Issuu on Google+

Gazeta de Alagoas

B

| DOMINGO, 18 DE SETEMBRO DE 2011 | Dan Behr/Divulgação

O tempo e o lugar Seja como diretor ou produtor, o carioca Marcos Prado, 50, esteve por trás de alguns dos filmes brasileiros mais influentes da última década. É dele a direção do monumental documentário Estamira, retrato de uma catadora de lixo esquizofrênica que se refugia num mundo particular para escapar da extrema opressão que a cerca. Sócio de José Padilha, ele também assina a produção de Ônibus 174, outro raro exemplar do gênero, e os megassucessos Tropa de Elite 1 e 2. Prestes a lançar Paraísos Artificiais, filme em que radiografa o atual universo jovem, em entrevista à Gazeta o diretor conta tudo sobre o novo projeto, comenta sua relação com Estamira, morta no último mês de julho, e dá sua opinião sobre alguns temas polêmicos. Não dá para perder

| RAFHAEL BARBOSA Editor Interino de Cultura

Centenas de horas dedicadas a filmagens, personagens exóticos e carismáticos e um acabamento técnico primoroso podem significar muito pouco para um documentário caso ele não consiga, em seu resultado final, promover uma experiência de cumplicidade entre a plateia e os indivíduos retratados na tela. Para tanto, é preciso extrair deles momentos de rara verdade. Não a verdade ‘cosmética’ alardeada pelos reality shows, mas aquela exposta quando o personagem, já cansando de sustentar a máscara social que todos nós carregamos, se desarma e revela, através do discurso, ou mesmo do silêncio, seus mais íntimos sentimentos humanos. No atual oceano de produtos audiovisuais consumidos diariamente pelo público no cinema, na televisão e na internet, são poucas as obras capazes de ao menos perseguir esse encontro. Exemplar do chamado cinema direto, o documentário brasileiro Estamira é, sem dúvida, uma entre elas. Fruto de quatro anos de convivência entre realizador e protagonista, ao estrear nos cinemas, em 2004, o filme dirigido pelo carioca Marcos Prado, 50, apresentou ao mundo uma mulher dotada de uma força dramática digna das grandes heroínas da ficção. O mesmo pode se dizer da narrativa empregada pelo cineasta, que, mesmo diante de um registro documental, não

se furta ao diálogo com os ensinamentos da poética aristotélica. Vivente do aterro sanitário do Jardim Gramacho – o maior da América Latina – no Rio de Janeiro, a catadora de lixo escondia em seu inflamado discurso uma trágica história pregressa. Os abusos do marido e a esquizofrenia herdada da mãe, em parte, poderiam explicar sua condição de instabilidade psicológica; porém, a complexidade de suas ideias, proferidas em tom profético e definidas como ‘filosóficas’ por muitos, estava muito além de qualquer análise precipitada. Então com 60 anos, Estamira parecia refugiarse num universo particular povoado por forças ocultas e seres fantásticos. Um mundo oprimido pela interferência dos “espertos ao contrário”, dos “trocadilhos” e de seu “controle remoto natural superior”. Graças ao generoso olhar de Prado, que enxergou além da loucura, o cinema brasileiro ganhou um de seus maiores documentários, e Estamira, morta em julho, aos 70 anos, em decorrência de uma infecção generalizada, imortalizou-se como uma de suas mais intensas protagonistas. Antes desse divisor de águas em sua carreira, Marcos Prado já havia deixado sua marca de produtor em outro trabalho igualmente significativo: o filme dirigido por seu sócio e amigo José Padilha, Ônibus 174, citado pelo The New York Times em agosto como um dos 50 documentários mais importantes de todos

