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Felizes    para    sempre?       Kevin    Kowalski  e  stá  acostumado   com       o  assédio           das  mulheres      que     frequentam  o       seu   deseja   ter   com     bar.     Porém,         algo     m  ais  sério...       Beth         Hansen!     Ainda    que    o  primeiro    encontro    tivesse    sido    bem  d      esastroso.  E  la  estava   trabalhando   Gicou    frente  a    frente       em  um  casamento           q  uando         com  o    h   omem     que  a  Gizera   emprego.   Beth         perder       o  antigo           até  tentou     manter       a  distância,       mas  não  c  onseguiu   para      negar  o  convite         conhecer     o  q   uarto  de  Kevin.       Na       manhã     seguinte,   e  la  fugiu  sem   Contudo,       d  eixar    um  bilhete.                 logo  descobre       estar  grávida!   K   evin  Gica    animado   u  ma    família.  E         com     a  ideia     de  construir           fará  qualquer   c   oisa  para     convencer   ao             Beth  a  conceder       u  ma  segunda     chance     relacionamento!    

 

 

           

 


CAPÍTULO 1

Outubro

TODA VEZ que o New England Patriots ganhava uma partida, Kevin Kowalski fazia sexo. Uma vitória para o time significava uma para ele. Não que procurasse por companhia em um domingo à noite, mas as ofertas não eram escassas. Enquanto deslizava uma caneca de cerveja pela superfície polida do balcão do melhor bar esportivo de New Hampshire, cujo proprietário, por acaso, era ele mesmo, notou o olhar insistente de uma loura. Os Patriots estavam se alinhando na telona na linha do gol, mas os olhos da mulher permaneciam cravados em Kevin, fazendo-o perceber que o zagueiro não era o único cara perto de marcar um ponto. Naquela noite, porém, estava tendo sérios problemas para se concentrar na loura de lábios enxertados, seios cirurgicamente aumentados e ligeiramente bêbada, dando aquele olhar que significava “vai em frente”. Kevin estava ocupado demais observando uma morena do outro lado do balcão. Não era apenas pelo fato de ela ser bonita, com vasto cabelo castanho caindo sobre os ombros e belos olhos da mesma cor. Nem mesmo pela forma como o suéter e a calça jeans lhe realçavam o corpo perfeito. O motivo de observá-la era que seu encontro ia de mal a pior rapidamente. O rapaz inquieto de camisa abotoada e calça caqui que a acompanhava devia ter tomado uns drinques antes de chegar ao bar, ou tinha a intolerância a álcool de um calouro, pois apenas tomara uma dose de uísque e já agia como um bêbado inconveniente.


Havia uma linguagem corporal entre os dois, e o corpo da mulher desejava estar bem longe do dele. Quando os dedos do rapaz procuravam um local macio para aterrissar, ela desviava. O Jasper’s Bar & Grille tinha três regras: É proibido fumar. É proibido jogar canecas de cerveja, até mesmo nos fãs dos Jets. E quando uma mulher diz não, é não. Os Patriots marcaram um gol e os copos tremeram nas prateleiras com o grito triunfante dos fãs. A loura pulou do banco e seus seios testaram a resistência das alças do sutiã. O idiota das mãos bobas ergueu o copo vazio em direção a Kevin, que se aproximou do casal, mas ignorou o copo. – Não vamos te servir mais álcool, mas podemos oferecer um café ou um refrigerante como cortesia. O rosto do homem ficou vermelho e Kevin suspirou. Aquele cara daria trabalho. O Jasper’s tinha a política de tolerância zero, portanto, quando o homem levantou o traseiro do banco, Kevin fez sinal a Paulie e a viu revirar os olhos enquanto pegava o telefone. – Não estou bêbado e quero outra maldita dose de uísque! A mulher pôs a mão no braço dele como para sentá-lo de volta no banco. – Derek, vamos... – Quem você pensa que é para dizer que não posso tomar outra maldita dose de uísque? – A pose de machão do homem foi diluída pelas palavras engroladas. – Sou o cara que se reserva o direito de recusar servi-lo. – Beth, diga a esse babaca para me dar outro drinque. Kevin fez um sinal negativo com a cabeça. – Sem chances. Tudo aconteceu muito rápido. Kevin não tinha certeza se o homem estava tentando lhe dar um soco ou agarrá-lo pela camisa, mas seu cotovelo atingiu a acompanhante, derrubando-a. Ela não caiu, graças a um rapaz que estava sentado ao lado e que ficou aparentemente feliz por ter uma morena nos braços. Aquela situação distraiu Kevin o suficiente para que o bêbado acertasse um golpe fraco bem no queixo. O cara irritadinho, que a morena chamara de Derek, prendeu a respiração ao perceber o que havia feito. Kevin viu quando o instinto de luta tomou conta do rapaz. Para o azar dele, pois Kevin tinha quase 1,90m e muita experiência em lidar com brutamontes, fossem eles bandidos, na época em que ainda usava farda e distintivo, ou seus quatro sobrinhos


desordeiros. Ele agarrou o homem pelo colarinho através do balcão e puxou-o. Derek debateu-se como um peixe no anzol, e quando a mão de Kevin deu uma pequena escorregada da gola, ele usou toda a sua força para tentar se soltar. A cabeça de Derek sacudiu e seu nariz bateu na beirada do balcão. Oops! O homem gritou como uma criança e a multidão enlouqueceu. O Jasper’s não costumava atrair uma galera muito truculenta, mas todo mundo adora uma boa briga. “Boa briga” era relativo, é claro. Derek levou as mãos ao rosto, tentando estancar o sangue e soltou um guincho que fez alguns clientes estremecerem. – Cale a boca ou te levo a nocaute – avisou Kevin, o que, é claro, fez todos no bar cantarem “faça, faça…” – Ai, meu Deus, o nariz dele! – A acompanhante de Derek soltou-se dos braços do rapaz ao lado e pegou alguns guardanapos no balcão. Ela tentou colocá-los no nariz de Derek, mas ele se desviava. Os clientes do bar se aquietaram quando dois policiais surgiram na porta da frente. Os guinchos de dor de Derek mudaram para uma exclamação desesperada de “que droga!” quando os viu entrar. – Olá, Kowalski – cumprimentou o mais velho dos policiais. – Oi, Jonesy, seu pai gostou daqueles ingressos? – Está brincando? Décima fileira, de cara com a linha do gol? O velho ficou no paraíso. Pediu para te agradecer e mandou um abraço. – Foi um prazer – respondeu Kevin, ainda segurando o colarinho de Derek. Ele mantinha uma relação de amizade com a polícia de Boston, não apenas porque já fora policial, mas pelo fato de que qualquer bom comerciante o faria. Especialmente um comerciante que servia álcool. – Tenho um agitadinho aqui. – O que aconteceu com ele? – Bateu com o rosto no balcão. Você sabe como é. No instante em que Kevin soltou-o para que Jonesy pudesse levá-lo pelos pulsos, Derek teve a estúpida ideia de tentar escapar pela porta. O policial novato tentou impedi-lo no mesmo instante em que Beth também o fez. Ela, acidentalmente, ou foi o que pareceu, fez o jovem policial tropeçar e cair de cara no chão. Jonesy pulou sobre o parceiro e correu em disparada atrás de Derek.


Beth estava quase hiperventilando. O jovem policial levantou-se cambaleante e Jonesy capturou sua presa com um mergulho impressionante que fez a plateia urrar em aprovação. O novato pegou as algemas, contudo parecia que o homem irritadinho estava disposto a resistir. – Por que está fazendo isto com ele? O olhar de Kevin desviou-se para a mulher que parecia quase tão nervosa quanto seu acompanhante. – Eu não comecei a briga, moça. Já se esqueceu da parte em que ele te agrediu? – Ele não me agrediu. Só esbarrou em mim enquanto tentava te bater. Claro, aquilo era bem melhor. – E quanto às tentativas de te bolinar? Quantas vezes mais teria que dizer “não”? A mulher revirou os olhos. – Eu tinha tudo sob controle. – Não, agora está tudo sob controle. – Olhe, não é o que você… esqueça. Precisa ajudá-lo. Como Derek se encontrava sob os 90 quilos do policial veterano, que mantinha um joelho em sua cabeça enquanto o novato tentava colocar as algemas, não havia muito que Kevin pudesse fazer para ajudá-lo, mesmo se quisesse. O que não queria. – Não é o que está pensando – insistiu ela. – Vou processá-lo por tudo que fez, idiota – gritou Derek por sobre o ombro. – E você, sua vadia estúpida, está demitida! Oops! Kevin encarou Beth. – Achei que era apenas um encontro desagradável. Ela se sentou em um banco e encostou a testa no balcão do bar. – Você acaba de me fazer perder o emprego. Só os vários anos atrás do balcão, que o treinaram a filtrar os pensamentos antes de falá-los, o impediram de lembrá-la de que talvez ela ficasse melhor sem aquele emprego. – Quer uma cerveja? UMA CERVEJA? Será que aquele dono de bar metido a Rambo achava que uma cerveja iria consertar a confusão em que a metera? Beth Hansen fechou as


mãos em punhos para se impedir de pular o balcão e sacudir aquele homem como um martini. Derek era um bêbado idiota. Qual era a novidade nisso? Não era nada que ela não pudesse contornar. Na verdade, lidara com a mesma a situação uma semana antes, e vinha fazendo isso há pelo menos três meses. Após o trabalho, Derek saía do escritório e caminhava pela rua para tomar um drinque. Então, ligava para a secretária, que por acaso era ela, com uma desculpa esfarrapada, pedindo que fosse até o bar. Um documento que precisava ser assinado. Um fax que ele esquecera de ler e que precisava ser lido antes de chegar em casa, qualquer coisa do tipo. Ela aparecia no bar e Derek tentava seduzi-la. Beth o colocava em um táxi e, no dia seguinte, ambos fingiam que nada acontecera. Algumas vezes, como naquele dia, ele conseguia arrastá-la até um bar mesmo sendo fim de semana. Talvez não fossem as condições ideais de trabalho, mas Beth já tivera piores. Dessa vez, o bar preferido de Derek estava fechado para remodelação, então ele continuou andando até chegar ao Jasper’s Bar & Grille. Agora seu chefe tinha um nariz quebrado e ela perdera o emprego. Uma cerveja definitivamente não ajudaria. Beth ergueu a cabeça e apoiou o queixo nas mãos. – Precisava chamar a polícia? – Sim. – Poderia ter deixado para lá. Kevin apoiou as mãos no balcão e encarou-a. Deus, ele era alto. E não era só isso que chamava atenção. Além da altura, dos olhos azuis e das covinhas, ele tinha ombros largos, envoltos por uma camiseta antiga do Red Sox, e cabelo castanho displicente de um homem com cerca de 30 anos que não se preocupava muito com a aparência. – Moça, ele me deu um soco na cara. – Não foi bem um soco – resmungou ela, já que não podia negar aquele fato. – Eu já tinha quase o convencido a pegar um táxi, mas você precisava se meter e causar a maior confusão. – Ei, Kevin – chamou um rapaz. – Podemos fazer uma mimosa? – Isto é um bar esportivo, não um almoço de Páscoa – respondeu ele e voltou a atenção para Beth, sacudindo a cabeça negativamente. – Tudo o que fiz foi dizer a ele que não serviríamos mais bebida alcoólica. Não apenas tenho o direito de fazer isso, mas a obrigação quando vejo um


cliente visivelmente intoxicado. E não sou um sujeito de dar a outra face para bater quando recebo um soco. Kevin estava certo. Ele não tinha culpa de seu chefe ser um completo idiota, portanto acusá-lo talvez fosse um pouco de exagero. Mas a única diferença entre as outras vezes e essa fora a sua intervenção. – Mas não precisava quebrar o nariz dele. – Isso eu realmente não pretendia fazer. Ele meio que escorregou. – O sorriso maroto que ele deu era tão irresistível que Beth pôde sentir a raiva desaparecer. Estava prestes a responder quando Kevin ergueu um dos braços para alcançar a prateleira mais alta. Os músculos saltaram sob a camiseta e, quando ele pegou uma pilha de toalhas dobradas, um vão se abriu entre o cós da calça e a camiseta. Beth sentiu a boca secar ao ver os músculos do abdome. O que foi bom, pois ela esquecera mesmo o que iria dizer. Quando ele saiu de trás do balcão para limpar o sangue de Derek, Beth fez uma careta e mudou de banco. Não que estivesse enjoada, mas porque o cheiro de Kevin era tão bom quanto sua aparência. E quanto mais se aproximava, mais bonito ficava. Então, sem aviso prévio, sua visão foi bloqueada por uma loura, cuja indumentária faria Daisy Duke parecer uma freira. A mulher entregou a Kevin o que parecia um guardanapo com a marca de um beijo na mesma cor do batom que usava. – Oi, Kevin – sussurrou a loura no mesmo tom que Marilyn Monroe usou ao cantar “parabéns para você” para o presidente Kennedy. – Este é o meu número. Você sabe… caso queira me ligar ou algo assim. Ele piscou para a loura e pegou o guardanapo. – Obrigado, boneca, acho que farei isso. Beth conseguiu se segurar até a Barbie loura sair pela porta, então revirou os olhos. – Boneca? Bela cantada, garanhão. – Ei, fazer as mulheres felizes é bom para os negócios. – Claro, e aposto que você é o homem certo para essa tarefa. Deveria ir atrás dela. Parece fazer o seu tipo. Aquele comentário apagou o charme de garoto travesso do rosto de Kevin. – O que a faz pensar que sabe qual é o meu tipo?


Beth deu de ombros, deixando claro que não dava a mínima importância ao assunto. – Cuidado para não manchar o guardanapo da loura. E, falando em negócios, preciso encontrar outro emprego agora. – Estou me sentindo péssimo por isto, mesmo não sendo culpa minha. – Vou superar. – Beth desceu do banco e começou a caminhar em direção à porta. – Tenha uma ótima vida. Boneca! KEVIN SORRIU para a mulher que segurava a câmera. E então sorriu de novo. E de novo. E de novo… – Está bem – disse a fotógrafa autoritária. – Agora algumas da noiva com as madrinhas. Depois vamos tirar do noivo e com os irmãos. Com olhares de alívio, Kevin e seus irmãos, Joe e Mike, juntamente ao cunhado Evan, afastaram-se das empolgadas mulheres. Estavam na sessão de fotos há mais de vinte minutos e, mesmo sendo início de outubro, fazia calor demais para usar smoking. A recepção de Joe aconteceu em um hotel luxuoso especializado em festas de casamento. Até onde Kevin sabia, isso significava que havia uma porção de lugares onde poderiam tirar fotos. Em frente ao jardim. Em frente ao chafariz. Sob o gazebo. Em frente ao lago… Sua mandíbula já estava começando a doer. Mike afrouxou o colarinho, mas não o suficiente para que a sargento atrás da câmera berrasse com ele. – Estou pronto para atacar o bar. Kevin assentiu sutilmente, já que a mãe estava lançando aquele olhar que dizia “estou de olho em vocês”. – Joe, juro por Deus, se eles não se apressarem, suas fotos de casamento vão parecer mais com um catálogo para vender cuecas. – Se eu soubesse que iriam ficar reclamando como duas donzelas, teria convidado vocês para serem damas de honra em vez de meus padrinhos. Ficariam lindos naqueles vestidos. – Não me obrigue a te bater no dia de seu casamento – resmungou Kevin. – Terry com certeza está linda naquele vestido – comentou Evan. – Faz você querer… – Não! – exclamaram os três irmãos.


– Odeio isto – disse o cunhado. – Nunca posso compartilhar as coisas boas. Mike soltou uma risada. – Joey e Danny já têm idade suficiente para tomar conta dos irmãos mais velhos em um quarto separado. Portanto, Lisa e eu faremos coisas boas mais tarde. Devia ser ótimo. Após o casamento, todos subiriam para os respectivos quartos para fazer coisas boas. Joe e sua linda noiva, Keri. Mike e Lisa. Evan e Terry. Já Kevin estava desacompanhado, então, a única coisa boa que poderia fazer era perder a faixa do smoking e os sapatos caros. Passaram-se alguns anos desde que o casamento de Kevin explodira em uma nuvem de fumaça tóxica, acabando também com sua carreira na polícia. A partir de então, sua libido sobrevivera com uma dieta de coelhinhas de bar. Pouco satisfatório, mas muito menos arriscado. Era como se alimentar com comida de micro-ondas em vez de preparar um banquete. Bem mais fácil de descartar caso não desse certo. Kevin teve sua cota de companheiras interessadas quando comprou o bar, logo após o divórcio, mas nos últimos tempos voltava sozinho para o seu apartamento na maioria das vezes. Uma mulher que desejava passar a noite com um cara desconhecido só por ele ser bonito, ou era o que lhe diziam, e dono de um bar, não era o tipo de mulher que Kevin queria ter ao seu lado na mesa de café da manhã no dia seguinte. E, com certeza, não era o tipo de mulher que se levava ao casamento do irmão. Infelizmente, esses pensamentos sempre levavam a Beth, a linda morena que julgara completamente errado o seu tipo de mulher. Já haviam se passado dois dias desde que quebrara o nariz do chefe dela, e o fato de ainda pensar em Beth o incomodava. Também o irritava saber que ela fora embora com a impressão de que ele era algum tipo de conquistador barato. Se ela não fosse tão irritadiça e se ao menos soubesse seu sobrenome ou onde morava, adoraria ter a oportunidade de provar que estava errada sobre seu tipo de mulher. Não sabia por que se importava tanto com a opinião da morena, mas estava incomodado por ela ter partido com uma péssima opinião ao seu respeito. Não estava acostumado a isso. – Está quase na nossa vez – anunciou Joe, arrancando-o de seus devaneios. – E depois poderemos ir lá para dentro. E fazer mais… coisas de


casamento. Não importa. O fato é que Keri está explodindo de felicidade. Então vale a pena. – Você também está – replicou Mike. – Até agora não entendi como conseguiu fazer tudo isto. – Chama-se cheque em branco, meu amigo. Keri queria casar no outono e eu não estava disposto a esperar um ano para tê-la como esposa. Então disse as palavras mágicas “dinheiro não é problema”. O irmão não costumava alardear o fato de ter ganhado muito dinheiro com seus livros de terror, mas um cheque em branco dele era, com certeza, um cheque e tanto. A sargento da câmera gritou por eles. – Muito bem, quero os padrinhos alinhados atrás do noivo, dez centímetros de distância entre vocês e ligeiramente inclinados para a câmera. Você aí, o mais alto, fique atrás. Dane-se tudo isso. Kevin envolveu os ombros de Joe e deu-lhe uma gravata. Joe tentou escapar pulando para a direita, mas caiu na armadilha de Mike que lhe deu um cascudo. Evan riu e acrescentou orelhas de coelho em Joe. A fotógrafa quase deixou cair a sofisticada câmera, mas as mães dos noivos estavam pressionando os botões das máquinas fotográficas o mais rápido que seus dedos conseguiam. – Fotos Radicais do Casamento Kowalski – gritou a noiva, e os quatro filhos de Mike e a filha de Terry se juntaram ao coro. Todos ainda estavam rindo, sem fôlego e um pouco suados, quando a organizadora do casamento os conduziu para dentro. Felizmente, os smokings escondiam as marcas de grama, mas o vestido de Stephanie perdeu alguns laços em torno da bainha. Deviam se encaminhar à mesa principal, mas ainda teriam os brindes, danças formais e mais fotos assustadoras antes que a festa realmente começasse e Kevin não passaria por tudo isso com nada além de uma taça de champanhe nas mãos. Com uma cerveja em mente e uma possível parceira de dança ruiva em sua linha de visão, ele deu uma rápida escapada até o bar. E ficou cara a cara com Beth.


CAPÍTULO 2

DE TODOS os casamentos do mundo, Beth tinha de estar trabalhando justamente naquele. Ela deu uma olhada para Kevin em seu smoking e soube que aquela seria uma longa noite. Smoking significava festa de casamento, que por sua vez significava que ele não só estaria presente durante todo o evento, como também deveria ser um convidado VIP. O que por sua vez significava que precisaria sorrir e ser gentil com o idiota que fora o culpado por ela estar administrando aquele open bar das 18h à 1h em vez de estar deitada com os pés para cima após passar o dia atendendo os telefonemas de Derek e cuidando de sua agenda. Beth sentiu uma onda de calor no peito quando aqueles olhos azuis encontraram os seus. Ela fora bem desagradável na noite em que se conheceram e se sentia mal por isso. Mas o calor que sentia era, principalmente, pelo que Kevin havia feito com ela no sonho que tivera na noite anterior. Pela manhã, pôs a culpa no burrito de micro-ondas que devorou antes de se deitar. Mas agora, com aquele homem novamente a um passo de distância, precisava admitir, apenas para si mesma, que talvez se sentisse atraída por ele. Mas só um pouquinho! Até porque, mesmo que estivesse à procura de um relacionamento, não seria com um homem que colecionava números de telefone em guardanapos manchados de batom. Portanto, era melhor culpar a picante comida pseudomexicana. – O que vai querer, senhor? – perguntou Beth, na esperança que ele não a reconhecesse.


A forma como as covinhas flertaram com os cantos daquela boca constataram o contrário. – Cerveja. Beth pegou uma garrafa gelada e retirou a tampa. – Copo? – Pode ser na garrafa. – Em vez de esperar Beth colocar a garrafa no balcão, Kevin a pegou da mão dela, o que fez seus dedos se tocarem, causando um arrepio em Beth. – Fico feliz em saber que encontrou outro emprego. Beth deu de ombros e tentou não dar muita importância ao afastar a mão da dele. – É um emprego de meio expediente e temporário, mas é melhor do que nada. – Pode me emprestar seu celular por um segundo. – Não tenho celular. – Não que fosse entregar a ele. Não precisava que Kevin gravasse seu número. Afinal, não ligaria mesmo. – Você não tem… – Tio Kevin. – Um adolescente de smoking agarrou-o pelo cotovelo. – A vovó disse que se não estiver sentado em dez segundos, ela vai te arrastar pelas orelhas e fazer você chorar. Kevin riu e piscou para Beth. – Eu voltarei. Era o que ela temia. Infelizmente, tudo ficaria calmo no bar até que os brindes acabassem e as pessoas ficassem livres para circular, portanto não lhe restava nada a fazer senão observar a cerimônia. Quando o DJ anunciou que chegara a hora do brinde dos padrinhos, Beth viu Kevin dar uma risada, deixando o noivo bastante nervoso. Intrigada, ficou na ponta dos pés, tentando ver através dos convidados que se aglomeravam no espaço de filmagem. Kevin aceitou o microfone que o pai lhe ofereceu e algumas pessoas riram quando outro homem, que parecia ser outro irmão, pegou mais um microfone. – Eu já lhe disse que você é meu herói? – perguntou Kevin a Joe. Em seguida, ajoelhou-se em frente ao noivo. O outro irmão ficou atrás com os quatro filhos. Ao menos foi o que Beth supôs ao vê-los todos juntos. E então os padrinhos começaram a cantar e os risos preencheram o salão. Pelo visto, além de olhos azuis e covinhas, ser desafinado era um traço genético dos Kowalski.


Mas observar Kevin cantar a pior versão que já existiu de “Wind Beneath My Wings” para o irmão, com o outro irmão e os sobrinhos em coro, fez Beth sentir sintomas alarmantes de um caso grave de carinho e admiração. E só piorou ao vê-lo interagir com a família, em especial dançando com a mãe e com a adolescente que Beth deduziu ser sua sobrinha. A família era grande, afetuosa, barulhenta e suas gargalhadas foram a trilha sonora da noite. Depois que as danças formais terminaram e os pratos do jantar foram retirados, Beth perdeu a noção de tempo enquanto servia mimosas e cervejas para os convidados. Quando os idosos e as crianças fossem para seus quartos, os drinques ficariam mais fortes. Até então o trabalho estava fácil. – Então você não tem mesmo um celular? Quer dizer, seria mais fácil se seu corpo não capturasse como uma antena a vibração que Kevin emitia. – Realmente não tenho. Quer outra cerveja? Kevin ergueu uma garrafa pela metade. – Já estou servido. Mike pegou uma para mim. Então o que está fazendo aqui? – Está bem. – Até minha mãe tem um celular, e ela nem consegue ler e-mails. – Por que está tão fixado no fato de eu não ter um celular? – Fixado? – Ele deu uma risada. – Fixo. Celular. Entendeu? Beth revirou os olhos, mas não conseguiu deixar de rir. – Esta foi péssima. E eu lavei o celular com minha calça jeans e ainda não comprei outro. – Tem um telefone fixo? – Tenho. – Ela se virou e preparou outra mimosa para a mulher radiante que julgou ser a mãe da noiva. Quando terminou, Kevin deslizou um guardanapo em sua direção. – Tem uma caneta? Havia uma perto da registradora, mas quando Beth a entregou para ele, Kevin ignorou. Apenas sorriu, com aqueles lindos olhos azuis e covinhas charmosas. – Ah, não! Sem chances de eu escrever meu número em um guardanapo para você acrescentar à sua coleção. – Não tenho uma coleção porque não quero o número delas. Quero o seu.


Antes que Beth pudesse responder, outro menino correu e agarrou o braço de Kevin. – Tio, está na hora de cortar o bolo! Beth usou o guardanapo para limpar o balcão e o jogou no lixo. Afinal, estava ali para trabalhar, não para receber cantadas de um cara que pensava que suas covinhas iriam fazê-la se atirar em seus braços. As covinhas não fariam. Mas o pacote completo, talvez. A aparência, o senso de humor, além do carinho que dava à família. Tudo isso, sem contar a forma eletrizante com que a olhava. Porém, ela não seria mais um número no guardanapo de alguém. ERAM QUASE 2h quando os funcionários foram dispensados do serviço e Beth suspirou aliviada enquanto retirava o elástico que prendia o cabelo. Tinha sido uma noite e tanto. Kevin Kowalski era persistente, não podia negar. Ela o tratou com o mais absoluto profissionalismo até que ele pareceu ter captado a mensagem. Mesmo assim, sempre que seus olhos pousavam nele, o que acontecera mais vezes do que gostaria de admitir, ele a estava observando. Quando as luzes diminuíram, sinalizando aos últimos convidados que a festa havia acabado e que era hora de dar o fora, Kevin lançou um último olhar convidativo. Beth virou de costas, fingindo estar ocupada com o carrinho de bebidas, e quando voltou a olhar ele havia partido. O telefone público a aguardava para chamar o táxi que a levaria para casa, para sua cama, mas primeiro Beth saiu pela porta dos fundos e caminhou em direção ao lago. O jardim era lindo e, agora, com as luzes da festa apagadas, a lua dançava sobre as águas tremulantes. Aquela calmaria a ajudava a relaxar. – Você fica linda à luz do luar. Beth não gritou, mas seu coração deu um salto no peito. Porque ele a assustou, claro, não tinha nada a ver com as palavras de Kevin, ditas com a voz que um homem normalmente usa quando está na cama com uma mulher. Ele estava sentado em um muro de pedra com uma garrafa de cerveja pela metade. As longas pernas esticadas e cruzadas à altura dos tornozelos. O paletó do smoking, a gravata borboleta e a faixa da cintura haviam sido descartados em algum lugar, a camisa branca estava desabotoada,


deixando o peito exposto ao vento frio da noite. Beth tentou não lhe dar a satisfação de ficar olhando, mas o largo peitoral abria caminho para um abdome que ela teria de estar morta para não desejar alisar. Ao menos Kevin não se vangloriou por ter sido tão obviamente cobiçado. Apenas se abaixou e pegou uma garrafa de cerveja fechada. Após tirar a tampa, ofereceu-a a ela. Beth não deveria aceitar. Mesmo já tendo terminado o serviço, ainda era uma funcionária e ele um convidado. Mas havia algo tão solitário nele, bem diferente da habitual expressão divertida, que ela não conseguiu recusar. – Obrigada. – Sentou-se no muro, mais afastada possível dele, e tomou um gole. Envolta em sombras, observando a luz da lua tremular sobre a água, não fazia ideia do que deveria dizer. Então Kevin sorriu e, mesmo no escuro, Beth pôde ver aquelas covinhas de menino travesso. – Sua chefe disse que tentamos te livrar do trabalho para uma dança? – Ah, meu Deus, o que você fez? – Apesar de não ter sido realmente o culpado por fazê-la perder o outro emprego, se fosse demitida novamente porque Kevin meteu o nariz onde não foi chamado, teria que providenciar uma ordem de restrição para continuar empregada. – Joe, o noivo, que é meu irmão mais velho, perguntou à sua chefe se você poderia deixar o bar tempo suficiente para uma dança. Ela recusou, então ele ofereceu pagamento extra. Foi aí que ela ficou realmente zangada e nos informou que “isto não é um baile de escola e as moças que trabalham para mim não estão aqui para serem alugadas”. A voz de senhora esnobe que Kevin usou para imitar sua chefe a fez dar uma risada, apesar de ter ficado chocada com o que eles fizeram. – E por que Joe fez isso? – Porque eu queria dançar com você. A simplicidade da resposta a fez estremecer, e a mistura de desejo com os vestígios de carinho e admiração era muito perigosa. – Eu contei pelo menos umas 12 mulheres com quem poderia dançar sem precisar pagar um centavo. Os olhos de Kevin estavam sérios quando ele a encarou. – Não sou esse cara. – Que cara? – Esse que você pensa que sou.


A única coisa que Beth tinha certeza era que estava feito louca tentando não desejar esse cara e, aparentemente, fazendo um péssimo trabalho. – Não penso nada, mal o conheço. – Dance comigo agora. Beth deu uma risada que soou alta na quietude da noite. – Eu não danço há anos. Kevin largou a cerveja, segurou uma das mãos dela e a puxou para seus braços. Beth também deixou a garrafa no muro para não derramar cerveja nas costas dele. Até tentou resistir, mas sabia que era uma causa perdida. Envolver aqueles ombros largos com os braços era inevitável. Quando Beth cruzou os dedos atrás da nuca de Kevin, ele a segurou pela cintura e a puxou mais para perto. – Não dança na cozinha, você sabe, quando está sozinha? – Não. Nunca dancei na cozinha, mesmo quando ninguém está olhando. – Deveria. Faz bem à alma. Não. Bom para a alma era balançar naqueles braços fortes ao som da música da noite, envoltos pelo luar refletido na água. Bem, talvez não para a alma, mas com certeza para o corpo. ��� Vai ficar toda irritadinha se eu tentar te beijar? Beth inclinou a cabeça para conseguir encará-lo. – Acho que vai depender do quão bem você beija. Os olhos de Kevin faiscaram pelo desafio e pelo convite. Então enterrou os dedos no cabelo dela, deixando sua cabeça no ângulo exato. Beth fechou os olhos e deu um suspiro quando sentiu os lábios de Kevin tocarem os dela, um som suave e ofegante que ela não acreditou ter saído de sua garganta. O homem sabia beijar. E quando a intensidade daquele momento se misturou às lembranças nebulosas do sonho que tivera, seu corpo tremeu de desejo. – Fique comigo esta noite – sussurrou ele de encontro à sua boca. A voz da razão até tentou argumentar contra aquele convite ousado, mas Beth não lhe deu ouvidos. – Sim. Kevin segurou-a pela mão e, depois que pegaram as garrafas de cerveja, correram pelo gramado. Diminuíram o passo no saguão e, enquanto jogavam as garrafas no lixo, Beth rezou para não encontrar nenhum funcionário. E tentaram ao máximo se comportar no elevador.


Kevin conseguiu abrir a porta do quarto com uma das mãos. A outra, ainda segurava a dela. Depois, fechou-a e pressionou Beth contra a madeira. – Vê-la esta noite e não poder tocá-la estava me matando – disse ele, abaixando os lábios de encontro aos dela. Beth envolveu o pescoço dele com os braços e se perdeu naquele beijo, consciente de que, enquanto as línguas de ambos dançavam, ele tentava desabotoar sua blusa com uma das mãos. Já fazia muito tempo que não era beijada, muito menos ter as mãos de um homem deslizando por seu corpo. Então afastou a mão dele para agilizar o processo. Conforme as respirações se misturavam e as línguas se tocavam, Beth desabotoou a própria blusa, depois deslizou os dedos pelo peito dele, sentindo os músculos sólidos se contorcerem ao seu toque. Então as mãos fortes de Kevin estavam em seus ombros, tirando sua blusa. Deixou-a deslizar por seus braços até que caísse no chão. Em seguida, foi a vez do sutiã. O olhar de Kevin que percorreu seu corpo era tão ardente quanto o toque. A camisa dele juntou-se à dela no chão. E em seguida, antes que Beth terminasse de admirar a beleza daquele peito nu, as mãos e a boca de Kevin estavam mais uma vez sobre ela. Quando a ergueu do chão, ela lhe envolveu a cintura com as pernas e abraçou-o pelo pescoço. Os beijos se tornaram mais exigentes e Beth não conseguia parar de gemer quando ele voltou a pressioná-la contra a porta. A sensação da madeira em sua pele e do quadril dele entre suas coxas faziam seu corpo vibrar de antecipação. Kevin abaixou a cabeça e deslizou a língua por um de seus seios, sugando um mamilo enrijecido e depois o outro. – Você é tão… incrivelmente… deliciosa. Beth não queria falar. Queria aqueles quadris se movendo contra os dela como quando estavam dançando ao luar, mas sem nenhuma roupa entre eles. Como se pudesse ler seus pensamentos, Kevin carregou-a até a cama. Beth riu quando foi deitada no colchão, mas parou assim que ele tirou a calça e a cueca boxer com um só movimento. Ah, sim, ficar foi definitivamente a decisão certa. Minutos depois, ele havia deixado Beth completamente nua e tão desesperada, que assustou a si mesma com o gemido frustrado que


escapou de sua garganta. Kevin apenas riu e continuou a provocá-la com beijos, lambidas e toques, mas não o suficiente para dar ao seu corpo o que realmente desejava. Por fim, quando ela estava certa de que ficaria louca, Beth ouviu o som da embalagem de um preservativo sendo aberta. Kevin posicionou-se entre as coxas dela e sustentou o peso do corpo nos antebraços para que pudesse observá-la. Seu sorriso era gentil, mas o rosto estava vermelho e o olhar repleto de malícia. Por um segundo, pensou que ele a provocaria um pouco mais, o que provavelmente a faria gritar, mas, em vez disso, ele a beijou. Beth enterrou os dedos no cabelo de Kevin enquanto ele deslizava uma das mãos entre os corpos para lhe dar o que tanto desejava. Ambos gemeram quando ele a penetrou, os sussurros se misturando nos lábios unidos. Kevin movia-se devagar, com investidas curtas e gentis. Beth suspendeu os quadris, saboreando a doce fricção enquanto ele murmurava em seu ouvido que ela era deliciosa, que aquilo era maravilhoso e que desejava que a noite nunca chegasse ao fim. Quando o ritmo começou a acelerar, Beth deslizou as mãos pelas costas dele, sentindo a leve camada de suor e a forma como os músculos reagiam ao seu toque. Estava se afogando nas profundezas daqueles olhos azuis e cerrou os seus quando sentiu os primeiros espasmos do tão esperado orgasmo. Um instante depois, ouviu-o gemer ao encontrar o próprio alívio. Conforme os tremores iam cessando, Kevin deitou em cima dela, um peso quente e intenso que não a incomodava. Ele beijou a lateral do pescoço de Beth, que sorriu, acariciando seu cabelo. Ficaram assim por alguns minutos, tentando recuperar o fôlego, até Kevin rolar para o lado. Sentiu a cama tremer e, em seguida, ele a puxou para perto. – Fico feliz que tenha ficado – disse ele de encontro ao seu cabelo. – Eu também. – Muito, muito feliz. UMA NOITE de pé, seguida de uma madrugada com Kevin sobre ela, a fizeram acordar cedo demais, o estômago roncando em protesto. Rosquinhas, pensou. Sairia de fininho até onde serviam o café da manhã, pegaria algumas rosquinhas e um pouco de cafeína da garrafa térmica e voltaria antes que Kevin acordasse.


Levou alguns minutos até encontrar as roupas e, quando estava vestida, foi procurar nas de Kevin o cartão que abria a porta do quarto. E encontrou guardanapos. Os guardanapos que ela servia junto aos drinques. Contudo, agora estavam rabiscados com nomes e telefones. Sem falar das observações engraçadas: Sou uma ex-ginasta e ainda consigo enroscar os tornozelos atrás da cabeça. Me ligue! Quando Beth bufou, Kevin rolou de lado com os olhos semiabertos. – Feche a porta quando sair. Beth congelou quando todo o calor deixou seu corpo em uma explosão de decepção. Isso porque ele não era esse cara. Não perdeu mais tempo procurando o cartão. Saiu para o corredor e bateu a porta atrás de si, jurando nunca mais ver aquele homem. E, dessa vez, ela estava falando sério!


CAPÍTULO 3

TRÊS SEMANAS depois, Beth dava voltas na farmácia. Passara dez minutos analisando protetores labiais. Outros cinco minutos sentido o cheiro de odorizadores baratos. Quinze minutos procurando um cartão para o aniversário da mãe, que seria dali a três meses. Tudo para evitar o seu verdadeiro destino: a parte de produtos femininos. Aquela que vendia absorventes, coisas de higiene íntima e cremes. E testes de gravidez. Haviam usado preservativo. E sua menstruação só estava uma semana atrasada. Devia ser por causa do estresse. O melhor a fazer era pegar o protetor labial, o cartão de aniversário da mãe e sua paranoia e voltar para casa. Mas seu ciclo tinha a precisão de um relógio suíço. E preservativos eram apenas 98 por cento seguros, o que significava uma taxa de falha de 2 por cento. E Beth tinha o terrível pressentimento de que as estatísticas estavam prestes a lhe dar uma rasteira. Levou apenas alguns minutos para encontrar o kit com o teste de gravidez que prometia precisão a partir do primeiro dia de atraso do ciclo, e mais cinco minutos para chegar em casa. O cheiro atingiu as narinas de Beth assim que chegou ao segundo lance de escadas e virou no corredor que dava para seu apartamento. Urina de gato misturada a pobreza. Era para estar acostumada, já que morava no prédio havia três meses, mas ainda não adquirira imunidade ao odor. Era um alívio ter planejado estar na próxima cidade antes que o verão chegasse. Mas e se aparecessem dois traços azuis no teste de gravidez?


A chave já estava na mão para reduzir o tempo que passaria no corredor e ela fechou a porta no segundo em que entrou no apartamento. Não estava mais quente ali dentro, graças ao senhorio que pensava que caldeiras antigas e falta de isolamento eram suficientes para o inverno de New Hampshire, mas o odor era bem mais agradável. Graças ao seu trabalho árduo, não ao senhorio. Beth jogou a sacola de compras sobre a mesa de jogos, que às vezes usava como mesa de jantar, e se sentou na cadeira de balanço antiga, que encontrara na calçada, para tirar os sapatos. A única outra peça de mobília no apartamento, além de uma cadeira de metal dobrável que fazia conjunto com a mesa de jogos, era a cama de solteiro que comprara no brechó. Todos os móveis seriam doados quando estivesse pronta para entrar em um ônibus novamente, dali a três ou quatro meses. Ou quando lhe desse na telha. A menos que aparecessem dois traços azuis. Ela não podia ter um bebê. Um bebê significava uma casa. Uma casa de verdade, não um apartamento barato ou um quarto de motel de beira de estrada. E uma minivan. Todas as mães dirigiam minivans. Beth nem tinha um carro. Muito menos um adequado para uma criança. Gostava de andar de ônibus. Pararia em uma pequena cidade que gostasse, encontraria um emprego e um lugar para viver e então ganharia dinheiro suficiente para se mudar para outro lugar. Aquele estilo de vida transformava a tarefa de declarar o imposto de renda em um pesadelo, mas ela amava. Chegar em uma nova cidade sem nada a não ser uma mochila e uma pequena mala era como começar do zero uma ou duas vezes ao ano. Ninguém para dar satisfação, principalmente aos seus pais. Deixar o ninho deles e manter o seu em movimento os impedia de a controlarem demais. Beth perdeu todo o tempo que podia. O apartamento estava um brinco, mas ainda tinha que lavar a cafeteira e uma colher. Separou a roupa para lavar, verificando os bolsos com cuidado, já que lavara seu último celular. Não fora nada demais, pois o idiota do Derek lhe dera um novo. Mas o tomou de volta. Sempre tinha um telefone fixo, no entanto, só para agradar o pai. Inclusive, ele a persuadira a manter um cartão de crédito com limite baixo, que raramente utilizava, só para ter algo no relatório de bens, no caso de um dia crescer e querer comprar uma casa. O que o pai não parecia


entender era que, tê-los deixado para trás, abandonando o modo de vida que levava, era a única forma de conseguir crescer. Quando não havia nada mais que a distraísse, Beth abriu a embalagem do teste de gravidez e leu as instruções. E... o telefone tocou. Só podia ser sua chefe ou seus pais. – Alô? – Você pretende vir para casa no feriado? Sua mãe nunca dizia alô. Apenas abria a boca e deixava o fluxo de pensamentos jorrar. – Ainda não tenho certeza. Na verdade, não tinha certeza de nada com aquela maldita embalagem esperando sobre a mesa. Costumava pegar o ônibus para a Flórida pelo menos duas vezes por ano para visitar os pais, sendo uma delas no Natal. – Adelle e Bob querem que viajemos com eles em um cruzeiro porque os Donaldson iriam, mas tiveram de cancelar no último minuto. Eles podem transferir os bilhetes para nós, mas o cruzeiro é daqui a seis semanas. Pode acreditar nisso? Seis semanas! Já ouviu falar em uma coisa dessas? – Quem vai cobrir suas aulas de dança? E as aulas de tricô? E as outras bilhões de aulas que você dá? Beth ouviu o característico suspiro de Shelly Hansen do outro lado da linha. – Seu pai acha que preciso desacelerar um pouco. Nós não estamos ficando mais jovens, sabia? – Você só tem 52 anos, mãe. – Naquele instante, a realidade a atingiu. Estava com 26 anos. A exata idade que a mãe tinha quando deu à luz sua única filha que nascera prematura. – Droga! – O que foi? Algo errado? – Não, eu… dei uma topada. – Estava na ponta da língua. A necessidade de deitar a cabeça no ombro da mãe, mesmo por telefone. Mas não havia feito o teste, portanto, não tinha certeza e detestaria lhe dar falsas esperanças. Apesar de tê-los desapontado ao deixar o emprego na escola para virar uma nômade, os pais a amavam incondicionalmente e um netinho os deixaria extasiados. Certamente adorariam saber que ela encontrara um motivo irrevogável para crescer. E sempre havia a possibilidade de eles deixarem tudo para trás e aparecerem à sua porta. Os problemas de ser a única filha sobrevivente de cinco gestações? Cerceamento, superproteção sufocante e monitoramento.


Com a quantidade de abraços e apertos que recebera quando criança, Beth ficara surpresa por ter conseguido respirar o suficiente. Depois, vieram os anos de adolescência. Onde estava? Quando chegaria em casa? Os telefonemas constantes. E só piorou quando Beth começou a trabalhar na escola. Foi então que resolveu fazer sua primeira mala e pegar um ônibus. Não para cortar o relacionamento claustrofóbico com os pais, mas para preservá-lo. – Sobre o cruzeiro… Beth sorriu, imaginando a mãe com a unha do polegar nos dentes. – Acho que vocês devem ir, mãe. De verdade. Onde estou trabalhando agora é muito agitado nesta época, com os eventos natalinos e tudo mais. – Tem certeza? Podemos ir em outra ocasião. – Certeza absoluta. Viajem com Bob e Adelle enquanto podem. Sabe muito bem que você e o papai ficariam entediados se fossem apenas os dois. Mande cartões-postais. – Você não vai se mudar enquanto estivermos viajando, certo? Aquele comentário a fez dar uma risada e ouviu outro suspiro da mãe. – Não. Ficarei aqui para que vocês não precisem se preocupar comigo. Elas conversaram um pouco mais sobre a vida na comunidade de aposentados na Flórida. Eles viviam no lado dos mais jovens. O pai era um negociante esperto e bem-sucedido, mas aquela vida os agradava tanto quanto a de nômade agradava Beth. – Seu pai está me esperando. Ele tem um cupom para o restaurante de saladas, mas só vale até certo horário. Depois que a mãe garantiu inúmeras vezes que o celular funcionaria no navio, elas se despediram, e nada mais restava a não ser fazer o maldito teste. Três minutos mais tarde, dois traços azuis apareceram. O futuro passou em um flash em sua mente. Fraldas. Minivans. E Kevin Kowalski. EU CONSIGO sugar uma bola de golfe através de uma mangueira de jardim. Me ligue! Como Kevin era um cavalheiro, piscou e acenou para a mulher em vez de lhe dizer que aquela habilidade não parecia assim tão sexy. Aguardou até ela ir embora antes de amassar o papel e jogá-lo na direção de Paulie.


Passou-se quase um minuto até ela parar de rir. – Seria mais barato usar o aspirador de pó quando quisesse transar. Kevin deu de ombros e pegou o guardanapo de volta, jogando-o na cesta que Paulie mantinha próxima à registradora exclusivamente para essa finalidade. Os rapazes iam adorar esse bilhete. – Você deveria anotar o telefone dela – disse Paulie. – Poderia ser útil caso a pia entupa de novo. Ela ainda estava rindo quando se afastou com uma bandeja de drinques. Kevin deu um tapa em seu traseiro e a despachou. Paulie Reed era sua assistente, garçonete, gerente e atraía a clientela. Tinha cabelo ruivo exuberante e seios tão fartos que um homem poderia se sufocar entre eles. A cintura era fina e as pernas intermináveis. Além de tudo isso, conhecia as regras de todos os jogos e a história dos jogadores. Era o sonho dourado de todos os frequentadores masculinos de um bar esportivo. Mas se algu��m encostasse a mão nela, provavelmente ficaria impossibilitado de erguer sequer um garfo por algum tempo. Ela viera junto com o bar quando Kevin o comprou. Precisou de apenas cinco minutos para perceber que ela valia cada centavo que recebia de Jasper, e de alguns dias e um beijo mutuamente decepcionante para ter certeza de que, apesar de Paulie ser uma das mulheres mais sensuais que já conhecera, a química sexual entre eles era zero. E por falar em química sexual, Kevin ergueu os olhos bem a tempo de ver Beth entrando no bar, e a lembrança da noite que passaram juntos causou um efeito imediato em sua anatomia. Parecia estar indo ou voltando do trabalho. Mesmo com aquela blusa branca e calça preta, atrairia a sua atenção. Infelizmente, ela já havia atraído sua atenção e depois o virara pelo avesso com aquela ceninha de Cinderela. Antes mesmo de abrir os olhos na manhã seguinte, Kevin estava ansioso para tomar café da manhã ao lado dela. E talvez o café da manhã do dia seguinte também. Em vez disso, ela fora embora. Sem deixar qualquer bilhete. Nenhum telefone. Nada. As pessoas para as quais ela trabalhava não lhe forneceram nenhuma maldita informação. Pensou várias vezes em ligar para o seu amigo, o policial Jonesy. Se o nome dela constasse nos registros da prisão daquele idiota do Derek, talvez Jonesy aceitaria lhe dar a informação em troca de mais uns ingressos para o jogo dos Celtics.


Contudo, o orgulho o impediu. Se Beth quisesse vê-lo de novo, teria deixado um meio de entrar em contato. Agora, depois de quase um mês, ela estava de volta. – Olá, sumida – disse ele quando Beth subiu em um dos bancos. – Oi. Desculpe não ter deixado nenhum bilhete no travesseiro. Não achei que valeria muito a pena, já que não levaria a nada. Poderia ter levado a alguma coisa se ela não o tivesse descartado como um guardanapo usado. – Eu esperava que tivesse durado pelo menos até o café da manhã. Beth deu uma risada breve. – Se quisesse que eu ficasse para o café da manhã, não deveria ter me dito para fechar a porta ao sair. Ele disse o quê? – Não me lembro de nada disso. – E nem se deu o trabalho de abrir os olhos totalmente. Falou a instrução e voltou a roncar. Kevin teria se estapeado se ela não estivesse na sua frente, encarando-o. – Olhe, eu estava dormindo. Juro, meus planos eram levá-la para tomar café da manhã. Queria conhecê-la melhor e descobrir quando poderia vê-la de novo. Beth não acreditava em uma palavra do que ele disse. Kevin podia notar pela expressão em seu rosto. – Então devo ficar feliz por não ter me expulsado? Era uma armadilha. Não muito óbvia, mas o tom de sua voz e a linguagem corporal sugeriam que ele estava a um passo do precipício. – Não sei se ficará feliz em saber, mas eu queria que ficasse. – Claro, fico muito feliz em saber que dormi com um homem que descarta tantas mulheres na manhã seguinte, que já dá as instruções literalmente de olhos fechados. – Ora, vamos, Beth, sou um homem solteiro. Dono de um bar esportivo. Moro logo aqui em cima. Você sabia que eu não era virgem. – Sabia. Só não imaginava que era um… – Ela parou e ergueu uma sobrancelha. – Esqueça. Esqueça o quê? Ele não queria esquecer. Queria saber o que fizera para merecer uma opinião tão ruim ao seu respeito. Por azar, Paulie escolheu aquele exato momento para aparecer ao seu lado, obviamente esperando uma apresentação. Ele não deveria ter contado sobre aquela noite.


– Esta é Paulie – disse ele a contragosto. – Minha gerente. Paulie, esta é Beth. Ela é… bem, você se lembra. Eu quebrei o nariz do chefe dela algumas semanas atrás. O que ele deveria dizer? Esta é a mulher sobre a qual lhe falei? Aquela que pensei ser especial, mas que não sentiu o mesmo por mim? E não, não direi que ela partiu meu coração, mas sim, só um pouquinho. Kevin observou as duas mulheres trocarem um aperto de mão, enquanto se avaliavam com olhares especulativos, e deu um suspiro de alívio quando Paulie se afastou após os formais “prazer em conhecê-la”. – Acho que mereci isto – resmungou Beth. – O que eu fiz? – Você não poderia me apresentar como uma amiga? Ou uma conhecida, pelo menos? Paulie não precisava saber que Beth era a mulher que ele julgou ser especial. – Estava tentando evitar que se sentisse constrangida. Acho que falhei. – Não, eu... desculpe. Não estou me sentindo muito bem. Podemos conversar? Em particular, quero dizer. Ou devo voltar em outra hora? Kevin não conseguia imaginar sobre o que precisavam conversar, mas queria descobrir. Seu escritório tinha pilhas de papel sobre toda superfície plana, exceto na cadeira. – Paulie pode tomar conta do bar. Podemos ir lá para cima. É mais calmo. A expressão no rosto de Beth era sombria, e com base na experiência que Kevin tinha com clientes problemáticos, imaginou se o chefe Derek havia cumprido a ameaça de entrar com uma ação na justiça. Logo iria descobrir, pensou, e acenou para Paulie substituí-lo. E descobriria também o maldito número de telefone de Beth. KEVIN NÃO tentou conversar enquanto subiam até seu apartamento no elevador, que mais parecia um monta-cargas decrépito. Seu silêncio fez Beth ficar nervosa, mas também lhe deu mais tempo para ensaiar o que iria dizer. Claro, já ensaiara por dois dias e ainda não fazia a mínima ideia do que sairia de sua boca. Conversara com o espelho, consigo mesma, com o teto no meio da noite. Nada disso ajudou quando ficou na presença do homem cuja vida estava prestes a virar de cabeça para baixo.


