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tornar-se casulo / sair do casulo


tornar-se casulo / sair do casulo morar e crescer enquanto lgbt+ no centro de salvador rafael pereira lima orientadora: akemi tahara universidade federal da bahia faculdade de arquitetura 2017.1


agradeço a minha mãe, que, mesmo solteira, me recebeu como seu filho. Por mover as maiores montanhas por mim. Pelo acolhimento e amor incondicionais que me permitem, hoje, produzir este trabalho a partir de um lugar de privilégio; a minha madrinha, que chamo de tia, que sem pensar duas vezes ajudou na minha criação e cuidou de mim como se fosse da sua família; a akemi, com quem iniciei este ciclo da minha vida e com quem o fecho. A todos os professores que se dedicaram ao meu crescimento; a meu amigo fernando, pela ajuda inestimável não somente durante este trabalho mas também ao longo de toda a faculdade. Por me empurrar quando eu hesitava sair do lugar; aos amigos da faufba, que me acompanharam nesses anos. A vilca e sonho, pela ajuda nessa reta final; a bia, bruna, henrique, maíra. E a gabi, pela risada e loucura contagiantes, mesmo nos momentos de desespero; a meus amigos do intercâmbio. Àqueles com quem compartilhei uma casa durante um ano e àqueles com quem experimentei estudar arquitetura num outro país; a adriana sampaio, pela conversa inspiradora no Casulo; a ah teodoro e malayka sn, por cederem um pedacinho de seu dia para me ajudar e por resistirem no centro de salvador; aos entrevistados e demais pessoas que, de alguma forma, ajudaram; por fim, a todos os lgbt+ . Àqueles que lutam pelo nosso direito de existir e aos que outrora lutaram e possibilitaram que eu discorresse livremente sobre este tema, alimentando, de algum modo, o debate; muito obrigado.


trabalho final de graduação do curso de arquitetura e urbanismo da universidade federal da bahia, realizado pelo aluno rafael pereira lima, tratando sobre uma proposta de moradia e reestruturação social no centro de salvador para pessoas lgbt+ em situação de vulnerabilidade.


índice

introdução 11 entrando em contato com o casulo

parte 1 15 a sociedade a serviço da LGBTfobia 16 a LGBTfobia no seio familiar

parte 2 19 o Centro como o lugar do anonimato 19 habitar o Centro 20 o terreno 22 a barreira 22 o potencial queer do terreno

parte 3 25 o casulo como organismo mediador 25 o conceito - tornar-se casulo / sair do casulo 27 o partido parte 4 - o projeto 30 o existir no Centro como uma trajetória 30 habitar 36 núcleos que se expandem 50 expansão para além do terreno 40 considerações finais 45 entrevistas 50 bibliografia


introdução


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entrando em contato com o casulo “A maioria chega com grande sofrimento emocional. Mas uma parte considerável precisa de acolhimento físico. Muitas famílias, num primeiro momento, são bastante agressivas com a pessoa LGBT a ponto de fazer com que o convívio diário fique impossível. Algumas famílias, infelizmente a minoria, com o tempo acolhem, em diferentes níveis, seus filhos. Mas um percentual, que eu poderia estimar em 1/3, não demonstra desejo de permanecer convivendo juntos.” A fala de Adriana Sampaio introduz um assunto presente no cotidiano de muitas famílias e que desola a vida de muitas pessoas: a violência que decorre da intolerância sexual ou de identidade de gênero. Adriana, mãe de homem trans, sensibilizada por um questão dentro de sua família, faz parte do coletivo Famílias pela Diversidade. O coletivo atua na proteção de pessoas LGBT+ bem como promove debates acerca da intolerância sexual e de identidade de gênero. Com início de suas atividades na Bahia em 2014 – ainda como Mães pela Diversidade – o grupo, desde então, participou de mais de 100 eventos em defesa da população LGBT+, tendo organizado cerca de 25 deles. A quantidade de eventos realizados demontra como questões acerca da sexualidade e identidade humana são cada vez mais contemporâneas e demandam discussão. Contabilizando mais uma participação em eventos que discutem ou tangenciam a causa LGBT+, em dezembro de 2016 Adriana - que é designer e professora do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais na Escola de Belas Artes da UFBA participou do Casulo: encontro de Design da Uneb. O evento aconteceu na Universidade do estado da Bahia, no Cabula, e o tema foi “Não siga o fluxo, siga na contramão”. Como principal proposta do evento, a discussão da indústria criativa e o papel do designer na contemporaneidade, tendo em vista a diversidade. Com programação variada, que incluía palestras, workshops e feiras de arte, a conversa de abertura do evento ficou a cargo de Adriana. As discussões sobre a responsabilidade social do designer e o público para o qual ele quer/ deve falar encaminhou a conversa para a atuação de Adriana enquanto membro do Famílias pela


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Diversidade e defensora da população LGBT+. Um dos seus relatos arrancou olhares perplexos dos ouvintes na sala. Certo dia, o coletivo foi contatado em busca de suporte: a mãe de um jovem, morador de Sussuarana, havia ameaçado jogar ácido nele após descobrir sua homossexualidade. Foi Adriana quem partiu para a casa dessa família na tentativa de estabelecer um diálogo com a mãe. As reações na sala refletiram o estranhamento das pessoas quando apresentadas a um relato de violência dentro do seio familiar – violência por parte de quem deveria ser nosso porto seguro. A urgência daquele jovem em encontrar acolhimento em outro espaço que não dentro de casa era gritante e óbvia. Em entrevista posterior ao evento, quando perguntada sobre a frequência de jovens que buscam apoio do Coletivo, Adriana respondeu: “São muitos. O número assusta porque aquilo que vemos publicado, nas redes, na mídia, é subnotificado. Ou seja, não reflete a realidade. São muitas as violências e as psicológicas são sempre as mais frequentes. Muitos pais sequer se dão conta que suas atitudes, ações, são, de fato, violentas.” Aquele caso é, certamente, um dos vários que são vividos cotidianamente por jovens Brasil afora, mas que não chegam à superfície, seja por falta de interesse da grande massa neste debate, seja por abafamento destas situações por parte das famílias que vivem elas. De uma forma ou de outra, essas atitudes – ou a falta delas – relegam este grupo social a um segundo plano e invisibilizam um problema que é real. O relato chegou até a mim com o peso da urgência por acolhimento dessas pessoas que são submetidas, diariamente, a agressão física e/ ou psicológica nas ruas ou, o que é mais grave, dentro da própria casa. Vi a chance de trazer à luz um tema de importância social e que me toca diretamente, enquanto homem gay. Foi neste primeiro contato com o Casulo (aqui com C maiúsculo) que eu encontrei as minhas primeiras motivações. São, desde o início, objetivos deste trabalho: 1) alimentar a discussão sobre um tema que tange a vida de tantas pessoas em situação de vulnerabilidade decorrente de intolerância sexual ou de identidade de gênero; 2) pensar num

espaço físico capaz de acolher temporariamente e dar suporte a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros que vivem situações de abuso físico ou psicológico dentro da própria família ou nas ruas e promover, dessa forma, a socialização e reintegração dessas pessoas na cidade, bem como tecer laços entre a cidade e estes sujeitos.


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Imagem 01: imagem de divulgação do evento.

