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RAFHAEL BARBOSA

DIVULGAÇÃO

O HOMEM COM

Em novo livro, Danuza Leão ensina como simplificar a vida. B8

A CÂMERA Na mira de Vladimir: com uma clássica filmadora Super-8 em punho, o cineasta se diverte na praia de Ponta Verde

Domingo 20/11/2011

CINEMA. Radicado em Brasília há 40 anos, o paraibano Vladimir Carvalho registrou episódios que marcaram a história do País. Alguns dos acontecimentos que estiveram sob a mira de sua câmera agora ajudam a contar a ascensão da cena roqueira no Distrito Federal, no início dos anos 80. Feliz da vida com o êxito de Rock Brasília – Era de Ouro, maior sucesso de sua carreira até aqui, o veterano documentarista de 76 anos esbanjou simpatia e irreverência em sua passagem por Maceió, no início do mês, quando exibiu o filme para um público efusivo. Um dia após a sessão, Vladimir topou o convite da Gazeta para um passeio pela capital. No percurso, algumas das muitas incríveis histórias que ele viveu RAFHAEL BARBOSA REPÓRTER

Mal havia começado o café da manhã e Vladimir Carvalho foi interrompido pela reportagem. A entrevista teve início ali mesmo, no restaurante do hotel onde o documentarista estava hospedado, na Ponta Verde. Com o papo em curso e sem a menor cerimônia, ele devorou várias fatias de mamão, depois uma tapioca recheada e, por último, uma porção de salada de frutas. “Não gosto de dormir com o estômago cheio e cheguei muito tarde aqui, por isso não comi nada ontem à noite. Acordei esfomeado”, justificou o paraibano de Itabaiana. “Mas sou esfomeado por natureza mesmo”, completou. Para começo de conversa, Vladimir quis saber como anda o audiovisual em Alagoas. Lembrou do documentário Imagem Peninsular de Lêdo Ivo, de Werner Salles, que viu duas vezes na TV. “É uma obraprima. O único defeito do filme é que não fui eu que fiz”, elogiou, para depois se referir a outro cineasta alagoano, Celso Brandão – “Já vi ótimos filmes dele”. “Eu vejo muitos filmes brasileiros. Ganhei alguns aqui, e quando chegar em casa com certeza terão outros me esperando. Recebo muita coisa pelo correio, e vejo tudo”, garante. Era pouco menos de

09h do feriado de Finados, horário um tanto ingrato para quem teve uma noite intensa. Após encerrar o desjejum, ele despejou no copo um envelope de um

Breve trajetória Nascido em Itabaiana, na Paraíba, em 1935, Vladimir Carvalho iniciou a carreira escrevendo críticas para jornais. Ainda na terra natal, foi corroteirista de Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, e dirigiu com João Ramiro Neto o curta-metragem Romeiros da Guia (1962). Em seguida mudou-se para a Bahia, onde foi assistente de produção do clássico Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, filme que é considerado o mais importante documentário brasileiro. Em 1967, filmou o curta A Bolandeira, sobre os engenhos de tração animal do sertão paraibano. Seu primeiro longa-metragem, O País de São Saruê, foi lançado apenas em 1971, após um longo período censurado. Depois de atuar como repórter no Rio de Janeiro, em 1969 o cineasta foi para Brasília lecionar na UnB. Lá, realizou uma série de filmes com a capital federal como temática, mas não deixou de expor as influências nordestinas em várias de suas produções.

regulador intestinal. Se aos 76 anos não é mais nenhum garoto, na sessão de Rock Brasília – Era de Ouro – que aconteceu na noite anterior, na mostra Cine Brasil – Vladimir deu uma bela demonstração de vitalidade. Primeiro ‘hipnotizou’ a plateia com seu filme, um vigoroso registro da cena roqueira brasiliense dos anos 80, e depois abusou da didática adquirida em décadas como professor na Universidade de Brasília (UnB) para debater com o público. Antes de qualquer palavra sobre seu próprio trabalho, teceu elogios ao curta-metragem exibido antes, um documentário paraibano dirigido por Emanuel Dias, um jovem de 22 anos. Seguiu respondendo a questões sobre seu último projeto, e também sobre alguns de seus mais importantes filmes, sempre com muita disposição e bom humor. Ao final, surpreendeu a todos com uma verdadeira performance: juntou-se à banda cover do Legião Urbana no show que encerrava a noite, fazendo pose de rockstar. Tamanha alegria tinha suas razões. Rock Brasília já é o maior sucesso de sua extensa carreira. Em filmes como O País de São Saruê e O Engenho de Zé Lins, Vladimir conquistou a simpatia da crítica e a posição de um dos maiores documentaristas brasi-