Quando ele abriu a porta do apartamento e sinalizou para que entrasse, as mãos de Beth começaram a tremer. Kevin apontou para o sofá, mas ela preferiu sentar-se em uma das cadeiras. Se aquele homem se sentasse perto o suficiente para tocá-la, poderia fraquejar. – Você está muito séria – comentou ele, sentando-se no sofá em frente a ela e repousando os cotovelos nos joelhos. – E não é como se pudesse reclamar por eu não ter te ligado, já que não me deu o seu número. Droga, você nem deixou um maldito sapatinho de cristal no caminho. – Desculpe ter saído assim, mas não vi razão para ficar. – Ele pareceu querer responder, mas Beth não teria paciência para explicar seu comportamento de Cinderela, então falou de uma vez. – Estou grávida. Aquela frase calou a boca de Kevin no mesmo instante. – Sei que usou preservativo… – continuou quando se tornou óbvio que ele não iria dizer nada. – Mas eu… vamos dizer que estava num período de seca e não estive com mais ninguém além de você, portanto, de alguma maneira, o filho é seu. – Um bebê? – Sim. – Meu bebê? – Sim. – Uau! – Ele se recostou no sofá, esfregando as mãos nas coxas. – Tem certeza? – Não fui ao médico ainda, mas fiz o teste de gravidez em casa e... sim, tenho certeza. – Beth preparou-se para qualquer reação que viria a seguir. Recusa. Acusação. Talvez ele a jogasse dali para fora. Caso isso acontecesse, iria embora. E se Kevin ainda se sentisse da mesma maneira depois de ter um tempo para digerir a novidade, ela ficaria bem. Ciente de que fizera a coisa certa informando-o da situação, Beth estaria livre para pegar um ônibus até Albuquerque. Ou talvez fosse para a Flórida, para ficar mais perto dos pais. – Você está bem? – Ele a surpreendeu com a pergunta. – Quero dizer, está se sentindo bem? Beth assentiu. – Acho que ainda é muito cedo para começar a sentir enjoos. Peguei um livro na biblioteca ontem que dizia que era entre quatro e seis semanas. Mas algumas mulheres nem chegam a sentir. Espero ser uma delas. Kevin ainda parecia chocado.


– Você pretende ter o bebê, então? Antes mesmo que pudesse abrir a boca para dizer que sim, seu subconsciente criou uma alternativa. Beth assistira a dinâmica da família Kowalski no casamento de Joe. Eles eram unidos. Amorosos. Ela poderia esperar os nove meses, então daria o bebê para Kevin e entraria em um ônibus. Assim que o pensamento se formara em sua mente, uma de suas mãos repousou sobre o abdome, como se tivesse vontade própria. Não sabia o que poderia acontecer nos próximos nove minutos, imagine em nove meses. Mas não abriria mão de seu bebê. Beth percebeu quando as feições de Kevin foram dominadas pelo horror, a mandíbula enrijecida pela raiva. – Não! – Não o quê? – Não faça isso – disse ele, com um tom de súplica na voz que não fazia o menor sentido. – Não faça o quê? Eu não disse nada. – Não faça um aborto. Por favor. A frustração sempre a deixava irritada, mas respirou fundo e percebeu que ficara em silêncio quando ele perguntou se pretendia ter o bebê. Então Kevin interpretou da pior maneira possível. – Nunca pensei em uma coisa dessas, Kevin. Juro. Ele soltou o ar que estava preso nos pulmões e passou uma das mãos pelo cabelo. – Não sei o que você quer de mim. – Não quero nada de você. Só acho que tem o direito de saber. É isto. E agora já sabe. – Isto soou da forma errada. Quero dizer que não sei o que fazer. Beth deu uma risada, pois era melhor isso do que chorar. – Bem-vindo ao clube. – Você precisa de dinheiro? – Eu me viro. – Sempre se virava. – Você não tem plano de saúde, tem? Em um emprego temporário… A última coisa que Beth desejava era ter aquele tipo de conversa com ele. – Não. Não tenho plano de saúde, mesmo agora que consegui um segundo emprego em um restaurante. E minha mãe sofreu três abortos antes de eu nascer e outro depois. Então, tenho medo de perder este bebê


por não poder pagar um bom médico. E após anos tentando convencer meus pais de que viver mudando de cidade não me tornava uma pessoa irresponsável, terei de pedir dinheiro a eles. Droga! Não pretendia contar tanta coisa para ele, mas quando abriu a boca, todo o pânico que a mantivera acordada simplesmente saiu. E agora o homem que pertencia à família feliz que tinha dinheiro suficiente para dar festanças de casamento em hotéis de luxo devia estar horrorizado. E as lágrimas que escorreram por seu rosto eram a última gota em um oceano de humilhação. – Não precisa pedir dinheiro aos seus pais. – Kevin entregou-lhe alguns lenços de papel, que ela usou mais para esconder o rosto do que secar os olhos. – Não são eles que terão um bebê. Somos nós, e ficaremos bem. Nós! Uma parte dela ficou aliviada por ter um parceiro no pânico e na incerteza, mas nós também significava um grau de ligação que não queria ter com ninguém, principalmente com um cara cuja agenda não tinha mais espaço para comportar tantas marquinhas de batom na cor “Rosa Me Coma”. – Sente-se aqui e relaxe por alguns minutos – orientou ele. – Tenho que ir ao meu escritório, mas não vou demorar. – Acho melhor eu ir embora. – Estava exausta e emocionalmente mais acabada do que um velho pano de chão. – Espere apenas alguns minutos. Preciso checar uma coisa e já volto. Como poderia negar? O pobre homem não só teve um monte de drama despejado em seu colo, como também recebeu a notícia de que seria pai. E Beth precisava admitir, ele até que se saiu muito bem. – Está bem, vou esperar. Antes de chegar até a porta, Kevin olhou para trás. – Promete que não vai embora? – Prometo. Estarei aqui quando voltar. Quando ele saiu, Beth caiu no sofá com seus lenços molhados e suspirou. Não conheceria Albuquerque por um bom tempo. Estaria muito ocupada sendo uma parte de um nós com Kevin Kowalski, querendo ou não.


CAPÍTULO 4

KEVIN FECHOU a porta do escritório, deixando para trás o barulho do bar e desabou em sua cadeira. Minha nossa! Ele seria pai. Pai. Papai. Caramba! Era verdade que ultimamente estava pensando que já era hora de sossegar. Encontrar uma mulher que não fosse ferrar com sua vida como a primeira esposa fizera e talvez ter alguns filhos. Mas não necessariamente hoje. Recostando-se na cadeira, cruzou os dedos atrás da nuca e tentou absorver tudo aquilo. Preservativos não eram cem por cento seguros. Uma frase que ouvia do pai desde a primeira vez em que pedira o carro emprestado para sair com uma garota. Mas por que ele não podia fazer parte dos dois por cento da população que ganhava na loteria ou comprava um quadro que valia milhões por 50 centavos em um mercado de pulgas? Não, ele teria um bebê. Dali a menos de nove meses, seria pai. Kevin respirou fundo, mas o ar não conseguiu chegar aos pulmões. Tentou de novo, sem êxito. Aquela não era a hora de entrar em pânico, Beth parecia um pouco abalada e os dois não poderiam ficar abalados ao mesmo tempo. Lidaria com a situação. Afinal, estava pronto para um filho. Não havia pensado muito sobre isso, mas deveria estar, pois quando perguntou se ela teria o bebê e ficou alguns segundos sem resposta, o pensamento de perder a criança fez suas entranhas se contorcerem de forma tão brutal, que Kevin achou que iria vomitar em cima dela. Agora precisava manter a calma e elaborar um plano. Tinha uma boa poupança. O bar estava funcionando no azul. Poderia conseguir o dinheiro


que ela precisasse. Caramba, na pior das hipóteses, poderia recorrer ao irmão. Aqueles livros doentios que Joe escrevia o faziam nadar em dinheiro. Ao se levantar, vasculhou no arquivo até encontrar o que procurava. Respirando fundo mais uma vez, pegou o telefone e discou alguns números. Demorou mais tempo do que esperava e Kevin temeu voltar ao apartamento e descobrir que Beth tinha ido embora. Porém, quando finalmente subiu a escada, viu-a acomodada no sofá, comendo biscoitos e assistindo a clipes de bandas country. – Espero que não se importe – disse ela erguendo o saco de biscoitos. – Claro que não. – Kevin sentou-se na cadeira em frente ao sofá e repousou os cotovelos nos joelhos. – Então, dei um telefonema e descobri que minha seguradora é gerenciada por um bando de filhos da mãe. Mesmo que nos casássemos esta semana, sua gravidez seria uma condição preexistente e não teria cobertura. Mas o bebê ficará coberto a partir do nascimento. Ela congelou com um biscoito a caminho da boca e arregalou os olhos. – Casar? Não, Kevin, eu... – Pelo seguro – interrompeu ele. – O que é um ponto discutível, eu acho. – Ah, está bem. O que isso queria dizer? – A menos que você ache que devemos. Beth encarou-o como se ele tivesse sugerido uma rapidinha no banheiro do bar durante o jogo do ano. – Acho que não. Kevin tentou ignorar a pontada de decepção que não fazia sentido algum. Sentia-se como se estivesse numa maldita montanha-russa. Com medo de ela dizer sim. Desapontado por ela dizer não e pela forma como respondeu. Devia ser o efeito do choque. – Talvez tenha razão. Meu irmão e a mulher se casaram quando ela engravidou. E ela teve um surto um tempo atrás, cismando que só tinham se casado por causa do bebê. Beth assentiu e comeu outro biscoito. Seu olhar se desviou para a tela da televisão. Um cara com chapéu estilo John Wayne estava inclinado no capô de uma velha caminhonete lamentando sobre algo. Kevin esperava que ela não viciasse seu filho naquele tipo de música. Lera em algum lugar que as crianças eram capazes de ouvir mesmo antes de nascer e que os pais deveriam comprar CDs de músicas clássicas e coisas do gênero.


Não fazia questão que o filho fosse um grande fã de Beethoven, mas nenhum filho seu iria nascer soltando gritos de guerra de peões de rodeio. – Então… – Kevin não tinha ideia do que dizer. – A data prevista é 28 de junho. Ele abriu a boca, mas nada saiu. Vinte e oito de junho. A data limite. Pouco menos de nove meses para organizar aquela confusão. – Sinto muito – murmurou Beth, encarando o pacote vazio que revirava entre as mãos. – Posso comprar mais. – Beth deu um sorriso estranho e Kevin percebeu que ela não se referia aos biscoitos. Então ele foi até o sofá e abraçou-a. – Ei, não tem nada pelo que se desculpar. Nós tomamos precauções, mas nada é cem por cento seguro. Beth afastou-se. Não para muito longe, mas o suficiente para que ele entendesse a mensagem e tirasse o braço de volta dela. – Você está aceitando tudo isto muito bem. – Acredite, estou surtando por dentro. – Eu também. Incomodado com o barulho da embalagem de biscoitos sendo amassada, ele retirou o saco vazio das mãos de Beth e jogou sobre a mesa. – Vamos surtar juntos. Ao som de uma música realmente horrorosa. – Não há nada de errado com a música country. – Parece que alguém pisou no rabo de um cachorro. Beth riu. – Não parece nada. O que gosta de escutar? Ah, meu Deus, nem sei o tipo de música que gosta de ouvir e vou ter um filho seu! – E eu nem sei onde você mora. – Em um apartamento no terceiro andar. Como você. Dois apartamentos no terceiro andar. Dois lances de escadas. Precisariam de proteção nas janelas. Verificar as saídas de incêndio. Deus, nenhum dos dois tinha um quintal! Não se pode criar um filho sem um quintal! Crianças precisavam de uma casa. De um quintal. De cercas, brinquedos, uma bicicleta e um cachorro. De protetores de tomadas e… de toda a porcaria que Mike e Lisa tinham para criar quatro filhos. Eles colocaram até mesmo algum tipo de velcro na tampa do vaso sanitário. – Que droga! – Estamos começando a surtar por fora também?


Kevin não havia percebido que exclamara em voz alta. – Acho que sim. – Você com certeza sabe como virar a vida de uma garota de cabeça para baixo, Kevin Kowalski. – Também estou me sentindo um pouco fora dos trilhos, Beth… – Droga! Nem ao menos sabia o sobrenome dela e era tarde demais para esconder. A risada dela foi curta e cínica. – Acho que deveria ter escrito meu nome em um guardanapo para você. AS NOITES de quintas-feiras eram tranquilas no Jasper’s, mas Paulie não se incomodava. Sempre tinha os fregueses regulares e alguns esporádicos para fazer o tempo passar. Em geral, Kevin tirava folga nas quintas, mas, naquela noite, ficou por lá. Ou melhor, seu corpo estava lá. Já a mente pairava em algum outro lugar e, onde quer que fosse, não era um lugar feliz. Paulie limpou as mãos em uma toalha e caminhou até o canto do balcão, onde ele estava sentado olhando fixamente para uma xícara de café vazia. – Quer um refil? – A última coisa de que preciso é mais cafeína. Seu chefe e melhor amigo não era o tipo de homem que cismava com as coisas, então ela debruçou sobre o balcão e envolveu o rosto com as mãos. – O que há de errado? – Vou ser pai. Certo, por essa ela não esperava. – Não acredito! Tem algo a ver com a morena que levou lá para cima ontem? Aquela do chefe que você quebrou o nariz? – Beth. Ela e a mulher da qual te falei, a garçonete no casamento de Joe, são a mesma pessoa. – Bem… Uau! – É. – Kevin estava batendo com a xícara vazia no balcão, então Paulie a retirou das mãos dele e a colocou em uma bandeja. – Acho que aquele aviso de 98 por cento de segurança na embalagem do preservativo não era apenas um jargão jurídico. – Já contou para os seus pais? – Não. Ninguém sabe, além de você.


Um homem do outro lado do balcão estava quase caindo para dentro, acenando com uma caneca vazia, mas ele podia esperar. – Está encarando isto numa boa? Kevin deu de ombros. – Não estava esperando, mas sim… acho que sim. – E quanto a ela? – É difícil dizer. – Kevin deu uma risada. – Acho que ela ficaria mais feliz se o filho fosse de outro cara. – Pare com isto – gritou Paulie para o rapaz sedento que começara a bater com a caneca no balcão. – Já vou! – Vá – disse Kevin. – Vou ficar aqui e assistir ao jogo. – Sem problemas – respondeu ela, lançando um olhar de solidariedade antes de caminhar em direção ao cliente. Paulie encheu a caneca do idiota barulhento com um olhar atravessado. Naquele instante, um grupo de executivos entrou no bar e escolheu uma mesa de canto no setor de Darcy. Alguns clientes habituais também chegaram e se acomodaram no balcão. – Ternos na mesa dez – disse Darcy. Uma morena calma e pequena, que era o oposto de Paulie em todos os aspectos. Era também uma garçonete maravilhosa, com a personalidade leve e agradável, que compensava o total desinteresse por esportes. Paulie assentiu com a cabeça, olhando na direção deles. Como outros grupos de executivos da cidade, não deixariam um centavo de gorjeta ou aquela seria a noite de sorte de Darcy. Não dava para saber de qual tipo eram só de olhar. No entanto, Dick Beauchamp estava sentado com eles e não deixaria os funcionários de seu bar favorito decepcionados. Era estranho vê-lo tão cedo e de terno. Um de seus companheiros jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. E o coração de Paulie perdeu uma batida. – Ah, droga! – Ela se abaixou, escondendo-se atrás do balcão. – Paulie? – Darcy certamente subira em um banco para conseguir olhar por sobre o balcão. – Você está bem? – Não – sussurrou ela, dispensando a garçonete com um aceno de mão. Aquilo não podia estar acontecendo. De todos os bares esportivos do planeta, Samuel Thomas Logan, o maldito IV, tinha que entrar exatamente no dela.


– Vá embora – rosnou para Kevin quando ele se aproximou para investigar. – Não me diga que aqueles sujeitos são agentes do FBI procurando por uma ruiva fugitiva. – Claro que não, engraçadinho. – Era pior. Muito pior. – Dick está trazendo um deles para cá – informou. – Deve querer te apresentar a ele. – Droga! – Paulie tentou escapar de joelhos, mas o rosto de Dick surgiu por cima do balcão. – Oi, Paulie, está se escondendo aí atrás? Tem alguém aqui que quero que conheça. Antes que Paulie pudesse inventar uma desculpa, o rosto de Sam Logan apareceu próximo ao de Dick. Ela congelou por um longo momento, assim como a expressão dele. Sam não mudara quase nada desde a última vez que o encontrara. Como adorava a vida ao ar livre, a pele morena realçava os olhos verdes. Mantinha o cabelo castanho bem curto porque não tinha tempo nem paciência para arrumá-lo ou para ir ao cabeleireiro. Então, apenas passava a máquina quando era necessário. O terno era diferente, claro. A última vez que o vira, usava um smoking e aguardava no altar ao lado do padrinho. A flor na lapela era rosa pálida para combinar com seu buquê. O mesmo buquê que Paulie jogara no chão ao se virar e desaparecer, tropeçando na cauda do vestido de noiva antes de conseguir juntar todo aquele tecido nos braços e correr. Já a expressão no rosto dele era a mesma. Atordoada. – Paulette? – Paulette? – ecoou Darcy. – Caramba, nós a chamamos de Paulie. Como vocês se conhecem? – Por favor, não – implorou ela. Quando Sam arqueou uma das sobrancelhas, Paulie soube que o disfarce chegara ao fim e sentiu uma pontada de nostalgia pela vida que levara nos últimos cinco anos. – Como nos conhecemos? Bem, muito bem, na verdade. Dick esperou que ele dissesse mais alguma coisa, no entando, como Sam não falou nada, ele deu uma risada e um tapa no ombro do amigo. – Que mundo pequeno, hein?


Era verdade. Jasper’s Bar & Grille era o último lugar no mundo onde Sam Logan entraria. E ali estava ele, olhando para baixo na direção de Paulie como se ela fosse um inseto e estivesse analisando se valia a pena esmagálo. Se tivesse sorte, Sam decidiria que não e ela poderia encontrar um canto escuro para se esconder. Mas Dick Beauchamp ainda não havia terminado. – Como acaba de se mudar e está morando logo ali na esquina, você e Paulie terão todo o tempo do mundo para relembrar os velhos tempos. Acabara de se mudar? Logo ali na esquina? O estômago de Paulie deu uma cambalhota enquanto tentava ficar de pé. Se Sam quisesse se vingar contando os seus segredos, ela poderia, ao menos, tentar salvar um pouco de dignidade. – Sim, pode ter certeza que sim – disse Sam, dando um sorriso que não alcançou os olhos. – Manterei contato. Paulie observou-o voltar para a mesa. O nó no estômago cada vez mais apertado. Não queria que ele mantivesse contato. Aquele homem pertencia à sua outra vida e não havia lugar para ele nesta. Quando ficaram sozinhos, Kevin aproximou-se e encostou no balcão. – Quer que eu o jogue para fora? Sim, ela queria. E sabia que o chefe faria isso sem fazer qualquer pergunta. – Não. Ele não vai causar problemas. Não para qualquer outra pessoa. Apenas para ela. Não tinha dúvidas de que Sam Logan lhe causaria todos os tipos de problemas. KEVIN ESPEROU propositalmente até a noite de domingo para fazer uma visita aos pais. As vidas de Leo e Mary Kowalski giravam em torno dos filhos e dos netos, mas Mary havia declarado que aquelas poucas horas de domingo eram proibidas. Sabia que estava infringindo as regras, mas tinha certeza de que os outros não estariam por perto. Como era o horário proibido, Kevin tocou a campainha. Os pais deveriam estar no andar de cima, mas não havia a mínima chance de ele aceitar o risco de entrar e dar de cara com uma cena que nem toda a cerveja do mundo poderia apagar de sua mente.


– Kevin! – A mãe parecia feliz em vê-lo, mas o olhar demonstrava preocupação. – Seu pai e eu estávamos sentados no deque lá atrás. Está ficando frio, pois o inverno está chegando, então estamos pegando um pouco de ar puro enquanto podemos. Pegue uma bebida e venha aqui fora. Ele pegou uma garrafa de chá gelado da geladeira e fechou o zíper do suéter antes de ir para o deque. Os pais tinham uma espreguiçadeira para cada um, então ele puxou a cadeira de balanço e se sentou. – Vocês se lembram da mulher que estava servindo drinques no bar no dia do casamento de Joe? Beth? – Como poderíamos esquecer? – perguntou a mãe. – Eles quase nos expulsaram quando Joseph tentou alugá-la para dançar com você. – Linda morena – acrescentou Leo. – É. – Kevin revirou a garrafa nas mãos, depois começou a retirar o rótulo com a unha do polegar. – Quando a recepção acabou, eu saí para dar um passeio e… Ela está grávida. Ambos ficaram em silêncio por um momento, trocando um daqueles olhares dos velhos casais, que Kevin não conseguia decifrar, mas que o fez se contorcer na cadeira. Ele e Beth eram adultos, isso não tornava menos difícil contar aos pais que acidentalmente engravidara uma mulher. – Seria muito mais fácil caminhar com o zíper da braguilha fechado – resmungou Leo. A mãe deslizou as pernas para a lateral da espreguiçadeira para se sentar ereta. – Eu não percebi que vocês estavam saindo. – Na verdade, não estamos. Nós saímos apenas uma vez, mais ou menos. Mas acho que… bem, as datas e tudo mais… Ela fez o teste. O bebê deve nascer no final de junho. – E você tem certeza que o filho é seu? – perguntou o pai em seu tom habitualmente prático. – Tenho, pai. Ela não é muito minha fã, então duvido que quisesse se prender a mim pelo resto da vida se o filho não fosse meu. Mary deixou escapar um som de reprovação que o fez querer trincar os dentes. – Você não escapuliu no meio da madrugada, certo? – Não, mãe. – Kevin engoliu o nó que se formara na garganta, que provavelmente era seu orgulho. – Ela escapuliu. Nem ao menos deixou um bilhete.


– O que pretende fazer? – perguntaram ao mesmo tempo. Kevin deu de ombros. – Meu plano de saúde não irá cobri-la, mesmo que nos casássemos. O bebê ficará coberto assim que nascer, claro. – Casar? – Leo negou com um sinal de cabeça. – Posso ser velho, mas até mesmo eu sei que um bebê não é mais motivo para se casar. – Não vamos nos casar. O assunto só surgiu porque a mãe dela tem um histórico de abortos espontâneos e Beth quer arranjar um bom médico. Se o plano cobrisse a gravidez, valeria a pena. – Com certeza ela pode conseguir algum tipo de assistência – disse Mary. – Provavelmente, mas ficaria limitada aos médicos que eles determinarem. E Beth não precisa de assistência, mãe. Ela tem a mim. Os olhos da mãe encheram-se de ternura. – Então você está tranquilo com a situação? – Estou. – Estava mesmo, e tinha certeza de que Beth também logo ficaria. – Para ser honesto, mesmo não tendo sido planejado… e sim, mãe, nós usamos proteção, não que tenha adiantado, estou mais do que tranquilo. Acho que estou até feliz com isso. – E a moça? – perguntou ela. – Ela está… Beth não estava pensando em se estabelecer, então um bebê surpresa a pegou desprevenida, acho. Mas ela quer ter a criança e nós vamos lidar com a situação. Leo ergueu o copo. – Parabéns, então, filho. – Obrigado, pai. Kevin ficou surpreso quando a mãe se levantou e o abraçou. – Vai nos dizer se ela precisar de algo, certo? E vamos convidá-los para jantar em breve. Quando ela estiver pronta. – Eu amo você, mãe. – Eu também te amo, filho. Agora, onde Beth mora? É um bom lugar para um bebê? – Ainda não estive lá, mas tenho a impressão de que não é muito bom. Ela aluga lugares baratos porque gosta de ficar mudando de cidade. Portanto, não deve ser lugar para criar uma criança. Além disso, ela não tem muito dinheiro. Leo bufou. – Nós vamos resolver tudo isso, filho. Não se preocupe.


– Ela está de folga amanhã.


CAPÍTULO 5

BETH PUXOU as cobertas e tapou a cabeça, mas a batida na porta não parou. Estava frio e o pão-duro do senhorio não ligaria o sistema de aquecimento até novembro. Quem quer que fosse que estivesse batendo poderia voltar mais tarde. Como na primavera, quando não estivesse frio demais para sair da maldita cama. E então o telefone tocou. Beth deslizou o braço por baixo das cobertas e pegou o aparelho. – Alô? – Ei, abra a porta. – Não. A risada de Kevin ecoou em seu ouvido. – Vamos. Está mais frio neste corredor do que lá fora. Minha mãe já está reclamando. Beth deu um pulo que fez as cobertas caírem até a sua cintura. – Sua mãe está aqui? Ótimo. Pelo menos, se estivesse frio o bastante, os avós de seu filho não prestariam atenção ao perfume eau de urina de gato. Que bela maneira de causar uma boa impressão! – Meu pai também está aqui. Abra logo esta maldita porta. – E bateu mais uma vez, no caso de ela não ter entendido. – Como descobriu meu endereço? – Tive que trocar ingressos dos Celtics por essa informação e não vou revelar minha fonte. – Espero que sua fonte aproveite o jogo, mas vá embora. – Ora, vamos, Beth. Os lugares eram realmente muito bons.


– Isto não foi nada legal, Kevin – disse ela antes de desligar o telefone. Kevin bateu na porta com mais intensidade. Droga, ele iria irritar os vizinhos. E se reclamassem e ela fosse despejada, não receberia o depósito de volta. Beth deu um suspiro e saltou da cama, parando para pegar o velho e surrado robe. Ela prendeu a corrente de segurança antes de abrir a porta. – Pare de bater. – Deixe a gente entrar e eu não precisarei mais bater. – Não pode aparecer aqui sem avisar a esta hora da manhã. Kevin aproximou-se da abertura da porta e viu o que ela estava vestindo. – Beth, são 11h. – Ah! – Dormir até tarde nos dias de folga era seu único luxo, mas 11h era um pouco demais, até para ela. Quando ele bateu novamente na porta, ela deu um salto para trás. – Pare com isto! – Deixe a gente entrar! Como o vento que vinha do corredor a estava congelando, Beth fechou a porta e removeu a corrente de segurança antes de abri-la por completo. Kevin e os pais entraram e ela voltou a fechar a porta. E tudo que conseguiu fazer foi ficar olhando enquanto eles esvaziavam o conteúdo de várias sacolas de uma loja de construção sobre a mesa de jogos. – Bem – anunciou o pai com a voz forte que notara na noite do casamento. – Temos o teste de chumbo, de mofo e de radônio. – Detectores de fumaça e de monóxido de carbono – acrescentou Kevin, empilhando várias caixas. – Como está se sentindo? – perguntou a mãe. Meio perdida, sem entender o que estava acontecendo ali. – Bem, obrigada. Como vai a senhora? – Estou muito empolgada – respondeu, e a envolveu em um abraço apertado. – Outro neto! – Você contou para ela? – acusou Beth, encarando Kevin por sobre o ombro de Mary. – Dá azar contar sobre bebês tão cedo! Kevin deu de ombros. – Acredite, dá mais azar manter segredos como este da minha mãe. – Não há um disjuntor geral na cozinha – informou Leo, que estava se sentindo em casa, inspecionando os cômodos. – Isso não é contra a lei? Minha nossa, você não tem um sofá! Quem não tem um sofá?


– Kevin, posso falar com você um minuto? – Quando ele olhou em volta, como se procurasse um lugar privado, ela suspirou. – Um cômodo e um banheiro? – Ou seja, dois cômodos, mas podemos conversar no corredor. – O que está fazendo? – perguntou ela quando estavam sozinhos no frio do corredor. – Um prédio antigo como este pode ter todo tipo de problema. Queremos apenas nos certificar de que é seguro para o bebê. – Acha que não consigo manter o bebê em segurança? Kevin ergueu uma sobrancelha. – Claro que consegue, mas esses testes e tudo mais são coisas de homem. – Coisas de homem? – Sim. – E o que eu deveria fazer? Tricotar roupinhas para ele? – Ele? Você acha que vai ser um menino? Beth suspirou. – Não é esse o ponto. – Certo. Olhe, seu apartamento é… – Meu – interrompeu ela. Não era grande coisa. Ninguém sabia disso melhor do que ela, mas era seu e não iria permitir que os Kowalski ficassem ditando ordens na casa dela. A expressão abatida de Kevin a fez se sentir culpada. – Desculpe. Talvez eu esteja me intrometendo. Se você diz que estou, eu devo estar. Só não sei o que devo fazer. Quero dizer, não posso fazer absolutamente nada até o bebê nascer? Aquilo foi tão fofo que o coração de Beth derreteu. – Esta situação é nova para mim também, Kevin, mas… – Você não pode ficar aqui. – O quê? – Ele queria dizer enquanto estivessem fazendo os malditos testes? – E para onde devo ir? – Para o apartamento em frente ao meu. Caramba, está muito frio neste corredor! – Calma aí, Kevin. Eu acabei de acordar e seu pai fica gritando comigo porque não tenho um sofá e… – Por que você não tem um sofá? Beth suspirou.


– Porque só podia trazer o que conseguisse carregar sozinha pelos dois lances de escadas. – Ninguém te ajudou na mudança? – Não. – É por isso que não pode ficar aqui. – Porque não tenho um sofá? – Não, porque está sozinha sem ninguém por perto para te ajudar. Acho que está saindo fumaça quando respiro… Beth estava prestes a lhe dar um chute. – Eu não conhecia ninguém quando me mudei para cá. Agora conheço, portanto, se decidir comprar um sofá que não quero nem preciso, chamarei um amigo para me ajudar. – Quero que se mude daqui e vá morar no apartamento em frente ao meu. Epa! Uma tremenda emboscada antes do café da manhã. – Claro, porque você agora distribui apartamentos aleatoriamente. – Você não é aleatória. Existem apartamentos em cima do Jasper’s. Paulie mora em um grande no segundo andar. Eu fiquei com um no terceiro andar. O outro está vazio. E mobiliado. Portanto, tudo o que precisa fazer é levar suas roupas e alimentos. – Não posso fazer isso. – Beth afastou uma mecha de cabelo do rosto. – Não posso me mudar para o seu prédio, Kevin. – E por que não? A pergunta deixou-a confusa por alguns segundos. Porque... Simplesmente não podia. Kevin estaria do outro lado do corredor. Já era bastante desagradável que seus hormônios de grávida a fizessem ter sonhos eróticos com ele quase todas as noites. Imagine se o visse todos os dias. Ultimamente, não conseguia nem formar pensamentos coerentes. Ela deveria estar economizando para comprar o bilhete de ônibus para um recomeço e não para fraldas e uma minivan. E muito menos pensando em se mudar para um apartamento mobiliado que poderia acabar se transformando em um lar. Lar significava construir relacionamentos com pessoas que iriam querer saber onde ela estava e o que fazia. Lar significava monitoramento. Albuquerque. Aquele era o pontinho no mapa que seus olhos vislumbraram para um recomeço.


Ainda poderia ir. Tinha tempo para escapar do inverno da Nova Inglaterra e começar uma nova vida antes que a barriga começasse a aparecer. Claro, era mais difícil para uma mulher grávida conseguir um emprego, mas ela daria um jeito. Enquanto uma parte de sua mente planejava fugir daquela cidade, a outra parte reconhecia que seus dias de nômade haviam chegado ao fim. E o homem à sua frente era uma forte razão para isso. O único jeito de conseguir desaparecer era se não tivesse contado a ele, mas não conseguiria viver com esse peso na consciência. Agora, estava presa. Beth deu um salto quando Leo abriu a porta e balançou um chumaço de algodão na direção de Kevin. – Temos tinta com chumbo. O estômago de Beth contraiu-se. Tinta com chumbo? Não havia leis contra esse tipo de pintura em prédios residenciais? Mas isso provavelmente requeria que alguém registrasse queixa, e as pessoas que alugavam apartamentos ali não tinham como escolher onde morar. Mas tinta com chumbo… Era tão perigoso para o bebê. – Jesus Cristo, está tão frio aqui – continuou Leo. – E de quem é o gato que fez xixi no corredor? Este lugar deveria ser condenado. Leo fechou a porta na cara deles e Beth teria gargalhado se não tivesse um bolo de vergonha em seu estômago. Os Kowalski eram uma daquelas famílias perfeitas e provavelmente não entendiam que ela morava ali por escolha própria e não por necessidade. Verdade, era uma porcaria. Mas era sua porcaria. – Peço desculpas por meu pai – disse Kevin. – Ele não está tentando ser ofensivo. É apenas… honesto. Este não é um lugar para você, Beth. Posso pegar a caminhonete do meu irmão emprestada e faremos sua mudança hoje mesmo. Lágrimas de frustração brilharam nos olhos dela e Beth piscou para dissipá-las. Aquilo era demais e muito repentino. Kevin estava passando por cima dela como um caminhão. Mas era impossível dormir mais uma noite em um ambiente que agora sabia ser tóxico e prejudicial ao bebê. – Quanto é o aluguel? – Podemos nos preocupar com isto mais tarde. – Não. Não podemos. – Ótimo. – Kevin lhe disse uma quantia que era inferior a que pagava ali e Beth balançou a cabeça negativamente.


– Beth, seja razoável. Você tem o cupom de desconto na sua barriga. E sabe que eu não cobraria absolutamente nada se achasse que você aceitaria. – Não assino contratos de longa duração. E pago o aluguel todo mês. – Consigo aceitar isto. Ela não tinha certeza se conseguiria, mas não tinha escolha. – Está bem, mas só por causa da tinta com chumbo. O sorriso de Kevin iluminou seu rosto, fazendo-a sentir calor, mesmo com o frio do corredor onde estavam. – Então é melhor trocar de roupa porque, assim que contar para a minha mãe, ela empacotará tudo o que não estiver no seu corpo antes mesmo de eu voltar com a caminhonete. KEVIN QUASE acertou em cheio. Havia apenas algumas poucas coisas a serem embaladas quando voltou com a caminhonete de Mike. A maioria delas fora jogada em sacos de lixo. Ninguém estava preocupado com estilo. Queriam apenas tirá-la dali. E foi o que fizeram, com tanta eficiência que os pais de Kevin partiram antes mesmo do jantar. Ele se preocuparia em trocar de carro com Mike depois. Beth ainda tinha algumas pequenas coisas para arrumar, mas estava mais ou menos em casa. E a julgar pelo suspiro de satisfação ao afundar nas almofadas, com certeza gostara do sofá. – Tenho que ligar para as empresas de serviços – disse ela. – E para a empresa telefônica. Mas não vou me preocupar com isto agora. – Ah, o telefone. Tem um aqui. O número não consta na lista telefônica e só o mantemos para que quem quer que fique aqui possa usar. Mike e Joe e os outros têm celulares, mas meu pai não. Se quiser, pode dar este número ao pessoal do seu trabalho ou a quem quiser, em vez de trocar o telefone. Beth ia começar a falar, mas Kevin levantou uma das mãos. – E todos os meses eu te dou a conta e você pode me pagar. – Promete? – Prometo. – Certo. Parece mais fácil do que tentar transferir o meu número pra cá, principalmente porque ainda tenho que lidar com o senhorio. Como saí sem aviso prévio, talvez não consiga a devolução do meu depósito.


– Na verdade, nós acabamos esbarrando com seu senhorio na escada enquanto carregávamos as coisas para a caminhonete. Ele quis saber quem estava de mudança. Não ficou muito feliz, mas meu pai teve uma pequena conversa com ele sobre a tinta com chumbo e outros riscos à saúde, e ele ficou de enviar o cheque do depósito para este endereço. Assim que o receber, vamos descobrir quem faz as inspeções naquela área e tomar algumas providências. Beth não pareceu tão contente quanto ele achou que ficaria. – Obrigada. – Sem problemas. Então, quer sair para procurar o que comer? Podemos ir lá embaixo e pegar alguma coisa ou sair para comer em algum lugar. – Acho que não. Estou grata por tudo o que fizeram por mim hoje, mais do que consigo dizer, mas acho que ficarei aqui. – Mas não tem nenhuma comida. Quero dizer, nada que dê para comer após um longo dia de mudança. Poderíamos pegar um cineminha ou passar na locadora de vídeo e alugar um filme. A julgar pela expressão no rosto dela, Beth estava a ponto de chutá-lo dali para fora. – Kevin, acho que não devemos nos ver mais. Ele não conseguiu entender bem aquelas palavras. – Mas vamos nos ver o tempo todo, já que agora moramos porta com porta. Além disso, ainda tem aquele pequeno detalhe de você ser a mãe do meu filho. Beth inspirou profundamente e cruzou os braços no peito em uma posição defensiva. – Eu quis dizer, como em um… relacionamento. – Você quer dizer nada mais de sexo. – Aquilo era decepcionante. Mas talvez fosse uma questão hormonal e ela mudasse de ideia dentro de cinco minutos. Um cara podia ter esperanças. – Não. – Beth sentiu as bochechas queimarem e balançou a cabeça negativamente. – Bem, sim, é o que quero dizer. Na verdade, é mais do que isso. Nada de encontros também. Seremos apenas vizinhos que por acaso terão um bebê juntos. Kevin ficou surpreso com a decepção que sentiu. A maioria dos caras pularia de felicidade por não ficarem presos à mulher que esperava um filho deles.


– Não entendo. Achei que tivéssemos nos divertido. E não estou falando só do sexo. – Eu realmente me diverti, mas… não posso explicar. – Poderia tentar? Porque não sei o que fiz de errado. – Você não fez nada de errado. É apenas um pouco demais. Sei que está tentando ajudar, mas… – Beth fez um sinal negativo com a cabeça, como se estivesse lutando para encontrar as palavras certas. – Está carregando o meu filho, Beth. Se achava que eu iria deixá-la passar por tudo sozinha, sem nada além de um velho colchão em um apartamento que cheira a urina de gato, então não me conhece direito. – Não te conheço mesmo. Esta é a questão. – Ainda não entendi. Acho que lidei muito bem com toda esta situação. – Com certeza. E agora está tentando tomar conta de mim, mas eu tomo conta de mim mesma. E não entro em relacionamentos, e você é um pouco… sufocante. – Sufocante? – Do que ela estava falando? – Como me preocupar com você e com o bebê me torna uma pessoa ruim? – Você não é uma pessoa ruim. É um cara incrível, de verdade. – Lágrimas começaram a rolar por seu rosto. Ela as limpou com as costas da mão em um gesto de raiva. – É que tudo isto é demais… eu me sinto sufocada e eu… eu… – Venha cá. – Ele se sentou ao lado dela no sofá e a envolveu com os braços. – Sem segundas intenções. Apenas um abraço entre vizinhos que por acaso terão um filho juntos. Viu? Nem mesmo mão boba. Beth riu contra a camisa dele e o som saiu como um soluço. – É que… você está sendo tão maravilhoso com tudo isso do bebê e parece realmente feliz e está tão controlado e eu… estou uma bagunça. – Estou feliz, mas não sou eu quem está carregando o bebê. É você. E talvez minha vida seja mais estável e pronta para um bebê do que a sua. – Kevin recostou-se no sofá, levando-a consigo. – Sinto muito se pareci controlador. Mas este é meu jeito. Se alguma coisa precisa ser feita, eu faço. Se alguém na minha vida precisa de alguma coisa, eu providencio. Mas tentarei manter distância… alguma. Acho que a coisa mais importante para o bebê é sermos amigos. – E somos. E acho que um amigo, numa hora destas, ligaria para um restaurante e pediria comida como presente de boas-vindas. Comida chinesa? – perguntou ela em um fio de voz.


Kevin odiava comida chinesa. – Claro, se minha mãe não jogou fora, tem alguns menus na segunda gaveta da cozinha. Levantou-se para procurar e também para lhe dar um minuto para limpar o rosto. Os menus, colecionados pelos vários membros da família que já ficaram naquele apartamento, ainda estavam na gaveta, e ele vasculhou até encontrar um restaurante chinês próximo dali. – Kevin? – Ele olhou para ela, tentando lembrar o nome do único prato de comida chinesa que gostava. – Obrigada. Estava tão linda parada ali, com um jeans surrado e um suéter velho, o cabelo todo bagunçado e os olhos meio vermelhos, que ele ficou encarandoa por um longo momento. Não queria ser apenas um vizinho amigo que por acaso teria um filho com ela. Desejava tomá-la nos braços e beijá-la até que nenhum dos dois conseguisse respirar. Mas se afastaria… por enquanto. – De nada. DURANTE A calmaria que se instalava no Jasper’s após o jantar, Paulie correu até o seu apartamento para pegar um iogurte e desfrutar de alguns minutos de paz. Servir hambúrgueres e batatas fritas noite após noite podia fazer uma mulher ficar com aversão a comida de lanchonete e não estava com vontade de comer fritura. Mas mal acabara de remover a tampa de um refrigerante quando alguém bateu à sua porta. Paulie colocou a garrafa na mesa e foi atender, quase se engasgando quando viu Sam Logan parado no corredor. – Como subiu até aqui? – Da mesma maneira que você, pela escada. – Não viu o aviso dizendo para manter a droga da distância se não for autorizado? ��� Vi, mas ignorei. – Bem típico de você. Ele apenas deu de ombros. – Não vai me convidar para entrar? – Não. – É uma pena. – Paulie notou quando ele virou sutilmente o corpo para que ela não conseguisse bater a porta em sua cara. – Acho que terei de


voltar lá para baixo, então. Talvez bater um papinho com a garçonete que está me servindo. Ou com o dono do bar. Qual é mesmo o nome dele? Kevin? Interessante como todos pensam que seu sobrenome é Reed. Por que será? Paulie esquecera o canalha que ele podia ser quando queria algo. – Talvez eu tenha me casado. – Ou talvez tenha apenas trocado de nome. O que ele já sabia, claro. Sem dúvida teria mandado seu pessoal investigá-la no minuto em que deixara o Jasper’s naquela primeira noite. Talvez já soubesse antes disso. – O que você quer, Sam? – Quero entrar. – Não acho que seja uma boa ideia. – Fico imaginando como seus amigos se sentiriam se soubessem quem você realmente é. Paulie não era uma fora da lei nem nada do tipo. Não fizera nada errado, então não tinha medo que descobrissem que seu verdadeiro sobrenome era Atherton. Mas não queria que soubessem. Não era mais aquela mulher. – Está bem, entre e fale logo o que quer. Mas seja breve. Tenho que voltar ao trabalho. Quando ele entrou e fechou a porta, Paulie quase cambaleou pelo surrealismo da situação. Sam Logan. Em seu apartamento. – Por que está me assediando? – perguntou ela quando ficou claro que Sam estava mais interessado em analisar o ambiente do que em falar. – É algum tipo de vingança por eu ter fugido do casamento? – Você não só me deixou plantado no altar, o que já seria humilhação suficiente. Não, tinha que transformar tudo em um maldito circo. Percorrer metade do caminho antes de se virar e sair correndo de lá como se estivesse disputando uma medalha de ouro nas olimpíadas. Deus do céu, Paulette! Paulie tentou ignorar a palavra maldita, mas era impossível. Paulette, fique quieta. Você está se fazendo de palhaça. – Vai começar… Se eu achasse que você ficaria mais triste do que envergonhado, não teria saído correndo. – Ah, então a culpa é minha? – Você não me amava, Sam.


– Eu te pedi em casamento. – A voz grave estava tensa e carregava um traço de raiva contida. – Por que acha que fiz isso? – Porque era o que nossas famílias esperavam? Porque eu me encaixava no perfil de sra. Samuel Thomas Logan IV? A mandíbula de Sam endureceu. Paulie sabia, por experiência própria, que aquilo era o máximo que acontecia quando ele ficava irritado. Assim como ela, havia sido ensinado a não se fazer de palhaço antes mesmo de aprender a andar. – É isto o que pensa? Que sou tão fraco a ponto de deixar meus pais escolherem minha esposa em uma lista de prováveis candidatas? Paulie gostaria de negar, mas não conseguiu fazer as palavras saírem de sua boca. Sim, era o que pensava. E quando ele se levantou e caminhou até a porta, deveria ter ficado aliviada. Sam estava indo embora e talvez nunca mais voltasse. Era o que desejava. Mas a ideia de deixar aquelas questões mal resolvidas a fez correr atrás dele. – Sam, espere… Ele se virou tão abruptamente que Paulie quase colidiu com aquele corpo forte. – Se era isto que pensava, por que disse sim? – Porque eu queria ser a esposa do Sam. – Claro. Deu para notar pelo modo como voou para fora da igreja. – Eu não queria ser a sra. Samuel Thomas Logan IV. Mais uma vez, a mandíbula de Sam endureceu. – Nem sei o que isso significa. Mas está obviamente obcecada pelo meu nome. – Não pelo seu nome, mas pelo que ele representa. – E daí? Você queria ficar comigo, mas sem ter nada a ver com todas as outras coisas que faziam parte da minha vida. Aquela frase resumia muito bem a situação. – É complicado. – Vamos simplificar. – Como? – Saia comigo. Ninguém sabe quem somos aqui. Sou apenas um executivo de Boston e você a garçonete safada que atiçou minha imaginação. A gargalhada saiu antes que Paulie pudesse evitar. – Garçonete safada? Amigo, fique sabendo que se eu quisesse atiçar alguma coisa em você, não seria em sua imaginação.


– Jantar. Em algum lugar legal. E ele estava falando sério. Depois da humilhação seguida de cinco anos do mais profundo silêncio, Sam a estava convidando para sair? – Sam… esta não é uma boa ideia. Ele cruzou os braços e lhe lançou um olhar que servia para intimidar poderosos homens de negócios e fazê-los aceitar seus termos, mas não funcionara quando seu pai usara e não funcionaria agora. – Ah, Sam, não vá me dizer que passou todos esses anos esperando por mim. – A fisionomia dele endureceu, fazendo Paulie pensar que talvez o tivesse magoado de verdade. – Olhe, eu… – Ou janta comigo ou seus amigos vão descobrir que é uma fraude. Pela frieza das palavras de Sam, teve certeza de que ele falava sério. – Não acha que chantagem é um comportamento indigno de você? – Nada é indigno quando quero alguma coisa. Um arrepio subiu pela espinha de Paulie quando Sam a encarou, deixando bem claro que ela era essa coisa. E percebeu, com um nó no estômago, que parte dela estava empolgada por ser forçada a jantar com Sam. Mas não deixaria que ele soubesse disso. – Quando? – Em breve. Alguma noite em que não trabalhe até tarde. Não queria que ele soubesse quais eram essas noites. Mas também não queria que ele ficasse perguntando aos seus colegas de trabalho. Ou a Kevin. – Talvez. Sam sorriu. Não, o desgraçado abriu um sorriso malicioso e saiu pela porta, deixando-a confusa, desconsertada e talvez um tanto excitada.


CAPÍTULO 6

A PRIMEIRA coisa que Kevin viu na noite seguinte, depois de finalmente escapar do inferno de papéis que era seu escritório, foi Beth. Ela estava sentada em um canto tranquilo do balcão, onde ninguém gostava de ficar por ter que esticar o pescoço para ver a televisão, comendo a última batata frita. Parecia cansada. – Ei! Quando Beth olhou para ele, Kevin percebeu que estava certo. A exaustão era visível em seus olhos. – Oi. Qual é o segredo desse cheeseburger? – Bem, é segredo. Beth riu. – Eu poderia ter comido no trabalho, mas estava servindo um cheeseburger e pensei que não parecia ser tão bom quanto o do Jasper’s, então… aqui estou. E este é o enorme espaço vazio em meu prato onde o cheeseburger estava 5 segundos atrás. – Como foi no trabalho? – Tranquilo. – Beth deu de ombros, mas ele podia notar como estava cansada. – Dizem que vai ficar mais agitado na época das compras natalinas. Vamos ver. – Quer mais um refrigerante? – Não, obrigada. Estou exausta. Só quero a conta e depois subir. – Que conta? – Do lanche.


Pousando os cotovelos no balcão, Kevin fez um gesto negativo com a cabeça. – Não vamos aceitar seu dinheiro. Ele não esperava que a boca de Beth fosse enrijecer e as bochechas ficarem vermelhas. – Posso pagar pelo meu jantar, Kevin. – Sei que pode, mas você está alimentando meu filho. Não vou cobrar a alimentação de meu próprio filho. Que tipo de pai eu seria? – Ele deu seu melhor sorriso Kowalski, aquele com direito a olhos brilhantes e covinhas. – Pode comer o incomparável cheeseburger do Jasper’s todas as noites. Ela estava prestes a argumentar, Kevin podia ver em seu rosto, mas Randy apareceu e jogou um guardanapo em cima dele. Mesmo à luz fraca, a marca vermelha de batom brilhava como um farol. Droga! Beth não era apenas teimosa, também era rápida, e pegou o guardanapo antes que ele pudesse impedir. – Tenho chantili e lubrificante sabor cereja… quer fazer um sundae? Mesmo as palavras não sendo dela, ouvi-las saindo da boca de Beth o fez desejar tanto um sorvete, que Kevin quase salivou. Outras partes de sua anatomia também reagiram e ele agradeceu aos céus por estar do outro lado do balcão. – Nunca ligo para elas. – Elas? São tantas assim? Ele apontou para o outro lado do balcão. – Existe uma cesta. Eu recebo alguns bilhetes. Beth jogou o guardanapo em sua direção e deu um suspiro debochado. – Uma cesta. Claro que precisa guardá-los. – Paulie e os outros funcionários se divertem quando leem. Nunca liguei para uma beijadora de guardanapos, se quer saber. Pode vasculhar o meu apartamento que não vai encontrar um só número de telefone escrito com batom em um guardanapo. Beth parecia desconfiada e não podia culpá-la. – Faz quanto tempo desde que teve seu último relacionamento sério? E não quero dizer com uma mulher que beija guardanapos. E lá estava o único assunto sobre o qual não gostava de falar e não havia como escapar. Seria melhor se estivessem em um local com mais privacidade, mas, pelo menos, não tinha ninguém perto o suficiente para ouvir.


