Page 1

Distribuição online e gratuita. Conexão rápida com a internet já é outra história...

O QUE ESTE, T E SÓ PL M SE CO TI IS V A E Expediente M .............P. 4

N

OT

Fator Gênese, cap. 3........P. 6

A ÍCI

S

UM

edição 0, de quarta, 26 de março de 2012

SE S

VE ÍC U LO

Ano 1

Sinais do Apocalipse, cap. 1........P. 18

Você vai Morrer ..................P. 30


2

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Ou: A opinião aqui contida reflete a do jornal, mas não necessariamente a de quem trabalha nele...

AL IROTIDE

A pergunta, porém, é: que ensino é esse que é oferecido a essas cri- anças? Não acho nem que a medida seja errada, mas tenho sérias dúvidas sobre a infraestrutura que muitas escolas tem. Porque ernviar um “cumpra-se” é fácil, difícil é não prender crianças nessa idade em uma sala de aula, sem que possam fazer barulho para “não atrapalhar as outras turmas”, prendendo-as em carteiras e sem nada além de pátios vazios onde se brincar. Uma pena que este editorial é um espaço curto, porque as consequências de se forçar crianças, seja de qual idade forem, nessas condições, e enfraquecendo a autonomia dos professores como é feito, podem ser desastras e muitas.

EDITORIAL

Recentemente visitei minha querida pré-escola. Não dá para dizer que tudo estava como eu me lembro porque tudo muda, e porque não me lembro de tantas coisas assim de quando tinha dois, três anos. Mas muito estava parecido, o que foi uma maravilhosa volta ao passado. A minha pré-escola aceitava, obviamente, crianças até os seis anos. Hoje, com o ensino fundamental indo até a nona série e as crianças dessa idade já estarem sendo matriculadas, o pré passou a ter somente crianças até os cinco. De certo modo, para muitos Estados e municípios, a medida deve ter sido, se não excelente, ao menos aceitável. Assim as famílias podem incluir suas crianças no ensino fundamental um ano antes.

Rafael P. Moreno - Chefinal


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

3

ria Ar Nome do(a) ilustrador(a) Nome da imagem

Breve descrição ou comentário (se quiser, se não quiser também não tem problema)

Nome da imagem


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

4 Gustavo Perandré

E se tudo o que você imaginasse se tornasse real em um mundo que você mesmo criou? O escritor seria, assim, como um deus para suas criações, e elas permaneceriam existindo enquanto alguém se lembrasse delas. Em que você está pensando agora?” Geek assumido, Gustavo Perandré é um escritor apaixonado pela literatura fantástica e cultura japa. Encarando dragões e robôs gigantes em suas travessias por terras ermas, está sempre em busca de inspiração e um pouco de magia para suas histórias.

(Par ou impar?)

2 1

?

3

Rodolfo Andrade http://rodolfo-escritor.blogspot.com.br/ Ainda nenhum texto para colocar aqui, até onde eu saiba...

?

?

Wagner Mendes ?????@?????.com Precisamos de mais zumbis para nossa munição, Kei! E um texto para cá, claro...


?

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

(Detesto par ou impar. Tem que jogar jogo de macho, tipo Pokemão!)

5

Ilustrador, alguém? ??????@?????.com

5 4

Créditos Foto 1: Nome Sobrenome Foto 2: Nome Sobrenome Foto 3: Nome Sobrenome Foto 4: Nome Sobrenome Foto 5: Nome Sobrenome

Vaga para ilustrador!

?

Rafael Peccioli Moreno contosdeulthima.com Agora o blog da minha série tem domínio próprio! Só falta viabilizar economicamente para justificar o investimento... Isso é o que veremos em breve - a sina de todo escritor brasileiro. Mas que pastar para lançar e corrigir o livro, criar você mesmo a capa e tal rende boas histórias! Algum dia eu ainda vou rir disso... Mas não hoje.


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

6

CAPÍTULO III - ESSÊNCIA Escrito por: GUSTAVO PERANDRÉ

-

Para o Universo, a vida humana não passa de um breve instante, talvez menos do que o tempo de um único segundo seria para nós - disse Nero, de forma audível, enquanto o grupo de pessoas observava-o atentamente. O cientista virou-se para o quadro negro atrás de si e com um giz branco começou a riscar a lousa. Quando terminou, o público viu que desenhara cinco símbolos distintos, dispostos em forma de cruz, quatro deles nas pontas e um maior no centro. - Desde os primórdios da humanidade, tentamos explicar o mundo usando nossas próprias experiências - retomou o palestrante, sua voz demonstrava segurança e ele parecia conduzir uma aula. Há cerca de quinze mil anos, antes que o homem sequer

Ilustração por: NOME SOBRENOME

fosse capaz de construir suas primeiras armas com pedras lascadas, ele descobriu o fogo. Para ele, aquilo era algo sobrenatural, inexplicável. Ou talvez


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

devêssemos dizer “divino”? - ele apontou a figura na parte inferior da cruz, onde se podia ler “fogo”, em letras maiúsculas. - Dessa forma, o homem acostumou-se a deifi-

Fator Gênese

vamos. Os mais dignos de nota são, claramente, aqueles que representam os elementos naturais, de onde os místicos acreditam terem surgido todas as coisas - no quadro negro, era possível notar que cada ponta da cruz trazia um símbolo, representando o fogo, a terra, a água e o ar. Quando um terremoto fazia tremer o solo, uma chuva torrencial revivia campos inférteis ou um relâmpago rasgava o céu, o homem tinha certeza de que aquilo era obra dos deuses. Ainda que ninguém lhe instruísse, se uma criança fosse abandonada em uma ilha deserta, ela certamente deduziria a existência de um ser mais poderoso que rege sua vida e faz o mundo “funcionar”. O impulso por acreditar em uma forma de car tudo o que não compreen- deidade é uma importante dia ou era importante para característica humana, ainda suas tarefas diárias, e logo que inconsciente, pois foi ela tínhamos deuses destinados a que nos tornou o que somos cada fenômeno que observá- hoje.

