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Gazeta de Alagoas

B História sem

fim

| QUARTA-FEIRA, 09 DE MAIO DE 2007 |

Fotos: acervo pessoal (Fernando Spencer)

Jota Soares e Edson Chagas em ação no início da década de 1920: em busca do sonho de fazer cinema

PERDIDO NO TEMPO, O BRAVO DO NORDESTE, PRIMEIRO FILME ALAGOANO, COMPLETOU ONTEM 76 ANOS

| RAFHAEL BARBOSA Especial para a Gazeta

Movimento pioneiro no audiovisual brasileiro, o Ciclo do Recife (1923-1931) esconde em sua história as proezas de um homem que marcaria também a cinematografia alagoana. Natural do agreste pernambucano, o marchante Edson Chagas participou da maior parte das 13 películas produzidas pelo Ciclo, hora assumindo a direção, hora encarregado da fotografia dos filmes, função na qual se especializou no Rio de Janeiro, antes de se aventurar pela chamada “Sétima Arte”. Esmorecido pelas dificuldades do fazer cinema numa época de escassez de recursos, o movimento teve seu fim no início da década de 1930, com a realização do longa No Cenário da Vida, de Jota Soares e Luiz Maranhão. Nesse último momento do Ciclo, poucos realizadores ainda permaneciam no Recife. Um deles era Chagas, que entre outros ofícios trabalhou como ourives para ganhar a vida. O sonho do cinema era realizado aos fins de semana. Foi assim que ele, Jota Soares, Gentil Roiz e Ary Severo construíram a mais relevante produção cinematográfica do Brasil no início do século passado – investiam dinheiro do próprio bolso, criando produtoras que a cada novo filme decretavam falência. O fim do Ciclo e as dívidas

acumuladas no Recife levaram Edson Chagas a procurar novos horizontes em Maceió. Sua chegada, em 21 de novembro de 1930, foi anunciada com pompa pela imprensa local. “Vários elementos de destaque em nossos meios sociais estão empenhados em auxiliar os intuitos do cinematografista Edson Chagas, ora nesta capital, no sentido de fazer um filme alagoano”, anunciava nota publicada na coluna Registro Social, do Jornal de Alagoas, em 28 de novembro de 1930. Vaidoso, Chagas não escondia sua fama de “um dos maiores cinegrafistas do país”, como ele mesmo anunciava ao andar pelo Centro de Maceió, sempre com chapéu de caçador e botas de cano longo, hábito que trouxe da capital pernambucana. Não demorou a chamar a atenção de Guilherme Rogato (18981966), fotógrafo oficial do governo do Estado e grande entusiasta da realização de um filme em Alagoas. Rogato já tinha produzido registros de eventos oficiais. Carnaval de 1921 e Terra das Alagoas são algumas de suas realizações até então. E a chegada do famoso cinegrafista pernambucano aumentou a centelha da esperança de rodar o primeiro filme de enredo alagoano. Mas as incursões iniciais de Edson Chagas pelo cinema em nossas terras não contavam com elementos de ficção. Sua primeira intervenção em celulóide por aqui foi uma obra

Vaidoso, Chagas não escondia sua fama de “um dos maiores cinegrafistas do país”, como ele mesmo anunciava ao andar pelo Centro de Maceió, sempre com chapéu de caçador e botas de cano longo

metalingüística, nos moldes das famosas experimentações dos irmãos Lumière. Chagas flagrou a saída do público no Cine Capitólio para dez dias depois exibir o feito para o mesmo público, causando frisson entre os que assistiram à projeção. As empreitadas seguintes de sua recém-criada produtora, a Alagoas Film, seriam “cine-jornais”, atividade comum em tempos de “pré-televisão” e muito difundida em todo o mundo durante a 1ª Guerra, quando centenas de pessoas iam aos cinemas para acompanhar as notícias do front. Mas a intenção de realizar um filme de enredo não tardou a se concretizar. Já envolvido com o meio intelectual alagoano – Aurélio Buarque de Holanda, Gue-

EDSON CHAGAS

GUILHERME ROGATO

Nasceu numa fazenda perto de Gravatá (PE), onde trabalhou com abate de porcos. Ao se mudar para o Recife, em 1918, conheceu Gentil Roiz, na época dono de uma oficina de ourivesaria, na qual trabalhou por alguns anos. Após um curso de fotografia no Rio, Edson Chagas e Gentil Roiz compraram uma velha câmera numa casa de penhores (por 600 mil réis) e decidiram filmar uma história escrita por Roiz.

