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DIVULGAÇÃO

Plateia lota o Theatro Sete de Setembro para conferir o festival universitário

ALICE JARDIM/CORTESIA

Domingo 04/12/2011

Lucio Mauro Filho faz última apresentação de Clichê hoje em Maceió. B8

O SALDO DA

GLÓRIA

CINEMA. Faz algum tempo, mas Penedo já viveu sua era de ouro. A efervescência econômica e cultural experimentada pela cidade ribeirinha em meados do século passado semeou o terreno para o surgimento do Festival do Cinema Brasileiro de Penedo, que acabou em 1982 e até hoje consta como o maior evento cinematográfico do estado. E embora muitos vestígios desse momento tenham desaparecido, os dias de festa e convívio com astros e estrelas continuam vivos na memória dos penedenses, como ficou claro durante o I Festival de Cinema Universitário de Alagoas – realizada entre os dias 23 e 27 de novembro, a mostra ofereceu aos moradores do município um encontro com a história. A postos para acompanhar a movimentação, a Gazeta foi além e se lançou na missão de colher as lembranças de quem viveu aquele período. Não dá para perder RAFHAEL BARBOSA REPÓRTER

NINHO MORAES JORNALISTA E CINEASTA

“Penedo era uma cidade muito rica. Navios que vinham da Europa desembarcavam lá. Já existiram cerca de 37 processadoras ativas produzindo arroz, além de fábricas de tecido que exportavam para o Rio de Janeiro de barco. E com tanta riqueza, existia uma elite forte, que levava uma vida de luxo, com carros caros etc. Mas era uma elite muito culta, que investia na cidade”

Penedo, AL – Nas paredes do Museu do Paço Imperial estão algumas poucas pistas do que foi o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo – um painel de cerca de quatro metros exibe cartazes de suas principais edições. Mais adiante, um antigo volume encadernado e com folhas soltas guarda recortes de jornais da época, que narram a euforia daqueles dias. Suas páginas também trazem fotos dos artistas que passaram pela cidade, de Lima Duarte a Vera Fischer e de Eva Wilma a Maitê Proença. Na Fundação Casa do Penedo, outros registros mais bem cuidados ajudam a contar a história. Juntas, as peças não chegam a compor um acervo expressivo, ou pelo menos tão vibrante quanto as memórias de quem viveu a época. E m Pe n e d o , n ã o h á quem não tenha um relato para contar. Ao pedir uma informação nas ruas, corre-se o risco de ser levado até o destino, mesmo sob o intenso calor que antecede o verão ribeirinho. Foi assim que conhecemos a professora Wadna Batista, de 47 anos. Ao mostrar o caminho de uma barbearia aberta na cidade naquela tarde de sábado, 26 de novembro, ela revelou suas impressões sobre o I Festival de Cinema Universitário de Alagoas, então em andamento. “Estou achando muito bom. Penedo estava precisando disso. É como um encontro do passado com o presente. Ontem senti que o povo de Penedo está despertando novamente para a cultura”, pontuou. Assim como ocorre com muita gente na cidade, as principais memórias da professora sobre o antigo festival, realizado entre os anos de 1975 e 1982, são

relacionadas ao encontro com os artistas. “Eu tinha uns 13, 15 anos, era muito ameninada, não entendia a importância daquilo”, diz ela, que nunca esqueceu a conversa que teve com a atriz Eva Wilma. Alguns metros de caminhada e chegamos à rua Sabino Romariz, por trás do Theatro Sete de Setembro, onde acontecia o festival. Em dia de feira, o modesto salão de Lenison, ou Lensinho, como é conhecido, se escondia entre as barracas. Fazer barba e cabelo era apenas um pretexto para ouvir histórias sobre a cidade – e como todo bom barbeiro, Lensinho tinha a língua tão afiada quanto navalha. Soltou logo sua queixa: “Eu achei esse festival muito mal divulgado. Só fiquei sabendo ontem porque passei na porta do teatro e vi o cartaz. E olhe que eu trabalho aqui atrás todo dia. Hoje um amigo meu me falou que viu um filme muito bom sobre o Garrincha (o documentário Garrincha – Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade). Se eu soubesse... Mas tudo em Penedo é muito mal divulgado. Se você não ouvir o rádio logo cedinho, não fica sabendo de nada”. Os conflitos de Penedo com a memória são tão antigos quanto a própria cidade. Como narra a Enciclopédia dos Municípios de Alagoas, “a origem de Penedo é repleta de incertezas (...) Os melhores nomes da historiografia alagoana trazem informações contraditórias sobre sua fundação. Werther Vilela Brandão afirma não haver documentação comprovando o aparecimento do burgo no século 16”. Mas, se não se pode precisar detalhes sobre o surgimento do município que é um dos mais antigos do Brasil, também não se pode negar a efervescên-