– Meu último relacionamento sério foi meu casamento. Beth passou o dedo nas gotas que se condensaram no copo. – Você já foi casado? – Sim. Nós nos divorciamos uns dois anos atrás. – O que aconteceu? Ah, espere… não é da minha conta. Desculpe. Aquilo doeu. Afinal, teriam um filho juntos. Kevin achou que ela gostaria de conhecê-lo um pouco melhor. – Antes de comprar o Jasper’s Bar & Grille, eu era um policial. Um dos melhores de Boston. – Você era policial? Jura? – Sim. Beth apoiou o queixo nas mãos. – Não consigo te imaginar de uniforme, com uma arma na mão e tudo mais. – Tenho fotos. Posso te mostrar mais tarde. – Está aí uma coisa que eu gostaria de ver, mas acho que o que faz agora tem muito mais a ver com você. Kevin sorriu, encarando-a. – Há muita coisa em minha vida agora que tem tudo a ver comigo. – Encantador. – Beth revirou os olhos. – Então, você era policial e… Droga, ela era insistente. – Sim, e sempre ficava com os piores turnos nas piores partes da cidade, mas não pensava muito sobre o motivo. Então, uma noite, voltei para casa para pegar uma papelada que havia esquecido. Não tinha hábito de levar trabalho para casa, porque achava que o tempo que passava com Vicky deveria ser exclusivo dela. E acabei encontrando meu comandante transando com a minha mulher. Acho que o caso deles já rolava há algum tempo. – Sinto muito. – Bati nele até não conseguir mais mexer meu braço. Graças a Deus, o comandante era casado com a filha de um figurão, então evitou que a notícia se espalhasse. E nem prestou queixa. Eu larguei minha mulher e o emprego e voltei para casa. Comprei o Jasper’s e aqui estamos. O modo como Beth o olhou deixou claro que ele não conseguiu contar a história como se não tivesse sido nada de mais. Ridículo, claro. Perder ao mesmo tempo a esposa e o distintivo, ou seja, tudo o que realmente importava para ele, fora um choque. Até mesmo a imagem do nariz do


comandante se quebrando contra seu punho não conseguiu apagar a lembrança do canalha em cima de sua esposa. – Vocês tiveram filhos? – Não. Isso foi a única coisa boa do meu casamento. – Kevin bebeu um gole de refrigerante na esperança de apagar o gosto amargo da boca. O que não funcionou. – O viciado em cheeseburgers do Jasper na sua barriga é meu primeiro filho. Por alguns segundos, Kevin pensou que ela continuaria fazendo perguntas, mas Beth apenas sorriu. – Se o bebê já está viciado em cheeseburgers agora, estarei pesando uma tonelada até a primavera. – E ainda será a mulher mais gostosa do bar. Kevin se perguntou se ela sabia que ficara completamente vermelha, começando no rosto e descendo pelo pescoço até a altura do decote da blusa branca. – Infelizmente, jamais beijarei um guardanapo para você. – Se o fizesse, não só o guardaria, como colocaria em uma moldura e penduraria bem ali, sobre o balcão. – Isso nunca vai acontecer. – COM LICENÇA, eu pedi bem passado. – Beth olhou para o hambúrguer que o cliente balançou em sua direção. Parecia mais um disco de hóquei do que carne. – Está vendo esta mancha rosada aqui? Não, ela não via nenhuma mancha rosada. – Desculpe, posso pedir outro para você. – Não, vou comer este. Então qual a razão de reclamar, a não ser justificar a péssima gorjeta que deixaria? Beth murmurou mais alguns pedidos de desculpas, esperando garantir alguma coisa e se dirigiu à próxima mesa. O restaurante estava cheio e, na maioria das noites, ficaria feliz com a perspectiva de boas gorjetas, mas estava cansada e irritada. E o problema de engravidar no primeiro encontro é que não conseguia identificar a causa da irritação. Seria o bebê… ou o pai da criança? – Senhorita, pode me trazer mais café? Beth serviu comida e limpou mesas por mais uma hora antes do seu intervalo. Após encher três quartos de uma caneca de café descafeinado


para o bebê e um quarto do verdadeiro para ela, caminhou até uma pequena mesa no canto da cozinha barulhenta. A barrinha de granola escondida no bolso do avental a manteria até o fim do turno e, se comesse pequenos pedaços e mastigasse bem devagar, poderia convencer a si mesma de que estava satisfeita. Só morava em cima do Jasper’s havia alguns dias e os cheeseburgers já apareciam em sua cintura. Julia juntou-se a ela enquanto comia o último pedaço da barrinha. As pessoas costumavam dizer que a mulher de cabelo grisalho servia mesas ali desde a inauguração do restaurante, em 1976. Beth não sabia se era verdade, se fosse, era surpreendente, pois Julia era bastante mal-humorada para aquele tipo de emprego. – O que há com você esta semana? – perguntou Julia como se a estivesse cumprimentando. – Só estou um pouco cansada. Eu me mudei e… sabe como é tentar dormir em um novo local. – Para quando é o bebê? Por sorte, Beth já havia acabado de engolir a barrinha, senão teria se engasgado. Julia deu uma risada rouca, resultado de anos de fumo. – Tenho três irmãs e duas filhas e todas têm filhos. Às vezes, seu olhar fica perdido e coloca a mão sobre a barriga. Poderia pensar que estava sofrendo de cólicas se não fosse a expressão sonhadora. Beth ainda não queria que a notícia se espalhasse e muito menos que seus colegas de trabalho ficassem sabendo. E seu chefe. Não até ter um plano B no caso de ser demitida. Não a demitiriam por seu estado, claro. Mas encontrariam outro motivo. Certo ou errado, muita gente não se sentia confortável sendo servida por uma mulher visivelmente grávida. Isso os fazia se sentirem culpados. – Para dia 28 de junho – informou, com um gesto impaciente. – Por favor, não conte a ninguém. Eu… Dá azar. – Caramba, não vou contar a ninguém, querida. Mas coma direito e tome as vitaminas que o médico prescrever ou não vai conseguir continuar trabalhando. – Pode deixar. – Por falar nisso, comer direito significa mais do que uma barra de cereal. É melhor eu ir lá para trás fumar meu cigarro. E se não quiser que ninguém


saiba que tem um pãozinho no forno, mantenha as mãos nos bolsos. Beth sorriu, mas o sorriso secou assim que Julia se afastou. Preocupava-se constantemente com o que faria se ou quando não pudesse mais manter o emprego, por causa da gravidez ou por ser demitida. A ideia de não ter uma reserva era tão repulsiva que até a inofensiva barra de granola pesou em seu estômago. Não estava acostumada a ser responsável por ninguém a não ser por si mesma e suas necessidades eram muito simples. As do bebê não eram. Mas agora tinha Kevin, o minidemônio em seu ombro soprou ao seu ouvido. Kevin não a despejaria, tampouco a deixaria passar fome ou ficar sem assistência médica. Os dois traços azuis no teste adernaram seu barco, mas tinha Kevin agora. E ele estava disponível e disposto a equilibrar sua embarcação. O problema com isso, argumentou o anjo supercauteloso no outro ouvido, era que Kevin não apenas equilibraria o barco, como também agarraria o leme e o levaria para onde desejasse. Ou seja, se Kevin quisesse abandonar a embarcação, ela ficaria ainda pior. Seu barco não apenas afundaria, como se sentiria totalmente perdida sem ele. Não, não dependeria de Kevin. Já estava tendo problemas suficientes para mantê-lo à distância, uma decisão com a qual seu corpo se recusava a concordar, a julgar pela forma como se contorcia todas as noites ansiando por ele. – Ainda está sentada aí? – A voz de Julia arrancou-a de seus devaneios. Beth consultou o relógio. Epa! – Já estou indo. Jogou o restante do café na pia e colocou a xícara vazia em uma bandeja. Em seguida, jogou a embalagem usada da barrinha no lixo e se encaminhou ao banheiro. Era hora de conjurar um sorriso radiante e se concentrar em conseguir o máximo de dinheiro que pudesse enquanto podia. UM COPO se estilhaçou no chão, atrás de Kevin, e ele nem precisaria olhar para saber que fora Paulie quem o deixara cair.


Como sabia? Porque aquele cara chamado Sam Logan estava sentado na mesa da frente, comendo um hambúrguer, bebendo uma cerveja e assistindo ao canal de esportes em uma das enormes televisões, como fizera todas as noites durante as últimas duas semanas. Kevin abaixou-se quando Paulie passou por ele com a vassoura, resmungando palavras ininteligíveis. – Precisa de ajuda com isso? – Não. Ainda que tentasse não meter o nariz onde não era chamado, Kevin sabia que esse cara a perturbava de alguma maneira e aqueles copos não eram baratos. – Ainda não quer me contar quem ele é? – Você sabe quem ele é. – Paulie agachou-se e varreu o vidro quebrado para cima da pá. – É um executivo de Boston, construindo um sofisticado centro de conferências, que está hospedado em um hotel no final da rua. – Ouvi falar. O que não ouvi ainda é como vocês dois se conheceram ou por que tem medo dele. Paulie ergueu-se e cutucou-lhe o peito. – Eu não tenho medo dele. Nós tivemos um caso algum tempo atrás, está bem? O caso terminou e nunca pensei que o veria de novo, mas aqui está ele. Fim da história. Não era no fim da história que Kevin estava interessado. Queria saber o início dela. Como um cara como Logan e uma mulher como Paulie sequer se conheceriam, que dirá terem um caso. – A oferta continua de pé. Posso jogá-lo no olho da rua se isso fizer com que pare de quebrar meus copos. – Não tem motivo para jogá-lo na rua. Ele não começou nenhuma briga e não é fã dos Yankees. – Este bar é meu e eu estabeleço as regras. Posso jogá-lo na rua quando quiser. – Esqueça. – Ela lhe voltou seu típico olhar que dizia “deixe-me em paz”. – Fim da história. Kevin deu de ombros, mas lançou um olhar atravessado na direção de Sam Logan. Como o homem estava olhando para os dois em vez de assistir à televisão, não lhe passou despercebido. No entanto, não se acovardou. Apenas sorriu e ergueu o copo antes de tomar um gole da bebida. Kevin


estava decidindo se deveria ou não ter uma conversinha com o sujeito quando a porta se abriu e Beth entrou no bar. Seus sobrinhos eram experts em super-heróis e Kevin sabia por eles que ser fã da Mulher Maravilha causava ótima impressão nas mulheres, mas nunca parara para pensar sobre o que acontecia quando os sentidos do Homem-Aranha começavam a vibrar. Agora imaginava que o Homem-Aranha deveria se sentir um pouco como ele quando viu Beth entrar no bar, sem a parte do perigo iminente, é claro. Definitivamente havia algo vibrando dentro dele. Era como se estivesse superconsciente da presença dela. E havia também uma frustração. Ela não mudara de ideia em cinco minutos sobre fazer sexo com ele. E a julgar pelo fato de que a única interação que tiveram desde que se mudara para lá fora ouvi-la abrir e fechar a porta do apartamento, não havia esperança de mudar de ideia em um futuro próximo. Beth não se sentou ao balcão, mas caminhou para o canto tranquilo e esperou por ele. – Só queria que soubesse que andei procurando e encontrei uma médica que penso ser muito boa. Tenho uma consulta marcada para daqui a alguns dias. Nada de mais, apenas um exame para confirmar a gravidez e a data prevista do parto. – Quer que eu vá junto? A julgar pela expressão no rosto dela, a resposta seria não. – Não, só achei que deveria saber porque… você sabe. Porque ele estava pagando. – Deveríamos ir até o banco e abrir uma conta conjunta. Vai facilit... – Não. – A resposta veio tão rápida que o interrompeu no meio da frase. – Não vamos fazer nada em conjunto. – Você me procurou para que dividíssemos as responsabilidades financeiras e conseguíssemos pagar um bom médico. – Sim. E conforme as contas forem chegando, se houver algumas que não possa pagar, eu lhe pedirei que pague. Nunca pretendi que arcasse com todas as despesas sozinho. Em vez de argumentar, Kevin debruçou-se no balcão e sorriu. – Está ficando irritadinha outra vez. Quando os olhos de Beth se fixaram em sua boca, Kevin soube que ela estava se lembrando da última vez em que a chamara assim. Na noite em


que a beijou sob a luz do luar e mudou a vida de ambos para sempre. Beth deu um suspiro. – Está bem, talvez uma conta conjunta não seja má ideia, mas apenas para as despesas médicas e lhe apresentarei todos os comprovantes. Seria fácil dizer “Viu, não foi tão difícil”, mas tudo que falou foi: – Informe-me quando tiver tempo e iremos ao banco. – Combinado. Agora tenho que me arrumar para o trabalho. – Mas acabou de chegar! – Vou trabalhar em outro casamento esta noite, então só tenho tempo de tirar um cochilo, tomar banho e comer antes de ir. – Acha prudente trabalhar tanto assim? – Ela costumava ficar muito tempo de pé. – Estou bem. – Beth se foi antes que ele pudesse fazer algo estúpido como pedir-lhe que largasse o emprego. Teimosa e cheia de orgulho como era, aquilo serviria apenas para irritá-la. – Não somos farinha do mesmo saco? – perguntou Paulie ao passar por ele para pegar um copo. – Pelo menos não estou quebrando todos os copos do bar. Ainda.


CAPÍTULO 7

BETH ESPEROU a médica confirmar o que o calendário do teste caseiro já havia dito antes de pegar o telefone e discar o número do celular da mãe. Estava armada com sorvete de chocolate. – Você se mudou outra vez, não foi? Beth riria do tom exasperado da mãe se não estivesse tão nervosa. – Na verdade, sim. – Você me deve um novo par de sapatos. – Ouviu a mãe dizer, por certo ao seu pai. – Gostaria que nos ligasse antes de se mudar. Quando não o faz, fico sem saber onde minha própria filha está. Para onde foi desta vez? – Estou na mesma cidade. Só mudei de apartamento. – Beth engoliu uma colherada de sorvete para tomar coragem. – Tenho algumas novidades. Eu estou… é… vou ter um bebê. Segundos de silêncio se passaram e então ouviu o grito estridente da mãe ecoar em sua cabeça. – Ah, meu Deus, eu vou ser avó! Ao fundo, ouviu-se uma erupção de vivas e parabéns que fizeram Beth gemer. – Mãe, onde você está? – Estamos no bufê de luau. Você comprou esse tal esperma congelado? Ou sei lá como chamam… Beth quase engasgou com o sorvete. Felizmente, a mãe tinha se afastado do pessoal. – Não, eu… existe um cara. Beth passara tanto tempo concentrada na forma como os pais reagiriam à notícia da gravidez que esquecera de pensar como descreveria Kevin. Não


era só um cara que encontrara por acaso. Mas também não queria que os pais começassem a ter esperanças de um iminente casamento. – Artie, ela tem um namorado! – Beth lambeu o sorvete da colher enquanto os pais tagarelavam. – Qual é o nome dele, Beth? Queremos saber de tudo! – O nome dele é Kevin Kowalski e, bem… ele é dono de um bar e tem uma família enorme. – Há quanto tempo vem se encontrando com ele? Há bem mais tempo do que pretendia. – Não estamos exatamente nos encontrando. Mais alguns momentos de silêncio. Mais sorvete. – Ele terminou com você porque ficou grávida? Alguém deveria dizer a esse homem que são necessários dois para… – Mãe! – Deveria ter levado o pote inteiro do sorvete para a mesa. – Ele não terminou comigo. Nós... É complicado. Beth resignou-se a contar à mãe a história toda, imaginando o quanto mudaria quando fosse recontada ao pai. A mãe era a rainha de editar e embelezar os telefonemas dela. Quando Beth parou de falar, a mãe suspirou. – Por que não volta para a Flórida, querida? Acharemos um bom apartamento para você perto de nós para que possa ter uma família para ajudá-la. Era tentador. Se precisasse da mãe por perto em algum momento da vida, era agora. Mas se o monitoramento havia sido ruim quando era mais jovem, como seria agora que carregava seu netinho? – Vou ficar aqui, mãe. Poderia imaginar muito bem o olhar de Kevin se tivesse que vê-la pegar um ônibus, levando o bebê para longe dele. Não que pretendesse viver grudada nele, mas não o faria perder o nascimento do filho. – Pergunte se ela precisa de dinheiro. – Beth ouviu o pai dizer. – Não preciso de dinheiro. E, antes que perguntem, não quero que saiam do navio no primeiro porto e voem para cá. As fungadas chegaram altas e claras até ela. – Quero abraçá-la. Beth sorriu e abocanhou a última colherada de sorvete. – Ouvir sua voz é como um abraço, mãe. – Nós devemos estar em casa até o Natal.


– Não, não devem. Não podem brincar com seu neto ainda, portanto aproveitem o cruzeiro e nos encontraremos depois que vocês voltarem. – Eu não deveria estar no meio do oceano. E se você precisar de mim? Beth sentiu vontade de rir por estar certa quanto ao monitoramento, mas então se lembrou de quantos abortos a mãe sofreu. – Estou bem, mãe. O apartamento de Kevin fica em frente ao meu e Paulie, a gerente dele, mora embaixo, então não estou sozinha. E prometo telefonar se surgir algum problema. Conversaram por mais alguns minutos enquanto a mãe descrevia a lista de pessoas a quem teria de contar que finalmente seria avó, e então Beth desligou o telefone e desabou no sofá. Fechou os olhos quando a nova realidade a atingiu. Agora era oficial. Seria mãe no fim de junho. A médica havia confirmado e já contara à mãe. Não poderia ficar mais oficial. Nada mais de subir em um ônibus quando lhe desse na telha, carregando apenas uma mala. E nada mais de fugir de homens que colecionavam guardanapos beijados, que eram problemáticos apesar de deslumbrantes. Tinha de comprar um freezer enorme para estocar todos os potes de sorvete de chocolate que precisaria no futuro. PAULIE IGNOROU o bip sinalizando a nova mensagem de texto pelo tempo que conseguiu. Menos de cinco minutos. Então abriu o telefone enquanto resmungava todos os palavrões que conhecia. E conhecia muitos. Encontre-me na porta do bar às seis.

Idiota metido. Por quê? Por que a levarei para jantar. Vista-se adequadamente. Vá se danar. Seis. Em ponto. Senão...

Paulie não se preocupou em responder. Decidiria encontrá-lo ou não. E não queria que ele soubesse qual seria sua decisão até as 18h. Às 16h encerrou o expediente e subiu. Uma ducha rápida e era chegada a hora da decisão. Ir ou não ir... eis a questão. Deveria deixar sua ausência enviar-lhe a mensagem de que não obedecia ordens de homem nenhum, principalmente de um desgraçado chantagista. Se começasse a deixar que ele a controlasse agora, onde iriam parar?


Mas uma parte dela, a parte carente que sentia falta dele, desejava sentar em frente a Sam em um restaurante, olhos nos olhos sobre a borda de uma taça de vinho. Talvez, se o vinho fosse bom e o clima propício, o traria para o apartamento dela, porque o sr. Samuel Thomas Logan IV era tão bom na cama quanto na sala de reuniões. E se queria fazer joguinhos com ela, poderia pelo menos conseguir um orgasmo, ou dois, ou três... Para o inferno com tudo aquilo. Ela iria. Talvez desse tudo errado e ele a deixaria em paz, ou desse tudo certo e ela faria um sexo bom. Vista-se adequadamente. Do fundo do canto obscuro de seu armário, onde nunca precisava olhar, arrastou um saco de roupas. Sacudiu a poeira e estendeu o terninho sobre a cama. Estava cinco anos fora de moda, mas apenas alguém como sua mãe notaria. Era composto de blazer e saia de corte clássico azul-marinho. Encontrou os escarpins que combinavam com o terninho no fundo do armário. Nada mais era do que uma camisa de força de grife. Pela milionésima vez, lembrou a si mesma de que não precisava fazer aquilo. Poderia contar à sua nova família do Jasper’s quem era de verdade, uma Atherton. Tradicional família rica de Boston. Tinha certeza que não perderia o emprego ou a moradia. Mas passariam a vê-la de forma diferente. Ficariam imaginando por que uma garota como ela servia bebidas em um bar. As outras garçonetes ficariam ressentidas a cada dólar que ela recebesse de gorjeta, quando tinha milhões em um fundo criado para ela. Seria inevitável que os rumores se espalhassem e até seus clientes passariam a tratá-la de modo diferente. Os homens não gostavam de rir e contar piadas a mulheres ricas, nem lhes perguntar a opinião sobre as chances de o Bruins ganhar o campeonato. Não. Por enquanto, entraria no estúpido esquema de chantagem de Sam. Para manter seu segredo e para acabar com uma coceira incômoda que Sam era expert em debelar. Era um transtorno, mas para evitar os olhares curiosos dos clientes regulares, usou a porta dos fundos. Não ficou surpresa ao ver a limusine estacionada na rua, com o chofer segurando a porta aberta. Sem perder tempo e esperando que, se alguém estivesse espiando pela janela do bar, não a reconhecesse, Paulie entrou no carro e esbarrou com o ombro em Sam.


– Oi, gata – disse ele assim que a porta se fechou, deixando-os isolados no pequeno espaço cheirando a couro e pouco iluminado. – Olá, idiota arrogante. – Paulie não pretendia facilitar as coisas para ele. – Vou pedir o prato mais caro do menu, para sua informação. – É bom saber que certas coisas nunca mudam. – Você é um cara engraçado. – Paulie firmou os pés no chão para evitar cair por cima dele quando o carro virasse uma curva. – Está linda esta noite – disse ele após alguns minutos de silêncio constrangedor. – Quer dizer que estou vestida como acha que eu deveria. – Vai ficar assim a noite inteira? – Assim como? – Antagonizando. – Se a pergunta é se vou ou não me comportar como uma mulher que está sendo chantageada para fazer algo contra sua vontade, a resposta é sim. Quando Sam jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada, ela teve que cruzar os braços para evitar dar-lhe um soco no estômago. – Ambos sabemos... – disse ele – que não estaria aqui se não quisesse e que se dane qualquer ameaça que eu pudesse ou não fazer. – Ah, você fez. Paulie preparou-se para mais piadas sem graça e ficou confusa quando ele afastou uma mecha de cabelo para trás de sua orelha. – Eu a tenho observado enquanto trabalha. Parece realmente feliz. Ela estava, na maior parte do tempo. Era verdade que passava algumas horas solitárias acordada, rolando na cama, fazendo o jogo do “e se”. E se não tivesse fugido da igreja? E se tivesse prometido na frente do padre amá-lo e respeitá-lo até que a morte os separasse? Estariam casados há cinco anos agora e, sem dúvida, seriam pais da criança prodígio Samuel Thomas Logan V. Estaria catedrática em gerir casas e babás e as doações que iriam garantir que nenhuma porta jamais fosse fechada para Sammy V. Comparecendo a chás de caridade. Promovendo jantares e bailes beneficentes. Expirando exasperada, Paulie afastou-se de Sam. Como era injusto que o homem de seus sonhos tivesse vindo embrulhado no estilo de vida de seus pesadelos.


– Você é feliz? – perguntou ele. – Eu era. – Era? Sim, ao menos pensava que era. Até que o único homem que poderia ouvir a pequena palavra que começava com “A” sair de seus lábios cruzar sua vida outra vez. – Chantagem tem a capacidade de acabar com o bom humor das pessoas. O restaurante era caro e de classe. Do tipo que Paulie costumava evitar. Mas tinha de admitir que o vinho era bom. E até o momento, Sam resistira a atender os chamados do celular, dando a ela atenção absoluta. – Não me perguntou sobre seus pais – disse ele, após pedirem as entradas. O brilho que surgira em seu olhar enquanto o encarava por sobre a luz da vela desapareceu como uma gota de água em uma frigideira quente. – VEJO-OS NA internet de vez em quando. Nas mesmas páginas de eventos sociais, em datas diferentes. – Alguma vez telefonou para eles? – Não. – Se estava tentando abrir caminho outra vez para dentro de sua calcinha, escolhera o assunto errado. – O que está fazendo aqui, Sam? Ele tomou um gole de vinho e deu de ombros. – Não sei quanto a você, mas eu estou aqui para saborear uma boa refeição em companhia de uma linda mulher. – E depois? Sam sorriu por sobre a taça de vinho, da mesma forma que costumava fazer quando a noite se encaminhava para uma tórrida seção de sexo. Não era exatamente um olhar arrogante, e ela própria havia imaginado um orgasmo ou dois, mas não gostou de saber que ele vislumbrara essa possibilidade. – Qual é o seu objetivo final? Vingança? O sorriso desfez-se no rosto de Sam. – Quase consegui acreditar que a havia esquecido, mas quando a vi outra vez, percebi que estava mentindo para mim mesmo. Paulie não queria escutar aquilo e não fazia ideia do que responder, então tomou um gole de vinho. Abandonar Sam foi doloroso, mas tinha que fazer isso para preservar a própria sanidade e convenceu a si mesma de


que não se importava. Que Sam iria casar com ela somente porque era o que se esperava dele. Se realmente a amasse... – Nunca foi bom em deixar suas aquisições lhe escaparem pelos dedos – comentou ela, determinada a não morder a isca. Paulie notou quando um lampejo de mágoa e raiva cruzou o semblante de Sam. – Não a trouxe aqui para discutirmos. Conte-me sobre as pessoas que trabalham com você. De alguma forma, conseguiram passar o resto do jantar conversando sobre trivialidades, mas o estômago de Paulie estava tão contraído que nem conseguiu comer a sobremesa. E quando a limusine estacionou em frente ao Jasper’s, Paulie abriu a porta antes que Sam pudesse pensar em um beijo de despedida. – Obrigada pelo jantar. – Paulette, eu... Mas ela já estava na calçada, fechando a porta antes que ele conseguisse terminar a frase. Se houvesse alguma chance de tê-lo magoado, teria que cortar pela raiz o que quer que estivesse acontecendo agora, pois com certeza o magoaria outra vez. – JOSEPH KOWALSKI, ninguém está interessado em ouvir sobre seu traseiro enquanto estamos comendo! Kevin tentou sufocar uma risada quando o irmão mais velho desencadeou a ira da mãe, mas talvez não tivesse conseguido, pois o olhar severo de Mary recaiu sobre ele. – Ora, mãe, é engraçado! – disse Kevin. – Engraçado porque não tinha areia no seu... – Joseph! – Eu ia dizer bumbum. – Sei bem o que ia dizer. – Mary Kowalski voltou a atenção à mesa das crianças e à sua única neta. – Não gosta mais do meu purê de batata? Stephanie deu de ombros. – Estou de dieta. – Não precisa de dieta. Tem um corpo perfeito. Além do mais, a época de usar biquíni já passou. Por que acha que as mulheres vivem na Nova


Inglaterra e aguentam esse vento frio? Porque os suéteres e casacos escondem todos os pecados. E todo mundo ganha peso no inverno. É o isolamento térmico natural. Kevin conseguiu evitar dizer à mãe que ela também estava isolada do calor do verão enfiando uma garfada de carne assada na boca. Apesar de o feriado de Ação de Graças estar chegando, estavam tendo um jantar em família para celebrar a volta de Joe e Keri da lua de mel em alguma ilha tropical, onde um momento amoroso ao pôr do sol, aparentemente, havia deixado Joe com areia no local onde o sol não brilha. Quando houve um raro intervalo na conversa, Kevin pousou o garfo e clareou a garganta. – Então, Beth e eu temos novidades. – Quem é Beth? – perguntou Keri. – A moça que serviu bebidas no seu casamento. – Ah, já me lembrei. Como pude esquecer que meu marido quase foi expulso de própria festa de casamento por tentar alugá-la como garota de programa ou algo do gênero. – O que é garota de programa? – perguntou Bobby. O bronzeado de Keri tornou-se vermelho. – Opa! – São as garotas que trabalham nos programas de televisão, seu bobo – explicou Brian. – Mas o tio Joe alugou uma moça da televisão? – perguntou Bobby, franzindo a testa. – Não é nada disso, seus bobos – disse Danny aos irmãos mais novos. – Chega! – Lisa gritou para os filhos. – Vocês entenderão quando forem mais velhos. – Vou ser um gênio quando for mais velho – resmungou Brian. – Nós vamos ter um filho – anunciou Kevin antes que a família começasse a enveredar por outro assunto. – No final de junho. A única vez que ele viu a sala de jantar da mãe no mais absoluto silêncio fora na noite que dormiu na casa dos pais e desceu às 2h para assaltar a geladeira. Em seguida, é claro, todo mundo começou a falar ao mesmo tempo. E uma vozinha de criança sobrepujou as demais. – O tio Kevin vai ter um bebê com uma garota de programa? Kevin deu um tapa na testa. Aquilo não iria terminar bem.


– Vou falar com eles antes de irem para a escola na segunda-feira – prometeu Lisa. – Obrigado. – Já estava tendo uma dificuldade enorme em convencer Beth de que era um cara decente. Imagine precisar explicar por que seu sobrinho pensava que ela era uma prostituta. Conforme as perguntas pipocavam, Kevin percebia quão poucas respostas tinha. A não ser a data prevista para o nascimento do bebê, o fato de Beth ter se mudado para o apartamento em frente ao seu porque onde ela morava a tinta continha chumbo e que não estavam vivendo juntos, não tinha mais nada para contar. – Por que não a trouxe com você? – perguntou Mike quando a conversa acalmou. – Ela deve estar trabalhando. Bati na porta do apartamento dela para convidá-la, mas não tive resposta. E ela não tem celular. A sobrinha quase se engasgou com o purê de batata que estava sendo obrigada a comer sob o olhar severo da avó. – Ela não tem celular? Jura? Como manda mensagens para as pessoas? – Acho que conversa com as pessoas, como costumávamos fazer no passado. – Era uma boa pergunta, contudo. Não como enviava mensagens às pessoas, mas como poderia ser localizada se tivesse algum problema e não conseguisse entrar em contato com ele? Beth precisava de um celular, droga! Uma hora mais tarde, Kevin deixou a sala de estar em direção ao banheiro, mas, em vez disso, fez um desvio até a cozinha, na esperança de encontrar algumas sobras de torta de pêssego. Lá, encontrou Terry com um prato de plástico e uma colher na mão. – Eu te peguei! A irmã deu um salto, depois riu e levou o dedo indicador aos lábios. – Pegue um garfo. Kevin sentou-se junto dela e a abraçou. – Como tem passado, maninha? – Melhorando. A terapeuta tem ajudado. No início daquele ano, Terry e Evan haviam tido problemas e se separado. Apesar de terem se reconciliado, o casamento deles ainda era um trabalho em andamento. – Fico feliz em ouvir isto. Sabe que estamos todos torcendo por vocês.


– Pare de puxar o filme plástico tanto assim. Ela vai sentir o cheiro dos pêssegos. – Terry comeu mais um pedaço de torta. – Então, a dra. Tiffany, que parece ter 12 anos e fica retorcendo o cabelo, o que me faz ter vontade de lhe dar um tapa na mão, diz que tenho tendência a ser controladora. – Você? Não! – Muito engraçadinho. Não ponha o garfo na pia, idiota. Ponha na máquina de lavar louça, se não ela vai saber. Terry cobriu a torta com o filme plástico conforme estava. – Então... vem aí um bebê, hein? – É. – Kevin inclinou-se sobre a bancada e cruzou os braços. – E essa é a minha sorte. Finalmente inicio uma família, e tem que ser com uma mulher que entra no meu bar e não se joga em cima de mim. – Posso te dar o telefone da dra. Tiffany. Kevin deu uma risada e, em seguida, tampou a boca com a mão. – Droga! Tarde demais. – Vocês dois, embalem a torta do mesmo modo que estava se não vai ressecar. – Sim, mãe. – Kevin esgueirou-se em direção à sala de estar. Terry revirou os olhos enquanto lambia os dedos. – Espere, está cheio de creme da torta. Kevin limpou a boca com as costas da mão e sacudiu a camisa. – Nem pense em limpar meu rosto com cuspe. – Daqui a alguns anos você e Beth estarão correndo atrás de um monte de crianças para limpá-los com cuspe, também. Kevin bufou, mas sua mente fez uma rápida viagem ao futuro. Ele correndo atrás de um menino travesso ou de uma menininha. Mas não tinha certeza se Beth estaria fazendo alguma coisa com eles. Às vezes, tarde da noite, enquanto encarava o teto de seu quarto em vez de dormir, temia que ela fosse embora. Era uma nômade por natureza. Os pais moravam na Flórida. Não tinha nenhum laço com New Hampshire a não ser sua gravidez. Nada a impediria de pegar a estrada, levando o filho deles com ela. Nada, apenas ele para convencê-la a ficar. O sabor prazeroso da torta de pêssegos desapareceu, então pegou mais um garfo e tirou o filme plástico. Só mais algumas garfadas.


CAPÍTULO 8

BETH TINHA certeza que o horário do jantar na sexta-feira seria um dos círculos do inferno. Já havia conseguido fazer um bom dinheiro de gorjetas, mas o restaurante estava muito agitado, entre os clientes regulares e os turistas que saíam da estrada para fazer uma boquinha. Para piorar, desde sua conversa com Julia, vinha se policiando para não pousar a mão na barriga e esse tipo de concentração era exaustivo. Incapaz de arranjar energia para ser sociável, esgueirou-se pela porta dos fundos do Jasper’s para evitar entrar pelo bar. Estava prestes a apertar o botão do elevador quando percebeu que deveria ter ido pela escada. Dava para ouvir o motor do elevador na cozinha e quem estivesse no canto do balcão conseguiria sentir a sutil vibração. Conforme previra, mal tirou os sapatos, ouviu uma batida na porta. Deixou Kevin entrar e afundou no sofá. – Só tenho alguns minutos porque está uma loucura lá embaixo – disse ele, e Beth fez um silencioso agradecimento a Deus pelas noites agitadas de sextas-feiras. – Tenho uma coisa para você. Não estava com vontade de conversar. Ele retirou um telefone celular do bolso e um manual do usuário e os entregou a ela. – O que é isto? – É um... celular. Sei que não tem um, mas pelo menos já deve ter visto algum na televisão. – Muito engraçado. Sei muito bem o que é um celular, mas para que isto? – Para fazer ligações telefônicas.


– Ah, pelo amor de... – Ela jogou o aparelho sobre a mesa e se levantou. Aquele homem era realmente irritante e ela já gastara sua cota de irritação naquela noite. Passando por ele, encaminhou-se à geladeira. – Esqueça. – Está bem, desculpe. – Kevin tocou-lhe o braço, mas ela continuou andando. – Beth, seja razoável. – Estou cansada, Kevin. – O telefone é seu. Já programei meu número nele. É um contato de emergência. Programei também os números de meus pais, irmãos e Terry e… ah, Paulie. Diabos, os telefones de todos estão aí. Kevin lhe comprara um telefone. Ela abriu a porta da geladeira e vasculhou o conteúdo, tentando achar algo para comer e esfriar a cabeça. Se ela quisesse a droga de um telefone, teria comprado um. Com certeza não tão moderno e seria pré-pago, mas podia comprar um celular. – Você ficou zangada – continuou ele. Sim, ficara zangada. – Não tem nada que ficar comprando coisas para mim. – Ora, não foi nada de mais. Fiz um plano familiar e acrescentei sua linha. Dessa forma, fica mais barato, portanto faz sentido. Pode mandar mensagens também se quiser. Plano familiar. A palavra atingiu-a como um soco no rosto. Beth havia deixado claro que eles não formavam um casal e ele os transformara em uma família. Com o telefone dele em seu bolso, o monitoramento começaria. Onde estava ela? O que estava fazendo? Quando voltaria para casa? Beth fechou a porta da geladeira devagar para não a bater com força, como era sua vontade, e o encarou. – Um plano familiar. Kevin deu de ombros. – É assim que eles chamam. Como eu disse, não tem nada de mais. Tinha tudo de mais, porém ela estava começando a pensar que ter aquela conversa com Kevin era como bater a cabeça contra um muro de tijolos. – É demais sim, e o fato de ainda não ter percebido só me faz pensar que estava certa ao seu respeito. – Certa sobre o quê? – Sobre você estar tentando controlar a minha vida.


– Bem, desculpe por eu ser um cara legal. – Kevin ergueu as mãos para o alto e a raiva lhe contraiu a mandíbula. – O que quer que eu faça, Beth? Que a ignore? Finja que você não existe até chegar o dia de enviar um cheque todo mês com a pensão da criança? Beth também podia ficar com raiva. – Então não existe um meio-termo entre me ignorar e fazer um plano familiar? – Você precisa da droga de um telefone celular! – Não, não preciso. E, se precisasse, teria comprado a droga de um telefone celular. – E se precisar de ajuda? E se achar que algo está errado com o bebê? Beth não se deixaria manipular, nem que sua gravidez fosse usada contra ela. – Mulheres dão à luz neste país há mais de quatrocentos anos sem telefones celulares. Kevin deu uma risada, mas não era um som de alegria. – Este é um ótimo argumento, Beth. Planeja também ficar de cócoras no meio da floresta quando sua bolsa arrebentar? Antes que aquela conversa piorasse ainda mais, Beth respirou fundo. Gostaria de dizer algo razoável ou até conciliatório, mas não conseguia pensar direito com a palavra “família” ecoando em seus ouvidos. E Kevin não lhe dava uma chance. – Tenho uma novidade – continuou ele. – Esse bebê que está carregando é minha responsabilidade, mesmo que você ache que não. Portanto, preciso saber que será capaz de pedir ajuda onde quer que esteja e a qualquer hora. Por isso comprei a droga de um telefone celular. – Kevin encaminhou-se para a porta, mas parou e olhou por sobre o ombro. – Vou tentar ser um cafajeste de agora em diante, se é isso que a faz feliz. E para provar o que acabara de dizer, bateu a porta com tanta força que fez o chão tremer. – Droga! – Beth voltou ao sofá e se enterrou nas almofadas macias com um suspiro cansado. Não pretendia ser uma megera irracional. Pelo menos assim pensava. Afinal, ele não tentara ditar as roupas que ela deveria usar. Nem lhe comprar uma minivan. Tampouco a trancara no apartamento sem que pudesse ir a lugar algum.


Kevin lhe comprara um telefone celular. Não para controlar sua vida, mas porque se preocupava com ela e com o bebê. Saber que ela carregava um telefone lhe daria certa tranquilidade. E Kevin sabia que ela não tinha muito dinheiro, então, em vez de pressioná-la a comprar um telefone, acrescentou-a ao próprio plano. Seu plano familiar. E lá estava a palavra que a havia apavorado e que, infelizmente para Kevin, desencadeara aquele ataque extremo que ele não merecia. Kevin realmente era um cara legal e a forma com que se ajustara à gravidez surpresa e à paternidade eminente havia sido quase um milagre. Então ele lhe comprara um telefone. Um simples “obrigada” teria sido suficiente. Beth pegou o telefone e começou a olhar o menu. O pedido de desculpas teria que esperar até ele não estar tão ocupado. Já o deixara bastante chateado. Portanto, naquele meio-tempo, familiarizaria-se com o aparelho. Lá estava o número de Kevin, como dissera, marcado como contato de emergência. Além dos numerosos membros da família dele e de Paulie, ele também incluíra o telefone do bar e do restaurante em que ela trabalhava. Da farmácia. Programara até o número de telefone da obstetra. Todos os números de que ela poderia precisar já estavam salvos. Devia ter lhe tomado bastante tempo. Lágrimas brilharam em seus olhos, então recostou-se no sofá e fechou os olhos. Pediria desculpas no dia seguinte e agradeceria pelo presente. E tentaria não pensar muito na palavra família. KEVIN ESTAVA fazendo a barba na manhã seguinte quando o telefone anunciou uma nova mensagem com um som alegre. Por sorte, o aparelho estava longe de seu alcance, caso contrário, o teria esmagado. Alegre não era realmente seu estado de espírito. Continuou a se barbear por mais alguns instantes e então lavou o rosto. O telefone emitiu um som bem menos alegre enquanto passava loção pósbarba e ele abriu o aparelho com um xingamento. Era uma mensagem de Beth. Sinto muito.

Kevin também sentira muito enquanto tentara manter a calma até terminar o trabalho na noite anterior. E enquanto encarava o teto de seu


quarto em vez de dormir, tentando entender como conseguira estragar tanto as coisas. Não que pensasse que estava errado em lhe comprar um telefone celular, pois não estava, mas talvez pudesse ter lidado melhor com a situação. Sabia, no entanto, que se tivesse lhe dito antes, ela o teria impedido. Beth era orgulhosa. Não que fosse um defeito. Mas teria tentando convencê-lo de que não precisava de um celular. E se ele conseguisse convencê-la de que o aparelho era necessário, ela mesma teria comprado um. Por certo, em detrimento de outras coisas que precisava. Fora muito mais inteligente, fácil e barato tê-la incluído em seu plano. E tudo teria corrido com mais tranquilidade se Beth não estivesse tão cansada e ele não tivesse começado a fazer piadas. Desculpas aceitas. Está com fome?

Vestiu a camisa, com o humor bem melhor. No futuro, ele se lembraria de ser mais cuidadoso com o orgulho de Beth, mas ficariam bem. E ela estava usando o telefone, o que era mais importante. Queria que fosse capaz de contatá-lo ou a alguém se precisasse de ajuda. Claro. Quinze minutos?

Ele sorriu e respondeu à mensagem. Posso servir-lhe o café na cama. Engraçadinho. No corredor. Quinze minutos.

Kevin estava pronto, chaves na mão, quando ela saiu do apartamento, parecendo tão cansada quanto ele se sentia. – Bom dia, raio de sol. – Bom dia. – Beth fechou a porta, testando a maçaneta para verificar se estava trancada. – Estou pronta. – Aonde vamos? – perguntou Kevin enquanto desciam de elevador. Beth parecia pouco à vontade, mas ele não sabia dizer se estava envergonhada ou ainda zangada. De qualquer forma, tomaria cuidado com as palavras. – Algum lugar sossegado… onde a gente possa conversar. Epa! Aquilo não soava bem. – Sei de um lugar ideal. Kevin levou-a até um de seus restaurantes favoritos. Um lugar que frequentava bastante e podia conseguir uma mesa tranquila longe do aglomerado de pessoas. Beth aguardou até servirem o café antes de falar. – Eu gosto de você – começou ela. E a preocupação o atingiu. Havia sempre um “mas” para uma frase como aquela. – Mas parece que está


fingindo que somos um casal, e nós não somos. – Mas poderíamos ser. – Não havia sentido em negar que desejava isso. – Eu lhe disse quando me mudei que o aspecto pessoal de nosso relacionamento havia terminado e pensei ter deixado claro o motivo, mas você fez questão de não entender ou não levou em consideração o que eu estava tentando dizer. – Você disse que eu era sufocante, o que, para ser sincero, me ofende. Existe uma grande diferença entre controlar a vida de alguém e ajudar uma amiga e mãe de seu filho a se mudar para um apartamento mais seguro. Beth parecia infeliz, mas ele também estava bastante triste. Era necessário conversar sobre aquele assunto para poderem seguir em frente. E seguir em frente significava que ela deveria aceitar o fato de que os Kowalski não passavam por nada sozinhos. E agora ela estava bem próxima de um Kowalski, portanto, fazia parte desse esquema. Havia um monte de pessoas esperando por oportunidades para lhe dar presentes e ajudá-la no que fosse necessário. Após tomar um gole de café, Beth encarou um bolinho sobre a mesa. – Seria fácil deixar que tome conta de mim. – Então deixe. – Não posso. Kevin segurou-lhe a mão por sobre a mesa, esfregando o polegar sobre as juntas de seus dedos. – Por quê? – Porque eu gostei de você antes de nós… – Ela olhou em volta. – Antes de dormirmos juntos. Mas se eu… se começar a gostar mais agora, como vou saber se não é só porque vou ter um filho seu, o que já é assustador, e porque seria bem mais fácil deixá-lo tomar conta de mim? Em vez de abrir a boca e dizer algo estúpido, Kevin ficou calado enquanto tentava pensar na coisa certa a dizer. Por sorte, a garçonete deu-lhe cinco minutos para pensar, trazendo os pratos e prometendo voltar logo com o café. Quando ela se retirou, Kevin falou enquanto se serviam da comida. – Então está mais preocupada com a ideia de ter alguém com quem contar do que pela pessoa em si. – Acho que pode ser dito desta forma. Só tenho medo de ficar muito acostumada a depender de você. E então, se decidir se afastar, eu iria desmoronar, acho. E isso me assusta porque a única coisa que nunca


desejei foi depender de alguém. – Beth respirou fundo e continuou. – Além do mais, também tenho medo de magoá-lo. Meus pais… eles são maravilhosos, mas me sufocam. Então fico mudando de cidade e, quando chego a um ponto no relacionamento em que as pessoas começam a me controlar e tomar decisões por mim, entro em um ônibus para algum lugar novo. Mas desta vez não posso fazer isso. A chave para conseguir avançar com aquela conversa seria manter a boca cheia, assim teria mais tempo para pensar. Ele já tivera conversas desagradáveis sobre término e reconciliação no passado, mas daquele tipo era a primeira vez. Aquele era o primeiro relacionamento que não poderia ser terminado. Não importava o quanto aborrecessem um ao outro, nunca seriam capazes de cortar relações. O bebê os ligaria para sempre e este fato acrescentava uma carga de pressão àquela conversa. – Prometa-me que não vai simplesmente desaparecer – pediu ele por fim. – Se decidir ir embora, pelo menos me avise primeiro. Não quero acordar algum dia e descobrir que você se foi. – Eu não faria isso com você, Kevin. – Lágrimas fizeram os olhos dela brilharem por um momento, mas Beth piscou para dispersá-las. – Só ter ficado aqui já é um enorme ajuste para mim, e estar grávida então… Acho que um relacionamento sério seria demais. Além disso, tenho medo de ficarmos juntos e não dar certo, isso seria horrível, porque não é o que eu quero para o nosso filho. – No que diz respeito ao bebê, jamais a deixarei sozinha. Mesmo que as coisas desmoronem entre nós, jamais precisará se preocupar em alimentar o bebê ou comprar remédios e roupas, ou qualquer outra coisa que ele precise. Isto é uma promessa. Kevin viu o peito de Beth subir e descer enquanto ela respirava profundamente. – Eu acredito nisto. – E quanto a nós… eu não sei, Beth. Não posso lhe garantir que seja o homem certo. Eu gosto de você e com certeza gostaria de um segundo encontro. Acho que o mesmo não aconteceu com você, pois fugiu no meio da noite, mas... – Eu gostei de você, também. E já era de manhã, não o meio da noite. Mas tive a impressão de que me dispensou, então… – Já expliquei que estava meio que dormindo. Droga, mais do que meio. Eu tinha planejado te levar para tomar café da manhã e tudo mais. Mas já te


disse isto e pedi desculpas. – Eu não estava tentando acusá-lo outra vez. Apenas estava explicando por que não pensei que teríamos um segundo encontro. – Está bem. Mas de qualquer maneira, eu não estava tentando ultrapassar os limites que você estabeleceu quando comprei o celular. Pensei apenas em tornar sua vida um pouco mais fácil e quanto a mim, ficaria mais tranquilo. Juro que não era um plano maléfico para me tornar o dono e senhor de sua vida. Beth enrubesceu enquanto comia um pedaço de torrada tão devagar que Kevin imaginou se ela não estaria usando a mesma tática que ele. – Eu tive uma reação exagerada quanto ao celular. Ou pior, entrei em pânico. Quando o ouvi falar em plano familiar. Bem, não somos uma família. Somos vizinhos que vamos ter um bebê. Kevin não pôde evitar segurar-lhe a mão por sobre a mesa e apertá-la. – Prefiro amigos tendo um bebê. E sinto muito ter pensado que você consideraria meu gesto como um mero presente. – Você não fez nada errado. Eu apenas havia tido um dia horrível e você não merecia ser meu saco de pancadas. Aquela não era a hora de fazer piadas, então ele usou a mão livre para levar uma garfada de ovos mexidos à boca e mastigar até a vontade passar. – Precisa entender que eu penso em você como família agora. Todos os Kowalski são assim, na realidade. Se Lisa precisar de uma nova secadora, todos vão se juntar para que ela tenha uma. Se o carro de Terry quebrar, vamos virar motoristas dela até que o carro seja consertado. Sem amarras. E definitivamente sem controle. Quando a garçonete voltou com a cafeteira, ele apertou os dedos de Beth antes de lhe soltar a mão. Teria preferido continuar a segurá-la e que se danasse o café, mas era óbvio àquela altura que deveria ser muito, muito cuidadoso. Se começasse a se tornar pegajoso, ela o afastaria de vez. – Vou tentar... – disse ela quando ficaram sozinhos outra vez. – Vou fazer o possível para entender de onde você vem. Sua família é tão devotada e generosa, preciso aprender a apreciar isso. – Ótimo. – E então um pensamento assustador pipocou em sua mente. – Mas, ah, quando eu digo que penso em você como família, não significa que a considero uma irmã ou qualquer coisa assim. – Isto seria bem estranho, considerando que vamos ter um bebê.


– O bebê, claro, mas também tem o fato de que ainda quero aquele segundo encontro. – Ah! – Kevin adorava a forma como ela enrubescia. – Eu não mudei de ideia sobre ter esse tipo de relacionamento com você. E, como estou grávida, não seria uma boa ideia. – Também não mudei de ideia. – Kevin sorriu para ela sobre a xícara de café. – E sou um cara muito paciente. Beth riu e revirou os olhos, mas bem no fundo, Kevin não achava a situação tão engraçada. Se ela não quisesse realmente se envolver enquanto estava grávida, seria uma longa espera. Oito meses. Oito meses tomando banhos frios, disfarçando as reações de uma parte de sua anatomia e andando com as pernas levemente arcadas. Ah, e depois mais dois meses, pelo menos, antes que ela pensasse em se sentir sexy outra vez, a julgar pelo que Mike e Evan haviam lhe contado sobre suas mulheres. Santo Deus, era um longo tempo. Se pensar em esportes fosse uma boa forma de manter a mente afastada de sexo, ele se tornaria o Rain Man das estatísticas de beisebol antes de os dez meses, quase um maldito ano, passarem. Então Beth sorriu. Um sorriso sincero e todos os placares de jogos sumiram de sua mente. Se ela não mudasse de ideia sobre deixá-lo voltar à sua cama, havia uma maldita chance de o bebê que ela esperava ser seu único filho, pois Kevin com certeza explodiria de tensão sexual.