Nascido em São Marco Argentano, na região de Conssenza, na Itália, Rogato emigrou com a família para o Brasil em 1910. Em 1919 ele visitou Alagoas para uma exposição de fotografias em esmalte e decidiu viver no Estado. A partir de 1921 fixou residência por aqui e passou a trabalhar como fotógrafo oficial do governo do Estado. Suas primeiras experiências no audiovisual se deram no mesmo ano.

des de Miranda, Manuel Diegues Júnior, Jayme de Altavila e José Lins do Rego foram alguns dos nomes que se fizeram presentes nesta ação –, o cineasta mobilizou a sociedade local para a produção de seu filme, o romance com pinta de faroeste O Bravo do Nordeste, rodado em 1931 no município de União dos Palmares. Sobre seu enredo pouco se sabe, apenas que se tratava de uma história de amor com um roubo de gado como pano de fundo. Como cenário não estavam as belezas naturais da terra, como muitos esperavam, e sim o sertão alagoano. Segundo relatou o ator Ernani Rocha Passos, um dos protagonistas da trama, ao extinto Museu de Imagem e Som da Fundação Teatro Deodoro (Funted), ele e Edson Chagas escreveram o roteiro a quatro mãos, sempre em conversas de bar no Centro de Maceió. Finalizado, o longa teve sua estréia no Cine Capitólio, no dia 08 de maio de 1931. Posteriormente foi apresentado em outros municípios do Estado – a última exibição da qual se teve notícia foi realizada em Pilar, pouco tempo depois. A declaração de Ernani Passos, junto a algumas notas publicadas em jornais – e preservadas no Arquivo Público Municipal –, são os únicos registros de O Bravo do Nordeste. A única cópia do filme foi levada por Edson Chagas, que deixou Alagoas em 1931.

O Bravo do Nordeste versus Casamento é Negócio? Se o filme Casamento é Negócio?, que Guilherme Rogato lançou em 1933, hoje detém o posto de primeiro filme alagoano, é pela simples inexistência – ou melhor, pelo sumiço – de O Bravo do Nordeste. É o que pensa o professor e crítico de cinema Elinaldo Barros. Às vésperas de lançar uma versão ampliada e revista de seu Panorama do Cinema Alagoano – a mais importante publicação sobre a produção cinematográfica alagoana – Elinaldo depõe a favor do pioneirismo de Guilherme Rogato. “Edson Chagas foi um passageiro. De O Bravo do Nordeste não se tem fotos, não existem imagens. Se estivesse preservado, o filme seria importante como documento histórico, o único registro de imagens em movimento da cidade de União dos Palmares na época. Mas Chagas sumiu junto com seu filme. Deve-se levar em consideração que ele também não era alagoano, passou menos de dois anos aqui”. Ainda assim, pode-se argumentar que Guilherme Rogato também não era natural de Alagoas – nasceu na Itália e viveu muitos anos no Rio de Janeiro antes de vir para Maceió. “Sim, mas radicou-se aqui, onde ficou até morrer. A importância dele vai além de Casamento é Negócio?. Rogato colaborou inclusive com a produção de O Bravo do Nordeste, ajudando a escalar o elenco”, observa Elinaldo, que também é autor do livro Rogato – A Aventura do Sonho das Imagens em Alagoas, no qual investiga a biografia do fotógrafo italiano. Um capítulo do mesmo título foi dedicado à passagem de Edson Chagas por Alagoas. DESCASO NOCIVO O Bravo do Nordeste é um símbolo do descaso com o qual a produção audiovisual alagoana tem sido tratada, e não apenas em tempos recentes. Segundo Elinaldo Barros, boa parte do

