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DIVULGAÇÃO

ROGÉRIO FAISSAL/DIVULGAÇÃO

Santoro no papel do jogador, um dos ídolos do Botafogo: intensidade na vida e na tela

No temporada Nova de Mad Men es estreia amanhã no canal HBO. B8

Domingo 22/04/2012

CINEMA. Marcada por glamour, fortuna, excessos e tragédias pessoais, a vida de Heleno de Freitas, primeiro grande astro do futebol brasileiro, tinha tudo para render um belo filme. E rendeu. Com direção de José Henrique Fonseca e inspirado na biografia escrita pelo jornalista Marcos Eduardo Neves, Heleno – O Príncipe Maldito reconstitui com grandeza a jornada do herói das quatro linhas. A Gazeta conferiu o longa e conversou com seu diretor. Nesta edição, você vai saber como se deu essa imersão cinematográfica no universo do jogador. Não perca

ESTRELA CADENTE RAFHAEL BARBOSA REPÓRTER

Se a diversidade foi a marca deste período pósRetomada, na última década o público do cinema brasileiro não deixou de filtrar suas preferências. Não se pode negar: na produção contemporânea, as temáticas são as mais variadas e as abordagens passam por ecos do cinema novo e por uma estética profundamente influenciada pela escola europeia. Basta analisar a safra do ano passado, na qual se destacaram projetos tão opostos como Estrada para Ythaca, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti; Trabalhar Cansa, de Marco Dutra e Juliana Rojas, e Riscado, de Gustavo Pizzi, para comprovar a vastidão de influências dos novos realizadores. Em paralelo, De Pernas pro Ar, Cilada.com e Bruna Surfistinha, os maiores êxitos de bilheteria de 2011, confirmam um diagnóstico antigo: o gosto da plateia por produtos derivados da televisão permanece ávido. Por outro lado, as variantes mostram que nem sempre as fórmulas são assim tão certeiras. Também lançado no ano passado, O Palhaço, de Selton Mello, surpreendeu ao se tornar um dos filmes mais vistos do ano, mesmo com sua proposta autoral. Ou seja, o mercado ainda está longe de decifrar seus próprios códigos. Diante da safra deste 2012, fica ainda mais difícil teorizar sobre erros e acertos. Aproximando-se do fim do primeiro semestre, o saldo não é dos mais positivos para o cinema nacional. Da comédia de humor negro Billy Pig ao thriller de ação 2 Coelhos, todas as grandes apostas de público lançadas até

JOSÉ HENRIQUE FONSECA DIRETOR

“Fiquei impressionado, encantado com o personagem. É o tipo de personagem que eu gosto, um personagem que está numa situação-limite”

aqui naufragaram. E não tem sido diferente com as produções em cartaz. Tido como uma das maiores promessas da temporada, Xingu, superprodução inspirada na saga dos irmãos Villas Bôas, não foi além dos 150 mil espectadores em seu primeiro fim de semana. Ainda mais decepcionante foi o desempenho de Heleno, outra produção que estreou cercada de expectativas. Atração em 55 salas espalhadas pelo País, o filme que estreou nesta sextafeira (20) em Maceió contabilizou pouco mais de 70 mil pagantes desde 30 de março – menos que a plateia do Maracanã em dia de clássico. Além de todas as variantes a serem consideradas, pesa ainda sobre Heleno um estigma que acompanha o cinema nacional desde seus primórdios: retratar o futebol representou mais uma armadilha do que um trunfo para a grande maioria das produções que ousaram traduzir na tela a tão propagada paixão nacional.

INTERNACIONAL Com ou sem o aval do público, o fato é que o filme possui todos os ingredientes necessários para o sucesso. Inspirada na biografia Nunca Houve um Homem como Heleno, do jornalista Marcos Eduardo

