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PUBLISHERS

André Cheron e Fernando Paiva REDAÇÃO

DEPARTAMENTO FINANCEIRO

Andrea Barbulescu financeiro@customeditora.com.br ADMINISTRATIÇÃO

Rita Selke ritasel ke@revistamam.com.br Assistentes Alessandro Ceron alessandroce@revistamam.com.br lugor Vaz iugorvaz@revistamam.com.br Tiragem desta edição: 20.000 exemplares Pré-impressão Retrato Falado CTP, impressão e acabamento IBEP Gráfica Custom Editora Ltda. Av. Nove de Julho, 5.593, conjunto 92 - Jardim Paulista São Paulo (SP) - CEP 01407-200 Tel. (11) 3078-9702 ATENDIMENTO AO LEITOR

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Diretor Fernando Paiva fernandopaiva@revistamam.com.br Editora executiva Marina Lima marinal ima@revistamam.com.br Editor contribuinte Daniel Japiassu danieljapiassu@revistamam.com.br Estagiária Maira Giosa mairagiosa@revistamam.com.br PUBLICIDADE E COMERCIAL

Diretor Comercial André Cheron andrecheron@revistamam.com.br Publicidade Adriana Assumpção assumpcao@revistamam.com.br Executivos de Conta Raquel Eichenberger raquel@revistamam.com.br Wallace di Giorge wallacedigiorge@revistamam.com.br ARTE

Diretores Rafael Medeiros e Suzana Till Editora MAM Rio mamrio@revistamam.com.br Projeto gráfico Rafael Medeiros e Suzana Till Orientador João de Souza Leite


anĂşncio

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CARTA DO EDITOR

O projeto “Revista MAM” consiste em uma revista editada pelo MAM, que tem como temática central os acontecimentos artísticos e culturais que ocorrem nao só no Museu, mas em todo o Rio de Janeiro, explorando as reportagens à partir deste acontecimentos. O objetivo da revista é revitalizar e destacar um museu de grande potêncial cultural e turístico, criado nas bases do MoMa e do Masp e considerado uma jóia do tão criticado modernismo carioca, mas que perdeu parte da importância que teve desde sua inauguração, em 1948. O público alvo da revista consiste primordialmente naqueles que têm grande interesse em arte. Assim o MAM poderia tornar-se o responsável por reportar e analisar o maior número de questões pertinentes à esse tema na cidade, e tentando abranger também outras cidades do país. Pretende-se também dedicar uma sessão ao intercâmbio com outros museus de peso do globo, como os citados acima. A revista, portanto, teria como meta tornar-se uma referência de cultura artística contemporânea do Rio de Janeiro tendo o MAM como centro dessa cultura. O sistema de reportagens da revista constitui-se da seguinte maneira: a partir de uma agenda principal que contemplaria basicamente temáticas como exposições, shows, e outros eventos, surgiriam reportagens baseadas nestes temas centrais. Uma boa leitura, esperamos que gostem e apoiem essa idéia.

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conversa de artista Grassmann

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ARTE EM PAUTA Bauhaus

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mam vitrine

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MAM ONLINE Argan

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fotografia Mario Cravo Neto

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capa Especial MAM

índice amigos do mam

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turismo e arte Barcelona

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internacional Tim Burton entrevista Carlos Vergara exposição SuperUber AGENDA


conversa de artista edição: Ana Paula Figueiredo produção: Fernanda Thedim

artista plástico Marcelo Grassmann, 83 anos, é um homem de façanhas. Algumas tomadas por impulso, ou­tras, com base numa lógica impla­cável. Durante 30 anos fumou cinco maços de cigarros, sem filtro, por dia. Parou de estalo. Já septuagenário, trocou tiros com um bandido que tentava assaltar seu sítio em São Lourenço da Serra, no interior de São Paulo, onde morava. O larápio saiu às pressas. Há pouco mais de um ano, depois que seus problemas de saúde se agravaram e o obrigaram a andar com dificuldade, resolveu se separar da segunda mulher, a gravurista Maria Adélia Dias Baptista, 40 anos mais jovem. Foi uma resolução tomada com absoluta base na razão, ainda que os dois se amassem e ela relutasse muito em ceder. Grassmann assumiu a atitude e também o sofrimento. “Ora, ela é moça, tinha de viver a vida dela. Estava se transformando em minha enfermeira e em minha ambulância, eu não poderia deixar que isso aconteces­se.” As proezas do Grassmann homem se confun­dem com as do artista premiadíssimo, com obras no acervo de grandes museus: o MoMa e a Bibliothêque Nationale de France, em Paris, para citar apenas dois - e mais de 400 expo­sições. Uma dessas proezas é não ter seguido modismos. Preferiu manter-se fiel à gravura, ao desenho e a uma obra particularíssima, permeada por per­sonagens de fábula, elfos e fadas. Outro feito foi manter sua obra acima das classificações de estilo e temporalidade.

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Ser fiel a sí mesmo e à sua arte. Eis duas pequenas proezas do artista.

MARCELO GRASSMANN

homem de façanhas 11


O interesse pela estética sombria vem da infância. gostava das ilustrações da Divina Comédia.

Grassmann foi influenciado pelo gravador austríaco Alfred Kubin e pelos gravadores brasileiros Oswaldo Goeldi, este premiado na I Bienal de S.Paulo e Livio Abramo, premiado na II Bienal. Sofreu influência do expressionismo alemão mas sua personalidade forte cunhou nitidamente um estilo próprio. Recebeu no I Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro o prêmio de uma viagem à Europa com bolsa. Aperfeiçoou-se no Velho Continente de 1953 a 1955. Desde seu retorno, passou a preferir a gravura em metal e a litogravura, deixando de lado a xilogravura. Dedicou-se também ao magistério dando cursos em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Recebeu em 1959 o de Melhor Desenhista na I Bienal de Artistas Jovens de Paris (Manabu Mabe recebeu o de melhor pintor na mesma ocasiâo), o Premio de Arte Sacra na XXXI Bienal de Veneza (1958) com uma litografia dos três reis magos (Karl Schmidt-Rottluff recebeu o de pintura na mesma Bienal) e em Florença a Medalha de Ouro na III Bienal Internacional de Artes Gráficas (1972).

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Personagem de HQ “Seu trabalho não envelhece: sempre propõe no­vas leituras”, diz a também premiada gravurista Re­nina Katz, nascida no mesmo ano que Grassmann. Opinião compartilhada por Sérgio Rogermann, 56 anos, outro influente adepto da gravura: “O tema é o enigma da escuridão e à partir daí a trama de linhas que vão construindo a luz”. Juan Esteves, 50 anos, autor das belas fotos desta reportagem e do livro Presença - em que retratou 138 artistas plásticos do Brasil, não tem dúvida: “É um dos maiores gravadores da história da arte nas Américas”. Já o desenhista Luiz Gê, 56 anos, professor de Quadrinhos da Universidade Ma­ckenzie (SP), considera o artista “um mestre corajo­so e fiel a si mesmo”. Sua admiração é tanta que o levou a criar uma revista HQ ambientada na Idade Média, dando ao protagonista o nome de Marcelo. “Foi a maior homenagem que recebi”, resume o próprio Grassmann que, no entanto, já nâo tem tanta paciência para explicar, pela enésima vez, sua predileção por personagens medievais. “A Idade Média me inspira pelo contraste da libido com a imensa repressão”, diz. O interesse por uma esté­tica sombria vem de infãncia. Em São Simão, a trezentos quilômetros da cidade de São Paulo, onde nasceu, o garoto bisneto de almães, o avô, empreendedor de sucesso, inaugurou o primeiro teatro e o primeiro cinema da cidade - folheava, fascinado, as ilustrações de Gustave Doré para a Divina Comédia, de Dante Alighieri. “Em especial, aquelas do Infer­no”, brinca e dá risadas.

o universo que Grassmann criou está em todos os cantos. sua arte o acompanha

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Luta livre, viagra e arte

cionalmente dele, portanto, na realidade

Não pense, porém, que Marcello Grassmann seja misterio-

não valia absolutamente nada, nem um centa-

so ou soturno. “Eu sou um gozador!”, exalta, pleno de razão,

vo.” Conversar com os velhos amigos pelo

o homem risonho, de vocabulário desabusado e envolven-

telefone é um de seus prazeres. Ele passa ao

te contador de histórias. Ele lembra em detalhes, nostálgico,

menos duas horas papeando com os parceiros

a famí­lia circense austríaca da primeira mulher (a artista plásti-

de ofício Mário Gruber e Otávio Araújo. Visitas,

ca Sonya Grassmann, de quem enviuvou após 40 anos de vida

recebe algumas. Em especial, da ex-mulher,

em comum), que ganhava a vida com espetáculos de luta livre.

”que me mima muito”. Sua rotina inclui tomar

Ri muito, também, ao recordar o episódio em que Adhe­mar de

sol no quarto pela manhã escu­tando música

Barros, folclórico ex-governador paulista, pegou emprestado e

erudita na Rádio Cultura - prefere os autores

“se esque­ceu” de devolver um valioso vaso marajoara do acervo

do século 20, em especial Alban Berg. Também

da Pinacoteca do Estado. “Deve ter usado na entrada de casa

costuma caminhar uma hora pelo apartamento

para colocar guarda-chuvas”, debocha.

amplo, de pé-direito alto, em um prédio dos

Na adolescência, a leitura de Kafka, Edgar Allan Poe e Hermann Hesse aprofundou a atenção para o fantástico e pelos enig-

anos 50. E continua desenhando. “Ainda tenho algum entusiasmo pelo que faço.”

mas humanos. É este mesmo Grassmann brincalhão que abençoa a

Entre as vantagens de morar sozinho, des-

invenção do Viagra. “Um míni­mo comprimido azul esticou a vida

taca o fato de “não infernizar a vida dos ou-

sexual das pessoas e mudou a sociedade.” No entanto, quando

tros”. Outra, a possibilidade de alimentar ex-

o assunto é arte “minha primeira e maior paixão, muito superior

centricidades. “A maior delas é ter quatro ba-

às demais”, o homem esguio, sentado na sala de poucos móveis

nheiros”, brinca. Grassmann gosta de ler um

(de um design rigorosamente simples), pode, subitamente, tem-

imen­so compéndio de medicina. “É o maior li-

perar humor com a acidez. Ele se torna demolidor quando se re-

vro que tenho.” Comprou-o para en­tender me-

fere aos especula­dores do mundo da arte.

lhor as recorrentes consultas com os médicos.