Prado, no centro, com a equipe do longa-metragem Paraísos Artificiais

“Eu perdi uma pessoa muito querida, muito especial para mim”, diz o diretor Marcos Prado sobre a morte de Estamira os tempos. Apenas os dois trabalhos seriam suficientes para credenciar o cineasta entre os grandes de sua geração, porém, na sequência, novamente em parceria com Padilha, ele ajudaria a orquestrar Tropa de Elite, fenômeno que em dois filmes sacudiu o mercado cinematográfico brasileiro, primeiro se tornando a produção mais pirateada do País, e depois batendo o recorde de bilheteria nacional com os quase 15 milhões de expectadores de Tropa 2. Inquieto, Marcos Prado agora está prestes a lançar sua primeira obra de ficção, o longa-metragem Paraísos Artificiais, em que se debruça sobre os conflitos da juventude ao mergulhar no universo das raves. Para antecipar o que será visto no filme, e também recordar alguns dos momentos mais marcantes de sua impressionante carreira, a Gazeta conversou por telefone com o cineasta na última semana. Na entrevista que você confere a seguir, ele fala sem pudores sobre alguns temas polêmicos, analisa o atual mercado nacional e conta como aconteceu o

encontro transformador que teve como Estamira. Gazeta – Como foi a descoberta da Estamira? Marcos Prado – Eu me propus

a desenvolver um ensaio fotográfico sobre o processo que iria transformar o Jardim Gramacho de lixão em um aterro sanitário. Era uma coleção de fotos que eu pretendia desenvolver durante 11 anos. A ideia era fotografar pessoas, mostrar melhorias e deficiências daquele sistema. Na época eu era fotodocumentarista, nunca tinha feito cinema. E, no sétimo ano em que estava nessa empreitada, encontrei a Estamira. A partir daí, a gente se conheceu e desenvolveu a relação que gerou o documentário. Passei quatro anos filmando. Você continuou a acompanhando, mesmo depois do filme. Como era sua convivência com esta mulher?

Depois a gente se adotou. Viramos quase família. O filme virou um sustento para ela. Nós construímos uma casa, ajudamos com dinheiro. Eu a visitava de vez em quando, a gente criou laços de amizade e de respeito. Como ela estava nos últimos tempos?

Ela estava muito debilitada. Ela tinha Alzheimer e diabetes crônica, estava bem fraquinha nos últimos três anos de vida, já estava impossibilitada de andar. Quando ela teve complicações por causa do diabetes, foi mui-

to mal atendida em dois hospitais do Rio de Janeiro, acabou sofrendo uma infecção generalizada e morreu.

momentos duros, de atritos com o filho e com o neto, mas ainda assim ela pediu que eu fizesse como achasse melhor.

Que sentimento a morte da Estamira te despertou?

O filme expõe momentos de muita intimidade dela. Em algum momento da montagem, você teve receio por essas passagens?

Eu perdi uma pessoa muito querida, muito especial para mim. Além dos laços de afetividade, de cumplicidade e de afeto, o encontro com ela foi transformador para a minha carreira como cineasta. Foi bem triste, bem dolorido. Mas eu percebia que, nos últimos tempos, ela já estava indo embora. Ela estava muito desanimada, falava que queria morrer. Ela estava muito diferente da mulher vista no filme. Tinha o ânimo bem mais apaziguado, sem aqueles rompantes de lucidez, de indignação. Como a Estamira lidava com o fato de ter a vida registrada tão intimamente num filme de sucesso? Como ela recebeu o documentário ao vê-lo?

Ela ficava muito feliz toda vez que o filme ganhava mais um prêmio. No segundo ano de filmagem, quando eu nem sabia como ia montar o filme, ela chegou para mim e falou assim: “Marcos, a sua missão é revelar a minha missão”. E quando eu terminei o primeiro corte, ela foi a primeira pessoa a ver. Eu cheguei para ela e falei: “Dona Estamira, a minha missão está aqui”. Quando a sessão acabou, depois de duas horas, ela me disse que se reconhecia integralmente no filme. Reconheceu que existiam

Eu tive. Mas pensei muito se, tirando as sequências mais duras com os familiares, não estaria mitificando demais a loucura. Era preciso ter um contraponto também, e mostrar um outro lado. Eu cheguei a conversar com ela e com os filhos sobre a importância de ter esses momentos no filme. Com o passar dos anos, o que o filme mudou na vida da Estamira?