leiros. Agora, finalmente, cai nas graças do público. Nos créditos de Rock Brasília, ele fez questão de destacar, consta um alagoano, o jornalista Tiago Padilha. “O Tiaguinho fez um perfil meu para o Jornal de Brasília. Eu dou muitas entrevistas, mas a maioria é uma decepção. O garoto fez um texto primoroso. Por isso o convidei para trabalhar na pesquisa de imagens, e ele deu uma contribuição valiosa para a produção”. Rock Brasília encerra uma trilogia de filmes sobre a capital federal. Primeiro foi Conterrâneos Velhos de Guerra (1991), filme em que retrata a peleja dos candangos durante a construção da cidade – empreitada que custou a vida de muitos deles. Numa das cenas mais marcantes do documentário, Vladimir entrevista Oscar Niemeyer, que sucessivas vezes nega ter conhecimento das tragédias ocorridas ali. Diante da insistência do cineasta, o mundialmente aclamado arquiteto solta um “Para essa porra!”. O comando é atendido pelo assistente de Vladimir, que desliga a luz, mas não pelo diretor, que continua a filmar no escuro, conferindo segundos enigmáticos ao filme. Já em Barra 68 – Sem Perder a Ternura (2000) ele narra a história da Universidade de Brasília, com foco nos acontecimentos

de agosto de 1968, quando os militares invadiram o campus da UnB e mantiveram cerca de 500 pessoas sob a mira de armas numa quadra de basquete.

Filmografia ∫ Romeiros da Guia (1962) – Codirigido por João Ramiro Neto

∫ A Bolandeira (1967) ∫ O País de São Saruê (1971)

∫ Incelência para um Trem de Ferro (1972)

∫ A Pedra da Riqueza (1975)

∫ Brasília Segundo Feldman (1979)

∫ O Homem de Areia (1981)

∫ O Evangelho Segundo Teotônio (1984)

∫ Conterrâneos Velhos de Guerra (1990)

∫ Barra 68 – Sem Perder a Ternura (2000)

∫ O Engenho de Zé Lins (2007)

∫ Rock Brasília – Era de Ouro (2011)

Nos dois filmes, assim como em Rock Brasília – Era de Ouro, a temática central é o ponto de partida para discutir episódios que marcaram a história política do País nas últimas décadas, boa parte deles testemunhados in loco por suas lentes. Documentarista nato, Vladimir tem obsessão por registrar. Mesmo que não saiba de imediato onde usará o material, saca a câmera sempre que percebe uma movimentação relevante ao seu redor. Foi assim, por exemplo, que captou em estupendas imagens o fatídico show do Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, em junho de 1988, quando Renato Russo foi atacado por um fã no palco, gerando quebra-quebra e um enorme tumulto. Sua fixação atual é o último 7 de Setembro, data marcada por manifestações simultâneas contra a corrupção orquestradas por meio das redes sociais em todo o Brasil. “É uma coisa a ser anotada e pensada com parcimônia, porque essas manifestações trazem um elemento novo, que é essa independência, esse livre pensar da juventude, essa energia fabulosa que a juventude tem”. Se podemos esperar um novo filme a partir da observação? Ele deixa a expectativa. ‡ Leia mais nas págs. B2, B5 e B7


B 2 Caderno B

GAZETA DE ALAGOAS, 20 de novembro de 2011, Domingo

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Num roteiro pelos bairros de Maceió, Vladimir Carvalho liberta suas recordações

MEMÓRIA EM MOVIMENTO FOTOS: RAFHAEL BARBOSA

REPÓRTER

INICIAÇÕES

“Desculpa, Lêdo”: Vladimir em clima de reconciliação com o poeta

Nem a alergia impediu o cineasta de encarar uma porção de sururu AMANDA MÔA/CORTESIA

