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Gazeta de Alagoas

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| SEXTA-FEIRA, 28 DE OUTUBRO DE 2011 |

Caravana Selton Promessa de se tornar uma das maiores bilheterias nacionais do ano, O Palhaço, nova experiência de Selton Mello como diretor, conta a

saga de Pangaré, um artista circense que viaja com sua trupe por cidades do interior do País enquanto tenta resolver sua crise de identidade. Produção que se dependesse das intenções do astro teria Alagoas como locação principal, o filme arrebatou público e crítica no último Festival de Paulínia, onde inclusive acabou sendo rodado. A Gazeta conversou com o ator/diretor para desvendar os bastidores de seu projeto artisticamente mais ambicioso até aqui, e também para falar sobre os muitos pontos de conexão entre O Palhaço e o estado. Não deixe de conferir Divulgação

O ator como o palhaço Pangaré, que teme ter perdido a graça

| RAFHAEL BARBOSA Repórter

Daqui a alguns anos, quando tivermos de contar a história do cinema brasileiro pós-Retomada, o nome de Selton Mello aparecerá em relevo. Ator que libertou-se da televisão para mergulhar de cabeça na experiência cinematográfica, com suas escolhas certeiras ele esteve presente em alguns dos filmes mais significativos do período. A lista é extensa, mas basta citar o Chicó de O Auto da Compadecida, ou o André do já clássico Lavoura Arcaica, para justificar sua presença na memória da cinematografia nacional. Mesmo quando os papéis não lhe renderam desempenhos admiráveis, seu enorme carisma fez o contrapeso na balança. Selton é aquele tipo de ator que nem sempre precisa atuar. Às vezes basta ser ele mesmo para sustentar a atenção do público durante uma hora e meia de filme, e ainda deixar na plateia aquela sensação de estar diante de um amigo querido. Escorar-se na simpatia, no entanto, não estava em seus planos. Ele demonstrou ser, sobretudo, um artista corajoso, que não faz vista grossa para suas próprias limitações enquanto intérprete. Pelo contrário, a cada novo projeto luta bravamente contra elas, abandonando gradativamente as muletas de atuação para evoluir diante dos olhos do público. Ao desafiar a si próprio como diretor pela primeira vez com Feliz Natal (2008), Selton realizou um filme irregular, mas pessoal e intenso, assim como são as obras que sobrevivem ao tempo. Agora volta para trás das câmeras com O Palhaço, projeto artisticamente mais ambicioso de sua carreira até aqui, que entra em cartaz hoje (28) em todo o País – com

um lançamento grande o suficiente para chegar simultaneamente também em Maceió. Não é possível avançar na compreensão de O Palhaço sem reconhecer suas conexões com Feliz Natal. O primeiro foi gestado enquanto o diretor/ator ainda estava imerso no lançamento do segundo. Numa das muitas premières do registro pelo Brasil, Selton teve inclusive uma movimentada passagem por Alagoas. Junto com parte da equipe do longa, além de acompanhar três sessões de pré-estreia lotadas no Cine Sesi, ele foi a campo à procura de locações para aquele que seria seu próximo trabalho como diretor. Como parte do laboratório para o roteiro, esteve com o palhaço alagoano Biribinha, num encontro que, segundo ele, deu “muitas boas pistas nas minhas pesquisas circenses”. Em outra frente, essa em busca de recursos para transformar o projeto em realidade, o astro foi recebido pelo governador Teotonio Vilela Filho em sua fazenda, e pôde conferir os cartõespostais do estado num passeio de lancha e, em seguida, num voo de helicóptero. Apesar da recepção para lá de calorosa, o ator não teve a mesma sorte que Paula Lavigne, produtora de O Bem Amado – que era rodado aqui no período – e saiu de Alagoas com as mãos vazias. Em Paulínia, atual paraíso para os realizadores nacionais, a coisa foi bem diferente. Por meio do edital promovido pelo polo de cinema da cidade paulista, O Palhaço conseguiu levantar R$ 1 milhão em dinheiro, além de apoio logístico nos estúdios construídos por lá. Razões mais que suficientes para abandonar os planos de rodar o filme nos ‘cenários’ de clássicos nacionais como Vidas Secas. Dois anos após a estridente passagem de Selton