“Meu grande amigo Goeldi, o gravador e desenhista Osvaldo Goeldi (1895-1961), zombava de um sujeito que com-

“Um deles diz que sou hipocondríaco. Mas não procuro doenças, elas é que me procuram.”

prara um qua­dro de um medalhão, o guardara no cofre de

Mais uma excentricidade: assistir à televi-

um banco e vivia consultando o valor”, conta. “Ora, se o qua-

são sem som. “A tevê está medío­cre demais,

dro não estava na parede e o dono não podia usufruir emo-

sem som, tudo se mistura - pastores, novelas, anúncios - e ganha um novo significado, não previsto. Às vezes é até bem interessante, no meu caso, a TV sem som amplia o espaço para a vasta imaginação humana.”

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ARTE EM PAUTA edição: Renato Sweller produção: Yasmin Bueno

bauhaus

inovação e arrojo

A mais revolucionária escola de arquitetura e artes aplicadas completa 90 anos.

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mais revolucionária escola de arquitetura e artes aplicadas, a Bauhaus, completa 90 anos em 2009. Fundada por Walter Gropius em 1919, em Weimar, na Alemanha, transferida posteriormente para Dessau e depois para Berlim, a "Staatliche Bauhaus" representou um sopro de evolução das idéias e das técnicas modernas. A escola transformou conceitos estéticos em propostas inovadoras no design, na pintura, nas artes gráficas, na arquitetura, na dança e no teatro, compondo um capítulo expressivo da criatividade artística do século 20. Fechada pelos nazistas em 1933, por considerarem uma expressão degenerativa, a institui-

ção permaneceu viva por ter influenciado culturalmente as artes plásticas no mundo todo. Citando os mais conhecidos, foram seus mestres o pintor suíço Johannes Itten (1888-1967), os artistas plásticos Lyonel Feininger (1871-1956), Paul Klee (1879-1940), Oskar Schlemmer (1888-1943), Wassily Kandinsky (1866-1944) e Laszlo MoholyNagy (1895-1946), os arquitetos Hannes Meyer (1889-1954) e Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969), os aprendizes e depois mestres Marcel Breuer (1902-1981) e Josef Albers (1888-1976) e o artista gráfico austríaco Herbert Bayer (1900-1985). A formação da Bauhaus possibilitou uma revitalização do design, abrangendo toda uma postura artística que influenciou várias gerações de artistas plásticos, designers e arquitetos, refletindo as suas proezas estéticas numa ampla dunensão que repercute até os dias atuais.

herbert bayer, desenho para escadaria do prédio da bauhaus, 1923

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cubos, cones e esferas, as formas mais belas de todas.

Le Corbusier,

importante

arquiteto,

urbanista, teórico e pintor francês de origem suíça, apesar de não pertencer à Bauhaus, era amigo de Mies van der Rohe e, inspirado numa declaração de Paul Cézanne, fazia uma advertência aos seus colegas de profissão: “os cubos, cones e esferas (por extensão, cilindros e pirâmides) são as três grandes formas primárias, que a luz revela com destaque, e sua imagem nos é perceptível de forma Em linhas gerais, a Bauhaus originária da Deutscher Werkbund (Associação Alemã do

limpa, palpável e clara. Por isto, são elas

Trabalho) tinha como objetivo a formação de pessoas com talento artístico na área

as formas belas, as mais belas de todas.

de design industrial, especialmente artesãos, escultores, pintores e arquitetos, com

A arquitetura egípcia, a grega ou roma-

foco no treinamento manual e no aprimoramento da técnica e da organização, visan-

na representam a arte de construir a par-

do a produção Industrial e o compromisso social de reconstruir um país destruído pela

tir de prismas, dados, cilindros e esferas,

Primeira Guerra Mundial com a democratização da produção de objetos do cotidiano.

o gótico, ao contrário, não parte de for-

A diversidade de propostas e pensamentos que se amalgamaram na instituição serviu de parâmetro no campo da pesquisa de novas formas funcionais tanto na arqui-

mas grandes e primárias. A catedral não é obra de arte plástica, é um drama”.

tetura como no design, incutindo uma carga analítica aos aprendizados com uma forte

As três formas fundamentais no de-

conotação de pesquisa e busca de inusitadas linguagens plásticas, os mestres consolida-

senvolvimento da arquitetura e do de-

ram toda uma dialética concepção filosófica da arte na harmonia perfeita de requintadas

sign surgem também nas telas de Kan-

técnicas focalizadas no avanço do futuro.

dinsky, Klee, Itten, Muche e Feininger, en-

Algumas das realizações que se tornaram símbolos da escola são a famosa poltrona

voltas numa infinidade de combinações

Wassily; de tubos de aço niquelados, de Marcel Breuer, datada de 1926, assim denomi-

cromáticas que definem rumos na busca

nada em homenagem ao amigo Wassily Kandinsky; a chaleira com coador de Marianne

do fundamental, uma visão matemáti-

Brandt (1924), uma peça antológica com forte influência da Art Déco; a luminária de

ca que assume uma poética transparen-

mesa de Wilhelm Wagenfeld e K. J. Jucker, com pé e tubo de vidro e abajur de vidro

te e inovadora. A escola, com as oficinas

fosco, um clássico de 1923/24; e inúmeros outros exemplos de modernidade. A Bauhaus

e cursos de diversas vertentes da arte e

deu um impulso gigantesco para que o design industrial se tornasse funcional.

do design, proporcionava uma formação

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Wassily Kandinsky,

ímpar, um novo olhar com concepções

A série Homenagem ao Quadrado repre-

óleo sobre tela, 1911.

plásticas arrojadas Gropius declarava:

senta a essência de sua obra. Ao utilizar a

“a forma segue a função e todo o orna-

mesma estrutura básica, o quadrado, de-

mento deve ser abolido”

senvolveu uma dimensão cromática que

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Em São Paulo, o Instituto Tomie

extrapola a realidade concreta, alcançan-

Ohtake, aproveitando o momento em

do as ilimitadas percepções da cor como

que se comemoram nove décadas da

unidade independente. A cor, em suas

fundação da Bauhaus, realizou a expo-

entranhas, a fomentar reflexões e postu-

sição Cor e Luz: Josef Albers - Home-

ras estéticas inovadoras, rompe barreiras,

nagem ao Quadrado. Albers foi mestre

impondo novos parâmetros da abstração

da Bauhaus e sua obra revigorou o estu-

geométrica. Tendo realizado uma enor-

do da cor numa dimensão mais ampla.

me quantidade de obras, e vislumbrando

A série Homenagem ao Quadrado, exe-

na autonomia da cor a sua força íntima,

cutada após sua saída da escola e mu-

Albers foi um obstinado estudioso que

dança para os Estados Unidos, represen-

realçava a visão, o saber olhar e perce-

ta seu intenso trabalho no período de

ber as sutilezas cromáticas definidoras de

1950 a 1976. O estudo da cor foi leva-

novas perspectivas pictóricas.

do ao extremo da percepção, descobrin-

Hoje em dia, o Arquivo Bauhaus:

do sutilezas em certas luminosidades em

Museu do Design, em Berlim, desenha-

contrastes confrontos. Albers, além de

do por Walter Gropius em 1966, conser-

se destacar como professor da Bauhaus,

va preciosa documentação sobre a atua-

foi um profundo pesquisador envolto na

ção dessa escola que tinha como meta,

teoria e na prática, realizando uma obra

criando uma metodologia na difusão de

estruturada nas interações cromáticas.

conceitos com obras que podem ser


josef albers, homenagem ao quadro, 1950

apreciadas tanto na Europa como nos Estados Unidos. O belíssi-

Dentre as inúmeras obras, as construções

mo prédio construído em concreto com todas s superfícies visí-

projetadas por Mies van der Rohe repre-

veis trabalhadas com jato de areia e janelas de lumínio com cor

sentam um referencial basilar dos precei-

de bronze, uma obra de extremo requinte, acolhe uma biblioteca

tos arquitetônicos da escola, como o edi-

de 22 mil volumes sobre as diversas atividades riativas desse cen-

fício Seagram, de 39 andares, armadura

tro de pesquisas e estudos avançados sobre rquitetura e designo

de aço, situado a 30 metros retraídos da

Na periferia da cidade de Dessau, porém, encontra-se a

Park Avenue, em Nova Iorque, sobre um

antiga sede da Bauhaus, construída também a partir de um pro-

terraço de chapas de granito e duas pis-

jeto de Gropius, em 1925/26, juntamente com as residências dos

cinas. No entanto, a maior concentração

professores. A edificação principal a um ícone da modernidade

de prédios concebidos nos padrões da

e acolhe uma marcenaria, uma tecelagem, uma oficina de pintu-

Bauhaus encontra-se em Tel Aviv, Isra-

ra e uma de tipografia. Nas sete residências, viveram, além de

el, em um conjunto denominado Cidade

Gropius, diretor, a escola, os professores Moholy Nagy, Feinin-

Branca, patrimônio mundial da UNESCO,

ger, Muche, Schlemler, Kandinsky e Klee. Essas casas ficaram em

que reflete a linha estética de um esti-

parte destruídas durante a Segunda Guerra Mundial. Do domi-

lo em que a funcionalidade assume a

cílio do diretor, obriram a garagem e o porto, sobre os quais foi

essência da arquitetura contemporânea.

construída, em 1956, uma casa tradicional. A antiga residência de

Em comemoração aos 90 anos da

Moholy Nagy esapareceu por completo e a de Feininger serviu

escola, várias exposições ocorrem ao

de Policlínica durante o regime comunista, sendo restaurada em

redor do mundo, como Bauhaus: Um

1994, enquanto as casas de Klee e Muche foram reconstruídas

Modelo Conceitual, atualmente, em car-

em 2000 e 2002. A recuperação dessas construções uma das prio-

taz no prédio que abrigava a sede da

ridades da administração de Dessau, por espelhar o dinamismo

Gestapo em Berlim e, a partir de novem-

de uma escola Multidisciplinar revolucionária que visava cons-

bro, no MoMA, em NY. A mostra conta

truir um forte elo entre arte e indústria, caminho para o raciona-

com mais de mil trabalhos de antigos

lismo. O conjunto de edificações foi considerado patrimônio da

alunos da escola e permite reconhecer o

humanidade pela NESCO, em 1996, por sua arquitetura ousada.

pensamento do desenho Bauhaus.

