço exclusiva localizada entre os boxes, onde há também sanitários para os feirantes.


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Figura 78 - Pavimento Térreo

Fonte: Autora

Ainda no pavimento térreo há sanitários masculino e feminino com fraldário, e o acesso para o Mezanino, o Centro Empresarial e o Centro de Formação Profissional, ambos com entradas distintas. O fato de a projeção dos pavimentos superiores ser menor que a ocupação do térreo, proporciona um pé-direito alto, que induz a sensação de espaço aberto, de continuidade da rua, e não de uma área privativa. No pavimento acima se tem o mezanino (Figura 79), que avança em balanço o alinhamento do edifício e cria um belvedere para a Baía de Vitória. É neste ambiente contemplativo que acontece a Praça de Alimentação, abastecida por quatro restaurantes com uma média de 80,00m² cada, e dois sanitários.

Figura 79 - Mezanino

Fonte: Autora


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Para se chegar ao mezanino há as opções de escadas e elevadores, os mesmos que dão acesso aos blocos de Salas Comerciais e Centro de Formação, ou ainda através de uma escada rolante, localizada na alameda criada à partir do isolamento desses dois blocos (Figura 80). Figura 80 - Blocos separados pela alameda

Fonte: Autora

Tanto o Bloco de Salas Comerciais (Figura 81) quanto o Centro Profissional (Figura 82) ocupam dois pavimentos. O primeiro bloco possui quatro formatos de sala, um modelo com 14 unidades de área média de 35,00 m², um com área média de 42,00 m² que somam mais 14 salas, outro com área média de 96,00 m², totalizando quatro salas, e o último que ocupa 130,00m² e tem apenas duas salas. Todas as unidades são compostas por pelo menos um sanitário e uma copa.


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Figura 81 - Bloco Salas Comerciais

Fonte: Autora

O segundo bloco possui sanitários coletivos masculino e feminino, Sala de Professores/Coordenação, quatro salas multiuso com aproximadamente 80,00 m², que podem ser adaptadas para laboratórios ou biblioteca, 10 salas de aula com área média de 54,00 m², e um auditório com capacidade para 170 pessoas. Figura 82 - Bloco Centro Profissionalizante

Fonte: Autora


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Como observado no diagnóstico, existe uma relação visual, ainda que interrompida, entre a Cidade Alta e o terreno do Mercado de Vitória. Ficou constatado também a presença de muitos edifícios verticalizados no seu entorno, o que levanta a preocupação de trabalharmos de maneira mais cuidadosa a cobertura da edificação proposta. Portanto, além da cobertura de telha metálica, pensou-se num elemento que pudesse levar o conceito da praça linear também para a cobertura, levando a paginação e a vegetação da praça para o alto, e que da mesma forma, tivesse a função de proteção solar para melhorar as condicionantes de conforto, principalmente nos pavimentos superiores. Figura 83 - Cobertura

Fonte: Autora


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6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A atividade do Mercado, seja em praças, em ruas cobertas e semi-cobertas ou em edifícios, se fez presente na história das cidades. Colaborou para o desenvolvimento econômico e para a expansão dos limites urbanos, foi ponto de encontro para trocas intelectuais, culturais e sociais, e se estabeleceu como um lugar onde a cultura de um povo pode ser representada graças a exposição de produtos típicos regionais. A ascensão da industrialização e o fenômeno da Globalização estabelecidos no século XX contribuíram para o afastamento do homem para com o seu lugar. Tudo aparenta um padrão global, cada vez mais virtual e impessoal. Esse novo estilo de vida trouxe consequências não só para o indivíduo, mas também para a cidade. Os espaços públicos se mostram cada vez mais privatizados, com hora para entrar e sair. Essa é a realidade dos shopping centers, por exemplo, que apesar de apresentarem uma configuração de espaço público, oferecendo uma diversidade de atividades: de compra, entretenimento e alimentação, mas que limita um horário de entrada e saída, restrições de vestimenta e comportamento, além de um ambiente completamente fechado, de onde não se distingue dia e noite. Quanto mais distante e impessoal a relação do homem com o seu lugar, mais ameaçada está a sua cultura. Por isso, o Mercado Público é visto aqui como uma solução, seguro suas devidas proporções, para reaproximar o homem, a cultura e a cidade. Devemos restituir à cidade as funções maternais, nutridoras da vida, as atividades autônomas, as associações simbióticas que por muito tempo têm estado omitidas ou esquecidas. Com efeito, deve a cidade ser um órgão de amor; e a melhor economia das cidades é o cuidado e a cultura dos homens (MUMFORD, 2004, pp. 620-621).

A maior intenção deste trabalho é criar, através da arquitetura de um edifício e de um espaço público, um novo hábito de ocupação da cidade por parte das pessoas. É reestabelecer o contato do cidadão com o seu espaço, e através dessa apropriação do lugar, valorizar sua identidade local e reascender o sentimento de pertencimento.


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MERCADO DE VITÓRIA E REQUALIFICAÇÃO URBANA: O ENCONTRO ENTRE AS PESSOAS, A CULTURA LOCAL E A CIDADE  

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado pela aluna Raína de Alencar Menezes ao curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Vila V...

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