Neves, a caprichada produção narra com extrema competência a derrocada do primeiro grande astro do futebol brasileiro. Uma trajetória repleta de glamour, mas pontuada por excessos envolvendo drogas, violência – e uma arrogância galopante. Herói trágico, o personagem é cinematográfico por natureza, observação que não escapou ao olhar do diretor José Henrique Fonseca. “Fiquei impressionado, encantado com o personagem. É o tipo de personagem que eu gosto, um personagem que está numa situação-limite”, diz o diretor, que dedicou seis anos ao projeto. Orçada em R$ 8 milhões (boa parte deles financiada pelo bilionário Eike Batista), de tão sofisticada a produção elevou o padrão do cinema brasileiro a um patamar poucas vezes alcançado. A exemplo de Riscado e A Casa de Alice (visto por menos de 40 mil pessoas no País e por mais de cem mil nos EUA), Heleno tem tudo para emplacar uma bela carreira internacional. No último Festival de Toronto, a cinebiografia arrancou elogios de publicações consagradas como o Hollywood Reporter. “Não que isso me envaideça – só estou comentando porque isso ajudou a vender o filme”, afirma o diretor em entrevista à Gazeta. Também segundo Fonseca, Heleno já tem contrato para distribuição comercial no Canadá e nos Estados Unidos, e será negociado com o mercado europeu. Também deve fazer bonito na temporada de premiações. Caso seja selecionado para representar o Brasil no Oscar, a depender de seus atributos poderá chegar tão perto da estatueta quanto Central do Brasil em 1998. ‡

RESENHA

SEM OUSADIAS NARRATIVAS, FILME É CLÁSSICO EM TODOS OS SENTIDOS A primeira imagem que se vê em Heleno é um close no rosto de um homem atormentado. Na sequência, a câmera passeia por uma parede onde estão expostos recortes de jornais que resumem sua trajetória de altos e baixos. Ele leva a mão à parede, e com dificuldade rasga trechos das reportagens para engoli-los em seguida. Caso fosse um curta-metragem, Heleno poderia se encerrar ali mesmo – e teria transmitido ao público a essência de sua história. Que bom que não é. Ao longo de seus 116 minutos, o roteiro escrito por José Henrique Fonseca em parceria com Felipe Bragança reserva ao espectador outras construções tão ou mais elaboradas. Ainda pouco conhecido, Bragança desponta como um dos principais roteiristas de sua geração. Parceiro habitual de Karim Aïnouz, o carioca mostrou seu talento em filmes como O Céu de Suely e também no seriado Alice, exibido pelo canal pago HBO. Sem ousadias narrativas, o texto escrito a seis mãos (Fernando Castets também consta nos créditos) é clássico em todos os sentidos, mas nem por isso menos inventivo. A trama se desenvolve em dois tempos: mostra a ascensão do astro, sua relação

com as mulheres e a vaidade exacerbada que fez dele um enfant terrible dentro e fora de campo – enquanto paralelamente antecipa sua decadência profissional e pessoal. A transferência do Botafogo para o Boca Juniors e a dificuldade de adaptação aos gramados argentinos são o ponto de partida para a derrocada que o levaria a terminar seus dias internado num sanatório. Nas sequências que retratam o auge do jogador o destaque fica por conta do caprichadíssimo design de produção, que reconstitui com esmero o Rio de Janeiro da década de 1940. Do figurino à direção de arte, todos os detalhes saltam aos olhos. Já quando o protagonista é visto em sua fase final, não há como não se impressionar com o desempenho de Rodrigo Santoro, na melhor atuação de sua carreira (o que não é pouco para quem já estrelou títulos como Bicho de Sete Cabeças, Carandiru e Abril Despedaçado). Vários quilos mais magro, o ator encarna um Heleno transformado, muito distante do apogeu físico que já viveu. Ambos os momentos são costurados com belas metáforas e rimas visuais, muitas delas também mérito da soberba fotografia assinada pe-

lo mestre Walter Carvalho. Mas o preto e branco não é o único recurso usado pelo fotógrafo para traduzir a atmosfera da época. Ele também assimila técnicas utilizadas pelos filmes do período, referenciando alguns dos principais clássicos do cinema mundial. Principalmente quando retrata o universo de glamour e a relação com a fama, as opções de Fonseca se aproximam de Piaf. Porém, se a célebre cinebiografia da musa francesa tem a música como aliada narrativa, aqui o direto r evitou as emoções do futebol para concentrar seu foco nos conflitos do protagonista. Inevitavelmente, frustra o espectador por não mostrar o talento de Heleno com a bola no pé. Mas, em meio a tantos acertos, a ausência é facilmente perdoada. RB ‡ Continua nas págs. B2 e B5

Serviço Filme: Heleno – O Príncipe Maldito (Idem, BRA, 2012) Direção: José Henrique Fonseca Onde e quando: veja a programação dos cinemas na pág. B3 Classificação: 14 anos