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MAM ONLINE blogueiro: Julio Carlo Argan

Julio Carlo Argan “síntese da arte moderna”

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rte Moderna não signi-

trabalho artístico. Coloca-se então o pro-

fica arte contemporâ-

blema da avaliação da dimensão históri-

nea ou então arte do

ca do im-pressionismo, e em primeiro lu-

nosso século ou dos

gar procura-se esclarecer se o impressionis-

nossos dias. Há um período, ao qual atu-

mo orientava-se por uma tendência clássi-

almente nos referimos como o das “fon-

ca ou romântica, ou se resolvia (e como) a

tes do século XX”, em que se pensou que

antítese destas duas posições, não mais

arte, para ser arte, deveria ser moderna,

consideradas como situações históricas

ou seja, refletir as características e as exi-

determinadas e sim como eternas pola-

gências de uma cultura conscientemente

ridades do espírito humano.

preocupada com o próprio progresso,

Reivindicando para o artista o obje-

desejosa de afastar-se de todas as tradi-

tivo de traduzir na obra de arte a sensa-

ções, voltada para a superação contínua

ção visual imediata, independentemente,

de suas próprias conquistas.

e mesmo em oposição, de toda noção

A arte deste período pode também

convencional da estrutura do espaço e

ser conhecida como ‘modernista’ – pro-

da forma dos objetos, o impressionismo

gramaticamente moderna e portanto

afirmara o valor da sensação como fato

consciente da necessidade de desenvol-

absoluto e autônomo: o artista realiza na

ver-se em novas direções, contraditórias

sensação uma condição de plena autenti-

em relação às anteriores.

cidade do ser, atinge na renúncia a qualquer

O ponto de ruptura na tradição artís-

noção habitual um estado de liberdade

tica é representado pelo impressionismo:

total, fornece o exemplo daquela que

o movimento moderno na arte européia

deve ser a figura ideal do homem moder-

começa quando se percebe que o im-

no, livre de preconceitos e pronto para

pressionismo mudou radicalmente as pre-

a experiência direta do real. Um exame

missas, as condições e as finalidades do

e um aprofundamento das possibilidades


do homem moderno, ou do homem de-

do fim do século. Mas, quando se afir-

finido exclusivamente pela autenticidade

ma que o artista não tem outrafinalidade

das próprias experiências, deviam neces-

que não a produção artística, acentua-se

sariamente mover-se em duas dimensões

igualmente que a arte, como pura arte,

– buscar estabelecer qual poderia ser a

é indispensável à vida do mundo, que a

figura e eventualmente a estrutura de um

sociedade se forma e se educa também,

mundo dado exclusivamente como sen-

embora não exclusivamente, por meio da

sação e fenômeno; defi-nir o sentido e

arte. Assim sendo, e considerando que o

eventualmente a finalidade de uma exis-

artista também faz parte da sociedade, a

tência humana entendida exclusivamen-

arte não só não decorre de uma estética

te como sucessão, interferência e contexto

dada de antemão, mas, na sua atuação,

de sensações. Uma arte que se desenvolva

elabora ou constrói uma estética. Por esta

nestas duas direções é intrinsecamente

razão uma das características marcantes

moderna, porque implica a renúncia a

da arte moderna é a formação contínua

qualquer princípio de autoridade, seja

de grupos e tendências, cada um dos

ele entendido como imagem revelada

quais enuncia e desenvolve um programa

e eterna do criado ou como norma es-

e tende a impor sua própria estética, ou

tética geral ou como tradição histórica

mais precisamente sua poética, pois es-

de valores. Também por isto a arte deste

tes princípios não se enquadram em um

período, a arte moderna, prescinde de

sistema filosófico e tendem sobretudo

toda e qualquer tradição nacional, e se

a condicionar o fazer artístico. Pode-se

coloca não mais como arte ou beleza

dizer portanto que a sucessão de poéti-

universais e sim como a arte de uma so-

cas – ou dos ismos, como às vezes são

ciedade histórica que busca superar as

pejorativamente qualificadas – representa

tradicionais fronteiras das nacionalidades

a vontade de definir a relação entre arte e

e ser internacional ou européia. Não há

vida contemporânea, em contínuo e ace-

dúvida de que o objetivo das diversas, e

lerado movimento.

freqüentemente contraditórias, correntes

Não tendo mais como finalidade a re-

artísticas, do fim do século XIX ao come-

presentação dos eternos  valores religio-

ço do século XX, era a definição de uma

sos ou morais, a arte só pode ser uma

idéia de Europa, resultante justamente da

modalidade da vida e, como tal, interferir

superação dialética das tradições históri-

em todos os aspectos da vida contempo-

cas e daquilo que o positivismo filosófico

rânea. A arte torna-se um fato plenamen-

denominava características nacionais.

te social, vinculando-se a movimentos

Deste modo, a questão da arte se

mais progressistas.

apresenta em vários planos: participando

O tema da Europa, que já no fim do

diretamente da situação histórica, abarca

século XIX era o tema central da arte mo-

necessariamente problemas de ordem

derna. Mas o grande problema da arte

não especificamente estética – intelec-

moderna, ou seja, o problema de uma

tuais, sociais, religiosos e políticos. Mas

presença concreta e atuante da arte no

dado que, enquanto arte, é um modo

mundo da vida social, e de uma ativa par-

completo e insubstituível de experiência,

ticipação em suas lutas históricas, perma-

ela conserva e acentua sua própria au-

necerá o problema dominante por toda a

tonomia. Art pour l’art é o feliz slogan

primeira metade do nosso século.

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conversa de artista fotografia edição: Ana Paula Figueiredo edição: Ana Paula Figueiredo produção: Fernanda Thedim

produção: Fernanda Thedim

m meados dos anos 1990, Carybé me dizia, na sua casa de Brotas, Salvador: “Eu registro o candomblé porque isso vai acabar. Na África, mesmo, quase não tem nada, mandaram agora o filho do Mario (Cravo Júnior) para registrar, mas não há quase nada”. As imagens que Mario Cravo Neto produziu durante sua carreira, de certa maneira, servem como resposta a esta situação. O fotógrafo empenhou-se em mostrar diversas maneiras de se recriar uma África mitica, fonte das riquezas e das curiosidades ocidentais, da sexualidade, dos orixás, dos ritos de matança, de sagração pelo sangue e pela celebração Tais imagens foram estimuladas por nossa herança afro-brasileira. Filho de Mario Cravo Júnior, escultor principal da geração baiana dos anos 1950, Cravo Neto teve um importante núcleo modernista para se inspirar e superar. A Bahia era recriada, desde a onda regionalista que começa na década de 1930 Portanto, uma tarefa árdua aguardava Mario Cravo Neto, que persistiu em criar originalidade na busca de

MARIO CRAVO NETO ÁFRICA MÍSTICA

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nos. Esta busca aparece eminentemente nos retratos em preto-e-branco. Ali, o fotógrafo desenha toda a sua originalidade. Com seu empenho no contraste, afirmava: “gosto atualmente dos tons e da densidade da foto escura mais do que da normal. Minhas cópias em preto-ebranco são sempre mais escuras”. Luciana, fotografia de 1994, mostra

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uma brasilidade baiana. Ele mesmo dizia:

o quanto Cravo Neto costumava deixar

“considero-me mais baiano do que brasi-

seus retratos no limite da luz. A linha con-

leiro”. É difícil superar uma geração que

torna o rosto de Luciana, como a Baba

inventou o Brasil e a Bahia. É difícil fazer

Cósmica, de Lygia Clark. Observando os

explicações sobre a religiosidade sem cair

rituais do candomblé, Cravo Neto tam-

nas mesmices, na fábula das três raças,

bém fez imagens diretas dos terreiros.

no primitivismo colonialista, no folclore

Mas, no retrato, traz hom e bestiários

estéril. “Quando penso em Mario Cravo

para o estúdio. Salpicava os corpos dos

Neto, penso em Luciana, uma fotografia

modec com pó branco, fazendo alusão

de 1994. Luciana está de olhos fechados,

a pinturas sagradas, ritualístl executadas

suave, serena. Um fio contorna toda sua

nos corpos dos iniciados no candomblé,

cabeça, dá várias voltas, cobre seu rosto.

aproxIma se do Brasil de Debret. Porém,

Ela recebe o fio com delicadeza. Estão

em Cravo Neto. marcas eram feitas com

em comunhão, o fio e ela. Luciana é uma

talco, absolutamente ficcionais. Com es-

fotografia que não para de me emocio-

tas fotos de estúdio, o fotógrafo baiano

nar, não para de me inquietar. Talvez por-

aproxima-se da estética de Mapplethorpe,

que eu quisesse tê-Ia feito ou quem sabe

ele fotografa os negros e explora suas

ela mora em mim.” diz João Castilho so-

virtudes musculares, eróticas e religiosas,

bre a foto que você vê na próxima página.

assim como fez também.