Principalmente a autoestima. Foram 33 prêmios, a maioria deles internacionais. O filme fez com que a família se orgulhasse dela. Eles, que a viam como uma louca, passaram a enxergar uma lucidez que algumas pessoas já tinham percebido, inclusive eu. Ela também deixou de morar no lixão, mas não deixou de ir para lá. Ela gostava do lixão, tinha muitos amigos lá.

Continua nas págs. B2, B5 e B6


B2

CADERNO B

DOMINGO, 18 DE SETEMBRO DE 2011

Gazeta de Alagoas Dan Behr/Divulgação

CONTINUAÇÃO DA PÁGINA B1

Nathália Dill e Luca Bianchi vivem o casal de protagonistas

Para entender a geração Tomando o universo das megarraves como pano de fundo, Paraísos Artificiais teve cenas gravadas na Praia do Gunga, em Alagoas

Fotos: divulgação

| RAFHAEL BARBOSA Editor Interino de Cultura

Gazeta – Você decidiu filmar Paraísos Artificiais pensando no seu filho, de 19 anos. Como você enxerga essa geração em relação às anteriores? Marcos Prado – Tudo come-

çou de uma vontade de me aproximar dessa juventude contemporânea conectada na internet, que se relaciona virtualmente. Quando eu comecei a pesquisar, eu a via com bastante pessimismo, pela falta de leitura, toda essa mudança na forma da absorção do conteúdo, essa velocidade. Parece que tinham noção de 10 por cento das coisas, porque nunca se aprofundavam em nada. Mas um dia, conversando com um psicanalista genial chamado Jorge Forbes, que tem um filho DJ, e também fez uma longa imersão de cinco anos nesse universo, na conversa ele me deu uma certa esperança. Ele diz que realmente a gente vive uma crise de identidade muito grande, ninguém tem ideologia, é uma busca muito pessoal. Apesar de estarmos nessa curva tão baixa de valores e identidade, ele acredita que esses jovens isolados vão reconstruir uma sociedade muito mais sincera nas relações pessoais e nas relações de trabalho. Que a partir disso vai surgir um jovem muito criativo e muito mais livre. Convi-

vendo com os jovens, eu pude ver um pouco disso. E então fiquei mais tranquilo para poder falar de modo menos pessimista sobre essa juventude. A recente morte da cantora Amy Winehouse, espécie de emblema dessa geração, trouxe novamente à tona o debate sobre a relação entre as drogas e o showbiz. O acontecimento de certa forma torna o filme ainda mais urgente, não?

Sem dúvida, a Amy foi um grande ícone para essa geração, não só por seu indiscutível talento, mas pelo seu modo de vida. Mas as drogas sempre existiram, desde os primórdios. Se você enumerar por uma ordem de periculosidade, o álcool está ao lado das drogas mais pesadas, como a heroína e a cocaína. A maconha está em oitavo lugar. Existe uma discussão muito profunda sendo feita em relação às drogas, e o filme vai trazer um pouco dessa discussão. Algumas coisas são difíceis de aceitar. A gente vê o tempo todo, quando gente que toma um porre e vai dirigir provoca um acidente e mata várias pessoas. E mesmo assim o álcool é liberado. Seu filme pode ser recebido com alguma polêmica por mostrar jovens em constante contato com substâncias ilícitas. Que tipo de abordagem Paraísos Artificiais traz sobre o tema?

O tema passa à margem. O filme é uma história de amor dentro desse universo jovem, de celebração de festas, da música eletrônica. A droga está no filme. Um dos personagens é um garoto que viaja de Amsterdã para o Brasil trazendo drogas sintéticas, respaldado no seu álibi próprio de problemas familiares. Os personagens consomem drogas, mas ela não é o mote, não é o veio principal no filme. Em Tropa de Elite e Paraísos Artificiais, as drogas são tema

central. Depois de quatro anos de pesquisa sobre o assunto, o que você pensa sobre a possibilidade de descriminalização da maconha no Brasil?