7


Fator Gênese

8

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Nero fez uma pausa estratégica de alguns segundos, deixando que o público assimilasse as informações. A maestria com que conduzia seu discurso era admirável. - Existe algo que está intrincado em nossa mente, um conhecimento primitivo que nos acompanha desde o nascimento. A essência que recebemos de Helyna, quando a Deusa concebeu a humanidade, nos garantiu três características importantes, entre elas o conhecimento inconsciente do divino e o livre arbítrio. Este último nos permite seguir o caminho que acharmos mais interessante, aprender com nossos erros, criar o conceito de bem e mal e desenvolvermos nosso próprio modo de controlar as forças do mundo. O poder da escolha nos deu a chance de estudarmos os fenômenos naturais por outro ângulo. Agora tínhamos certeza da existência dos deuses, mas não era uma crença cega, pois havíamos chegado até a fonte, e isso também despertou em nós o anseio por usar essas forças ao nosso favor. Enquanto o cientista falava, vários espectadores faziam anotações frenéticas em seus blocos de papel, como alunos aplicados. - O terceiro elemento da natureza humana, e talvez o mais gritante, é desenvolvido através da compreensão de seus dois antecessores. Diferente dos animais, os homens são criaturas capazes de racionalizar sobre o mundo à sua volta. Se pudéssemos imaginar um homem e um rato, ambos com a tarefa de chegarem até suas respectivas casas, e perguntássemos ao roedor se ele conhece o caminho que precisa percorrer, ele responderia negativamente. Porém, sem que saiba isso, o pequeno animal conhece a direção que deve tomar com perfeição, seja guiando-se pelo cheiro ou forma do que observa pelo caminho. In-


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Fator Gênese

conscientemente, quando chegasse a hora de aplicar essa habilidade, um gatilho em seu cérebro despertaria o conhecimento e o conduziria até sua toca. Isso é o que chamamos de instinto. - Nero fez uma nova pausa, e fitou uma garota sentada na última fileira de bancos, detendo seu olhar por alguns instantes antes de voltar à palestra. - Já o homem teria o poder de nos responder sim ou não, pois ele tem a chance de procurar em suas memórias e recorda-se o caminho de casa. Além disso, ele pode nos apontar que não há apenas um meio correto, mas vários e mesmo que ele nunca tenha seguido por outro alternativo, usando sua imaginação ele seria capaz de nos descrever o percurso ao menos de forma aproximada. Sendo assim, chegamos à conclusão que a diferença primordial entre um homem e um rato está no fato de o primeiro conseguir racionalizar. Nós não apenas detemos um conhecimento, mas sabemos que o possuímos. Essa forma privilegiada de ver o mundo é algo que conhecemos como consciência, o que nos diferencia do restante das criações divinas. Compreendendo os fenômenos que regem o mundo, aprendemos a manipular a magia e, por fim, desenvolvemos a tecnologia, uma ciência usada como base para darmos origem às nossas próprias criações - disse o cientista, com evidente satisfação e orgulho, apontando o símbolo no centro da cruz, onde se lia “essência”. - Este é o dom que permite ao homem libertar-se da condição de simples criatura e ascender ao estado de criador. O Fator Gênese. Houve novo burburinho entre o público que assistia a apresentação quando o sino da catedral foi tocado, anunciando o fim da tarde. Levantando-se de seus bancos, diversos homens foram cumprimentar o cientista, elogi-

9


Fator Gênese

10

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

ando suas palavras. Todos eles trajavam ternos bem cortados, alguns usavam chapéus ou cartolas, e aparentavam serem pessoas cultas da alta sociedade. Quando todos já haviam se retirado do recinto, entre comentários acalorados sobre a palestra, Nero notou a aproximação da jovem que permanecera na última fileira. Possuidora de uma beleza estonteante, a garota usava os cabelos castanhos amarrados por uma trança única, que descia pelas costas, e o corpo atlético sugeria ser, talvez, uma esportista. - Vejo que minhas palestras não são assistidas apenas pelos cientistas idosos. Acho que é a primeira vez que uma dama me dá essa honra - brincou, recolhendo seu material de apresentação. - Parece que a cada minuto nesse lugar aprendo algo novo - comentou Blair, deixando escapar um sorriso.

- Você não é de Arsin, é? - Não, sou só uma viajante curiosa - mentiu. - Interessante, mas a curiosidade por si só não tem o poder de trazer alguém até aqui - devolveu o cientista, observando a reação de Blair, num misto de diversão e desafio. - Uma garota nunca conta seus segredos - respondeu piscando um dos olhos, simulando confidência. Nero rio e disse estar curioso sobre o que ela achara de sua apresentação. Porém, antes que Blair respondesse, Liar irrompeu pela porta da catedral, aparentando estar aliviado ao ver a guerreira. - Então você estava aqui! - disse com dificuldade, arfando e tentando recuperar o fôlego. Ao ver o cientista, o jovem dobrou um dos joelhos e curvou o corpo, em sinal de respeito. - Peço permissão para levála, senhor.