Imagem 02: imagem de divulgação do evento.


parte 1


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A sociedade a serviço da LGBTfobia “Acho que acabar deve acabar né? De uma forma ou de outra. Prendendo, matando...” Desde a constituição de uma sociedade consciente, o diferente causa estranhamento. Faz parte do ser humano perceber isso que é dissidente como algo nocivo ou até mesmo ameaçador. Tal visão esteve e ainda está ligada de forma umbilical aos dogmas da sociedade e são reflexo de seu tempo. A citação acima é a resposta de um entrevistado à jornalista que o pergunta se ele havia ouvido falar ou lido, nos jornais, televisão ou rádio, sobre assassinato de homossexuais. Este registro, presente no documentário Lampião da Esquina (2016), data dos anos 80, no Brasil da Ditadura Militar. Se não fosse pelo discurso de ódio aberto e escancarado, numa época em que ele era legitimado pela maioria da população, estas palavras poderiam ser de hoje. Elas fazem parte de um extenso leque de abordagens que demonstra como, há quase 40 anos, a sociedade brasileira reagia ao que era considerado estranho aos padrões heteronormativos. No que se refere ao espectro das relações que fogem à cis-heteronormatividade atual, tais situações de estranhamento se mostram enraizadas na sociedade e reproduzem discursos que são violentadores na forma de piadas, gírias e ações que são tidas como banais, como brincadeiras. Essas atitudes demonstram, de forma sistemática, como a violência ao público LGBT+ é comum e natural. Outrora escancarada, essa violência no discurso vinha acompanhada de palavras mais cruéis que apagavam qualquer pessoalidade de indivíduos LGBT+: “Eu acho que não deveria existir homossexual” / “Eu acho que se a lei permitisse seria uma boa, né?” – também retirada do mesmo documentário, essa é a resposta para “Você acha que deveriam matar travestis?”. O jornal Notícias Populares, que circulou no Brasil entre 1963 e 2001, constantemente representava a população LGBT+ através de manchetes sensacionalistas, a tratando de forma irresponsável e a retratando como delinquente. Isto aponta para algumas das raízes da LGBTfobia na sociedade, e mostra como a impressa, numa outra época, alimentava a violência e este grupo numa outra escala: dentro de casa.

Imagens 03 e 04: Manchetes do jornal Notícias Populares. Imagens retiradas do documentário Lampião da Esquina.


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A LGBTfobia no seio familiar A família, que em geral deveria servir de alicerce para o indivíduo, porém, em muitos casos, funciona de forma diametralmente oposta, gerando situações de extrema desestabilidade para esta pessoa que já possui uma situação fragilizada em relação à sociedade. Isso produz situações de pressão que, em casos mais graves, pode levar a agressões físicas, psicológicas ou até mesmo expulsões do núcleo familiar. O dispositivo da sexualidade, amparado pela heteronormatividade permite que as famílias se sintam como guardiãs das normas sobre a sexualidade de seus membros. Chama-se de heteronormatividade o conjunto de normas aceitas como comuns a todos, que legitimam a heterossexualidade como algo natural e superior e põe, em oposição, qualquer sexualidade dissidente a ela como errada. Deste modo, qualquer comportamento sexual – seja orientação sexual ou identidade de gênero – que foge da norma é prontamente rechaçado dentro do seio familiar na forma de LGBTfobia. Segundo Schulman, existem duas experiências que a maioria da população LGBT+ compartilha dentro de casa. A primeira delas é a de “sair do armário”, quando a pessoa se opõe à expectativa social de adequar-se às heteronormas. Já a segunda das experiências se refere ao fato de que, em algum momento da nossa vida, passamos por situação de LGBTfobia dentro de casa, mesmo que de formas sutis, como através de comentários ou indiretas, podendo chegar a agressões explicitas. Estas são experiências que não têm paralelo na heterossexualidade. A expectativa em torno da sexualidade dentro da família, regida, por sua vez, por essa heteronormatividade compulsória, comprova que essa fobia tem raízes culturais. No ato de assumir-se “não-heterossexual”, a pessoa vai de encontro às expectativas familiares acerca de sua sexualidade, o que pode culminar em atitudes mais graves, como agressões físicas ou, por parte do indivíduo, até mesmo suicídio. Este é, portanto, um problema que embora esteja no âmbito da pessoalidade, pode ser considerado igualmente um problema de saúde pública. Por fim, a sociedade, junto ao seio familiar, formam a equação que fragiliza a população LGBT+ em diferentes esferas. Isso aponta para a necessidade de atenção tanto a nível civil quanto a

nível de Estado para a situação deste grupo social, ainda a caminho de atingir a devida importância no que tange à sua saúde psicossocial.


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parte 2


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o centro como o lugar do anonimato O Centro de Salvador é uma região de vida urbana pulsante. Diariamente, milhares de pessoas vão e vem na Rua Carlos Gomes e na Avenida Sete, ou sobem e descem o Elevador Lacerda. A pluralidade de usos – do cultural, passando pelo comercial e indo até o residencial - bem como as várias conexões com outras áreas da cidade o consagra como um lugar de multiplicidade e pluralidade. Ele é, portanto, o lugar do anonimato. Por definição, anônimo é aquele que é “indivíduo obscuro ou desconhecido” ou “que não revela seu nome”. O anonimato no Centro de Salvador se dá, no entanto, não pelo ato daquele que quer se esconder e persistir na sua condição de desconhecido, mas pelo contrário: o anonimato é garantido propriamente no ato da exposição das múltiplas identidades que cotidianamente compõem o Centro – imigrantes coreanos e seus restaurantes a quilo, as senhoras da Igreja da Piedade, drag queens que quase toda madrugada saudam o Âncora do Marujo e que, vez ou outra, se batem com os usuários de drogas das ruas desertas. O Centro é, por excelência, o lugar para o anônimo pois nele é possível transitar sem que sua presença seja estranhada. Não é coincidência que diversos atores transformistas, que há anos preservam a sua arte no Âncora do Marujo, moram na Rua Carlos Gomes ou no Dois de Julho. Enquanto em outros bairros de Salvador essa população LGBT+ viveria sob olhares de estranhamento à suas identidades, é no Centro - e pelo benefício do anonimato - que elas encontram acolhimento e liberdade para ser quem são. Numa outra perspectiva, o Centro pode ser visto como o lugar que neutraliza identidades, como para Malayka, performer de Salvador, que morou no 2 de Julho e hoje mora na Mouraria, não muito longe dalí: “Talvez a palavra não seja nem anonimato, mas uma neutralidade da identidade a ponto de ela não precisar interferir no que você consome ou com quem você se relaciona. O Centro deve ser estabelecido como ideal se a gente tiver essa perspectiva de que nesse espaço - para onde a cidade inteira vem trabalhar, comer, se vender, vender alguma coisa, comprar alguma coisa - eu consigo me relacionar com você. Isso é bem comercial, essa neutralidade, esse anonimato. Ele não está, em nenhum momento, se relacionando com o respeito à

diversidade, mas sim com a necessidade de ter a diversidade para que eu consiga também consumir.” Seja através de ocultação (o tornar-se anônimo) ou da neutralização da identidade, o Centro, de uma forma ou de outra, ainda é este espaço que aceita múltiplas individualidades – ou, como dito por Malayka, é obrigado a aceitá-las. É, por conseguinte, um espaço aprazível e acolhedor para essa população LGBT+/dissidente. No entanto, paralelo à neutralidade do ir e vir do LGBT+ no Centro, garantida pelo anonimato, há também a potencialidade de peformar a sua identidade, como exemplificado por Malayka: “Eu tenho muito amigo bicha, logicamente, sapatão também. Então quando a gente voltava do Âncora e ia pra padaria de manhã a gente ia de bonde, um bocado de bicha no meio da rua. Todo mundo olhava aquilo, achava as vezes estranho, as vezes não, mas nunca sofri nenhum tipo de violência verbal ou física morando no Dois de Julho. Eu percebia que havia uma curiosidade e interesse daquela comunidade em se aproximar.” Coexistem, portanto, no Centro de Salvador, a possibilidade de ser anônimo e a possibilidade ser percebido – e aqui fala-se do ser percebido e ao mesmo tempo aceito. Essa dualidade o válida enquanto espaço que acolhe a população LGBT+ e, paralelamente, é campo fértil para a produção e exposição do que é ser LGBT+, quase como num ato de sair do armário.