cia econômica e cultural verificada em Penedo na primeira metade do século passado, época em que a cidade sediava indústrias e mantinha dois cinemas ativos, o Cine São Francisco e o Cine Penedo, além do Theatro Sete de Setembro, a primeira casa de espetáculos de Alagoas. “Penedo era uma cidade muito rica. Era um grande entreporto comercial. Navios que vinham da Europa desembarcavam lá. Já existiram cerca de 37 processadoras ativas produzindo arroz, além de fábricas de tecido que exportavam para o Rio de Janeiro de barco. E com tanta riqueza, existia uma elite forte, que levava uma vida de luxo, com carros caros etc. Mas era uma elite muito culta, que investia na cidade”, diz o jornalista e cineasta Ninho Moraes, que é filho de penedense – seu pai era o industriário Domingos Ferreira de Moraes – e pesquisou sobre a região para um documentário que pretende realizar no futuro. Somando-se à bela arquitetura barroca da cidade que margeia o rio São Francisco, a conjuntura era das mais favoráveis para a realização de um grande evento cultural. E assim, em janeiro de 1975 surgia o I Festival do Cinema Brasileiro de Penedo. Ao longo de oito edições, o certame viu nascer novos cineastas e ofereceu aos profissionais do ramo uma janela privilegiada para seus trabalhos. Quem tinha em casa uma câmera Super-8 acabou tirando roteiros da gaveta para transformá-los em filmes, e inscrevê-los no concurso. Paralelamente à mostra competitiva, exibições hors concours de produções nacionais de peso como Pixote e Bye Bye Brasil transformavam o município numa grande festa, com a presença de artistas

badalados. Os clubes, bares e o tradicional Hotel São Francisco, inaugurado em 1959, pulsavam junto com o burburinho. “A partir do governo militar, nos anos 70, a construção das hidrelétricas matou a economia da região. Assassinou mesmo, foi um crime. Depois, a construção de Xingó acabou de vez com o que restou. O festival foi o último suspiro dessa riqueza. Nos anos 80 chegou a cultura da cana, que já dominava todo o estado, menos aquela região”, diz Ninho. A década de 80 trouxe também o encerramento do festival, cuja última edição foi realizada em 1982. As teorias para seu fim são as mais diversas, mas a grande maioria converge para razões políticas. Com o fim do mandato do prefeito Raimundo Marinho, grande entusiasta e defensor do evento, e sob a justificativa de que a cidade não tinha estrutura para sediar uma festa daquele porte, o governo do Estado teria iniciado o processo para transferi-lo para Maceió, algo que jamais aconteceu. O rio definhou, as indústrias faliram, os cinemas fecharam e o festival acabou, mas Penedo continua cercada por uma atmosfera cinematográfica que se fez mais intensa na semana passada, durante o I Festival de Cinema Universitário de Alagoas. Em busca de vestígios consistentes dessa história, a Gazeta percorreu a cidade ao lado de pessoas que viveram os tempos áureos povoados por astros e estrelas do cinema nacional. Da bilheteira ao pipoqueiro, esses personagens são a prova de que a arte e a cultura são necessárias não apenas à vida, mas mais ainda à memória. Sem ela, nada somos. ‡ Leia mais nas págs. B2, B5 e B6

Janela Somando-se à bela arquitetura barroca da cidade que margeia o rio São Francisco, a conjuntura era das mais favoráveis para a realização de um grande evento cultural. E assim, em janeiro de 1975 surgia o I Festival do Cinema Brasileiro de Penedo. Ao longo de oito edições, até 1982, o certame viu nascer novos cineastas e ofereceu aos profissionais do ramo uma janela privilegiada para seus trabalhos