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Fator Gênese

- Fique à vontade - respondeu Nero e despediu-se da garota. - Foi um prazer tê-la em minha apresentação, espero receber essa graça novamente um dia - Blair apenas sorriu e saiu da catedral, acompanhada de Liar. Como ela havia notado ao chegar a Arsin, ali o tempo decorria de forma diferente, talvez mais lentamente, se comparado ao seu mundo de origem. Quando visitara o

11

amigo na taverna, a noite já havia se estabelecido, o que só viria a acontecer dentro de algumas horas na Grande Capital. - Você faz idéia de com quem estava conversando, tão amigavelmente, lá atrás? – Liar perguntou, em tom irônico. - Não, mas era um homem encantador, diferente de alguns donos de tavernas que encontramos por ai – respondeu a garota, provocando-o.


Fator Gênese

12

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

- Aquele é Arias Nero – explicou, ignorando o comentário -, talvez seja o homem mais culto de Arsin. O povo possui muito apreço por ele, dizem que tem um dom insuperável para a oratória. Blair assentiu, concordando, e contou a Liar sobre o que ouvira a respeito do Fator Gênese. - Nero é um gênio – comentou, ao ouvir a amiga, - sua compreensão do Universo está muito além das pessoas comuns, mesmo para aquelas que vivem em Arsin. Liar e Blair caminharam pela cidade até chegarem a uma hospedaria. Quando adentraram o local, puderam sentir um cheiro inconfundível de temperos e carne assada, sugerindo que o jantar estava pronto. Liar ofereceu ao dono da estalagem algumas moedas de prata e logo ele e a garota estavam sentados em uma mesa próxima à fogueira, aguardando a refeição noturna. - Como foi a reunião com o Conselho? - Nada de mais, só queriam ter certeza de que eu havia lhe trazido comigo em segurança. Disseram que aplicarão um teste em você amanhã, pela manhã, para constatar sua aptidão. Aquele procedimento, Blair sabia, era compreensível. Não raro, o contratante decidia constatar as habilidades de seus mercenários, variando a forma como fazia isso de acordo com o trabalho que oferecia. - Você ainda não me disse para o que, especificamente, essa tal Ordem precisa de mim. - Adiantaria se eu dissesse apenas que o pagamento é irrecusável? – arriscou Liar, tentando mudar de assunto, mas notou, pela expressão séria no rosto da guerreira, que seria difícil faze-la desistir da resposta. – O Conselho me ordenou que não revelasse nada antes de sua aprovação,


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

camente o seu nome me veio à mente. Eles confiaram em meu julgamento, pois já trabalhamos juntos, e decidiram conhecer suas habilidades. - De quanto dinheiro estamos falando? - Eles prometerão lhe pagar 50 mil peças de ouro, caso cumpra a missão. Mesmo que trabalhe como mercenária por toda a vida, dificilmente arrecadaria essa quantia. Blair ponderou. O valor oferecido era absurdamente alto para uma tarefa de investigação, sugerindo que, ou o Conselho estaria desesperado por ajuda, ou haviam mentido sobre a quantia. Quando o contratante revelasse a ela um valor mais baixo, esperaria seu pronunciamento, e assim saberia se Liar havia contado ou não algo sobre a missão. Após a refeição, os dois se dirigiram ao andar superior da hospedaria, onde ficavam os quartos. Blair notou que as paredes do lugar eram feitas de

Fator Gênese

como uma medida de segurança, pois não podemos deixar que pessoas de fora obtenham informações sigilosas. Então, peço que você mantenha segredo – ele se aproximou e continuou em um tom mais baixo. - Lembra-se do caso envolvendo os cientistas que pesquisavam a cura do câncer, que comentei com você mais cedo? – a garota assentiu. – Como havia lhe dito, a Ordem de Camael é responsável por fazer vista grossa a eventos semelhantes que ocorrem em mundos diferentes, como nesse caso. Os pesquisadores agiram da mesma forma suspeita em mais dois mundos, além de nossa terra natal, e um desses mundos é justamente Arsin, o que certamente lhes rendeu uma boa quantia em dinheiro. Seria ótimo se esse fosse o único problema. - O motivo de preocupação é o que eles fizeram com tanto dinheiro... - Exato, e é ai que você entra. Quando disseram que precisavam de alguém experiente em infiltrações, automati-

13


Fator Gênese

14

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

madeira, o cheiro doce do material era agravável e possuía um efeito tranquilizador, uma óbvia estratégia do proprietário para agradar a clientela, que em sua grande maioria era composta por viajantes cansados, vindos de outros mundos. Ao chegarem no quarto, Liar apresentou o lugar à garota e disse que haviam algumas roupas em um armário ao lado do beliche, explicando que, como era um usuário frequente dos serviços da estalagem, decidira alugar aquele quarto de forma fixa havia um tempo. Para todos os efeitos, aquele espaço funcionava como sua casa. Blair pousou na cama de baixo do beliche o saco de viagem que trazia consigo e entrou no banheiro. Despiu-se das vestes sujas pela areia do deserto que atravessara e deixou que as gotas quentes de água aliviassem o cansaço de seu corpo. De olhos fechados, permaneceu parada embaixo do chuveiro por um longo tempo, refletindo sobre o dia louco que tivera até ali. Estava feliz


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

15

por rever Liar, depois de tantos anos, e ansiosa pelo teste que viria no dia seguinte. Nesse momento, as palavras do palestrante pareciam fazer ainda mais sentido. O poder para escolhermos nosso próprio caminho. Após o banho, Blair deixou que Liar fizesse o mesmo e foi deitar-se. Precisava descansar, pois a viagem até Arsin fora realmente longa e cansativa. Assim, com o cheiro suave das paredes, a guerreira relaxou o corpo e se deixou levar por um sono profundo.