Hal Foster explica que, durante as

Verger coloca-os como alegorias,

primeiras décadas do século 20, “o corpo

aceitando a artificialidade poses combi-

humano e a máquina de industrias eram

nadas, de elementos cênicos planejados.

vistos como apartados entre si”. A tecno-

Em Áfricanada vemos o uso da foto em

logia era uma espécie de “suplemento

preto-e-branco recortar a parte superior

demoníaco”. Figuras do primitivismo e a

do cabelo da menina, dividido em tran-

máquina, então, tornaram-se os dois prin-

ças. As tranças revelam-nos caminhos,

cipais fetiches modernistas. Cravo usa

mapas, lugares a seguir. Um médico baia-

máquina para fotografar o corpo e suas ex-

no e um dos primeiros a escrever sobre

tensões naturais e transcendentes. Com

os negros no Brasil, antes de Picasso con-

isso, cria certa comunhão entre a frieza

crerizar Les Demoiselles D’A vignon, des-

cientificista da técnica, mostrando-nos

tacava, em 1904, a “capacidade artística”

os enigmas do sagrado e do corpóreo.

dos negros para a escultura. Os corpos

Evidencia certa animalidade em determi-

de Cravo adquirem valores escultóricos.

nadas torções do corpo. Dorsos de ca-

Enquanto Pierre Verger mergulhara

bras assemelham-se aos ombros huma-

no olhar etnográfico se fazendo mensa-


31

geiro entre mundos, Cravo Neto aceitava

olho do bicho bem próximo ao olho da menina, como se os dois

mas temia a farsa, aproveitava as fres-

corpos se unissem, aguardando a metamorfose. Em Território em

tas, o olhar de ladrão da ima Os rituais

Transe, Cravo Neto empreende uma série de fotografias, onde

de candomblé foram assuntos de outros

os terreiros são clicados em diferentes situações, pernas de um

diversos fotógrafos. José Medeiros, em

adepto são cobertas por talos de fiados, chamados de mariô. Na

1951, tem suas fotos publicadas na revis-

publicação das fotos as tonalidades daquele verde novo da pal-

ta O Cruzeiro, em reportagem intitulada

meira de pavão, produz uma espécie de díptico. Em outras fo-

“As noivas dos deuses sanguinários”

tografias desta série, por entre as frescas cena ao centro, onde

Poucos meses antes disso, Paris Match

sangue e os corpos de uma galo decapitados iluminam a imagem,

pública, na França, “Os possuídos da

mostrando não fazia parte dos autorizados a se aproximar da ofici-

Bahia”, em que o cineasta Henri Geor-

na nas estratégias de Degas nas pinturas so olhar se faz voyeurísti-

ge Clouzot escreve um texto pejorativo

co, furtivo. Cravo Neto não aceitava dogmas visuais, deixava o pri-

sobre os rituais de sangue. Tais imagens

meiro plano da imagem emb que o fotógrafo estava por trás das

escancaravam com maestria momentos

pessoas, como um intruso. Mas mirava o ocorrido. Como acon-

secretos, causando polêmica aos que

tece de Atget, as imagens ganhavam a atmosfera de um mundo

tentavam preservar a proibição da foto-

sombrio, de nuvens.

grafia no candomblé. Mario Cravo Neto

Philippe Dubois afirma que, para fazer um re-iluminar o

trata, em suas imagens, de uma outra no-

sujeito, mas “é necessário que a mesma luz emane dele para atin-

ção sobre o mesmo uso do sangue no

gir e queimar essa pele. A busca de Mario Cravo Neto pela luz

candomblé, como vemos na série Sacrifício.

fotográfica limiar, no qual o ofício do fotógrafo assume a ficção

Segundo Walter Benjamin, apesar

que emana dos sujeitos e dos rituais: exageros corpo, negritude

de toda a perícia do fotógrafo, o obser-

em penteados propositadamente imagens chocantes de bichos

vador “sente a necessidade irresistível

decepados e sang pelo chão dos terreiros. Ali, Cravo Neto vai em

de procurar nessa imagem uma pequena

busca da alma”, eterno temor do primitivo diante da fotografia, o

centelha do acaso, do aqui e agora,

que Dubois chamou de “verdadeira ‘fantasmização’ dos corpos”.

com a qual a realidade chamuscou a

A fotografia lida co fantasma por excelência”, como é o exemplo

imagem”. Mario Cravo Neto manipula-

de o Sacrifício a primeira fotografia de crime. Diante do Sudário,

va o acaso. Interrompia o chamuscado

em 1984, eu visitava Stefania Bril pela primeira vez, com minhas

da imagem encenando processos rituais

da visualidade amazônica debaixo do braço. Ela me perguntou:

em falsos cenários. Na série Sacrifício,

conhece o Cravo Neto? Não, eu disse. Pegou um livro (acho que

empenha-se em colocar no estúdio ima-

Estranhos Filhos da Casa) e me mostrou. Impressionante a afinidade.

gens em que aves e cágados aparecem

Fiquei encantado de saber que um baiano mirava seu povo

com cabeças seccionadas pelo ângulo

com tamanha etência técnica e estética. Naquela época, era mais

fotográfico, mas ainda vivos, com o corpo

fácil um fotógrafo Brasiileiro conhecer um Bresson ou um Smith

mantendo sua integridade. Ativa-se o

do que um Farkas. Mario o Neto nunca precisou desviar seu olhar

sentido liminar da imagem, momentos

para atender a modismos. Ele não esqueceu de nada que se passa

antes do sacrifício. Benjamin afirmava

aqui e valorizou o olhar de um brasileiro sobre o Brasil e merecerá

que o modelo posando durante horas

de uma geração de autores o respeito por sua obra.” Luiz Braga vê.

crescia dentro da Imagem fotográfica, di-

Aqui, depois de mais de dez anos, aceitando o convi-

ferente da fotografia instantânea. Já em

te para escrever sobre Mario Cravo Neto, saio da minha le-

outra, o corpo da criança situa-se entre o

targia diante da citada afirmação desencantada do argenti-

corpo do adulto e o corpo de uma pata

no-baiano que iniciou este texto e respondo carinhosamen-

branca, bicho predileto de lemanjá.

te a Carybé: o candomblé ainda resiste, reunindo milhares de

Genialmente, o fotógrafo posiciona o

adeptos em cerimônias por todo o Brasil e em outros países.

31


A arte de neto seria então essa tentativa de não sucumbir a decepção do ‘nada se vê’, dando visão ao invisível dos rituais e mostrando que fantasmas também posam pra fotógrafos O cotidiano das casas continua o mesmo, continua errático, emulando e escapando de regras e modelos: banhos de erva com água gelada, rezas, cânticos varando as madrugadas, matanças, mal ruim, dacoco, xirê à noite. E as roupas e a dança e a graça e as joias para “ficar odara”. Restando dúvidas, consultemos os momentos de êxtase e comunhão nas fotografias do menino Cravo Neto, que você também viu nascer. Fiquei encantado de saber que um baiano mirava seu povo com tamanha etência técnica e estética. Naquela época, era mais fácil um fotógrafo Brasiileiro conhecer um Bresson ou um Smith do que um Farkas. Mario o Neto nunca precisou desviar seu olhar para atender a modismos. Ele não esqueceu de nada que se passa aqui e valorizou o olhar de um brasileiro sobre o Brasil e merecerá de uma geração de autores o respeito por sua obra.” Luiz Braga vê. A arte de Mario Cravo Neto é a tentativa de não sucumbir a esta decepção do “nada se vê”, criando visibilidade para o invisível dos rituais, mostrando que os fantasmas jamais posam para fotografias, só nos restando a ficção, a imaginação, o estúdio e, sobretudo, a crença. Todas as declarações de Mario Cravo Neto, no texto, foram retiradas do livro Olhares Refletidos, de Joaquim Paiva.

LUCIANA: a fotografia que mais me toca

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CIDADE JARDIM 11 3552 3000 33


reportagem de capa edição: Carlos Henrique Braz produção: Fernanda Thedim

museu de arte moderna racionalista e plástico a um

o

Museu de Arte Moder-

de Castro Maya. As diferenças mais evi-

na do Rio de Janeiro

dentes entre o Museu de Arte Moderna

é definitivamente um

do Rio de Janeiro e o de São Paulo pare-

fruto das transforma-

cem ser a abertura do museu carioca às

ções culturais que têm lugar no período

artes aplicadas, sobretudo ao design e ao

após a II Guerra Mundial e que entre nós

desenho industrial, e sua vocação educa-

se traduz no crescimento das cidades e

tiva, que se concretiza por um serviço de

na diversificação de seus equipamen-

biblioteca atuante (a cargo da crítica li-

tos. Criado em 1948, acompanha o mode-

terária Lúcia Miguel Pereira) e por ateliês

lo do Museum of Modern Art - MoMA,

abertos ao público. Diversos profissionais

em Nova York de 1929, do mesmo modo

são convidados para implantar as ativida-

que o Museu de Arte Moderna de São

des do museu: Candido Portinari (1903

Paulo - MAM/SP, de 1948. Um “museu

- 1962), pintura; Bruno Giorgi (1905 -

vivo”, com exposições, música, teatro e

1993), escultura; Alcides Miranda (1909

cinema, além de debates: eis o intuito

- 2001), arquitetura; Luís Heitor (1905 -

central da instituição, presidida pelo co-

1992), música; Santa Rosa, teatro; e Luís

lecionador e industrial Raymundo Ottoni

Roberto Assumpção Araújo, cinema.

34


35


36

O museu funciona inicialmente em salas

res de artistas e colecionadores -, passa

cedidas pelo Banco Boa Vista, na praça

a contar nesse momento com obras de

Pio X, passando em seguida para um es-

artistas estrangeiros adquiridas na Euro-

paço improvisado entre os pilotis do pré-

pa como André Lhote (1885 - 1962), Yves

dio do Ministério da Educação e Saúde,

Tanguy (1900 - 1955), Georges Mathieu

onde é aberta ao público a mostra Pintu-

(1921), Fernand Léger (1881 - 1955), Al-

ra Européia Contemporânea (janeiro de

berto Giacometti (1901 - 1966), entre ou-

1949). Das 32 obras apresentadas nesta

tros. Dentre os artistas nacionais, além de

exposição, 12 irão compor o acervo do

Portinari, Di Cavalcanti (1897 - 1976), La-

museu, que contará em seguida com do-

sar Segall (1891 - 1957) e Guignard (1896

ações de Raul Bopp (1898 - 1984), Mar-

- 1962), o acervo do MAM se distingue

ques Rabelo e Oscar Niemeyer (1907),

por possuir uma expressiva coleção de

entre muitos outros.