B 2 Caderno B

GAZETA DE ALAGOAS, 22 de abril de 2012, Domingo

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Em entrevista à Gazeta, o cineasta José Henrique Fonseca fala sobre processo de realização de Heleno, que segundo ele não é sobre futebol

“EU FIZ UM FILME QUE FALA DA ALMA”

ROGÉRIO FAISSAL/DIVULGAÇÃO

Autor do premiado O Homem do Ano, com o qual estreou em 2003, o diretor estava há quase uma década sem lançar um novo longa RAFHAEL BARBOSA REPÓRTER

Mesmo após despontar como um dos mais talentosos cineastas de sua geração ao lançar o premiado O Homem do Ano, em 2003, na última década o cineasta carioca José Henrique Fonseca manteve-se afastado da tela grande. Ao longo desse hiato, o diretor se dedicou aos comerciais e videoclipes chancelados por sua produtora, a Conspiração Filmes, e mostrou seu talento em Mandrake, seriado da HBO Brasil adaptado da obra de seu pai, o escritor Rubem Fonseca. E foi justamente no intervalo das gravações de dois telefilmes que darão continuidade à trama protagonizada por Marcos Palmeira – previstas para ir ao ar no segundo semestre – que Fonseca conversou com a Gazeta. Por telefone, ele falou sobre a experiência de levar aos cinemas a história do craque Heleno de Freitas e antecipou alguns de seus projetos para o futuro. Leia a seguir.

Gazeta. Como a história de Heleno de Freitas entrou na sua vida? José Henrique Fonseca. O cara que editou o livro, o Rodrigo Teixeira, também foi produtor do filme. Ele mostrou uns rascunhos da biografia, que ainda não tinha sido publicada na época. Eu vi e fiquei impressionado, encantado com o personagem. É o tipo de personagem que eu gosto, um personagem que está numa situação-limite. Então me interessei pelo projeto. Como foi a pesquisa para o roteiro? Quanto da biografia escrita pelo jornalista Marcos Eduardo Neves foi levado em conta? As pesquisas foram variadas. Não existe uma pesquisa igual para todo mundo. Existe, sim, a maneira como você interpreta a pesquisa que está fazendo. Claro que o livro foi um manancial para a gente, mas a gente foi a campo. Fizemos um levantamento que o próprio biógrafo já tinha feito, mas nós fomos fazer sob a nossa ótica. Eu fui com o Rodrigo em Barbacena; a gente conversou com o médico que tratou do Heleno. Pesquisamos textos que falavam sobre. Tentamos falar com pessoas que conheceram ele. Depois teve toda uma pesquisa do departamento de arte sobre como era o Rio de Ja-

Fonseca (à dir.) orienta Rodrigo Santoro durante as filmagens do longa: “O Heleno talvez tenha sido o primeiro cara que jogou a carreira no lixo, digamos assim”

neiro daquela época, dos costumes aos tecidos das roupas, as big bands, tudo... O filme teve uma pesquisa de arte e de roteiro muito grande.

Porque a decisão de filmar em preto e branco? Porque eu acho que para essa história específica, passada na década de 1940, uma época distante, em que se tem muito pouca imagem em movimento, o P&B ajuda a transportar o espectador a esse período distante, glamouroso, meio mítico. Mas também porque minha formação enquanto cineasta foi feita por filmes em preto e branco. Então eu tinha um certo fetiche de filmar assim. Não deixa de ser uma escolha ousada. Você teve de brigar por ela? Não tive porque não tive nenhum estúdio apoiando o filme no começo da produção. Eu só tive o Eike Batista. Eu só consegui realizar esse filme por causa dele, pela confiança no projeto, de que ele estava se associando a um projeto de qualidade. Se talvez eu estivesse num estúdio, não iriam me deixar filmar em preto e branco. Mas isso se reverteu num resultado positivo: o preto e branco foi muito elogiado, foi bom sim para o filme. Fale sobre sua formação, sobre suas referências. É tudo. O cinema tem muita uma coisa parecida com a música. Você não necessariamente está sempre no clima de escutar um jazz, ou uma música eletrônica, ou um samba. Você tem de estar no espírito para ouvir aquilo ali. Eu tenho a coleção inteira do (Yasujiro) Ozu, mas ele não é um cineasta que eu vejo sempre como vejo (Ingmar) Bergman, por exemplo. A minha formação é variada, vai dos filmes do Cassavetes aos filmes americanos mais óbvios, Scorsese, Frank Capra, os brasileiros do cinema novo. É variado, eu não tenho nenhuma escola, diria que a minha escola é vasta, desregrada... Eu não tenho esse páreo para um tipo de cinema. Eu gosto de tudo. Só não gosto de filme ruim. Heleno foi muito comparado a Touro Indomável. Você diria que se trata realmente de uma referência? Não, não foi nada, claro que não. Só fazem essa comparação porque o personagem é um esportista