habitar o centro “Quem sabe este prédio não tem esta grande função educativa que é dizer: vocês têm medo de quê, afinal?” Paulo Mendes da Rocha, 2017 Embora englobe regiões e bairros com densidade residencial, como o Dois de Julho e até mesmo


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a Rua Carlos Gomes, ao cair da noite, as ruas do Centro viram morada, sobretudo para sujeitos invisibilizados, como moradores de rua, usuários de drogas ou travestis. Somada a essa configuração social, a política do medo criada em torno do Centro contribui para a construção de uma ideologia de rejeição a essa região. Habitar o Centro, no entanto, é fator fundamental para integrá-lo à dinâmica urbana. Deste modo o Centro se configura como um espaço com potencialidades habitacionais não somente pelo bem da vitalidade urbana, mas por ser, em primeiro lugar, uma área central, e também uma área de muita oferta de serviços, transporte e lazer. Para a população LGBT+, o Centro, enquanto lugar do anonimato, assegura os seus direitos de ser quem são. Como dito por Paulo Mendes da Rocha, um prédio na região central de uma cidade carrega essa capacidade intrínseca de desafiar olhares. Nesse contexto, uma habitação para pessoas LGBT+ no Centro traz luz a duas questões. A primeira é a de que o Centro possui infraestrutura suficiente e, comumente acima da média, sobretudo no que se refere a serviços básicos, transporte e lazer, para ser habitado. A segunda refere-se à importância de trazer a população LGBT+ para o Centro e lhe dar um espaço que se apresente como seu e com potencial para integrar este grupo social ao restante da população.

o terreno O espaço destinado para o projeto é um dos vários terrenos vazios sem uso ou subutilizados do bairro Dois de Julho. Ele servirá tanto para acolher pessoas LGBT+ que necessitam de abrigo quanto para fazer frente ao processo de especulação imobiliária que atinge um bairro de interesse privado do Centro de Salvador. Isto posto, é uma área que, concomitantemente, vai servir para interesses de um grupo social marginalizado pelo poder público e para o bem-estar da cidade como um todo. O terreno se situa próximo à Caixa Cultural, e

com seus 79 metros de extensão e 20 de largura, vai da Rua Carlos Gomes até a Rua do Sodré. Atualmente, se encontra abandonado e murado nas duas ruas, mas apresenta um potencial natural para conectar estas duas zonas do Centro.


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Em rosa, a Rua do Sodré (à esquerda) e a Rua Carlos Gomes (à direita). Entre elas, também em rosa, o terreno. Em amarelo, o Museu de Arte Sacra (acima) e a Caixa Cultural.


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a barreira É possível dizer que a Rua Carlos Gomes é um marco linear que estabelece os limites entre o que é o 2 de Julho e o que se chama popularmente de Centro de Salvador – Avenida Sete e suas imediações. Algumas ruas são responsáveis por levar as pessoas da Carlos Gomes até o 2 de Julho, sendo a principal delas a Rua do Cabeça, de intenso comércio, que inclui armarinhos, restaurantes, açougues, e que tem como destino o Largo do 2 de Julho. No geral, entretanto, o que se observa é uma grande barreira a partir de uma das pontas da Carlos Gomes, onde chega a Ladeira da Montanha, até a Rua da Forca, sobretudo no que se refere à permeabilidade física e uso de pessoas. Uma das razões para isto é a diferença de nível entre a Rua Carlos Gomes e a Rua do Sodré – na altura do Museu de Arte Sacra, a Ladeira de Santa Teresa vence um desnível de aproximadamente 15 metros ao longo de apenas 65 metros de extensão horizontal, ou seja, um percurso com inclinação de aproximadamente 23%, caminhada pouco aprazível. Somente a partir de meados da Rua Carlos Gomes é que estas ruas e conexões passam a existir com mais regularidade. Como consequência, a vazão do 2 de Julho, mesmo para aqueles que moram ao norte do bairro, acontece pela Rua da Forca, onde é possível fazer essa passagem por outros caminhos que não ladeiras. Caminhando a partir da Praça Castro Alves, a Rua Carlos Gomes é pontuada com caminhos que acontecem, em direção a Avenida Sete, através de becos e galerias, mas pouco em direção ao 2 de Julho. A fim de possibilitar que os moradores deste bairro criem novos caminhos dentro do Centro e usufruam de todas as possibilidades naturais do mesmo, é pertinente transgredir essa barreira e criar permeabilidade visual e de fluxos.

o potencial queer do terreno Queer, do inglês, é um termo que significa, à priori, “estranho”. É usado há quase 400 anos pelos ingleses, que nomearam, em Londres, como Queer Street uma rua onde viviam

prostitutas, vagabundos e todos os outros grupos considerados pervertidos. Historicamente, o termo evoluiu e passou a ser usado para se referir, de forma ofensiva, a homossexuais, transexuais e travestis, adquirindo o sentido de “viado, sapatão, traveco”. Como resposta, a comunidade LGBT+ apropriouse do termo e do conceito por trás dele para expressar sua identidade. Leigh Bowery, performer e designer que atuou durante boa parte de sua vida na cena londrina, chocava a audiência com sua estética quase sempre assustadora e expressava, de modo hiperbólico, o que era ser “queer” nos anos 80. Ser queer era, acima de tudo, bater de frente com a cis-heteronormatividade. Deste modo, o termo contemplava desde homens homossexuais, grupo de maior visibilidade dentro da comunidade LGBT+, até mulheres transexuais. O terreno escolhido vai de encontro com o que pode ser chamado de normatividade da região. O quarteirão entre a Rua Carlos Gomes e a Rua do Sodré, tal qual o seu entorno, é extremamente denso e apresenta uma malha urbana contínua, sem recuos laterais e raros recuos frontais – e, como dito antes, poucas ruas/elementos de permeabilidade visual que permitam ver através do quarteirão. Assim, a normatividade é confrontada, primeiramente, pelo terreno se configurar como um vazio urbano em meio a toda a densidade ao redor. Num segundo momento, ele transgride a norma ao percorrer de uma rua a outra e criar um elo entre elas, quando a maioria das edificações do quarteirão se relaciona ou com a Rua do Sodré ou com a Rua Carlos Gomes. O terreno se apresenta dessa maneira muito embora esteja murado nas duas ruas. É necessário derrubar o muro e tornar o terreno transgressor, torná-lo queer.


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À esquerda, em amarelo, a barreira; à direita, dois novos quarteirões gerados pelo terreno.