CAPÍTULO 9

KEVIN AGUARDOU até o movimento do bar diminuir antes de dizer a Paulie que precisava dar um pulo lá em cima. Bateu na porta de Beth e teve que reprimir uma risada quando a viu abri-la. Suada, cabelo desgrenhado e manchas de chocolate nos cantos da boca com apenas seis semanas? Entre a irmã e a cunhada, testemunhara cinco gravidezes e sabia que as coisas só iriam piorar. – Não estava esperando companhia – disse ela, mas afastou-se para deixá-lo entrar. – Ou teria pelo menos penteado o cabelo. – Não está tão ruim assim. Parece ser a moda de hoje. – Só se fizer de propósito. O chocolate o estava matando. Adoraria beijá-la. Passar a língua sobre aqueles lábios carnudos e lamber o chocolate. – Eu… vim convidá-la para o feriado de Ação de Graças. – Sabe assar um peru? – Não, mas minha mãe cozinha maravilhosamente bem e é por isto que todos nós vamos para lá todos os anos. Beth não parecia exatamente empolgada com o convite. – Eu disse que nós não continuaríamos nos encontrando. Não existe um relacionamento, o que significa nada de passar feriados na casa da sua família. Kevin não iria desistir tão facilmente. – O bebê quer ir comigo para casa dos avós no dia de Ação de Graças. – Ela quer? – Sim, ele quer. – Beth revirou os olhos, mas um sorriso surgiu no canto de sua boca, então ele continuou. – Minha mãe faz caçarola de batata-doce


com marshmallows. É deliciosa e tenho certeza que o bebê gostaria de provar. – Caçarola com marshmallows? – Sim. Ah, e outra de vagem com anéis de cebolas crocantes por cima. Bom demais. Beth pressionou uma das mãos sobre o abdome. – Batata-doce, marshmallows, vagens, anéis de cebolas crocantes… e você acha que o bebê vai gostar disso? Boa pergunta. Até agora ela estava se saindo bem com a questão dos enjoos matinais, mas marshmallows e cebolas crocantes era um pouco demais. – Não precisa experimentar o que não quiser. Apenas venha, coma o que gostar e confraternize com a família. – Não tenho certeza se estou a fim disso. – De comer? – Muito engraçado! – Mas Beth nem ao menos sorriu dessa vez. – Não sei se estou disposta a fingir que faço parte dessa sua família grande e feliz. Aparentemente seria preciso um martelo pneumático para enfiar naquela cabeça-dura que agora ela fazia parte da família, querendo ou não. – Não é nada de mais. Nós comemos peru assado, caçarola de batata-doce e tortas de sobremesa. Só isso. – Eu não sei, Kevin. – O que pretende fazer? Ficar sentada aqui sozinha o dia todo? Beth deu de ombros. – Estou acostumada a ficar sozinha e a verdade é que a sua família me intimida. Há muitas pessoas e todas são barulhentas, você sabe. – Essa característica é apenas mais um de nossos charmes. E já que estamos falando a verdade, você e minha família ficarão unidas para sempre. Você será a mãe do meu filho pelo resto da vida. A mãe do neto dos meus pais. A mãe do sobrinho da minha irmã e irmãos... – Sobrinha. – Para sempre. Portanto, acho que um pouco de confraternização, regada a caçarola de batata-doce e vagem, seria um bom começo para uma ligação duradoura e barulhenta. – Nós não deveríamos ficar ligados. – Beth pressionou um dedo no peito dele. – Lembra?


– Lembro que disse que nós não deveríamos mais ter ligações pessoais entre os lençóis. – O que era uma tragédia. – Mas você já está ligada aos Kowalski. – Para sempre – resmungou ela. – Você disse. – Além do mais, prometeu que iria tentar encarar melhor essa história de família. – Eu me lembro. – Então, venha comigo? – Não sei, Kevin. Hora de lançar o armamento pesado, também conhecido como sua mãe. – Se minha mãe descobrir que você está passando o feriado de Ação de Graças sozinha, vai me dar uma paulada tão grande na cabeça com aquela colher de pau que, quando eu acordar, minhas roupas já estarão fora de moda. Depois, vai embalar toda aquela comida em potes de plástico e arrastar a família inteira para cá. Acho que não vai querer uma coisa dessas. Beth respirou fundo e fez um gesto negativo com a cabeça. – Está bem! Desisto. Vou levar o bebê para a casa de sua mãe no feriado de Ação de Graças. Kevin foi esperto o suficiente para limitar a dança da vitória a uma celebração mental e sair porta afora. Paulie precisava de um descanso antes que o bar começasse a ficar agitado outra vez. – Ótimo. Podemos ir juntos, por volta das 8h30. – Da manhã? – Claro. Minha mãe faz um bufê de café da manhã e depois assistimos ao desfile. Em seguida, é jogo de futebol e mais comida. A primeira rodada de tortas é no meio da tarde. No início da noite, minha mãe nos deixa pegar as sobras e fazer sanduíches de peru. Então assistimos a mais futebol na sala de televisão ou a Wonderful Life na sala de estar e mais tortas. Beth parecia chocada. – Isso não é um jantar de Ação de Graças, é uma maratona. – É, mas não fazemos isso sempre. Só no dia de Ação de Graças, Natal, Páscoa e Quatro de Julho. Não é um sacrifício tão grande assim. Apesar de que, quando esse garoto sair daí, terá um Kowalski 24 horas por dia, sete dias na semana. Kevin ainda ria quando ela o empurrou para o corredor e fechou a porta na sua cara.


PAULIE ESTAVA prestes a ficar louca e, quando desse entrada no hospício, o motivo da internação seria “Sam” e “Logan”. Tinha se tornado um hábito vê-lo no bar para um drinque ou um jantar completo após os dias de trabalho. Infelizmente, sua presença a deixava nervosa, e sua reação não passava despercebida aos colegas de trabalho. Era difícil desempenhar suas funções quando ficava totalmente desastrada sempre que ele aparecia no bar. Já quebrara mais copos nas últimas semanas do que nos últimos cinco anos. Sam não a convidara mais para sair, nem a chantageara para outro encontro, mas Paulie sabia que seu joguinho não havia terminado. Estava apenas adiando o bote, fazendo-a sofrer por antecipação e estava funcionando, droga! Estava mais do que consciente do olhar penetrante em seus quadris enquanto caminhava e, bem, do seu olhar em geral. Ele a fazia ciente dos próprios movimentos e da linguagem corporal de uma forma que a deixava em constante tensão sexual. E lá estava Sam a observá-la enquanto ela tentava trabalhar no balcão com Kevin, que a julgar pelos olhares que lhe lançava, tinha mais noção do que estava acontecendo do que ela gostaria. O que não era uma surpresa. Seu chefe já a tinha visto cansada, irritada, chateada, otimista e feliz, mas jamais perturbada com o interesse de um homem. Quando Sam lhe deu uma piscada e ela se virou depressa, derrubando um copo do balcão, soube que o jogo acabara. Kevin sinalizou para Randy limpar os vidros, pegou-a pelo braço e guiou-a com firmeza até seu escritório. Paulie suspirou e afundou em uma cadeira enquanto ele fechava a porta e se sentava atrás da mesa. – Qual é o problema entre você e Sam? Paulie conhecia seu chefe e melhor amigo muito bem e sabia que não teria chance de adiar uma explicação, o que não a impedia de tentar. – Negócios antigos. Só interessam a mim. – E agora a mim também. – É, eu quebrei alguns copos. Desconte do meu salário. – Pare com esta conversa fiada, Paulie. Ela deixou os ombros caírem em sinal de derrota e começou a falar, após um suspiro de resignação. – Cinco anos atrás mudei meu nome legalmente por razões que não são ilegais. Meu verdadeiro nome é Paulette Atherton. A expressão do rosto de Kevin não mudou.


– E daí? – Meu pai é Richard Atherton. Paulie viu quando a percepção surgiu no olhar de Kevin. – O multimilionário de Boston, Richard Atherton? – Sim. – Você só pode estar brincando! – Ele se recostou na cadeira e cruzou os braços sobre o peito. – Sem querer ofender, boneca, mas que diabos está fazendo aqui servindo mesas de bar? – Sendo eu mesma. Sendo feliz. Paulie esperou que ele a acusasse de querer se divertir misturando-se à plebe, de estar tirando o emprego de alguém que realmente precisava trabalhar. Esperou que a olhasse de modo diferente. Todas as reações que imaginara ao longo das semanas. Mas ele não o fez. – E como Sam Logan descobriu isto? – Nós íamos nos casar. Seríamos o casal feliz da sociedade bostoniana. O casamento da década... até eu caminhar pelo meio da igreja e fugir como um cavalo selvagem. – Você só pode estar brincando – repetiu ele. – Eu me lembro de ter ouvido algo assim. Não costumo ler as colunas sociais, mas Terry e Lisa conversaram sobre isto. Você deveria ser bem diferente. – Eu era. Pintava meu cabelo porque o ruivo natural não era de bom tom e o mantinha sempre alisado porque os cachos eram considerados rebeldes. Minha aparência era bem mais recatada do que agora. Deve ser por isso que ninguém me reconhece. – Então você o deixou no altar? Aposto que essa história não acabou bem. – Eu não sei. Fui até em casa por tempo suficiente para pegar algumas roupas, dinheiro e coisas de valor afetivo, mas quando meus pais chegaram, eu já estava em um ônibus que saía de Boston. Joguei o telefone celular no lixo e parti. – Então saiu sem nada? Ficou tentada a deixá-lo pensar assim, mas agora que estava se confessando, teria que ir até o fim. – Eu não tinha muito dinheiro quando parti, mas tenho um fundo que foi criado para mim de uma forma que meu pai não poderia mexer nele. Escolhi viver com o dinheiro de meu salário, mas tenho acesso a milhões. – Droga! – Kevin não disse nada por um minuto e ela começou a suar. – Paulie, você está tremendo.


Era verdade, e não conseguia parar de tremer. Mas aquele homem era seu melhor amigo no mundo inteiro e acabara de lhe confessar que tudo que acreditava saber sobre ela era mentira. Não queria perdê-lo, nem ao Jasper’s ou a vida feliz que tivera nos últimos cinco anos. – Sinto muito. Kevin parecia perplexo. – Sente muito por quê? – Não fui honesta com você. Não que tivesse mentido, mas não sou quem pensou que eu fosse e sinto muito por isto. – Bobagem. – Ele se inclinou para a frente. – Pensei que você fosse uma garçonete ruiva e sensual com a língua afiada, que não apenas gerencia meu bar como uma profissional, como também é uma das melhores amigas que já tive. Não é essa pessoa? – Sim. Realmente sou. Paulie ficou tão aliviada ao ver um sorriso no rosto dele, que sorriu de volta. – Então está tudo certo. – Ótimo. – E esse cara, Logan, está lhe causando problemas por causa da história do casamento? – Ele está me chantageando. Kevin ficou de pé tão rápido que a assustou. – Ele é um homem morto. Vou chutar-lhe o traseiro com tanta força que não terá chance nem de chamar pela mãe. Vou dobrá-lo como um guardanapo. A lealdade daquele homem tocou seu coração, e fez suas bochechas enrubescerem. – Não é o que está pensando. – Estou pensando que quando acabar de socar a cara daquele idiota, nem os cachorros terão medo dele. – Kevin marchava de um lado para o outro como só fazia quando estava realmente irritado. – Sam está me fazendo aguentar a presença dele aqui no bar… e fui obrigada a sair com ele para jantar, senão contaria a todos quem eu sou na verdade. A raiva no rosto dele não se abrandou e as mãos se fecharam em punhos. – Bem, agora eu sei, então ele pode pegar a chantagem e aquele traseiro, que daqui a pouco ficará roxo, e enfiar no próximo ônibus para Boston.


Paulie ficou na ponta dos pés. – Não quero que ele saiba que te contei. Kevin parou abruptamente, encarando-a, mas ela não olhou para cima. – Não entendi. – Quero que pense que ainda vou sair com ele para evitar que conte a verdade a todo mundo. – Agora é que não entendi mesmo. – Eu o amava. – Paulie encarou-o enquanto ele voltava a se sentar. – Eu não fugi dele e sim da… sei lá. Da vida à qual ficaria presa até que a morte nos separasse. – Só porque você se reinventou, não significa que ele tenha feito o mesmo. Quando terminar a construção do hotel, voltará para Boston e para suas obrigações sociais. Paulie sabia disso. Pensara muito sobre aquela possibilidade durante as horas em que deveria estar dormindo, mas continuava acordada por causa de Sam. – Sei disso. Só que... – O quê? Quando ele está por perto você fica tão nervosa que vou ter de passar a servir cerveja em copos de plástico. Portanto, ou tem medo dele ou ainda o ama. Ou talvez fosse um pouco de cada. – Não existe um meio-termo? Ou é amor ou ódio? – Nada que a fizesse ficar tão agitada quanto um gato que pulou dentro de um canil. Paulie não estava disposta a admitir aquilo nem para si própria, então fez um gesto negativo com a cabeça e se levantou. – De qualquer forma, ele irá embora. Vai voltar para Boston durante o feriado e terminar algum trabalho pendente. Depois, fará pelo menos uma viagem à Europa. Vai passar algum tempo até nos vermos novamente. – Longe dos olhos, perto do coração. Paulie bufou. Não tinha certeza disso, mas sabia que cinco anos não foram suficientes para esfriar seu coração. – Tenho que voltar para o bar. Já basta Randy ter de limpar minha bagunça, o intervalo dele já começou há dois minutos. – Quero que me informe se mudar de ideia sobre Sam Logan precisar de um chute no traseiro.


Paulie assentiu enquanto se encaminhava até a porta, mas isso não era provável. Após cinco anos, parecia que sua mente não mudara com relação a Sam. Nem seu coração. CINCO MINUTOS após entrar na casa dos Kowalski, Beth soube que seus pais se encaixariam muito bem ali. Gostavam de abraçar. Cada um deles, e havia muitos, vieram abraçá-la. Aparentemente, Kevin não exagerara sobre o fato de que carregar um bebê Kowalski a elevava imediatamente à categoria de membro da família. E Kevin era o pior de todos. Abraçava-a pelos ombros, segurando seu braço para guiá-la ou pousando a mão em suas costas o tempo todo. Parecia que os únicos momentos em que não a tocava eram para permitir que algum membro da família a abraçasse. Houve um momento de apresentações. Beth já conhecia o pai, Leo, que tinha uma voz que comandava o recinto, e a mãe, que lhe deu um abraço apertado e lhe lançou um olhar especulativo que a fez imaginar o que Kevin havia lhes contado sobre trazê-la ao jantar em família. Os demais membros ela só vira de longe ou enquanto lhes entregava drinques na cerimônia de casamento. Joe e Keri eram os noivos. Havia também a irmã dele, e gêmea de Joe, Terry. Ela e o marido, Evan, tinham uma filha, Stephanie. O irmão Mike e a mulher Lisa tinham quatro filhos. Joey tinha 15, Danny, 12, Brian, 9 e Bobby, 7. – Não se preocupe – sussurrou ele em seu ouvido. – Não haverá um questionário mais tarde. Era um tanto opressivo, mesmo sendo um grupo agradável de pessoas. Como não saber nadar e ser empurrada de um trampolim muito alto. E para manter as coisas interessantes, alguém dissera a Bobby, o sobrinho mais novo, que o bebê podia ouvir as conversas, e o garoto estava determinado a fazer do novo primo seu melhor amigo desde o útero. Era bem desconcertante ter um menino contando piadas sem graça à sua barriga. – Por que a doninha atravessou a rua? – gritou Bobby para o seu umbigo. – Para provar que não era medrosa! Ele deu uma gargalhada tão alta que quase caiu para trás. Era um garoto muito bonito, pensou, e então imaginou que dali a sete anos poderia ter um filho igualzinho àquele. Um menino ainda sem rosto e sem nome, com


excesso de energia e o jeans desgastado na altura dos joelhos, contando piadas e morrendo de rir. Talvez, se tivesse sorte, se pareceria com o pai, com covinhas e tudo. Bobby parou de rir e esticou a cabeça para olhar para ela. – Tomara que seja um menino. – Seu tio Kevin também quer um. – Estou cansado de ser o caçula. Precisamos de outro garoto para eu ter alguém para atormentar. – Ah! Ótimo! – Era assustador pensar que seu bebê seria o elo mais fraco na dinâmica familiar. As rosquinhas de canela caseiras a tornaram fã de Mary Kowalski para a vida toda, apesar de ser obrigada a recusar o café quase a ter matado. Estava tentando ficar longe da cafeína, portanto se conformou com café descafeinado instantâneo, embora tivesse preferido aceitar a bebida forte e encorpada para competir com os Kowalski. Amigáveis, gentis, numerosos e barulhentos. Comiam e riam, comiam e discutiam e comiam e riam um pouco mais. A caçarola de vagem era para lá de boa e as batatas-doces assadas com marshmallows derretidos eram de morrer, como Kevin dissera. Conforme o dia foi passando, o barulho foi mudando de desfile para futebol, mas a cacofonia familiar nunca diminuía. Era tão diferente das refeições tranquilas que compartilhava com os pais no passado, que ela passou o restante do dia tentando se recuperar de algo parecido com choque cultural. Quando a oportunidade surgiu, Beth saiu pelas portas deslizantes até o espaçoso deque nos fundos. Felizmente, a temperatura estava amena para o fim de novembro e, mesmo sem o casaco, não sentia frio. Cruzando os braços no peito, observou o amplo quintal. Era caótico como a própria família. Jardins impecavelmente bem-cuidados. Artigos esportivos espalhados pelo gramado de um canto ao outro. Uma rede desgastada de voleibol. Era um lar. A percepção de que seu filho pertenceria àquela insanidade encheu seus olhos de lágrimas. Ele ou ela correria como louco naquele quintal com os primos. Brincaria e riria e discutiria e riria um pouco mais. A confusão de sentimentos fez os cantos de sua boca se erguerem em um sorriso enquanto uma lágrima rolava por seu rosto. Queria que seu filho


tivesse tudo aquilo, uma família amorosa e barulhenta. Mas será que ela perderia em comparação? Seria apenas a mãe chata que era horrível nos esportes e não sabia assar rosquinhas de canela, nem descrever todos os balões no dia do desfile de Ação de Graças. Que tipo de criança iria preferir ficar com ela quando os Kowalski tinham tudo aquilo? – Está se escondendo? Beth girou para encontrar a cunhada de Kevin, Lisa, atrás dela. – Ah, não a ouvi se aproximando. – Escapei em silêncio para ninguém perceber minha ausência. Venha para a esquerda onde não podemos ser vistas lá de dentro. – Beth obedeceu, apesar de imaginar se não seria melhor voltar para dentro e deixar Lisa ter alguns minutos de paz. Haviam trocado algumas palavras durante o dia, mas não a conhecia bem. – Estou impressionada por ainda não ter saído correndo para a rua. Beth deu uma risada. – Eu tentei, mas saí pela porta errada. – Às vezes podemos ser um pouco... demais. – Não. Todos vocês foram maravilhosos. Principalmente, considerando... as circunstâncias. – O bebê? Por favor. Estamos todos empolgados com o bebê, inclusive Kevin. Ele realmente estava e isso era parte de suas preocupações. Graças a Deus, não possuía muita experiência em falhas no controle de natalidade, mas, de alguma maneira, tinha a impressão de que os homens geralmente não reagiam bem ao descobrirem que haviam caído na armadilha da gravidez acidental. Kevin, ao contrário, agia como se fossem um casal de verdade que fora para a cama para fazer um bebê. – Acho que vocês estão fazendo a coisa certa – disse Lisa. – Não apressando as coisas por causa do bebê. Eu e Mike nos casamos porque engravidei de Joey. – Alguma vez você... – Beth deixou as palavras morrerem, sem saber como se intrometer no casamento de Lisa sem parecer rude. – Todo casamento tem altos e baixos, contudo é mais difícil quando se tem um marido que a pediu em casamento porque a engravidou, não porque a amava. Quando Bobby começou no primeiro ano escolar, tive um


verão difícil. Até pensei em ter outro bebê, porque achava que meu marido iria me deixar quando o caçula já tivesse idade suficiente para entender. Beth não podia conceber a vida assim. – Então passou todos esses anos sem acreditar em seu casamento? Lisa deu de ombros. – A ideia ia e vinha, dependendo de como as coisas estavam. Mas ele me pediu em casamento outra vez alguns meses atrás e em janeiro fizemos um cruzeiro. Só nós dois. Vamos nos casar outra vez em uma cerimônia ao pôr do sol. Beth sorriu e a parabenizou, mas seu estômago estava dando um nó. Era aquilo que temia. E, bem no fundo, sabia que esse era o motivo de sua insistência para não terem um relacionamento de verdade. Não apenas por se imaginar presa a uma pessoa, mas ter de passar o resto da vida, principalmente os momentos difíceis, fingindo pelo bem da criança. Não era uma experiência que gostaria de ter. Lisa deu uma risada. – Consegue nos imaginar com outro filho? Principalmente, outro menino. Meu Deus! E quanto a você, quer uma menina? – Talvez. Bobby quer um garoto para finalmente ter alguém a quem atormentar. Lisa riu mais uma vez e fez um gesto negativo com a cabeça. – Menina ou menino, seu bebê será o mascote da família Kowalski. Mas não se preocupe, as crianças ficam espertas muito rápido por aqui. As duas mulheres se viraram quando as portas deslizaram e Kevin entrou no deque. Ele fechou as portas e imediatamente andou para a esquerda. Beth riu. – Não é mais um bom esconderijo. – Não iria impedir ninguém de nos achar aqui – disse Kevin. – Mas os atrasaria por alguns minutos. Pensei que tivesse ido embora e me deixado aqui. – Como disse a Lisa, tentei, mas saí pela porta errada. Kevin riu e envolveu-lhe a cintura com um braço, como se fosse a coisa mais natural do mundo. O dia inteiro ele fizera uma campanha de olhares sutis e pequenos toques, mas Beth não queria fazer uma cena na frente da família. E havia também a possibilidade preocupante de ela gostar. Sem


dúvida, aquele homem era atencioso. E gentil. E tão sexy que sua pele formigava nos locais em que a tocava. – Lisa – chamou alguém de dentro da casa, e ela suspirou. – Hora de ir. – Ao se afastar, beliscou o braço de Kevin. – Você se comporte aqui fora. – Vou tentar, mas não garanto nada. – Beth estremeceu quando sentiu os olhos azuis penetrantes recaírem sobre ela. Assim que Lisa saiu, Beth escapou daquele braço forte. Com as palavras de Lisa ainda ecoando em sua mente, precisava restabelecer alguns limites. – Já falamos sobre isto inúmeras vezes e… – É hora da torta. Ele só podia estar brincando. – Vai comer outra vez? E pare de mudar de assunto. Você não está entendendo... – Torta de creme de chocolate. Totalmente feita em casa, até o chantili. – Não vou deixar que me distraia. – Quinze. Centímetros. De altura. Bem, droga. Beth poderia tolerar o toque do homem mais sexy do mundo em troca de um pedaço de torta de creme de chocolate.


CAPÍTULO 10

NÃO HAVIA nada melhor do que assistir aos Patriots ganhando dos Jets em uma noite fria de segunda-feira em Foxboro. Com um irmão de cada lado, Kevin observava Brady na linha do gol, procurando por Wes Welker. Quando o gol aconteceu, a galera entrou em delírio. – Beth parece legal – disse Mike durante um momento tranquilo do jogo. – É. – Kevin previra que, sendo aquela a primeira vez que ficava sozinho com Mike e Joe desde o feriado de Ação de Graças, o nome dela viria à tona. – E ela não saiu correndo e gritando porta afora, o que é um bom sinal. – Sem querer ofender – disse Joe. – Mas me pareceu que você estava um pouco mais interessado nela do que ela em você. Sem querer ofender, claro. – Ela vai se interessar. – As mulheres fazem fila no bar, implorando por um encontro, e fica perseguindo a única que faz jogo duro? – Não me lembro de Keri ter se jogado em seus braços. E se tivesse desistido, ela ainda estaria em Los Angeles, e você continuaria tendo um relacionamento monogâmico com a sua mão direita. Mike riu, mas Joe deu de ombros. – Ela te largou sozinho no meio da noite… – Aquilo foi um mal-entendido. – E não ouviu mais falar dela até descobrir que estava grávida. Kevin prestou atenção aos Patriots, que se alinhavam na zona vermelha, a fim de obter mais um minuto para pensar. Sabia que Joe se preocupava com ele, mas não queria ouvir aqueles comentários. Era complicado. Beth


era complicada e talvez estivesse querendo mantê-lo distante, mas isso não significava que ele abandonaria o barco. Beth só precisava de algum tempo para se recuperar do choque de ter a vida virada de cabeça para baixo e ele lhe daria todo tempo necessário, porque gostava dela, muito. E também porque pensava que podiam ter uma história juntos. Ela era inteligente, divertida, teimosa, independente e, mesmo agora, durante seu passatempo favorito, contava os minutos até vêla outra vez. Quando os Patriots mandaram a bola pela linha de fundo e a gritaria diminuiu, Mike o cutucou. – Só para sua informação, mulheres podem ser… instáveis, emocionalmente, durante a primeira fase da gravidez. Continue insistindo se realmente achar que ela é especial. Beth era especial. Ainda não sabia o quanto, pois era difícil separar o que sentia por ela do fato de carregar um filho seu, mas com certeza sabia que ficaria devastado se ela bancasse a Cinderela de novo. – Não vou desistir. – Então gosta mesmo dela? – perguntou Joe. – Realmente gosto. Joe, sendo Joe, por certo teria mais alguns comentários a fazer, mas os Patriots interceptaram a bola e os três irmãos se levantaram, vibrando com a multidão enquanto o cornerback disputava uma corrida com a linha ofensiva dos Jets. Conforme as horas foram passando, a conversa mudou para o progresso da rodada de convocações, os jogadores lesionados, e se a loura duas fileiras abaixo tinha seios reais ou siliconados, mas a mente de Kevin não estava inteiramente concentrada no jogo. Quando a multidão irrompeu em vaias e Kevin não sabia o motivo, Mike meneou a cabeça. – Cara, você está perdido. Sim, começava a pensar que realmente estava perdido. PAULIE SENTOU-SE à mesa de sua lanchonete favorita, tomando cuidado para seu jeans não grudar na fita adesiva que recobria uma fresta na cadeira de vinil. Quando Sam retornou do feriado de Ação de Graças em Boston e a


chantageou para conseguir outro jantar, ela aceitara. No entanto, ele fora estúpido o bastante para deixar as reservas por sua conta. Aquele lugar não aceitava reservas e nunca havia fila de espera. E ela teve uma ótima visão do rosto de Samuel Thomas Logan IV assim que ele entrou. A expressão dele era bem igual à da mãe dela no dia em que Paulie, com 6 anos, acidentalmente deixou cair calda de chocolate no vestido. Desde então, só lhe permitiram comer sorvete de baunilha até completar 16 anos e poder dirigir seu carro esporte, tinindo de novo, até a sorveteria. Sam fez uma careta assim que se sentou à mesa. – Eles imprimem os menus no verso do letreiro de interdição que arrancam da porta da frente? – Esnobe. – Além do bolo de carne especial, Paulie levou-o até lá por uma razão. Aquele jantar ilustraria perfeitamente o quanto seu mundo atual diferia do dele. – Chamo de padrões. – Ele pegou um dos menus de trás da bandeja de condimentos e açúcar. – Quanto tempo demorou para encontrar um lugar que achava que iria me assustar? – Paulie! – Cassie, que não apenas servia às mesas, como também era dona do lugar, correu para cumprimentá-la. – As flores que enviou à minha mãe eram lindas! Era o maior buquê em toda a ala e todos ficaram com inveja. Paulie sorriu, notando o olhar incrédulo de Sam em sua visão periférica. – Fico contente que ela tenha gostado. Como está a bacia dela? – Bem. O médico disse que ficará novinha em folha. Vocês querem café? Quando eles assentiram, Cassie afastou-se e Sam cutucou o tornozelo de Paulie com a ponta do sapato. – Você realmente costuma comer aqui? – Sim. Entendeu agora? Sua vida e a minha não têm mais nada em comum. – Está tentando me dizer que não podemos ter um futuro juntos porque virou fã de restaurantes uma estrela? Como se as críticas chegassem perto de dar ao restaurante sequer uma estrela. Mas ela não respondeu, pois Cassie retornou com a bandeja de café. Após pedirem o bolo de carne especial, Sam recostou-se na cadeira, bebendo seu café. – Nada mau – admitiu ele.


– Esta é minha ideia de um encontro. Não um restaurante com um maître que só o deixará entrar se sua família constar no registro social. Prefiro isto aqui ou ir a um jogo de futebol americano e comer cachorros-quentes de um vendedor de rua. – Eu posso fazer isso. – Claro, agora. Uma vez ou outra, talvez. Não como um estilo de vida. – Por que está sendo tão teimosa sobre este assunto? Somente o fato de precisar de cafeína a impediu de golpeá-lo na cabeça com a xícara. – Sam, você sabe muito bem que isto não vai funcionar. Não se for um jogo para você ou… – Não é um jogo. – Se eu achasse que seríamos felizes juntos, teria entrado na igreja e o encontrado no altar. – Isso foi antes. Agora sei o que sente, que por sinal nunca se incomodou em me contar. – E o que teria mudado se tivesse contado? Sam segurou-lhe uma das mãos livres sem lhe dar chance de retirá-la. – Não importa o quanto neguei para mim mesmo durante os últimos cinco anos, eu senti muito a sua falta. – Pois isso que está fazendo este jogo sujo? – resmungou ela. – Sabe muito bem que não contaria a ninguém quem você é. Isso foi... Você é tão teimosa que essa era a única maneira de fazê-la sair comigo. – Eu já contei a Kevin, de qualquer forma. Ele sorriu, apertando-lhe os dedos. – Então não está aqui porque tem medo que ele saiba, o que significa... – Significa que quero te dizer pessoalmente que precisa arranjar uma socialite para se casar e terem o Sammy V, por que nós dois não vamos a lugar algum. Ele deveria estar louco, mas Paulie viu uma expressão divertida em seus olhos. – Você já deu um nome ao nosso filho? Droga! – Não será nosso filho. Seu filho. Não precisa ser um gênio para saber que este será o nome que constará na certidão de nascimento do garoto. Cassie voltou com a refeição e tornou a encher as xícaras de café, proporcionando mais alguns minutos de silêncio. Por que o homem não


desistia de uma vez? Ela não tinha como deixar as coisas mais claras. – Retiro o que disse sobre os letreiros de interdição – disse ele após alguns minutos. – Este é o melhor bolo de carne que já comi. Paulie preferia não ter que escutar aquela trilha sonora. Já estava sendo bem difícil manter a mente em tudo de errado que existia no relacionamento deles, sem precisar se lembrar de quanto o sexo era bom. – Nunca vou voltar a Boston – disse Paulie de repente, apenas para lembrá-lo e a ela mesma em que pé estavam. – Nunca pedi que voltasse. – Mas você está voltando para lá. Sam assentiu. – Já te disse. Estou viajando direto daqui e ficarei ausente por uns dois meses, acho. Primeiro o feriado do Natal, depois, uma viagem de negócios para a Europa. Preciso resolver algumas questões pendentes para, quando voltar, poder me concentrar neste negócio. E em você. Os seus olhares se cruzaram e Paulie soube que ele estava sendo sincero. Sam a queria de volta, apesar de suas objeções, e aquilo não poderia terminar bem. – Talvez eu não esteja mais aqui quando voltar. – Desta vez, se fugir, irei atrás de você. Será que ela teria ficado e se casado se Sam tivesse ido atrás dela? Não sabia dizer se teria feito alguma diferença. Eram seus pais, Boston e a vida que tinha que a fizeram fugir dele. – Vou te ligar enquanto estiver ausente – disse ele. – É melhor mandar mensagem. Fica mais fácil de responder durante o horário de trabalho. – Então enviarei mensagens. Paulie deveria ter dito que não estava interessada em receber notícias dele. Se o rechaçasse ainda mais, o orgulho o impediria de rastejar e ele acabaria desistindo. Mas, mesmo não conseguindo falar em voz alta, sentiria falta dele também. Uma mensagem ou outra com certeza não faria mal a ninguém. AO ENTRAR no Jasper’s Bar & Grille, após dois longos turnos de almoço e jantar no restaurante, Beth suspirou aliviada. Estava em casa.


Surpreendia-a o fato de que, após terem passado apenas seis semanas, sentia-se em casa, como jamais acontecera no antigo apartamento. E se não tomasse cuidado, acabaria gostando da palavra. Além da falta do cheiro de urina de gato, ali havia pessoas. Paulie, que estava se tornando rapidamente uma boa amiga. E Kevin. Apesar da barreira de charme e sex appeal, ela gostava muito do relacionamento dos dois. Os demais funcionários do Jasper’s eram gentis e acolhedores. Beth não sabia o que lhe disseram sobre ela. Como ainda não havia sinais de gravidez, poderiam pensar que ela era uma nova inquilina. Ou quem sabe o que Kevin lhes contara? Beth sentou no banco habitual no fim do balcão e esperou Paulie terminar de atender um cliente. Na volta, ela trouxe uma garrafa de suco de cranberry que passaram a estocar por sua causa. Beth abriu e tomou um longo gole. – Obrigada. – De nada. Vai comer alguma coisa? Seria uma boa garota e pediria uma salada. – Uma salada com molho light e... Ah, diabos, um cheeseburger com bacon, por favor. Paulie soltou uma risada e foi até a cozinha fazer o pedido, deixando Beth com sua bebida e uma reprise de jogo na televisão. Esportes não eram realmente seu forte, mas chamou-lhe a atenção quando entrou um comercial sobre as compras de Natal. Seu humor azedou ao imaginar pela milésima vez o que poderia comprar para Kevin de Natal. O movimento no restaurante aumentara conforme previsto, então Beth conseguiu juntar algum dinheiro para as compras natalinas e para futuros exames pré-natais, mas não era muito. Precisava encontrar o presente perfeito com um orçamento apertado. Algo especial porque ele merecia, após entrar de cabeça no jogo paternal e apoiá-la de tantas formas. Mas não tão especial a ponto de ele interpretar mal suas intenções. Alguns minutos mais tarde, Paulie chegou com o seu prato. – Parece estressada. – O Natal está chegando. Faltam apenas duas semanas. – Ah! – Paulie colocou o prato na frente dela e se reclinou sobre o balcão. – Nada faz você desejar antiácidos mais do que providenciar a decoração natalina.


– Você e Kevin trocam presentes? – Claro. O que vai comprar para ele? – Acho que não tem como eu escapar disso. – O olhar de Paulie confirmou que tinha razão. – Ele vai ficar doido, não é? – Se com doido você quer dizer que ele vai aproveitar a ocasião para te dar tudo o que não o deixou dar, então provavelmente sim. – E é por isto que estou estressada. – O melhor para sua pressão sanguínea é aceitar desde já que vai ser soterrada de presentes e que ele não espera ser soterrado de volta. – Eu odeio isto. – E eles já a conhecem, então talvez façam um esforço para se controlarem. – Eles? – Aquela conversa não a estava fazendo se sentir melhor. – Todos eles. O clã Kowalski inteiro. Estivera tão concentrada em Kevin que nem pensara no restante da família. Por que eles eram tão numerosos? Ótimo! Paulie deu uma risada. – Nem tente escapar da festa de Natal. Até eu tenho que ir e não tenho um pequeno Kowalski nadando no meu lago. Quando um rapaz do outro lado do balcão acenou para Paulie, Beth voltou a atenção ao seu cheeseburger, permitindo que a explosão de queijo, bacon e o molho especial Jasper’s diminuíssem sua ansiedade. Acharia algo para Kevin e Paulie e depois se preocuparia com o restante dos presentes. Ou compraria apenas lembranças para as crianças. Só poderia comprar o que seu dinheiro permitisse. Paulie afastou-se por uns instantes, mas voltou e retirou os pratos de Beth. – Quer outra bebida? – Não, obrigada. Ainda tem um pouco e vou acabar explodindo se continuar comendo assim. – Não queria nem pensar em comprar roupas novas conforme sua cintura fosse alargando. – E então, não tenho visto aquele cara por aqui nos últimos dias. – As bochechas de Paulie ficaram vermelhas. – Que cara? – Você sabe que cara. Você o dispensou? – Teve que voltar para casa para passar os feriados, e depois tem alguns negócios a tratar na Europa. – Paulie deu de ombros. – Ele é cabeça-dura.


Vai voltar. – Ele telefonou? – Odeio telefones. Mas trocamos alguns e-mails e mensagens de texto. Paulie não era de se abrir e Beth não estava certa se a conhecia direito para ir mais a fundo. – Então ele vai voltar? – Provavelmente ainda vai demorar alguns meses. Não há muito o que fazer no canteiro de obras aqui, então está aproveitando para resolver questões pendentes, para quando sua presença for necessária, e poder se concentrar no trabalho. Apesar da falta de entusiasmo nas palavras, a voz e o olhar de cachorro abandonado expunham a falta que sentia dele. – E se concentrar também em você. – Sorte minha – bufou Paulie. – Agora, voltando às compras de Natal... – Argh! A gente não sabe nem por onde começar. – Conheço uma ótima galeria de artesãos que vende artigos a preços acessíveis. Como gosto de você, posso te dar minha lista. Vi uma echarpe e achei que Steph poderá gostar, e uma arma de madeira que atira rolhas para Bobby e… vários outros produtos artesanais. Ah, e um jornal impresso à mão para Danny porque ele quer ser escritor. Você consegue comprar uma lembrancinha para cada criança e talvez algo de casa para a sra. e o sr. Kowalski por mais ou menos cinquenta dólares. Cinquenta dólares era muito, mas poderia arcar com essa despesa. Valeria a pena economizar em outras coisas, se isso significasse não se sentir desconfortável na reunião de Natal na casa dos Kowalski. – Quarta-feira será meu dia de folga. Você poderia me dar o endereço da galeria, se não se importar de me passar suas ideias para presentes. Paulie descartou-a com um gesto de mão. – Vou comprar pistolas Nerf para todos e tenho certeza que vão adorar. E se for na parte da manhã, posso ir com você. Posso levá-la de carro e pagar o almoço, contanto que estejamos de volta até as 14h. Beth sentiu-se aquecida por dentro. – Adoraria isso. – Então, combinado, 9h. – Paulie revirou os olhos quando um cliente a chamou outra vez. – Juro que vou mudar meu nome. Conversaremos mais tarde.


Quando Paulie se afastou, Beth se levantou, procurou alguns dólares nos bolsos e os deixou sobre o balcão de gorjeta. Eles se recusavam a aceitar seu dinheiro para pagar pelas refeições e ela havia parado de discutir. Kevin ficara feliz e ela estava conseguindo economizar, mas não deixaria os empregados dele sem gorjeta. Sentindo-se mais otimista com os feriados que se aproximavam, dirigiu-se ao elevador. Tudo o que precisava agora era descobrir o presente perfeito para Kevin.


CAPÍTULO 11

SE HAVIA algo que podia descrever seus pais, pensou Kevin enquanto ajudava Beth e Paulie a saltar da caminhonete, era que eles sabiam como decorar a casa com enfeites natalinos. E não se limitavam a ramos de azevinho. A casa brilhava com luzes multicoloridas que iluminavam cada rena inflável e boneco de neve que existia no mundo. – Uau! Ele olhou para Beth e viu sua expressão de espanto banhada com luzes piscantes. – É o feriado preferido de minha mãe. – Dá para notar. Enquanto seguiam por um caminho ladeado com bastões plásticos de doces, Kevin cantarolava uma canção natalina. Há muito não se sentia tão feliz por passar a noite de Natal na casa dos pais. Vicky jamais conseguira se integrar à sua família e quase sempre discutiam sobre irem para Boston nos feriados. Depois do divórcio, costumava ficar em um canto com Joe, o outro solteiro do grupo, e observar a família confraternizando. Mas este ano, Joe tinha Keri e ele mais ou menos tinha Beth e um bebê a caminho. Após algumas viagens até a mesa de comida, talvez aquele fosse o melhor Natal de sua vida. Quando os abraços e beijos cessaram, Kevin fez múltiplas viagens à caminhonete para carregar os presentes. As crianças se agitavam enquanto ele acrescentava presentes à já lotada árvore de Natal de dois metros de altura. Tentavam achar os nomes de cada um nas etiquetas e fizeram


protestos ruidosos quando Kevin colocou os embrulhos de cabeça para baixo. Mais tarde, encontrou Beth em um canto da sala de jantar, de pé com um prato de comida na mão. Ela riu ao vê-lo, mostrando-lhe a variedade de guloseimas. – Sua mãe deixou bem claro que não é opcional. – Acho que é assim que ela consegue manter todos sob controle. As pessoas não conseguem se mover com rapidez quando comem dessa maneira. – Paulie não estava brincando sobre os biscoitos de nozes. Kevin riu, olhando em volta da sala, tentando ver a família sob o ponto de vista de Beth. Sua mãe colecionava soldados quebra-nozes de madeira que recobriam toda superfície plana. Se não tinha comida, havia um soldadinho lá. – Quando éramos crianças, Terry cismou que todos os soldadinhos tinham que ficar enfileirados por ordem de altura. Minha mãe gostava de colocá-los aleatoriamente. A guerra estendeu-se por muito tempo, até que Terry os colou no chão. Aquele foi um Natal interessante. Beth estava rindo da história quando Bobby correu até lá. Ela ergueu o prato para evitar acidentes e sorriu para Kevin sobre a cabeça do menino enquanto a criança colocava as mãos de cada lado de sua cintura. – Ei, primo! – gritou Bobby para seu abdome. – O que um homem de neve come no café da manhã? Flocos de neve! Em seguida começou a rir e correu em outra direção. Kevin sorriu enquanto pegava um prato. – Sinto muito por isto. – Não sinta. É carinhoso e gosto de estar aqui com sua família sabendo que o bebê fará parte de tudo isto. Como se o constante desejo por ela não fosse suficiente, Kevin acabara de perder mais um pedaço de seu coração. Apesar de não se considerar um filhinho da mamãe, sua família era tudo para ele. Detestara ser obrigado a se dividir em dois no passado. Não repetiria o mesmo erro. Mesmo antes de o comandante começar a se divertir com sua mulher, fixando o último prego no caixão de seu relacionamento e da carreira na polícia, seu casamento já estava balançado. Vicky nunca se integrara aos Kowalski. Não que os detestasse, mas estava sempre tentando manipulá-lo


para outra direção. Gostaria de ir para Cancún no dia de Ação de Graças ou ficar em Boston para o Quatro de Julho. Kevin tentava agradá-la. Afinal, era sua mulher e aquilo significava algo para ele. Mas em vez de ceder um pouco, ela insistira em uma viagem para esquiar no Colorado durante os feriados de Natal. Sua recusa insistente provocou um drama que teria deixado Shakespeare envergonhado. – Presentes! – ecoou um grito alegre vindo da sala de estar. – Segure-se firme – avisou ele a Beth. – Pense em um tornado entrando em uma fábrica de papéis de embrulho. O caos durou quase uma hora, mesmo com os homens distribuindo os presentes enquanto as mulheres jogavam as embalagens vazias em sacos de lixo tão rápido quanto as crianças conseguiam abri-las. Kevin notou os presentes que Beth escolhera com cuidado para cada uma das crianças e o soldadinho quebra-nozes esculpido à mão que deu aos seus pais. Percebeu também que a família respeitou seu pedido de não fazer Beth se sentir desconfortável enchendo-a de presentes. Um vale-presente de uma livraria, um urso de pelúcia para o bebê. Mais algumas coisas similares e ela exultava de felicidade. O caos parou de repente e todos prenderam a respiração quando Brian puxou o gatilho de uma das pistolas Nerf que Paulie trouxera e acidentalmente atingiu Beth na testa. – Brian! – gritou Lisa para seu terceiro filho. Beth piscou surpresa e então cuidadosamente colocou seus presentes de lado e se levantou da cadeira. Kevin também se levantou, caso ela tentasse se esconder no banheiro ou correr para a porta da frente. Ela, porém, não fez nenhum dos dois. Pegou uma pistola sob a árvore e calmamente começou a introduzir dardos. Em seguida, sorriu para Brian e inclinou a cabeça. – Você vai ver o que vai acontecer. Brian gritou e correu em direção à sala de jantar com Beth em seus calcanhares. Bobby também pegou sua pistola e correu para a cozinha. Joey e Danny, sendo os mais velhos e mais espertos, correram na outra direção, prontos para interceptar os outros. – Guerra Épica Radical de Pistolas Nerf! – gritou Keri, e todos os adultos riram. A nova mulher de Joe já sofrera no verão passado com os Saltos Bomba Simultânea Radicais e o Torneio Anual Eliminatório de Vôlei


Kowalski Radical, mas arrancou a pistola da mão de Stephanie e correu atrás deles. Um minuto depois ouviram o guincho de Brian e o grito triunfante de Beth. Depois, Bobby berrou e todos os passos começaram a seguir em outra direção. Kevin sentiu o braço da mãe em volta de sua cintura e beijou-lhe o topo da cabeça. – Gosto dessa garota, Kevin. – Eu também, mãe. Muito. UMA ALEGRE canção de Natal tocando em seu celular acordou Beth na manhã seguinte. Ela tateou à sua procura e conseguiu responder à chamada antes que caísse na caixa postal. – Alô? – Feliz Natal! A voz de Kevin era tão alegre quanto o toque do telefone e Beth fez uma careta. – Que horas são? – Nove, o que é muito tarde para continuar na cama em uma manhã de Natal. Estou passeando no corredor e colando o ouvido em sua porta desde as 7h, mas você não acorda. Beth espreguiçou-se e consultou o relógio: 9h. – Isto é meio assustador, sabia? – Talvez um pouco. – Eu fui dormir tarde ontem depois da Guerra Épica Radical de Pistolas Nerf. – Minha mãe me deu um monte de rosquinhas caseiras de canela e tudo o que temos a fazer é esquentá-las no micro-ondas por alguns segundos. – No seu apartamento ou no meu? – perguntou Beth, jogando as cobertas para o lado e se sentando na cama. – Também fiz café. – No seu. Preciso de alguns minutos para me vestir. Ela o ouviu bufar do outro lado da linha. – Não é preciso vestir-se em uma manhã de Natal. Todo mundo sabe disto. Estou colocando açúcar no seu café enquanto falo. – Dois minutos – disse ela e bateu o telefone.


Beth escovou os dentes, penteou o cabelo e lavou o rosto em tempo recorde. Em seguida, pegou os presentes de Kevin e atravessou o corredor. A porta dele já estava aberta e ele sorriu quando a viu entrar. – Feliz Natal! Pelo visto, a regra de não se vestir na manhã de Natal também se aplicava a ele, pois estava apenas com a calça de moletom do pijama, que lhe caía pela cintura. Realmente era um Natal feliz. Ela repetiu as palavras dele e olhou para a mesa, onde havia duas cafeteiras fumegantes e um prato das rosquinhas de canela de Mary. Mas primeiro foi até a pequena árvore de Natal artificial no canto da sala de estar e colocou seus presentes próximos a uma caixa gigante com seu nome. Apesar de o tamanho da caixa deixá-la intrigada, sentiu-se agradecida por ele não ter escolhido soterrá-la com uma avalanche de presentes que não poderia retribuir. – Primeiro os presentes? – perguntou Kevin, e ela riu. As manhãs de Natal deviam ser insanas na casa dos Kowalski quando Kevin e os outros irmãos eram crianças. – Café primeiro, sempre. – É descafeinado por causa do... – Shh! Não diga esta palavra. Vai destruir meu faz de conta. Sentaram-se à mesa e beberam café com as rosquinhas enquanto Beth tentava não olhar para o peito nu de Kevin. Era impossível evitar que seu olhar seguisse naquela direção, mas pelo menos tentava não o prolongar. Estavam se dando bem. Tinham um relacionamento sensato e não queria colocar ideias na cabeça dele. No segundo em que Beth lambeu as últimas migalhas de rosquinhas dos dedos, Kevin pulou da cadeira. – Presentes! Seu bebê teria o melhor dos Natais. O pensamento fez lágrimas surgirem em seus olhos ao imaginar Kevin e uma criancinha gritando e rindo enquanto corriam até a árvore de Natal e rasgavam as embalagens de presentes. Beth piscou para afastar as lágrimas e se juntou a ele, sentando-se de pernas cruzadas em frente à árvore. Em alguns meses não conseguiria mais se sentar daquela forma. – Você primeiro. – Kevin pegou uma caixa enorme e a colocou em seu colo.


