Page 1

Gazeta de Alagoas

Jackeline Nigri/Divulgação

B

QUINTA-FEIRA, 01 DE SETEMBRO DE 2011

Nise em

Doze anos após sua morte, Nise da Silveira,

a médica alagoana que revolucionou a psiquiatria no Brasil, tem sua complexa e fascinante trajetória retratada pela dramaturgia. Com

três atos

previsão de lançamento para 2013, um longametragem de ficção protagonizado por Glória Pires e um documentário dirigido pelo alagoano Jorge Oliveira levarão sua história para a tela do cinema, enquanto a montagem multimídia Nise – Senhora das Imagens, que terá apresentações amanhã e sábado em Maceió, propõe um mergulho no universo de luzes e sombras que rodeava a médica. A Gazeta ouviu os autores dos projetos. Nesta edição, você vai saber no que consiste cada um deles. Confira | RAFHAEL BARBOSA Repórter

Subjetivo e extremamente particular, o olhar artístico tende a revelar tanto sobre quem observa quanto sobre o objeto que se quer retratar. No caso de uma biografia, seja ela narrada por meio uma obra cinematográfica, literária, teatral ou mesmo um perfil jornalístico, são tantas as possibilidades de abordagem que a mesma história pode render uma obra-prima ou exibir um resultado medíocre. Da mesma forma, em meio às liberdades criativas necessárias a qualquer adaptação, a sensibilidade e a astúcia de um bom biógrafo são capazes de trazer à tona aspectos nunca antes observados em determinado personagem, redimensionando sua importância para o público. Ela própria avessa a biografias, a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999) terá sua trajetória revista em dois filmes, um documentário e uma ficção. Enquanto os longas devem chegar aos cinemas até 2013 (leia mais nesta página), a vida de uma das mulheres que mais trabalharam pela ciência mundial no último século também é tema de Nise da Silveira – Senhora das Imagens, produção teatral carioca que terá apresentações amanhã e sábado (03) em Maceió, no Teatro Deodoro. Após uma pré-estreia em Brasília e três temporadas no Rio de Janeiro, o espetáculo chega ao estado de origem da psiquiatra trazendo na bagagem elogios da imprensa especializada, em especial ao desempenho da atriz Mariana Terra no papel de Nise, tido como “mediúnico” por parte da crítica. Também responsável pelo texto da peça ao lado do dramaturgo Daniel Lobo, a intérprete trouxe para sua performance as impressões que guardou do contato com Nise na infância. “Meu pai (o também psiquiatra Raffaele Infante) foi discípulo dela, era muito ligado nesse aspecto humano da psiquiatria, e inclusive fez com o teatro o que Nise fazia com a pintura ao criar a psicodramaturgia”, afirma a atriz, referindo-se à pioneira utilização das artes como tera-

pia pela psiquiatra. A convivência com a alagoana nos primeiros anos de vida foi fundamental para que Mariana encontrasse sua própria Nise. “Lembro que fiquei muito impressionada com aquela figura tão forte, de olhar profundo. O contato com ela não só me ajudou a construir a personagem, mas colaborou para a minha formação como um todo. Fez com que eu me fascinasse por esse universo”, conta ela. Outro que fala com paixão sobre Nise é o diretor Daniel Lobo, 38. Segundo ele, a solução encontrada para retratar a vida da médica sem cair no didatismo foi abraçar a pluralidade. “Da mesma forma que Nise buscava diversas linguagem na tentativa de entender a psique humana, nós misturamos dança, projeções, música e outros recursos para contar sua história”, explica o dramaturgo. Espécie de monólogo que apresenta vídeos e vozes em cena, o espetáculo multimídia narra a vida da médica por meio de diversos recortes, desde sua infância até sua morte, aos 94 anos. “Escolhemos os fatos mais fundamentais para falar sobre ela: a morte do pai, a chegada ao Rio de Janeiro, o primeiro contato com um manicômio e a prisão, quando ela foi acusada de conduta comunista”, enumera Daniel. Além de Mariana Terra, Senhora das Imagens tem nos créditos colaborações marcantes de nomes como Carlos Vereza (como o psicanalista Carl Gustav Jung) e a coreógrafa Ana Botafogo, a quem coube criar a mise-en-scène dos momentos em que Mariana Terra interage com ‘as imagens do inconsciente’. Para o diretor, o sucesso da peça, que já tem temporada agendada em São Paulo, se deve, entre outras razões, à sua capacidade de, assim como Nise, apresentar um olhar sem preconceitos sobre a loucura. “A sociedade segrega os ditos loucos porque enxerga neles algo de si. Todos nós vivemos um equilíbrio delicado. Todos temos nossas sombras e nossa luz. É uma linha muito tênue, uma corda bamba, o fio da navalha. De certa forma o espetáculo mergulha nessas sombras para buscar a nossa luz”, reflete.