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HISTÓRIA SEM FIM

Nos cartazes, vestígios do festival

Celina, a bilheteira Não dá para adentrar na sala escura sem antes passar por ele: o bilheteiro. E Maria Celina da Conceição fazia o tipo linha dura. Nada de deixar menor de idade ‘malhar’ na sessão. Pelo menos é o que garantem os cinéfilos barrados por ela na infância. Mas isso, claro, não quer dizer que falte simpatia à senhora que hoje cuida da butique Butterfly, instalada num anexo do Hotel São Francisco. No mesmo complexo já funcionou o Cine São Francisco, uma sala com quase mil lugares inaugurada em 1962. Sobre os dias de festival, dona Celina não guarda tantas memórias. Suas recordações mais fortes são dos tempos em que os dois cinemas da cidade funcionavam. O filme da sua vida é Marcelino Pão e Vinho. Os ‘filmes de cowboy’ também estão entre seus preferidos, assim como ocorre com muita gente na cidade, num resquício das clássicas matinês. Com o Cine Penedo, onde também trabalhou, Celina guarda uma relação ainda mais nostálgica. “O rapaz do Iphan, que estava com a chave do cinema, me chamou para entrar lá, mas eu não quis. Quero me lembrar dele como era naquela época”, conta. Outra forte recordação é dos muitos músicos que subiram ao palco do Cine São Francisco, também uma ativa casa de espetáculos na Penedo de outrora, quando o município constava na rota dos grandes shows nacionais. Diz ter repreendido Ronnie Von, que saía do hotel com uma jaqueta cobrindo o rosto para não ser reconhecido: “Meu filho, deixe disso que Penedo tem homem mais bonito que você!”. Já Reginaldo Rossi teria tomado um porre homérico em sua passagem por lá, precisando ser carregado por dois homens. Só não entornou mais que Waldick Soriano, uma história à parte, segundo ela. Mas a lembrança que lhe arrancou um sorriso foi a da passagem de Roberto Carlos pela cidade. Hospedado no hotel, o cantor teria sido a cordialidade em pessoa. Em troca da simpatia, recebeu de Celina um presente, um belo crucifixo com o qual subiu ao palco. Para descobrir mais sobre o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo, Celina dá a dica: “Vá nesse prédio aqui da frente, e fale com Garapa. Ele lembra de tudo. Vá lá e diga que foi Celina quem mandou”.

FOTOS: ALICE JARDIM/CORTESIA

A seguir, um passeio pela memória da cidade que viveu tempos de glória durante o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo

Garapa, o anedotista

1977

O prédio da frente é a Associação Comercial de Penedo, uma das construções mais imponentes da cidade, erguida na década de 30. A sala do funcionário Carlos Alberto Lisboa, de 70 anos, fica no último andar. Em seu gabinete tudo remonta ao passado, do rádio-relógio setentinha até a máquina de escrever Olivetti, aliás em perfeito estado de conservação. Àquela hora Garapa despachava alguns trabalhos. Pediu que aguardássemos. Esperar, de todo modo, não era necessariamente uma tarefa difícil: na sala, janelões proporcionavam uma vista deslumbrante do rio São Francisco. Passados alguns minutos, ele atende a reportagem. Primeiro, por que Garapa? “Foi um padre de um colégio interno que me chamou assim uma vez. Eu fiquei irritado, aí pegou. É por causa daquela piada do doido que tem em toda cidade do interior”. Qual piada? “Aquela, que todo mundo na cidade chama o bêbado de Garapa, e ele se aborrecia e sacudia pedra na vidraça do pessoal. O delegado foi reclamar com ele, e ele disse que parava de quebrar vidraça se o povo parasse de chamar ele de Garapa. O delegado pede para a turma não chamar mais. Daí ele encontra com um indivíduo na esquina e outro na outra. Um grita:

‘Água’. O outro: ‘Açúcar’. Aí o doido pega a pedra e diz: ‘Misture Fio da Peste!’”. As gargalhadas são inevitáveis. “Eu não acho mais a menor graça. Já estou cansado dessa história, todo mundo me pergunta isso”, diz ele, que também é poeta, escritor e espécie de reserva viva das memórias da cidade. Garapa conta que participava dos festivais ‘socialmente’. Muito jovem, ia paquerar as meninas e aproveitar o clima de festa. “Todos foram eventos maravilhosos”, diz. “Estiveram presentes vários artistas famosos. Eu me lembro que o [Carlos Eduardo] Dolabella ficou aqui nessa rua, com uma garrafa de cachaça, e só deixava passar quem tomasse um gole”. Segundo Garapa, poucos eram os artistas que não se envolviam com a cidade de maneira intensa. Assim como todo mundo em Penedo, ele tem sua teoria sobre as razões que levaram ao fim do festival. “O que chegou aos meus ouvidos foi motivo político. O estado tirou o festival daqui para levar para Marechal Deodoro, porque nós tínhamos problemas de hospedagem. Eu acho que turisticamente ainda hoje nós somos discriminados. Diariamente chegam sete ou oito ônibus em Piaçabuçu. E aqui, uma das cidades mais antigas do Brasil, é muito mais fraco”.

1978

João Bolinha, o cinéfilo 1979

1980

No primeiro contato por telefone, João Bolinha sugere: “Vocês deveriam falar com um amigo meu, o Garapa”. Nós já falamos. “Quando?” Ontem. “Ah, então ele esgotou tudo, não sobrou nada para eu falar”. Sobrou, sim. Não por acaso nosso encontro com João Moraes Lopes, 68, foi marcado em frente ao Cine Penedo, prédio hoje em estado de abandono – mas que deve ser restaurado pelo Iphan. Chegando lá, uma bela surpresa: ele levou junto o amigo José Luiz Passos, homem responsável pela projeção do Cine São Francisco antes, durante e depois do Festival do Cinema Brasileiro de Penedo. A conversa com José viria em seguida. João, que recebeu a alcunha de ‘Bolinha’ não apenas pela circunferência, mas também pelo desenho da Luluzinha, até hoje é um dos cinéfilos mais ativos da cidade. Sempre que pode vem a Maceió para acompanhar a Sessão de Arte, e encontrar o amigo Elinaldo Barros. Saca tudo de cinema. “Eu adoro. Naturalmente a gente sofre com a falta de cinema em Penedo. Quando vou a São Paulo também vejo o máximo de filmes que posso assistir. No vídeo e na televisão vejo também. Cinema para mim é a melhor distração”. O filme de sua vida? “Um a que eu assisti várias vezes, e assistiria de novo, é Cinema Paradiso. Mas gosto muito da trilogia O Poderoso Chefão. Também gosto muito de A Queda do Império Americano, do qual Invasões Bárbaras é uma sequência. Também é muito bom. Dos mais antigos, Morangos Silves-

tres”. Bolinha se lembra de quando, aos oito anos, frequentava o Cine Ideal, onde hoje funciona o Theatro Sete de Setembro. Era início dos anos 50. “Com a mesada que eu recebia do meu pai, só dava para ir no domingo. A programação consistia sempre de um seriado e de um filme de cowboy. Depois surgiu o Cine Penedo e fechou o Ideal. E eram dois dias muito esperados: a terça, que consistia sempre de um filme de cowboy, e o seriado Flash Gordon. Passaram vários... Flash Gordon no Planeta Marte, Flash Gordon Conquistando o Mundo e assim por diante. No sábado era a grande programação, com um filme de cowboy – os grandes astros eram Rock Lane, Roy Rogers, Rod Cameron e Alan Ladd...”. Mesmo com tanto interesse pelo cinema, Bolinha confessa que não aproveitou a programação de filmes do antigo festival. Ele trabalhava no Country Club, casa que virava uma grande festa com a presença dos artistas durante o evento. “Se a gente soubesse que Penedo ficaria sem cinema, teríamos aproveitado mais o festival. Na época os filmes entravam em cartaz depois, então dava para ver depois do evento. E os filmes que passavam em Maceió também passavam aqui, então a gente não tinha essa ansiedade pelos filmes do festival”. Sobre o I Festival de Cinema Universitário de Alagoas, Bolinha faz um elogio e também uma crítica. “Tudo que vier para desenvolver o cinema em Penedo é bom. Mas eu vi muita desorganização nos horários, e uma programação muito extensa para pouco WERNER SALLES BAGETTI/CORTESIA público”, observa.