Amsterdã legalizou a maconha dentro dos coffee shops, mas estão reduzindo muito agora. Viram que muitos jovens, garotos muito novos, acabavam se bitolando demais. Eu sou a favor do livre arbítrio. O problema da droga é o modo como cada um se relaciona com ela, e a relação com a informação que você tem sobre ela. Proibir gera máfia, gera clãs criminosos. Mas, ao mesmo tempo, não há como considerar a ideia de legalizar drogas como o crack ou como o ox, por exemplo. Mas talvez seja o caso de legalizar drogas mais leves como a maconha para fazer uma experiência. As pessoas vão consumir maconha daqui até o final dos tempos. A liberação, aliada à informação, pode diminuir a criminalidade. O Brasil poderia afrouxar, permitir pelo menos plantar em casa. A Argentina já permite plantar uma certa quantidade em casa. Eu acho que o mais importante é informar, mesmo que não legalize, é preciso informar a sociedade. E isso é dever do Estado. Em Paraísos Artificiais você também atua. Porque a decisão? Já tinha atuado antes?

Eu nunca tinha atuado. Nós estávamos procurando uma figura para interpretar o pai, e a nossa preparadora de elenco, a Fátima Toledo, disse que eu tinha o physique du rôle para o papel. “Se você atuar, vai ficar muito bem”, ela disse. Eu relutei muito, mas acabei cedendo. Pensei: por que não, já que o filme é uma busca tão pessoal minha? Então decidi dar uma de Hitchcock (risos). Nos últimos quatro anos, o cinema nacional despertou para o universo adolescente em filmes como As Melhores Coisas do Mundo, Apenas o Fim, Os Famosos e os Duendes da Mor-

te e Sonhos Roubados. Paraísos Artificiais dá sequência. A que você atribui esse interesse crescente?

Eu não sei. Acho que é parte de um movimento do inconsciente coletivo. É algo relacionado ao momento que estamos vivendo. E, de certa forma, alguns temas se esgotam. O cinema nacional esgotou o tema favela, por exemplo. Os temas vão se gastando, e o inconsciente coletivo vai buscando novos. A juventude é um grande enigma para as pessoas de gerações mais velhas, dos pais em relação aos filhos, da distância entre ambos. Eu sou um pai muito presente com o meu filho, mas isso não acontece com todo mundo. Culpando as deficiências da distribuição, muitos realizadores brasileiros não se empenham em encontrar soluções para que seus filmes sejam vistos. A média de público do cinema nacional é de 30 mil espectadores, o mesmo ou até menos que uma peça bem sucedida. Você acredita que nós ainda não sabemos fazer cinema comercial?

A gente tem quatro filmes em cartaz que estão na casa de um milhão de espectadores. Eu acho um número muito bom. Mas existe filme de nicho também. Eu acho que nós estamos aprendendo a fazer cinema comercial. O cinema brasileiro está despertando. Estamos no começo de um novo processo de identificação com o cinema nacional. Ninguém gosta de ler legenda, nem o americano nem o brasileiro. Eu acho que vai existir uma seleção natural de filmes. Temos aqueles filmes de enredos mais fracos, que geralmente são comédias românticas, mas temos inclusive comédias românticas muito bem elaboradas. Eu vi O Homem do Futuro e achei sensacional, é uma comédia com o nível bem acima da média. O Paraísos Artificiais não tem uma linguagem propriamente comercial, mas eu acho que ele vai fazer algum sucesso de público, graças ao interesse pela temática e pela forma como foi feito. Em Tropa 2 vocês apostaram num procedimento arriscado. Investiram dinheiro do próprio bolso no filme. Em algum momento temeram o prejuízo?

Nós fizemos o Tropa de maneira completamente independente. Trouxemos sócios que investiram dinheiro bom [sem incentivo], colocamos também nosso dinheiro e fizemos toda uma fórmula para fazer o dinheiro voltar. E lançamos sozinhos também, com a ajuda do Marco Aurélio Marcondes, que é um grande especialista em mercado. No caso do Tropa 2, nós tínhamos o primeiro filme, que dava um respaldo na nossa perspectiva de público. Agora, o desafio é replicar esse modelo em outros projetos. Não falaríamos sobre isso neste momento, mas, como o assunto vazou, eu posso adiantar que nós lançaremos em breve uma distribuidora independente. No momento, estamos reunindo parceiros para criar uma concorrência ao que existe hoje.