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nosso acervo foi extraviado. Por ser composta por uma substância que se deteriora com facilidade, o nitrato, a película cinematográfica utilizada na época precisa ser conservada em temperatura adequada, além de necessitar de uma série de outros cuidados. O próprio Casamento é Negócio? talvez estivesse perdido para sempre não fosse a intervenção de Elinaldo. “Eu encontrei a cópia original do filme com Célio Miranda, filho de Moacyr Miranda [o protagonista do filme], e enviei o material para a Cinemateca Brasileira na tentativa de preservá-lo”, conta. A iniciativa, no entanto, rendeu-lhe alguns problemas. Elinaldo não pôde contar com o apoio da Secretaria de Cultura para financiar o custo da restauração da película e pagar as novas cópias em 35mm e 16mm, como havia sido acordado. A reprodução só foi possível graças à interferência do professor e diretor Almir Guilhermino, que na época fazia mestrado em São Paulo e negociou com a Cinemateca. Hoje a cópia em 16mm está guardada no Museu da Imagem e Som de Alagoas (Misa). A versão original do filme ainda se encontra na Cinemateca. E a cópia em 35mm, restaurada, que foi encomendada por Elinaldo Barros em 1987, só chegou a Alagoas este ano, quando a família de Rogato exigiu do governo do Estado a devolução do filme. “Se o cinema profissional foi vítima do descaso, imagine a produção de amadores nordestinos. Alguns clássicos do Cinema Novo quase se perderam definitivamente”, lamenta Elinaldo ao lembrar do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, que só teve sua restauração viabilizada graças à junção de algumas cópias recolhidas em vários países, inclusive na Alemanha, onde estava a cópia em melhor estado de conservação. |RB (Continua na página B2)


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CADERNO B

Gazeta de Alagoas

QUARTA-FEIRA, 09 DE MAIO DE 2007

Fotos: divulgação

MARIA CÂNDIDA “O ÚNICO MEIO DE TER BELEZA EXTERIOR É TER BELEZA INTERIOR” Harvey

NOTINHAS

PAPA

aqui em Maceió.

Os brasileiros estão com as atenções voltadas para São Paulo, por uma razão: a visita do Papa Bento XVI. Seja bem vindo. Lamentavelmente não estaremos lá na capital paulista para receber sua benção pessoalmente.

BIENAL A professora Sheila Maluf é toda entusiasmo com a 3ª Bienal do Livro de Alagoas, que será realizada em outubro,

Tai e Socorrinho Brêda comemoram hoje mais um aniversário de casamento ››› Aniversariando hoje a sra. Amelhinha Estevens ››› Uma juiza carioca envolvida na máfia dos caça-níqueis; que horror! ››› Outra aniversariante de hoje é Joelma Jullyanne Coelho Vieira ››› Domingo é consagrado às mães

LUCIANA Sem dúvida alguma a aniversariante mais festejada de hoje é a bonita Luciana Guimarães, que terá seu telefone tocando a cada minuto. Um abraço especial.

...E TAMBÉM

Ricardo Lêdo - Arquivo GA

AMANHÃ Deixaremos para a coluna de amanhã os detalhes da Tarde da Amizade. Foi uma reunião maravilhosa, muito prestigiada.

A grande aniversariante de hoje, Luciana Guimarães

PARABÉNS

ONTEM

Os amigos não podem esquecer em parabenizar, hoje, Cileta Nabuco de Melo, Francisca Falcão Tenório e Viviane Medeiros, pois elas também comemoram idade nova.

A reunião em homenagem às mães do Lions Clube de MaceióFarol aconteceu na noite de ontem, tendo como cenário o apê do casal de “leões” Carlito/ Zélia Cedrim.

ESPECIAL

FELIZ

Uma figura superespecial, amiga nota 10, é a sra. Tatáia Rocha Montenegro.

Nós brasileiros teremos uma fe-liz semana com a visita do Papa Bento XVI.

O casal de médicos oftalmologistas, Dra. Gilva Ramos e Dr. Dalton Ramos, recebendo homenagens durante a semana.

Contatos: candidapalmeira@ig.com.br | Rua Dep. José Lages, 250/101 - Ponta Verde - CEP 57035-330

O jurista alagoano Paulo Lôbo segue como uma das vozes altivas no Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

| CONTINUAÇÃO DA PÁGINA B1 |

O “guardião” do cinema nordestino FERNANDO SPENCER, UM DOS PRINCIPAIS NOMES DO AUDIOVISUAL PERNAMBUCANO, FALA DA IMPORTÂNCIA DE EDSON CHAGAS Rafhael Barbosa

| RAFHAEL BARBOSA Especial para a Gazeta

Recife, PE – Em busca de pistas sobre a trajetória do “ourives forasteiro” Edson Chagas, a Gazeta esteve no Cine PE – um dos mais importantes festivais do País, cuja 11ª edição foi encerrada no último dia 29 de abril – para conversar com um homem que é uma espécie de “documento vivo” do cinema nordestino. Autor de uma obra composta por 44 títulos, entre vídeos, super-8, 16mm e 35mm, o jornalis-

ta, poeta, folclorista, cineasta e crítico Fernando Spencer, do alto de seus 80 anos completados em janeiro último, recebeu a reportagem em sua casa, no bairro de Casa Forte, poucas horas antes de ser homenageado no Cine PE com a exibição de Almery, a Estrela. Ele falou sobre a vida e a obra de Edson Chagas e sobre o trabalho de preservação dos filmes do Ciclo do Recife. Leia a seguir.