Fator Gênese

- Onde estou? – perguntou a si mesma, observando o ambiente à sua volta. Estava montada no enorme lobo cinzento e um vento forte bagunçava seus cabelos castanhos. Enquanto tentava compreender sua situação, a garota percebeu algo inesperado. Do alto da colina onde estava ela tinha visão privilegiada para uma enorme batalha que acontecia na campina mais abaixo. Enquanto diversas criaturas, que Blair não soube identificar, travavam um combate fantástico, a jovem focou sua atenção em uma enorme máquina de guerra que se movia pesadamente. A criatura de metal parecia ter vida própria, foi construída usando um modelo humanóide, corpulento, e disparava projéteis explosivos pelo campo de batalha, levantando colunas de fogo sobre a terra. No céu, uma bela mulher empunhava uma alabarda de haste dourada, envergando uma armadura imponente de mesma natureza. A figura guerreira possuía enormes asas brancas, o que lhe concediam um vôo ligeiro e movimentação impressionante. Blair. Em um giro rápido, a celestial desceu em direção à criatura mecânica. A enorme lâmina de sua arma


Fator Gênese

16

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

tornou-se gradualmente vermelha, como se fervesse pelo atrito com o ar, tamanha era a velocidade que atingia. Como se previsse o impacto, o robô de guerra levantou os dois pesados braços de aço em direção à sua agressora e disparou uma rajada de explosivos em sua direção. Com maestria, a lanceira interrompeu a descida e fechou as duas asas ao redor do corpo, mantendo-se no ar apenas pela própria aura mística que emanava. Os projéteis atingiram o alvo, gerando uma cortina de fumaça tóxica, que foi repelida com facilidade quando a guerreira alada reabriu as asas com violência. Blair. Empunhando a alabarda, ela avançou com tamanha velocidade que Blair sequer pode acompanhar o percurso. Quando se deu conta, a celestial estava de costas, atrás do gigante de metal, enquanto os dois membros superiores da criatura tombavam no chão, criando uma depressão no solo pelo impacto. Antes que a máquina de guerra pudesse revidar, seu algoz girou a arma sobre a cabeça e, em um giro preciso, partiu o monstro de mais de dez metros de altura em duas partes, com um golpe de cima para baixo. Vitoriosa, a combatente bateu as asas e tomou impulso para alçar vôo novamente. Porém, antes que seus pés saíssem do chão, uma enorme mão robótica, de um segundo oponente, agarrou sua cabeça. Instintivamente, a celestial soltou a alabarda e começou a se debater, desesperada, na tentativa de escapar do perigo iminente. Mas era inútil. Com um aperto potente, o monstro de aço desfragmentou o crânio de sua presa e alvejou-lhe o tronco com balas especiais, que estilhaçaram a couraça dourada com facilidade. Surpresa pela batalha titânica, Blair não percebeu


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Fator Gênese

a presença de um homem que também observava a peleja da colina, a uma dezena de metros de distância dali. Apenas quando o lobo cinzento rosnou na direção da figura misteriosa, a garota virou a cabeça para ver quem era. Blair! Quando se deu conta, ela percebeu que estava de volta ao quarto da estalagem. Não conseguira identificar quem era outro observador. - Você dorme como uma pedra! – disse Liar, vestindo seu traje habitual da Ordem. – Aconselho você a se aprontar, faltam menos de duas horas para o teste. Ainda desnorteada pela visão, Blair cumprimentou o amigo com um desejo de bom dia e levantou-se da cama. Caminhou até o banheiro, abriu o registro da pia e lavou o rosto com água gelada, despertando por completo. Ela se deteve por um instante, observando seu reflexo no espelho. Amarrou os cabelos em uma trança única, como sempre fazia, trocou as roupas por algumas peças que trazia no saco de viagem e decidiu que estava pronta para partir. Como ainda não havia compreendido o sonho por completo e não querendo perder a concentração para o teste, Blair decidiu não contar nada ao amigo. Faria isso apenas quando fosse aprovada pela Ordem. Antes de partirem, eles desceram as escadas até o andar térreo e tomaram o desjejum. Quando o sino da catedral tocou seis vezes, anunciando o horário matutino, os dois deixaram a hospedaria rumo ao edifício que abrigava o Conselho.