“Como diretor posso ser mais pessoal”, diz Selton

por Maceió, o público poderá ver o longa que, mesmo antes de estrear nos cinemas, vem arrancando elogios por onde passa. DO DIVÃ AO PICADEIRO “Nos últimos trabalhos que fiz como ator me senti estranho, desconfortável, como se não estivesse fazendo aquilo direito. Por isso decidi dar um tempo”, disse Selton em entrevista à Gazeta, em 2009. O conflito com sua arte virou matéria-prima para o novo filme, comédia dramática que conta a saga do palhaço Pangaré, um artista circense em crise. Em O Palhaço, Selton Mello dá um passo adiante na experiência de Feliz Natal e, além de dirigir, agora também protagoniza o filme, dividindo a cena com o veterano Paulo José, escalado para viver o palhaço Puro Sangue, pai de seu personagem e parceiro na caravana que percorre os interiores do País. No elenco constam ainda figuras um tanto esquecidas, como o músico Moacyr Franco, que estreia no cinema interpretando o delegado Justo, numa atuação que lhe rendeu o prêmio de melhor ator no último Festival de Paulínia. O alagoano Erom Cordeiro é outro membro da trupe, vivendo Robson Felix, um trapezista maceioense que se faz passar por artista russo. Cordeiro, inclusive, estará em Maceió na próxima segunda-feira (31) para acompanhar a sessão do filme na abertura da mostra Cine Brasil, no Cine Sesi. Em meio aos preparativos para a estreia de O Palhaço – a produção chega aos cinemas com 260 cópias, um lançamento digno de blockbuster –, Selton falou com a Gazeta por e-mail. Na entrevista a seguir, o ator e diretor desvenda os bastidores de sua mais nova empreitada por trás das câmeras.

Gazeta – Na época do lançamento de Feliz Natal você declarou que o filme falava muito mais sobre você do que suas experiências como ator. Em O Palhaço você também buscou inspiração em suas próprias crises e inseguranças profissionais. Podemos entender Feliz Natal como um retrato do homem e O Palhaço como um retrato do artista? Selton Mello – Como diretor

posso ser mais pessoal, e ao fazer esse movimento consigo tocar as pessoas. É aquela história de “fale de sua aldeia e estará falando do mundo”.

SINOPSE Benjamim (Selton Mello) e Valdemar (Paulo José) formam a fabulosa dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue. Benjamim é um palhaço sem identidade, CPF ou comprovante de residência. Ele vive pelas estradas na companhia da divertida trupe do Circo Esperança. Mas Benjamim acha que perdeu a graça e parte numa aventura atrás de um sonho.

SERVIÇO ESTREIA DOS CINEMAS Filme: O Palhaço (Idem, BRA, 2011) Direção: Selton Mello Onde e quando: veja a programação dos cinemas na pág. B3 Classificação: 10 anos

Com apenas uma experiência anterior na direção de longas, você encarou o desafio de atuar e dirigir no mesmo filme. Como foi esse processo?

Dirigir e atuar podia parecer mais curioso para quem estava de fora do que para mim, para quem isso resultou em uma soma natural. Como diretor, a escolha passa pela necessidade de querer falar muito sobre um determinado tema. Como ator, posso ser mais abrangente, optando por fazer um trabalho para experimentar ser dirigido por algum diretor que admiro, por exemplo. São escolhas intuitivas que fiz e faço ao longo de minha vida. A atuação de Paulo José como Valdemar, o palhaço Puro Sangue, vem sendo apontada como uma das mais fortes do ano. Como vocês chegaram a esse resultado?

Considero Paulo José um dos maiores atores do Brasil. A grandeza de Paulo José vem da sua verdade como ator, da presença nos menores gestos, da intensidade dos silêncios. Às vezes, basta um olhar para impregnar uma cena de densidade dramática. Ele deixou claro que eu poderia confiar em sua cumplicidade, em sua generosidade, e me senti completamente à vontade ao dirigi-lo. Era emocionante vê-lo atuar, transitando entre a dureza e a doçura, às vezes em silêncio, como na cena em que se despede de Lola. Ele é um mestre da contenção. Um ator que faz tudo com simplicidade e atua mesmo nas lacunas. Como fez com Darlene Glória e com Paulo Guarnieri em Feliz Natal, em O Palhaço você novamente ‘resgata’ artistas que não estão em evidência no momento, a exemplo de Teuda Bara e Moacyr Franco. Seria essa, assim como acontece com Tarantino, uma de suas marcas como diretor?

Gosto de misturar nomes consagrados com desconhecidos, assim como gosto de colocar atores em papéis inusitados. É difícil imaginar que Moacyr Franco, aos 75 anos, faça sua estreia no cinema em um solo lindo justo num filme de minha autoria. Sou fã do Tarantino e me identifico nesse quesito com ele, afinal o Brasil esquece fácil seus ídolos e sou contra isso. Portanto, é quase uma missão pessoal trazer de volta para o centro das atenções artistas que admiro. |RB

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CADERNO B

Gazeta de Alagoas

SEXTA-FEIRA, 28 DE OUTUBRO DE 2011

André Fon / Cortesia

Romeu de Loureiro

››› CURTINHAS ››› De idade nova, hoje, três figuras da nossa alta sociedade: Miriam Marinho de Gusmão Canuto (sra. Cícero Ferreira Canuto), Maria Gomes de Barros Montenegro (sra. Eduardo Nogueira Montenegro) e o industrial Juarez Orestes Gomes de Barros, atual pre-sidente da Diteal.