Acima, o diretor Marcos Prado, responsável por imortalizar Estamira no premiadíssimo documentário homônimo

Com o primeiro Tropa, vocês protagonizaram o mais escandaloso exemplo dos danos que a pirataria pode causar a um projeto. Porém, para muitos, ela é vista como uma heroína, por democratizar o acesso ao cinema numa época em que o ingresso custa tão caro. Você considera esse lado positivo na pirataria?

Não dá para considerar como benefício uma coisa que pode quebrar o cinema. Aí não tem benefício para ninguém. É zero para todo mundo. Eu não considero por um único motivo: com a pirataria você quebra todos os contratos firmados para que o projeto possa ser realizado. Existe toda uma cadeia de retornos possíveis para um filme. Primeiro o cinema, depois o DVD, depois a TV fechada, depois a TV aberta e outros mercados. A pirataria não respeita nenhuma delas. Uma possível forma de democratizar seria encurtar essas janelas, para que, num espaço menor de tempo, o filme possa ser visto de graça na TV. Democratizar é levar os filmes para as escolas, para as bibliotecas, mas isso depois que o filme tiver a chance de retornar o investimento que foi feito. Caso contrário, nunca consolidaremos uma indústria. Cinco anos após o lançamento do primeiro Tropa, nada mudou em relação à pirataria no País. Na sua opinião, o que precisa ser feito para combater a prática?

Tem que diminuir o preço do DVD original e criar um maior número de salas, para que as

pessoas possam ver o filme onde tem que ser visto, na tela do cinema. Quando a gente conseguir lançar um DVD bacana, com um preço viável para as pessoas colecionarem, a pirataria vai diminuir bastante. Fiscalizar é outra coisa importante. Ou talvez mudar a forma de distribuição por uma mais segura, com dispositivos eletrônicos que impossibilitem a cópia, mesmo porque o DVD está fadado ao fim. As principais TV pagas do Brasil já oferecem serviços com filmes de cinema para ver em casa. Ainda é caro, mas isso vai diminuir bastante. Tropa 2 arrecadou mais de R$ 100 milhões em bilheteria. Mas, na complexa cadeia de lançamento de um filme, esse valor se dilui. Explique para o leitor o funcionamento desses mecanismos.

O que define as porcentagens são os contratos que você assina. 50% do valor arrecadado fica com o cinemas. No final, o distribuidor retira do valor arrecadado tudo o que ele investiu para rodar as cópias, fazer o filme chegar aos cinemas, e o que foi gasto com publicidade. Depois são descontados os impostos, e o líquido é dividido entre os sócios investidores. No caso do Tropa 2, quanto foi esse valor líquido?

O Tropa 2 tinha muitos investidores privados. A gente acabou ficando com uma parte boa, mas bem diluída entre todos os investidores. Eu prefiro não falar valores, mas nós ganhamos, sim, algum dinheiro.


Gazeta de Alagoas

DOMINGO, 18 DE SETEMBRO DE 2011

CADERNO B

B5

CONTINUAÇÃO DA PÁGINA B1

Parceria com Padilha rendeu frutos Dois dos documentários mais premiados feitos no País e o maior sucesso da história do nosso cinema saíram das mentes dos cineastas | RAFHAEL BARBOSA Editor Interino de Cultura

Gazeta – Mais de 15 anos após a Retomada, o mercado do cinema nacional ainda é extremamente dependente do dinheiro público. Estamos longe de vislumbrar uma condição economicamente autossustentável. Como produtor, você não teme que essa dependência nunca seja superada? Marcos Prado – Ela será su-

perada se certos paradigmas forem quebrados. Se a gente construir uma indústria forte de cinema, com filmes de qualidade. Quando conseguirmos fortalecer a indústria a ponto de oferecer um retorno concreto para o produtor, vai ser possível tirar aos poucos o incentivo fiscal. Mas isso é uma realidade no mundo todo. Com exceção dos Estados Unidos, 90% das cinematografias são subsidiadas. O ideal é ter o mínimo possível de incentivo, mas ele não pode ser completamente excluído, desde que bem regulamento e fiscalizado, porque determinados filmes que não têm uma proposta comercial também precisam ser feitos. Nesse sentido, o cinema é dependente, como todas as outras artes, expressões fundamentais para a construção da identidade de um País.