17


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

18

CAPÍTULO I - UM ZUMBI E UM CHEESEBURGER Escrito por: WAGNER MENDES

D

Ilustração por: ???

epois que o relógio passava das duas da manhã – o horário do último ônibus que saia da cidade – não tinha muita coisa para se ver ou ouvir na rodoviária. Um segurança fazia a ronda e passava na frente dos estabelecimentos, olhando sem nenhum interesse para o lado de dentro e procurando um ladrão que nunca veria. Algum passageiro perdido, sem lugar para ficar até que o próximo ônibus viesse, sentava e ficava em silêncio no banco próximo ao portão de embarque, esperando. O mais freqüente era um mendigo deitado na porta da lanchonete. Fedido, Cabeludo, Cicatriz... cada um tinha um apelido carinhosamente dado pelo rapaz que trabalhava ali. E ali, dentro da lanchonete, Oscar – o rapaz dos apelidos – terminava o turno da noite. Sempre pegava o turno da noite, porque era o melhor horário de trabalhar. Ficava com as piores tarefas, mas podia fazer tudo isso em paz. Era ótimo ficar sozinho ali, sem que ninguém incomodasse. Estava com os fones de ouvido enfiados nas orelhas e Black Sabbath tocando enquanto passava um esfregão velho (e um pouco sujo) no chão. Já tinha separado todo o lixo, lavado o fogão e a chapa e arrumado todos os utensílios nos devidos lugares. A menina do turno da manhã colocaria tudo para


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Sinais do Apocalipse

funcionar de novo. Estava basicamente terminando o que tinha de fazer para fechar tudo e ir embora, e a melhor parte de pegar o turno da noite era que não tinha nenhuma pressa para fazer isso. Um cheeseburger estava pronto perto do forno e ele esperava até que um dos mendigos viesse para fazer uma boquinha. Ninguém notava um hambúrguer a menos pela manhã ou duas fatias de queijo. Além do mais, eles eram gente boa. Nunca tentaram realmente dormir na porta da lanchonete, era só um jeito de chamar atenção e, quem sabe, ganhar alguma comida. Afinal, por que algum deles dormiria ali quando quatro fileiras de bancos macios estavam disponíveis no coração da rodoviária? Ele apoiou o esfregão com a parte macia (e suja) para cima, incapaz de não sorrir ao lembrar da semelhança entre aquele objeto e algumas pessoas que via na rua as vezes. Fechou a porta do armário de limpeza e olhou ao redor, satisfeito. A lanchonete estava tão limpa quanto uma lanchonete suja de rodoviária podia. Algumas manchas eram permanentes no balcão e nas mesas, mas eram ossos do ofício. Ninguém que vinha ali em primeiro lugar deixaria de comer por causa disso. Foi até o armário dos funcionários, abrindo a porta que lhe pertencia e largando ali dentro o boné amassado onde os dizeres “O PASSARINHO” estavam desbotados. Era um nome ridículo para uma lanchonete, mas o que se podia fazer? Pegou o colar que usava e o colocou no pescoço – um crucifixo pequeno, ganhado na época em que fez

19


Sinais do Apocalipse

20

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

catequese e crisma. Era bonito, por isso ele continuava a usar. Desligou o mp3 player e largou o aparelho dentro do armário também. Para o rapaz, ouvir música era uma atividade extremamente ligada ao ato de trabalhar. Talvez isso tivesse algum tipo de relação com as últimas demissões dele. Era ótimo trabalhar em um lugar onde o chefe nunca estava lá para dizer. Fechou o armário e, por fim, foi até o cabideiro, onde buscou a jaqueta que usava. Era marrom e surrada, mas extremamente fiel. Um verdadeiro uniforme de trabalho que acompanhava a regata branca e as calças jeans, quase todos os dias. Só tinha que usar o avental azul do estabelecimento quando tinha de ir para a chapa, mas no turno da noite aquilo era raro. O “cara da chapa”, como ele o chamava, saía as 23h, e daí em diante pouca gente comia hamburgueres no local. Ao sair da minúscula sala dos funcionários o rapaz foi até o caixa e, no escuro, contou as notas antes de colocá-las no engenhoso esconderijo: um pequeno pedaço solto de madeira na prateleira mais baixa do balcão, onde as notas dobradas cabiam


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Sinais do Apocalipse

exatamente. Ele cobriu o pedaço solto com uma pilha de guardanapos e levantou, pegando algum deles no caminho. Enrolou o cheeseburger e pegou as chaves. Olhando pela janela ele conseguiu ver o mendigo da noite – o Cabeludo – vagando ao longe. Talvez viesse até ali, e se não fosse o caso, Oscar iria até ele sem problemas. Uma a uma ele fechou e trancou as janelas, até que chegasse na porta. Saiu, verificando que o Cabeludo ainda tinha uns bons 50 passos até chegar nele, e trancou a porta sem maiores problemas. Baixou a grade e trancou e guardou a chave no bolso interno da jaqueta. Tudo exatamente como fazia nos últimos cento e oitenta dias, pelo menos. Com o cheeseburger na mão, encaminhou um passo lento e casual na direção do Cabeludo, sem realmente parecer interessado nele. A rodoviária parecia o fim do mundo naquele horário. O vento corria entre os corredores de pedra e tudo parecia mais frio ali. Os cabelos e as roupas balançavam com facilidade, e no auge do inverno você com certeza passaria maus boca-