emsociedade@gazetaweb.com

CHURRASCO DA CONFRARIA DE AMIGOS O coronel José Fernando Martins de Souza (diretor da Poupex-AL) convocando os integrantes da Confraria de Amigos da qual é o coordenador para o já tradicional chur-rasco mensal, no Espaço Gourmet do Quartel da 20ª CSM. Desta feita, com as carnes e o trio musical bancados pelo aniversariante do dia 11, o coronel Luiz Antônio Miranda.

Surprise party

Moacyr de Albuquerque Sousa anunciou que não iria comemorar a chegada dos seus 60 anos na segunda-feira (dia 24). A esposa, Sandra (nascida Lima) e as filhas Maylly e Monysy fingiram concordar, mas, por trás, organizaram uma grande surprise party, que teve como cenário o salão nobre do Iate Clube Pajussara (do qual o novo “idoso” é o comodoro), todo decorado em tons de azul (inclusi-ve, o imponente bolo, pre-parado por d. Fátima). A animação ficou a cargo do one man show Júnior (voz

e teclados) e da canto-ra Ana Costa. Já o jantar (assinado por Isa Flores) ofereceu iguarias de especial preferência do aniversariante (caldo verde, vaca atolada e escondidinho de charque). Presentes três gerações de familiares, di-retores e conselheiros do clube e amigos mais che-gados – como o casal Le-téia e Walter Lamenha e Ana Paula e Otávio Leite (ele presidente da Federa-ção Alagoana de Vela e Motor).

À italiana

Os dirigentes da Centro Culturale Dante Alighie-

››› A reitora da Ufal, Ana Dayse Dorea convidando para o Concerto Erudito que a sua Orquestra de Câmara e o Coral , realizarão, logo mais, às 20 horas, na Catedral Metropolitana, ainda em comemoração aos 50 anos da instituição.

Martha Brotherood Pontes de Miranda que cultiva orquídeas e outras flores tropicais no antigo Engenho Salgado (no Pilar)

ri – professores Paola Carduc-ci Antenisio e Pietro Rose –laconvidam o colunista para um encontro especial, em sua sede (Rua Hygia Vasconcelos, 79, Ponta Verde) com os escrito-res Giancarlo De Cataldo, Gior-gio de Marchis e Massimo Cane-vacci (que estão representando

Divulgação

O advogado Flávio Almeida está entre os mais festejados aniversariantes de hoje

a Itália, na 5ª Bienal Internacional do Livro). O evento contará com a prestigiosa presença do cônsul da Itália no Recife, Francesco Piccione – que, aliás, também é escritor e poeta, tanto que amanhã, a partir das 19 horas, estará na Sala Au-dálio Dantas, da Bienal, auto-

grafando sua mais recente obra: Sob Despojos Menti-rosos – Elegias do Tempo Distante. Ajudará os anfi-triões a receber os con-vidados locais o comen-dador Cleantho de Moura Rizzo que, em maio últi-mo, recebeu um diploma de Honra ao Mérito do referido Centro Culturale, por seu trabalho em prol da divulgação da cultura italiana.

Condecorada

Por indicação da vereadora Silvana Barbosa, a Câmara Municipal de Maceió

concedeu a Comenda Jarede Viana à d. Solange benemérita Oiticica Ramalho (senhora João Alfredo Ramalho). A solenidade da entrega aconteceu dia 18 último, no seu plenário.

Exposição

A Aobal convida para a abertura, hoje, às 9 horas, no Ibama (Farol), da 12ª Exposição de Orquídeas e Bromélias. Anunciadas oficinas, palestras sobre cultivo e vendas de espécimes oriundas de orquidófilos de Itaipava e de Ochidcastle (RJ).

Divulgação

O casal João Alfredo Ramalho e Solange Oiticica Ramalho. Ela com a Comenda Jarede Viana,da Câmara Municipal local

Edilson Omena – Cortesia

O casal Marinilda e coronel Luiz Antônio Miranda. Ele comemorando, hoje, o aniversário do dia 11

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“Espero um dia filmar na bela terra de vocês” APÓS PASSAGEM POR MACEIÓ EM 2009, O ATOR NÃO POUPA ELOGIOS AO ESTADO E A EROM CORDEIRO, ALAGOANO QUE ESTÁ NO ELENCO DO FILME Divulgação

| RAFHAEL BARBOSA Repórter

Gazeta – Você queria rodar O Palhaço em Alagoas, mas mudou de ideia por não poder contar com o apoio do Estado. Que características daqui te ajudariam a contar essa história? Por que as negociações com o governo não avançaram? Selton Mello – Acredito que

não era um bom momento para captação de recursos naquele período. Foi uma pena, porque visitei lugares muito lindos. Mas tudo bem, a vida é longa e espero um dia conseguir filmar na bela terra de vocês.