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A seguir, um passeio pela memória da cidade que viveu tempos de glória durante o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo

Zequinha do Carrinho de Confeito Um toque na campainha. Quem atende é a esposa de Zequinha. Ele não está. “Veja se encontra ele lá na praça”, diz ela. O aposentado José Pedro dos Santos, 66, mora no bairro de Santa Luzia, parte alta da cidade. Não foi preciso andar muito para encontrá-lo. Difícil foi convencê-lo a falar. Arredio, dizia não lembrar de muita coisa daquela época. Se hoje complementa a renda vendendo garrafinhas, por boa parte da vida ele sustentou a família com o carrinho de confeito que invariavelmente podia ser visto na porta do Cine Penedo e do Cine São Francisco, inclusive durante os festivais. Por estar sempre trabalhando, diz não ter acompanhado os filmes. Na verdade, não se interessa muito por eles. Puxando pela memória, cita Rambo como seu longa preferido. Lembra que muitos artistas compravam balas no seu carrinho. Mas os casais de namorados eram mesmo o público cativo. É Zequinha quem nos conta sobre Chico da Pipoca, o pipoqueiro do Festival do Cinema Brasileiro de Penedo, encerrado há 29 anos. Mas por onde anda Chico? “Deve estar vendendo pipoca lá embaixo”.

Chico, o pipoqueiro Manuel Francisco Lima, 61, vende pipoca há 27 anos. Começou na porta do Cine São Francisco, e lá foi testemunha da maioria das edições do antigo festival que movimentava Penedo. Com o fim do evento, permaneceu na atividade, dessa vez na porta do Theatro Sete de Setembro. “Estou lá toda vez que tem evento”, informa. “Tem de um real e de dois”, responde a um cliente. “Manteiga ou leite condensado?”, pergunta a outro. Foi com esse ritual que Chico da Pipoca, como é conhecido na cidade, criou os sete filhos. “Hoje a mais nova tem 18 anos e o mais velho 27”, explica. Durante o I Festival de Cinema Universitário de Alagoas, Chico ia de um

lado a outro seguindo a programação itinerante da mostra. Fosse na porta do Theatro Sete de Setembro, onde acontecia a competição oficial, ou na orla do Velho Chico, nas seções paralelas, todos os dias ele estava lá. Entre um cliente e outro, impossível não dar uma ‘espiadinha’ na tela. Que filme mais chamou sua atenção? “O primeiro filme, não me lembro o nome agora... Cabeça a Prêmio. Achei a história bonita”. Se Chico é feliz vendendo pipoca? “Sou”. E gosta de comer pipoca mesmo depois de todos esses anos? “Adoro. Um filme, um cinema, um teatro, se não tiver uma pipoquinha, não tem graça”, encerra o papo. ALICE JARDIM/CORTESIA