21


Sinais do Apocalipse

22

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

dos ali se não estivesse bem abrigado. Cabeludo não tinha problemas com isso: a espessa e suja quantidade de cabelo que lhe caia diante dos olhos, ombros e costas certamente era um escudo poderoso contra o frio. Some isso a pelo menos meia dúzia de camisetas empilhadas sobre o corpo e um poncho jogado em cima de tudo isso e o inverno vai parecer uma piada. O único motivo pelo qual o Cabeludo não se chamava Fedido é porque o Fedido nunca trocou de meias ou de sapatos. E nunca tomou banho. De verdade. Levantando a cabeça debilmente e jogando os cabelos para os lados (ou fingindo fazê-lo, já que a crosta de sujeira era tão grossa que impedia qualquer movimento natural dos cabelos) o mendigo deu um sorriso amarelo e desdentado na direção de Oscar. Acenou, satisfeito, enquanto os olhos instintivamente foram para o lance na mão do rapaz. - Ozzy, que que cê tem aí? – Cabeludo, a bons dez passos de distância. - Pão, carne e queijo. Tá bom pra você? - Ahhh, tá ótimo... – Sorriu, mostrando a ausência de dentição amarelada mais uma vez – mas, ah... sei não... Leva pro Tom, o cara tá parecendo acabado hoje... Claro, você parece diariamente inteiro, Cabeludo. - O que ele tem? - Fome, eu acho. – Deu de ombros, um movimento quase imperceptível por baixo dos tufos rígidos de cabelo. – Tá deitado lá nos bancos. Dá pra


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

23

Sinais do Apocalipse

ele, vai... antes que eu mude de ideia. - Cê comeu hoje? - O Leozinho lá de baixo dexô pra mim uma marmita. – Sorriu mais uma vez, dando um tapa amigável na barriga enquanto dava os últimos passos na direção de Oscar. - Boa, hein. – Retribuiu o sorriso. Por mais que odor forte fizesse as narinas doerem quando chegava perto, Oscar sentia uma simpatia legítima por aqueles mendigos. Eles não tinham nada e se contentavam com pouco. De certa forma, eram como o próprio Oscar. Sem nada, contente com muito pouco. Era um estilo de vida humilde, e ele respeitava isso. – Eu vou levar isso pra ele, então. Tem certeza que não quer mudar de ideia? – Parou na frente do mendigo, fitando-o pela última vez naquela noite. - Leva lá, leva lá... – disse, com apreensão e tristeza. Abrir mão de comida era uma coisa séria para aquelas pessoas. – Ele tá mal mesmo. - Fechado. Escuta... – Hesitou, parando o passo na metade do caminho – o Tom é quem? É o Fedido ou o Perneta? O mendigo deixou escapar um riso sonoro, divertido e velho. Cabeludo devia ter tranquilos cinquenta anos de idade, pelo menos. Tinha a pele morena do sol e da sujeira, mas não era negro. Até onde se sabia, vagava naquela


Sinais do Apocalipse

24

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

rodoviária há muito tempo, e se você parasse para conversar ele podia contar boas histórias. - É o Fedido, Ozzy, é o Fedido. Leva lá pra ele, vai... tô quase mudando de ideia. – E riu mais uma vez, dando as costas para o rapaz e acenando simultaneamente. - Falou aí, da próxima eu preparo um com presunto pra você. – E seguiu o caminho, desviando em uma bifurcação, ciente de que por lá pararia no centro da rodoviária. O caminho era apenas um corredor fechado por paredes de pedra por todos os lados e no alto. Era um dos grandes corredores de vento daquela rodoviária, mas naquela noite estava tranquilo. Uma lata de lixo amassada era a única decoração daquele trecho, e dependendo da época do ano você pegava alguns moleques fumando maconha ali. Infestava um bom pedaço da rodoviária, por causa do vento. Ninguém ali naquele dia, e adiante o rapaz podia enxergar o início das fileiras de bancos. O coração da rodoviária era um lugar sensivelmente mais bonito e agradável que o resto todo. Era um único lugar onde o chão não era de pedra, mas sim de azulejos brancos. Três faxineiros revezavam em turnos, pagos pelas bilheterias das companhias de ônibus para manter o local brilhante e aparentemente civilizado. Os bancos eram suficientemente macios e um painel informatizado ficava no alto, perfeitamente visível para o pessoal sentado nas cadeiras. Lá, partidas e chegadas eram anunciadas para as próximas doze horas e os desocupados podiam acompanhar as notícias no quarto livre de tela.


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Sinais do Apocalipse

Ao redor de todo o local as bilheterias de diferentes companhias rodoviárias mantinham os seus guichês. Quase todos eles fechados naquele horário, um ou dois abertos com funcionários desinteressados jogando paciência diante de monitores velhos. Em uma das cadeiras mais distantes do painel um homem de terno preto aguardava. Tinha uma valise da mesma cor sobre o colo e os olhos fechados. Aparentemente dormia um sono leve, e por isso Oscar optou por não gritar “FEDIDO” para chamar o mendigo companheiro. Era um rapaz educado, apesar de tudo. Ainda com o cheeseburger na mão, começou a se aproximar da primeira fileira, onde uma massa de roupas empilhadas e cabelo raspado estava deitada com um dos pés sobre os bancos, ocupando pelo menos quatro assentos. Era fácil que um desavisado confundisse aquilo com algo e não uma pessoa, mas o cheiro denunciava que o que quer que fosse, estava podre. Naquele dia, mais podre que o normal, Oscar pensou. Estava há dez metros de distância e já sentia o cheiro de mofo, ranço e sujeira infestando o ar. Aproximou-se em silêncio, vendo o mendigo virar o rosto de um lado pro outro, cheirando o ar. Eu queria saber como você faz pra sentir qualquer cheiro fedendo assim, cara. - Qualé, Fedido? Topa um lanche? – Aproximouse, levantando o cheeseburger como se fosse um prêmio. A resposta de Fedido foi um pouco incompreensível até mesmo para Oscar, que se considerava um ótimo intérprete. Ouvir mendigos e drogados em geral falando fazia com que uma pessoa começasse a ter facilidade com a compreensão de diversos dialetos e gírias. O que Fedido ‘falou’ não foi sequer