Oswaldo Goeldi (1895 - 1961), com dese-

O ano de 1952 marca uma nova fase

nhos e gravuras. É Niomar quem convida

do museu, inaugurada com a exposição

o arquiteto Affonso Reidy (1909 - 1964)

dos artistas premiados na 1ª Bienal Inter-

para projetar uma nova sede para o mu-

nacional de São Paulo (o que ocorre, a

seu, em área de 40 mil metros quadrados

partir daí, regularmente) e com a amplia-

doada pela prefeitura do Rio, no aterro

ção do acervo, graças ao comando da

do Flamengo, com projeto paisagístico

sra. Niomar Moniz Sodré, então diretora

de Burle Marx (1909 - 1994). As obras são

executiva, cujo marido, Paulo Bittencourt

iniciadas em 1954 e inauguradas em di-

é proprietário e diretor do jornal Correio

ferentes momentos: o Bloco-Escola, em

da Manhã. O acervo do MAM - compos-

1958; o Bloco de Exposições, em 1967

to até então por quatro obras doadas

(com mostra de Lasar Segall) e o Bloco-

pela Bienal, por uma pequena doação

Teatro, inacabado. O projeto de Reidy

do MoMA e por contribuições particula-

segue as sugestões do racionalismo ar-


quitetônico que orientam seus diversos

Arquitetura

trabalhos. No caso do MAM, especifica-

Obra máxima de seu criador, o arquiteto

mente, cabe destacar o emprego da es-

carioca Affonso Eduardo Reidy, um dos

trutura vazada e transparente, a planta li-

maiores nomes da arquitetura brasilei-

vre do espaço de exposições (que prevê

ra, o Museu de Arte Moderna do Rio de

a flexibilidade da museografia) e a aten-

Janeiro situa-se no Parque do Flamengo,

ção concedida à iluminação.

em um cenário privilegiado. Pensado para dialogar com a pai-

“O MAM é palco de importantes mostras de artistas nacionais e estrangeiros, além de abrigar conferencistas internacionais.”

sagem - a horizontalidade da composição para fazer frente ao perfil dos morros cariocas -, as fachadas envidraçadas, trazendo para o interior o paisagismo de Burle Marx, o projeto de Reidy apresenta-se racionalista e plástico a um só tempo. Não há distância entre a estrutura e a aparência final. Os vãos livres têm um fim prático: a liberdade de composição oferecida ao espaço expositivo, o convi-

A instituição acolhe grupos e movimen-

te ao jardim no plano térreo. Do cuidado

tos de vanguarda da arte nacional nos

com o concreto aparente à escolha dos

anos de 1950 e 1960, como é possível

granitos e pedras portuguesas, o projeto

aferir por mostras como: Exposição do

ganha o parque.

Grupo Frente (1955), Exposição Nacional

No Brasil, a década de 1940 foi um

de Arte Concreta (1957) e mostra da Arte

período marcado pela intensa participa-

Neoconcreta (1959). Tropicália (1967),

ção da iniciativa privada no processo de

obra célebre de Hélio Oiticica, na ori-

criação de uma rede de equipamentos

gem do movimento tropicalista nas artes,

culturais de alto nível e pela consolidação

é exposta na mostra Nova Objetividade

do apreço pela estética modernista entre

Brasileira, realizada no museu em abril

colecionadores e intelectuais em geral.

de 1967. O incêndio ocorrido em 1978,

O período de grande prosperidade que

quando de uma retrospectiva histórica

o Brasil experimentava, propiciado pelo

do uruguaio Torres-Garcia (1874 - 1949),

avanço da industrialização, contrastava

marca um momento trágico na história

com a difícil situação financeira vivencia-

do museu, que tem parte do seu acervo

da pela Europa após o término da Segun-

e instalação destruídos.

da Guerra Mundial.

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“O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro viu nascer parte considerável de nossos movimentos artísticos e lançou muitos de nossos artistas mais importantes”

Breve histórico Lugar historicamente privilegiado da vanguarda e do experimentalismo no país, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro viu nascer parte considerável de nossos movimentos artísticos e lançou muitos de nossos artistas mais importantes. Do Grupo Frente (1954), formado a partir da primeira turma de adultos de Ivan Serpa no , ao Neoconcretismo (1959); do Ateliê de Gravura (1959) à Nova Objetividade Brasileira (1967), passando pelas exposições “Opinião 65” e “Opinião 66”; das mostras Resumo JB (1964- 1972) aos Salões de Verão (1969- 1974); dos Domingos da Criação (1971) à Área Experimental (1975- 1976), foram incontáveis os eventos e os artistas que pelo passaram, ou nele tiveram uma referência fundamental para o florescimento de suas obras. Coleção Formado inicialmente ao longo dos anos 40 e 50 por inúmeras doações de artistas, empresários e algumas instituições oficiais, o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro constituiuse uma das coleções de arte do século XX mais importantes no país. Apresentando um panorama completo e sofisticado da evolução artística de nosso século, dentro e fora do Brasil. A coleção partia do cubismo e avançava pelo futurismo, surrealismo, dada e demais vanguardas históricas do início deste século, até o que de mais atual ocorria no cenário internacional durante os primeiros decênios de sua segunda metade. Durante três décadas, a maioria dos artistas brasileiros de destaque teve no não somente seu palco de ação mais imediato e visível: aqui estavam fartamente

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O incêndio de 1978, contudo, pôs a per-

(3 x 10m) existente na América do Sul e, atualmente, permanece

der todo o esforço das décadas ante-

guardada. Imediatamente após o trágico acidente que chocou o

riores. Muito pouca coisa pôde ser sal-

meio cultural de todo o mundo, começaram as manifestações de

va. Entre as perdas irrecuperáveis estão

solidariedade sob a forma de doações de artistas, instituições e

obras-primas de Picasso (uma inestimá-

mesmo de governos - como o da França, que enviou ao obras

vel cabeça cubista e um famoso Retrato

como a de Pierre Soulages - mas os esforços de reconstrução do

de Dora Maar), Miró, Salvador Dalí, Max

acervo foram largamente prejudicados por crises sucessivas da

Ernst, René Magritte, Ivan Serpa, Manabu

economia brasileira.

Mabe e muitos outros, além de todos os

Foi necessário um longo período de pequenas adições

trabalhos presentes em uma grande re-

para que a Coleção do Museu voltasse a ocupar seu lugar de

trospectiva de Joaquin Torres García, que

destaque. Atualmente, com cerca de onze mil obras, ela dis-

ocupava o Museu no momento do incên-

põe de esculturas e pinturas de artistas de renome internacio-

dio. Das obras que escaparam do fogo,

nal como Fernand Léger, Alberto Giacometti, Jean Arp, Hen-

destacam-se Mademoiselle Pogany, es-

ry Moore, Barry Flanaghan, Bourdelle, Poliakov, Henri Laurens,

cultura de Constantin Brancusi de 1920;

Marino Marini, Max Bill, César, Lipchitz, Carlo Carrà e Lucio

Number 16, de Jackson Pollock de1950 e

Fontana. Além da coleção internacional, há um grupo notável

a obra de Ben Nicholson, Opal, magenta

de artistas latino-americanos, entre eles Joaquin Torres García,

and black de 1951, hoje entre as princi-

Cruz Díez, Jorge de la Vega, Romulo Macció, Xul Solar, Antonio

pais jóias. Também tem valor inestimável,

Seguí e Guillermo Kuitca, além de brasileiros como Bruno Giorgi,

no acervo, a gigantesca tela de Georges

Maria Martins e Di Cavalcanti.

Matthieu, Morte Antropofágica do Bis-

Desde 1993, o Museu de Arte Moderna recebeu, em regime

po Sardinha, pintada pelo artista durante

de comodato, um reforço dos mais notáveis para seu acervo.

uma performance nas dependências do

A Coleção Gilberto Chateaubriand, internacionalmente conheci-

próprio Museu, em 1959, e por ele doa-

da como o mais completo conjunto de arte moderna e contem-

da em caráter definitivo poucos anos de-

porânea brasileira, e cujas cerca de quatro mil peças compõem

pois. Trata-se da maior tela de Matthieu

um impressionante painel do período em um só museu do País.