Imagem 05: Leigh Bowery, expoente do que é ser queer.


parte 3


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o casulo como organismo mediador No ciclo de vida de uma borboleta, o casulo representa um momento de reclusão e funciona como um organismo mediador entre as duas fases deste inseto. Quando a borboleta está pronta, este casulo eclode e liberta o animal para que ele voe, acasale, polinize e, desse modo, inicie um novo ciclo de vida. Ao término de algumas semanas ou poucos meses, o ciclo de vida da borboleta se encerra, tendo esta exercido seu papel biológico. É dentro do casulo que acontecem as transformações que alimentam a borboleta para que ela atue no meio externo. O casulo, enquanto organismo vital em ebulição onde ocorrem uma série de transformações, surge como figura inspiradora para um projeto que pretende, pela sua proposta, mais do que abrigar, promover, num segundo momento, mudanças sociais nas vidas de pessoas LGBT+ O casulo é adotado como inspiração em dois momentos distintos: o primeiro, o Casulo/evento, onde ocorreu a gênese da ideia; o segundo, o casulo/organismo (aqui com c minúsculo), visto que a vida de uma borboleta muito se comunica com proposta de acolhimento temporário e transformação social do projeto.

o conceito tornar-se casulo / sair do casulo Enquanto sujeito-motriz deste projeto, o acolhido LGBT+ protagoniza a construção da ideia por trás da arquitetura. É primordial, para a concepção do projeto, compreender sensivelmente a sua narrativa – desde o momento de sua chegada até o momento de sua partida – e como seu estado psicológico e emocional refletem na sua vivência. É fundamental possibilitar que, assim como uma borboleta, o acolhido passe por um processo de transformação ao vivenciar o projeto, partindo de um estado de vulnerabilidade social para um de múltiplas potencialidades de atuação no meio e na cidade. Há dois momentos cruciais para a formação da


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borboleta – o momento em que ela, como larva, torna-se casulo / o momento em que ela, na fase adulta, sai do casulo. Partindo disso, foi primordial garantir que o projeto expressasse esse potencial transformador na vida do acolhido e representasse, de forma clara, dois momentos de sua narrativa, o de Tornar-se casulo e o de Sair do casulo. Desse modo, o conceito expressa os dois objetivos principais do projeto: conceder abrigo e fortalecimento – tornar-se casulo - e posteriormente garantir a transformação social de pessoas LGBT+ através da socialização dentro do casulo com seus semelhantes e fora dele, no espaço público, com a cidade, além de inseri-las numa rede de trabalho. Que a arquitetura as tornem casulo e posteriormente as libertem.


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o partido

Conectar a Rua Carlos Gomes com a Rua do Sodré por meio de um espaço/passagem públicos foi primordial para o projeto. Sendo o terreno bastante estreito e comprido (70.00m por 19.00m), a primeira decisão foi dividi-lo ao meio, no sentido longitudinal, a fim de otimizar os usos. Dessa maneira, ao norte, o terreno é disposto para os maciços que abrigam usos mais cobertos do projeto, enquanto ao sul, há o espaço público em níveis, vencidos por rampas. Vencer os 6.40m de desnível médio entre a Rua do Sodré e a Rua Carlos Gomes demandou 80.00m de extensão de rampa (inclinação de 8%) - mais do que a própria dimensão do terreno. O uso de rampas ao invés de escadas/elevadores para vencer este declive num terreno com limites de extensão se deu pelo caráter urbano da rampa, sobretudo da perspectiva de pessoas com dificuldades de mobilidade – o livre ir e vir sem necessitar de assistência pessoal ou de equipamentos. Embora espaço público contíguo e estritamente ligado a um prédio, não seria possível depositar a responsabilidade da mobilidade vertical a este, visto que entre a noite e o início do dia o prédio estaria fechado, apenas para uso dos moradores. Os 80.00m de rampa foram divididos de modo que um primeiro bloco vencesse do nível 0.00m (térreo - Rua Carlos Gomes) ao -3.20m (1º subsolo), enquanto um segundo bloco vence do nível -3.20m ao -6.40m (2º subsolo – Rua do Sodré). Essa configuração permitiu o desenvolvimento de um espaço público em níveis, que acompanha a circulação vertical, enquanto é pontuado por usos que conectam a população LGBT+ ao restante da população. O primeiro volume concebido rasga o lote desde a Rua do Sodré até a Carlos Gomes e abriga usos, do térreo ao 2º subsolo, que têm relação direta – visual e de acesso – com os espaços públicos. Nos dois subsolos, espaços para uso não só dos residentes mas sobretudo da cidade; no térreo, a entrada da habitação, bem como administração e suporte médico/psicológico/social – um pavimento mais privado. O concreto foi escolhido para destacar o peso e a força desse volume que corta o terreno. Acreditando na potencialidade de os residentes criarem, num primeiro momento, relações interpessoais como forma de crescimento coletivo, o segundo volume pousa sobre o primeiro. Acima do


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volume de concreto, ele parte do nível +3.20m ao +9.60m. A partir da Carlos Gomes, ele se estende em direção à Rua do Sodré por 53.80m, de modo que a sua fachada oeste dista 16.00m desta rua. No nível do caminhar, quem desce da Carlos Gomes até o Dois de Julho vê, à direita, dois blocos escalonados, que acompanham os dois subsolos. Para contrastar com o concreto – e destacar estes dois momentos do projeto e da narrativa do acolhido – o bloco habitacional possui uma pintura áspera em tom terroso como materialidade.


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parte 4 / o projeto O projeto nasceu enquanto espaço de acolhimento para pessoas LGBT+ em situação de vulnerabilidade física e/ou psicológica, sobretudo no ambiente familiar. Um programa habitacional e de suporte médico/psicológico/social era o necessário para abrigar esta população. No entanto, a fim de expandir o projeto e aproveitar a potencialidade transformadora natural da proposta, ele foi pensado em diferentes camadas de atuação não só na individualidade do acolhido – a qual poderia ser abordada puramente pela habitação – mas também na sua atuação dentro da cidade. À habitação, foram agregados usos capazes de reinserir o LGBT+ na vida em sociedade de forma digna. Mais importante que acolher e abrigar é oferecer o suporte necessário para a inserção destas pessoas em uma rede de atuação na cidade, sobretudo ao se tratar de uma habitação de permanência temporária. É importante garantir que, ao término de sua estada, o antes acolhido seja capaz de sair daquele polo com excelência, tanto no que se refere a laços afetivos quanto a trabalho, e, portanto, apto para construir uma nova vida em outra moradia.

o existir no centro como uma trajetória O projeto foi pensado de modo que, ao longe de uma estada de 4 meses, o acolhido caminhe a passos lentos, mas cada vez mais firmes. Entendo a situação de fragilidade com a qual os residentes chegam, é necessário inseri-los num caminho que, de maneira sensível, compreenda suas fraquezas para então alimentá-lo e muni-lo para que sigam em frente. É preciso saber ver a delicadeza físico e mental com a qual o LGBT+ sai de casa por intolerância familiar. Existem, portanto, diferentes camadas que respeitam essa trajetória: a primeira delas, a habitação em si; a segunda, o espaço público; por fim, a terceira, o bairro do 2 de Julho. Embora o pensamento seja de linearidade, é sabido que a vivência na cidade perpassa diferentes esferas e que o cotidiano não acontece de forma linear, mas sim tortuosa, lançando braços a diferentes lugares.


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habitar

É o momento de tornar-se casulo. É fundamental que o acolhido encontre o abrigo no qual se sentirá protegido. Neste ponto, ele encontrará a segurança que lhe faltava dentro de casa e, embora o casulo seja um organismo de existência solitária, também entrará em contato com seus semelhantes – pessoas cujas vivências de abuso tangem umas às outras. A habitação é pensada para garantir, acima de tudo, um espaço de troca e reconstrução/construção coletiva. Abrigar estas pessoas LGBT+, que carregam históricos cruéis, alguns degraus acima de onde lhes jogaram pedras ao longo da vida, escreve a poética de existir, talvez pela primeira vez, no topo. Por esta razão, a habitação é desenvolvida do nível 0.00m – com acesso direto pela Rua Carlos Gomes – até o nível +9.60m.