O golpe militar

EVANDRO TEIXEIRA/REPRODUÇÃO

“Ainda quando morava na Paraíba, eu militei no Partido Comunista, e por conta disso conheci o João Pedro Teixeira. O Eduardo Coutinho, que realizou maravilhosamente esse filme, o conheceu através de mim. Isso aconteceu porque eu hospedava o João na minha casa. Quando o partido se reunia na capital, vinha o pessoal todo do interior, e o João Pedro era o líder principal do movimento camponês na Paraíba. Fiquei amigo dele, e por consequência amigo de dona Elizabeth Teixeira. Quando o Coutinho foi à Paraíba acompanhando a UniVolante, ele me procurou. Fez esse primeiro contato comigo. E a partir dessas viagens ele fez entrevistas, começou a filmar, e decidiu montar o projeto para realizar o Cabra Marcado para Morrer. Da Bahia, onde eu estava, fui para o Recife, onde comecei minha participação no documentário em Vitória de Santo Antão. Passamos praticamente a morar lá durante quase dois meses para fazer o filme. Nós tínhamos uma base na cidade, e filmávamos principalmente no Engenho Galiléia, que os camponeses conseguiram desapropriar no governo Arraes. Toda a conjuntura daquele momento propiciava isso. Nessa cidade nós tínhamos essa base, e atuávamos filmando quase como um laboratório. O Coutinho elegeu o seguinte método: os camponeses representavam ora fazendo o dono da terra, como se fossem atores, e os outros faziam o papel deles mesmos. Essa ideia inicial, provavelmente se fosse levada até o final, Cabra Marcado para Morrer seria talvez um outro filme, e não esse que circula hoje, e que tem uma proposta mais documental.”

O IRMÃO E GRANDE FOTÓGRAFO WALTER CARVALHO “Eu sou 13 anos mais velho que o Walter. Comecei a levar ele para algumas filmagens quando tinha por volta de oito ou nove anos de idade. Há 50 anos atrás, por alguma razão eu quis fazer umas fotos no Cabo Branco, o ponto mais oriental da América do Sul. Fui com um amigo fotografar o nascer do sol lá. Levamos uma esteira, forramos na praia, e ficamos lá no frio, tomando uns conhaques. E o Walter foi comigo. Ele viu o processo todo, inclusive da revelação do filme depois. Acompanhou tudo com muita curiosidade. Eu, que era responsável por ele, fui o pai que ele conheceu, apresentei ele ao pintor Raul Cordula, e o Raul passou muitas noções de pintura e desenho para ele. Depois, nas vezes em que filmei na Paraíba, eu engajei ele na equipe. Ele esteve nas filmagens da Pedra da Riqueza, A Bolandeira e O País de São Saruê. O segundo longa que o Walter fotografou foi meu filme O Homem de Areia. A primeira fotografia dele foi Incelência para um Trem de Ferro, um trabalho meu. Ele estava muito nervoso nessa época, ainda muito inseguro. Ele me dizia: ‘E se não der certo?’. E eu falava: ‘Se não der gente joga no lixo e não fala mais no assunto. Eu sou teu irmão, rapaz. Não vou criar problema para você não, fica tranquilo’. Depois ele foi morar na casa de uma tia nossa no Rio de Janeiro e passou a estudar design, onde aprendeu realmente as noções de fotografia.”