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A coleção tem trabalhos pioneiros da década de 10, como os de

no universo mais dura da realidade brasi-

de Anita Malfatti (duas paisagens de 1912 e O Farol, de 1915), e

leira, o fotojornalismo ligado à temática

prossegue através do modernismo de Tarsila do Amaral (o Uru-

social e bem brasileira de Walter Firmo, a

tu, de 1928), Lasar Segall, Di Cavalcanti, Ismael Nery, Vicente do

atitude questionadora sobre o ato de fo-

Rego Monteiro, Portinari, Pancetti, Goeldi e Djanira, entre outros.

tografar da artista Rosângela Rennó entre

Desenvolve-se através dos embates dos anos 50 entre geometria

outros. Nesse sentido a Coleção Joaquim

e informalismo, das atitudes engajadas e transgressoras da Nova

Paiva representa no todo a qualidade e

Figuração dos anos 60 e da arte conceitual da década seguinte,

a pluralidade com trabalhos e tendências

dos artistas que constituíram a Geração 80, até desembocar nos

que a fotografia contemporânea brasilei-

mais jovens artistas surgidos nos dois ou três últimos anos. O

ra possibilita, nos oferecerendo mais.

colecionador reuniu praticamente todos os artistas que conquis-

Somado a esta coleção por si só im-

taram um lugar de destaque internacional para a arte brasileira:

pressionante, o Museu de Arte Moderna

Aluísio Carvão, Ivan Serpa, Antônio Dias, Rubens Gerchman, Car-

abriga, ainda, um terceiro conjunto igual-

los Vergara, Roberto Magalhães, Wesley Duke Lee, Nelson Leir-

mente expressivo, com cerca de quatro

ner, Artur Barrio, Antônio Manuel, Jorge Guinle, Daniel Senise,

mil obras de fotógrafos brasileiros, que

José Bechara, Rosangela Rennó e Ernesto Neto, e centenas de

compõem um terceiro acervo, adquirido

outros não menos destacados (são cerca de 400 artistas no total).

em parte graças a uma doação especial

Renovada através de aquisições que o colecionador faz periodi-

da White Martins. Nesse sentido a Cole-

camente, em especial junto a artistas jovens e ainda não consa-

ção Joaquim Paiva representa no toda a

grados pelo circuito de arte, a Coleção Gilberto Chateaubriand é

qualidade e a pluralidade de trabalhos.

sempre apresentada em exposições temáticas, não somente nas dependências do Museu, mas igualmente através de exposições itinerantes dentro e fora do País. Já em 2005, o Museu de Arte Moderna teve o prazer de receber, em regime comodato, grande parte da coleção do diplomata Joaquim Paiva. A Coleção Joaquim Paiva teve seu início em 1981 quando o diplomata começou a adquirir sistematicamente fotografias brasileiras contemporâneas. No museu estão depositadas aproximadamente 1090 obras que registram o que há de mais representativo na fotografia brasileira de nosso tempo. Desde de retratos e paisagens à experimentos fotográficos dos anos 1990. Entre os nomes mais representativos da coleção estão: Pierre Verger com a sua preciosa documentação sobre a cultura afro-brasileira; Geraldo de Barros e seus experimentalismos técnicos; Miguel Rio Branco que busca a intensidade das cores

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AMIGOS DO MAM edição: Rogério Durst produção: Letícia Pimenta

Restaurante Zozo Dificilmente se encontrará na cidade do

ta relicârios numa montagem criada pelo

Rio de Janeiro um lugar com paisagem

profissional de teatro José Possi Neto.

tão privilegiada como a do Zozô. De um

A cozinha tem como especialidade os

teto de vidro construído sobre a parte da

grelhados e sua eterna lista de acom-

varanda da casa abre-se o panorama da

panhamentos: toda a família de frituras,

imensa pedra do Pão de Açúcar. Em ma-

várias misturas de farofa e de arroz, cre-

téria de atributos visuaus, os trunfos do

me de milho, creme de espinafre etc.

restaurante não se esgotam aí. Além da

ainda seguindo a fórmula e churrascarias

mangueira centenária no meio do salão,

concorrentes, ali se repete a clássica ofer-

dois lances decorativos fazem grande

ta de sushis em várias versões, no que

efeito no ambiente. De um lado, um es-

chama de bufê oriental.

cultural paredão de pau-a-pique alcança

Exposto nesse balcão também há

quase 10 metros de pé-direito. Em fren-

bom sortimento de folhas verdes, sala-

te, com igual destaque, um original mural

das e sobremesas. Da grelha a carvão, as

Drink ou sobremesa para amigos do mam

de tábuas de demolição intercala noven-

pedidas mais cotadas são o ojo de bife,

mais 10% de desconto sobre total

bife de chorizo, a picanha, o cordeiro, avitela e o costelão de boi. O serviço das carnes é a la carte, numa espécie de rodízio sem desfile de espetos pelo salão. Todos os pratos podem ser pedidos a vontade e seguem a regra do preço único, R$ 60,00, válido menos para bebidas. De um modo geral, ponto para o Zozô? Sim, com certeza. O contenário é bastante convidativo. a cozinha é bem caprichada e apresenta além do regular. O que talvez explique o fato de o lugar viver bem frequentado. Levando-se em conta o menu promocional (R$38,00 timidamente divulgado e especial para o período de almoço), as sugestões do cardápio parecem cativar todos que passam pelo local, principalmente os grupos de turistas que ao lado fazem fila para pegar o bondinho do Pão de Açúcar.

varanda do restaurante tem vista para o pão de açucar e bondinho

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Caetano Veloso no Vivo RiO Na comemoração do projeto Pró Criança Cardíaca, o cantor Caetano Veloso é a grande estrela. Ele realiza nesta segundafeira, no Vivo Rio, o show beneficente ‘Caetano Veloso Voz e Violão’, em um formato que ele não apresenta há muito tempo na cidade. O repertório será mantido em segredo. O Pró Criança Cardíaca é um proje-

tuição. Em seu novo show, “Obra em

Interessante, não? Os ingressos já estão

to social, sem fins lucrativos, que aten-

progresso”, Caetano Veloso se propõe

disponíveis e estarão a venda até o final

de e examina cerca de 50 crianças por

a abrir para o público parte do processo

do mês. Amigos do MAM tem estaciona-

semana,

atendimento

que resulta em um novo CD. Ou seja, ele

mento vip e desconto no camarote.

odontológico, cestas básicas, roupas e

inverte o curso usual de um lançamento,

brinquedos. Nestes anos, 14.699 crianças

segundo o qual o artista grava um CD e

compras por telefone: 4003-1212

carentes já foram atendidas pela insti-

depois apresenta o show para divulgá-lo.

ou no site www.ingressorapido.com.br

que

recebem

Lançamentos na loja Novo Desenho A loja Novo Desenho lançou este mês com exclusividade a cadeira Mäder, dos designers brasileiros Fernando Mendes de Almeida e Roberto Hirth, fabricada pela marcenaria Mendes-Hirth. A proposta é ambiciosa: criar uma bela cadeira de balanço, e construí-la dentro das mais nobres técnicas de marcenaria. A cadeira Mäder é leve, e menor do que modelos antigos de cadeira de balanço. Elegante, sem braços, oferece liberdade de se sentar de lado, ou com as pernas abertas em “V”. Madeira: estrutura imbuia ou ipê; assento e encosto em laminado de peroba do campo. Acabamento em verniz natural. Amigos do MAM estão convidados para o dia do lançamento da cadeira.

telefone: (21) 22229999 email: atedimento@novodesenho.com.br

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turismo e arte edição: Ana Paula Figueiredo produção: Fernanda Thedim

barce

pelas curva

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h

á no mundo algum outro

andar de guia na mão para entender a

lugar como a Barcelo-

complexidade da sua obra. Nem sequer

na? Dizer isso é tentador

é necessário imaginar quão complexos

mas com certeza não

seriam os exercícios matemáticos que

existe outra cidade como ela na Espanha

Antoni Gaudí fazia, no início do século,

no que diz respeito a estilo, visual

para calcular pesos de estruturas e en-

ou energia. As revistas e guias de viagem

gendrar a forma de fazer com que uma

falam com entusiasmo de sua arquitetu-

simples coluna se transformasse numa ár-

ra ousada, das lojas de design, dos bares

vore, ou que um muro de um jardim nos

incríveis e da vida cultural vibrante, mas

faça lembrar uma onda marítima.

Barcelona é mais do que uma moda do

Em construção há mais de um século,

momento. É uma cidade progressista, que

a Sagrada Família continua inacabada

se renova incansavelmente, sem se esque-

mas surpreendente. Cada vez que se

cer de preservar o melhor do seu passado.

lá entra, há um pormenor que antes os

A comunidade autônoma da Cata-

andaimes escondiam e que a luz deixa

lunha, da qual Barcelona é capital, tem

agora revelar. Diz-se que a Sagrada Fa-

uma história que remonta ao século 9,

mília é a súmula de todo o trabalho de

e, nos longos períodos de domínio de

Gaudí, ele que foi responsável por uma

celona

vas de gaudí

obra arquitetônica a todos os títulos notável, embora seus méritos nem sempre tenham sido reconhecidos. Nos anos 20 sua obra estava votada ao desprezo, com poucos a entender tantas excentricidades. Hoje as opiniões são unânimes, os profissionais da arquitectura respeitamno, não só pela originalidade das suas criações, mas também muitas por todas

potências externas, assim como durante

as descobertas que fez e pelas formas

a ditadura de Franco, sufocar o espírito

engenhosas com que conseguia fazer

catalão provou-se uma tarefa impossível.

cálculos e ensaios, numa época em que

Barcelona reflete essa independência e

os computadores eram ficção científica.

é a líder espanhola em ativismo político,

Os restantes, não especialistas – tal como

design, arquitetura e comércio.

a autora destas linhas – acabam invaria-

Isso se reflete nos lindos edifícios modernistas (Art Nouveau) que enchem

velmente por se render à imaginação delirante de Antoni Gaudí.

as ruas e as avenidas da cidade. Nesse

A cidade organizou em 2002 um ano

sentido, Gaudí foi quem deixou uma

de comemorações em honra do seu filho

marca mais expressiva: a catedral Sagra-

pródigo e os seus edifícios mais emble-

da Família, de sua autoria, é célebre, mas

máticos de Gaudí abriram as portas ao

as casas, os edifícios e os parques que

turismo. Em 2006, o nome do arquitecto

ele e seus contemporâneos projetaram

é usado em nova efeméride. A extraordi-

são igualmente fascinantes.

nária casa Battló comemora 100 anos de

Não é preciso ser arquiteto para apreciar a obra de Gaudí, nem é preciso

existência e seus donos decidem mostrar espaços antes raramente visitáveis.