Beth levou alguns segundos saboreando o momento e olhando para o presente. Ou Kevin possuía habilidades ocultas ou havia pago a alguém para embrulhá-lo. Ou talvez tivesse coagido um membro da família ou um amigo. – Ande logo – disse ele. – Rasgue o papel. Beth costumava demorar para desembrulhar um presente, retirando cuidadosamente as fitas e desdobrando o papel, mas o entusiasmo de Kevin era contagioso. Então rasgou o embrulho e levantou uma caixa. Envolto em uma camada de papel de seda, encontrava-se um caro casaco de inverno. Ela o retirou da caixa, adorando a textura e o peso do tecido verde musgo em sua pele. E havia bastante espaço nele para sua barriga crescer. O tipo de casaco que não só supria as necessidades do inverno, como era um artigo de luxo. O tipo de casaco que provavelmente jamais compraria. – É lindo – murmurou. – Obrigada. – Tem certeza? Tenho a nota da compra se quiser trocar. – Eu adorei. – Beth enterrou o rosto no casaco para sentir a maciez do tecido contra a pele e para esconder as lágrimas que ameaçavam escapar. – Bem, vou abrir um dos meus agora e depois você abre outro. Beth não argumentou que era demais. Que o casaco seria suficiente e que não poderia aceitar mais nenhum presente. Ele ficava tão contente em presentear que não tinha coragem de decepcioná-lo. – O menor primeiro. Ele rasgou o papel com a mesma alegria que as crianças demonstraram na noite anterior e gemeu quando encontrou uma caixa de camisa. – Opa! Roupas! – Você me deu roupa. – Casaco não é roupa e você não é um menininho por dentro. Beth riu ao vê-lo lutar com a fita adesiva que mantinha a caixa fechada e prendeu a respiração quando ele removeu o papel. O sorriso dele se alargou e as covinhas apareceram em seu esplendor ao ver as camisetas. Uma era do tamanho de um homem grande e a outra uma versão em miniatura. Ambas bordadas com o logotipo do Jasper’s Bar & Grille. – Sensacional! – Ele pousou a camiseta grande no chão e colocou a pequena sobre ela. – Eu e meu filho vamos arrasar nestas camisetas. – Ela riu e sacudiu a cabeça. – Obrigado, Beth. Seu olhar era caloroso e o sorriso genuíno, acabando com suas últimas preocupações a respeito do presente. Havia pensado que talvez fosse


extravagante ou não fosse bom o suficiente. E, bem no fundo da mente, sentira-se temerosa também. Era muito cedo para comprar coisas para o bebê. Se alguma coisa acontecesse... Afastando aquele pensamento horrível, devolveu-lhe o sorriso. Era melhor viver o momento e aquele era um momento feliz. – Está bem – disse ele. – Veja o que há no bolso da frente do casaco. Beth vasculhou no bolso até seus dedos se fecharem sobre uma caixa. Seu coração parou de bater por alguns assustadores segundos quando reconheceu o papel de uma renomada joalheria, mas se acalmou quando percebeu que a caixa era mais comprida e mais plana do que uma caixa de anel. Aprendera a não duvidar de nada que Kevin pudesse fazer, mas aquilo seria demais. Dessa vez, ela demorou para abrir a embalagem sob os olhares impacientes de Kevin. Dentro da caixa, havia um pingente de prata elegante em formato de mãe e filho em uma delicada corrente. – Ah! – Beth deslizou os dedos pelo lindo símbolo. – Isto é... – Digno de um beijo? A risada evitou que ela se desfizesse em um mar lágrimas. – Você não tem um pingo de vergonha. – Verdade. Mas não consigo ficar aqui sentado perto de um presente com meu nome e com a promessa de um beijo até abri-lo. Beth não havia concordado com o beijo, muito menos emitido um vale beijo, mas ele já estava rasgando a embalagem de seu segundo presente. Era um enorme porta-retratos multifotos com dezenas de espaços, que ela preenchera com fotos do casamento de Joe. Perdera horas procurando dentre as que a fotógrafa de Keri tirara e depois fazendo cópias das que desejava. Beth vasculhara a coleção, evitando fotos com poses e preferindo as que capturavam a essência daquela família. Havia uma dos pais de Kevin dançando e se encarando como se fossem dois namorados. Uma de Kevin dançando com a sobrinha, Stephanie. Os três irmãos juntos rindo de uma piada particular. Joe e Keri, todos embecados, puxando um cordão de pessoas que dançavam a conga em volta do salão. Os sobrinhos enfileirados fazendo uma infinidade de caretas para a câmera. Sua foto favorita era uma tirada durante os brindes formais. Só que não era tão formal assim. Kevin dava uma gravata no noivo enquanto Mike lhe aplicava um cascudo e Evan fazia orelhas de coelho atrás de sua cabeça.


Kevin não precisou dizer que gostou do presente. Beth viu um sorriso brincar em sua boca enquanto tocava cada uma das fotos. – Isto é incrível. – Fico feliz que tenha gostado. – Eu adorei. É sério. Isto é tão legal, Beth. Muito obrigado. – Ele passou um dedo pelas fotos mais uma vez. – Olhe só meus pais nesta aqui. Dá para ver o quanto se amam, mesmo depois de todo esse tempo. Beth nem mesmo sentiu quando ele se moveu, mas de repente estava ao seu lado segurando-lhe o queixo, e a beijou. Foi um beijo ardente que a virou pelo avesso e aqueceu-lhe a pele, mas foi breve. Ele fez questão de não o prolongar. – Obrigado, Beth. – Feliz Natal. E obrigada também. Kevin acariciou o rosto dela e abaixou a mão. – Você, de fato, me surpreendeu. – Obrigada por manter este momento carinhoso e simples. – Quer dizer em vez de lhe comprar tudo o que havia no shopping como eu queria? – Ele lhe deu uma piscada, exibindo-lhe as covinhas. – Também sou capaz de surpreender. E ele conseguiu. – Então, o que vem a seguir na lista Kowalski de tradições natalinas? – Sexo com o vizinho. Dando uma risada, Beth levantou-se. – Bela tentativa. – Filmes de ação e mais comida. A mão de Kevin era quente na sua enquanto ela fingia ajudá-lo a se levantar. – Este é o meu tipo de feriado. Explosões, risos, perseguições de carro e muitas rosquinhas de canela. Foi um dos melhores dias de sua vida e, tirando aquela noite que, em vez de sucumbir ao seu charme e cair em seus braços, preferiu fugir, aquela seria uma das mais difíceis escapadas que teria que empreender.


CAPÍTULO 12

Fevereiro

O BEBÊ estava com desejo de comer cheeseburger. Beth sabia que era muito cedo para retirar da manga a carta dos “desejos de gravidez”, mas estava louca por um cheeseburger com bacon e não queria se sentir culpada por isso. Que se danassem as saladas! Àquela hora do dia, quando as pessoas ainda não haviam chegado para tomar uma cerveja e assistir ao SportsCenter, a parte dos fundos do bar, sua preferida, deveria estar deserta. Escolheria um banco, inspiraria o aroma de um prato repleto de calorias, composto de cheeseburger com bacon e batatas fritas, e voltaria ao seu apartamento, onde passaria o restante da noite protegida do frio impiedoso de fevereiro. Mas se surpreendeu ao encontrar Kevin, já aquecendo um dos bancos, com o nariz enterrado em um livro. Mas como acontecia sempre que pousava os olhos nele, uma pontada de desejo e pesar atravessou-lhe o peito. Kevin era um homem extraordinário. Tinha certeza de que se comparasse uma lista das qualidades de Kevin com a das que procurava em um homem, haveria muita coisa em comum. Se quisesse ser sincera consigo mesma, seriam coincidentes a ponto de vencer aqueles programas de competições na televisão. Mas eram justamente essas qualidades que a assustavam. No topo da lista das formas como Kevin a fazia se sentir, estava a palavra “segura”.


Segura, assistida e nunca sozinha durante a maior reviravolta por que passara na vida. E era por esse motivo que não podia confiar nas próprias emoções no que dizia respeito a Kevin Kowalski. Tampouco podia confiar nas dele. Kevin queria um filho e ela lhe daria um. Talvez fosse justificativa suficiente para ele, mas Beth não pensava da mesma forma. Não podia ficar parada ali, encarando a nuca de Kevin, portanto estampou um sorriso cordial nos lábios e se aproximou. – O que está lendo? Kevin ergueu a cabeça com um movimento rápido, ao mesmo tempo em que fechava o livro com força, antes de pousá-lo sobre o balcão do bar com a capa para baixo. – Nada. – Ora vamos, eu amo livros. – Beth esticou o pescoço e, no mesmo instante, identificou o desenho característico na contracapa. Nada de extraordinário, já que o via todos os dias sobre seu criado-mudo. – Está lendo O que esperar quando você está esperando? O rosto de Kevin tornou-se tão vermelho quanto a camiseta dos Patriots que vestia. – E daí? – E daí que… eu achei fofo. – Muito fofo? – Ele se inclinou para perto. As covinhas emoldurando o sorriso malicioso. – Nem tanto. – Beth empurrou-o antes de fazer seu pedido a Randy. Quando percebeu que o rapaz não precisou anotá-lo e mal lhe deu atenção, concluiu que estava na hora de reduzir a frequência com que comia os hambúrgueres de Jasper’s. Kevin deu palmadas leves sobre a capa do livro. – E então, quando eles tirarem aquela foto de tabloide do bebê, vamos querer saber se ele vai vestir rosa ou azul? – Foto de tabloide? – Sim, aquela em preto e branco que deixa a criança com cabeça de extraterrestre? – Está se referindo ao ultrassom? Kevin deu de ombros. – Sim, isso mesmo. De acordo com o que li, está quase na hora de fazer o primeiro. Não é nesse exame que conseguem ver o sexo do bebê?


– Tenho uma consulta marcada para terça-feira. Mas, às vezes, o bebê ainda está muito prematuro ou em uma posição que não dá para ver o sexo. – Terça-feira, daqui a três dias? – Beth concordou enquanto abria a garrafa de água mineral gasosa que Randy colocou diante dela. – Quando iria me contar? A que horas é a consulta? Tenho de saber para pedir que alguém me substitua aqui. – Quer me acompanhar? O olhar de Kevin deixou evidente todo o aborrecimento e a ofensa que sentia. – Claro que quero. Beth devia saber que ele faria questão de acompanhá-la, e não apenas por seu nome constar no cheque que pagaria a consulta, mas por ser o tipo de homem que jamais perderia a oportunidade de ver a primeira imagem do filho. Não fora uma decisão consciente não lhe pedir para acompanhá-la. Apenas lhe parecera algo tão íntimo. Um pensamento ridículo, claro. Fizeram sexo, o que envolvia muito mais intimidade do que tê-lo ao seu lado enquanto uma mulher lhe passava o transdutor sobre barriga. – Desculpe – disse ela com sinceridade. – A consulta é muito cedo, às 8h30, o que significa que tenho de sair daqui às 8h. Portanto, o bar não deve ser um problema. – Estarei esperando no corredor. Se não for muito precoce ou o bebê estiver em uma boa posição, quer saber o sexo? Beth ainda não pensara sobre o assunto. – Não sei. – E você? – Também não sei. E se o médico se enganar? Às vezes, acontece. Os pais optam por um nome, compram todo o enxoval rosa ou azul e... Surpresa! O bebê é do sexo oposto. – Pensou em algum nome? Beth fez que não com a cabeça. – É muito cedo para escolher nomes. Não traz sorte. Mas talvez, se descobrirmos o sexo e for uma menina, saber com antecedência nos daria tempo de chegar a um acordo. Outra vez, Kevin pareceu ofendido e girou no banco para encará-la. – O que quis dizer com isto? – Se for uma menina, você teria tempo para se recuperar da decepção.


– Não me importo se for menino ou menina. Desde que nasça com saúde, ficarei eufórico. – Mas sempre se refere a esta criança como “ele” ou “dele” e a chama de garotinho. É óbvio que prefere um filho. Kevin inclinou-se na direção dela com um sorriso lhe curvando os lábios. – Só digo isso para te provocar. Acho uma gracinha o modo como revira os olhos e sorri para mim. Beth empurrou-o mais uma vez enquanto Randy colocava o prato diante dela. – Prefiro que seja surpresa. – Então vamos dizer à médica que não queremos saber o sexo. – Kevin pegou uma das batatas fritas do prato. – A propósito, é melhor evitar vir para o bar amanhã. Posso pedir para entregarem um hambúrguer em seu apartamento na hora do jantar, estará lotado aqui embaixo. Beth deu-lhe um tapa na mão quando ele tentou pegar outra batata. – Por quê? O que acontecerá amanhã? Kevin encarou-a com um misto de horror e incredulidade. – Está falando sério? Não sabe que é o domingo do Super Bowl? Apenas o dia mais importante do futebol. – E os Patriots vão jogar? – Não, foram eliminados. Mas ainda assim trata-se do Super Bowl e as pessoas querem assistir ao jogo com outros fãs de esportes. Portanto, será um dia excelente para o Jasper’s. Quando Kevin esticou o braço para pegar outra batata frita, ela escorregou o prato para a direita. Ele devia se envergonhar de tentar roubar comida de uma mulher grávida. – Obrigada pelo aviso. Acho melhor ficar lá em cima, lendo. – Há outra coisa que quero te dizer. Meu pai, eu, meus irmãos e Evan, meu cunhado, costumamos viajar para o Norte para passarmos um fim de semana prolongado com muito snowmobile. Apenas os homens. Estamos planejando partir na quinta-feira, sem ser esta, a próxima. Vamos na quinta-feira e voltamos no domingo. – Está bem. – Então… não se importa? Beth tomou um gole da água gasosa para engolir o pedaço de cheeseburger que mastigava. – E por que me importaria?


– Não sei – retrucou ele, dando de ombros. – Não há sinal de telefone celular nas montanhas, então não poderá me contatar. – Se eu precisar, ligarei para Paulie. Ou para um dos muitos números que gravou no meu telefone. Juro que o único telefone que não acrescentou foi o da Guarda Nacional. – Está bem. – Estaria Kevin amuado? A julgar pelo biquinho, sim. – Só queria saber o que acharia de eu me ausentar por tanto tempo. – Se queria uma mulher que se sentisse impotente quando privada de seus ombros largos para se apoiar, deveria ter ido para a cama com aquela ruiva no casamento do seu irmão. – Havia uma ruiva lá? – Kevin dirigiu-lhe o mesmo olhar que sempre conseguia aquecê-la por dentro. – Prometa-me que ligará para Paulie ou para minha mãe se precisar de qualquer coisa. Beth prometeu e depois se concentrou em comer o cheeseburger, deixando claro que a conversa chegara ao fim. Um intervalo de quatro dias seria bom para ambos. Kevin precisava dar um tempo nos cuidados excessivos com ela e Beth precisava de um distanciamento de toda aquela atenção. Um descanso da tensão resultante da batalha travada entre o corpo e a mente, que não se encontravam em sintonia quando o assunto era não fazer sexo com Kevin, também seria bem-vindo. – Vai sentir minha falta? – perguntou, tentando distraí-la enquanto retirava outra batata frita de seu prato. – Ei! Não percebeu que está roubando comida do seu bebê? Kevin soltou uma risada tão alta que sobrepujou o som da televisão por alguns segundos. – Querida, o bebê não está passando fome. Do jeito que tem comido os hambúrgueres do Jasper’s, a primeira palavra que ele… ou ela dirá será “muuu”. Beth bateu no braço de Kevin com o livro que estava sobre o balcão. – Seu idiota. Só por isto, não sentirei sua falta. – Ah, aposto que pensará em mim de vez em quando. Beth fez que não com a cabeça, mas quando ele lhe piscou e escorregou os dedos na direção do prato outra vez, soube que Kevin tinha razão.


NA TERÇA-FEIRA, Paulie estava trabalhando no arrastado turno do almoço quando Kevin e Beth entraram no bar. Finalmente! Ela atirou o pano de prato no balcão do bar e andou na direção deles. – E então? Um sorriso luminoso curvou os lábios de Beth. – O ultrassom não mostrou problema algum. Está tudo perfeito. – Fico feliz em saber. – Paulie cruzou os braços, encarando Kevin com olhar furioso. – Não que eu estivesse muito preocupada, já que vocês saíram às 8h e voltaram às 13h, sem dar nenhuma notícia. Não me passou pela cabeça que algo pudesse estar errado. O desgraçado limitou-se a mostrar as covinhas, como se tivesse esquecido que ela era imune àquele atrativo. – Desculpe. Fomos tomar café da manhã depois da consulta. Decidimos aproveitar para pesquisar o preço de alguns berços e artigos de bebê, até quase a hora do almoço e então... – Deixe para lá. Digam, descobriram o sexo do bebê? Beth negou com a cabeça. – Queremos ter surpresa. – Então se prepare para ser soterrada de artigos em tom verde. Ou pior, em amarelo. Ah, Kev, aquele representante da cervejaria esteve aqui há meia hora para te mostrar uma nova linha de produtos. – Espero que ele tenha deixado amostras porque uma cerveja agora ia bem. Quem poderia imaginar que haveria tantos modelos de berço no mercado? E nem mencionarei as cadeirinhas e carrinhos de bebê. Vou precisar elaborar uma planilha ou um gráfico para comparar os preços. – Não é tão complicado quanto faz parecer – disse Beth. – Preciso me arrumar para ir ao trabalho. Tive de trocar de turno para tirar esta manhã de folga, portanto terei de trabalhar até o restaurante fechar. – Vou buscá-la quando sair. – Sou capaz de caminhar sozinha, Kevin. É bom para mim. Se o tempo virar, pegarei um táxi. – Às 21h? Eu a buscarei. Os dois ainda discutiam quando se afastaram, deixando Paulie parada os observando com um movimento negativo de cabeça. Os dois formavam um belo casal, mesmo que não quisessem admitir. Embora entendesse o ponto de vista de Beth em não se casar por causa da criança, a forte química entre


eles ficava evidente até mesmo para quem estivesse em um raio de 30m de distância. Em vez de lutar contra aquela atração, Beth deveria aceitá-la. Paulie estava escrevendo uma lista de mantimentos que teriam de ser repostos após o Super Bowl quando o celular a alertou de que recebera uma mensagem. Por mais que tentasse se impedir, percebeu que sorrira ao constatar que era de Sam. Sentindo a minha falta?

Como se ela estivesse disposta a lhe dar a satisfação de saber que, de fato, sentira saudades. Por falar em lutar contra a química… Não era nada disso. Eu senti sua falta. O que está vestindo? Nada. Estou nua. A propósito, Bob está mandando lembranças.

O telefone tocou quase no mesmo instante e o nome de Sam apareceu no identificador de chamadas. – Espero que esse Bob seja o apelido de algum vibrador idiota. – Olá. – Diga que não está na cama com outro homem. – Está bem. Não estou na cama com outro homem. Paulie podia quase sentir a raiva zunindo do outro lado da linha. – Droga, estou na Alemanha e, dentro de alguns minutos, terei de sair para tomar alguns drinques com investidores importantes. Não me enlouqueça. – Estou trabalhando, seu idiota. Quem tem tempo de fazer sexo às 13h? – Paulie recostou o quadril ao balcão do bar, tentando não se ater ao quanto sentira falta de ouvir aquela voz grave nos últimos meses. A troca de emails e mensagens de texto não foram suficientes. – Precisarei passar mais alguns dias na Europa, depois de uma semana a dez dias fechando negócios em Boston e tomando providências para poder me afastar por um tempo. Acho que só voltarei a New Hampshire dentro de mais algumas semanas. – Não se apresse por minha causa. – Sam dissera que precisava tomar providências para se ausentar de Boston. Por quanto tempo estaria planejando permanecer em New Hampshire? A risada baixa pareceu fazer a mão com que ela segurava o telefone vibrar e outras partes do corpo que se sentiam negligenciadas nos últimos tempos. – Eu a verei em breve.


– Sim, quando puder – forçou-se a dizer Paulie, antes de desligar. A forma como a pulsação acelerava só de pensar em Sam Logan a deixava irritada. Claro que ele provara ser excelente na cama, cinco anos atrás, e não podia esquecer que cruzara a metade da igreja florida para se casar com aquele homem, mas isso fora há muito tempo. E o problema fundamental persistia: o descontentamento em ser Paulette Lillan Atherton. Não queria voltar a ser aquela pessoa, nem mesmo por Sam. E Kevin estava certo sobre aquela situação. Embora achasse divertido passar algum tempo no mundo que ela escolhera, Sam não abandonaria o mundo dos pais. Se um dia Paulie o aceitasse de volta, ele tentaria levá-la de volta às suas origens. E não havia a menor possibilidade de ela concordar. A VIAGEM Masculina anual Radical de Esportes na Neve costumava ser o ponto alto do ano para Kevin, mas, dessa vez, não conseguia se concentrar no evento. Geralmente, esquecia do mundo, perdido na sensação prazerosa de percorrer a neve acumulada. O vento batendo na viseira do capacete. A descarga de adrenalina ao deslizar sobre um lago congelado. O odor do escapamento do motor de dois tempos. Mas, dessa vez, só conseguia pensar em Beth. Deveria tê-la beijado ao se despedir. Beth mostrara-se tão fria, desejando-lhe um bom divertimento e lhe acenando, com expressão alegre, como se ele não passasse de um conhecido para quem desejava bon voyage. Deveria ter voltado e a beijado até que ela lhe envolvesse o pescoço com aqueles braços macios e lhe suplicasse para ficar. Em vez disso, permitira que Beth agisse como se sua partida não tivesse importância alguma. Que se tratasse apenas de um bando de homens voando sobre as florestas cobertas de neve a 110km/h ou mais, se ninguém estivesse fiscalizando. Curvas com neve acumulada. Árvores caídas. Camadas finas de gelo. Idiotas surgindo em curvas, do lado contrário da trilha. Havia centenas de possibilidades de ele se ferir e Beth sequer demonstrara preocupação quanto à sua integridade física.


Kevin diminuiu a velocidade para virar uma curva famosa pelo ângulo fechado e acúmulo de gelo. Em outras ocasiões, teria entrado em velocidade suficiente para fazer o snowmobile deslizar. Naquele instante, ouviu o som de outra máquina deslizando lentamente por trás. Se podia ouvir o pai era por que ele estava muito próximo. Era perigoso colar na traseira daquela forma. Quando alcançou a trilha reta, percebeu que Mike e Evan haviam saído para o acostamento e se juntou a eles. Após desligar o motor, ergueu a viseira do capacete e saltou da moto. Em seguida, retirou o capacete e, por último, a balaclava. Mike deu-lhe palmadas no ombro. – Desde quando virou uma senhora de idade? Se formos mais devagar, teremos de disputar no palitinho para ver qual de nós será assado na brasa e servido de refeição, porque nunca chegaremos à cidade a tempo do jantar. – E o que acontecerá a Beth e ao meu filho se eu me arrebentar contra uma árvore? – Kevin atirou o capacete sobre o banco e o observou oscilar. – Não deveria tê-la deixado sozinha. – Lisa me contou que você queria deixar uma escala por escrito de quem telefonaria para Beth e quando. – Não tenho um testamento. Deveria ter feito um antes de partir. – Quando o irmão soltou uma risada, Kevin resistiu ao ímpeto de lhe dar um soco. – Sim, querer garantir o futuro do meu filho se eu morrer é mesmo uma piada. – Quem está morrendo? – perguntou o pai, juntando-se ao grupo, com Joe ao seu lado. – Eu, se não maneirar na velocidade. – Kev está preocupado em bater em alguma árvore – explicou Mike. – E nós atiraríamos Beth e o bebê na rua, à própria sorte. – Não foi isso que eu disse. – Bater em uma árvore? – indagou Joe. – Tanto faz, porque na velocidade em que está dirigindo, seu filho estará cursando o ensino médio quando voltarmos. – Vão todos para o inferno! Não estou tão lento assim. E você... – Ele apontou para Mike – ...tem quatro filhos em casa. Não deveria voar pelas trilhas desse jeito.


– Ao contrário de você, tento me divertir quando posso. Não me faça recorrer ao ditado de que para morrer basta estar vivo. Eu poderia ser atropelado por um ônibus. – Há muito mais chance de bater contra uma árvore do que ser atropelado por um ônibus neste lugar – resmungou Kevin. – Preciso fazer xixi. Talvez fosse mais fácil para Mike, pensou, furioso, enquanto urinava próximo a uma árvore. Se algo acontecesse a ele, Lisa teria todo o suporte da família Kowalski. Beth não tinha ninguém. Sem ele, estaria sozinha. Não que acreditasse, sequer por um segundo, que sua família lhe daria as costas, mas Beth era uma mulher orgulhosa e acostumada a cuidar da própria vida. A julgar pela dificuldade que tivera em fazê-la aceitar sua ajuda, era pouco provável que ela recorresse aos Kowalski caso necessitasse. Paulie a ajudaria, mas não era a mesma coisa. Beth era bem capaz de pegar um ônibus de volta para a Flórida e ponto final. Devia a ela, ao bebê e à sua família voltar inteiro dessa viagem. – Quando você e Keri darão sua contribuição à árvore genealógica da família? – perguntava Mike a Joe quando Kevin voltou a se juntar ao grupo. – Estamos trabalhando nisso. Com afinco. Sempre que consigo convencêla a tentar. Já que sua moderação os levara a questionar sua masculinidade, Kevin sentiu-se à vontade para revidar. – Para mim bastou uma vez, meu irmão. – Está se vangloriando do fato de não saber usar um preservativo da maneira correta? É mesmo seu estilo. – Não tenho culpa se não fabricam material resistente o suficiente a ponto de suportar minha potência. – Muito bem – disse Leo. – Vamos voltar para a trilha antes que vocês dois comecem a trocar cascudos e beliscões. Quando estavam todos reunidos e de volta à trilha, Kevin não se surpreendeu quando Joe saiu da fila para lhe dar uma fechada. Mas o pai ficara para trás também, portanto, não estaria sozinho quando os irmãos e Evan o fizessem comer neve. Que se dane aquilo. Kevin pisou no acelerador com força, na esperança de que o ronco do motor lhe dissipasse os temores. Enquanto encurtava a


distância que o separava de Joe, tentou arrancar da mente todos os pensamentos de Beth. E do minúsculo e indistinto extraterrestre em preto e branco, com batimentos cardíacos fortes e cadenciados e uma adorável saliência no lugar do nariz que conseguira lhe tirar o fôlego. E conquistar seu coração. Joe começou a ganhar distância e ele acelerou outra vez. Afinal, não queria que, no futuro, durante as reuniões familiares, o filho ficasse sabendo da viagem em que seu pai havia dirigido como uma senhorinha.


CAPÍTULO 13

DOIS DIAS sem Kevin haviam se passado. Restavam mais dois. Beth deixou escapar um suspiro e atirou sobre a mesinha de centro a revista especializada em cuidados maternais que não estava lendo. Era patético o quanto se sentia mal-humorada sem a presença de Kevin do outro lado do corredor. Deveria aproveitar aquele tempo sozinha, desfrutando de alguns dias livre daquela energia sufocante do pai de seu filho. Em vez disso, o terceiro andar parecia tão deserto que lhe dava a impressão de que sua voz produziria eco, caso se sentisse solitária a ponto de começar a falar sozinha. Quando Kevin partira, Beth teve de recorrer a toda força que possuía para não se atirar em seu pescoço e implorar para que ficasse. Impedira-se a fazer aquela cena apenas por saber que ele teria ficado. Se Kevin pensasse, sequer por um minuto, que sua ausência a deixaria ansiosa, teria se limitado a ver os outros partirem sem ele, só para satisfazê-la. E aquele era o tipo de codependência que tentava evitar. Beth passara uma hora ao telefone com a mãe. Shelly e Artie pretendiam voltar de avião, mas o pai tivera uma espécie de virose no cruzeiro e a última coisa que os dois queriam era expor a filha e o bebê a alguma doença. Portanto, ela lhe enviou uma foto da barriga. Em resposta, o pai lhe escrevera um e-mail, anexando uma foto da mãe rindo e chorando ao mesmo tempo. Após limpar pela terceira vez o apartamento já impecável desde que Kevin partira, a batida que ouviu na porta foi um alívio. Ainda mais quando descobriu que era Paulie.


– Ah, que se dane! – disse a ruiva no lugar de um cumprimento educado. – O bar está quase vazio. Deixei Randy tomando conta e pensei em passar aqui para saber como está se saindo sem Kevin por perto. – Na verdade, entediada. Não havia me dado conta do espaço que ele ocupa nos meus dias até não o ter por perto. – Ao menos Kevin estará de volta na segunda. Algo no tom com que a amiga fizera aquele comentário chamou atenção de Beth. – Quando Sam estará de volta? – Dentro de algumas semanas, segundo me disse. Não que esteja ansiosa. Não há nada entre nós. – Mas um dia houve. E, ao que me parece, Sam está interessado em reacender a velha chama – retrucou Beth, percebendo tarde demais o que dissera. Paulie não deixou o deslize passar em branco. – Kevin lhe contou, certo? Beth hesitou, mas não havia sentido em mentir. – Sim, mas juro que não contei a ninguém. – Aquele traidor – disse Paulie, embora as palavras soassem destituídas de rancor. – Como vocês ainda estão fingindo não ser um casal, ele não tinha o direito de te contar. – Não estamos fingindo. Não somos mesmo um casal. Apenas dois vizinhos e amigos que, por acaso, terão um filho juntos. – Claro. Continue tentando se convencer disto, querida. – Por falar em fingir não ser um casal, o que fará quando Sam voltar? Paulie deixou-se afundar no sofá e colocou os pés sobre a mesinha de centro. – Não sei. Não há sentindo em fingir que podemos fazer essa relação dar certo, mas não consigo expulsá-lo da minha vida outra vez. – Por que não podem fazer dar certo? – Beth sentou-se na cadeira, fazendo uma careta quando teve a impressão de que a calça jeans impediria sua circulação, apesar de desabotoada sob a blusa solta. – Sam ainda está atolado até o pescoço na alta sociedade de Boston e eu não posso voltar para lá. Aquilo era um inferno. Um mundo onde status social é determinado pelo sapato que está calçando, e Deus a livre de ser surpreendida em alguma das araras de roupas em liquidação, mesmo que


tenha encontrado a mais bela das peças. Estou falando sério, você não tem ideia de como é. De fato, não. Beth tivera uma infância confortável, mas não como a de alguém que nunca precisara se incomodar com o preço na etiqueta da roupa. – Ainda assim, não entendo por que não pode fazer esse relacionamento dar certo. Centenas de pessoas viajam rotineiramente entre New Hampshire e Boston. Ele poderia fazer o mesmo. – Sam tem de comparecer a centenas de festividades todos os anos, do tipo em que se leva a esposa, toda arrumada. A mulher que se casar com ele terá de participar de fundações beneficentes e jogar tênis em clubes exclusivos, como esperado. Essa não é a minha praia. Tem algo para beber? – Claro – Beth levantou-se, mas teve de parar e puxar a calça comprida para cima. Incapaz de fechá-la, deixou-a aberta, mas como suas nádegas não haviam acompanhado o crescimento do abdome, não a segurariam por muito tempo. – Está na hora de procurar roupas nas seções de gestante. – Claro que Paulie não deixaria o detalhe passar despercebido. Beth sabia que ela estava certa, mas na opinião de sua conta bancária, ela deveria se apertar por mais algumas semanas. Literalmente. Estava determinada a dividir ao meio as despesas médicas com Kevin e a conta da ultrassonografia seria salgada. Mesmo nos brechós, o custo de um novo guarda-roupa era alto. Por outro lado, ver a calça escorregar pelas pernas enquanto carregava as bandejas repletas de pratos no trabalho não lhe parecia um cenário promissor. Paulie levantou-se. A euforia iluminando seu rosto. – Vamos fazer compras! – Talvez eu vá comprar algumas roupas na semana que vem. – Quando? Vou com você. A perspectiva de arrastar Paulie, uma herdeira rica, para os brechós era tão ridícula que ela não sabia se ria ou chorava. – Eu… não sei ao certo quando terei tempo. – Vamos agora. Randy pode assumir o comando do bar por algumas horas. Beth não queria contar a amiga que não tinha dinheiro suficiente para comprar roupas de gestante, mas Paulie não parecia disposta a desistir. – Tenho de juntar dinheiro por mais algumas semanas.


– Ah! – Paulie pareceu desapontada, mas logo em seguida voltou a se animar. – Será por minha conta. Considere isso meu presente do chá de bebê. – Ah! – Beth ainda não havia pensando sobre o chá de bebê. Fizera algumas boas amizades no trabalho, mas não sabia se aquelas mulheres eram do tipo de organizar chás de bebê. Mas ainda havia a mãe, as irmãs e as cunhadas de Kevin. E sua própria mãe viria para participar, claro. – Se eu fizer um chá de bebê, será algo bem simples. Paulie atirou a cabeça para trás e soltou uma risada. – Está brincando? Ouvi dizer que a sra. Kowalski obrigou o sr. Kowalski a retirar todos os seus pertences do armário porque estava ficando sem espaço para guardar todos artigos que já comprou para esse bebê. Beth cobriu o rosto enrubescido com as mãos. – Diga que está brincando. – Não. Acredite, se depender das compras das mulheres daquela família, essa criança não necessitará de sapatos antes da terceira série. E é por isso que deveria concordar com meu presente antecipado. Algo só para você. – Beth não poderia concordar. Paulie estava se tornando uma boa amiga, mas não era justo deixar que ela lhe comprasse roupas. – Ouça – prosseguiu ela, com expressão séria. – Vou lhe dizer a verdade. Eu me dou bem com a família de Kevin e com as outras mulheres que trabalham aqui, mas há eras não tenho uma amiga íntima e estou sentindo falta de uma. Conhece minha história, portanto sabe que posso me dar o luxo de torrar uma grana sem ter de explicar como a consegui. Estou disposta a uma boa maratona de compras. Além disso, quase não usei meu cartão de crédito nos últimos tempos. – Não sei. – Beth não achava justo. – Não há maneira delicada de lhe dizer isto, então serei objetiva. Eu poderia comprar tudo que vendem no shopping, inclusive os carros zero quilômetro que costumam expor nos saguões e, ainda assim, não conseguiria sequer dar uma mordida nos juros dos fundos que possuo. – Beth não conseguia nem ao menos imaginar como seria ter tanto dinheiro. Comprar tudo que a agradasse sem precisar se preocupar em olhar o preço na etiqueta? Surreal. Paulie uniu as mãos em um gesto de súplica. – Ora, vamos esbanjar. Gastar um pouco do dinheiro da minha avó. Beth estava quase cedendo. Embora quisesse ser responsável e educada, recusando a oferta, não conseguiu conter a onda de euforia que a invadiu.


Há muito não tinha uma amiga íntima também. – Então apenas algumas calças compridas – decretou por fim. – E se os Kowalski organizarem um chá de bebê para mim, eu a proíbo de me dar outro presente. – Está bem. – Paulie conseguiu forjar um olhar inocente, mas não foi capaz de transmitir sequer um traço de sinceridade na voz. – Estou falando sério. Apenas algumas calças compridas. Duas. – Está bem. APESAR DA incapacidade de Kevin em pisar fundo no acelerador, como costumava fazer, o grupo de homens conseguiu chegar à cidade a tempo do jantar. Optaram pelo bar de costume, frequentado por pilotos de snowmobile, onde ninguém se importava com jaquetas e macacões pendurados por todos os cantos. Todos pediram bifes. Não aqueles servidos em redes de lanchonetes, mas bifes de primeira. Beth deveria estar no trabalho, pensou Kevin, encarando a cerveja à sua frente com olhar melancólico. De pé durante a maior parte da noite, servindo bandejas de comida e oferecendo café nas mesas. Como a gravidez ainda não era aparente, por certo ninguém a aliviaria do trabalho pesado. – Kevin. – Ele ergueu a cabeça de modo abrupto ao ouvir a voz do pai, envergonhado por ter sido surpreendido em seu momento triste. – Que diabos há de errado com você? – Estou em uma situação delicada com uma mulher. Mike suspirou. – Está se referindo a outra, além da quase desconhecida que engravidou? – Você é tão engraçadinho! – Kevin tomou um grande gole de cerveja. – Estou falando sério. – Deveria conversar com sua mãe – sugeriu Leo, dando-lhe palmadas leves no ombro. – Ela é perita em situações delicadas. – Mamãe não está aqui. Vocês estão. E foi você quem perguntou. – Então, desembuche. – Joe inclinou-se para trás na cadeira e cruzou os braços. – Mas não nos culpe se não gostar dos conselhos. – Precisaremos de mais cervejas. – Evan gesticulou para a garçonete e pediu mais uma rodada. – Estou casado com sua irmã há tanto tempo que me tornei mestre em situações delicadas. Mike bufou.


– Terry? Delicada? – Não que ela seja delicada. Estava me referindo à experiência que tenho com situações delicadas, como andar pisando em ovos, se entende o que quero dizer. Quando todos haviam sido servidos com cervejas geladas e Joe com um refrigerante, Kevin encarou o rótulo da garrafa, imaginando por onde começar. – A questão é que... Beth é um pouco irascível. Todos caíram na risada e Mike foi o primeiro a se manifestar. – Cara, já a está achando irascível? Espere até ela não conseguir ver os próprios pés. Kevin fez uma bola com o guardanapo e a atirou no irmão. – Cale a boca, seu idiota. – Meninos! – Ao som da voz do pai, os dois calaram-se no mesmo instante. – Muito bem, Kevin, diga logo o que o está encafifando ou estaremos todos bêbados e incapazes de encontrarmos nossos próprios quartos quando concluir. – Beth é irascível no que se refere a aceitar qualquer tipo de ajuda. É muito independente e cheia de limites, portanto tenho de travar uma verdadeira batalha para convencê-la a aceitar qualquer pequeno auxílio de minha parte. – Isso não é necessariamente um defeito – opinou Evan. – Muitas mulheres no lugar dela estariam lhe sugando todo o sangue. Pedindo até mesmo pensão na justiça. – Talvez o sistema judicial me ajude a convencê-la a se amigar a mim. Como era de se esperar, o comentário suscitou uma nova explosão de risadas que se prolongou indefinidamente. Por tempo suficiente para que Kevin tomasse um terço da garrafa de cerveja. Então Leo teve um ataque de tosse, que Mike e Joe tentaram interromper dando-lhe palmadas fortes nas costas. – Está tentando me matar, Kevin? Se amigar? Bem-vindo ao século XXI, filho. – E que nome daria? Beth não pode ficar de pé, quase o dia todo, servindo mesas. Quero que ela peça demissão do emprego e me deixe sustentá-la, mas ela quase começou a Terceira Guerra Mundial quando lhe comprei um telefone celular.


– As mulheres costumam trabalhar até a data provável do parto – disse Mike. – Até mesmo as garçonetes. Após o parto, entram de licençamaternidade não remunerada e depois retornam ao trabalho. Kevin não queria que ela voltasse a trabalhar em algo tão exaustivo e com carga horária extensa. Beth já estava dando sinais de se cansar com facilidade e ainda se encontrava nos primeiros meses de gravidez. Se somasse a isso o histórico de abortos espontâneos da mãe, teria razão suficiente para justificar que ela não se esforçasse tanto. – Se Beth trabalhasse em um escritório ou algo do gênero, não teria problema, mas ela não tem tempo sequer de se sentar, exceto no intervalo. – Ela disse que não quer trabalhar? – perguntou Joe. – Não. Beth faz questão de cuidar de si mesma. Nunca lhe ocorreria essa possibilidade. Evan deu-lhe uma palmada nas costas. – Sem dúvida está envolvido em uma situação complicada, Kowalski. Uma mulher que fez sexo com você, mas não aceita presentes ou o seu dinheiro? – Quer ela goste ou não, é meu dever tomar conta dela. – Gosta tanto assim dessa mulher? – perguntou Joe. – Claro que gosto. É a mãe do meu filho. Leo fez que não com a cabeça. – Isso quer dizer que tem responsabilidades com o bebê, não com a mãe. Se Beth não quer sua ajuda, o problema é dela. Aquilo não fazia sentindo algum, mesmo após mais alguns goles de cerveja. Por que Beth não queria que ele a ajudasse? O que fosse benéfico para ela, também seria para o bebê. Balançar dentro do ventre durante boa parte do dia enquanto a mãe servia hambúrgueres não era saudável para a criança. Portanto, para o bem do filho que estava esperando, ela devia pedir demissão do emprego de garçonete. – Sabe o que precisa fazer? – disse Mike. – Se soubesse, acha que estaria pedindo conselhos a um bando de idiotas? Com exceção de você, pai. Estou me referindo a estes outros, sentados à mesa. – Não interessa – disse Mike, inclinando-se para a frente como se estivesse prestes a revelar a chave do enigma feminino. – Tem de oferecer um emprego a ela.


– Servir mesas no Jasper’s todas as noites não seria muito diferente do que ela faz agora. – Não estou me referindo a servir mesas e sim a serviços administrativos. Inventários e afins. Ela cursou administração de empresas na faculdade. Não se formou, mas conhece esse tipo de serviço. Aquela informação era novidade para Kevin. – Como diabos sabe o que Beth cursou na faculdade? – Lisa me contou. – E como Lisa soube? – Não tenho a menor ideia. Acho que Beth lhe contou. Ou contou a Paulie que contou a Terry que contou para nossa mãe que contou para Lisa. Sabe como funciona. Kevin considerou a sugestão de Mike por algum tempo, mas achou que não daria certo. – Beth sabe que administro o bar há dois anos sem nenhuma dificuldade. Se desconfiar que estou tentando fazer isso para poupá-la, recusará. – Então trate de convencê-la de que precisa de ajuda. Faça algo errado. Perca alguns documentos. Fique sem algum produto no estoque. Erros desse tipo. Evan estava concordando com um gesto de cabeça. – Tem de ser inteligente. Acredite no que estou dizendo. Não há mulher mais cabeça-dura no planeta do que Terry. – Puxou à mãe – disse Leo. – Eles têm razão. Nada é capaz de satisfazer mais uma mulher do que pensar que um homem não pode sobreviver sem ela. – Tem certeza que quer fazer isso? – perguntou Joe, e todos gemeram. Como irmão mais velho, ele sempre sentia necessidade de ser a voz da razão. Uma qualidade que não agradava em nada aos irmãos e ao cunhado. – Beth já está morando em um apartamento seu. Agora quer lhe arranjar um emprego quase fictício. Torná-la dependente de você é um grande passo. Sim, era, e Beth teria detestado ouvir Joe colocar a situação naqueles termos, mas Kevin estava convencido de que era o melhor a fazer. Pelo bem do bebê, claro. E não por não pensar em nada mais agradável do que trabalhar ao lado de Beth todos os dias. A garçonete serviu os bifes, mas Joe se achou na obrigação de acrescentar:


– Famílias não são como artêmias salinas, que você joga na água e vê se proliferarem como mágica. O fato de terem gerado um bebê não quer dizer que Beth seja a mulher ideal para você e vice-versa. – Eu sei. – Kevin enfiou um pedaço de bife na boca para não se ver obrigado a acrescentar mais nada. De fato sabia, mas também estava ciente do tempo que passava pensando em Beth. Desejando beijá-la quando estavam juntos ou contando os minutos para que ela voltasse quando se ausentava. Das horas que via se escoarem, virando de um lado para o outro na cama e imaginando como seria acordar todas as manhãs com Beth ao seu lado. Não podia justificar todos aqueles sintomas apenas pelo fato de ela estar esperando um filho seu. Estava quase certo disso. APÓS QUATRO horas e sete viagens pelo elevador, Paulie jogou-se ao lado de Beth no sofá e gesticulou com uma das mãos na direção das sacolas de compras. – Será que nos lembramos de comprar calças compridas? – Acho que sim. – Beth parecia exausta, embora tão feliz quanto ela. – Ainda não consigo acreditar que a deixei me convencer a comprar tudo isto. É muita roupa. Paulie não concordava. Alguns dólares era um preço pequeno a pagar pela tarde maravilhosa que tivera. – Amei cada segundo do nosso programa. Opa! Beth parecia mais uma vez prestes a chorar. Malditos hormônios da gravidez. – Obrigada, Paulie. Eu…“Obrigada” parece tão pouco! – De nada. E feliz chá de bebê adiantado. – Ela se levantou antes que a choradeira começasse. – É melhor eu descer e ver como Randy está se saindo. Essa é a primeira vez que ele assumiu o comando do bar. Além do mais, não há a menor possibilidade de eu ficar aqui para arrancar as etiquetas de todas estas roupas. Paulie conseguiu sair do apartamento antes de desencadear outro mar de lágrimas movido a hormônios. Passou no próprio apartamento para tomar um iogurte e seguiu para o bar. Não parecia muito cheio, mas o grupo de frequentadores assíduos estava presente. Nada que Randy não


conseguisse dar conta. Ela acenou para o rapaz, conversou com alguns dos clientes por uns minutos e voltou a subir. Retornaria na hora do jantar, enquanto isso, aproveitaria para ver um filme. Primeiro, ligou o laptop, irritada ao se descobrir prendendo a respiração enquanto conferia os e-mails. E lá estava, a mensagem enviada por S. T. Logan. Não poderia ter ficado mais feliz em encontrá-la, embora fosse ridículo. Afinal, não havia futuro naquele relacionamento. Nem se tratava de um relacionamento. Era apenas um flerte destinado a levá-los a lugar nenhum, porque a razão pela qual o deixara ainda existia entre ambos. Ainda assim, Paulie não conseguiu conter a expectativa enquanto clicava para abrir a mensagem. Lembra-se do dia em que deixamos de comparecer a um banquete e dirigimos pelas montanhas de New Hampshire, com a capota do carro arriada, para ver a mudança das cores da folhagem do outono? Sob a luz do sol, rindo e tentando afastar o cabelo do rosto, você era a mulher mais linda que eu já havia visto. E ainda é.

Como poderia esquecer aquele dia? Haviam faltado ao banquete, fugindo da agenda social e das responsabilidades, para fazerem uma viagem de carro pela Kancamagus Highway até encontrarem um acostamento que dava vista para uma explosão de cores outonais flamejantes. Sam a beijara, esquecendo do mundo, enquanto o sol baixava lentamente por trás das montanhas. Paulie se recordava de ter desejado que continuassem a ir para o Norte, deixando tudo para trás. Mas, como sempre acontecia com Sam, os negócios e o dever se encarregaram de lançar uma manta de realidade sobre o cenário idílico, reduzindo aquele dia a uma lembrança prazerosa. Quando Paulie sugerira que repetissem passeios como aquele, Sam alegara estar atolado em compromissos profissionais. E quando o pressionara, ouvira um sermão. Ele argumentara que não podia atirar tudo para o alto apenas para atender aos seus caprichos. Afirmara ter responsabilidades. A mão de Paulie pairou sobre o mouse, pronta para clicar no ícone “responder”, mas não sabia o que escrever. Haveria algum sentido em encorajá-lo? Se aceitasse o flerte de Sam, acabariam na cama. E se isso acontecesse, ele pressionaria para irem além do sexo. Essa era a natureza de Sam. O celular de Paulie tocou e número do bar apareceu no identificador de chamadas. – Alô?


– Olá, Paulie. – Era Darcy. – Estamos com uns arruaceiros em uma das mesas e os olhares de Randy não os deixaram impressionados. – Vou descer agora mesmo. – Ela fechou o laptop, feliz com aquela prorrogação. Lidaria com Sam mais tarde.


CAPÍTULO 14

KEVIN VOLTARIA para casa em breve. Aquele pensamento somado à expectativa de comer um hambúrguer do Jasper’s era tudo que mantinha Beth de pé durante as longas sete horas. O filho de uma das outras garçonetes estava doente, portanto concordara em trabalhar no turno diurno, mesmo em seu dia de folga. Abrir às 6h fora difícil o suficiente e agora se encontrava nos últimos minutos da agitação da hora do almoço. A caixinha de gorjetas estava repleta, mas a dor nas costas e nos pés não lhe dava trégua. E para piorar a situação, o gerente fizera comentários ásperos sobre prioridades e instabilidades das mães solteiras, porque aquela era a segunda vez em um mês que uma garçonete faltava. Sem contar com os olhares ao seu ventre ligeiramente avantajado que a deixaram nervosa. Agora que se sentia bem mais grávida, estava se dando conta de que trabalhava em um estabelecimento que não via a maternidade com bons olhos. O que significava que, se não mantivesse o cansaço e as dores em segredo e não estampasse um sorriso no rosto, acabaria sendo demitida. Mas refletir sobre a possibilidade da ruína financeira não contribuiria em nada para sustentar o sorriso forçado, portanto Beth tratou de afastá-la da mente. Kevin lhe dissera que chegaria em casa à noite, mas talvez não cedo o suficiente para o jantar, o que lhe proporcionaria tempo para um banho quente e demorado e um cheeseburger antes de ele chegar. Quando a encontrasse com as forças restauradas, Kevin não teria oportunidade de reclamar por ela ter passado um dia exaustivo e estressante.


Ao final do expediente, Beth vestiu um casaco grosso de inverno e se dirigiu ao Jasper’s. Entrou pela porta dos fundos, para não se deter conversando com Paulie, Darcy ou até mesmo Randy, se ele estivesse em um de seus dias de tagarela. O banho a revigorou, assim como vestir um de seus novos trajes de gestante: um vestido rosa claro com um suéter branco por cima. O tecido macio e a cor alegre lhe devolveram o ânimo. Faltava-lhe apenas um cheeseburger com bacon e Kevin para ficar cem por cento. Não que necessitasse de Kevin para se sentir completa. Seria apenas agradável tê-lo de volta e parar de se preocupar com ele. Afinal, tratava-se do pai de seu filho. Era supernatural que ficasse apreensiva com a possibilidade de Kevin se envolver em um acidente. Ou assim disse a si mesma enquanto entrava no elevador. Não podia ser uma questão de sentir o som da voz grave, do toque ou do modo como Kevin olhava para ela, porque isso significaria que estava se apaixonando por ele. Havia pessoas no corredor quando o elevador chegou e Beth percebeu que se tratava de Terry, Lisa e Keri, envolvidas em uma discussão acalorada sobre as três caberem no elevador. Keri foi a primeira a notá-la. – Olá! Estávamos subindo para arrastá-la para cá e fazê-la jantar conosco, mas ponderávamos sobre a possibilidade de estarmos despencando para a morte. – Acho que não é possível despencar para a morte em um prédio de apenas três andares – interveio Terry. – Sofrer uma queda, sim. Despencar para a morte? Não. Como costumava fazer viagens constantes naquele elevador, Beth não gostaria de se deter no assunto. – Então vocês estavam indo jantar? – Não, nós todas vamos jantar – corrigiu Keri. – Um último grito de liberdade antes de nossos homens voltarem. Telefonamos com antecedência e Paulie nos reservou uma mesa. Poderíamos ter escolhido outro restaurante, mas ouvimos dizer que está em uma relação monogâmica com os hambúrgueres do Jasper’s. As risadas daquelas mulheres eram alegres e espontâneas e Beth juntouse a elas. Julgando-as pela aparência, todos pensariam que não tinham nada em comum. Keri, com seu cabelo louro e uma elegância cosmopolita


residual. Lisa, a mãe de quatro filhos de estatura baixa e cheia de energia. E Terry, com o mesmo tom de olhos azuis e covinhas dos irmãos, embora não fosse tão arruaceira quanto os homens da família. Um trio inigualável que estava mais do que disposto a recebê-la para compor um quarteto. Era agradável ter Paulie e as mulheres Kowalski em sua vida. Não havia se dado conta do quanto o nomadismo a privara de amizades até encontrá-las. Não que fossem o tipo de amigas a quem poderia confiar seus problemas em relação a Kevin, porque elas o apoiariam em detrimento dela. Mas ainda assim, era agradável. Todas pediram hambúrgueres com batatas fritas e Darcy lhes trouxe refrigerantes em copos congelados. A conversa começou com os filmes que estavam passando no cinema, cuja maioria Beth não assistira e sobre o cruzeiro de lua de mel de Mike e Lisa. Em seguida, o tópico mudou para os filhos e a dúvida se iriam sobreviver às férias de inverno que começavam naquele dia. Durante todo o tempo, Beth olhava para o relógio, desejando que Kevin tivesse sido mais específico sobre a hora que iria chegar. – Olha para estas duas – disse Terry a Lisa, gesticulando a mão na direção de Beth e Keri. – Contando cada minuto no relógio. Beth corou, mas Keri limitou-se a soltar uma risada. – Acertou em cheio. Joe e eu estamos planejando fazer mais alguns bebês, o que não acontecerá com ele a duas horas de distância. Portanto, é melhor Joe voltar logo para apagar meu fogo. Felizmente, a atenção das outras mulheres foi desviada para Keri. Beth tomou um gole do refrigerante, esperando que o rubor do rosto se dissipasse. Fora acometida por aquele mesmo tipo de fogo e, às vezes, era difícil se lembrar de uma razão para não permitir que Kevin o apagasse. Terry negou com a cabeça. – Acredite em mim, daqui a alguns anos estará ansiosa para que ele fique fora de casa por alguns dias para que possa relaxar, lendo um livro, com uma calça de moletom bem larga. Embora seja bem mais fácil quando os filhos estão com idade suficiente para deixá-la em paz por alguns minutos. Por fim, vocês estarão fazendo as malas deles, podem acreditar. Beth ficou tentada a responder que sua situação era diferente, que elas se referiam a ter o marido fora de casa durante um fim de semana prolongado. Em seu caso, fora um vizinho que partira. E, claro, quando o filho fosse mais velho, sentiria falta do pai quando ele estivesse viajando. Mas não era o mesmo caso.