Hoje é dia de rock, bebê: festa após a sessão do filme no Cine Sesi

Cabra Marcado para Morrer

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“O Glauber eu conheci em Salvador, quando fazia faculdade lá. Orlando Sena, que foi, digamos assim, o meu guia, apresentou ele em 1963, na porta da antiga Civilização Brasileira. Ali se juntavam, como eu digo ‘à paraibana’, a ‘mundiça’ toda. João Ubaldo (Ribeiro), Glauber, Florisvaldo Marques, pintores como Carybé. A raça... A geração de intelectuais daquela época. E aí o Orlando me introduziu como se eu tivesse alguma importância – ‘Esse aqui é um cineasta paraibano que vai ficar aqui na Bahia’. Eu já havia feito um curta-metragem, meu primeiro, Romeiros da Guia. Fui para a Bahia exatamente por isso, porque estava acontecendo o chamado ciclo baiano de cinema. Ou seja, uma renovação. Nesse dia que eu o conheci, Glauber estava com uma espécie de volume encadernado, grande, tamanho folha de ofício. E eu perguntei para o Orlando: ‘O que diabo é aquilo que ele não deixa ninguém ver?’. Era o roteiro de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Daí para a frente, a gente só se reencontraria depois do golpe militar, já no Rio de Janeiro. Eu estava um pouco com medo de ‘colocar a cabeça para fora’ porque tinha participado do Cabra Marcado para Morrer, e não podia me apresentar porque todo mundo estava visado. Existiam listas nos aeroportos. E eu vivia com uma carteira de identidade falsa. Passei a me chamar José Pereira dos Santos. Quando cheguei o Glauber falou – como ele sempre falava, num tom meio conspiratório: ‘Vem pra cá que nós vamos te dar coberta’. Como se tivesse numa linha de tiro, ele fazia assim como a mão (Vladimir gesticula, como se estivesse segurando um fuzil). E aí fiquei no Rio, não voltei mais à Bahia. Glauber sempre foi muito generoso comigo, a ponto de me incluir no livro Revolução do Cinema Novo, onde me chama de ‘Rossellini do sertão’, ‘Vertov da Caatinga’. Talvez até por conta dessa acolhida eu continuo achando Deus e o Diabo na Terra do Sol a obra máxima do cinema brasileiro, junto com Vidas Secas. Para mim não tem igual”.

REPRODUÇÃO

Glauber Rocha

Terminado o café da manhã, um táxi nos esperava na porta do hotel. Era a hora do passeio pela cidade. Nos primeiros minutos de viagem, uma confidência: há um mal-estar entre ele e o poeta alagoano Lêdo Ivo. Vladimir explica: “Quando estava produzindo Engenho de Zé Lins, fui ao Rio de Janeiro quatro vezes, e em todas elas tentei entrevistar o Lêdo, mas ele viajou para Petrópolis no período. A produção era muito barata, não tínhamos como ir até lá, por isso não fizemos a entrevista. Quando o filme foi lançado, eu soube que ele ficou chateado, inclusive não compareceu à sessão promovida na ABL”, conta. “Sei o quanto o depoimento dele era importante, por isso usei um discurso dele sobre Zé Lins na ABL. Se Lêdo tivesse visto o documentário, talvez não ficasse chateado como ficou. Espero ainda ter chance de encontrar com ele, explicar o que aconteceu, e pedir desculpas”. Para reparar o ‘dano’, a reportagem propôs uma reconciliação simbólica. Levamos Vladimir até o Memorial Lêdo Ivo, no Museu Palácio Floriano Peixoto. No percurso, uma profusão de recordações. A passagem pelo Jaraguá despertou as lembranças sobre O Evangelho Segundo Teotônio, documentário rodado em Alagoas no início dos anos 80. Ao avistar a lagoa Mundaú, veio-lhe à mente o romance Guerra Dentro do Beco, de Jorge de Lima. Foi o atalho para a literatura. Muito citado por ele, o nome de Graciliano Ramos retornou à conversa na passagem pelas ruas do Centro de Maceió. “É impressionante como dá para sentir a ‘ensebação’ que o Graciliano descreve em Angústia”, comenta o cineasta. E assim seguimos a rota. Farol, Ponta Verde, Jaraguá, Centro, Pajuçara, Jatiúca. Cada endereço ativava nele novas reflexões, da amizade com