JOSÉ HENRIQUE FONSECA CINEASTA

“Eu só tive o Eike Batista. Eu só consegui realizar esse filme por causa dele, pela confiança no projeto, de que ele estava se associando a um projeto de qualidade. Se talvez eu estivesse num estúdio, não iriam me deixar filmar em preto e branco”

desconhecido, como o Jake LaMotta era, e porque o filme é em preto e branco, e é sobre uma derrocada. Mas quem dera, o Scorsese filma muito melhor do que eu. Eu não fiquei colocando o filme para ninguém ver. Se o Rodrigo Santoro viu, viu porque quis. Eu fiz os planos que eu quis fazer. Se você olhar, no Touro Indomável não tem um close do cara no início do filme. O boxe é muito mais cinematográfico que o futebol. Tem a metáfora do boxe, que são dois caras duelando – o ringue é a vida, e o ringue é quadrado, ou seja, o quadrado do cinema, que é retangular. Então é só por isso, nada além disso.

O Brasil, embora seja uma nação apaixonada por futebol, não tem uma tradição de filmes de sucesso sobre o tema. Como você vê essa falta de interesse em relação a um tema tão popular? Eu não sei. Esse filme meu não é sobre futebol. As pessoas que leram ele assim se enganaram. É igual a filme pornô... Eu não fiz um filme pornô, porra! As pessoas vão ao cinema ver um filme sobre futebol com o Rodrigo Santoro? Eu não fiz um filme com o Maradona. É engraçado, é uma leitura errada. Eu fiz um filme com um ator, e um ator não vai jogar futebol como um jogador nunca. A menos que eu faça um filme enganoso, que eu fique ali chamando dublê. Eu fiz um filme que fala da alma, não fiz um filme fetichista para quem quer ver futebol. Quem quer ver futebol que vá ver Flamengo x Vasco, vai ver a seleção brasileira. No Heleno eu fiz um filme cinematográfico. Mas o futebol não deixa de aparecer no filme. Sim. O futebol está ali. Inclusive algumas pessoas, muitas pessoas aliás, que gostam de futebol, assistiram ao filme e gostaram,

porque o filme tem o cheiro do futebol, o universo, as mazelas, ele tem toda a metáfora do futebol. O Heleno talvez tenha sido o primeiro cara que jogou a carreira no lixo, digamos assim, o primeiro jogadorproblema, e essa relação com a fama, com as mulheres e tudo mais, e foi avançado no tempo em relação a isso. E tem todo o universo mesmo, a relação com os dirigentes, a coisa do vestiário, está tudo lá, e ainda tem mais uma ceninhas de partidas. O filme não renega o futebol.

Qual seria a principal dificuldade para filmar partidas de futebol? A questão não é nem a dificuldade. O que me atraiu no filme não foi a ideia de filmar o futebol. Eu fui atraído por um personagem. É complexo, eu demorei dez dias para filmar duas cenas. Futebol é jam session, é o improviso na essência, por isso que futebol é tão interessante culturalmente, porque ele é um improviso, assim como a vida. Tudo pode acontecer, um gol aos 45, um jogaço, ou um jogo mais humilde, um jogo enriquecido por jogadas bonitas. O futebol é cheio de metáforas, mas como é que isso se reproduz? Como é que eu vou forjar o futebol? Como é que eu vou fazer o imprevisível parecer imprevisível? No cinema você precisa trabalhar com o previsível, que é ensaiar a cena para não sair de foco, o ator tem de saber o que vai fazer... Não posso colocar a bola e uma câmera, e dizer para o cara: “Se vira aí!”. Isso não vai funcionar, ou então vai virar um filme documental. Então esse papo aí, que falta um filme de futebol, eu acho que vai continuar a vida inteira sem ter um filme, porque o futebol não é para ser filmado, é para ser assistido. O John Cassavetes falava que cena de sexo vai ser sempre falsa no

cinema. É a mesma coisa com o futebol. Os caras que querem ver futebol têm de ver no estádio ou na televisão o futebol de verdade, jogado pelos caras mesmo.