Desde Ônibus 174, você e José Padilha se revezam entre as funções de produtor e diretor nos projetos da Zazen. Da parceria, nasceram dois dos mais importantes documentários já feitos no Brasil, e o maior sucesso da história do nosso cinema. É um êxito e tanto. O que essa parceria tem de tão especial?

Nós somos amigos desde adolescentes. Em um determinado momento da vida, ambos mudamos de profissão. Eu era fotodocumentarista e o Zé trabalhava administrando empresas. Um dia, a gente se encontrou e decidiu fazer cinema. Eu tinha alguns documentários em mente, e pensava em um dia fazer ficção. Ele também gostava muito de cinema. Assim, começamos a trabalhar juntos. Nós temos muitas diferenças. Cada um tem um olhar, um modo particular de contar histórias. Mas a gente sempre apoia e dá suporte um ao outro. Nós somos sócios num negócio, mas também compartilhamos um projeto pessoal de crescer enquanto indivíduos, e intelectualmente, de construir a própria cinematografia, a própria linguagem. De semelhança, temos a vontade de sempre contar histórias contundentes, que gerem debate. Nós não sabemos fazer comédia romântica. Esta-

mos fritos se um dia tivermos que fazer uma, vai sair mal feito. Apesar de pontualmente marcar presença em festivais internacionais, o cinema nacional ainda não alcançou a relevância mundial de cinematografias menores, como a argentina, e outras muito mais pobres, como a iraniana. Na sua opinião, o que falta para o cinema brasileiro conquistar o mundo?

Fazer bons filmes (risos). Nós temos muitos talentos, muitos filmes bons sendo gerados. O nosso documentário é um dos melhores do mundo, se equipara ao que a ficção argentina representa para o mundo. Estamos evoluindo, é uma questão de tempo. Tecnicamente, também estamos muito bem. O cinema brasileiro hoje produz uma diversidade muito grande, de dramas a comédias românticas. O que mais padecemos hoje é em relação ao roteiro. Me parece uma ques-

tão cultural. Temos pouca leitura. Ainda não formamos grandes roteiristas, mas já alertamos para isso. Estão surgindo alguns garotos muito talentosos. Eu acho que é mesmo uma questão de tempo para alcançarmos o cinema argentino ou iraniano.

ceria para um lançamento internacional?

reira internacional também está nos seus planos?

Ainda não. Estamos estudando agora o lançamento em alguns festivais internacionais, e uma estreia no Brasil no verão de 2012. Ainda não sei se janeiro ou fevereiro, no máximo março.

Paraísos Artificiais já tem algum tipo de proposta ou par-

Padilha está em Los Angeles preparando RoboCop. Uma car-

Não sei... Eu nunca digo nunca. Ainda preciso fazer outro filme para ganhar experiência. Se vier um convite como consequência desse trabalho, por que não? Eu não penso no cinema hollywoodiano, mas uma coprodução com outro país seria muito interessante.


B6

CADERNO B

DOMINGO, 18 DE SETEMBRO DE 2011

Gazeta de Alagoas

CONTINUAÇÃO DA PÁGINA B1

A juventude, seus excessos e o cinema Abuso de drogas inspirou produções de diretores consagrados | RAFHAEL BARBOSA Editor Interino de Cultura

Se para o cinema nacional as problemáticas da juventude são uma recente descoberta, no panorama internacional elas já serviram de matéria-prima para um sem número de produções, entre filmes e seriados de sucesso. Das aventuras escapistas (e nem por isso menos inesquecíveis) dirigidas por John Hughes na década de 80 a representantes da vanguarda francesa como Os Incompreendidos e Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, de François Truffaut, o cinema registrou o modo de vida de diferentes gerações em diferentes épocas, permitindo que as gera-