Glauber Rocha ao sufoco vivido durante o golpe militar; sua relação com Brasília, a literatura, o mar e o sertão; suas ideias sobre o documentário hoje, a peça que encenou no palco do Teatro Deodoro, em 1958. Cinco décadas de carreira para resumir em algumas horas. Entre tantas idas e vindas no tempo, qual seria a imagem mais distante que Vladimir guarda na memória? “Eu me lembro brincando com um soldadinho de chumbo, no chão de azulejo, montando meu exército. Devia ter uns 4 anos, pelo que fui informado. Estive investigando, porque essa imagem era tão forte na minha cabeça que comecei a perguntar para os meus tios”, diz. Pela janela do carro, a visão do mar num típico dia de calor maceioense. “Até hoje eu não sei como me adaptei em Brasília. Vivi na beira da praia grande parte da minha vida, e morei em cidades litorâneas como João Pessoa, Recife e Rio de Janeiro. Era tão fixado no mar que chegava a sentir um ar de maresia na Esplanada dos Ministérios...”. (risos) No final do ‘roteiro’, uma pausa na praia de Ponta Verde para o ensaio fotográfico que ilustra esta reportagem, e uma última provocação: experimentar o sururu, molusco tipicamente alagoano. “Sou alérgico a frutos do mar, mas vou provar um pouco mesmo assim”. O sabor da iguaria fez Vladimir esquecer as possíveis reações alérgicas e devorar inteira, com algumas boas medidas de farinha, a bem servida porção do prato. “Se você morrer, essa reportagem vai virar um belo obituário”, brinca o repórter. “É delicioso, agora não consigo mais parar. Seja o que tiver que ser”, rebateu. Mais vivo do que nunca e seguindo uma intensa rotina de viagens para divulgar Rock Brasília, Vladimir retornou a Maceió na semana seguinte para participar de um seminário na Faculdade Integrada Tiradentes (Fits). De sua passagem por aqui, ficaram os relatos que você lê nesta edição. ‡

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RAFHAEL BARBOSA

“O filme tinha sido realizado, jamais em sua totalidade, mas em cerca de uns 40% do que deveríamos para ter uma edição, quando aconteceu o golpe militar. Foi na noite do dia 31 de março para primeiro de abril de 1964. Na ocasião nós estávamos fazendo as cenas noturnas. E, como se sabe, quando se filma à noite, a gente tem uma folga na manhã seguinte para preparar as filmagens do outro dia. Então fomos surpreendidos no dia primeiro, às nove da manhã. Foram bater à nossa porta para nos avisar não que tinha acontecido o golpe militar, mas que havia um movimento revolucionário em curso. Essas pessoas foram lá porque muitos de nós tínhamos deixado a barba crescer. As pessoas da cidade já nos chamavam de ‘os cubanos’. E aí a gente acordou atordoado, começamos a ouvir o rádio, e percebemos que não era nada disso, era um golpe de direita, militar, tal qual tinha acontecido. Mas então nos organizamos, num primeiro momento. Decidimos voltar para o engenho, reorganizar os camponeses. Eu lembro que no caminho nós desmontamos uma pequena ponte para que quem viesse atrás de nós não pudesse nos alcançar. Quando chegamos ao engenho fomos aconselhados pelos próprios camponeses a tirar o time. E aí decidimos cancelar o filme. Ele só foi montado 17 anos depois. Nesse intervalo o Coutinho chegou a ser preso, e eu fui encarregado de ficar na guarda da dona Elizabeth Teixeira. Ela tinha sido citada no rádio, na televisão, em toda parte, assim como a equipe, na seguinte perspectiva: no noticiário, eles nos apresentavam como os subversivos que estavam no encalço de eliminar alguns delegados de polícia do interior, e apresentavam nosso equipamento, que fotografaram de longe, como se fosse material bélico. Se tivéssemos sido apanhados, talvez eu não estivesse vivo. Mas o marido da senhora sofreu o que a gente chamava de ‘cagaço’. Disse: ‘Por favor cara, me tire essa senhora daqui’. Daí perguntei a ela se conhecia alguém no Recife, e ela se lembrou que tinha o Antônio Serafim, que ela tinha o endereço. Eu fui em Cavaleiro, um bairro distante do Recife, identificar a casa desse senhor, e lá eu expliquei a situação. Ele disse: ‘Traga ela para cá. Ela é como se fosse nossa irmã, fica aqui com a minha mulher e não tem problema’. Eu voltei, oxigenei o cabelo da dona Elizabeth, comprei um vestido bem vistoso, estampado, pintei com rouge, batom e tudo mais, e ela ficou parecendo uma mulher da vida fácil. Só um ano depois ela foi localizada pela polícia e presa.”


Caderno B 5 B

Domingo, 20 de novembro de 2011, GAZETA DE ALAGOAS

RAFHAEL BARBOSA

CONTINUAÇÃO DA PÁGINA B1 “Qual o nome dessa lagoa?”. Mundaú. “Isso. Jorge de Lima cita naquele livro... Qual é mesmo o nome... A Guerra Dentro do Beco”.