LEGENDA 1Praça Carlos Gomes 2 Loja 3 Subestação 4 Gerador 5 Bicicletário 6 Recepção 7 Psicologia 8 Assistência social 9 Consultório médico 10 Estar/refeitório funcionários 11Sanitários 12 Vestiário 13 Administração 14 Laje técnica 15 Lavanderia 16 Sala de tv 17 Quartos 18 Sanitários/chuveiros 19 Estar/cozinha 20 Descanso/leitura 21 Quarto P.C.R. 22 Sanitários/chuveiros


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A praça no nível térreo se torna uma pequena bolsa em meio à densidade da rua, compartilhando do piso em pedra portuguesa das calçadas


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núcleos que se expandem Para possibilitar que cada acolhido, nas suas trajetórias a passos lentos, construísse relações interpessoais, os pavimentos de habitação foram pensados como núcleos que pouco a pouco se expandem. O primeiro deles é o próprio indivíduo, que carrega sua pessoalidade e vivência, a serem partilhadas com os outros. Os quartos são o segundo núcleo. Quartos duplos acolhem os indivíduos e possibilitam que estes, de par em par, criem relações dentro de sua nova morada. O terceiro núcleo, as varandas. Vínculos entre dois quartos, elas permitem não somente a interação entre os residentes de cada quarto, mas também o olhar sobre a vida no espaço público abaixo. Como quarto núcleo, os espaços da coletividade. Embora seja objetivo fomentar a troca entre acolhidos, é igualmente importante atentar para a necessidade de privacidade. Por esta razão, em cada pavimento, as áreas coletivas se dividem em três. A maior delas, no centro, onde é possível jogar conversa fora ou cozinhar. Em cada extremidade do pavimento, espaços menores e mais reservados – à esquerda, uma sala de TV, afastada do burburinho do miolo, e à direita, uma área livre, quase um pátio interno, onde é possível se deitar para ler um livro ou vislumbrar, lá em cima, as nuvens passando através da abertura zenital. Por fim, o terraço surge como último núcleo enquanto área coletiva aberta – mas ainda de uso exclusivo dos residentes - a fim de proporcionar vistas para a Carlos Gomes, o Dois de Julho e a Baía de Todos-os-Santos. Para garantir essa construção coletiva através de núcleos, foi necessário pensar em um número par de quartos. Dessa forma, em cada pavimento, 8 quartos acolhem os moradores, sendo um deles adaptado para P.C.R..


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Mezanino e entrada para os quartos, no segundo pavimento.


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Vista a partir de uma das รกreas mais reservadas de descanso, no primeiro pavimento.


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Estar, ao fundo, e cozinha no primeiro plano, um dos nĂşcleos de convĂ­vio dos moradores.


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O último dos núcleos coletivos, o terraço apresenta áreas cobertas de convivência.


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conectar

É o momento de sair do casulo. Os dois subsolos, do nível -3.20m ao nível -6.40m, ligam a Rua Carlos Gomes à Rua do Sodré, enquanto espaços físicos da cidade, e igualmente são responsáveis por ligar as pessoas – construir as relações entre residentes, que da mesma forma que se relacionam na habitação podem ser relacionar no espaço público e construir relações entre os residentes e a cidade, na figura dos moradores da vizinhança ou daqueles que cotidianamente vivem o Centro. Por acreditar na convivência e na troca enquanto instrumentos potentes para a construção do respeito, os subsolos são pensados como espaços do coletivo numa escala urbana. São, então, pontuados com usos responsáveis por agregar diferentes pessoas com diferentes vivências. Rampas garantem a fluidez de mobilidade entre as duas ruas, bem como o acesso a espaços de uso do coletivo – e aqui, coletivo na escala urbana. Salas multiuso, ateliê e auditório são espaços que podem ser usados tanto pelos residentes quanto pelo público externo.

CORTE BB

Deste modo, é possível, por exemplo, que um dos residentes utilize semanalmente a sala multiuso para dar aulas de dança, enquanto outro usa o ateliê para dar aula de pintura para crianças. Da mesma forma, o público externo pode entrar em contato com a administração para alugar o auditório, por uma noite, para uma palestra. Pouco a pouco uma rede de relações entre pessoas LGBT+ e o restante da população vai sendo construída. Este espaço, que primordialmente surgiu para acolher indivíduos em situação de vulnerabilidade, se torna um espaço de uso do coletivo em escala urbana, fomentando relações entre grupos sociais diferentes e valorizando aptidões e habilidades dos moradores enquanto atores deste espaço.

LEGENDA 1Estudos / biblioteca 2 Estar descoberto 3 Sala 1 / auditório 4 Depósito 5 Controle som/luz 6 Bilheteria / informações 7 Estar coberto 8 Café / bar 9 Cozinha 10 Sala multiuso

CORTE CC 11 Ateliê 12 Praça Rua do Sodré 13 Exposições temporárias 14 Estar coberto 15 Refeitório / restaurante 16 Sala 2 / auditório 17 Cozinha 18 Reservatório inferior 19 Estocagem de lixo


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19 -9.60 3ยบ SUBSOLO


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Foyer da biblioteca/sala de estudos, com um vazio que permite ver as exposições do 2º subsolo.v


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Área pública de convívio, no primeiro subsolo, ao lado das rampas que conectam a Rua do Sodré à Rua Carlos Gomes.


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Praça no nível da Rua do Sodré, espaço de convívio público onde pessoas LGBT+ e o restante da população podem trocar experiências, se conectar e construir, juntos, o respeito.


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expansão para além do terreno É necessário que, ao sair da casa de acolhimento, o outrora acolhido possua estrutura suficiente pra construir sua vida num outro local. Por esta razão, no projeto, ainda dentro do terreno, espaços destinados à profissionalização dessas pessoas. O auditório, por exemplo, por possuir divisórias móveis, pode ser utilizado também como sala de aula; da mesma maneira, o layout flexível tanto do atelier quanto da sala multiuso permite esses usos voltados para o aprendizado. No entanto, uma vez passado o período de estar dentro do casulo, é hora dos residentes transpassarem os limites do terreno e atuarem no espaço circundante. Para isso, levanta-se a possibilidade da utilização de terrenos, imóveis ou ruínas sem uso/subutilizados para abrigar usos responsáveis por inserir estas pessoas numa rede de trabalho. É importante frisar que, por acreditar na potência do compartilhamento das vivências dentro de uma mesma morada, a habitação é desenvolvida somente no terreno escolhido. Entende-se, por outro lado, a necessidade de fazer as pessoas se relacionarem com o outro e com a cidade – o que acontece no espaço público que conecta a Rua Carlos Gomes à Rua do Sodré. Da mesma forma que esta espaço conecta as duas ruas, enquanto ponto de convergência de fluxos e interesses, ele conecta, também, as pessoas.


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Terrenos sem uso/subutilizados Ruínas sem uso/subutilizadas Edifícios sem uso/subutilizados

Informações cedidas pelo grupo de pesquisa Lugar Comum.


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considerações finais

A LGBTfobia é um problema real que atinge milhares de pessoas não somente nas ruas mas dentro de casa. É inimaginável a devastação pela qual pessoas que sofrem violência pela própria família passam - quando esta deveria ser seu porto seguro. A escolha do tema parte do desejo de me aproximar desse debate enquanto alguem privilegiado, que vive num lar seguro, mas que procura, sempre que possível, exercer sua empatia não somente sobre essa questao - com a qual tenho mais proximidade por ser gay - mas também com outras. Projetar um espaço dedicado a este grupo social é importante, sobretudo, pois levanta um debate acerca de um tema desvalorizado e invisibilizado pela sociedade como um todo. Neste momento, a arquitetura pode mais do que se erguer enquanto construção, ela pode clarear temas de extrema importância e que carecem de atenção.