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INTERNACIONAL edição: Rogério Durst produção: Márcia Soter

á algum médico aqui? Quero checar se estou morto. Isso parece uma experiência fora do corpo. Foi assim que o diretor Tim Burton definiu a sensação de participar da abertura da maior exposição já realizada pelo MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) sobre a obra de um cineasta. A partir de domingo e até abril, serão exibidas mais de 700 obras, entre desenhos, figurinos, cartazes, maquetes, bonecos e fotografias. As peças retratam não só como foram criados alguns dos principais personagens e enredos dos filmes mas também exploram as obsessões estéticas do diretor. O resultado é um ambiente em que transitam sem atrito personagens tão díspares como as criaturas fascinantes de “Os Fantasmas Se Divertem” (1988), as crianças de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005) e a delicadeza sombria de “Edward Mãos de Tesoura” (1990). Um universo em que o diálogo escrito ao lado de um dos bonecos é verossímil: “Uma noite, em um bar, tive uma grande surpresa. Conheci uma garota que tinha muitos olhos. Ela era realmente muito bonita (e também muito chocante!) e reparei que ela tinha uma boca, então, começamos a conversar”. “Não pensava nesse material como arte porque não foi criado para ser visto, era material que me ajudava em meu processo mental. Do que eu gosto na exposição é que não é apenas uma caracterização, não é apenas material de filme ou de desenho; fizeram um bom trabalho em apagar as linhas que separam as duas coisas”, disse durante uma entrevista. Durante o anúncio para a imprensa, Burton agradeceu a todos os que vasculharam seus armários e disse que a experiência foi muito positiva, apesar de não conseguir observar partes da mostra que representam aspectos muito pessoais. A exposição apresenta desde desenhos dos tempos de infância de Burton até o pouco conhecido período em que ele trabalhou como animador da Disney e inclui a exibição do filme “Hansel e Gretel”, animação do começo dos anos 1980.

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tim burton O imaginário de Tim Burton em exposição no MoMA NovO22imaginário - April 26de Tim Burton em exposição no MoMA

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“Sinto-me atraído por meu próximo filme porque acho que nunca foi feita uma versão forte para o cinema da história de Alíce. Me sinto atraído por coisas esdrúxulas.”

Cineasta:

Durante a mostra, o museu vai exibir 16

assassinos e criaturas com mãos de te-

Tim Burton.

filmes do cineasta, além de obras que lhe

soura, Burton já inventava personagens

serviram de inspiração, como “Nosferatu”

marginais no papel mesmo.

(1922), de F.W. Murnau, “Frankenstein”

É com gravuras e desenhos feitos na

(1931), de James Whale, “A Revanche do

infância que a exposição começa, pas-

Monstro” (1955), de Jack Arnold, e “Glen

sando em seguida pelo período em que

ou Glenda?” (1953), de Edward Wood.

ele foi animador da Disney no começo

No último caso, Burton fez “Ed Wood”

dos anos noventa.

(1994), sobre o cineasta.

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A respeito da estética dos filmes,

O programa é imperdível para quem

Burton afirma que o expressionismo ale-

der a sorte de circular pela cidade ameri-

mão, os filmes de Fritz Lang e a dinâmica

cana até o dia 26 de abril de 2010, data

entre sombra e luz o fascinam.

em que se encerra a exposição. Mas mes-

A expectativa de público para a

mo que você não tenha sequer previsão

exposição é alta, bem como a reper-

de passar por NY, é possível conferir, ain-

cussão na imprensa americana. E como

da que de longe, um pouco do material e

o nome de Tim Burton é mundialmente

saber das história contadas por essas ima-

popular, se cogita a possibilidade des-

gens. No dia da abertura, Burton compa-

sa mesma mostra ser apresentada no

receu ao lançamento ao lado da mulher,

Brasil. O ano que vem promete ser mar-

a estranhinha Helena Bohan-Carter, e

co em sua carreira por causa do novo fil-

recebeu a visita de seu alterego cine-

me. Tim Burton, em entrevista, confessa:

matográfico – Johnny Depp. O ator é a

“Sinto-me atraído por coisas esdrúxulas“.

melhor encarnação da visão de mundo

No dia da abertura, Burton compareceu

um tanto mórbida do diretor, mas mes-

ao lançamento ao lado da mulher, a He-

mo antes dele emprestar seu rosto e seus

lena Bohan-Carter, e recebeu a visita de

trejeitos a detetives soturnos, barbeiros

seu alterego Jonny Depp.


Alice no País das Maravilhas O novo filme de Burton, “Alice in Wonderland” (Alice no País das

ca usada no filme A Lenda de Beowulf.

Cena do filme:

Maravilhas), será lançado em março do ano que vem. No Brasil a

Sendo que, enquanto Alice estiver em

Alice no País

estreia está prevista, segundo o site IMDB, para o dia 16 de abril

nosso mundo será em live-action e quan-

das Maravilhas,

de 2010. Os estúdios Disney já divulgaram novas imagens do

do descer pela toca do coelho será por

de Tim Burton.

próximo filme do diretor.

captura de movimentos.

A produção contará com Johnny Depp no papel de Cha-

Tim Burton carrega em seu currículo

peleiro Maluco, Helena Bonham Carter como a Rainha Vermelha

grandes filmes, com tecnologia de pon-

e Anne Hathaway como a Rainha Branca. A atriz australiana Mia

ta e um trabalho artístico incrível, como

Wasikowska interpretará a protagonista Alice.

fotografia, maquiagem e figurino. A Fan-

O filme baseado no clássico de Lewis Carrol será exibido também em salas IMAX (com tecnologia 3D e tela gigante).

tástica Fábrica de Chocolate, A Noiva Cadáver e O Estranho Mundo de Jack são

Burton disse que se sentiu atraído por seu próximo filme

alguns destes filmes, que mostram uma

porque acha que nunca foi feita uma versão forte para o cinema

fantasia realista que o diretor Tim Burton

da história clássica de uma menina que cai numa toca de coelho

sabe produzir como ninguém.

e vai parar num mundo de fantasia.Explicando seu pendor por

O cineasta, em entrevista dada a

examinar as bizarrices da vida, Burton disse: “As coisas estranhas

uma emissora de TV no dia da abertura

sempre me fascinaram, e é assim até hoje.”

de sua exposição, explica: “emocional-

O filme será uma espécie de sequência do original. Alice,

mente, aquela história de uma menina

agora ao 17 anos, está em uma festa da nobreza em Oxford,

andando de um lado para o outro en-

onde vive, até que descobre que está prestes a ser pedida em

contrando personagens malucos nunca

casamento. Desesperada, ela foge seguindo um coelho branco,

me fisgou. Foi isso que me levou a pen-

e vai parar no País das Maravilhas, um local que ela visitou há dez

sar numa forma de mostrar a estranheza

anos mas não se lembrava mais.

de todos aqueles personagens em algo

O diretor Tim Burton disse que o filme será uma mistura de live-action com 3D em captura de movimentos, mesma técni-

conectado, criar uma história onde antes havia uma série de acontecimentos.”

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conversa entrevistade artista edição: Ana Paula Figueiredo produção: Fernanda Thedim

A exposição “Carlos Vergara: A dimen-

há uma fixação em torno de sua obra pic-

são gráfica – uma outra energia silencio-

tórica”. Ele observa ainda que é comum,

sa” apresenta um conjunto de mais de

na trajetória de Vergara, que um trabalho

200 trabalhos realizados pelo artista dos

migre para vários outros suportes: “uma

anos 1960 até hoje, onde a linguagem

fotografia pode se desenvolver em seri-

gráfica é o fio condutor.

grafia, que por sua vez poderá mais tar-

George Kornis (curador) destaca

de se tornar pintura. Esta é uma grande

que a produção de Vergara se expressa

alquimia dele”, afirma. O curador conta

por diversas linguagens, e esta exposição

que o título da mostra surgiu da lembran-

no Museu de Arte Moderna pretende dar

ça da exposição Silent Energy, realizada

visibilidade à linguagem gráfica, presente

em 1993 no Museu de Arte Moderna

em toda a sua trajetória, de diversas manei-

de Oxford, na Inglaterra, que revelou

ras: monotipias, gravuras, desenhos, 3D,

ao mundo a arte contemporânea chine-

fotografias, filmes. “Vergara não é só um

sa. “Ao estarmos diante de uma obra

pintor, como ele costuma ser apresenta-

de arte, há uma percepção, uma ener-

do”, comenta. “Sempre me incomodou

gia transformadora, que opera em silên-

que na boa e vasta bibliografia sobre ele

cio, esses trabalhos não são tonitruantes

carlos vergara a dimensão gráfica: uma outra energia silenciosa

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como os demais, são silenciosos”. Ele ressalta que não se trata de uma retrospectiva, embora haja “um olhar que atravessa toda a sua produção”. A mostra terá trabalhos nunca mostrados, além de obras inéditas no Rio, como a instalação que fez para a Capela do Morumbi, São Paulo, em 1992, ou o conjunto completo de monotipias da série Gávea. O célebre painel de desenhos de 20 metros de comprimento, feito para a Bienal de Veneza, em 1980, também estará na mostra do MAM. Para o artista, a exposição se reveste de um caráter particularmente interessante, o de ter a curadoria de um colecionador, que o acompanha desde sempre. “Para o artista, e também para o público, é especial acompanhar esse olhar, que reflete o método sistemático e obsessivo de um colecionador dedicado que me acompanha desde o começo”, afirma Carlos Vergara. Kornis concorda que usou o “critério exato” que usa em sua coleção: “o de elos, ligações, entre os trabalhos”. As cercas de 200 obras são provenientes do ateliê do artista e de coleções privadas, como a de Gilberto Chateaubriand e do próprio George Kornis. Para se chegar a esse universo, o curador pesquisou por mais de um ano o Acervo Carlos Vergara, para mapear a produção do artista. “O acervo está muito bem organizado, sendo possível visualizar todas as múltiplas linguagens e os interesses que atravessam sua trajetória”. A seguir, o escritor e historiador da arte Luis Camilo Osorio faz uma curta entrevista com Vergara, esclarecendo-nos um pouco sobre o sentido de sua obra e de sua trajetória.