O Homem do Ano foi um filme muito premiado e elogiado, mas ainda assim você demorou muitos anos a voltar ao cinema com Heleno. Por que o hiato? Isso eu não sei. Eu também me faço essa pergunta. Mas não vai acontecer de novo. Já estou levantando outros projetos. A gente tem o projeto de fazer o Capitão Gay, que é aquele personagem do Jô Soares para a televisão, e outros projetos com os quais eu estou envolvido como produtor. Tem também O Adorador, que é baseado num livro do meu irmão, o Zeca, e o Marcelo Serrado vai fazer o personagem principal, um cara que leva um pé na bunda de uma mulher e abre uma página no Facebook especializada em mulheres iludidas no casamento. Além desses dois filmes, tem o documentário do Vasco, meu clube, que eu devo lançar em agosto. E também um documentário sobre a artista plástica Beatriz Milhazes – estou há dois anos acompanhando ela. Nesse período eu fiquei fazendo mais televisão, filmei muitos comerciais, me envolvi no Mandrake também. Mas não achei legal demorar tanto para voltar ao cinema. Por que produzir um telefilme e não uma nova temporada de Mandrake? Não sei, isso você tem que perguntar para a HBO (risos). Mas nós estamos de olho sim numa nova temporada, que talvez saia no ano que vem. Este ano irão ao ar esses dois telefilmes, de 80 minutos de duração cada um, com uma história que se completa: ela começa em um e termina no outro só. ‡

“O que me atraiu no filme não foi a ideia de filmar o futebol. Eu fui atraído por um personagem. É complexo, eu demorei dez dias para filmar duas cenas. Futebol é jam session, é o improviso na essência, por isso que futebol é tão interessante culturalmente, porque ele é um improviso, assim como a vida”


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Domingo, 22 de abril de 2012, GAZETA DE ALAGOAS

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. A lista de filmes brasileiros sobre futebol é grande, mas a maioria deles não caiu nas graças do público. Nesta edição, alguns dos títulos que têm o esporte como tema ou pano de fundo

RAFHAEL BARBOSA REPÓRTER

Trata-se de uma relação antiga, que remonta ao início dessas duas artes tão populares. Enquanto as primeiras imagens em movimento teriam sido feitas no Brasil em 1898 pelo italiano Alfonso Segreto, a história oficial relata que a chegada do futebol ao Brasil se deu 1894, pelas mãos do paulistano Charles Miller, que teria trazido da Europa duas bolas e um livro com as regras do então ‘novo’ esporte que se tornaria uma das maiores paixões dos brasileiros. Principalmente por meio dos cinejornais e dos chamados filmes documentais, o futebol foi tema de um sem número de obras cinematográficas. Antes do surgimento da televisão, era por meio delas que o público podia conferir os lances das principais partidas mundiais, muitos meses depois, claro. Mas não tardou para que os filmes de ficção elaborassem tramas com o esporte como pano de fundo. Em Fome de Bola – Cinema e Futebol no Brasil, publicação lançada em 2006 pela Coleção Aplau-

so da Imprensa Oficial de São Paulo, o crítico de cinema e articulista esportivo Luiz Zanin Oricchio conta como essa relação foi ganhando novos desdobramentos no decorrer das décadas até os dias atuais. “Estilisticamente, cada um desses filmes é típico de sua época: o melodrama dos anos 1930, o cinema-verdade dos 60, o verismo de espetáculo dos 80, a diversidade de poéticas dos 90 e 2000, e a fusão com uma estética da publicidade, típica do nosso tempo. Cada um desses filmes, se soubermos fazêlo falar, expressa tanto um momento da história do cinem a c o m o u m m omento da história do futebol e da própria história do País. É um nó de significados”, escreve o jornalista em seu livro. Fruto de uma rica pesquisa em arquivos históricos, a obra é uma fonte fundamental para quem quer saber mais sobre o tema. Com base em suas páginas, a Gazeta elaborou uma lista com alguns dos principais filmes brasileiros que trataram do futebol em todos os tempos. Confira a seguir. ‡

IMAGENS: REPRODUÇÃO

Futebol em Família (ficção, dir. Rui Costa, 1938) Baseado numa peça de Antonio Faro e Silveira Sampaio e com Grande Otelo no elenco, o filme conta a história de um jovem cujo pai não quer que ele siga a carreira de jogador de futebol.