ções seguintes possam se enxergar ou não nos conflitos impressos na tela. A exploração da recém desperta sexualidade (A Primeira Noite de um Homem), a relação de amor de ódio com os pais (Eu Matei Minha Mãe), os dilemas com a futura profissão (Orange County), o sentimento de inadequação com o mundo (Elefante) e a busca por uma identidade ideológica (Os Sonhadores) estiveram entre os temas mais caros no universo juvenil durante décadas. Nos últimos anos, a relação dos jovens com as drogas, uma preocupação social cada vez mais aguda, não foi negligenciada pela Sétima Arte e nem mesmo pela historicamente conservadora televisão. Um dos maio-

res sucessos recentes da TV inglesa, o seriado Skins é um grande exemplo. Em suas cinco temporadas até aqui, explorou sem reservas os excessos da juventude contemporânea, retratando grupos de amigos que invariavelmente recorrem às drogas, ao álcool e ao sexo casual como fontes ora de diversão, ora de refúgio para os problemas. Sempre contundente e polêmico, o tema também inspirou investigações pelas lentes de cultuados cineastas contemporâneos, como Darren Aronofsky, Danny Boyle e Gus Van Sant. A seguir, a Gazeta indica alguns dos filmes que, seja como fio condutor ou suntuoso pano de fundo, melhor retrataram o assunto. Confira.

Fotos: divulgação

Kids (EUA, 1995) Filme que revelou o talento das intérpretes Chloë Sevigny e Rosario Dawson, em Kids o diretor Larry Clark exercita um olhar extremamente pessimista sobre a adolescência. Registro realista da juventude americana, a narrativa acompanha duas histórias paralelas: numa delas, um skatista de 17 anos se ocupa de desvirginar o maior número de meninas possível. Já a personagem de Sevigny é contaminada com HIV em sua primeira transa. Diário de um Adolescente (EUA, 1995) Antes de ser alçado à condição de astro/galã ao protagonizar Titanic, Leonardo DiCaprio costumava apostar em personagem ousados e produções independentes, como é o caso desse filme que narra a decadência de um promissor jogador de basquete arruinado pela vício em cocaína. Ele afunda no submundo das drogas, chegando a roubar e a se prostituir. Trainspotting (Reino Unido, 1996) Adaptando um romance de Irvine Welsh, o diretor inglês Danny Boyle retrata cotidiano de quatro amigos fracassados e desajustados. Com seu talento habitual, o diretor de Quem

Quer Ser um Milionário abusou da criatividade visual para dar forma à jornada de autodestruição do grupo. A cena em que o alucinado Mark Roton, personagem de Ewan McGregor, mergulha num vaso sanitário em busca de uma pílula está entre as mais repugnantes do cinema moderno. Réquiem para um Sonho (EUA, 2001) Talvez o filme que melhor retratou o abuso de drogas no cinema, essa pequena obra-prima do diretor Darren Aronofsky (Cisne Negro) conta com uma grande atuação de Ellen Burstyn no papel de uma mulher deslumbranda por um programa de TV. Na tentativa de emagrecer para participar da atração, ela se torna viciada em anfetaminas. Também em grande performance, o ator Jared Leto vive um

jovem que mergulha fundo no pesadelo trazido pela heroína e pela cocaína. As consequências serão as piores possíves. Maria Cheia de Graça (Colômbia, 2004) Ao descobrir que está grávida, a jovem colombiana Maria Alvarez, interpretada com entrega por Catalina Sandino Moreno, se vê sem perspectivas. Ela leva uma vida miserável ao lado da família. A possibilidade de mudança surge quando um traficante propõe um trabalho muito bem remunerado como ‘mula’, transportando cocaína dentro estômago até os EUA. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o longa acompanha passo a passo a atividade tão perigosa quanto corriqueira naquele país, que envolve milhares de jovens. Paranoid Park (EUA, 2008) Gus Van Sant já havia realizado um angustiante ensaio sobre a juventude contemporânea com Elefante. Em Paranoid Park, ele volta ao mesmo universo, com uma abordagem mais pop. No filme, o skatista Alex é um jovem inerte, um tanto desconetado do mundo. Ao se envolver numa grande tragédia, ele desperta para outros sentimentos além da indiferença.


O tempo e o lugar - Gazeta de Alagoas