Os documentaristas brasileiros “Pela preocupação em retratar fatos da política e da realidade social do Brasil, eu tenho uma admiração constante por Silvio Tendler. Ele tem um número já bastante significativo de filmes, e a contribuição dele é extraordinária. Além dele, gosto muito do José Joffily, que já fez filmes importantes junto com o Eduardo Escorel. Além deles, há um filme excepcional, que é um documentário (porque afinal a gente tem que classificar as coisas), mas que tem o peso de um grande filme de ficção. É o Santiago, do João Moreira Salles. O João já havia feito outro filme, esse sim absolutamente documental e em cima da realidade social brasileira que é o Notícias de uma Guerra Particular. Em São Paulo existem outros autores interessantes, e também no Nordeste há um movimento, marcado por uma certa precariedade de meios. Tanto na Paraíba quanto em Pernambuco e mesmo aqui em Alagoas, são feitos excelentes documentários. Minas Gerais também produz muita coisa, com os filmes do Helvécio Ratton, por exemplo, e o Cao Guimarães, que tem uma pegada muito audaciosa, muito ousada enquanto linguagem. Gosto muito do trabalho dele.”

O documentário mundial

“O Coutinho é uma história à parte no documentário brasileiro. É um realizador excepcional. E vem naturalmente realizando uma obra absolutamente valiosa de todos os pontos de vista. Especial essa sua última etapa, é de uma carga poética extraordinária, bastante diferente de seus primeiros filmes, e especialmente diferente de Cabra Marca- do para Morrer, que é um documento para a história. Um divisor de águas, uma experiência que, eu acredito, jamais venha a ser repetida.”

Michael Moore “O Michael Moore, tirando um pouco da demagogia, é também importante, porque de certa forma descortinou, desvestiu aspectos da sociedade americana que a gente desconhecia. E como ele é muito ousado na sua pegada, resulta que alguma coisa fica daquilo, é como uma revelação de outras realidades.”

O mar “Até hoje eu não sei como me adaptei em Brasília. Vivi na beira da praia grande parte da minha vida, morei em cidades litorâneas como João Pessoa, Recife e Rio de Janeiro. Era tão fixado no mar que chegava a sentir um ar de maresia na Esplanada dos Ministérios (risos). Mas acho que estou ficando desnaturado, de uns dez anos para cá eu não me lembro de ter tomado um banho de mar. Antigamente, qualquer poça d’água que eu via dava um mergulho, me melava daquele troço todo. Mas a gente vai envelhecendo e vai acabando um pouco esse elã.”

A literatura

“Eu comecei pela literatura brasileira. Muito cedo e por acaso, eu comecei a ler um livro de Jorge Amado, Jubiabá. Na verdade eu não sabia nem o que estava lendo. Me chamou a atenção. Era uma coisa de uma luta de boxe com o personagem principal, e eu me amarrei ali, devia ter uns dez anos. Depois, pelo fato do meu pai falar tanto do Zé Lins, e às vezes ler trechos do Menino de Engenho e Doidinho para mim, fiquei muito fixado desde cedo na literatura chamada na época de regional. Então li tudo de Zé Lins, li tudo de Graciliano, sou apaixonado pelo Mestre Graça. Também li os livros de Jorge Amado e da Raquel de Queiroz. Todo esse ciclo do romance nordestino que nasceu na Paraíba com José Américo de Almeida, por meio de A Bagaceira, me deixou muito marcado até hoje. Simultaneamente eu comecei a ler também os americanos John Steinbeck e Ernest Hemingway. Só depois conheci o William Faulkner. Os russos já vieram numa fase, digamos assim, engajada. Isso tudo misturado com as influências do meu pai, que era militante de esquerda, e da minha mãe, que era ligada à religião, era muito solidária à pobreza. Isso me influenciou muito. A parte da literatura devo muito a meu pai. Quando ele morreu eu tinha 14 anos, mas muito do que penso hoje eu devo a ele.”

