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Antes que seja

o senso de urgência na

A

publicidade nem sempre mostra o lado bom das coisas. Muitas vezes o objetivo da peça publicitária não é comunicar as maravilhas de um produto, mas sim a gravidade de um problema. Isso fica bem claro nos trabalhos de conscientização pública, como no caso das campanhas que alertam sobre o aquecimento global. Uma preocupação comum a todas as campanhas que tratam do aquecimento global é, sem dúvida, criar um senso de urgência. A mensagem transmitida é a de que todo mundo precisa agir, e rápido. Porque a inércia e a perpetuação das práticas atuais terão um custo muito alto. As consequências serão irreversíveis e catastróficas. Grande parte desse senso de urgência é baseada no medo das consequências.

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Neo Mondo - Novembro 2009

O anúncio de uma catástrofe ambiental iminente é algo perturbador e altamente motivador, ativando um dos nossos instintos mais básicos: o de sobrevivência. É por isso que a publicidade sempre lembra que não é apenas o planeta que está correndo perigo; nós também estamos. A força publicitária da COP 15 está diretamente ligada a esse senso de urgência. O evento em Copenhague está sendo visto como a grande oportunidade para reverter as mudanças climáticas. Algumas organizações mais radicais chegam a dizer que será a nossa última oportunidade. Para mostrar que o relógio está correndo e que não temos tempo a perder, uma aliança de várias organizações internacionais criou a campanha TicTacTicTac e o slogan “hora de agir pelo clima”. Com o objetivo de mobilizar a opinião públi-

ca e pressionar as lideranças, a iniciativa promoveu um abaixo-assinado simbólico para as autoridades. Nesse documento, a sociedade civil apresenta suas reivindicações e cobra medidas concretas para combater as causas das mudanças climáticas e amenizar os seus efeitos. Buscando a adesão da sociedade, algumas campanhas criaram dias específicos para manifestações públicas. Desde 2007, a WWF realiza no último sábado de março de cada ano a chamada “Hora do Planeta”. Nesse dia, em um período de 60 minutos, governos, empresas e a população de todo o mundo são convidados a apagar as luzes para demonstrar sua preocupação com o aquecimento global. O projeto “Hora do Planeta” também conseguiu uma grande participação da sociedade na Internet. Para explorar o fato


Rafael Pimentel Lopes

tarde demais:

a publicidade da COP15 de a COP 15 ser um momento de decisão política, a campanha criou a ideia de que o que vai acontecer em Copenhague é uma grande eleição em que os candidatos são o Aquecimento Global e o Planeta Terra. No site da campanha, existe uma urna onde você pode clicar e “votar” no Planeta. Para promover uma participação mais ativa da sociedade nas discussões que acontecerão na COP 15, muitas campanhas têm funcionado como pontes entre o público geral e os líderes que estarão em Copenhague. O Youtube e o Governo da Dinamarca, por exemplo, lançaram em parceria um canal na Internet para que o conteúdo criado pelos usuários seja levado para o evento. O canal é parte da campanha “Fale mais alto”, que promete fazer com que as reivindicações das pessoas sejam ouvidas pelos políticos.

A Organização das Nações Unidas também lançou uma campanha mundial para criar e apresentar uma petição da sociedade civil aos governantes. A campanha on-line “Sele o compromisso” tem reunido assinaturas de pessoas em vários países. O objetivo é pedir que os líderes cheguem a um acordo justo e equilibrado em Copenhague, garantindo o investimento em energia limpa e o desenvolvimento de uma economia global sustentável. Não faltam exemplos de campanhas publicitárias sobre os temas que serão discutidos em Copenhague. Se a COP 15 vai realmente definir estratégias eficientes e metas concretas para reverter as mudanças climáticas, ainda não sabemos. Mas podemos afirmar que o esforço publicitário tem mostrado bons resultados, en-

gajando a população na discussão. Hoje já existe o senso de urgência necessário para provocar mudanças ou, na pior das hipóteses, para gerar no futuro um grande sentimento de culpa na humanidade. Afinal, a publicidade tem feito a sua parte, mostrando também o lado ruim das coisas. Se o pior acontecer, não vai ser por falta de aviso.

Publicitário da Jung von Matt, em Berlim Formado em Comunicação Social pela ESPM-SP e em Criação Publicitária pela Miami Ad School E-mail: rafael.lopes@jvm.de Neo Mondo - Novembro 2009

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Antes que seja tarde demais: o senso de urgencia na publicidade da COP 15