25


26

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Sinais do Apocalipse

uma palavra, ele tinha certeza. Ele viu a boca do mendigo se abrir, debaixo de uma camada espessa de barba e bigode e alguns tufos perdidos de cabelo, mas a resposta em si foi um gemido estranho. Uma mistura de arroto e gemido, quem sabe. Foi tão estranha que fez o homem de terno preto levantar a cabeça e olhar ao redor, atordoado e realmente incapaz de determinar a origem do som. Os atendentes dos guichês estavam ocupados demais com paciência e freecellpara notar isso. - Você só ganha lanche se falar direito comigo, Fedido. – Riu, divertido, enquanto dava a volta no banco e sentava próximo aos pés do mendigo (onde ele não tinha certeza se o cheiro seria melhor ou pior). O mendigo fez um esforço sobrehumano para sentar-se no banco. Forçou o tronco para cima, incapaz de sentar-se daquela forma e depois levantou as pernas, em um movimento débil e sem sentido. Mexeu os braços devagar, buscando algum tipo de apoio e, sem encontrá-lo, optou pela única solução que pareceu razoável no momento: rolou até o chão. Fedido caiu com um baque surdo no chão da rodoviária. Não parecia sequer que ele tinha usado as mãos para se apoiar. No meio do baque Oscar teve certeza que um dos sons era de algo quebrando. Um dente, talvez, e aquilo o


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

27

Sinais do Apocalipse

deixou extremamente aflito. O rapaz levantou e aproximou-se, segurando o braço do mendigo e ajudando-o. - Aí, Fedido, que foi isso, cara? Você tá chapado, é? O fedor nem é tão forte assim, cara! A resposta que Oscar esperava era um levantar vagaroso ou um riso abafado, mas nada disso aconteceu. Fedido permaneceu parado por alguns instantes, e quando o silêncio imperava na rodoviária e vários olhares eram direcionados para o atendente e o mendigo,

Fedido reagiu. Ele levou uma das mãos, com surpreendente força e velocidade, para o antebraço de Oscar. Agarrou-o com vigor e as unhas cumpridas e sujas pressionaram contra a pele do rapaz, que com um movimento instintivo de auto-defesa, puxou o braço violentamente, recuando e caindo sentado no chão. Pensou honestamente em protestar ou falar alguma coisa, mas estava abismado demais com isso para realmente produzir palavras. Três atendentes levantaram das cadeiras para olhar com atenção para o que estava acontecendo. O senhor de uniforme verde – o responsável pela limpeza no turno da madrugada – pareceu acordar. Desencostou o queixo do alto


Sinais do Apocalipse

28

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

do esfregão que tinha nas mãos e olhou para a cena também. Oscar tinha os olhos grudados no mendigo e as palavras fugiram ainda mais da sua mente quando Fedido ergueu o rosto, pendendo a língua para fora da boca e exibindo, involuntariamente, o crânio perfurado logo acima do olho esquerdo, onde uma ferida em vermelho vivo parecia pulsar. O arroto initeligível foi emitido mais uma vez, mas não como antes. Daquela vez foi realmente um grito que encheu todo o saguão da rodoviária. Oscar recuou instintivamente, arrastandose pelo chão com a ajuda dos pés e das mãos. Inspirou profundamente e engasgou no meio do caminho, olhando com pavor para o mendigo no chão. Fedido levantou devagar, apoiando as mãos e depois os joelhos. Voltou o rostou para a frente e cheirou o ar mais uma vez, buscando alguma coisa interessante. O homem de terno levantou também, instintivamente assustado, mas completamente inconsciente do que Oscar acabara de ver. Um dos atendentes levantou da cadeira, indo até o telefone interno da rodoviária e o faxineiro da noite apressouse na direção dos dois, tentando ver o que era. Misturando pelo menos uma dúzia de diferentes pensamentos, Oscar, trêmulo, começou a levantar. Cambaleou uma vez para trás e quase caiu no chão, mas foi capaz de se colocar de pé. Velho... que porra é essa? Foi o primeiro pensamento que ocorreu ao rapaz quando viu, pela segunda vez, o buraco acima do olho esquerdo de Fedido. Ele tinha


