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Avesso Por Rafael Silva Pedrão ficou feliz com a chegada da montadora japonesa em sua cidadezinha, no interior. Tão feliz, que repetia aos quatro ventos o discurso do prefeito – A Toyota trará novos empregos! Semanas depois, estabelecida a empresa, Pedrão vai correndo ao RH da mesma atrás de uma vaga, afinal, “mais empregos, amém”, pensava. - Já trabalhou com empilhadeiras? – pergunta a encarregada do departamento. - Não - Tem experiência como auxiliar na área de produção industrial? - Não. - Curso superior? Curso técnico? - Não. - Vamos analisar seu currículo. Qualquer coisa entraremos em contato. Frustrado, o desempregado volta para casa. Há anos tem sido assim. Cada prefeito que assume o município arremata um amontoado de empresas, dizendo: “Vamos gerar novos empregos.” A indústria cresce e prejudica trabalhadores rurais como o Pedrão que, agora está sem trabalho e, como muitos na cidade, não têm qualificação para assumir uma das vagas na montadora japonesa. Lá na capital, Ricardo Monteiro, recém-formado em Administração (com pósgraduação em Sistemas Operacionais) está atrás de alguma oportunidade – como milhares de pessoas que vivem na gigantesca cidade, a terceira maior do mundo. É qualificado, mas não há vagas, pois o mercado está extremamente saturado. Já tentou de tudo. Entregou currículo em várias agências do lugar. Nada. Nem um agendamento de entrevista. “Tá difícil ficar aqui... não tem vaga”, desabafa para a mãe. - Ai meu filho, tenta outra especialização ou quem sabe um mestrado. Faz uns cursinhos...


- Já sei, mãe. Vou para o interior. Dizem que estão precisando de gente por lá. Há muitas vagas e pouca gente para trabalhar. - Tem certeza, filho? Você pode atuar noutra área até arranjar algo melhor. Sempre tem vaga para mão de obra. - Sim, tenho certeza, vou para o interior! Enquanto o administrador se prepara para sua viagem para ao interior, o desqualificado e desempregado Pedrão também decide ir embora. O colono vai para a cidade de São Paulo, terra do Monteiro, pois soube que lá existe espaço na construção civil, confecção, restaurantes, lojas etc. “É a terra das oportunidades. É pra lá que eu vou!”, anuncia. Chegando à capital, consegue trabalho como auxiliar de estoque, de cara. O serviço: guardar peças, fazer conferências e levar produtos até o balcão aos. Pedrão achou uma maravilha: oito horas por dia, R$ 800 por mês, vale-refeição e vale-transporte . No interior, Ricardo Monteiro ficou sabendo de uma montadora com vagas no departamento de compras. Com currículo em mãos, vai até a empresa. - Uhmmm... ótimo currículo. Fala inglês, possui graduação, pós-graduação, dois cursos técnicos, é recém-formado... - Também tem um intercâmbio que fiz há alguns anos, só para melhorar meu inglês – observa Monteiro. - Senhor Ricardo, precisamos de alguém para atuar no departamento de compras. Pelo visto não é bem sua área, mas há possibilidades de crescimento. O que me diz? - Ótimo! Estou procurando novas experiências. Vocês gostarão do meu trabalho! Ricardo achou uma maravilha: seis horas de trabalho por dia, R$ 3.500 por mês, aluguel, alimentação, combustível, plano de saúde, plano de carreira. Três anos depois, Pedrão já não aguenta mais. “Quero voltar para Artur Nogueira, aqui não dá mais! O aluguel é alto, a comida é muito cara, não tenho tempo para nada, tudo é mais difícil aqui. Já passei por oito empregos diferentes desde que cheguei. Não tenho casa, não tenho carro e o dinheiro que ganho é só para pagar as contas.”


Na cidade nogueirense, Ricardo monteiro comemora: “Mãe, é muito bom trabalhar no interior! Semana que vem troco de carro. A casa que comprei é linda. Você tem que ver. Deviria ter vindo mais cedo pra cá, como fizeram meus colegas de serviço. Alguns deles vieram de grandes capitais e hoje aproveitam os benefícios de trabalhar em uma multinacional (no meio da zona rural, acredita?). Aqui tem qualidade de vida, mãe.” Pedrão volta para sua cidadezinha, bem na época da eleição. Desce na rodoviária e dá de cara com o prefeito (o mesmo do início da história), fazendo campanha para se reeleger. “Meu povo. Em meu mandato trouxe cinco indústrias para o nosso município. Agora tenho uma grande notícia para vocês! Em abril chega uma nova empresa. São mais empregos sendo gerados para nós, minha gente!”. - Ei prefeito! Mais emprego nada! Conheço essa história, é tudo mentira – foi o que Pedrão pensou, mas, como todo cidadão humilde e sem maldade, preferiu não dizer.


Avesso