Alma e Corpo de uma Raça (ficção, dir. Milton Rodrigues, 1938) Dois jogadores do Flamengo, um pobre e outro rico, disputam o amor de uma grã-fina: ela dará a mão àquele que conduzir o clube à vitória. Com cenas documentais, a produção tem a participação de atletas do clube, entre os quais o lendário Leônidas da Silva.

Precursor do cinema novo, o filme fala dos meninos pobres do Rio de Janeiro e mostra o futebol como uma grande festa popular. Mostra também cenas e personagens típicos do mundo da bola, em cenas filmadas no majestoso Maracanã.

turado pela polícia política da ditadura Médici. O filme é um comentário sobre a utilização política do futebol.

Garrincha, Alegria do Povo

(ficção, dir. Carlos Manga, 1986) Faxineiro de um clube (Renato Aragão) assume por acidente o cargo de técnico e o time começa a ganhar os jogos, o que contraria alguns interesses. Pelé faz um repórter esportivo.

(doc., dir. Joaquim Pedro de Andrade, 1962) Documentário sobre a carreira de Mané Garrincha, feito quando o jogador vivia o auge da fama, após a conquista da Copa do Chile. De tom sociológico, mostra como os jogadores costumam ser explorados pela estrutura dos clubes.

Subterrâneos do Futebol (doc., dir. Maurice Capovilla, 1965) Com produção de Thomaz Farkas, o filme revela aspectos da vida do jogador e a paixão do brasileiro pelo futebol, levantando a problemática dos jovens que enxergam no esporte a chance de ascensão social.

Pelé Joga contra o Crime O Gol da Vitória (ficção, dir. José Carlos Burle, 1946) Grande Otelo interpreta o papel do jogador Laurindo, que em muitas cenas lembra passagens da vida de Leônidas da Silva, o maior futebolista da época.

Rio 40 Graus (ficção, dir. Nelson Pereira dos Santos, 1955)

(ficção, dir. Anselmo Duarte, 1970) Pelé é um técnico dos juvenis do Santos FC e tenta fazer alguma coisa pelos menores abandonados.

Pra Frente, Brasil (ficção, dir. Roberto Farias, 1983) Enquanto o Brasil vive a febre da Copa do México, um inocente é preso e tor-

Os Trapalhões e o Rei do Futebol

Todos os Corações do Mundo (doc., dir. Murilo Salles, 1997) Documentário oficial da Fifa sobre a Copa de 1994, nos EUA, vencida pelo Brasil nos pênaltis, contra a Itália. Uma celebração ritualística do jogo da bola.

Boleiros, Era uma Vez o Futebol (ficção, dir. Ugo Giorgetti, 1998) Os boleiros do título são antigos profissionais de futebol que se reúnem num bar e trocam recordações do tempo em que atuavam. A partir dessa situação original, são contadas seis histórias típicas.

Garrincha – Estrela Solitária (ficção, dir. Milton Alencar, 2003) O jogador é vivido por André Gonçal-

ves nessa tentativa de reconstruir sua vida desde a infância pobre em Pau Grande. Mostra do estrelato no Botafogo e na seleção à sua ligação com Elza Soares e sua decadência e morte prematura. Baseado na biografia de Ruy Castro.

Pelé Eterno (doc., dir. Anibal Massaini, 2004) Documentário sobre a vida e a obra do rei do futebol. Inclui cerca de 400 gols, jogos pelo Santos e pela seleção e histórias como a do milésimo gol e ainda cenas de família e cerimônias oficiais.

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (ficção, dir. Cao Hamburger, 2006) Em 1970, o Brasil e o mundo parecem estar de cabeça para baixo, mas a maior preocupação na vida de Mauro, um garoto de apenas 12 anos, tem pouco a ver com a ditadura militar que impera no País: seu maior sonho é ver o Brasil tricampeão mundial de futebol.

Linha de Passe (ficção, dir. Walter Salles e Daniela Thomas, 2007) Quatro meninos que vivem na periferia de São Paulo tentam escapar da pobreza, inclusive por meio do futebol. DIVULGAÇÃO

PAIXÃO NACIONAL NÃO FAZ SUCESSO NO CINEMA


Estrela cadente - Gazeta de Alagoas