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entrevistas

Entrevista 1 / Adriana Sampaio Rafael No Casulo, você relatou o caso de um menino que morava em Sussuarana, cuja mãe queria agredi-lo - se não mef alha a memória, usando ácido - após descobrir que ele era gay. Acho que vocês do grupo foram responsáveis por ir até a casa dele dialogar com a mãe. É grande o número de jovens em situação de violência física/ psicológica que buscam apoio do coletivo? Adriana São muitos. O número assusta porque aquilo que vemos publicado, nas redes, na mídia, é subnotificado. Ou seja, não reflete a realidade. São muitas as violências e as psicológicas são sempre as mais frequentes. Muitos pais sequer se dão conta que suas atitudes, ações, são, de fato, violentas. R Em média, semanalmente (ou mensalmente), quantos jovens entram em contato com o coletivo à procura de acolhimento ou outro tipo de ajuda? A Eu não tenho como mensurar isso. Existem diferentes grupos para colhimento. Como eu tenho uma história pessoal de vivência com transgeneridade, alguns casos de pessoas trans chegam para mim. Mas existem outras pessoas que, por conta de suas vivências pessoais acolhem jovens bissexuais, outros acolhem lésbicas, e assim vai. Mas posso adiantar que, de minha parte, não há um único mês que não me chegue alguma história de pessoa trans precisando de suporte. R Qual tipo de ajuda estes jovens buscam ao entrar em contato com o coletivo? A A maioria chega com grande sofrimento emocional. Mas uma parte considerável precisa de acolhimento físico. Muitas famílias, num primeiro momento, são bastante agressivas com a pessoa lgbt a ponto de fazer com que o convívio diário fique impossível. Algumas famílias ,infelizmente a minoria, com o tempo, acolhem, em diferentes níveis, seus filhos. Mas um percentual, que eu poderia estimar em 1/3, não demonstrra desejo de permanecer convivendo juntos. R Na carta de dissolução do Mães pela diversidade, vocês falam sobre uma parceria com

o Projeto Axé, com o objetivo de pensar numa casa de acolhimento temporário para LGBT . O projeto tem avançado? Existem aspectos de uma casa de acolhimento que você julga como mais importantes? A Não há avanços, principalmente porque não há ajuda política seja por parte da prefeitura, seja por parte do governo do Estado. Não temos recursos, sequer somos uma ONG. Precisaríamos de um espaço para gerir e, a princípio, uma administração do tipo público-privada seria a mais indicada. O mais importante seria a casa se situar num lugar seguro, de fácil locomoção e com espaços específicos como uma mini biblioteca, área de lazer, espaço terapêutico. A ideia seria um lugar de passagem, onde esses jovens se sentissem acolhidos e cuidados mas também reintroduzidos nos estudos e no mercado de trabalho. R Na mesma carta, vocês relatam uma possível parceria com a Secretaria Estadual de Educação para concretizar o projeto Mães nas Escolas. Houve avanço neste projeto? A Eu não vejo avanço real acontecendo enquanto projetos como “Escola sem partido” e bancadas evangélicas ditarem as políticas de ensino. Mas pessoalmente eu não lido com essa parceria. Temos uma pedagoga, a Lenade, que saberia te dizer mais sobre isso e posso te passar o contato dela, caso você sinta necessidade. R Sei que vocês atuam dentro do ambiente escolar para além do Mães nas Escolas. Quais temáticas vocês abordam com os alunos e quais tipos de atividades são realizadas? A Atualmente o nome do coletivo é “Famílias pela diversidade”. Em janeiro nós criamos essa dissidência do “Mães” em função de divergências administrativas. Quando vamos à escolas, primeiro verificamos com a coordenação aquilo que pode ser discutido em relação à idade escolar e atividades já trabalhadas em sala de aula. Mas de modo geral a ideia é levar relatos e fazer uma espécie de roda de conversa para discutir maneiras de aceitação, cuidado com o uso da língua como maneira de oprimir, desmistificar conceitos e dar noções de direitos.


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R O ambulatório transexualizador, que vocês citam na carta de dissolução, já foi aberto? Em caso de resposta negativa, como anda o processo? A Não foi aberto apesar do governo do Estado ter anunciado a abertura no Diário Oficial no final de 20 16, ter o espaço pronto (no Hospital das Clínicas), pessoal treinado e verba destinada. O processo, segundo a SESAB (Secretaria de Saúde da Bahia) está em trâmite, mas na verdade, encontra-se parado por questões burocráticas que, com vontade política, poderiam ser resolvidos em uma semana. R Este ambulatório será no Hospital Universitário da UFBA? A Sim, funcionará nas dependências do Hospital das Clínicas e contará com uma médica endocrinologista - como diretora. R Vocês atuam na escala do bairro, através do programa Braços que se Abraçam. Quais tipos de atividade fazem parte deste programa? Como acontece a aproximação com os moradores dos bairros? A Braços que se abraçam é uma ação de acolhimento para famílias de lgbts. A outra ação é a “Roda de conversa” onde, em diferentes bairros, promovemos uma conversa sobre temática lgbt que varia de acolhimento, aceitação às leis e história do movimento lgbt pelo mundo. Geralmente uma integrante sugere um espaço num bairro que mora ou que conhece alguém que gostaria de promover esse evento. Havendo convite, vamos. R Além de participar de eventos pelo Brasil, o Famílias pela Diversidade é responsável por organizar eventos em Salvador, como a capacitação de mães, em 20 16, sobre questões relacionados a sexualidade e saúde LGBT . Onde acontecem esses eventos maiores? A Em espaços cedidos porque não temos sede. Já utilizamos a residência universitária da UFBA, localizada no Corredor da Vitória, auditório do Ministério Público (com quem mantemos uma forte parceria) e até mesmo a casa de uma integrante. R Vocês sentem falta de um espaço no qual seria possível realizar atividades promovidas pelo coletivo?

A Muito. Ter uma sede ou casa de acolhimento com sala destinada para esse fim ainda é uma das nossas metas. A falta de apoio político nos prejudica muito. Sentimos muito porque estamos fazendo uma tarefa que seria do Estado, mas ele falha em muito nesse aspecto e entramos para minimizar essa falha. no entanto, ainda assim não contamos com nenhum tipo de suporte. Quando raramente somos recebidas, há muita promessa sem previsões e pouco comprometimento real com a pauta LGBT.


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Entrevista 2 / Malayka SN e Ah Teodoro Rafael Você faz parte da comunidade LGBT+ e exercia no Dois de Julho, com a Casa Antuak, atividades que afetavam, de algum modo, a região, e que são um reflexo do que é essa cultura LGBT+ no Centro. Acredito que todos que moravam com você faziam parte dessa comunidade. Malayka No caso da Antuak não todos, mas aqui na Casa Monxtra sim. Há sempre o sentido de intersecção, mesmo num espaço que não era composto só por pessoas LGBT+, mas existia uma forma de se conviver alí que respeitava algumas diretrizes dessa comunidade a nível de sobrevivência e bem-estar psicológico e físico. R Quando você foi morar na Casa Antuak? Quando aconteceu isso? M Eu dividia um apartamento com algumas bichas, Diego, Euvira, e quando terminou lá, em junho de 2015, Euvira tinha viajado pra São Paulo e então a gente teve que procurar uma casa pra morar. Nesse processo, eu já tinha uma relação com os meninos da Antuak porque eu trabalhava lá nas festas. R Então já havia gente morando lá. M A Casa já funcionava, eu não cheguei lá no início do projeto. Até então, nenhuma das pessoas do grupo era LGBT+, eram pessoas que estavam alí num contexto completamente diferente do meu, por exemplo. Por questão de sobrevivência você acaba observando algumas coisas e adaptando a estrutura da casa enquanto espaço, mas nada muito vertical ou incisivo. Esses últimos dois anos, a nível de identidade e de eu me colocar na sociedade de alguma maneira, foram muito importantes pra essa trajetória. Lá na Antuak eu me percebo como gay, preto, pobre, e um bocado de outras coisas por conta do choque da convivência. Foi o primeiro espaço em que eu tive uma relação de vivência inserido num contexto onde várias outras pessoas têm seus quartos. E a gente desenvolvia atividades culturais e artísticas. As experiências que eu tenho são muito ligadas à arte. Qualquer coisa que eu conseguia desenvolver lá na Antuak voltada para esse público LGBT+ só ocorria por essa perspectiva