O sertão

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No palco do Deodoro “Em 1958 eu estava envolvido com um grupo de teatro, e viemos de trem de João Pessoa para Maceió. Levamos um dia inteiro de viagem, com uma baldeação no Recife. Era um grupo grande, umas dez pessoas. Chegamos ao Deodoro para um festival. Foi muito curioso e eu só tomaria consciência disso muitos anos depois. O grupo que se apresentava no dia anterior entregava uma flâmula, como se fosse um bastão, para o próximo grupo a se apresentar. E quem passou a flâmula para nós foi o ator Jofre Soares. Ele ainda não tinha saído de Alagoas, não tinha acontecido o Vidas Secas. Eu só meu dei conta de tudo, inclusive, quando vi Vidas Secas. A peça que nós apresentamos foi A Prima Dona, de José Maria Monteiro, e a Zezita Matos fazia a personagem principal. Me lembro que um crítico daqui arrasou com a peça... (risos) Eu era uma espécie de mentor do grupo, mas como ator era um canastrão de marca maior.”

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“Eu morava em Brasília, em 1979. No tempo livre que tinha na universidade gostava de observar a política, as sessões na Câmara. E fiquei muito fixado, fascinado na figura do senador Teotônio Vilela. Passaram-se os anos, e quando ele já estava naquela situação, já doente, de sair pelos presídios identificando se ainda existia preso político, eu resolvi propor acompanhar essa cruzada que ele estava fazendo. Fui no gabinete e falei com ele. Lembro que tinha uma pessoa no gabinete, a quem ele falou: ‘Ô Fulano, esse maluco aqui quer me transformar em artista de cinema’ (risos). Mas ele topou, a ponto de, algum tempo depois, me procurar perguntando se eu ainda tinha interesse de vir a Alagoas fazer o filme. Eu vim, fiquei aqui uma semana na Usina Seresta, e na antiga Usina Boa Esperança. Ele me contou praticamente a vida toda para o documentário. Foi incrível porque, no final, eu estava com o filme pré-montado em 16mm, e não sabia o que fazer daquilo. Ele já havia falecido, eu voltei a Maceió e filmei o enterro. Todo mundo veio, o Fernando Henrique Cardoso inclusive estava presente, e também Tancredo, se não me falha a memória. Mas eu não tinha mais recursos. Foi quando o Teotonio Vilela Filho foi a São Paulo ver o material. Ele gostou do que viu, e pagou para que o ele fosse finalizado.”

Eduardo Coutinho

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REPRODUÇÃO

O Evangelho Segundo Teotônio

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“Eu sou muito fixado numa certa escola que já foi superada no tempo. Eu gosto muito, e de certa forma fui formado por ela. Desde o Robert Flaherty, que praticamente funda o cinema documental no mundo, e também o Joris Ivens, autor do Guerra de Espanha e de uma série muito interessante que tem mais de dez horas. Um outro filme que me cativou muito, me levou de certa forma para o cinema, se chama Miséria no Borinage. Eu já havia sido mordido quando vi O Homem de Aran, e depois que vi os filmes de Ivens fiquei enlouquecido e só queria fazer documentário. Eu estava no Recife quando baixou aqui no Nordeste, ainda na década de 50, um crítico do Rio chamado Jonald, e ele trouxe uns oito ou dez filmes antológicos, como Outubro, do Eisenstein, Les Enfant du Paradis, de Marcel Carné, além de filmes americanos e também italianos. E no meio deles eu fui assistir a um documentário em longa-metragem, o primeiro a que eu assisti, e foi o maior impacto que eu tive com relação ao cinema. É um filme que não tinha o que a gente chama de enredo, não tinha história, não tinha atores convencionais, e mesmo assim você não descolava da tela. Toda a plateia acompanhava o filme, mesmo sem que ele tivesse as características dos filmes de gênero. Era O Homem de Aran. Foi quando eu pensei: ‘Se um dia eu fizer cinema, quero fazer assim’. Modernamente, eu acompanhei alguma coisa da escola de Nova York, do cinema direto, vi muita coisa do Jean Rouch, que tinha uma pegada etnográfica, e tinha umas ideias já bastante críticas em relação à forma de realizar o documentário.”