José, o projecionista

WERNER SALLES BAGETTI/CORTESIA

A curiosidade levou José Luiz Passos, 66, à função de operador. Morando próximo ao Cine Penedo durante a infância, ele diz que “fazia ‘mandados’ para o projecionista do cinema. Ia comprar cigarro, levar os carrinhos que transportavam os tambores de filme. Fazia tudo isso para ganhar entradas do cinema. Fazia uma coisa e outra, até que fui subindo, cheguei na cabine. Ajudando ele eu fui ganhando alguma prática. Nos anos 60, o Cine São Francisco precisou de um operador, e como não existia mão de obra por aqui, alguém se lembrou de mim”. Quem vê tantas vezes um mesmo filme deve ter uma relação muito particular com o cinema, certo? “Na verdade, não. Porque a gente não assiste; a gente vê os filmes mas não assiste, porque precisa prestar atenção na máquina. No tempo que eu trabalhava nada era automático; era preciso fazer o ajuste do carvão, fazer a luminosidade para não escurecer, ter cuidado para não apagar”, diz ele. Porém, quando não estava trabalhando, José não perdia uma chance de ver um bom ‘filme de cowboy’. “Tenho quase 200 em DVD, e vejo constantemente”, conta. Entre seus longas preferidos estão E o Vento Levou..., O Homem que Sabia Demais e Tora! Tora! Tora! A rotina no Cine São Francisco era tranquila comparada à correria dos tempos de festival. “Era um problema porque a maioria dos filmes vinha em cópia única e os produtores ficavam em cima, com todo o cuidado do mundo. O Nelson Pereira do Santos me aporrinhou muito aqui. O Jayme Monjardim também foi chatíssimo comigo quando trouxe o documentário sobre a mãe dele, a Maysa. Sobre o novo festival, José acha uma iniciativa “excelente. É muito bom para os jovens. Muita gente em Penedo ainda não sabe o que é cinema”. João Bolinha, ao lado, lembra das musas do festival. A dele é Bruna Lombardi. “Imagine a Bruna com vinte e poucos anos... Era uma boneca”. Lembra também das vezes em que as cópias dos filmes não chegavam a tempo de Maceió. “Quando acontecia, o dono do cinema, o Odon, que era muito conversador, entrava e dizia: ‘A direção da empresa avisa ao distinto habitué que em face do atraso do ônibus da Penedense não poderemos exibir a película de Rock Lane. Mas, para substituir essa película, nós dispomos aqui de uma de Roy Rogers. Aí tome grito, chute na cadeira. ‘Ihh, ladrão!’, a gente gritava”, diverte-se ele. “Rock Lane era nosso ídolo porque tinha muita cena de luta. Ele lutava e o chapéu não caía. Roy Rogers era romântico, a gente não gostava. “Eu gritava: ‘Esse veado não sabe lutar!’”. Quando os dois amigos desatam a falar sobre cinema, a conversa vai longe. Lá pelas tantas, lamentam o estado de saúde de Carlos Hora.

Beto, o herdeiro Beto é Roberto José da Silva Peixoto, mistura dos nomes de seu pai, Roberto da Silva Peixoto, e de seu avó, José da Silva Peixoto. Já na assinatura, pesa a responsabilidade de décadas de realizações da família. Seu avó ergueu o hotel, uma construção ousada para a época, inaugurada em 1959. Cinéfilo dos mais apaixonados, seu pai fez o que pôde para manter os cinemas abertos, mesmo com os prejuízos constantes. Beto diz também gostar de cinema, mas é acima de tudo um empresário. Com o declínio dos negócios do clã, após a morte do pai ele assumiu a administração do hotel, hoje sua única fonte de renda. Quando decidiu ceder aos apelos dos clientes e demolir o antigo cinema para construir um estacionamento no lugar, começaram suas dores de cabeça. Se Beto não se importa em apagar um pedaço da história? Ele diz viver um

grande dilema: “Ou salvo o hotel, ou salvo o cinema. Penedo está ganhando várias pousadas modernas, todas com estacionamento. Eu perco clientes todos os dias por não ter um”. Quando finalmente começou a construção, o Iphan decidiu o dilema por ele: salvou o cinema, embargando a obra. Beto é o único que não lembra com saudosismo do festival. “A melhor coisa que aconteceu com o hotel foi o festival ter acabado. Ele acontecia no mesmo período da Festa de Bom Jesus dos Navegantes, quando a cidade fica cheia de turistas. E todos pagam à vista pela hospedagem. Na época do festival o hotel era todo ocupado pelos convidados do evento, mas as diárias só eram pagas pela Ematur quase oito meses depois, ou às vezes mais”, desabafa ele, que ainda não desistiu de erguer seu estacionamento. FOTOS: REPRODUÇÃO/RICARDO LÊDO/CORTESIA

Correndo o risco de virar um estacionamento, o Cine São Francisco, referência no Nordeste nos anos 60, como era e como está hoje


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A seguir, um passeio pela memória da cidade que viveu tempos de glória durante o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo

Carlos, o cineasta reflexivo, depois responde: “Hoje não representa nada”. Mais alguns segundos de silêncio. “Mas já representou muito”, diz. “Quando eu era jovem, eu gostava muito de cinema, de ver os filmes e também de fazer cinema”. Carlos é autor de Destino, filme que recebeu uma menção honrosa na segunda edição do antigo festival, em 1976, e de Artesanato, documentário em Super-8 vencedor do prêmio de melhor filme no terceiro ano do festival. Artesanato é um documentário sobre a cerâmica de Carrapicho. Na edição se-

guinte, levou o segundo lugar com Briga de Galo. Para ele, o sentimento de mostrar seus filmes ao público era “o melhor possível”. Ganhar os prêmios, então, “nem se fala. Era incrível”. Se não tem fotografias daquelas noites para mostrar, a descrição parece ainda estar muito clara em sua memória. “Foi uma surpresa incrível para mim. Meu amigos já sabiam, mas eu não. Foi muito emocionante. Eu subi no palco, com todo mundo aplaudindo. Um artista conhecido veio me entregar o troféu e um diploma”, lembra ele, agora ameaçando um sorriso. ALICE JARDIM/CORTESIA

Carlos Hora, 68, é proprietário da Pousada Colonial, situada na orla do rio, a poucos metros da tenda e do telão montados para o festival universitário. Um dos cineastas premiados nas edições do antigo evento, na noite daquele sábado, sentado à porta da hospedaria, ele olhava com desinteresse para toda aquela movimentação. A saúde fragilizada não lhe permitia falar com desenvoltura, e ele também anda com dificuldade. Na sala de estar da pousada para fugir do barulho da exibição ao ar livre, tem início a breve entrevista. O que o cinema representa na sua vida? Carlos para alguns segundos,

Daniela, o futuro

“Meu nome é Daniela Silva Santos, tenho 15 anos e curso o segundo ano do ensino médio”, apresenta-se a menina que nasceu em Penedo, mas morou boa parte da vida no povoado Capela e também em Pindorama. Sua família voltou à cidade quando ela precisou iniciar os estudos. “Lá o transporte era muito difícil, o ônibus era muito cheio”, observa. Daniela se diz interessada em cinema desde pequena. “Hoje tudo é audiovisual. Do celular à internet. Nós estamos na era da comunicação. E eu nasci vendo televisão. É sempre aquela coisa: a mãe vai cuidar da casa e deixa o bebezinho na sala assistindo à TV. Mas acho que isso também começou desde as minhas brincadeiras de boneca. Eu via TV e tentava reproduzir aquilo com as bonecas. Só que, ao longo do tempo, eu não quis mais ficar só na brincadeira de bonecas. Eu queria sentir a emoção das bonecas. Daí eu pegava um sapato da minha mãe, uma roupa do meu pai, e ficava brincando sozinha. Meu pai e meus tios diziam que eu era doida, porque ficava falando sozinha. Mas eu não ficava falando sozinha: eu estava atuando, atuava até com o coqueiro lá no interior. Eu estava brincando de novela, de cinema, que é a minha brincadeira preferida”, analisa, tentando entender as origens da fascinação pela dramaturgia. Impressiona um raciocínio tão

lúcido e elaborado vindo de uma jovem de 15 anos. Impressiona ainda mais saber que Daniela nunca tinha ido a um cinema antes. Sua primeira experiência de ver um filme projetado numa tela grande acontecia ali, no I Festival de Cinema Universitário de Alagoas. De volta às lembranças da infância, a estudante conta que O Auto da Compadecida foi o primeiro filme que a arrebatou. De tão encantada, encenou a história com os amigos da escola. Na programação do festival, o filme que mais chamou sua atenção foi Xandrilá. Vindo do outro lado do rio, o curta sergipano era um dos mais fracos de toda a programação. O interesse de Daniela talvez se justifique pelo fato de Xandrilá ser o que se pode chamar de filme de atriz, função com a qual ela mais se identifica no cinema. Sobre o antigo festival que acontecia em sua cidade, a menina diz ter ouvido falar na escola. “Meu professor de história me contou muita coisa. Inclusive falou de uma atriz daqui que conseguiu realizar seu sonho. Alice... Ou é Aline Braga?”. É Alice, sim. Ela esteve aqui na abertura do festival. Você não foi? “Não, eu tenho um problema sério com horário. Meu pai não deixa chegar tarde. Tive que negociar com ele para vir esses dias, mas com a condição de que ele venha me pegar às 22h”.

O saldo da glória - Gazeta de Alagoas