artística e cultural. Não era um projeto voltado para desenvolvimento social, era voltado justamente para ter a liberdade de expressão. Isso foi massa pois a sensibilidade da região começou a ficar outra. R Você fala da vizinhança? M Moradores, comerciantes... Eu tenho muito amigo bicha, logicamente, sapatão também, então quando a gente voltava do Âncora e ia pra padaria de manhã a gente ia de bonde, um bocado de bicha no meio da rua. Todo mundo olhava aquilo, achava as vezes estranho, as vezes não, mas nunca sofri nenhum tipo de violência verbal ou física morando no Dois de Julho. Eu percebia que havia uma curiosidade e interesse daquela comunidade em se aproximar. Acho que o Âncora é também importante como ocupação. Embora não tenha esse caráter de moradia, mas nós sabemos que ele serve de um suporte para muitas travestis, por exemplo, que moram alí na Carlos Gomes e a quem eu já vi, muitas vezes, Fernando (proprietário do Âncora do Marujo) dar um prato de comida. Para essa região do Centro é muito importante pensar que já existem alguns pontos e como é que esses pontos conseguem se articular para um projeto como esse, que englobaria uma rede. E eu acho que a maior das experiências que a Antuak trouxe foi a possibilidade de no lugar que você mora, você também trabalhar, e além disso você também estar construindo uma micropolítica, eu diria. R Você falou que você sentiu, a partir do momento em que passou a morar e atuar na Antuak, uma mudança na mentalidade das pessoas. Você acha que o bairro já se apresentava mais receptivo a esse tipo de vivência? M Eu acho que o Centro é sempre o boom na cidade. É o lugar onde você tem determinada liberdade porque todo mundo alí está numa condição de correria, as vezes nem estão prestando atenção em você. Mas eu morava no Dois de Julho, a relação que eu tinha não era pautada nessas superficialidades, então eu transitava alí, já tive medo de sair de casa. Porém eu percebo que há uma mudança no momento em que você perde o medo, quando você vê que as


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pessoas não mais te olham com uma cara de “ai, o que é isso?!” e eu não sei se muda a mentalidade, mas a nível de direito de ir e vir, com certeza, existiu uma mudança. Claro, antes da minha presença já existiam pessoas LGBT+ circulando alí e alguns projetos, como a Casa Preta, que interseccionam algumas questões e que nos dão alguma liberdade. A nível de corpo na rua, e falando de um recorte que apareceu com a minha chegada na Antuak, que é um recorte de dissidência social que se coloca como contracultura, isso deixa de ser só circular e passa pro nível de intervenções urbanas que começam a aparecer em torno do local. A rua que a gente morava, a partir do momento que passei a morar lá, foi completamente pichada, houve trabalho de lambe-lambe, bem como projetos para o Largo do Coreto. Não tem como dizer que a mentalidade das pessoas não vai ser alterada, com certeza vai, mas não sei se a nível fatídico. R Existe uma dinâmica no Centro e no Dois de Julho que se refere à questão do anonimato. No Centro você se torna uma pessoa anônima não no sentido de não te perceberem, mas no sentido de que, da mesma forma que você é percebido, outras centenas de pessoas também são percebidas e isso te torna anônimo. Talvez por isso o Centro é um lugar tão receptivo para pessoas LGBT+, não só para elas, mas também, por exemplo, para imigrantes coreanos ou chineses, que também ocupam muito esse Centro. Acredito que isso torna o Centro um local mais receptivo para a gente enquanto LGBT+. M Talvez a palavra não seja nem anonimato, mas uma neutralidade da identidade a ponto de ela não precisar interferir no que você consome ou com quem você se relaciona. O Centro deve ser estabelecido como ideal se a gente tiver essa perspectiva de que nesse espaço, para onde a cidade inteira vem trabalhar, comer, se vender, vender alguma coisa, comprar alguma coisa, eu conseguir me relacionar com você. Isso é bem comercial, essa neutralidade, esse anonimato. Ele não está, em nenhum momento, se relacionando com o respeito à diversidade, mas sim com a necessidade de ter a diversidade para que eu consiga também consumir. Você é incrível a partir do momento em que estou te vendo como consumidor.

[...] M Essa casa de acolhimento, como pensar esse caráter de moradia rotacional, atrelado ao fato de ter espaços públicos, de forma q esses residentes consigam sair dali estruturados pra uma vida que fora desse lugar é mais complicada. Não sei se foi de seu interesse pensar numa ideia de profissionalização e inserção no mercado de trabalho para que essas pessoas sejam um escoamento de produção. Que esse espaço não exista apenas porque você é gay ou sofreu algum tipo de pressão dentro de casa, mas sim que haja esse rodizio enquanto um ponto de apoio. É diferente, por exemplo, de um centro de observação LGBT+, que está muito mais interessado no que se está debatendo. Acho que ele deve funcionar como um apêndice dentro de uma rede. Isso perpassa a ideia de como é que eu vou estabelecer algumas conexões. Como pensar essa tríade em que eu chego, tenho contato com a comunidade, entendo que local é esse que eu estou na cidade, pois a gente sabe que a bicha as vezes saiu de Cajazeiras, por exemplo, que é uma outra realidade. Entender essa outra vivência vai tomar um tempo. Depois disso, quais as possibilidades que essa zona me proporciona? O Centro tem um escoamento de cultura muito maior que em qualquer outro lugar, assim como de comércio. Então há esses dois eixos: artístico/cultural e econômico. As formas de se inserir nesse espaço, as mais possíveis ou fáceis, são essas. Não são as únicas. Dependendo dessa escolha, do que a pessoa quer fazer, ela seria encaminhada pra um desses outros eixos. Por exemplo, há uma rede, na cidade, de casas, apartamentos ou quartos, alugados por um determinado valor, e você pode procurar trabalho em lugares que são parceiros dessa rede. Ela já sai dessa casa de acolhimento com um lugar encaminhado. R Eu lembro que no início do ano vocês fizeram uma performance, a Bastet. Como foi o processo de criação? Pensando também na importância do morar coletivo para a construção dessa performance. M Diego Alcântara, Mamba (Negra), é quem dirige Bastet. Eu participei enquanto performer, eu vou falar desse lugar. Quando a gente veio para cá, a gente achou que o espaço era maior. A gente


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viu uma foto, no fervo, e queria sair. Quando a gente chegou a gente falou “bem, não vai ser como a gente pensava”. Então percebemos que iamos precisar usar nossos próprios quartos como espaço expositivo, e foi bem massa. Isso tem a ver com uma experiência de moradia não convencional que é você entender que: eu sou artista, sou uma pessoa pública, tenho minha intimidade, mas compreendendo que trabalho com performance então meu quarto vira um lugar de exposição e isso aqui vira obra. Foi um processo que tem a ver com autobriografia. São arquétipos que as nossas personalidades assumem e a gente só performa a nós mesmos, uma hipérbole de nossas personalidades. Esse processo fez com quem a gente pensasse a casa sob uma nova ótica. A gente abriu os quartos, o fundo, a casa era completamente aberta e você poderia circular em qualquer espaço que você quisesse e ter a experiência performática que cada um estava propondo. Todas essas atividades pensando nesse lugar que é quarto, exposição, vida, arte, diluindo as fronteiras. R Na casa Antuak você participou de algum processo parecido? Eu lembro que aconteciam festas lá. M A Antuak era uma grande catárse, uma grande tragédia, aquilo ali era tudo misturado, uma peça de humor. A gente morava no lugar da festa, então quando terminava você olhava pro lado e todo aquele lixo, cerveja, vômito, camisinha. R O espaço onde aconteciam as festas, durante o dia, era sala? M Era sala, exatamente. A gente acordava e o sofá estava vomitado, o taco quebrado. Não tinha muito a ver com a Casa Monxtra. A gente brinca dizendo que quer reviver o processo da Antuak, não como algo pejorativo, mas é que o que acontecia na Antuak tinha um caráter completamente diferente daqui. A gente estava num casarão mega luxuoso, no centro da cidade, de frente pra Baía de Todos-os-santos, os quartos enormes, uma vida massa. Determinado momento isso deixou de ser o privilégio para virar um laboratório. Mas nos primeiros meses lá era muito esse lugar de “gente, eu realmente moro aqui? To maravilhosa nesse quintal”. Você começa a se questionar esse