Convivência com a psiquiatra na infância ajudou a carioca Mariana Terra a construir sua Nise

Retrato no cinema em duas produções

SERVIÇO O quê: espetáculo teatral Nise da Silveira – Senhora das Imagens, com Mariana Terra Direção: Daniel Lobo Onde e quando: no Teatro Deodoro (pç. Deodoro, s/n, Centro), amanhã e sábado (03), com sessões às 20h Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia) Pontos de venda: na bilheteria do Deodoro, das 14h às 18h, e na loja Presents (Ponta Verde), das 09h às 21h Classificação: 16 anos Informações: 3315-5665 e 9645-1118

Pela mesma TV Zero que no ano passado transformou as aventuras sexuais de Bruna Surfistinha num dos maiores sucessos da temporada, a história de Nise da Silveira renderá um longa-metragem de ficção dirigido pelo cineasta carioca Roberto Berliner, responsável pelo documentário Herbert de Perto (2010), sobre o vocalista dos Paralamas do Sucesso, e o premiado A Pessoa é para o que Nasce (2005), filme que acompanha o cotidiano de três irmãs cegas no interior da Paraíba. O projeto, que faz uso do mesmo título da montagem de Daniel Lobo ao referenciar o apelido da psiquiatra, está orçado em R$ 4 milhões e tem previsão de estreia para 2013. O interesse de Berliner por Nise, segundo ele conta, surgiu quando sua produtora foi contratada para realizar um comercial para a Casa das Palmeiras, instituição criada por ela. Desde aquela primeira aproximação, a paixão do diretor estreante na ficção só aumentou. “Estrear contando a história da Nise é um grande peso para qualquer cineasta, uma responsabilidade enorme. Não é um filme qualquer. Nise foi uma das personagens mais complexas da história do Brasil, que apesar de ser pouco conhecida fora do seu meio, foi uma grande heroína. Ela abdicou de fama e qualquer vaidade para fazer um trabalho grandioso. Tudo isso com muito pouco. Ela vivia uma rotina difícil, pegava mais de duas horas de trem por dia até chegar ao Engenho de Dentro, e lá se deparava todo dia com uma rea-

lidade muito dura”, diz Berliner, que conversou com a Gazeta no intervalo entre as audições que tem feito com dezenas de intérpretes para montar seu elenco. Com o casting ainda em construção, pelo menos o nome da protagonista já foi anunciado. Após revelar um surpreendente timing para o cinema na franquia Se Eu Fosse Você e no ótimo e subestimado É Proibido Fumar, além da emocionante encarnação de Dona Lindu, mãe do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Lula, o Filho do Brasil, Glória Pires assumirá o papel que inicialmente seria dado a Drica Moraes no longa. “Infelizmente a Drica adoeceu, e apesar de já estar melhor, não poderia fazer um papel que exige tanto esforço do ator como o da Nise. Nas leituras que tenho feito com os atores encontrei muita gente que também poderia fazer muito bem a personagem. Mas nós conseguimos a Glória, e a Glória é a Glória”, justifica o diretor. Ao contrário da peça, que narra praticamente toda a vida de Nise, segundo Berliner o longa-metragem cujas filmagens terão início em janeiro selecionou um recorte menos abrangente. “O filme começa com sua volta ao hospital e termina com a principal exposição de seus clientes (como ela chamava os pacientes)”, conta. OLHAR DE NISE Autor de cinebiografias de nomes como Floriano Peixoto, Graciliano Ramos e Manuel Fiel Filho, operário nascido em Quebrangulo e morto pela ditadu-

ra em São Paulo em 1976, o jornalista e cineasta alagoano Jorge Oliveira também se debruçará sobre a trajetória da psiquiatra em Olhar de Nise, documentário que terá produção iniciada em janeiro. “Vi nesta mulher a precursora da defesa dos direitos humanos no Brasil, uma mulher que esteve à frente do seu tempo”, elogia o diretor, que assim como em Mister Fiel, seu longa anterior, mesclará linguagem documental com passagens ficcionais.“Vou trabalhar com dramatização porque acho que quando você encena documentários cria uma linguagem mais fácil para o espectador”, avalia ele. Como sempre se espera de um bom documentário, fica a expectativa para que em seu filme Oliveira consiga avançar além de tudo que já foi dito sobre Nise nas ótimas biografias escritas por Ferreira Gullar e Bernardo Carneiro Horta. “O trabalho de pesquisa foi incansável. Descobri histórias sobre ela que são verdadeiras joias, como, por exemplo, a convivência com o escritor Graciliano Ramos na prisão no Rio de Janeiro, durante a ditadura do Getúlio Vargas. Na verdade, todas as histórias da Nise serão inéditas no cinema porque é a primeira vez que alguém retrata sua vida na tela, depois que ela própria foi a roteirista do documentário Imagens do Inconsciente, que revelou alguns de seus pacientes como geniais artistas e escultores no Hospital Psiquiátrico D. Pedro II, no Engenho de Dentro”, antecipa. O público torce, e espera ansioso. |RB


Nise em três atos - Gazeta de Alagoas  

Doze anos após sua morte, Nise da Silveira, a médica alagoana que revolucionou a psiquiatria no Brasil, tem sua complexa e fascinante trajet...

Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you