No entanto, achou melhor não dizer nada. Primeiro porque não tinha certeza do que Kevin dissera à família sobre a natureza do relacionamento dos dois. E segundo porque, para ser sincera, não sabia se estaria sendo honesta. Podia tentar se convencer do que quisesse, mas a verdade era que Kevin representava mais do que um amigo ou vizinho. Até mesmo mais do que o homem que gerara um filho com ela. Ansiava por ele da mesma forma que uma pessoa em dieta rigorosa cobiçava um pedaço de bolo de chocolate. Com sorvete. E chantilly. E talvez um pouco de calda de chocolate quente. Mas, assim como qualquer pessoa em dieta, Beth sabia que, embora o bolo de chocolate fosse delicioso, pecaminoso e a fizesse se sentir nas nuvens, não significava uma boa escolha. E se havia algo que ela possuía de sobra era força de vontade. Nada de bolos de chocolate ou Kevin, para ela. KEVIN APRESSOU-SE o máximo que pôde para chegar em casa, sem correr o risco de ser ridicularizado pelos irmãos e o cunhado. Ou chegar à casa de Beth do outro lado do corredor, já que ela era cabeça-dura e não concordava em dormir com ele. A probabilidade de convencê-la a morarem juntos era quase nula. Por não dispor de uma garagem no Jasper’s, Kevin deixou o snowmobile em seu reboque fechado junto ao do pai e voltou à estrada. Vinte minutos mais tarde, havia tomado um banho e batia à porta de Beth. Um sorriso lhe curvava os lábios quando ela atendeu e o afeto naqueles olhos castanhos era toda a acolhida de que Kevin precisava. – Olá. – Oi – respondeu ele, deixando o olhar vagar pelo corpo de Beth, oculto por um vestido rosa longo com um suéter desabotoado por cima, que lhe pareceram novos. E havia uma discreta saliência onde antes existia um abdome reto. Uma visão deslumbrante. – Deus! É o bebê. Beth pousou a mão sobre o ventre e um sorriso tímido curvou-lhe os lábios. – As roupas de gestante fazem o abdome parecer maior do que está. Paulie me levou para fazer compras. Como presente de chá de bebê


adiantado. Em um canto obscuro da mente de Kevin, uma voz não muito satisfeita quis saber por que Beth aceitava presentes de Paulie e não dele. Mas resolveu ignorá-la por ora, porque o mais importante no momento era aquela graciosa saliência sob a mão de Beth. Um bebê. Não a ideia de um bebê que lhe trazia à mente lembranças dos sobrinhos quando pequenos, mas de um filho seu: real e grande o suficiente para ser visto... Ou quase isso. Beth afastou-se para que ele entrasse, forçando-o a desviar o olhar de seu ventre. – Ouvi você chegar e estava imaginando se viria aqui. – Tomei um banho rápido. Estava impregnado do cheiro de escape de moto e suor. Beth fechou a porta. – Foi divertido? – Sim, mas senti sua falta. Está tudo bem? – Ótimo. – Um leve rubor corou o rosto de Beth. – Também senti sua falta. Interessante. – Pensei que ficaria feliz em se livrar de mim por alguns dias. – Também pensei, mas fiquei preocupada que pudesse se envolver em algum acidente. Isto me fez pensar em você e sentir sua falta, eu acho. Aquele era um grande… não, um enorme risco, mas Kevin inclinou a cabeça e a beijou. Por um instante, a tensão a fez enrijecer o corpo, mas logo a boca de Beth tornou-se macia e receptiva sob a dele. Kevin mudou de posição para acabar com a pouca distância que restava entre eles e, quando lhe invadiu o interior da boca com a língua, sentiu as mãos delicadas escorregarem por sua cintura e lhe pressionarem a costas. Temendo interromper o beijo e quebrar o clima romântico, Kevin prolongou-o ao máximo, até sentir o corpo macio se colar ao dele e um gemido ansioso escapar da garganta de Beth enquanto ela lhe cravava as unhas na pele. Sentindo a resposta ávida do próprio corpo, ele pressionou os quadris aos dela para fazê-la ciente do quanto sentira sua falta. Do quanto a desejava. – Bolo de chocolate – sussurrou ela contra os lábios de Kevin. – Está bem – disse ele, imprimindo uma trilha de beijos quentes ao longo da mandíbula delicada, tentando não perder aquele momento precioso. –


Este é um daqueles desejos de grávida, porque… sinceramente. Agora? Quero dizer, posso ir buscar, mas talvez demore até conseguir andar direito. – Não, você é meu bolo de chocolate. – Quando os lábios ávidos se moveram para o pescoço de Beth, ela inclinou a cabeça para trás. – É como estar de dieta e você ser um bolo de chocolate. Estou louca por um pedaço. Quando a compreensão o atingiu, ele sentiu todo o sangue do corpo se concentrar na virilha. Beth estava grávida, portanto não poderia ficar mais grávida. Nunca na vida fizera sexo sem preservativo. Vicky não desejara filhos logo no início do casamento, o que acabara por se provar uma dádiva, e também não podia usar anticoncepcionais. Portanto, mesmo durante o tempo de casado, tivera de deixar abastecido o estoque de preservativos. Mas Beth estava grávida, era saudável e ele também. Além do mais, se ela o fizesse parar agora, seria capaz de entrar em combustão espontânea. – O problema – começou ela enquanto inclinava a cabeça para trás para lhe facilitar o acesso. – É que já o provei. E constatei que você não é apenas um pedaço de bolo de chocolate passado, mas sim um bem fresquinho, coberto com chantilly e calda de chocolate quente. Kevin escorregou a mão sob o suéter para lhe tocar o seio sobre o tecido do vestido. – Um pedaço não lhe fará mal algum. – Um pedaço – concordou ela enquanto Kevin lhe retirava o suéter, ávido por descobrir se o vestido tinha zíper ou não, mas as mãos delicadas lhe emolduraram o rosto e o forçaram a encará-la. – Apenas um pedaço. Kevin entendeu o recado. O sexo não mudaria a situação entre os dois, mas ele não deixou que aquilo o desencorajasse. Um pedaço, depois outro. Mais cedo ou mais tarde teria comido todo o bolo de chocolate. Sorrindo, Kevin retirou a camiseta pela cabeça e a guiou na direção do quarto. – Se vamos comer apenas uma fatia, devemos aproveitá-la ao máximo. E a saboreou como se fosse o último pedaço de bolo de chocolate que comeria na vida. Detendo-se a escorregar a língua sobre a pele quente e macia de Beth, provando seu sabor, mordendo-a de leve até que ela arqueasse as costas e lhe socasse o ombro. – Não aguento mais.


Ao menos fora isso que Kevin pensou ouvir. A respiração dela estava ofegante, portanto a voz saíra quase indistinta. Ele recuou os lábios que lhe sugavam o mamilo, embora mantivesse uma das mãos entre as coxas macias. – Quero garantir que você nunca mais comerá um pedaço de bolo de chocolate de verdade sem se lembrar de mim. – Já basta você ter arruinado as chances de eu gostar de outros homens, agora quer fazer o mesmo em relação aos doces também? Ouvir aquela confissão quase o fez atingir o clímax, mas Kevin encurtou as rédeas do autocontrole e a fez suplicar mais algumas vezes, antes de ceder e dar o que Beth desejava. Ou melhor, o que ambos desejavam. Penetrá-la sem proteção, apenas carne contra carne, era, de longe, a mais extasiante sensação que Kevin já experimentara. Tão incrível, que o fez parar de se mover dentro dela, para apenas pairar sobre Beth, sustentando o peso do corpo nos cotovelos. Infelizmente, pelo que tudo indicava, devia tê-la excitado muito, porque ela não parecia querer perder tempo. Enterrando os dedos em seus quadris, Beth tentou fazer com que voltassem a se mover, mas ele resistiu, determinado a manter o controle, antes de escorregar mais um centímetro para dentro dela. Quase de modo simultâneo ela ergueu os quadris, com um sorriso lhe curvando os lábios, abrigando-o por completo e levando-o à perdição. Mais algumas investidas fortes. Alguns segundos de fricção e Kevin entregou-se a um clímax arrebatador, levando-a consigo. Lutando por ar, ele se apiedou dos músculos trêmulos do próprio corpo e colapsou, escorregando para o lado de modo a não comprimir o abdome de Beth. – Uau! – Hum. – O bolo estava bom? – Sim. Kevin deitou-se de lado e ela se acomodou até que estivessem na posição de conchinha. Ambos ainda tentando recuperar o fôlego. Havia mais a dizer, mas a maciez e a complacência do corpo recostado ao dele não o encorajou a abrir a boca por medo de dar voz a todos os seus sentimentos e vê-la sair correndo, gritando, desesperada. Por ora, só queria abraçá-la.


DEITADA DE conchinha com Kevin, sentindo o calor daquele corpo musculoso nu, ela tentou não permitir que as primeiras pontadas de arrependimento arruinassem aquele momento. Quando o braço forte a envolveu pela cintura, de modo que a mão de Kevin pousasse sobre a leve protuberância de seu ventre, um sorriso lhe curvou os lábios. Apesar de saber que não deviam estar deitados nus, de ter visto a força de vontade evaporar no instante em que abrira aquela porta, Beth estava determinada a aproveitar o momento. Kevin esfregou o rosto no espesso cabelo castanho. – Se eu for andar de snowmobile amanhã, promete que vamos repetir isto à noite? Beth não queria conversar sobre amanhã à noite ou sobre qualquer outra noite, porque os motivos pelos quais ela se opunha à ideia de dormirem juntos ainda eram válidos, mesmo que, por instantes, esquecidos. Deixando escapar um som indistinto da garganta, ela evitou responder. O silêncio prolongou-se por tanto tempo que, se já não soubesse que Kevin roncava, pensaria que ele adormecera. Além disso, a mão forte lhe acariciava o ventre com suavidade, de uma forma distraída, como se ele estivesse perdido em pensamentos. Talvez refletindo sobre o bebê ou sobre o fato de que acabaram de fazer sexo, apesar de sua determinação em não ir para a cama com ele. – Quase posso sentir as engrenagens se movendo em seu cérebro – murmurou ele, contra o cabelo macio. – Quanto tempo me resta antes ser expulso? – Alguns minutos. – Beth girou até que o encarasse. – Estou tentando curtir o momento antes de lembrar a você, e a mim mesma, de todas as razões pelas quais não podemos fazer isto. A expressão séria de Kevin era indicação de que poderiam acabar tendo a velha discussão que ela queria evitar, portanto Beth preferiu deslizar um dedo pela discreta saliência do nariz dele. O gesto o fez sorrir. – Vá em frente. Pergunte como o quebrei. – Tenho certeza que foi em algum tipo de divertimento radical da família Kowalski. – Família, sim. Divertimento… Nem tanto. Joe era alcoólatra. Um dia, eu o surpreendi quando estava prestes a pegar o carro para dar um passeio, bêbado como um gambá. Ele quebrou meu nariz, mas não conseguiu pegar a chave do carro.


– Não consigo imaginar Joe agindo dessa maneira. Ele parece tão... Não parece capaz de uma atitude como essa. – Beth sabia que os irmãos Kowalski costumavam ser violentos em suas brincadeiras, mas aquele era um assunto sério. – Deve ter levado um bom tempo para perdoá-lo. – Não muito. Aquele foi o momento crucial que o fez decidir parar de beber, então, valeu a pena. Além disso, é um traço irregular que me impede de ser lindo demais. Por mais que os Kowalski fossem unidos, deveria ter sido mais doloroso do que ele tentava fazer parecer, entretanto Beth não se aprofundou no assunto. – Deus o impediu de ser lindo demais. Caso contrário, imagine a quantidade de guardanapos que seriam gastos no bar. – Apenas um guardanapo me interessa. Um com a impressão de seus lábios e um pedido para que eu faça coisas inimagináveis com você na cama. Beth soltou uma risada e empurrou os ombros dele. – Eu já te disse que isso nunca vai acontecer. – A esperança é a última que morre. Beth estava prestes a reiterar o quanto aquela esperança era vã quando o bebê chutou. Não apenas um formigamento leve, como o roçar das asas de uma borboleta, mas um chute de verdade. Sem pensar, segurou a mão de Kevin e a pressionou com suavidade sobre aquele ponto. Ele pareceu congelar e, instantes depois, Beth reconheceu a euforia que lhe iluminava o semblante ao sentir o bebê chutar outra vez. Seguiram-se outros movimentos, esporádicos e mais suaves, até que o bebê pareceu se acalmar. Com um sorriso largo nos lábios, Kevin beijou-lhe a testa. – Ele está agitado esta noite. – Claro que ela está. Ambos permaneceram em silêncio por mais alguns minutos. Beth descobriu-se contente em ter a cabeça pousada no braço musculoso e o rosto recostado ao peito largo. Mas logo o sentiu relaxar e ouviu a respiração de Kevin se tornando cadenciada. Aquilo foi o suficiente para que ela se afastasse. Por mais que desejasse, não podiam dormir juntos. – Está na hora de você ir embora.


Kevin gemeu e se espreguiçou, ainda deitado de costas. – Está falando sério? – Sem dúvida. – Ela puxou o lençol e o prendeu sob os braços. – Tive um dia cansativo no trabalho e preciso dormir. Os músculos da mandíbula de Kevin se contraíram, mas o tom da voz grave se manteve leve enquanto ele saía da cama. – Não acredito que está me obrigando a sair pelos corredores, dando toda a pinta de que acabamos de fazer sexo. – Só se tivesse dormido aqui e saído com a mesma roupa que entrou no dia anterior. Na verdade, estou te poupando de passar essa vergonha. – Ora, muito obrigado. Isto é muito melhor do que dormir abraçado a você no delicioso confinamento desta cama. Por mais que a ideia fosse tentadora, ela sabia que dormir nos braços de Kevin e acordar ao seu lado na manhã seguinte tornaria mais difícil, para não dizer impossível, manter as rédeas daquele relacionamento. Já bastava o fato de não ter resistido ao bolo de chocolate. Mas acordar com todo o carrinho da sobremesa ao lado tornaria impossível manter a dieta. Não que não estivesse sentindo certo arrependimento ao vê-lo se vestir. Ou quando o viu olhar para o espaço vazio da cama e deixar escapar um suspiro profundo. Mas a decisão original de permanecerem apenas amigos ainda lhe parecia a mais correta, por isso, não cedeu. – Tem certeza de que quer que eu vá embora? – perguntou ele, oferecendo uma última tentação. – Posso me despir em dez segundos. Não. Não tinha a menor certeza. – Tenho. Kevin deu de ombros como se achasse que ela é quem estava perdendo com aquela decisão, mas a tristeza que enevoava aqueles olhos azuis era inconfundível. – Boa noite, então. – Boa noite. Ah… Kevin? Feche a porta quando sair. A risada que ele deixou escapar enquanto saía pela porta do quarto a fez se sentir um pouco melhor, porém, por mais que estivesse exausta, Beth ainda levou algum tempo para pegar no sono.


CAPÍTULO 15

NADA COMO um grande jogo na noite de sexta-feira para atrair uma multidão, pensou Kevin, satisfeito, enquanto servia mais uma caneca de cerveja. O bar estava lotado, o clima espetacular e o dinheiro transbordando como ouro líquido. E Sam Logan estava de volta, sentado na mesa de sempre. Kevin não sabia dizer se aquele era um ponto positivo ou negativo, mas talvez arrancasse Paulie do desânimo em que se encontrava nos últimos tempos. Estava disposto a repor alguns copos quebrados se isso significasse tirá-la daquele estado catatônico. Não podiam se dar o luxo de ficarem deprimidos ao mesmo tempo, e Kevin ainda não se recuperara do próprio desânimo. Beth tornara a reduzilos à condição de amigos. E sem regalias. Não, haviam retrocedido ao modo vizinhos que por acaso teriam um filho juntos. Quando tentara conversar com Beth, antes de ela sair para o trabalho, tudo que conseguira fora um sorriso forçado e a desculpa de que estava atrasada, mas que talvez os dois se esbarrassem mais tarde. Com a conversa adiada, restou-lhe apenas refletir sobre o que teria dito. Agora que conseguira colocar alguma distância entre ele e os homens maquiavélicos de sua família, estava começando a pensar que bolar uma estratégia para convencer Beth a trabalhar no Jasper’s não era uma boa ideia. Não sabia mentir com facilidade e, se ela lhe percebesse a intenção, estaria perdido. Melhor seria respeitar a inteligência de Beth e usar de sinceridade. Era uma proposta sensata, feita por uma razão não menos sensata. Portanto, como poderia ofendê-la?


Bem, o momento não era o mais adequado. Como Beth parecia achar que ele a sufocava, tentar se tornar seu patrão, além de senhorio e pai do filho que ela estava esperando, alguns dias após terem feito sexo, era a fórmula perfeita para o fracasso. Mas não queria que Beth passasse o dia todo em pé, droga! Então tudo o que tinha a fazer era argumentar de maneira racional e esperar que Beth não tirasse todo tipo de conclusões insensatas daquela oferta. Darcy ergueu a bandeja de bebidas que ele havia preparado. – Fique de olho na mesa 12, chefe. Kevin ergueu a cabeça, olhando naquela direção, e arqueou uma das sobrancelhas. Um cliente estava se engraçando para Paulie e ainda não tivera a cabeça decepada. Estranho. Talvez a presença de Sam não tivesse conseguido arrancá-la do estado catatônico como ele pensara. Kevin desviou o olhar para a mesa de Sam. O cara estava com os olhos grudados na mesa 12 e as mãos cerradas em punhos. Ele podia ter nascido em berço de ouro, mas parecia um daqueles lutadores de gangue de rua. Aquele não era um bom sinal. Nem de longe. Conseguindo atrair a atenção de Paulie, gesticulou para que ela voltasse para o balcão. – Sam não está nada satisfeito com a mão daquele cara no seu traseiro. – Então ele pode se juntar ao clube. Aquele cliente pode estar gastando uma fortuna neste bar, mas, se me tocar outra vez, vou espatifar uma garrafa de cerveja na cabeça dele. – Se ele a tocar outra vez, terei de pagar fiança para libertar Sam da cadeia amanhã. Naquele instante, Paulie olhou para a mesa do ex-noivo, mas foi o suficiente para fazê-la contrair a mandíbula. – Não é da conta dele quem coloca a mão no meu traseiro. – Aposto que ele pensa muito diferente. Paulie limitou-se a revirar os olhos e se afastar. Kevin voltou aos seus afazeres no balcão, mas se manteve atento à mesa 12. O clima no bar era pacífico, mas podia sentir pela vibração no ambiente que bastaria um soco para que o caos se instalasse com rapidez. Como era de se esperar, 15 minutos mais tarde, o esbanjador da mesa 12 envolveu os quadris de Paulie com um dos braços e tentou forçá-la a se sentar no seu colo. Quando o restante do conteúdo da caneca de chope que ele bebia escorreu pela cabeça dele, o homem se levantou da cadeira com um salto, urrando de indignação.


Kevin havia cruzado metade do caminho até a mesa 12, munido de um bastão de basebol, quando o idiota segurou Paulie pelos ombros e a sacudiu. Ela cambaleou para trás, mas não caiu. Não importava. O Jasper’s virou uma confusão. Além do simples fato de que um homem não devia agredir uma mulher, Paulie era querida pelos clientes regulares do bar. Infelizmente para o ocupante da mesa 12, Sam alcançou-o primeiro. Kevin podia estar segurando o bastão, mas não tinha intenção de agredi-lo. Sam, ao contrário, girou o homem na sua direção e lhe deu um soco certeiro no rosto. O homem dobrou-se como um guardanapo, mas os amigos logo se ergueram, prontos para defendê-lo. Um trio de estudantes atarracados da universidade local se lançou sobre os homens e a mesa quebrou sob o peso de dois amigos brigões do esbanjador. Kevin gritou, mas se alguém o havia escutado acima da gritaria, o ignorou. Como a mulher inteligente que era, Paulie refugiou-se atrás de uma dupla de trabalhadores braçais, capaz de trocar um pneu sem o auxílio de um macaco. Em outro canto do bar, mais uma pequena confusão se formou, sem nenhuma razão aparente, além da vontade de se juntarem ao clima. O homem da mesa 12 se ergueu e, se aproveitando do fato de Sam estar procurando por Paulie, conseguiu devolver o soco. Sam não caiu, mas devia ter ouvido sinos repicando no cérebro. Apenas o fato de outra pessoa atingir o arruaceiro da mesa 12 por trás o impediu de dar outro soco em Sam. Aproveitando a oportunidade, o ex-noivo de Paulie se recompôs e deu um direto de direita que fez o ocupante da mesa 12 oscilar. Quando Kevin viu um dos universitários erguer uma cadeira para usá-la como arma, não teve dúvidas. Uniu dois dedos entre os lábios e soltou um assobio capaz de ensurdecer todos que estivessem em um raio de 15 quilômetros. No mesmo instante, a multidão enfurecida congelou. – Não chamarei a polícia se acabarem com isto agora. Ainda desequilibrado, o ocupante da mesa 12 resolveu falar, apesar de o lábio inchado não o ajudar muito. – Qual é o problema desse cara? Kevin apontou o bastão na direção dele. – Dê o fora do meu bar. E se pisar aqui outra vez, com um só golpe virarei suas rótulas ao avesso e terá de comprar um sofá novo, porque suas pernas


vão dobrar para o lado contrário. O arruaceiro e os companheiros, que quase haviam virado picadinho nas mãos dos universitários, fingiram rosnar um pouco mais, embora se encaminhassem à porta, sem pagar a conta, claro. O Jasper’s teria que arcar com aquele prejuízo, juntamente com a mesa quebrada e alguns copos estilhaçados. Enquanto relocava alguns dos clientes em uma parte do bar ainda intacta, para que ele e Darcy pudessem começar a arrumar o estrago, Kevin avistou Paulie quase arrastando Sam na direção da porta que se abria para o corredor dos fundos. Era óbvio que saíra do estado catatônico, como o pobre homem em breve constataria. Quando o clima tornou-se mais calmo e todos haviam retomado seus lugares, Kevin pegou alguns baldes e trocou o taco de basebol por uma vassoura e uma pá de lixo. A tarefa braçal seria oportuna, porque lhe daria tempo de refletir em como conseguiria convencer Beth a trabalhar para ele. QUANDO SAM entrou, Paulie bateu a porta do apartamento com força e o empurrou na direção do sofá. – Você é um idiota. – Também senti sua falta. – Que diabos estava tentando provar lá embaixo? Sam recostou-se no sofá, observando-a vasculhar o freezer. Ela poderia ter trazido gelo do bar, mas estava tão empenhada em arrastá-lo ali para cima, antes que ele fizesse mais alguma tolice, que nem se lembrara. Encontrou um saco de batatas fritas congeladas que comprara quando estava com vontade de comer algo ainda mais degradante do que as batatas fritas frescas servidas no Jasper’s. Paulie atirou o saco na mão de Sam. – Coloque isto. Com todo o cuidado, ele pressionou o saco ao rosto e fez uma careta. – Doeu, sabia? – Tenho certeza que sim. Todo o lado direito do seu rosto está ficando roxo. – Não estou falando do soco. Bem, sim, o rosto também está doendo. Mas estava me referindo ao momento em que você me abandonou. Disse que se


soubesse que eu sofreria mais do que sentiria vergonha, nunca teria me deixado no altar. Doeu. – Seu orgulho, talvez – resmungou ela, porque preferia começar uma briga a se aprofundar nos sentimentos passados. Uma coisa era entrar no jogo de chantagem de Sam. Talvez saírem algumas vezes e fazerem sexo. Mas o fato de saber que ainda nutria sentimentos por ele, era uma surpresa desagradável. E saber que a recíproca era verdadeira, seria o pior cenário possível. Mais uma vez, Sam fez uma careta enquanto mudava o saco de posição. – Na verdade, foi mais do que dor. Fiquei arrasado. – Devolva meu saco de batatas fritas. – Ela tentou arrancá-lo das mãos de Sam. – Desça e suplique a alguém para lhe dar um pouco de gelo. Mas ele atirou o saco de batatas fritas para o lado e lhe segurou o punho. Antes que Paulie pensasse em reagir, encontrava-se deitada de costas no sofá com um corpo forte e musculoso a tornando cativa. – É esta sua forma cruel de dizer que não se importa comigo? – Se me importasse com você, não o teria largado no altar, certo? – Esta doeu! – Sam moveu-se e ela se forçou a ignorar quais partes daquele corpo quente e rígido roçavam as dela. Ao menos, tentou. – Você entrou em pânico, fugiu e eu passei os últimos cinco anos me amaldiçoando por ter ficado parado vendo você ir embora. Poderia tê-la alcançando antes que chegasse à porta. – Duvido. – Com aqueles saltos altos que estava usando? Seria como alcançar um zagueiro novato de terceira. – Um zagueiro novato de terceira não arremessaria um salto fino de sete centímetros no seu... Sam calou-a com a própria boca. Ela enrijeceu ao mesmo tempo em que soltava os punhos para pousá-los nos ombros largos na intenção de empurrá-lo. Mas quando as mãos tocaram os músculos familiares, deslizaram para as costas largas e o puxaram ainda mais para perto. Toda a tensão abandonou o corpo de Paulie enquanto cinco anos de desejo se incendiavam com aquele beijo. – Eu deveria ter ido atrás de você – sussurrou ele contra os lábios macios. – Não teria mudado nada.


– Teria mudado tudo. – Sam ergueu a cabeça para encará-la. – Você me amava. – Não se atreva. O que foi mesmo que me disse? Que você era um executivo de Boston e eu a garçonete safada que aguçou sua fantasia. É tudo que está acontecendo neste momento. Sam beijou-lhe o pescoço, logo abaixo do lóbulo da orelha. Há muito descobrira que toda a vez que estimulava aquele ponto a levava à loucura. – Está mentindo. Paulie trincou os dentes, tentando ignorar os arrepios deliciosos que lhe percorriam a espinha. – Nada. Mudou. – Tudo mudou. – Ele escorregou a língua naquele ponto sensível e soprou a pele molhada com suavidade. – Sei o que está querendo agora. – Quero este estilo de vida e não o seu. – Não estou tentando afastá-la da vida que está levando. Estou lhe pedindo uma chance de fazer parte dela. Paulie desejava desesperadamente acreditar no que ele dizia. Mas o problema não era saber se Sam Logan se encaixaria na vida de Paulie Reed, e sim se Paulie Reed se encaixaria na vida de Sam Thomas Logan IV. Por mais que ele pressionasse, Paulette Atherton não voltaria a existir. Sam beijou-a outra vez, um contato suave e terno que fez o coração de Paulie contrair-se no peito. Em seguida, ele a encarou. – Dê-me apenas uma chance. Sei que podemos fazer isto dar certo. Que droga!, pensou ela enquanto o puxava para outro beijo. Abandonarao uma vez e sobrevivera. Se a situação não tivesse mudado, como Sam afirmava, poderia repetir o feito. Uma das mãos longas escorregou entre os corpos de ambos para tentar lhe arrancar a blusa, mas Paulie segurou-lhe o punho. – Seu rosto não está dolorido? – Não tanto quanto o meu corpo de desejo por você. Não havia como resistir àquelas palavras, portanto ela mesma se encarregou de tirar a camiseta. – Deixe-me ajudá-lo. NÃO IMPORTAVA quantos cálculos Beth fizesse, não havia como parar de trabalhar antes de a bolsa d’água romper. Fora diligente em poupar cada


centavo que recebia, mas a gravidez era cara, mesmo pagando apenas metade das despesas médicas. Suplementos vitamínicos para gestantes e algumas pequenas adições ao guarda-roupa eram uma despesa extra, apesar de os presentes de Paulie terem sido de grande ajuda. Beth estava tentando se alimentar melhor, o que saía bem mais caro do que consumir comida de lanchonete. E tinha de esquecer os hambúrgueres do Jasper’s ou entraria em depressão quando desse à luz e tivesse de penar para se livrar do peso extra. Sem contar com o adorável cordeiro de pelúcia que não resistira a comprar, apesar de não estar em liquidação. Uma batida na porta a fez se sobressaltar, mas o rubor que se espalhou por seu rosto pouco tinha a ver com o susto e sim com a possibilidade de ser Kevin. Não sabia se era o excesso de hormônios ou de cheeseburgers em sua alimentação, mas nos últimos tempos estava tendo sonhos eróticos. Eróticos, explícitos e quentes. Todos estrelados pelo homem do apartamento em frente. Após recolher os extratos bancários e contas a pagar e guardá-los na gaveta, esforçou-se ao máximo para suprimir a efervescente libido e abriu a porta. Por que ele tinha de ser tão estonteante? E por que tivera de ir para a cama logo com aquele homem? Duas vezes. A abstinência tornava-se bem mais difícil quando uma pessoa sabia o que estava perdendo. – Você está bem? – perguntou Kevin. – Parece um pouco agitada. Tomara que não tanto quanto estava se sentindo, pensou ela. – Claro que estou. Acabei de conferir minhas finanças e estava pensando sobre o trabalho. E, droga! Não planejara lhe dizer aquilo. Se Kevin imaginasse que ela estava com algum problema, faria de tudo para resolvê-lo. Mas lhe parecera melhor do que confessar que estivera pensando nos sonhos da noite anterior. Naquele que envolvera um banho quente com a fragrância inebriante de sabonete líquido. – Engraçado ter mencionado este assunto. Posso entrar? – Ah, claro. – Beth deixou-o entrar e se sentou em uma extremidade do sofá, esperando que ele se acomodasse na cadeira do lado oposto. A um


braço de distância. – O que há de engraçado em eu ter mencionado o trabalho? Em se tratando de Kevin, claro, a escolha em se acomodar no sofá não a surpreendeu. Bem ao alcance do braço. – Muito bem, nós elaboramos um plano… – Nós? – O que? Ah, na verdade foi ideia de Mike, embora Evan também tenha ajudado, se bem me lembro. E havia também algumas cervejas envolvidas. – Um daqueles planos. – Sim. Era para ser um plano ardiloso para induzi-la a fazer algo que eu quero. Uau. Beth cruzou os braços sobre o peito, fitando-o com olhar estreitado. – Pensou que me enganar fosse um bom plano? – Cervejas – lembrou ele. – Mais de uma. – E em que, exatamente, pretendiam me envolver? Kevin inclinou-se contra as almofadas e exibiu seu melhor sorriso sedutor. – Apenas para deixar registrado, lembre-se de que descartei o plano elaborado para ludibriá-la porque a respeito. – Obrigada. Está anotado. – E conto com sua sensatez para escutar, sem se ofender. Qualquer que fosse o plano, não lhe parecia nada atraente. – Talvez. Conte-me logo. – Estava pensando que talvez você devesse vir trabalhar comigo. Quero dizer, no Jasper’s. Sem palavras, ela se limitou a olhá-lo, tentando decifrar o que se passava na mente de Kevin. Ele lhe propusera trabalhar no Jasper’s? Quase morria de cansaço ao fim do turno de trabalho em um restaurante tranquilo, o que diria em um bar esportivo agitado? Teria sorte se não desmaiasse na metade de seu primeiro turno. – Mas não servindo mesas – prosseguiu ele. – Estava pensando em lhe propor o trabalho administrativo. Contabilidade e afins, já que odeio esse tipo de trabalho. Poderíamos comprar uma daquelas cadeiras acolchoadas com proteção para a lombar e tudo mais. Segundo minhas fontes, você cursou administração de empresas na faculdade. – Curso de ensino técnico superior. E não tirei o diploma.


– Não, mas entende do assunto. E, para ser sincero, se eu contratasse alguém de fora, provavelmente seria para trabalhar meio expediente. Mas se você souber fazer os inventários e coisas do tipo, podemos esticar essa carga horária até a que você desejar. Além do mais, trabalharia sentada quase o tempo todo. A oferta parecia maravilhosa. Sentada. Em uma cadeira acolchoada com suporte para a coluna e nenhum cliente reclamando quando os funcionários não conseguiam adivinhar seus pensamentos. Nada de sorrisos forçados e bajulações para ganhar gorjetas. Mas trabalhar para Kevin? Já havia alugado um apartamento dele. Bastava a noção de que era o homem com quem passara duas noites, apenas quem lhe provia um teto. Receber o salário dele a faria subir um degrau no patamar da vulnerabilidade. O sorriso nos lábios de Kevin secou. – Não está dizendo nada. – Estou pensando. – A proposta era tentadora, mas as consequências, se não desse certo, poderiam ser catastróficas. Ninguém empregaria uma mulher grávida. – Está vendo? É por isto que me passou pela cabeça induzi-la a aceitar. – Não era um bom plano. – Beth suspirou, tão conflitada que não sabia por onde começar. – Mas inventar um cargo para... – Ei! Não estou inventando um cargo. Detesto fazer a contabilidade. E ainda não contratei alguém para fazer esse serviço porque o processo de colocar anúncio, entrevistar e contratar é mais desgastante do que a contabilidade em si. É um cargo legítimo, eu juro. Não era apenas legítimo, era perfeito também. Ou quase perfeito, porque não podia ignorar o risco de abrir mão do emprego que tinha para trabalhar para o pai do bebê que estava gerando e dono do apartamento que estava alugando. Beth arriscou encará-lo, esperando encontrar sinceridade no brilho divertido costumeiro daqueles olhos azuis. E a encontrou, juntamente com a súplica para que ela lhe desse uma chance. Para que desse uma chance àquela oferta. Por não possuir uma bola de cristal, Beth não tinha ideia do futuro que os aguardava. Fosse em relação ao bebê ou ao relacionamento. Mas não era necessário aquele tipo de artefato premonitório para saber que, não importava o clima entre ambos dali a um mês, três meses ou mesmo três


anos, Kevin jamais a abandonaria. Não importa o quanto estivesse furioso ou cansado de aturá-la, seria correto com ela e com o bebê. – Aceito – disparou ela antes que acabasse se convencendo a não aceitar. As covinhas vincaram o belo rosto de Kevin, ao mesmo tempo em que ele levava a mão ao coração, fingindo perplexidade. – Fácil assim? – Queria que discutisse com você primeiro? – Caramba, não! Mas imaginei outro desfecho para esta conversa. Achei que se ofenderia, pensando que eu a considero incapaz de realizar seu trabalho, que me acusaria de tentar ser seu chefe também e... – E? – E nos imaginei meio que tendo de recorrer ao sexo para fazer as pazes. E depois batizando a nova cadeira do escritório com outra sessão de sexo. E depois fazendo o mesmo com a velha mesa do escritório e... – Chega! – Ela ergueu uma das mãos, soltando uma risada diante da expressão inocente Kevin. – E como imaginou passar da discussão com a Beth furiosa e ofendida ao sexo? Kevin deu de ombros. – É parecido com aquele jogo dos seis graus de separação do Kevin Bacon, só que tenho menos graus. Está furiosa? Sexo para fazer as pazes. Nova mobília para o escritório? Sexo para batizá-la. Compras de supermercado? Sexo com chantilly. – E limpar o banheiro? – Sexo com você apoiada sobre o toucador. Ou sexo no chuveiro. Sexo quente, molhado e escorregadio. – Muito bem. Essa vai ser difícil: mulher grávida. – Ah, essa é a mais fácil. – Kevin esticou o braço e afastou uma mecha de cabelo para trás da orelha dela, fazendo-a estremecer. – Penso muito sobre essa. Talvez uma massagem nas costas que se transforme em sexo lento e terno. Eu, deitado de costas, e você montada em meus quadris para não esmagar o bebê. À medida que o calor lhe subia pelo corpo, formigando-lhe a pele, Beth se repreendia por ter lhe dado abertura. – Sinto muito, mas tenho como regra não fazer sexo com meu chefe. – Droga! – A decepção de Kevin parecia genuína. – Caí em minha própria armadilha. – Arrependido de me oferecer o emprego, chefe?


– Não. – Kevin forçou um suspiro dramático. – Ainda acho que poderíamos fazer este relacionamento dar certo. Com uma sessão de sexo para nos aquecermos e nos mantermos vivos enquanto ficamos presos no frigorífico das cervejas. – Bela tentativa. Mas tenho certeza de que muitas das mulheres que beijam os guardanapos para você ficariam felizes em se trancarem com o dono do bar no frigorífico de cervejas. – Não fiz sexo com nenhuma outra mulher desde a noite em que nos conhecemos. Beth suspeitara que não, mas havia trabalhado em alguns turnos da noite e as mulheres costumavam se atirar ao pescoço de Kevin, então, só podia desejar que ele não tivesse feito sexo com nenhuma delas. – Fez sexo apenas duas vezes desde o início de outubro? – Sim. Assim como você. Embora Beth se sentisse lisonjeada e feliz com a ideia de que ele não saltara de sua cama para a de outra mulher, não pôde evitar certa apreensão. Não queria que Kevin perdesse tempo esperando por algo que não poderia lhe dar. – Não temos um relacionamento, então pode dormir com quem quiser. – Não é a primeira vez que afirma que não podemos ter um relacionamento, e, ainda assim, fizemos sexo. Tenho esperanças de que continuemos nesse ritmo. – Aquilo foi... Concordamos que não se repetiria. – Não. Você disse que não se repetiria e eu não discuti, ao menos em voz alta, porque você fica irritada com muita facilidade. Irritada? Ele deveria tentar se sentir cada dia menos sexy e ter sonhos pornográficos de noite. Por certo também estaria se irritando à toa. Irritação... A sensação da barba por fazer de Kevin lhe arranhando os seios... Droga! Agora era ela que imaginava uma cena de sexo para tudo. – Quando acha que posso apresentar meu aviso prévio? – perguntou Beth, desesperada para mudar o tópico da conversa. Por alguns segundos, ela imaginou que Kevin não esqueceria o assunto, mas em seguida o viu dar de ombros. – Amanhã. Com a economia no pé em que está, eles devem ter uma fila de candidatas à vaga. E quando contratarem outra, diga-lhes que não trabalhará lá nem mais um dia.


Mesmo enquanto assentia com a cabeça, Beth imaginou se não estaria cometendo um erro. Não por se preocupar em ficar desempregada se as coisas não dessem certo com ele, mas pelo próprio Kevin em si. Agora, ambos não apenas moravam porta com porta como trabalhariam lado a lado todos os dias. Era muita convivência com Kevin para resistir, se mal estava conseguindo agora. Mais alguns sonhos como aqueles que a atormentavam nos últimos dias e talvez acabasse por sucumbir.


CAPÍTULO 16

Abril

KEVIN POUSOU uma caneca congelada diante do irmão, quase a deixando cair no colo de Mike, quando Beth passou pelo balcão, andando com dificuldade. Uma infinidade de mulheres costumava passar por aquele bar. Andando. Rebolando. Dançando. Cambaleando. Algumas até mesmo tentando subir no balcão e se despir. Quem diria que se excitaria com uma que andava com dificuldade? Faltando apenas dois meses para o parto, Beth ostentava uma barriga enorme e estava na fase do andar de pato, quase ao fim da gestação. Engraçado, mas quando as irmãs e a cunhada passaram por aquele estágio, Kevin não achara em nada atraente. Talvez achasse Beth atraente, independentemente da aparência que tivesse. Ou poderia ser o fato de ter feito sexo apenas duas vezes nos últimos seis meses e meio, sendo a última em fevereiro. Mas se fosse apenas uma questão de libido negligenciada, certamente teria dificuldade de se controlar quando recebesse aquelas propostas escritas em guardanapos. Nem mesmo a que dissera “Eu o montaria por mais de oito segundos, cowboy” conseguira tentá-lo. Mas a visão do andar de pato de Beth em direção à cozinha, com os cartões de ponto em uma das mãos, deixou-o enfeitiçado. E muito. E quando ela parou para lhe sorrir por sobre os ombros, as coisas se complicaram para Kevin, da cintura para baixo.


Infelizmente, Beth não tirara da cabeça a ideia de serem apenas amigos. Durante meses, conseguiram manter aquele clima, já que Kevin decidira não se mostrar insistente, embora estivesse começando a detestar a rotina de vizinhos que por acaso teriam um filho juntos. Desejava mais. Kevin inclinou-se sobre o balcão para que o irmão conseguisse ouvi-lo. – Diga-me uma coisa. Teria se casado com Lisa se ela não tivesse engravidado? Mike tomou um susto com a mudança de assunto, já que estavam conversando sobre os treinos de primavera do Red Sox, mas um grande gole de cerveja ajudou-o a se recuperar. – Não tenho como responder já que ela de fato engravidou, mas prefiro pensar que sim. Caso contrário, significaria que todos aqueles anos de casamento estariam baseados em uma gravidez acidental e não no amor. – Alguma vez, você... – Não. Seja o que for, não. Era justo. Kevin também não gostaria de passar a vida toda questionando o próprio casamento. De repente, ele deu um tapa imaginário na testa. Era esse o temor de Beth. Não queria passar o resto da vida imaginando se o bebê não seria o motivo que o fez se interessar por ela. Kevin presenciara a cunhada quase enlouquecer, há apenas um ano, por aquele mesmo motivo. Por que achara que Beth não teria as mesmas dúvidas? – Quer saber minha opinião? – perguntou Mike. – Claro. – Àquela altura, Kevin necessitava de toda a ajuda que conseguisse. – Acho que deveria esperar. Lisa e eu estávamos namorando há algum tempo e, ainda assim, foi difícil. Você engravidou Beth no primeiro encontro. Não teve tempo de saber se gostava dela, o que dirá estar disposto a ficar com ela “até que a morte os separe”. Não era verdade. Podiam chamá-lo de louco, mas ele soubera que gostara de Beth desde o dia em que quebrara o nariz de seu ex-chefe. Soubera que gostava dela de verdade antes da festa de casamento de Joe chegar ao fim. E desde... Adorava a ideia de ter um filho com Beth. De ser pai. De vê-la todos os dias. Mas a amava?


Como diabos poderia ter certeza? Não havia um questionário, lista de verificação, um tabuleiro ouija, um gráfico ou qualquer outro modo seguro de saber. Kevin ergueu a garrafa de água que costumava tomar enquanto trabalhava e ingeriu um grande gole. – Esperar para quê? – Até que o bebê esteja berrando de fome, que Beth não tenha uma noite decente de sono durante meses ou tempo para tomar banho e que, não importa o que diga, ela queira arrancar sua cabeça fora. Se depois disso tudo continuar a achando a mulher mais linda do planeta e pensando que não há outro lugar no mundo onde desejasse estar, então é amor de verdade. Aquele cenário parecia real, medonho e maravilhoso. – É assim que se sente? – Caramba, Kevin, eu era bem mais novo do que você. Jovem e idiota. Demorei muito para colocar minha cabeça no lugar, mas nunca houve um só dia que eu quisesse deixá-la. – Não me imagino desejando deixar Beth. Mike ergueu a caneca em direção ao irmão. – Ainda não passou por dificuldades. – Passamos por alguns momentos difíceis. – Ainda não viu nada. Acredite em mim. Kevin não era ingênuo. Sabia que lidar com um recém-nascido seria difícil para ambos. Mas ela poderia contar com sua ajuda quando estivesse cansada. Beth conseguiria dormir porque ele se certificaria de se revezar, alimentando e trocando as fraldas do bebê chorão. Talvez se incumbisse até mesmo de fazer o café, para que ela tivesse tempo de tomar um banho. Mas seria difícil com um corredor entre ambos. Seria muito mais fácil se... – Olhe para você. Todo sonhador. – Mike soltou uma risada. – Acredite, se está pensando que sua experiência com filho pequeno será mais tranquila do que a minha, está redondamente enganado. Mas ele e Beth não eram dois jovens amedrontados. Eram adultos, com experiência de vida e bom senso. Formavam uma bela equipe. – Vamos nos sair bem. – Claro que vão. – Mike ergueu a caneca para que ele a enchesse. – Agora chega de conversa sentimentalista. Vim aqui para ver o jogo.


PAULIE PASSOU os dedos sobre o peito desnudo de Sam, ignorando a droga de filme de velho oeste que o fizera parar com a incessante troca de canais. Os dois estavam na cama desde cedo, e, após horas de sexo alucinante e muito carinho para que Paulie não reclamasse, ele ligou a televisão. Fechando os olhos, ela bloqueou o desfecho de filme. Sam não teria de ir para casa, então podia dormir naqueles braços fortes durante toda a noite. E acordaria daquela mesma forma na manhã seguinte, como vinha fazendo nos últimos dias. Era um ritmo prazeroso. Sam não passava uma noite no hotel há semanas. Estava quase adormecida quando ele se encarregou de estourar sua bolha de felicidade. Paulie deveria ter previsto, a julgar pelo modo como o corpo de Sam se manteve tenso em vez de relaxado durante os tenros momentos pós-sexo. E pelo modo como ele clareara a garganta repetidas vezes, como se quisesse começar a falar apenas para se calar em seguida. – O Festival de Primavera beneficente de Marsha será na próxima semana – disse ele por fim, em um tom de voz casual que fez mil alarmes dispararem na mente de Paulie. – Estava pensando em convidá-la para ir comigo. Paulie sabia que aquele momento chegaria, mas nutrira a esperança de que demorasse. – Tenho de trabalhar. – Aposto que pode trocar de turno com algum colega, se for importante para você. – Não é importante para mim – retrucou ela, rolando para o lado e encarando o teto. – Esta é a questão. Paulie considerou a discussão como acabada, mas com um suspiro pesado, ele desligou a televisão. Pelo canto do olho, ela o viu rolar na cama em sua direção, mas continuou olhando para o teto. – Acha que é pedir muito que compareça a um evento beneficente? Claro que era pedir demais. Se cedesse, Sam a convidaria outra vez. E outra, mais outra e mais outra. E antes que se desse conta, teria voltado a ser Paulette Atherton e estaria mais uma vez sob o foco da desaprovação dos pais. – Eu já te disse que não sou mais essa pessoa – retrucou Paulie, tentando manter a voz serena, embora estivesse berrando por dentro. Como pudera ser tão idiota a ponto de pensar que havia sequer uma chance de aquele


relacionamento dar certo? Aquele era o mundo para o qual Sam acabaria voltando. E tentaria arrastá-la com ele. – Vestir um traje elegante e comparecer a um evento comigo não a torna outra pessoa. Trata-se de uma noite apenas. Que mal pode fazer? Um grande mal, pensou ela. Talvez fosse diferente ser o filho único de duas ótimas pessoas, porque Sam nunca se sentira inadequado sob o olhar crítico dos pais. Quando Paulie não respondeu, ele a cutucou com o joelho. – Tudo bem, se ainda não está preparada. Não precisa ficar aborrecida por isto. – Se pretende esperar até que eu esteja preparada para voltar a Boston, é melhor se sentar em um lugar confortável. – respondeu ela. Sam aproximou-se e sustentou o peso do corpo em um cotovelo, baixando o olhar para fitá-la e lhe bloqueando a visão do teto. Não lhe restou outra opção, senão encará-lo. – Não faça isto parecer mais importante do que é. – É importante porque é sinal de que não escutou nada que eu disse. – Escutei. Esse é um dos eventos mais divertidos e informais da sociedade de Boston e, por esse motivo, eu a convidei. Mas se não quer ir, não tem problema. – Sam inclinou a cabeça para baixo e roçou o nariz sob o lóbulo da orelha dela. – Não é a primeira vez que me rejeita. – E provavelmente não será a última. – Paulie girou a cabeça para o lado, a fim de lhe facilitar o acesso. Mas Sam escorregou os lábios pelo pescoço dela em direção aos seios firmes. – Estou disposto a arriscar. BETH PERCEBEU que algo estava estranho quando Paulie apareceu vestindo um suéter preto, calça jeans e sandálias rasteiras em vez das costumeiras roupas esportivas e tênis. Parecia também ter abusado do delineador. – Está muito bem-vestida para um simples almoço. Paulie baixou o olhar ao próprio corpo. – Não estou nem de longe bem-vestida. E eu… é… Vou encontrar Sam depois para… fazer alguma coisa. Paulie era uma péssima mentirosa.