direito e fala “porra, velho. A gente tá numa casa grande do caralho dessa, né? Com uma vista foda. Por que mais pessoas não têm essa mesma oportunidade?”. Se você pensar em Pirajá, de onde eu vim, eu não pagava caro num aluguel na Antuak, somentei 100 reais a mais do que seria um aluguel em Pirajá, em um quarto num casarão no Centro, usufruindo de uma vista maravilhosa. Isso quebra totalmente essa lógica de inacessibilidade que se cria para pessoas periféricas saírem de suas zonas e irem para o centro. Você diz “oxente, dá sim, gente! Junta aí três pessoas, aluga uma casa e você vai tá maravilhosa”. Sai também dessa vida precária que a gente não quer ter na favela, mas que existe. A gente não tem vergonha nenhuma de falar que quer sair. A favela é maravilhosa? É! Mas a forma de viver lá é completamente diferente. Você não usufrui da cidade, vai ficar preso naquele bairro. O que a Antuak me trouxe, que na Casa Monxtra eu acho que não tem, foi reconhecer o que é esse privilegiamento de estar no Centro, numa condição de desigualdade até com seus semelhantes. Lá a divisão dos alugueis era completamente diferente. Você pagava um valor atrelado à ideia de que seu quarto era mais amplo ou menos amplo. Aqui foi proposto, desde o princípio, que a gente ia dividir o aluguel por igual porque a gente estava entendendo a casa como esse ponto de resistência onde a gente queria estar, independente das condições, e todo mundo aceitou isso. R E você, veio pra cá quando? Ah Teodoro Eu vim pra cá tem um mês e um pouquinho mais. R O que te motivou? AT As possibilidades que o Centro traz. Tanto de locomoção, que eu morava em Cajazeiras, totalmente distante, tem uma BR que nos separa do Centro. Eu trabalhando no Âncora e tendo festas pra fazer, estar aqui é muito mais prático e proveitoso. Também para a questão de produção, quando a gente se junta para produzir é muito mais prático do que estar cada um num polo na cidade. R Vocês já se consideram um coletivo? M Eu acho. Até na forma de se organizar. A gente não dialoga muito com a questão burocrática. Nós


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entendemos que fazemos parte de um coletivo que já existe dentro das nossas subjetividades e essa mesma subjetividade que nos une faz com que a gente consiga trabalhar juntos. É um coletivo nesse lugar de resistência e existência. Mas nos últimos tempos a gente se entende enquanto um coletivo de artistas independentes, cada um, com seus trabalhos e trajetórias, mas por partilharmos de uma mesma estética conseguimos trabalhar juntos de forma plena e maravilhosa ao ponto de potencializarmos uns os trabalhos dos outros. Nessa lugar, tranquilamente, somos um coletivo babado. R Vocês entendem a Casa Monxtra como uma residência artística? M É uma residência artística, é um quilombo, é um coletivo, é um organismo, é muita coisa. Mas sim, eu enxergo ela como residência artística. Inclusive a gente estabelece relação no sentido nacional, não é algo que tem ação só em Salvador. A gente consegue estabelecer parcerias e tocar projetos também, não de forma tão prática de fazer um trabalho com as manas, mas nesse sentido de rotação, de viajantes, tem várias bichas que caem na estrada, plena, e não têm um lugar pra ficar quando chegam. Por termos essa rede articulada a gente diz “ah não, pode ficar alguns dias aqui em casa”. Na Antuak havia gente do Uruguai, Itália, Paraguai. Tem uma amiga minha, Júlia, que já morava lá quando eu cheguei. Ela é italiana e estava formando em Arquitetura, fazendo intercâmbio aqui na UFBA. Ela estava estudando o Dois de Julho e ela só conseguia ter propriedade para falar o que estava falando pela convivência na Antuak. Ela, na sua condição de privilegiada, recebendo quatro vezes mais aqui, falava que trabalhava num escritório com pessoas que saiam do prédio com medo de andar na calçada – “quando eu falo que eu atravesso a Carlos Gomes, Avenida Sete, venho e volto a pé de casa, morando no Dois de Julho, sendo italiana e branca, elas ficam passadas, achando que eu vou sofrer violência”. Há todo esse imaginário para lutar contra, que graças a esses projetos de convivência coletiva, que a gente as vezes proporciona, fazem com que algumas ideias mudem. Eu acho que você pode pensar nesse projeto, que você falou ser de uma escala de bairro, como uma coisa ampla, é debate internacional, é estilo de vida.

R Sim, o morar pode se tornar um ensinamento do que é residir no centro, do que é o nosso direito de ir e vir, da segurança e todos esses mitos em torno do Centro. É de fato algo que levei em conta ao escolher o Centro como lugar. M E é maravilho, aquele terreno que você escolheu. Eu falei “gente, já vi fervo”. R Inicialmente eu não pensei em nenhum espaço que dê estrutura para comportar atividades como as que acontecem no Âncora, como um bar ou espaço pra show. Eu entendo que isso pode acontecer no espaço público. Talvez seja mais interessante pensar nesse espaço de produção mais privado e escoar essa produção para o espaço aberto, para a cidade. M Mas ai eu penso: esse prédio seria institucional? R Eu pensei que esse projeto poderia ser inserir dentro de uma política pública. Considerando, por exemplo, os Centros de Atenção Psicossocial e as Unidades de Acolhimento Adulto, inseridos dentro da Rede de Atenção Psicossocial, do Ministério da Saúde. A partir do momento em que iniciei a pesquisa, comecei a encarar essa LGBTfobia não só como um problema pessoal, embora haja individualidade dentro da violência sofrida em casa, mas também como um problema de saúde pública. Nesse sentido, inseri meu projeto dentro desse plano institucional. Algo a ser pensado, para não cair na ilusão de achar que o projeto poderia funcionar enquanto programa do governo. Instituições existentes, como o CAPS, mal funcionam, imagine algo voltado para a população LGBT+. M Que bom que não vai ser institucional, porque senão seria realmente um elefante branco. R Eu tenho repensado para ver se vale a pena que seja um projeto institucional. M Quando você começou a falar eu imaginei prédio e salas enquanto eu acho que pode haver uma outra forma de se pensar. Entender, a nível de projeto, esse lugar como um organismo, um ninho. Um lugar em que você está regurgitando, não tem nada sólido A única coisa sólida que tem é: precisamos escoar e reverter esses quadros e estatísticas.


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documentários PRO QUE DER E VIER. Direção Gilberto Rios. Produção Ricardo Silva e Caio Cerqueira. Salvador, 2017. LAMPIÃO DA ESQUINA. Direção: Lívia Perez. Produção Executiva: Giovanni Francischelli. São Paulo: Doctela, 2016.

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(1) e (2) disponível em: <https://pt-br.facebook. com/casulouneb/> (3) e (4) retiradas do documentário Lampião da Esquina (5) disponível em < https://carolgearing.com/tag/ leigh-bowery/>


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Tornar-se Casulo / Sair do Casulo  

Trabalho final de graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFBA. Autor: Rafael Pereira.

Tornar-se Casulo / Sair do Casulo  

Trabalho final de graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFBA. Autor: Rafael Pereira.

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