FRASE

Gazeta – Edson Chagas trouxe a experiência adquirida no cinema pernambucano para Ala-

Fernando Spencer

“Mesmo que o filme [O Bravo do Nordeste] esteja guardado com alguém, é improvável que esteja em condições recuperáveis”

coisa ficou intacta. Dos 13 filmes do Ciclo, apenas quatro ficaram em bom estado. De filmes como Retribuição (1923) e Aitaré da Praia (1925) conseguimos recuperar apenas trechos. Já Sangue de Irmão (1927) se perdeu completamente. Mesmo que o filme esteja guardado com alguém, é improvável que esteja em condições recuperáveis.

Cineasta

goas, onde rodou o “faroeste” O Bravo do Nordeste. E para o cinema pernambucano, o que ele representa? Fernando Spencer – Chagas

foi um idealista. Ele foi a espinha dorsal do Ciclo do Recife, junto com Jota Soares e Gentil Roiz. Edson Chagas foi o único do grupo a participar de todos os 13 filmes do movimento, seja como câmera, roteirista ou diretor. E olha que naquela época era bem mais difícil produzir do que é hoje. Não existiam recursos, os filmes eram feitos de maneira completamente artesanal, usando locações, luz natural, e sempre gravando nos fins de semana, porque todos trabalhavam. O que levou o diretor de A Pega do Boi e As Grandezas de

E seu diretor, o que fez depois que deixou Maceió?

Spencer: “Chagas deixou o Recife completamente endividado”

Pernambuco a deixar o Recife e ir para Alagoas?

Quando Chagas saiu daqui, o Ciclo do Recife já estava morto, não se produzia mais nada por aqui naquele período. Acredito que ele estava buscando novas perspectivas, o Ciclo estava esgotado. Mas ele foi o último a deixar o barco, continuou tentando produzir. Quando Gentil Roiz já tinha ido morar no Rio de Janeiro com Almery Esteves, Chagas tentava revitalizar o Ciclo. Ele chegou a fundar a

Liberdade Filme, junto com Ary Severo, em 1927, depois que a Aurora Filmes quebrou, mas só chegaram a produzir um filme, Dança, Amor e Ventura, dirigido por Ary. Chagas deixou o Recife completamente endividado, antes da Liberdade Filme lançar sua segunda e última fita, em 1931. Não existem registros de Edson Chagas após sua saída de Alagoas, em 1931. Com ele sumiu também a única cópia de O Bravo do Nordeste. Você acredita que o filme ainda pode ser recuperado?

Eu acho muito difícil. Quando comecei a trabalhar como diretor da Coordenadoria da Cinemateca da Fundação Joaquim Nabuco, na década de 1980, fizemos um trabalho de recuperação dos filmes do Ciclo do Recife, e já naquela época foi muito difícil recuperar as peças. Só foi possível porque os negativos estavam preservados na Cinemateca Brasileira, mas mesmo assim pouca

CMYK

Várias pessoas me procuram quando estão pesquisando sobre o cinema pernambucano e Edson Chagas é uma constante. Inclusive uma prima dele esteve na Fundação e também veio à minha casa procurar informações. Uma vez conversei com Ary Severo, e ele me contou sobre uma visita que ele fez a Edson no Rio de Janeiro. Ary me contou que foi visitá-lo no Rio e o encontrou casado “com uma moça mais alvoroçada do que ele” (risos)... Segundo me relatou Ary Severo, Edson viveu seus últimos dias na região do Cantagalo. Não sei precisar o ano da morte dele, mas acredito que tenha sido no começo da década de 1950. Você também trabalhou com várias atividades, inclusive como jornalista. Como foi conciliar a profissão com a realização cinematográfica?

Toda a minha geração também trabalhou com outras coisas para sobreviver. Os filmes eu fiz nos fins de semana. Trabalhei com várias coisas, mas em nenhuma das atividades eu estive distante do cinema.


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