“O meu sertão é o de Esperidião Figueiredo de Moraes. Esse é o meu avô. E toda a ligação que eu tenho com a terra, com todas essas figuras que se tornaram míticas na minha cabeça, como dizia Manuel Bandeira, é da casa do meu avô. Ali eu conheci um sertão a que eu nunca tinha ido. Me apaixonei por uma coisa que eu nunca tinha visto – pelo reflexo, pelas visitas dos vaqueiros que eu presenciei. Quando se apresentou a oportunidade, eu quis ver de perto aquilo que só conhecia na imaginação. O sertão seco, do flagelo, e também da ‘açudagem’, que eu filmei depois em O Homem de Areia. Esse sertão da exploração do homem, da exploração da terra na mão de uns poucos. Esse é o sertão que me interessou, e onde eu rodei muitos dos meus filmes. Estive mais uma vez recentemente, há uns três anos, com o meu irmão Walter Carvalho para fazer uma foto no alto sertão da Paraíba.”


Caderno B 7 B

Domingo, 20 de novembro de 2011, GAZETA DE ALAGOAS

Brasília

7 de Setembro

“Ninguém fica tanto tempo impune no mesmo lugar. Acaba criando raízes. A cidade acabou virando objeto das minhas cogitações no cinema. Com o Rock Brasília eu completo uma trilogia de longas-metragens sobre a cidade. Eu já tinha feito vários filmes lá, mas esses três são quase como uma tentativa de levantar a história de Brasília. Primeiro pela construção, que é o Conterrâneos Velhos de Guerra, depois o Barra 68, que conta a história da universidade, e agora a cultura de Brasília por meio do seu produto principal, que é o movimento roqueiro. Eu filmo coisas que são interessantes de ter como registro, e às vezes eu parto deles e monto um filme. Agora mesmo eu tenho um material sobre a utilização do espaço da Esplanada dos Ministérios, que foi pensado para ser um espaço bucólico, onde as pessoas passeassem no final de semana. Existia um projeto de um gigantesco jardim que tomaria conta daquilo, o Jardim de Burle Marx, mas isso não aconteceu. Hoje é um relvado, um pouco sem graça, mas se transformou num palco das grandes questões nacionais. Vão lá os índios, vão lá os sem-terra. Aquilo virou um palco político, de movimentação dos movimentos sociais do País.”

“Às vezes a gente fica um pouco pessimista, acreditando que há um certo desinteresse, que a juventude não está querendo entrar nas questões. Certas manifestações, certos sintomas, especialmente levando-se se em conta o papel das redes sociais, são importantíssimas. Hoje em dia a comunicação interpessoal e até a comunicação de massa galopam através da internet. É preciso notar que existem sintomas, e um deles foi esse movimento espontâneo, vamos dizer assim, com o tema contra a corrupção, a favor do projeto da ficha limpa. E isso está acontecendo com características muito diferentes. Não existe mais aquela militância do estudante das décadas de 60 e 70. É uma outra coisa, com base nessa comunicação via internet. Os jovens não têm vinculação partidária ou ideológica, é uma coisa instintiva, de cidadania. Passa por identificar problemas e questões que têm que sem atacadas, como a corrupção. E não é só isso, eles vão descobrindo aos poucos que as coisas podem chegar a outras conclusões. É uma coisa a ser anotada e pensada com parcimônia, porque essas manifestações trazem um elemento novo, que é essa independência, esse livre pensar da juventude, essa energia fabulosa que a juventude tem.”

REPRODUÇÃO

Vladimir Carvalho, em cartaz Recheado de registros raríssimos e inéditos captados por Vladimir Carvalho no decorrer dos anos, Rock Brasília – Era de Ouro curiosamente é um filme musical onde a música está em segundo plano. São raras as apresentações. A opção por esquivarse de um recurso tão sedutor talvez diga respeito ao interesse de Vladimir pelo aspecto humano. O público não sai perdendo.

Além de um eficiente diagnóstico histórico (vemos como os episódios políticos interferem na trajetória dos músicos), o documentário traz saborosos depoimentos – como o de Caetano Veloso relatando como conheceu Renato Russo. No meio, costuma-se dizer que um potencial sucesso é aquele que consegue agradar o público de oito a 80 anos. Se não chega a tanto, Rock Brasília é um deleite

para quem gosta de música, história, política – e bom cinema. SERVIÇO DESTAQUE DOS CINEMAS Filme: Rock Brasília – Era de Ouro Direção: Vladimir Carvalho Onde e quando: veja a programação dos cinemas na pág. B3 Classificação: 12 anos

CONFIRA Mais imagens de Vladimir Carvalho em www.flickr.com/cadernob


O homem com a câmera - Gazeta de Alagoas