– Se estivéssemos indo a algum lugar em que corremos o risco de sermos fotografadas ou algo do tipo, você me contaria, certo? Porque é minha melhor amiga. – Não estou te contando nada porque a sra. Kowalski é muito brava. Mas uma camada de batom não lhe faria nada mal. – Preciso de cinco minutos. – Nada excessivo – gritou Paulie atrás dela. – Ou as pessoas imaginarão por que você se arrumou toda só para almoçar comigo. Dez minutos mais tarde, Beth conseguiu se sentar no carro de Paulie. – Será necessário um guindaste para me tirar daqui. – Sim, pensei em trocar de carro com Kev, mas precisaríamos de um guindaste para fazê-la subir na caminhonete. De qualquer forma, não seria uma cena bonita de se ver. – Paulie sentou atrás do volante e girou a chave na ignição. – Sabe de uma coisa, é a única pessoa que conheço que não tem um carro. – É apenas uma questão de tempo até que eu me encontre catando bolinhas de cereal nos bancos de minha minivan. Estou apenas curtindo a liberdade enquanto posso. Alguns minutos depois, Paulie estacionou o carro diante de um belo restaurante, conhecido pela espaçosa área reservada a eventos sociais. Beth conseguiu se erguer do carro minúsculo sem proporcionar um espetáculo à parte. – É melhor fingir surpresa – sibilou Paulie entre dentes antes de entrarem. – Ou a sra. K me partirá ao meio. Mas Beth não precisou fingir. Embora desconfiasse de que se tratava do chá de bebê desde o primeiro instante em que Paulie apareceu em seu apartamento, não esperava um evento daquela magnitude. Com balões, fitas e faixas. E seus pais. Ao ver as lágrimas de felicidade nos olhos da mãe, Beth perdeu o controle e já estava aos prantos quando a abraçou. Sentira falta da mãe e não havia se dado conta do quanto até vê-la ali. – Olhe para esta barriga! – exclamou Shelly, fazendo-a rir através de uma cortina de lágrimas. Por fim, a mãe soltou-a para que o pai a envolvesse nos braços. Em seguida, foi a vez dos Kowalski. Surpresa, Beth se deu conta de que todos os homens da família estavam ali. Os irmãos de Kevin, o pai e o cunhado. Não


era uma reunião exclusivamente feminina. Até mesmo os sobrinhos de Kevin estavam presentes. Depois que Stephanie a abraçou, Beth teve de se inclinar para que a menina colocasse uma tiara em sua cabeça. E então Kevin se materializou ao seu lado, envolvendo-lhe a cintura larga com um dos braços. – Surpresa! – exclamou ele com um sorriso antes de lhe dar um beijo na bochecha. Beth avistou Darcy, Randy e alguns cozinheiros próximos à tigela de ponche. – Quem está cuidando do bar? Kevin deu de ombros. – Vamos abrir mais tarde hoje. Nossos amigos querem comemorar a chegada deste bebê conosco, portanto, que mal há em abrir um pouco mais tarde? – Mal nenhum! – concordou ela. Naquele instante, Beth viu Bobby correndo na direção dela e soltou uma risada. – Aí vem ele. O caçula temporário dos Kowalski espalmou as duas mãos na barriga de Beth. – Olá, primo! Para que serve o chá de bebê? Para que ele não fique enjoado de tomar só leite! Todos caíram na gargalhada. Em seguida, Beth foi guiada até uma cadeira decorada com fitas azuis, rosa, e mamadeiras infláveis. O lugar de destaque e a tiara a fizeram se sentir uma rainha em seu trono, e não teve de forçar nenhum dos sorrisos diante dos flashes das câmeras que quase a cegavam. E então teve início a procissão dos presentes. Grandes, pequenos, de todos os tipos. Desde meias a um carrinho da melhor marca do mercado, fraldas, cadeirinha para carro, além de uma pilha de artigos que não precisaria comprar até a criança estar quase da altura do pai. E o que o filho nunca mais precisaria comprar? Camisetas esportivas e macaquinhos. Red Sox, Celtics, Bruins, Patriots e Revolution. Havia peças de vestuário de cada time. A maioria nas cores vermelha, branca, azul, verde, preta e dourada em vez de verde-bebê. A celebração se estendeu no estilo dos Kowalski: comida, risadas e mais comida. E, embora jamais tivesse imaginado, Artie e Shelly Hansen pareciam perfeitamente adaptados. Quaisquer que fossem as histórias que seu pai e Leo compartilhavam, deviam ser engraçadas, pois os dois não


paravam de rir. Shelly estava radiante vasculhando a pilha de presentes em companhia da mãe de Kevin. Quando os garçons trouxeram um carrinho com um bolo de três andares, adornado por um belo par de sapatinhos de bebê, Kevin inclinou-se na direção dela até quase os lábios lhe roçarem a orelha. – Fiz questão que o bolo fosse de chocolate porque sei que é o seu preferido. – Embora a temperatura no salão estivesse alta, um delicioso arrepio percorreu a espinha de Beth. – Faz algum tempo que não come uma fatia. – Ele pousou uma das mãos na base de sua coluna. – Deve estar ansiosa por lamber aquela cobertura doce e cremosa. Ah, o desejo quase lhe roubava o fôlego. Então, quando o bolo foi servido e a família e os amigos a encararam para ver qual seria sua reação, Beth tomou a única atitude que a pouparia da humilhação de se atirar nos braços de Kevin. Deu uma cotovelada no abdome dele. – Ai! – Ele deu um passo atrás. O bolo estava delicioso, mas a cada pedaço que colocava na boca, o sabor do chocolate a fazia desviar o olhar na direção de Kevin, que lambia a cobertura do próprio pedaço, sem pressa. A cada movimento que ele fazia com a língua, o nó do desejo se apertava no íntimo de Beth, mas a realidade, composta de amigos e familiares, impediu-a de fazer uma loucura, como pular no colo de Kevin e remover com a própria língua os resíduos de cobertura do bolo daqueles lábios sensuais. Mas as mães de ambos a observavam. E a última coisa que desejava era que elas começassem a ter ideias sobre o relacionamento dos dois. Platônico. Aquela era a palavra que Beth queria ver assentada nas mentes das duas, e não casamento ou noiva. Quando os homens se reuniram para começar a colocar os presentes na caminhonete de Kevin e nos outros veículos grandes disponíveis, o nó do desejo afrouxou. Portanto, no papel de futura mamãe, ela se serviu de um segundo pedaço de bolo. Paulie deixou-se afundar na cadeira ao lado dela. – Vai se arrepender quando o açúcar chegar à circulação da criança e ela começar a chutar sua bexiga sem parar. Beth lambeu a cobertura cremosa grudada no garfo. – Não me importo.


Paulie pegou um prato com metade de uma fatia de bolo que alguma criança deixara. – Eu também não. – Manteve sua promessa. Não pense que não notei. Paulie deu de ombros. – Disse que não daria mais nenhum presente de chá de bebê para você, mas não disse que não daria para o bebê. Beth não se lembrava de ter visto nenhum presente para o bebê com o nome de Paulie na etiqueta. Mas não importava o que fosse, a amiga não deveria ter comprado nada depois de todo o dinheiro que gastara com as roupas de gestante. – Tenho alguns documentos para você assinar em meu apartamento. Abri um fundo estudantil para este pequenino. – A quantia que Paulie citou em seguida a fez ofegar. Beth abriu a boca para protestar, mas a amiga se adiantou. – Sei que é uma quantia alta, mas você e Kevin são como família para mim. Portanto, essa criança é da minha família e gosto de pensar que, não importa o que aconteça, ela terá um sólido começo na vida. Beth envolveu o pescoço de Paulie, tentando não chorar. – Muito obrigada. – De nada. – Paulie afastou-a, limpando o que parecia ser uma lágrima. – Chega de sentimentalismo. – Está bem. Então, como estão as coisas entre você e Sam? – Bem, acho eu. Temos passado muito tempo juntos, nos divertindo. Ele está praticamente morando no meu apartamento agora. – Esta é uma ótima notícia! Paulie deu de ombros. – Por ora. Veremos o que acontecerá quando esse trabalho for concluído e Sam tiver de voltar para Boston. Ele me convidou a acompanhá-lo a um evento beneficente que aconteceu lá, mas eu não aceitei. Desde então, o clima está meio estranho entre nós. – Mas ele ainda está aqui. – Bem, o sexo é maravilhoso. Beth gemeu. – Preciso de outro pedaço de bolo. – Não me diga que está substituindo o sexo por doces quando tem um homem como Kevin olhando-a do jeito que está fazendo neste momento. Beth não se permitiu virar para olhá-lo.


– Somos apenas amigos. – Sei. Acho que eles estão distribuindo as cartelas do bingo do chá de bebê. Prepare-se para descobrir como os Kowalski são implacáveis no que se refere a jogos. – Eu sei que são todos peritos em conseguirem o que querem. – Kevin ainda não conseguiu. Beth deu de ombros, engolindo em seco o nó que se formou na garganta. – Claro que sim. Ele queria ter um filho e logo o bebê nascerá. – Kevin quer você. – Claro, porque eu faço parte do pacote. Uma família pronta. Com um movimento negativo de cabeça, Paulie posou-lhe a mão no braço. – Diga-me que não pensa assim. Beth estava a ponto de lhe dizer que não sabia o que pensar, no momento em que Stephanie chegou para lhes entregar uma cartela de bingo e logo o jogo começou, pondo um fim à conversa. Mas o pensamento não abandonou a mente de Beth, como sempre.


CAPÍTULO 17

– O BAR está calmo esta noite – disse Paulie. – Vou tirar algumas horas de folga. Kevin consultou a hora no relógio de pulso e deu de ombros. – Pode ir. Se o movimento aumentar, eu te chamo, mas acho que não vai acontecer. Ah, tem certeza que não se importa em me dar uma cobertura na noite de quarta-feira? – Está brincando? Trabalhar aqui enquanto o imagino sentado, assistindo a um curso de preparação para o parto? Será a noite mais divertida da minha vida. Paulie desapareceu pela porta antes que ele pudesse lhe perguntar se estava com algum problema, já que não costumava se ausentar quando o movimento estava fraco. Na maioria das vezes, Paulie puxaria uma cadeira e conversaria com alguns clientes assíduos. Mas cinco minutos depois, quando Sam Logan entrou no bar e ocupou sua mesa costumeira, Kevin encontrou a explicação. Paulie o estava evitando por alguma razão e ele ficou curioso para saber o motivo. Então, fez questão de lhe servir a cerveja pessoalmente em vez de deixar a tarefa para Darcy. – Como tem passado? – perguntou Sam em tom casual. – Não posso reclamar. E de qualquer forma, ninguém me escutaria mesmo. – Kevin pousou a cerveja na mesa, puxou uma cadeira e se sentou. Sam arqueou uma das sobrancelhas, mas não disse nada. Os dois conversaram sobre trivialidades como esportes, clima e outros temas, mas como não eram amigos íntimos, não teriam assunto por muito tempo. Seria melhor ir direto ao ponto.


– O que está acontecendo entre você e Paulie? – Suponho que, se não tivesse algum interesse, não estaria perguntando. Uma resposta justa. – Paulie é como uma irmã para mim e… – E eu a amo. – Ah! Acho que isto anula a pergunta “Quais são suas intenções?”. E é por isso que ela está te evitando? – Acho que ela está me evitando porque a convidei para ir a uma maldita festa comigo. – Em Boston? – Sim. Em um evento beneficente. Kevin reclinou-se na cadeira, sem argumentos. Convidá-la para uma festa não era exatamente tratá-la mal. Ainda assim, Sam a fizera sofrer. E Paulie era bem capaz de afastá-lo de sua vida, em vez de se esforçar para que aquele relacionamento desse certo, e Kevin tinha o palpite de que isso também não a faria feliz. A linha entre ajudar uma amiga e meter o nariz onde não era chamado costumava ser muito tênue. – Sabia que a mãe de Paulie começou a pintar o cabelo dela aos 4 anos porque eram muito vermelhos? – Conheço os Atherton pessoalmente, então isso não me surpreende. – Sam tomou um gole da cerveja e, em seguida, fechou as mãos em torno da caneca gelada. – Não estava pedindo que ela largasse o emprego para ser uma esposa de Stepford, como no filme Mulheres Perfeitas, mas sim para me acompanhar ao evento mais informal e divertido da sociedade de Boston. E não a pressionei quando ela rejeitou o convite. Kevin pegou a garrafa de água que Darcy lhe trouxe e agradeceu. – Ela não quer voltar para lá. – Não pedi que ela se mudasse para Boston. Era apenas uma noite. – Sam esparramou-se na cadeira, parecendo mais um idiota normal com o coração partido, do que um aristocrata arrogante com uma conta bancária recheada. – Não posso perdê-la outra vez. Kevin quase cedeu ao impulso de aconselhá-lo a ser paciente, mas não conseguiu dizer as palavras. Tinha experiência suficiente no ramo da paciência e sabia que não era nada agradável. E, até onde sabia, aquele tipo de conselho só servia para deixar os homens ainda mais frustrados.


Percebera a reação de Beth aos seus comentários ambíguos sobre o bolo de chocolate no chá de bebê, mas, como sempre, ela se recusara a ceder à atração que Kevin sabia ser tão forte quanto a que ele sentia. E haviam voltado à estaca zero. Vizinhos que teriam um filho juntos enquanto um deles morria aos poucos a cada dia. Sam exibiu uma careta, olhando para a cerveja. – Acho que este é o momento em que me aconselhará a ser paciente e que, se estiver destinado a ser, ela voltará para mim. E eu responderei: sim, digo o mesmo. Kevin soltou uma risada, brincando com a garrafa d’água. – Que tal conversarmos sobre o Red Sox? – Beckett estava ótimo na outra noite. E Papelbon está em excelente forma. – O que nos manteve em primeiro lugar. Mas os Yankees estão vindo aí. Vai ser um jogaço! Como era característico da maioria dos homens, os dois passaram a próxima hora conversando sobre esportes, fingindo não estarem preocupados com o fato de não conseguirem fazer suas mulheres felizes. OS ASSENTOS do aeroporto não eram os mais confortáveis para uma mulher grávida, mas Beth queria desfrutar dos últimos minutos com os pais antes de eles embarcarem no avião para a Flórida. Os dois retornariam quando o bebê nascesse, mas aquela certeza não diminuiria em nada a saudade que ela sentiria durante esse tempo. Quando o pai saiu à procura de um lugar para comprar café, a expressão de Shelly tornou-se séria enquanto espalmava uma das mãos sobre o joelho da filha. E disse o que Beth já previa. – Ele é um bom rapaz. Na verdade, um dos melhores que você já conheceu. Mary me contou que Kevin quer ter um relacionamento sério, mas você insiste que permaneçam apenas amigos. – É complicado. – Geralmente, o amor é complicado. Aquela palavra atingiu-a como uma bola de demolição e, quer fosse sentir saudades da mãe ou não, Beth teve vontade de se levantar e ir embora.


– Não há amor envolvido em nossa relação. Foi um caso de uma noite. Pelo amor de Deus, Kevin faz coleção de guardanapos com números de telefone que as mulheres lhe entregam! E nunca mais o teria visto se não tivesse engravidado. Havíamos posto um ponto-final no que tivemos e um preservativo defeituoso não muda essa realidade. Não tínhamos nenhum futuro juntos antes e o único que temos agora é este bebê. Não quero passar o resto da vida sabendo disto. Sem nada a comentar, a mãe apertou-lhe a mão com força. Por certo conhecia Beth o suficiente para saber que havia mais naquela história. E estava com razão. – Eu estava indo para Albuquerque – continuou Beth. – Iria me mudar para lá, mas conheci Kevin e fui tola o suficiente para dormir com ele. E agora tudo está diferente. Toda minha vida virou de cabeça para baixo e estou ligada a ele para sempre porque Kevin será um excelente pai. Aquele homem chega a ser opressivo, e já estou me sentindo tão oprimida que não sei mais o que fazer. Não consigo raciocinar direito com ele por perto, mas nossas ações impactarão na vida do bebê. E não quero passar o resto da vida imaginando se Kevin me quer ou se insiste em ficar comigo porque fui a primeira mulher a lhe dar um filho. Expor suas dúvidas mais íntimas foi desgastante e, quando a mãe recostou a cabeça de Beth ao seu ombro e lhe acariciou o cabelo, ela não resistiu. Pela primeira vez, não se sentiu apenas acarinhada, mas tranquilizada. – Você sempre foi independente. De uma maneira obstinada. Com apenas 4 anos, me disse que eu não precisava colocá-la na cama porque era capaz de fazer isso sozinha. Jamais consegui colocar em sua cabeça que não fazia aquilo por achá-la incompetente, mas por querer compartilhar os últimos minutos de seu dia. Você tem mania de não deixar que as pessoas se aproximem demais. – Se eu o deixar se aproximar mais ainda, correrei o risco de me apaixonar por ele, e esse é um caminho sem volta. – Acho que ambos já estão um pouco apaixonados. Beth fechou os olhos para impedir as lágrimas. – Estamos bem assim. Somos amigos e, desde que tudo permaneça como está, continuaremos amigos. Mas se pensarmos que estamos apaixonados e nos casarmos, o que acontecerá se Kevin um dia se der conta que estava mais apaixonado pela ideia de ter uma família do que por mim? E se eu


perceber que pensei estar apaixonada por ele ser um cara maravilhoso e por achar que não conseguiria passar por isto tudo sozinha? – Ao menos, teriam tentado. – E se fracassarmos será terrível. O amor nunca termina de forma amigável e não quero que um dia nos odiemos. Não desejo isso para meu filho. Quero que os pais dele ou dela sejam amigos. Quando abriu os olhos, Beth observou o pai se aproximar, tentando equilibrar dois copos descartáveis de café e uma garrafa de água. Artie tinha talento para garçom. Erguendo a cabeça do ombro da mãe, ela tratou de limpar as lágrimas, não querendo dar a impressão de que estava triste. – Dê tempo ao tempo, se precisar – disse a mãe. – Mas não se feche por completo para Kevin. – Impossível – resmungou Beth. – Ele não permitirá. O pai lhes entregou as bebidas e Beth tomou um grande gole de água, esperando desfazer o nó que lhe apertava a garganta. Sentia-se cansada e desconfortável naquela cadeira. Além do mais, não conseguira ter uma boa noite de sono desde que Kevin, o maldito depravado, sussurrara-lhe palavras provocantes sobre o bolo de chocolate e lambera, de uma forma quase obscena, a cobertura do pedaço que estava comendo. Ele fizera de propósito, esperando excitá-la a ponto de fazê-la pular para sua cama. Em vez disso, Beth decidira se manter longe da cama de Kevin, o que significava permanecer excitada. Mas a vingança era um prato que se comia frio. Como ele insistira em estar presente na hora do parto, Beth teria a satisfação de vê-lo penar no curso de preparação. Se mais nada o desestimulasse, o curso o faria. Assim ela esperava. Logo chegou a hora de os pais dela embarcarem. Os dois a envolveram em abraços longos e carinhosos. Beth teve de recorrer a toda sua força de vontade para não chorar, mas não foi fácil se conter. – Voltaremos quando estiver na hora de o bebê nascer – garantiu a mãe. – Mas se tiver qualquer problema, basta nos telefonar. Chegaremos o mais rápido possível. – Ficarei bem. Vocês conheceram a família de Kevin. Mesmo que eu quisesse ficar sozinha, não teria a menor chance. – Tome conta do meu neto – recomendou o pai, tratando de retirar a esposa dali antes que as duas se dissolvessem em um mar de lágrimas, com soluços histéricos.


Quando os perdeu de vista, Beth se virou e, após uma passada no banheiro feminino para se aliviar e chorar mais um pouco, dirigiu-se à entrada do movimentado aeroporto de Manchester. Kevin estava lá, um pouco mais adiante, na calçada, debruçado sobre a caminhonete. Quando a avistou, um sorriso surgiu em seus lábios. Beth fez um movimento negativo com a cabeça. – Acho que não tem permissão de estacionar aqui. – Sim. – Kevin abriu a porta para ela. – O funcionário começou a me dizer o mesmo, mas logo se distraiu com alguns ingressos para o jogo do Red Sox. Ao que parece, o aniversário de 16 anos do filho dele cairá na noite em que estaremos enfrentando os Yankees. – Costuma carregar ingressos de jogo com você? – Apenas quando acho que serão necessários. – Kevin fechou a porta do passageiro e contornou o veículo pela frente. Assim que se afastaram do estacionamento, ele lhe olhou de relance. – Pensei que seria difícil vê-los partir e não queria que voltasse chorando no banco de trás de algum táxi. – Por que você tem que ser tão legal? As covinhas de Kevin apareceram. – Conhece minha mãe. Seria arriscado não ser legal. Mas toda aquela sensibilidade só tornava mais difícil resistir a Kevin. – Obrigada. – Sabe o que conseguiria animá-la? – Lamber cobertura de bolo diretamente daquele abdome definido, antes de fazer sexo selvagem e demorado? – Um sorvete – afirmou ele. – De morango? – Não era uma opção tão atraente, mas seria melhor para ela a longo prazo. Um sorriso para lá de malicioso surgiu nos lábios de Kevin. – Não prefere de chocolate? – Nada de chocolate. Morango. – Com calda de chocolate quente? E chantilly? Beth não pôde conter uma risada. – Não. Apenas o velho e bom sorvete de morango. Kevin pareceu tentado a dizer algo, mas se limitou a sorrir. – Conheço o lugar certo.


KEVIN ESTAVA arruinado. Não havia a menor possibilidade de voltar a ter um relacionamento normal com um órgão sexual feminino. Droga! Estava até mesmo utilizando o termo “órgão sexual feminino”. Aquele era o seu fim como homem. Mesmo que conseguisse relaxar e tentasse uma sessão de sexo, com certeza desistiria ao se deparar com um... órgão sexual feminino. Tinha de apagar do cérebro aquele termo, juntamente com a voz estridente daquela instrutora. Ou afogá-las em uma cerveja. Ou ainda em doses de tequila. Droga! Tomaria uma garrafa inteira. – Você está bem? – perguntou Beth sem ao menos se esforçar em esconder o divertimento. – Não. – A voz da instrutora ecoava na mente de Kevin como guinchos de esquilos furiosos. Órgão sexual feminino. Dilatação. Obliteração. Tampão mucoso, pelo amor de Deus! – Quer que eu dirija? Kevin negou com um gesto de cabeça, forçando-se a relaxar as mãos sobre o volante. Ter de dirigir era a única coisa que o impedia de se enroscar na posição fetal. Fetal. Bebê. Órgão sexual feminino. Droga! E Beth estava rindo do estado calamitoso em que ele se encontrava. – Foi você quem me forçou a aceitar que fosse meu acompanhante na hora do parto. – Sou o pai do bebê – respondeu ele entre dentes cerrados. – Tenho de estar presente. – Na verdade, eu ia pedir à sua mãe para me acompanhar. Kevin ficou tentado a concordar. A mãe ser a acompanhante no parto de Beth era a melhor ideia que ouvira em um longo tempo. Ela era mulher. Dera à luz quatro filhos, criara uma filha e cinco netos. Por certo, estaria familiarizada com as engrenagens daquela... parte do corpo feminino de nome impronunciável. Além disso, aquele seria um grande passo para Beth se sentir como parte da família. Quem era ele para se interpor no caminho do progresso? – Não – Kevin ouviu a própria voz respondendo. – Quero estar lá, te apoiando. Espero apenas estar próximo da sua cabeça e não do seu pé quando a hora chegar. Beth soltou uma risada tão longa e encorpada que o fez começar a olhar ao redor em busca de lugares que pudessem ter banheiros. Esperava que


ela conseguisse chegar em casa sem ter de parar no caminho, mas ultimamente Beth urinava mais do que uma criança durante uma viagem de carro. – Aquilo era apenas um filme. Como será capaz de sobreviver ao acontecimento real? – Bêbado? – Como desejava estar agora. – Vamos mudar de assunto. – Está bem. Já pensou nos nomes? – Você me disse que não dava sorte. – Isso era no início. Se for menina, o que acha de Paulie? Vocês são muito unidos e ela tem sido uma grande amiga para mim. – Ela odeia Paulette, mas Paulie Kowalski? Não parece combinar e não sei se suportarei duas Paulies em minha vida. – Ela me contou que o nome do meio dela é Lillian e que o manteve quando mudou de nome porque era como se chamava a avó. Tem significado afetivo para ela. – Lillian é um pouco antiquado, não acha? – Estava pensando em Lily. Lily. O nome o agradou. – Lily Ann em vez de Lillian? – Lily Ann Kowalski. Gostei. E se for menino? Como Kevin estivera imaginando de que forma tocar no assunto do sobrenome do bebê nas últimas semanas, foi um grande alívio ouvi-la mencioná-lo. Não sabia se Beth desejaria dar ao filho o próprio sobrenome, já que não eram casados, ou se optaria por hifenizá-lo. Hansen-Kowalski não o agradava. – Que tal Carl Yastrzemski? – Carl Yastrzemski Kowalski? Que diabos de sobrenome é este? – Não posso acreditar que sequer a deixei entrar no meu bar. – Como fora capaz de se unir a uma mulher que não sabia nada sobre esportes? – Yaz foi o maior campista esquerdo de todos os tempos. Um ícone do Red Sox. – Não colocarei o nome de um astro do esporte no meu filho. Nada de Tom Brady Kowalski. Nada de Derek Jeter ou o que for Kowalski. – Meu Deus! – Kevin quase saiu da estrada. – Jeter é um maldito Yankee. Não seria capaz de dar o nome de Jeter a um cachorro feio, perneta, caolho e raivoso, quanto mais ao meu filho. Por favor, faça tudo, menos conversar sobre esportes com os frequentadores do Jasper’s.


– Foi apenas para enfatizar o que eu estava dizendo. – Se queria enfatizar que não entende nada de esportes, conseguiu. Há também nossos pais, poderia dar o nome de um deles ao bebê. – Leo e Arthur? – Provavelmente não. Qual é o nome do meio do seu pai? – Merton. Droga! – Que tal Ray? Ray Bourque Kowalski. Soa bem. Pelo canto do olho, ele percebeu o olhar desgostoso que Beth lhe dirigia. – Até mesmo eu sei quem é Ray Bourque. – Não me culpe por tentar. Esse cara é uma lenda do Bruins. – Espero que esteja percebendo que eu terei de fazer uma pesquisa no Google para cada nome que você sugerir. Ou ao menos perguntar a Paulie. – Temos de concordar em algum nome. Falando em Paulie, pensei em Paul. – Kevin virou bem a tempo de vê-la enrugando o nariz. – Ou não. – Não temos de decidir hoje. – Só a título de comentário, as crianças deram algumas sugestões. – Beth gemeu, fazendo-o soltar uma risada. – Excluindo todos os nomes de astros dos esportes, o consenso entre os meninos foi Scooter. – Scooter Kowalski? – As risadas de Beth contribuíam muito para lhe afastar da mente o terrível documentário sobre parto que fora forçado a aguentar. – E Stephanie pediu para que colocássemos Jacob Edward se for menino e Bella Stephanie se for menina. Algo a ver com uns livros sobre vampiros e lobisomens que ela está lendo, segundo a mãe me informou. – Por ora vamos optar por “a ser combinado”. Kevin deu de ombros. – Scooter meio que me agrada. – Vá sonhando. – Beth suspirou e mudou de posição no banco do carro. – Estou com fome. E preciso urinar. Outra vez. Com uma risada, Kevin negou com a cabeça. Beth deveria usar uma camiseta com os dizeres: “Estamos a cinco minutos do bar”. – Asas de galinha. Que delícia! Beth havia trocado os hambúrgueres do Jasper’s pelas asas de galinha há algumas semanas e agora não conseguia se saciar delas. Vê-la lamber o molho dos dedos também produzia um efeito devastador no apetite insaciável de Kevin, mas no seu caso, não seria o frango a satisfazê-lo.


Ansiava por Beth. Não apenas na cama, embora o desejo de fazer sexo com ela fosse sufocante. Mas necessitava dela de forma geral. Queria dividir sua vida com Beth, mas a última vez que sugerira a possibilidade, ela se limitara a gargalhar. Trabalhavam juntos, passavam a maior parte do tempo na companhia um do outro e eram vizinhos de porta. O que mais queria compartilhar com Beth? Tudo. Queria se livrar daquele 1,5m de distância. Mas depois que a risada de Beth cessara, ela se mostrara irritada e Kevin deixara morrer o assunto. A última coisa que desejava era que ela se sentisse desconfortável com a situação em que se encontravam no momento. O que ele mais temia era pressioná-la demais e vê-la pegar um ônibus para a Flórida e deixá-lo para trás. Então, por enquanto, decidira manter as mãos longe de Beth e bancar o vizinho amigo que, por acaso, era pai do filho que ela estava esperando. Mas era difícil. E estava se tornando pior a cada dia.


CAPÍTULO 18

Junho

PAULIE OLHAVA para o espelho do banheiro do quarto em que estava hospedada em um hotel sofisticado de Boston e se deparou com a imagem de Paulette Atherton. Odiava aquela mulher. Detestava o cabelo domado e preso em um coque. Abominava a maquiagem, embora sutil e de bom gosto. As alças delicadas da lingerie que seria coberta por um vestido de verão elegante, perfeito para ser usado em um brunch no country club, em junho. Os pais estariam presentes. Sam dissera-lhe que ficariam todos reunidos na mesma mesa porque passara da hora de eles se reconciliarem. O que ele não conseguia enxergar era a impossibilidade de Paulie reconciliar a mulher que era com aquela que eles desejavam que fosse. Após quatro meses de feliz convivência com Sam em seu novo mundo, chegara o momento de tentar voltar àquele em que ele vivia. Há algum tempo, o ex-noivo tentava convencê-la a dar aquele passo e o evento beneficente e discreto lhe fora sugerido em um momento de ternura e... Enfim, lá estava ela. Paulette Atherton. Paulie detestava tudo que se relacionava àquele nome. Além disso, não era tola. Sam a pressionava cada vez mais a acompanhá-lo. Quando o trabalho em New Hampshire fosse concluído, não faria sentido algum ele permanecer na ponte aérea. Sabia que tentaria convencê-la a se mudar para Boston e, por fim, o estaria detestando tanto quanto odiava a imagem


que o espelho lhe mostrava naquele momento. Ele que se danasse! Que se danassem todos! Talvez fosse melhor acabar com aquilo tudo logo de uma vez do que esperar até que estivessem mais envolvidos do que já estavam. Embora fosse doloroso, seria pior ainda quando o amor entrasse na equação, tentou se convencer Paulie. Após despejar a nécessaire com produtos de cuidados com o cabelo sobre a bancada, Paulie soltou-o como costumava usá-lo: ruivo e enorme como os das líderes de torcida dos anos 1980. Em seguida, tratou de cuidar do resto. Caprichou no delineador, vestiu o jeans desbotado favorito, tênis, uma regata preta com uma enorme jaqueta de jérsei dos Boston Bruins esfiapada nos punhos. Aquela era a verdadeira Paulie, e se Sam não gostasse, que fosse para o inferno, pensou, colocando as argolas douradas na orelha. Depois, despejou o conteúdo da bolsa sofisticada e fez o que estava acostumada a fazer: enfiou a carteira de motorista e o cartão de crédito no bolso traseiro do jeans e as chaves no dianteiro. Naquele instante, recebeu um telefonema da recepção, avisando-a de que o carro que a viria buscar chegara. O salão de festas do country club imergiu em silêncio quando Paulie entrou, mas aquela reação não a pegou desprevenida. Também estava preparada para a indignação silenciosa que sequestrava a cor do rosto da mãe e para o modo como o pai comprimiu os lábios. Não pareciam nem um pouco felizes em se reunirem com a filha que não viam há quase seis anos. Limitavam-se a demonstrar o mesmo despontamento de sempre. O que a surpreendeu foi a expressão de Sam. O divertimento lhe curvava os cantos dos lábios e lhe estreitava o olhar. E o modo como a observava se aproximar da mesa expressava tudo, menos desaprovação. – Paulette Lillian Atherton, o que pensa estar fazendo? – sibilou a mãe entre dentes quando ela se encaminhou à cadeira vazia. – Eu me chamo Paulie Reed agora, mamãe. – Ela se sentou na cadeira que Sam puxou, embora não esperasse permanecer ali por muito tempo. – Esta sou eu. Meu verdadeiro eu, e fique à vontade para aceitar ou não. – Todos estão olhando para você. – E daí? O pai se inclinou sobre a mesa para se fazer ouvir, apesar do tom de voz baixo.


– Como foi capaz de fazer isto com Sam? Envergonhá-lo na frente de amigos e colegas de trabalho dessa forma? – Na verdade, Richard – interveio Sam. – Não estou envergonhado. Sinto muito que pense assim. Paulie ficou tão perplexa quanto os pais. O que Richard dizia fazia sentido. O salão estava repleto de pessoas importantes na vida profissional e pessoal de Sam, mas ele não parecia em nada aborrecido com o fato de sua acompanhante ter chegado com o visual de uma líder de torcida dos anos 1980. – Olhe para ela – argumentou a mãe. – Sinceramente, fico surpresa que não a tenham barrado na entrada. Na verdade, Paulie tivera de convencê-los a deixá-la entrar, inventando uma mentira sobre ter tido problemas com a bagagem e precisar do cartão de crédito do pai para comprar roupas novas. Só o sobrenome Atherton e o fato de eles estarem acostumados a ver jovens desesperadas pelos cartões de crédito dos pais os convencera a deixá-la passar. Um pé cutucou-a e Paulie desviou o olhar para Sam. Com uma piscadela, ele roçou o tornozelo ao dela. – Poderia ser pior. Paulie poderia estar com a jaqueta dos Canadiens. – Você é uma vergonha – disse o pai, infelizmente não pela primeira vez. Sam ergueu-se da cadeira e lhe ofereceu a mão. – Richard, sra. Atherton, se nos dão licença, estamos de saída. Os pais começaram a argumentar, parecendo à beira de uma síncope, mas Sam espalmou uma das mãos nas costas de Paulie e a guiou para fora do salão, onde entregou o tíquete de estacionamento ao manobrista. – Desculpe – sussurrou ela, após alguns minutos. – Não deveria ter feito isto. – Eles deveriam ao menos fingir estarem contentes em reencontrá-la. – Se estivesse vestida com a minha primeira opção de roupa, talvez tivessem se esforçado. – O manobrista estacionou o carro próximo à calçada e Sam se adiantou para abrir a porta. Ela se manteve em silêncio até Sam entrar e dar partida no carro. – Deveria ter parado para pensar no quanto isto o afetaria. – Não me afetará. Sou um Logan e ninguém ousará se opor à minha família ou aos fundos que doam. Sam não soou arrogante, apenas constatou um fato. Verídico. Como ele nada acrescentou, Paulie recostou-se no banco e limitou-se a observar a


paisagem. Quando ele estacionou diante do hotel, Paulie imaginou que ele a dispensaria, com a desculpa que lhe telefonaria outro dia. Em vez disso, ele entregou o carro ao manobrista e a acompanhou. Ainda em profundo silêncio, subiram no elevador até o quarto suntuoso. Só quando se encontravam dentro do quarto, com a porta fechada, foi que Sam falou. – Uma vez me disse que desejava ser minha mulher e não a do sr. Samuel Logan IV. Acho que agora entendi o sentido. – Paulie sentiu-se aliviada porque não sabia se seria capaz de explicar melhor. – Mas a questão é a seguinte: não estava pedindo Paulette Atherton em casamento. Naquela época, não sabia que ela era Paulie, mas era a mulher com quem queria me casar. – Você só conheceu a Paulette. – Está enganada. Nunca a tinha visto em jeans e jaqueta esportivas, mas a via na essência. Sua verdadeira identidade. Paulie queria acreditar naquelas palavras, crer que o homem a quem amava fora capaz de percebê-la como de fato era, mas lhe parecia impossível. – Minha verdadeira identidade estava muito bem escondida. – Lembra-se do banquete para levantar fundos para o senador no Yacht Club? – Isso só prova que estou certa. Desempenhei com perfeição o papel de esposa de Stepford naquele dia. Sam fechou a mão sobre a jaqueta de Jersey que ela usava e a puxou para perto. – Eu tinha esquecido algo no meu carro, então estava no estacionamento quando você chegou com a capota arriada e o som da música no último volume. Estava cantando a plenos pulmões, como se não se importasse com quem estivesse ouvindo. Depois, vi quando conferiu sua aparência no retrovisor, para se certificar de que parecia apresentável. Quando concluiu que estava perfeita, fez um gesto grosseiro com o dedo do meio para a imagem refletida. Paulie se lembrava daquele momento. – Foi quando me convidou para sair pela primeira vez. – Eu queria você. O fato de ser uma mulher elegante e bem-vestida vinha como bônus, porque a verdade é que sou um empresário e esse é o círculo onde transito. Mas queria a mulher que dirigia em alta velocidade e cantava


alto. Pensei que a pressão causada pelo casamento e o fato de estar sob os holofotes a haviam deixado tensa, mas depois que nos casássemos, esperava reencontrá-la. Agora, gostaria de ter dito algo nesse sentido antes que fosse tarde demais. – Mas essa é a sua vida. – Eu abriria mão dela por você, mas não posso. Muitas pessoas dependem de mim. Mas essa é apenas parte da minha vida. E não se iluda. Desde que eu envie um cheque gordo, não se importarão com a minha presença nos eventos, ainda mais quando estou fora do mercado. Um tênue raio de esperança infiltrou-se nas emoções turbulentas de Paulie, apesar dos esforços para bloqueá-la. – Você está fora do mercado? – Acho que estou fora dele desde aquele dia no Yacht Club. – Sam escorregou as mãos pelas costas delicadas e as parou na cintura de Paulie. – Não vou mentir para você. Significaria muito para mim se me acompanhasse em algumas ocasiões, com uma aparência deslumbrante. Mas quero a vida que estamos tendo nos últimos meses. Viajar na ponte aérea, tomar uma cerveja servida por você, levá-la para a cama e fazer sexo, muitas vezes. – Parece um ótimo plano. – Paulie envolveu-o pelo pescoço com os braços. – Sou capaz de fazer isso também. Estou me referindo aos eventos sociais. Em alguns, talvez. Será mais fácil, sabendo que você não tem muitas expectativas. – Eu te amo. – Sam inclinou a cabeça e tomou seus lábios. Paulie deleitou-se naquele beijo. O primeiro que trocavam livre de dúvidas, questões pessoais mal resolvidas ou expectativas. – Eu também te amo – confessou ela com um sorriso quando Sam interrompeu o beijo. – Nunca deixei de te amar. Soltando a cintura de Paulie, ele retirou uma pequena caixa do bolso interno do blazer. Lágrimas encharcaram os olhos dela enquanto imaginava se deveria revelar que ainda tinha o primeiro anel que ele lhe dera: um diamante monstruoso, guardado na gaveta da cômoda. No entanto, pousando o olhar nas duas alianças de ouro, com entalhes intrincados, mas ainda assim simples e elegantes, preferiu se calar. – Desta vez, pensei em algo discreto, que estivesse mais em sintonia com o seu novo estilo de vida do que uma pedra enorme. Paulie fungou, limpando as lágrimas que rolavam pelo rosto.


– São lindas. E perfeitas. – Paulie Reed, quer se casar comigo? Não com o que represento ou tudo mais. Apenas comigo? Com o coração batendo na garganta, ela aceitou. No segundo seguinte, Sam a beijava outra vez. E só parou muito tempo depois. BETH NÃO se importava com o que mostrava o calendário. Estava pronta para dar à luz. E se o bebê não nascesse logo, perderia seu precioso juízo. Os vinte dias restantes que fossem para o inferno. Queria ser capaz de ver os próprios pés, dormir de bruços, não sentir azia e não se preocupar se o elevador despencaria sob a pressão de seu considerável peso. O pior era que estavam apenas na primeira semana de junho e ela sentia um calor descomunal. Mas, acima de tudo, desejava que as pessoas parassem de cercá-la, querendo saber como estava se sentindo e insistindo em fazer tudo para ela. Queria que a deixassem em paz. – Espere mais algumas horas e eu a levarei – disse Kevin. Encarando-o com um olhar furioso, Beth mal resistiu ao impulso de bater o pé no chão como uma criança pirracenta. – Não preciso que me leve até a loja. Mulheres grávidas fazem compras o tempo todo. Kevin enfiou a mão no bolso e de lá retirou as chaves. – Ao menos leve a caminhonete. – Não consigo subir e descer daquele maldito carro. Vou pegar um táxi. O que também é rotina na vida de uma gestante. Kevin cruzou os braços e ela o observou contrair a mandíbula naquela expressão obstinada familiar. – Esta ideia não me agrada. – Não me importo. – Beth. – Kevin. – Ela fez que não com a cabeça, cansada daquela conversa. – Passei pelo bar para lhe avisar que vou sair por pura consideração. Apenas para que ficasse sabendo que estou saindo e para onde vou. – Mas acho que não... – Deixei claro desde o dia em que me mudei para cá... Ou melhor, desde o dia em que você decidiu me mudar para cá, que não o deixaria controlar


minha vida. – E eu deixei claro desde o primeiro dia que me preocupar com você ou com sua segurança e bem-estar não significa controlar sua vida, mas que me importo com você. Estaria tendo esta mesma conversa com Paulie se ela estivesse a três semanas do parto e quisesse sair sozinha. – E Paulie iria mandá-lo para o inferno. Kevin deu de ombros. – Talvez. – Sim, iria e é o que farei. – Beth girou nos calcanhares e se afastou, decidida, para constatar que mais da metade da clientela os observava. – Se não quer que eu a leve, então vá com Paulie. Beth teria virado para encará-lo, mas faltava-lhe flexibilidade no momento, portanto se contentou em dizer por sobre o ombro: – Deixe-me em paz. O táxi a aguardava na calçada. Beth entrou no banco traseiro o mais rápido que pôde, antes que Kevin decidisse segui-la. Quando o táxi se afastou do Jasper’s, ela inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Mais tarde se desculparia com Kevin, ele se mostraria compreensivo e dariam início ao mesmo ciclo outra vez. Amigos. Depois, ele pressionaria um pouco mais. E mais, até que ela tivesse de travá-lo. Apenas para se sentir mal com o que fizera e tentar fazê-lo entender. Kevin iria reclamar e mais uma vez se desentenderiam. Aquela rotina estava lhe dando nos nervos. O bebê também... Literalmente. Queria apenas se sentir normal outra vez. Quando não estivesse mais parecendo um balão inflado, Kevin pararia com toda aquela opressão e as brigas cessariam. Talvez começassem a explorar o tipo de relacionamento que de fato tinham. Se tivessem algum. Presumindo que não se estrangulassem antes disso. O barulho estridente de uma freada a fez abrir os olhos no instante em que o táxi pareceu explodir em uma chuva de cacos de vidro e metal rangente. Beth mal teve tempo de proteger a barriga com os braços antes de perder a consciência. KEVIN ESTAVA trabalhando atrás do balcão. Servindo, limpando, soltando fumaça pelo nariz e lançando olhares fulminantes.


Tio de quatro crianças, ele sabia que uma mulher no último estágio da gravidez costumava se mostrar irracional. Às vezes, de uma forma desagradável. E restando apenas vinte dias para o parto, Beth se encontrava exatamente naquele estágio. Embora ele fosse capaz de amarrar o cadarço dos próprios sapatos e dormir em uma posição confortável, sua vida também não estava um mar de rosas. Não aguentava mais ouvir palavras agressivas todas as vezes que tentava facilitar as coisas para Beth. Sabia que ela estava com razão. Mulheres grávidas faziam compras sozinhas o tempo todo. E pegavam táxis, mas a diferença entre todas as outras gestantes e Beth é que elas não eram suas. Mas de acordo com que ela dizia, Beth também não lhe pertencia, então que diabos tinha de opinar? O telefone pendurado na parede tocou e, como ninguém se dispôs a atender, ele cobriu uma das orelhas com a mão e encostou o fone na outra. – Jasper’s Bar & Grille. – Olá. É o oficial Jonesy. O olhar de Kevin desviou-se para o calendário pendurado na parede, tentando lembrar para qual jogo o policial desejava ingressos dessa vez. – Jonesy! O que você manda? – Houve um acidente. – Beth. E, com aquele pensamento, Kevin se esqueceu de como respirar. Os joelhos cederam, forçando-o a espalmar a mão livre na parede para ter algo sólido em que se apoiar enquanto o bar girava diante dele. – Um ônibus avançou o sinal e colidiu com o carro onde Beth estava. Ela havia sido atingida por um maldito ônibus? Kevin abriu a boca três vezes, antes de conseguir proferir as palavras. – Qual é a gravidade? Por favor, não me diga “Sinto muito, mas ela não resistiu”. – Não sei lhe informar. Está a caminho do hospital e acabei de virar a esquina da sua rua. Chegarei aí em trinta segundos. Kevin desligou o telefone, explicou para Paulie o que havia acontecido e pediu para que ela ligasse para sua mãe. Em seguida, saiu para a calçada no momento em que Jonesy parava o carro da patrulha diante do bar, com as luzes e a sirene ligadas. Mal entrou no carro e fechou a porta, o policial fez uma curva fechada e disparou na direção do hospital. – Alguém lhe deu alguma informação?


Jonesy fez que não com a cabeça. – Cheguei tarde ao local do acidente. Estava incumbido de controlar o tráfego, mas quando ouvi o nome de Beth me ofereci para levá-lo ao hospital. – O motorista... Você disse que o carro foi atingido por um ônibus? – Ele não dirigia em alta velocidade, portanto talvez não seja tão grave quanto está pensando, embora a colisão tenha atingido o lado onde ela estava sentada. Kevin não conseguiu fazer nenhum comentário porque temia colocar todo o conteúdo do estômago para fora. O lado onde ela estava sentada. Beth tinha de estar bem. E o bebê também. Inclinando-se para a frente, ele envolveu o tórax com o braço. O bebê estaria bem? A gravidez estava quase no fim, então se ela entrasse em trabalho de parto, a criança sobreviveria. Tinha quase certeza de que sim. Mas não o suficiente para ser capaz de colocar qualquer quantidade de ar nos pulmões. Quando Jonesy diminuiu a velocidade para parar diante da entrada da emergência, Kevin já estava saltando pela porta. – Obrigado. – Boa sorte. Kevin irrompeu pela porta e se dirigiu direto ao balcão da admissão, quase não contendo o ímpeto de esmurrar o vidro quando a enfermeira demorou alguns segundos para atendê-lo. – Beth Hansen. Ela sofreu um acidente de carro e... A enfermeira ergueu uma das mãos para interrompê-lo. – É um parente? – Hum... Talvez, uma espécie de parente? – Sinto muito, senhor. Terá de aguardar na sala de espera. – Espere! – disse ele quando a mulher começou a fechar a janela. – Ela está grávida. Sou o pai. Sou parente do bebê. A expressão da mulher suavizou. – Pode seguir pela direita, mas fiquei sabendo que os batimentos cardíacos do bebê estavam bem fortes. – E Beth? – Amava o bebê, mas, naquele momento, o filho não passava de uma trouxinha de sonhos e possibilidades que lhe chutava a mão quando ele tocava a barriga da mãe. Mas Beth era real, o presente e… ele a amava. Deus, ele a amava!


– Os médicos a estão examinando agora, senhor. Há mais alguém a quem devemos contatar? Algum parente. Kevin sentia a garganta apertar e teve de sacudir a cabeça para poder falar. – Os pais dela moram na Flórida. Eu ligarei para eles. Mas Beth não tem ninguém aqui. Apenas a mim. Ela teve de preencher alguns formulários de pré-internação para o parto e estou registrado como o contato. Tudo que ela tem sou eu e lhe prometi que ela jamais estaria sozinha, portanto se puder me deixar entrar... – Os médicos estão com ela no momento. Prometo que alguém virá procurá-lo quando tiver notícias. Kevin teve a impressão de estar sentado há horas naquela cadeira desconfortável, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos sustentando a cabeça. Fitava o piso de cerâmica horrendo, sem vê-lo, quando sentiu alguém lhe tocar as costas. Ele se sobressaltou e ergueu o olhar para se deparar com Terry. Ainda a abraçava quando Mike e Lisa entraram, felizmente sem as crianças. Não havia dúvidas de que, em pouco tempo, todos os membros da família estariam ali, porque os Kowalski não passavam por nada sozinhos. Graças a Deus! – Teve alguma notícia? – perguntou Lisa, esfregando a mão no braço de Kevin. – Não. A enfermeira me disse que os batimentos cardíacos do bebê eram fortes, mas que os médicos estavam com Beth. Não sei o que isso significa. Joe e Keri chegaram cinco minutos depois, acompanhados de Mary e Leo, portanto Kevin teve de repetir a rotina de abraços e lhes comunicar a falta de notícias também. Em seguida, sentou-se e voltou a olhar o chão. A mãe acomodou-se ao lado dele e lhe apertou um dos joelhos. – Telefonei para Shelly e Artie. Eles estão a caminho do aeroporto, mas está caindo um temporal lá e... Bem, chegarão o mais rápido que puderem. Estive rezando por ela desde que Paulie me telefonou. – Obrigado. – Achei que deveria, já que todos sabemos que você não é muito bom com orações. Era verdade, mas também estava fazendo sua cota de barganha com qualquer poder supremo que pudesse ouvi-lo. Deixou o leque de opções em


aberto, porque, naquele momento, não podia arriscar esquecer ninguém lá em cima capaz de ajudar. Um relógio antigo badalou na parede da sala de espera e Kevin se deteve ouvindo o tique-taque que marcava cada segundo até pensar que iria enlouquecer. Sabia que todos tinham boa intenção, mas quando um grupo barulhento como os Kowalski ficava silencioso a ponto de ser possível ouvir as batidas de um relógio... Era assustador. Muitos tique-taques depois, um médico entrou na sala de espera. Um homem alto com cabelo grisalho nas têmporas, que exalava um ar confiante, mas foi na expressão séria estampada em seu rosto que Kevin se concentrou. Ele se ergueu, mal percebendo que todos os familiares fizeram o mesmo e que a mãe lhe envolvia a cintura com o braço. – Sinto muito – disse o médico, fazendo com que os joelhos de Kevin cedessem. Ele teria desabado no chão, se Joe não o segurasse e o sentasse na cadeira. – Mas a enfermeira não anotou seu nome. Soltando a respiração que estava prendendo, Kevin limitou-se a erguer o olhar para o médico. Joe clareou a garganta. – Quando uma família está esperando notícias de um ente querido, não deveria começar a conversa com “sinto muito”. O médico pareceu surpreso. – Claro. Peço-lhes perdão. – Meu nome é Kevin. Kevin Kowalski. Como está Beth? – Estável. Felizmente os ferimentos não foram graves. Apenas alguns hematomas, edemas e lacerações causadas pelos estilhaços de vidro. Kevin aconchegou-se no abraço da mãe, com lágrimas de alívio lhe embaçando a visão. – E o bebê? – Os sinais vitais estão estáveis. Como é comum acontecer, o trauma adiantou o trabalho de parto, mas o bebê já está praticamente com nove meses, então deixaremos que aconteça normalmente. Assim que ela der à luz a criança, poderemos lhe aplicar medicação para a dor. Você é o pai? O acompanhante na sala de parto? Droga! – O quê? – Sim, ele é – respondeu Mary. – Então precisa me acompanhar. Está prestes a se tornar pai.


O mundo pareceu girar por alguns segundos, antes de tudo escurecer.