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Luiz Camilo Osorio Ultimamente virou moda da tradição cons-

“medição com cor” do espaço e da tela,

trutiva da arte brasileira, como se ela fosse responsável por

dividido em diagonais paralelas, forman-

qualquer ortodoxia poética que tive inibido alguma novidade

do uma grade. Eu havia chegado a exaus-

e invenção criativa. Ao invés de ver naquele momento, e nos

tão; continuar seria me condenar a não

seus desdobramentos posteriores, a realização de obras funda-

ter mais a sensação de descoberta e tor-

mentais para nossa história da arte, de um padrão de qualida-

nar tudo burocrático. Só artesanato, nada

de a ser seguido, atualizado e desenvolvido, tomam-no apenas

mais além de artesanato.

segundo uma retórica formalista, que existiu, mas que é o que

Em 1989 propus para mim, em total

menos interessa. Li recentemente um texto do historiador Hu-

desapego, me colocar num marco zero

bert Damish em que ele falava algo do tipo, ou a pintura mostra a

da pintura, olhar para fora e para dentro.

necessidadenointeriordenossaculturacontemporânea,ouconsidere-se

Fazer pintura significa aceitar o peso his-

historicamente superada, ou seja, não se trata apenas de pegar o

tórico de uma atividade que só não é

pincel, as tintas e a tela, e pronto, há a pintura, mais de atualizar

anacrônica se contiver uma aventura, que

uma necessidade história dentro de uma cultura como a nossa,

supere a questão da imagem, que mexa

inflacionada de imagens. Como você, que é um pintor obstina-

com procedimento e tenha projeto, mesmo

do, vê está declaração? Desde a Bienal de 89 sua pintura tomou

assim a pintura de sempre que o suporte

uma direção específica, lidando com pigmentos naturais, com

determina. Portanto é preciso “ler” o pro-

procedimentos de impressão e impregnação que vão maturan-

jeto e procedimento para saber se não é só

do na tela uma experiência pictórica que é, digamos, retirada do

mímica, historicamente superada.

mundo e não inventada pelo pintor. Será que é isto mesmo, que

Esse “Ready Made” natural desloca-

é oferecido pela sua pintura é mais um deixar ver uma pele essen-

do e manipulado era e é pra mim pura

cial do mundo do que o criar uma experiência pictural autônoma?

música. Será que esse “deixar ver uma

Carlos Vergara Em 1989 meu trabalho não tomou sozinho uma

pelo essencial do mundo”, que você diz,

nova direção, eu decidi dar nova direção por estar seguro que

e que é parte da minha pintura atual, não

havia esgotado a série começada em 1980, onde abandono a fi-

é uma experiência pictórica autônoma? A

gura e mergulho numa figura que tinha como procedimento uma

pintura quando deixa de ser enigma, ca-

“Ao estarmos diante de uma obra de arte, há uma percepção, uma energia transformadora, que opera em silêncio”

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“A questão de ‘brasilidade’ no trabalho eu vejo como inevitável. Porém não acho que seja importante”

talizadora de áeras mais sutis do teu ser,

do da maneira e da luz do teu lugar, teu

deixa de ser necessária. Só é necessária

trabalho pode devolver isto, e se não filtrar

uma arte que, por ser mobilizadora, jus-

o teu discurso dessa “cor local” em dema-

tifique sua existência. É essa capacidade

sia pode até extrapolar e trabalhar contra.

expressiva que lhe dá razão de ser.

O que acho é que em certos momentos

LCO Mais de uma vez vi você falando de

vem à superfície alguma coisa que poderia

uma especificidade cultural, para usar um

localizar’ o trabalho, e isso não pode tirar a

termo perigoso mas que não deve ser

força expressiva; ao contrário, fornecer um

evitado, de uma brasilidade, relaciona-

viés especial de uma questão universal.

da à sua pintura. Sabendo-se que não se

Podem fazer parte dos mecanismos

trata nem de uma nostalgia nacionalista,

da experimentação, entre outras coisas,

nem de uma apelação narrativa ligada às

uma ritualização da repetição, uma palhe-

excentricidades do mercado, como esta

ta escolhida com critério, opções de esca-

questão aparece para você?

la específica, e essas seriam maneiras de

CV No momento, essa questão de uma

passar a informação subjacente que cria

‘brasilidade’ no trabalho, eu vejo às ve-

um campo especial para leitura do traba-

zes como inevitável. Não acho, porém,

lho e isso pode ser exacerbado até ao uso

que seja importante. Aquela coisa ge-

de miçangas mais ai já é outra conversa.

ométrica do arabesco, talvez fosse uma

Alguns artistas bem sei, filtram isso até o

atávica tendência construtiva nossa. Se

ponto onde o trabalho parece não ter ori-

fosse andar por São Paulo, com o olho

gem e são coisas que me interessam, mas

atento nos grafiti nas ruas, vai perceber

creio que outros não conseguem escon-

diferenças gráficas bem claras em relação

der a bandeira. Essa também é uma velha

ao Rio; um ‘gótico’ paulista com ângulos

e conhecida discussão. Podem fazer parte

agudos e um ‘barroco’ carioca de curvas e

dos mecanismos da experimentação, en-

sinuosidades. O teu olho está empregna-

tre outras coisas, um ritual da repetição.

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exposiçãode artista conversa edição: Ana Paula Figueiredo produção: Fernanda Thedim

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SUPERUBER arte, design e tecnologia

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55


“Desenvolver nossas ferramentas é essencial para fazermos exatamente o que queremos.”

O que é super uber

para comunicar idéias, entender e de-

Por um lado ateliê criativo e por outro

monstrar como elas conseguem conectar

laboratório de tecnologia. O estúdio da

o homem com seu imaginário, trazendo

Super Uber, localizado em São Paulo tra-

arte e novos pensamentos para a vida das

balha primordialmente na convergência

pessoas que experimentam esse conta-

entre arte, tecnologia e design para criar

to. Segundo Liana, a interatividade gera

projetos cenográficos e multimídia nas

uma cumplicidade que faz do espectador

áreas de cultura, educação, entretenimen-

co-autor de suas instalações, e é isso que

to e propaganda. São os donos de feitos

torna suas obras tão interessantes.

impressionantes, como a primeira tela

A visão da SuperUber defende que o

multitoques do Brasil, e a instalação Beco

que atribui sentido à seu trabalho são as

das Palavras, um espaço lúdico dentro do

relações criadas durante os percursos, a

Museu da Língua em SP tendo participado

relação visitante e instalação é o que cria

também de importantes festivais e expo-

a mensagem. Para os sócios, há sempre

sições como: Claro Cine e Tim Festival no

algo mais por vir, prestes a ser desco-

Brasil, PeléStation na Alemanha, Spring

berto ou revelado. Criada a cerca de dez

Dance na Holanda, Cognizance na Índia,

anos a Super Uber participa de exposi-

e também o Open Air em Portugal.

ções e festivais nos principais centros cul-

À frente do escritório estão Liana

turais do Brasil, como o CCBB, Paço Im-

Brazil, designer com mestrado em multi-

perial e o Oi Futuro, e cada vez mais a

mídia na New York University (NYC), Russ

empresa cresce, sendo hoje reconhecida

Rive, engenheiro eletrônico com quatro

e requisitada mundialmente. Esse suces-

patentes na área de tecnologia, e Marcelo

so se deu devido ao grande esforço de

Pontes, arquiteto e cenógrafo, que juntos

pesquisa despendido pelos três sócios

formaram esse novo conceito de interati-

para que seja possível que o escritório

vidade, que mistura aspectos que são tão

mantenha sempre o caráter inovador, e,

semelhantes mas ao mesmo tempo muito

porque não vanguardista?

distintos: arte, design e tecnologia.

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A mistura de arte, design e tecnolo-

Entre os maiores atributos da Super

gia garantiu sucesso absoluto aos sócios.

Uber destacam-se os trabalhos com curado-

O grupo cresceu de uma maneira muito

ria de exposições, design interativo, vídeo e

impressionante desde que se juntaram, e

animação, cenografia, direção de arte e de

hoje seu trabalho atrai não só os aprecia-

tecnologia para instalações e grandes festi-

dores da arte contemporânea mas agrada

vais em todo o globo. O objetivo da empre-

também crianças, que ficam maravilha-

sa é explorar o uso criativo de tecnologias

das com o show de luzes da SuperUber.


Criatividade gerando frutos

no às coisas mais simples da vida. O jogo

O trabalho da dupla tem assinatura pró-

eletrônico PeléPong, criado originalmente

pria. Instalações em grandes proporções

para a esposição PeléStation realizada

com produções caprichadas. Além da

durante a copa de 2006 é um dos maio-

criatividade e do talento, muito dessa

res exemplos disso. — É uma das coisas

singularidade se dá pelo fato de que eles

mais divertidas que já fizemos, sempre

fazem o que não existe – literalmente.

que ligamos pra testar nao conseguimos

Eles criam uma linguagem autoral. Se pre-

mais parar de jogar — comenta Russ.

ocupam em produzir as próprias peças, e não somente invencionices tecnológicas

Pixel Park

encomendas. Existe um forte olhar para

Esculturas de luz, telas multitoques, grafi-

o design e para a arte em suas criações.

te eletrônico, jogos de adulto e de crian-

Estamos a beira de uma saturação em

ça e espelhos interativos. Essas e outras

meio à sensores e projeções em museus,

experiências sensoriais fazem parte desse

lojas e eventos em geral, e é fundamental

mundo interativo da nova exposição da

combinar arte e técnica com sabedoria.

Super Uber Arte e Tecnologia: a Pixel

— Desenvolver nossas ferramentas é es-

Park, que acontecerá entre os dias 11 e

sencial para fazermos exatamente o que

23 de agosto no Instituto de Artes Inte-

queremos. Para ter o controle total preci-

rativas, o iAi, localizado em São Paulo.

samos começar do zero. — Acredita Russ

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Dentro desse espaço multidiscipli-

Rive, o engenheiro por trás de tudo.

nar o visitante pode ver, ouvir e interagir

Mas não é porque eles usam tecnologia

com as instalações. Além disso, no dia

de ponta que seu trabalho é dificil de se

12/08, as 13h haverá palestras sobre In­

compreender ou interagir, muito pelo

teratividade e Novas Mídias, com os só-

contrário, uma das grandes virtudes da

cios. Uma oportunidade imperdível mer-

duplas é aliar o que há de mais moder-

gulhar no mundo virtual da Super Uber.

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Revista MAM  

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