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Sinais do Apocalipse

absoluta certeza de que aquilo com certeza devia matar uma pessoa. Cara, por que você tá andando ainda? Tem um buraco de bala na tua cabeça! Um buraco de verdade, cara! E os pensamentos atropelavam uns aos outros enquanto, vagarosamente, Oscar recuava passo a passo, em direção da saída. O cheeseburger foi completamente esquecido sobre o banco da rodoviária, deixado de lado tanto por ele quanto por Fedido, que estava ocupado virando o corpo na direção do faxi-neiro que se aproximava, inconsciente de que eram os seus últimos passos de vida. - Foge, cara, foge... – As palavras de Oscar saíram muito, muito baixas. Ninguém foi capaz de ouví-las. Apenas uma das atendentes pareceu vagamente ciente de que o rapaz tinha dito alguma coisa que devia ser ouvida. – Foge, cara! – Repetiu, mas tudo que se ouviu dizer foi um grito fino, uma sombra do que devia ser. Ele observou em câmera lenta enquanto o faxineiro estendia uma das mãos para ajudar Fedido e o mendigo se voltava para ele. Oscar registrou dois instantes nos olhos do faxineiro: o primeiro, quando concluiu que havia um buraco de bala na cabeça do mendigo, e o segundo, quando sentiu medo daquilo. Foi ali que acabou, tanto para Oscar, que deu as costas e saiu correndo, quanto para o faxineiro. A memória que ficaria gravada na mente do funcionário da lanchonete era do olhar do faxineiro. Ao dar as costas e correr ele privou a sua mente de gravar a imagem seguinte. Da boca de Fedido avançando no braço amigo do faxineiro e cravando os dentes nele.

29


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

30

Conto Escrito por: RODOLFO ANDRADE

Ilustração por: ???

Meu nome é John. John Snick. Sou psiquiatra e também de alguns casos estranhos que atendo em minha clínica. Normalmente guardo meus textos só para mim; sei lá, não tenho vontade de mostrar para o público o que acontece com meus pacientes. Faz parte da minha ética profissional. Mas sinto que preciso expor os fatos, pelo menos dessa vez. Acontecimentos sem explicação desencadearam um final trágico. Usarei nome fictício para preservar a identidade da família. Mary Nill era minha cliente desde os nove anos de idade, quando um trauma (um acidente em sua casa) trouxe a ela a necessidade de passar regularmente no psiquiatra. Nesse “acidente”, ocorreu que ela ficou presa no banheiro quando seus pais não estavam em casa – isso foi o dia inteiro. Quando eles a encontraram, ela estava em estado de choque, tremendo... Exames clínicos comprovaram que ela ficou abalada psicologicamente. Na época, o estrago feito pelo acontecimento foi um pouco grave, mas como o passar dos anos, tudo foi voltando ao normal e, mais ou me-


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Você vai Morrer

nos um ano depois, tudo havia voltado ao normal. Contudo, seus pais decidiram continuá-la levanto até mim. Ela era uma boa garota e nos dávamos muito bem. Normalmente uma consulta dura meia hora; no caso dela, passávamos mais de hora conversando. Era muito legal! Sua última visita ao meu consultório aconteceu a mais ou menos um mês. Ela estava estranha; meio assustada. Depois da época do “acidente”, eu nunca mais a tinha visto naquele estado... -Dr. John... Por favor me ajuda! -O que acontece, minha querida Mary? -Parece meio maluco...mas eu tive um sonho onde recebi um “aviso”. De morte... Sonhos sempre eram causos que deixavam os pacientes encucados. Ela começou: -Na verdade não foi um sonho, foi um pesadelo! É o seguinte: eu estava lá no trampo. Sonhei que estava dormindo lá no refeitório no meu horário. De repente, no sonho, eu acordo, olho no relógio e vejo que preciso passar a digital no marcador de ponto em um minuto... Mas o marcador não estava no lugar dele, mas do meu lado. Aí vem o mais impressionante... De repente ele se sentiu mal, fugiu a voz e ela ficou branca. Depois de alguns minutos ela ficou bem novamente. -Tem certeza que quer continuar? Perguntei. -Sim, doutor. Preciso continuar.

31


Você vai Morrer

32

GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Fiz-lhe então o sinal. -Aí eu passava a digital e no extrato que sai da máquina (onde ficam os dados e a hora) aparecia uma frase. Uma única frase da qual não vou me esquecer. -E que frase é essa? -“Você vai morrer” -Uau! E quando foi esse sonho? -Ontem. Gelei. Eu não sou assim, não acredito em sonhos. Mas esse me impressionou e até eu fiquei com medo. Tentei não demonstrar meu estado de espírito depois daquilo e tranqüilizeiª Expliquei toda a teoria dos sonhos, de modo que ao sair, ela parecia bem mais calma. Aquela tinha sido a última vez que via Mary Nill em vida. Cinco dias depois estava no meu horário de almoço, assistindo ao jornal que passava na TV. Nos últimos cinco dias, eu havia pensado muito


GERAÇÃOGEEK.COM.BR

Você vai Morrer

em Mary. Como será que ela estava se sentindo? Eu acabava de obter minha resposta. De repente um rosto familiar aparece na TV. Era Mary. E ela havia...morrido! Não, não, não! Como pode? Como assim? Segundo o jornal, um acidente de trabalho na empresa resultou em sua morte: um toldo luminário que estava sendo montado despencou bem na hora em que ela passava em baixo dele. Morreu esmagada. Eu fiquei muito mal com a notícia e fiquei sem saber o que fazer. Não voltei mais ao trabalho aquele dia; não conseguia tirar aquele sonho da cabeça. O fato é que ela morreu, e isso não tem mais volta. Restam apenas perguntas: há uma explicação para a aparição daquela frase na sua vida justamente seis dias antes de sua morte? Teria aquilo sido uma premonição de seu triste fim? Ou, simplesmente, ironia do destino?

33


LINK PARA A PÁGINA NO FB LINK PARA TWITTER (Na falta de anunciantes...)

Geração Geek edição 0 - 3  

Geração Geek edição 0 - 3