No período em que esteve aqui para lançar Feliz Natal, você chegou a encontrar o palhaço alagoano Biribinha. Como você chegou ao nome dele? O encontro influenciou o roteiro de alguma forma?

Biribinha é um dos maiores palhaços do Brasil. Nas minhas pesquisas, fui informado que devia conhecê-lo imediatamente e foi o que fiz. Foi um belo encontro com ele e seus filhos multi-

talentosos, que me deram muitas boas pistas nas minhas pesquisas circenses. O filme é uma grande homenagem aos artistas circenses.

público menor, Feliz Natal chegou aos cinemas num circuito bastante restrito. A bilheteria chegou a te frustrar ou estava dentro do esperado para um longa desse porte?

Assim como muitas produções recentes, o filme foi rodado em Paulínia, cidade que concentra dois estúdios, uma escola de cinema, um megafestival e ainda realiza um edital de fomento. Por favor, fale um pouco sobre o período de filmagens no município e sobre o que você pensa desse grandioso projeto erguido por lá.

Eu sabia que era um filme duro, sombrio, e era assim que tinha que ser. Bem como agora faço um movimento oposto, realizando um filme cheio de esperança, um filme mágico que diverte, emociona e faz sonhar.

Paulínia tem uma estrutura incrível, que nos possibilitou fazer o filme que sonhamos. Tivemos total apoio do Polo de Cinema de Paulínia. O Festival de Cinema de Paulínia está a cada ano se firmando no cenário como um dos mais importantes. A primeira exibição do filme foi no festival, em uma sessão emocionante, inesquecível. Todas as cenas de picadeiro foram feitas dentro do estúdio e ficaram muito lindas. Filme que se comunica com um

Já O Palhaço estreia com pinta de grande lançamento. Com quantas cópias o filme está chegando aos cinemas, e qual a sua expectativa para as bilheterias?

O filme, distribuído pela Imagem Filmes, entrará com 260 copias, em circuito nacional. Espero que nossa alegria se espalhe pelo Brasil. Em Feliz Natal nota-se uma forte influência do cinema latino contemporâneo. Já em O Palhaço você parece ter buscado referências no cinema europeu. Você chegou a pesquisar outros filmes que retratam

O CIRCO E O CINEMA

Puro Sangue (Paulo José) e Pangaré (Selton) no picadeiro

o tema? Qual seu filme de circo preferido?

Durante a pesquisa para a elaboração do roteiro, assisti a muitos filmes, Trapalhões, Fellini, mas também fiquei de olho nas referências literárias e pictóricas, como Chagall e o encantamento da escrita de Christian Andersen. Sou grande entusiasta da interpretação de Peter Sellers em Muito Além do Jardim, pela

pureza de espírito, pela simplicidade. E não posso deixar de encerrar essa entrevista enaltecendo um companheiro de cena nascido e criado em Maceió: Erom Cordeiro. Um grande ator e um grande sujeito. Um ator que ainda fará coisas muito lindas e que vai encher de orgulho seus conterrâneos. Em O Palhaço ele é o trapezista Robson Felix – e está espetacular em cena.

A geração que cresceu com a internet como principal passatempo talvez não reconheça facilmente os encantos dos pitorescos espetáculos mambembes. Já seus pais devem se lembrar de pelo menos uma experiência nos circos – que eram grandes atrações populares nas periferias e em cidades do interior do País. Alguns ainda na ativa, eles fizeram a alegria de muita gente por aí, e também frequentaram as telas dos cinemas em filmes memoráveis. Com a ajuda do crítico Elinaldo Barros, a Gazeta elaborou uma lista com algumas das principais produções que, assim como O Palhaço, têm a magia do circo como pano de fundo para seus enredos. Veja a seguir. ›› O Circo (de Charles Chaplin, 1928) ›› Luzes da Ribalta (de Charles Chaplin, 1952) ›› O Maior Espetáculo da Terra (de Cecil B. DeMille, 1956) ›› Trapézio (de Carol Reed, 1956) ›› Noites de Cabíria (de Federico Fellini, 1957) ›› Bye Bye Brasil (de Cacá Diegues, 1979) ›› Muito Além do Jardim (de Hal Ashby, 1979) ›› Os Saltimbancos Trapalhões (de J.B. Tanko, 1981) ›› Asas do Desejo (de Wim Wenders, 1987) ›› Pindorama – A Verdadeira História dos Sete Anões (de Roberto Berliner, 2008)


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