CAPÍTULO 19

KEVIN RECOBROU a consciência no chão da sala de espera, com a cabeça pousada sobre o colo da mãe. Ela não deveria estar sentada na cerâmica fria daquele modo. O pensamento o fez se forçar a levantar. Mike segurou-o pelo braço para ajudá-lo. – Não se apresse, Scarlett. – Vá para o inferno, Mikey. – Ora, não é todo o dia que vejo um de meus irmãos desfalecer. – Desfalecer é um termo que remete à delicadeza feminina – disse Joe. – Estava mais para um caminhão de cimento fazendo uma curva fechada e tombando montanha abaixo. – Cretinos. – Meninos! – repreendeu-os Mary. – Basta! O médico clareou a garganta. – O desmaio não é algo incomum entre os pais de primeira viagem, ainda mais considerando as circunstâncias. Depois que lhe dermos um suco de laranja, vai se sentir novo em folha. No momento, Kevin se sentia como um potro recém-nascido, tentando se manter de pé sobre as pernas bambas. – Estou bem. Quero apenas ver Beth. – Fique sentado aqui – ordenou o médico. – Vamos transferi-la lá para cima e, dentro de alguns minutos, a enfermeira o levará até ela. – Vou ter um filho. – Kevin se sentou e se recostou à parede. – Minha nossa! – Muito bem – disse Mary com sua autoridade de mãe. – Todos para o apartamento de Beth. Kevin, você sabe se ela já havia preparado a mala da


maternidade? – Eu... Não sei. As chaves sobressalentes ficam no cofre do meu escritório. Paulie lhes dará a do apartamento de Beth. – Theresa, Lisa e Keri vão procurar a mala e, se não encontrarem, prepararão uma. Michael e Joseph trarão a mala da maternidade e a caminhonete de Kevin para cá enquanto as meninas se encarregam de deixar o apartamento preparado para quando a mamãe voltar para casa com o bebê. Eu e seu pai ficaremos aqui. – Pode demorar, mãe. – Acho que entendo um pouco de partos, querido. Mas se precisar descansar ou... se sair da pista e bater na mureta de proteção outra vez, quero estar aqui para que Beth não fique sozinha. Kevin apertou a mão da mãe, disposto a relevar a ferroada em sua masculinidade pelo fato de Mary se preocupar em não deixar Beth sem ninguém da família. – Depois que o bebê nascer, prepararei alguns ensopados para dividir em porções e congelar. Mas por ora, é tudo que podemos fazer. Telefonarei para vocês assim que tiver novidades. Todos, exceto os pais, deixaram a sala de espera no momento em que uma enfermeira apareceu com um copo de suco de laranja e alguns biscoitos. Kevin foi obrigado a consumi-los sob o olhar vigilante de Mary. Em seguida, a enfermeira os levou ao andar superior. Após vários abraços e algumas lágrimas maternas, Kevin deixou os pais na sala de espera da ala da maternidade e, por fim, foi levado até o quarto de Beth. Encontrou-a deitada na cama, parecendo pequena e pálida, com alguns hematomas e arranhões no rosto e nos braços. Mas estava acordada, bem e conseguiu até mesmo sorrir quando o viu parado na porta. – Kevin. Você está aqui. – Claro que estou. – Ele puxou uma cadeira para a beirada da cama, para que pudesse se sentar e lhe segurar a mão. – Estou aqui há algum tempo. Jonesy foi me buscar na viatura e, pouco depois, toda a minha família se materializou na sala de espera. Eu desmaiei e tive de tomar um suco de laranja e comer alguns biscoitos antes de ser autorizado a subir. Mas agora estou aqui. – Uma carona na viatura e um lanchinho. Parece que esteve se divertindo.


Kevin soltou uma risada que durou apenas um segundo, porque Beth inspirou fundo e lhe apertou a mão com tanta força que ele teve a impressão de ouvir os ossos rangerem. – Respire, querida. Durará apenas alguns segundos. Os mais longos segundos da vida de Kevin, embora soubesse que as dores iriam apenas piorar. E muito. Quando a contração passou, Beth estava com lágrimas nos olhos. – Ainda não havia colocado os lençóis no berço do bebê. Não queria que ficassem empoeirados. – Não precisa se preocupar com isso agora. Beth exibiu um sorriso frouxo. – Não me diga que sua família saiu daqui em peso direto para o meu apartamento. – Meus pais ficaram, mas o restante... sim. Mamãe se encarregou de organizar as tropas. Mas ninguém está tentando oprimi-la, apenas... – Não precisa explicar. Entendi. Quando eu chegar em casa, estará tudo preparado para o bebê, o apartamento impecável e, conhecendo sua mãe como conheço, o refrigerador estará abastecido e a roupa lavada. Apenas por que gostam de mim e esse é o jeito deles. – Minha família te ama. – Kevin estava a ponto de lhe dizer que não era apenas a família que a amava, quando outra contração forte distorceu as feições de Beth em uma careta de dor e a enfermeira se aproximou para examiná-la. Segundos depois, outra contração sobreveio e ele perdeu a oportunidade. Haveria tempo para lhe dizer mais tarde quando ela não estivesse gritando de agonia. Por ora, tudo que podia fazer era lhe segurar a mão, estimulá-la a respirar e esperar. Em algum momento durante aquela provação, Mary conseguiu entrar no quarto. Enquanto afastava uma mecha de cabelo da testa úmida de Beth, ela sorriu para o filho. – A tempestade na Flórida está passando e seus pais esperam embarcar em breve. Pediram para que lhe dissesse que eles a amam. – Uma parte de mim espera que eles cheguem aqui a tempo – respondeu Beth. – Mas outra não quer que este suplício se prolongue. Mary sorriu e limpou a testa de Beth com uma toalha molhada. – Por que não vai descansar um pouco, Kevin? Tomar um café ou algo assim?


Antes que ele conseguisse responder que não iria a lugar algum, Beth lhe cravou as unhas no punho. – Não. Não vá. Preciso de você aqui. – Não irei a lugar algum. – Kevin puxou o braço para se livrar das garras que o apertavam e lhe segurou a mão. Era uma sensação maravilhosa perceber que Beth precisava dele, mesmo que sob circunstâncias extremas. – Estou bem, mãe. Mary permaneceu lá por mais alguns minutos. Em seguida, beijou os dois na testa e voltou à sala de espera. Ele sabia que a mãe telefonaria para todos, atualizando-os sobre as últimas notícias. Kevin ocupou-se, aplicando compressas de água fria com uma toalha molhada na testa de Beth, dando-lhe cubos de gelo para chupar, segurandolhe a mão, orientando-a sobre a respiração durante as contrações e assegurando-lhe repetidas vezes que logo tudo aquilo passaria. Após as seis horas mais longas e exaustivas de sua vida, o médico ergueu uma criatura pequena e vermelha, que se contorcia e berrava. – É uma menina. – Uma menina – sussurrou Beth. Os profissionais levaram a bebê por alguns segundos antes de deitá-la sobre o peito de Beth. A criança parecia mais um tomate contrariado, munido de braços e pernas. Mas Kevin a achou linda. – Lily. Lily Ann Kowalski. Beth acariciou o couro cabeludo quase liso da filha e brindou Kevin com o mais belo e emocionado sorriso que ele já vira. Todas as frustrações e temores dos últimos meses se dissiparam e ele se dedicou a desfrutar do calor e da felicidade do momento mais perfeito de sua vida. QUANDO BETH abriu os olhos, deparou-se com uma dor de cabeça, um quarto de hospital e Kevin roncando na cadeira do acompanhante. A princípio, pensou estar sonhando, mas a lembrança enevoada do metal retorcido rangendo e de vidros se estilhaçando a arrastou de volta à realidade presente. O bebê. Pressionando a mão sobre o abdome, sentiu-o plano e vazio. No mesmo instante, o sono induzido pelos analgésicos se dissipou nas


lembranças do trabalho de parto e de Kevin lhe acariciando o cabelo e lhe segurando a mão. Devia ter deixado escapar algum som, porque ele se remexeu e acordou. – Beth. – Lily? O sorriso que iluminou o rosto de Kevin lhe transmitiu tudo que importava. – Ela é linda. – Onde ela está? Kevin andou até a beirada da cama e se sentou meio desajeitado sobre o colchão. – Lily está no berçário, talvez imaginando por que um bando de pessoas parecidas com o pai e duas bem diferentes estão com os rostos colados ao vidro, sem tirar os olhos dela. Beth concluiu que os pais conseguiram chegar. – Lily está bem? Kevin lhe ergueu uma das mãos e lhe pressionou um beijo na palma. – Ela é perfeita. Escandalosa, mas perfeita. Com lágrimas embaçando-lhe a visão, Beth ficou agradecida pelo fato de ele não lhe soltar a mão. Bem que estava precisando de um pouco da força de Kevin. – Sinto-me como se tivesse sido atropelada por um ônibus. Kevin soltou uma risada tão alta que as enfermeiras entraram para ver o que estava acontecendo. Ele teve de lhe soltar a mão e sair do caminho, mas não se afastou. Sentou-se de volta na cadeira e aguardou enquanto as profissionais a examinavam. Beth estava sentindo muita dor, não apenas pelo parto, mas pelos ferimentos resultantes do acidente. A cabeça latejava e todo o lado direito do corpo doía. – Poderá contar com ajuda em casa? – perguntou a enfermeira mais velha. – Só receberá alta amanhã, mas ainda assim, terá dificuldades por causa dos ferimentos, então precisamos saber se terá ajuda. Kevin piscou para ela, atrás da enfermeira. – Acredite em mim, ela terá muita ajuda. Conhecendo a família de Kevin, tinha certeza de que estaria suplicando para que não a ajudassem tanto antes de a semana chegar ao fim. Ou talvez não, pensou Beth enquanto tentava se levantar para sentar na cama, sem


sucesso. Não poderia ficar sozinha com a bebê até ser capaz de se mover sem a ajuda dos medicamentos, portanto teria de se resignar com uma semana de assistência. Àquela altura, Mary já teria montado uma escala de revezamento e a grudado na porta da geladeira. Mas se preocuparia com aquele problema mais tarde. No momento, tudo que desejava era ter a filha nos braços. Após erguer a cabeceira da cama e ajeitá-la sobre os travesseiros, as enfermeiras lhe trouxeram a filha. Lily estava embrulhada em um cobertor rosa, o rosto miúdo quase sereno durante o sono. Os lindos lábios parecidos com um botão de rosa formaram um discreto beicinho quando Beth lhe acariciou a pele sedosa da bochecha, mas ainda assim, não acordou. As enfermeiras se retiraram deixando-os a sós. Ela desembrulhou o cobertor e memorizou cada contorno perfeito da filha. Ainda era cedo para saber que cor seriam seus olhos, mas a bebê nascera com as covinhas do pai. – Ela é maravilhosa – disse Kevin, parado ao lado da cama, embora Beth não o tivesse percebido se aproximar. – Como você. – E como você também. Estava preocupada, após sua reação com o vídeo no curso de preparo para o parto. Kevin sentou-se outra vez na beirada da cama. – É diferente quando a mulher que… você gosta é quem está sentindo dor. A hesitação de Kevin não lhe passou despercebida. O coração acelerando enquanto imaginava o que ele estivera prestes a dizer. Certamente não o que sua imaginação fértil presumira. Kevin sentia-se atraído por ela e queria cuidar da mãe de sua filha, mas nunca sequer insinuara que a amava. No fundo, uma parte dela urrava de alegria diante daquela possibilidade, porém, a parcela racional de Beth, que controlara todas as suas ações durante o período da gravidez, ficou feliz por Kevin nunca ter dado voz àquele sentimento, mesmo que fosse verdadeiro. Se ele dissesse aquelas palavras, Beth ficaria questionando se o que o motivara não fora a emoção do nascimento da filha. E não se era forte o suficiente para resistir àquele homem. Tomar qualquer decisão em um momento como aquele seria um erro, ainda mais quando essa decisão teria impacto profundo, não apenas no futuro de ambos, mas também no da filha.


– Então, fale-me sobre a ajuda que terei em casa – sugeriu Beth, em um esforço para mudar a direção que os pensamentos tomavam. Pior seria se Kevin estivesse querendo lhe dizer que se mudaria para seu apartamento até que ela se recuperasse. A presença de Kevin lhe pouparia o esforço físico, mas não ajudaria em nada a manter a sanidade mental. – Minha mãe, Lisa e Terry já resolveram este problema, eu acho. Seus pais ficarão hospedados na casa dos meus, mas Shelly passará algum tempo com você. Acho que com todas estas… questões relacionadas ao pós-parto, ficará mais à vontade tendo uma mulher por perto para ajudá-la. Por que Kevin tinha de ser tão ponderado durante todo o tempo? – Obrigada. – Ainda assim, ficarei por perto, se precisar de mim. – Kevin esfregou o rosto com as mãos e, antes que pudesse mascará-lo, ela percebeu o cansaço estampado naqueles belos traços. – Deveria ir para casa – sugeriu Beth. – Esticar-se em uma cama de verdade e dormir um pouco. – Não vou a lugar algum. Dormi um pouco na cadeira, então ficarei bem. – Dormir sentado em uma cadeira desconfortável não é mesmo que ter uma noite de sono decente. Basta acionar um botão e Lily e eu teremos uma equipe inteira de enfermeiras ao nosso dispor. Minha mãe deve estar querendo passar algum tempo comigo. Não precisa ficar. – Sei que não preciso, mas quero – afirmou Kevin, fitando-a com semblante sério. – Não estou preparado para deixá-la ainda. Quando Jonesy me telefonou para me dizer que seu táxi havia sido atingindo por um ônibus... – Estou bem agora. – Eu não estou. – Kevin segurou-lhe a mão livre. – Quando pensei… Depois daquele telefonema percebi algo importante. – Por favor, não, pensou Beth. Não queria ouvi-lo dizer aquelas palavras quando se sentia incapaz de acreditar que não haviam sido inspiradas pela gangorra emocional pela qual acabaram de passar. – Eu te amo. – A felicidade e a tristeza travaram uma batalha na mente de Beth e a fizeram negar com um gesto de cabeça. – E não me diga que eu não te amo. – Sofri um acidente de carro e, logo depois, nosso bebê nasceu. Após uma reviravolta como esta, é natural que nossas emoções estejam exacerbadas e... – Chega. – Kevin levantou-se e soltou sua mão. – Esqueça o que eu disse.


Como se ela fosse capaz de esquecer que ouvira aquelas palavras! – Não, vamos conversar sobre o assunto. Kevin fez que não com a cabeça. – Estou muito cansado para ficar parado aqui, ouvindo você dizer que meus sentimentos não são verdadeiros, mas não sou tão cretino a ponto de discutir com você quando acabou de dar à luz. Como se aproveitando a deixa, Lily começou a emitir grunhidos que pareciam o prenúncio de um berreiro. Kevin inclinou a cabeça e beijou a testa da filha. – Acho que tem razão. É lógico que você estará muito bem-cuidada aqui. Seus pais querem vê-la e eu preciso de algumas horas de sono. Ligue-me se precisar de qualquer coisa. Caso contrário, eu a verei mais tarde. Kevin saiu do quarto sem lhe sustentar o olhar, deixando-a em pânico. Ela queria chamá-lo de volta para que pudessem discutir o assunto, mas Lily deixou claro que não se importava com o que estava acontecendo entre os pais. Precisava se alimentar. Beth tocou a campainha, e só quando a enfermeira lhe entregou um lenço de papel e lhe garantiu que era normal ficar emotiva naquela fase foi que ela se deu conta de que estava chorando. KEVIN ESTAMPOU seu mais alegre sorriso antes de entrar no quarto do hospital. Uma habilidade conseguida após anos servindo atrás de um balcão de bar. Aquele era o dia que as levaria para casa e não queria que a discussão do dia anterior sequestrasse a alegria do momento. Após dormir como um morto durante horas, optara por telefonar para saber como ela estava passando. Temia que Beth percebesse o quanto o magoara. Depois de mais algum tempo, tinha certeza de que seria capaz de fingir estar feliz o suficiente. Por enquanto. Beth estava com uma aparência bem melhor. Parecia mais fortalecida, sentada em uma cadeira de balanço, segurando Lily no colo e conversando com Mary, que se encontrava acomodada na cadeira do acompanhante, próxima à dela. Shelly estava sentada na outra cadeira de frente para a de balanço. – Olá, mãe – cumprimentou ele, com um beijo no rosto de Mary. Em seguida, inclinou-se para beijar Lily, ciente do quanto estava próximo do


rosto de Beth. Era possível até mesmo sentir sua respiração contra a pele enquanto se afastava. – Como estão as minhas duas meninas lindas? Com um rubor no rosto, Beth sorriu. – Prontas para ir para casa. – Assim que a liberarem, eu a tirarei daqui. – Sem nenhuma cadeira vaga, Kevin sentou-se na beirada da cama. – Ficará no apartamento com elas, mãe? – Por algum tempo. Não queremos que Shelly se desgaste, portanto as meninas e eu nos revezaremos as ajudando. – Estou bem melhor agora – protestou Beth. – Não quero que todas vocês mudem suas rotinas por minha causa. – Não comece. – Kevin fitou-a com olhar severo. – Quando telefonei para cá, às 3h, fui informado de que tiveram de levar Lily de volta ao berçário porque foi necessário ajustar a dose dos analgésicos que estavam administrando em você. Beth baixou o olhar para a bebê, talvez para não ter de encará-lo. – Estou me sentindo bem melhor esta manhã. – E se sentirá cada vez melhor porque descansará e permitirá que as pessoas te ajudem, em vez de se sobrecarregar. Kevin percebeu que a mãe e Shelly alternavam o olhar entre ambos, com os cenhos franzidos. Talvez ele não fosse tão bom quanto imaginara em disfarçar os sentimentos. Felizmente, a trouxinha cor-de-rosa no colo de Beth soltou um grunhido, distraindo as mulheres de qualquer outro pensamento. – Finalmente – exclamou Shelly. – Pensei que Lily não fosse acordar tão cedo. Quatro horas depois, a bebê estava acomodada no assento de segurança no banco traseiro do carro e Beth fora da cadeira de rodas, pronta para partir. O fato de ela ter alta quando não conseguira dormir de dor o deixava um tanto nervoso, mas Beth parecia bem e não hesitou nem por um segundo ao se despedir das enfermeiras. Mary seguiu-os em seu carro. Todos estacionaram atrás do bar para que pudessem entrar pela porta dos fundos sem serem vistos. Kevin subiu os degraus de dois em dois enquanto Beth, Shelly e a mãe, que carregava Lily no assento de segurança, seguiram pelo elevador.


Como era esperado, o apartamento estava impecável e o refrigerador abarrotado de comida. Havia lençóis limpos no berço e o trocador estava pronto para ser utilizado. Lily se encontrava profundamente adormecida no assento de segurança, portanto Mary o pousou próximo ao sofá e pendurou a borda do cobertor sobre a alça para protegê-la da luz. Beth agradeceu e se encaminhou ao toalete com a ajuda de Shelly. Kevin postou-se atrás da mãe, envolvendo-lhe os ombros com um braço e a beijando na testa. – Obrigado, mãe. Mary lhe deu palmadas leves na mão. – Ela pertence à nossa família, mesmo que leve algum tempo para se acostumar com essa realidade. – Acha que ela se acostumará? – Acho que quando tiver um pouco de paz, ela perceberá. Beth passou por muitos transtornos. Seja paciente. Kevin tinha certeza de que estava sendo paciente há bastante tempo, no entanto o que mais poderia fazer? Não era possível simplesmente trocar a mulher amada por outra mais complacente. Uma que não duvidasse de seus sentimentos. – Tudo que pode fazer é esperar até que ela esteja preparada – acrescentou a mãe, como se fosse capaz de ler os pensamentos do filho. Kevin estava convencido de que ela não podia ou teria lhe dado uns bons puxões de orelha durante a adolescência, ainda assim, a ideia era assustadora. – Estou esperando há muito tempo e isso não está me levando a lugar algum. – E o que mais lhe resta? A porta do banheiro se abriu, poupando-o de responder. Shelly ajudou a filha a se acomodar no sofá e se encaminhou outra vez ao banheiro. Beth parecia pálida, o que o fez imaginar que seria uma questão de minutos para que a exaustão sobrepujasse o alívio de estar de volta à casa. Mas Mary começou a empurrá-lo na direção da porta. – Ela precisa dormir agora. – Gostaria de alimentar Lily. – Daqui a algum tempo. Deixe-as se acomodarem primeiro. E antes que Kevin percebesse, estava no corredor com a porta do apartamento de Beth fechada. Cerrando as mãos em punhos, fitou a


madeira maciça, tentando controlar o ímpeto de socá-la para permanecer mais algum tempo ao lado da própria filha. Mas a lembrança das olheiras de Beth o fizeram relaxar a postura e as mãos. Ela precisava dormir e não conseguiria se permanecesse grudado em seu calcanhar. Haveria tempo de sobra para alimentar a filha quando a mãe não estivesse por perto para expulsá-lo de lá. Esperaria, decidiu ele. Afinal, sua vida parecia se resumir a isso, agora. Esperar.


CAPÍTULO 20

BETH ACHOU que conhecia o significado da palavra cansaço. Todas aquelas noites de estudo até de madrugada, antes de abandonar o curso superior, por achar que não servia para ela. O trabalho em turnos dobrados, com apenas algumas horas de descanso nos intervalos. As noites que passara virando de um lado para o outro na cama ao final da gravidez, desesperada por encontrar uma posição confortável. Mas agora, descobrira o que era cansaço. Bastara três noites com uma recém-nascida para perder a noção de em que dia estava. Não tinha certeza se vestira roupas limpas naquela manhã e não tinha energia para erguer uma escova e pentear o cabelo. – Olá – disse Lisa. – Vou telefonar para o bar e pedir algumas asas de galinha e batatas fritas. Podemos assistir a um filme ou vegetar diante da televisão. – Tenho de aproveitar enquanto Lily está dormindo para fazer o mesmo. E, graças a Deus, a filha estava adormecida. Lisa passara a noite com ela e fora muito prestativa, mas Beth estava determinada a tomar conta de Lily sozinha. As mulheres Kowalski não poderiam se revezar para sempre, e então estaria por conta própria. Mary e sua mãe lhe faziam visitas constantes e procuravam ficar por perto quando ela estava alimentando a filha, mas lhe respeitaram o desejo de não querer depender delas para tudo. Quando Lisa aparecera, dizendo que queria tirar uma folga dos quatro filhos, Mary e Shelly voltaram para a casa dos Kowalski para descobrir o que os maridos andavam fazendo e relaxar um pouco.


– Sei que a orientaram a fazer isso – disse Lisa, erguendo o fone. – Mas se você se limitar a dormir e cuidar de Lily, em breve estará deprimida. Precisa se distrair com atividades agradáveis durante algum tempo enquanto ela dorme. Para aliviar a mente. Era verdade. Sentia-se mesmo a caminho de um colapso mental. – Pode pedir, mas acho que acabarei caindo no sono e me engasgando com uma batata frita. Mas, quarenta minutos mais tarde, Beth lambia o molho dos dedos e ria a valer com um episódio antigo de Friends. Durante aqueles minutos, quase voltou a se sentir humana outra vez e um nó de tensão que ainda não havia percebido se afrouxou em seu peito. Lisa estava certa. A exaustão lhe enevoava o cérebro e lhe fazia o corpo doer, mas alguns minutos de normalidade lhe deram um vislumbre de sua antiga vida. Quando o episódio chegou ao fim, Lisa olhou-a com um sorriso terno. – Por que não vai tomar um banho? Garanto que se sentirá melhor. – Lily vai... – Não ficarei parada aqui deixando a menina chorar. Consegui cuidar de quatro desses, pelo menos até a idade escolar. Sua dor está bem mais branda, mas um banho fará maravilhas por você. Mais uma vez, Lisa tinha razão. Deixar que as dores se dispersassem com o vapor e a sensação de estar suja se dissolvesse na água era uma ideia tentadora, mas tinha de aprender a se adaptar aos horários de Lily. Ainda necessitaria de um banho depois que as mulheres Kowalski retornassem às suas rotinas. – Eu deveria estar presente quando ela acordar. Lisa deixou escapar o que pareceu um suspiro exasperado e desligou a televisão. – Ouça, sei que está acostumada a fazer tudo sozinha e que não gosta de depender de ninguém. Isto é bom. Em breve, estará por conta própria, mas agora estou aqui. Vá tomar um banho e, quando Lily acordar, eu trocarei sua fralda, a alimentarei e a embalarei. Beth abriu a boca para argumentar, mas tudo que conseguiu dizer foi um “está bem”. A relutância e o sentimento de culpa escoaram ralo abaixo com os primeiros jatos de água quente que lhe massagearam os músculos


doloridos. Os cortes mais profundos ainda ardiam, mas os hematomas já adquiriam tons amarelados. Beth lavou o cabelo com xampu duas vezes e usou mais sabonete líquido do que de costume. Permaneceu sob o chuveiro até a pele começar a enrugar. Em seguida, secou-se, vestiu uma calça comprida de malha de algodão com uma camiseta rosa. Ambos do guarda-roupa de gestante, claro, já que o peso extra não evaporara como mágica. Mas ela não se importava. No momento, estava valorizando apenas o conforto. Em vez de prender o cabelo em um rabo de cavalo desleixado, escovou-o e o deixou solto. Os círculos escuros sob os olhos permaneciam, além dos ferimentos remanescentes no rosto, mas não aplicaria maquiagem. Por ora, sentia-se bem o suficiente como estava. Quando saiu do banheiro, deparou-se com Kevin sentado no sofá, dando a mamadeira para Lily. Embora o corpo não estivesse em condições de reagir à presença impactante daquele homem, o coração deu um salto no peito ao vê-lo com a filha no colo. E talvez pelo modo como ele lhe sorria. – Mike passou no bar para comer um hambúrguer e tomar uma cerveja. Mamãe ficou com os meninos, portanto decidi subir para que Lisa almoçasse com ele. Espero que não se importe. – Ah, não. Claro que não. – Aquela era a primeira vez que ficavam sozinhos desde a noite em que Lily nasceu, e Beth foi invadida por uma timidez inexplicável. Haviam passado por algo tão íntimo, capaz de criar um elo forte. Então, Kevin dissera que a amava. E ela o contestou. – Sua aparência está bem melhor. Estou me referindo ao modo como se recuperou do acidente e não ao fato de ter acabado de sair do chuveiro. – Acredite, a ducha ajudou bastante. Ela o observou pousar a mamadeira sobre a mesinha de centro, erguer Lily e a recostar ao ombro. Em seguida, alternou entre lhe esfregar de leve as costas e lhe dar palmadinhas leves até que a bebê arrotasse. Só então ele a aconchegou outra vez nos braços e voltou a lhe oferecer a mamadeira. Beth se sentou na extremidade do sofá com as pernas dobradas sob o corpo. – Você é muito bom nisto. – Uma sobrinha. Quatro sobrinhos. Muita prática. – Kevin sorriu para a filha. – Mas não é a mesma sensação. Na época em que dava mamadeira para meus sobrinhos, não sabia disto, mas não é a mesma coisa que


alimentar a própria filha. – Beth nunca havia alimentado nenhum bebê antes, mas tinha a noção exata do que Kevin dizia. Era o mesmo que sentia quando fitava a filha nos olhos enquanto lhe dava a mamadeira. – Ela fica tão serena quando está sendo alimentada. Ou dormindo. – Ele olhou para Beth com as sobrancelhas arqueadas. – Por falar nisso, minha mãe me ligou mais cedo e conversei com Lisa alguns minutos atrás. Por que não está permitindo que elas a ajudem? Não deixa nem mesmo a sua mãe se levantar quando Lily chora durante a noite. – Elas estão me ajudando. Limpam a casa e cuidam da minha alimentação. É uma sorte quando consigo terminar de tomar o último gole de café antes de a xícara ser arrancada da minha mão e lavada. – Deixe que elas se revezem com você à noite. Quanto mais horas conseguir dormir, mais rápido se recuperará. Seu corpo precisa descansar. E ela não precisava de mais um sermão. – Se eu me acostumar a deixá-las tomar conta de tudo, será mais difícil quando estiver sozinha. Beth percebeu que dissera as palavras erradas enquanto lhe escapavam dos lábios. E o modo como Kevin contraiu os músculos da mandíbula apenas confirmou aquela suspeita. – Nunca ficará sozinha. Estou a menos de 1,50m de distância. Meu telefone está gravado na posição dois da discagem rápida do seu celular. Beth estava se sentindo muito renovada e refrescada para estragar aquele momento com mais um desentendimento. – Prometo que tentarei depender mais delas. O semblante de Kevin relaxou enquanto ele afastava o bico da mamadeira dos lábios da filha, que bebera o leite até a última gota. Em seguida, conseguiu que a bebê desse alguns arrotos. Lily parecia feliz, aninhada nos braços do pai. O coração de Beth deu outra incômoda cambalhota no peito. Ela desviou o olhar para a televisão que Kevin devia ter ligado quando se sentou para alimentar a filha. Estava passando uma clássica comédia romântica e Beth tentou se distrair com as situações engraçadas. Kevin soltou uma risada abafada, achando graça das piadas do filme, e ela se forçou a relaxar. Aproveitaria a companhia para estender aquele descanso mental, como dissera Lisa. Mas as pálpebras pareciam pesadas e não importava o quanto piscasse, não conseguia mantê-las abertas.


– Durma, Beth. – A voz baixa e tranquilizadora de Kevin soou ao longe. – Estou aqui. E não vou a lugar algum. Com aquelas palavras ecoando na mente, ela escorregou para o sono. Não vou a lugar algum. – NÃO SEI se esta é uma boa ideia. Ela está com apenas três semanas. Kevin manobrou pelo caminho que levava à garagem dos pais e desligou o motor. – O tempo está ótimo e você precisa sair e tomar um pouco de ar fresco. Não saiu do seu apartamento desde que seus pais voltaram para a Flórida. Beth ignorou-o, o que não era surpresa. Não muito satisfeita com a decisão de Kevin de sair com o bebê, ela fizera questão de ir junto, malhumorada ou não. Antes que conseguisse saltar da caminhonete, ele havia desprendido a cadeirinha de Lily e a carregava. A maioria dos ferimentos do acidente estava curada, mas talvez levasse algum tempo para que Beth voltasse a ser a mesma de antes. Ao menos, ela conseguiu sorrir quando Mary abriu a porta e aceitou o abraço sem nenhum sinal da irritação anterior. Leo teve o mesmo tratamento e aquele comportamento começou a irritar Kevin. Talvez todo aquele péssimo humor fosse direcionado a ele, mesmo não tendo feito nada para merecê-lo. Kevin pousou a cadeirinha com Lily adormecida no chão, próximo à extremidade do sofá, para que os avós pudessem lhe velar o sono. Em seguida, foi até a cozinha para tomar uma cerveja. O pai o seguiu e também se serviu de uma. – Como estão indo as coisas, filho? Kevin não sabia como responder àquela pergunta. Se o pai estivesse se referindo a Lily, poderia responder que a menina estava ótima. Acabara de passar com louvor na consulta de rotina do pediatra. Mas se estivesse questionando sobre seu relacionamento com Beth, não poderia dizer que estava tão ótimo assim. – Bem, acho eu. – Beth está cuidando da filha sozinha há alguns dias. Como ela está se saindo? – Ela afirma que está tudo bem, mas também não confessaria se não estivesse, então não sei. A única certeza que tenho é que Beth está cansada,


mas sempre que posso procuro levar Lily para meu apartamento para que ela possa fazer as tarefas necessárias e tirar um cochilo. Leo recostou-se à bancada da cozinha, observando-o por sobre o gargalo da cerveja. – Não me parece muito feliz. Kevin deu de ombros. – Gostaria que as coisas fossem diferentes entre mim e Beth, porém quanto mais a pressionar, mais ela resistirá. Os dois ouviram a voz de Mary se tornar cada vez mais próxima e deram um fim à conversa. Alguns segundos depois, as três mulheres mais importantes da vida de Kevin adentraram a cozinha. A mãe lhe deu um beijo no rosto. Beth, que segurava Lily no colo, fitou-o com um sorriso frouxo e, talvez por culpa da imaginação fértil, Kevin pensou ter visto refletido um pedido de desculpas naquele gesto. Lily estava acordada e agitada, mas não berrava de fome. Enfiando a mão sob o cobertor em que a filha estava envolvida, ele lhe acariciou o rosto corado e minúsculo com a ponta de um dedo. A bebê emitiu um som indistinto e, para sua surpresa, Beth soltou uma risada suave. – Definitivamente, Lily conhece o pai – disse ela. – Ao menor toque. Embora fosse doloroso, Kevin insistira em trazê-la para aquele jantar porque os pais precisavam passar algum tempo com a neta e Beth necessitava sair daquele apartamento. Aquela intimidade apenas aparente ficara ainda mais pronunciada agora que Lily nascera e aquilo o irritava. Algumas vezes menos, e em outras, como naquele momento, mais. Mary aproximou-se deles. – Vamos aproveitar que Lily está calma para tirar algumas fotos para o álbum de família. Vocês dois sentem-se no sofá com a menina enquanto vou pegar a câmera. E com aquelas palavras, a ansiedade voltou a se estampar no rosto de Beth, mas antes que ela pudesse protestar, Kevin espalmou a mão em sua cintura e a guiou para a sala de estar. – Sei o que está pensando – sussurrou ele. – Mas deixe que minha mãe tire uma bela foto de você com Lily e outra comigo e Lily. E, depois, permita que ela tire uma de nós três para ficar feliz. Beth sentou-se no sofá, retirou o cobertor da filha para revelar um vestido rosa gracioso. – E se algum dia...


– Se algum dia eu encontrar uma mulher que me receba em sua vida, em vez de bater a porta na minha cara constantemente, Lily ficará feliz por ter uma foto com os pais reunidos. – Ah! Kevin percebeu pelo rubor que se espalhara no rosto de Beth e o modo como ela mordera o lábio inferior que, de alguma forma, lhe ferira os sentimentos. Mas não era possível Beth acreditar que o limbo emocional em que ela os atirara perdurasse para sempre. Mary retornou com a câmera fotográfica antes que Beth pudesse encontrar uma resposta, caso fosse essa sua intenção. Com os pais coordenando as fotos improvisadas, conseguiram tirar as três poses que Kevin sugerira. E ambos foram capazes até mesmo de sorrir. Fotografaram Lily primeiro com Leo, em seguida com Mary e depois com os avós juntos antes de a bebê ficar vermelha e berrar de fome, deixando claro que sua carreira de modelo fotográfica havia chegado ao fim. – Sem dúvida, Lily herdou a potência vocal do pai – disse Mary ao filho. Beth terminou de alimentá-la enquanto Mary colocava a mesa para o jantar, portanto foi possível jantarem em um clima quase tranquilo. Havia um cesto de vime grande na casa, onde colocaram Lily, próximo o suficiente da cadeira de Kevin para que a menina pudesse vê-lo. Os olhos da bebê eram de um tom azul brilhante, e quando o pai sorriu para ela, Lily se limitou a piscar. A conversa durante o jantar foi sobre Lily, o bar, o último livro de Joe, as atividades de Lisa com os meninos nas férias de verão e o que fariam com o fato de Brian e Bobby estarem sabotando a plantação de espinafre na horta de Mary e culpando os esquilos. Durante a conversa familiar, Kevin sentiu uma parte da tensão se dissipando e lhe relaxando o corpo. Com a diminuição do estresse, conseguiu pensar com mais clareza. Haviam se passado apenas três semanas desde que Beth sofrera o acidente e dera à luz quase ao mesmo tempo. Embora cada dia desde então parecesse se arrastar para Kevin, era bem provável que tivessem passado em um piscar de olhos para uma mulher exausta, que há pouco se tornara mãe. Pela milésima vez, Kevin disse a si mesmo que tinha de ser paciente. Havia deixado claro seu sentimento por Beth, portanto só lhe restava esperar que ela descobrisse o que sentia.


FAZIA TRÊS semanas que Kevin lhe confessara seu amor e, desde então, não tocara mais no assunto. Detestara fazer aquilo, mas o estoque de mantimentos no apartamento estava diminuindo. Ao menos o estoque daqueles que ela queria e não dos que Mary e a mãe pensaram que ela consumiria. Portanto, tivera de pedir a Kevin para passar no mercado no caminho de casa. Agora, ele empurrava o carrinho atrás dela, conversando com a filha, cuja cadeirinha estava encaixada no carrinho de compras. Qualquer funcionário do mercado que os visse, pensaria que formavam uma família de verdade, em vez de serem vizinhos que por acaso tiveram um filho juntos. Enquanto observava o preço do pacote de fraldas, Beth não pôde deixar de refletir sobre o quanto Kevin fora sincero quando lhe dissera que a amava. Na ocasião, argumentara que ele estava sob o efeito da forte emoção provocada pelos acontecimentos daquele dia, mas não tinha como saber se estava certa. O fato de Kevin não ter mais tocado no assunto era sinal de que ela não se enganara. A insegurança e a desestabilidade que aquela incerteza lhe traziam a impedira de tocar no assunto. E a fizeram se esforçar ainda mais para manter a distância entre ambos, caso os sentimentos de Kevin tivessem se confundido por causa do nascimento de Lily. Mas se conhecia Mary, dentro de alguns dias estaria recebendo uma bela foto emoldurada de Lily com os pais: uma família quase perfeita e sorridente. – Está esperando que os pacotes façam truques de mágica? A voz de Kevin arrancou-a dos pensamentos deprimentes e ela percebeu que estivera observando as fraldas por sabe Deus quanto tempo. – Desculpe. – Beth atirou no carrinho um pacote de fraldas maior do que Lily usava no momento porque a menina estava crescendo feito erva daninha. Kevin retirou-o do carrinho. – Tem certeza de que quer levar esta marca? Li em uma revista que aquela ali é melhor. Tem áreas de maior absorção nos locais apropriados para as meninas. E o elástico é mais macio e flexível, o que é bom para peles sensíveis. – E também são as mais caras. – Beth arrancou o pacote das fraldas genéricas da mão dele.


Kevin pegou-as de volta. – Podemos pagar por fraldas decentes. Podemos? – Esta é decente o suficiente. Já basta eu ter permitido que me convencesse a aceitar uma licença-maternidade remunerada. Não permitirei que gaste seu dinheiro e também não vou gastar mais em fraldas só porque uma embalagem é rosa e a outra é branca. – Está bem. – Kevin atirou o pacote de volta ao carrinho. – Só quero que Lily tenha do bom e do melhor. – Acredite em mim, ela não ficará traumatizada porque as fraldas não têm zonas de absorção específicas para meninas. Kevin limitou-se a segui-la em silêncio até vê-la escolher entre os pacotes de peito de frango desossado. – Por que não telefona para o bar e pede que lhe preparem algo? Não precisa cozinhar nesta fase. Beth desejou, não pela primeira vez, tê-lo deixado dentro do carro com a janela aberta apenas alguns centímetros. – O Jasper’s tem um excelente cardápio e comidas deliciosas, mas é um bar esportivo. Às vezes, tenho vontade de comer apenas uma salada com peito de frango. – Tenho certeza de que se pedisse, eles preparariam isso para você. Beth girou para encará-lo com as mãos nos quadris. – Se acha que eu seria capaz de interromper o trabalho de seus funcionários com pedidos especiais, não me conhece nem um pouco. – Está bem, sei que não faria isso. – Kevin exibiu um sorriso frouxo, em nada parecido com aqueles que costumavam lhe vincar as covinhas do rosto. – Talvez seja melhor levá-la para jantar qualquer noite dessas. – Pelo amor de Deus! Sou perfeitamente capaz de preparar um frango com salada, com um bebê para cuidar. – Não foi essa minha intenção. – O sorriso de Kevin evaporou. – Eu a estava convidando para um encontro, mas pelo visto escolhi a hora errada. A hora errada? Sem dúvida nenhuma. – Tenho um bebê de três semanas e... – Nós. Nós temos um bebê de três semanas. – E é por isso que um jantar romântico deveria ser a última coisa em nossas mentes. Além disso, pensei que iria procurar uma mulher que o receba em sua vida em vez de lhe bater a porta na cara e blá-blá-blá.


Beth tentou se virar para que ele não percebesse o quanto aquele comentário a magoara, mas a mão forte se fechou em torno de seu pulso. – Está com ciúmes. – Não estou. – Sim, está. E de uma mulher que nem existe. Beth soltou a mão com um solavanco e pegou o primeiro pacote de frango que viu pela frente. Atirou-o no carrinho, junto com as fraldas de segunda categoria, e se afastou. Talvez, se o ignorasse, ele se distrairia, conversando com Lily. A bebê estava adormecida, mas isso não o impediria. Estava começando a pensar que os Kowalski eram geneticamente incapazes de permanecerem calados, exceto durante o sono e, ter dado à luz um deles apenas fortalecera aquela impressão. Infelizmente, mesmo puxando o carrinho, Kevin não teve a menor dificuldade em alcançá-la. – Se está com ciúmes, é sinal de que gosta de mim. – Claro que gosto de você, seu idiota. Mas não vamos ter nenhum encontro romântico e já lhe disse o motivo mais de um milhão de vezes. – Então vamos voltar para o bolo de chocolate. Beth sentiu o rosto ferver, mas seguiu em frente, na direção dos molhos para salada. Talvez, se o mantivesse em movimento, os clientes do mercado não conseguissem captar fragmentos daquela conversa. – Não vamos. – Deixe-me entender. Está de dieta e se depara com um enorme pedaço de bolo de chocolate. Mas decide não o comer, porque acha que lhe fará mal, embora esteja enganada. Por outro lado, não deixará que ninguém o coma. – Se alguém quiser comer o bolo de chocolate, teria de permitir, porque não vou comê-lo. Seria um desperdício deixá-lo estragar. – E se ninguém mais gostar daquele tipo de bolo de chocolate porque ele foi feito especialmente para você? Se não o comer, ficará velho e podre. Beth bufou. – Como se você fosse apodrecer. Ouvi dizer que as mulheres que beijam os guardanapos do bar adoram bolo de chocolate. – Ciumenta. – Não estou com ciúme. – Ela esticou a mão e pegou um frasco de molho sem sequer parar. – Pode oferecer seu bolo de chocolate para quem quiser


– acrescentou, conseguindo dizer as palavras em tom frívolo, embora estivesse desmoronando por dentro. O pensamento de ver Kevin com outra mulher lhe dava náuseas e lhe fazia a garganta apertar, mas temia confessar. Nunca teria uma amizade como a que os unia e se arriscar a perdê-la, levando aquele relacionamento a outro patamar ou ao que tiveram antes, a deixava em pânico. E não apenas pelo fato de desejar que Lily soubesse que os pais eram amigos. Valorizava a amizade de Kevin. – Um dia, vai ceder – retrucou ele, com expressão arrogante, mas a tristeza refletida naqueles olhos azuis a fez desviar o rosto. Seria melhor para todos se ela não caísse em tentação mais uma vez.


CAPÍTULO 21

Agosto

BETH ESTAVA na metade da pilha de folhas de pedidos sobre a mesa quando percebeu que não tinha ideia do que acabara de ler. Com Lily cochilando no berço portátil na extremidade da mesa, ela não estava conseguindo se concentrar. Até então, tentara colocar em dia o trabalho atrasado em seu apartamento, mas como a filha fizera dois meses, estava mais do que na hora de voltar ao esquema antigo. Felizmente, Kevin concordava em não colocar a filha na creche ainda, portanto tiveram de fazer algumas adições ao escritório. O berço portátil, a cadeira de balanço infantil e o tapete de atividades. Os acréscimos deixaram pouco espaço para transitar pelo escritório, mas seria um transtorno temporário. Beth decidiu recomeçar a tarefa, determinada a prestar atenção. Lily estava adormecida, então precisava se concentrar. Devia isso a Kevin que, embora não a tivesse surpreendido, proporcionara-lhe uma licençamaternidade remunerada. Não havia completado nem um quarto da pilha quando soltou um xingamento baixo e mais uma vez teve de começar tudo do zero. Pensar em Kevin a distraía tanto quanto vigiar o sono da filha há alguns centímetros de distância, e aquela conclusão a deixou desanimada. Ao que parecia, o corpo estava se recuperando bem do estresse do parto e não concordava com a mente sobre suas dúvidas em reviver a atração que sentia por Kevin. Mas ceder àquele impulso sexual perturbaria o


delicado equilíbrio que haviam alcançado nos cuidados paternais e na amizade que os unia. Portanto, Beth não via outra opção além de suprimir os calores, as palpitações e os arrepios que experimentava toda vez que pensava em Kevin. Ora, não queria refletir sobre o que sentia quando estavam juntos. Era constrangedor e doloroso lutar contra algo que Kevin tanto cobiçava. Ele ainda a fitava com a mesma proposta indecorosa estampada no olhar, embora se mostrasse menos insistente. O comportamento de Kevin fora exemplar nos últimos dois meses. Sempre que tinha um tempo livre, ele o passava com Lily e providenciava tudo que Beth necessitava, sem se mostrar insistente. Ao que parecia, estava se aperfeiçoando no papel de “apenas amigos”, o que era ótimo, já que era isso que ela queria. Não. Não exatamente o que ela desejava, mas o que pensava ser melhor para Lily, portanto, era o mais importante. Entretanto ainda havia momentos, na maioria das vezes nas horas em que deveria estar dormindo, em que Beth imaginava como seria ter uma família de verdade. Acordar ao lado de Kevin todas as manhãs em vez de vê-lo se despedir, relutante, para voltar ao apartamento em frente quando Lily adormecia. Mas seria um grande risco. Havia muito em jogo se não desse certo e Beth não podia jurar que daria. Com exceção do encontro inicial, todos os aspectos daquele relacionamento giravam em torno de Lily. Embora não estivesse mais grávida, aquela realidade não se modificara. Não queria ser parte de um pacote completo e não havia como escapar disso. Quando Paulie bateu de leve na porta e enfiou a cabeça pela abertura, Beth ficou aliviada por ser arrastada de volta à realidade. – Pode entrar. Lily acordará a qualquer momento mesmo. – O clima está agitado lá na frente. Joe acabou de chegar e está pagando uma rodada de bebidas para todos os clientes. Achei que era um bom momento para tirar alguns minutos de descanso. Algo inusitado para um homem que tivera problemas de alcoolismo, pensou Beth, mas Joe estava no Jasper’s, onde sempre havia uma lata de refrigerante para ele. – Qual é a comemoração? – Não sei se tenho o direito de revelar, mas se finja surpresa quando lhe contarem. Keri finalmente conseguiu engravidar.


– Isto é maravilhoso! Pelo que Kevin havia lhe contato, Joe e Keri estavam tentando ter um filho desde que se casaram. Fazia quase um ano, já que Lily fora concebida no dia do casamento dos dois. – Estou muito feliz por eles – disse Paulie. – Joe e Keri serão excelentes pais. – Também estou feliz por Lily. Isso não a deixará ocupar a posição de caçula na organização Kowalski por muito tempo. E terá um primo ou prima quase da mesma idade. – Aquela era de fato uma boa notícia. – Como está Sam? – Ótimo. – Paulie recostou-se na cadeira com um sorriso sonhador. – Ele tinha algumas reuniões em Boston esta semana, mas vou pressionar Kevin até ele me dar alguns dias de folga para que possamos viajar para a costa e desfrutar de alguns dias de ócio. – Uma boa oportunidade para um casamento na praia. Paulie começou a gargalhar, mas tampou a boca com as mãos para abafar o som quando se lembrou de Lily. – Nada de casamento, por enquanto. No momento estamos nos curtindo, embora tenha certeza de que acabaremos no altar. Quando estivermos preparados para lidar com nossas famílias, eu acho. – Pensei que o clima com seus pais havia melhorado. – Sim, mas apenas pelo fato de eu ser capaz de ignorá-los. Há certas regras que nem mesmo eu ou Sam seremos capazes de passar por cima. Quando nos unirmos, terá de ser um casamento com C maiúsculo. Será um suplício para mim, portanto queremos que nossa relação esteja sólida, antes de darmos esse passo. – Não estão pensando em fugir para se casarem, certo? – Gostaria muito. Lily mexeu-se no berço, fazendo uma careta de choro e emitindo sons estalados. Beth suspirou. – É melhor levá-la lá para cima. Estive distraída durante toda a manhã. Não consegui produzir nada. – Prepare a mamadeira que eu a alimentarei. Aproveite para ir ao bar por alguns minutos, participar da comemoração. Beth sabia que não deveria, mas a oferta era muito tentadora para recusar. Gostava de Joe. A simplicidade do irmão de Kevin há muito sobrepujara a aura de ídolo que tanto a impressionara no início. Seria uma


boa oportunidade para parabenizá-lo e lhe pedir que transmitisse suas congratulações à esposa. O bar estava quase lotado quando Beth entrou e o clima era dos mais alegres. Como sempre, seu olhar foi atraído imediatamente para Kevin, que servia chopes e ria com o irmão. Parada em um canto, ela o observou por alguns minutos, tentando controlar os nervos agitados. Kevin tinha o dom natural de servir no balcão. Simpático, caloroso e com uma risada fácil. O Jasper’s possuía uma atmosfera contagiante e, mesmo nos dias mais fracos, contava com um bom fluxo de clientes assíduos. Mas aquele não era um dia de movimento fraco. Quando estava prestes a sair das sombras, uma morena alta, com seios fartos, usando uma regata dos Red Sox e um short quase indecente, entregou um guardanapo para Kevin do outro lado do bar. A julgar pela camada de batom recém-aplicada nos lábios carnudos da mulher, Beth não teve dificuldade em adivinhar o que continha o guardanapo. Kevin olhou o guardanapo e, em seguida, brindou a mulher com um olhar especulativo que fez o estômago de Beth revirar. Odiava aquela parte do trabalho de Kevin, não importava o quanto ele repetisse que não se interessava por mulheres que beijavam guardanapos. E, por ser vantajoso para os negócios, ele a presenteou com um sorriso e um olhar programado para levá-la a crer que um dia lhe telefonaria. Beth não acreditava que ele o faria, mas era desconcertante presenciar o tipo de tentação com que Kevin se deparava todos os dias. Ainda mais quando alguns dos quilos que ela adquirira não se deviam apenas à gravidez e sim aos hambúrgueres do Jasper’s. Não estava mais vestindo as roupas de gestante, mas ainda se sentia um pouco rechonchuda se comparada às beijoqueiras de guardanapo daquele bar. Quando a morena se afastou rebolando e saiu pela porta da frente do bar, Beth se juntou à comemoração. Não lhe passou despercebido que sua presença fez brilhar os olhos de Kevin de uma forma que a morena não conseguira. Aquilo ajudou para lhe abrandar a irritação, mas a colocou de volta em um território conflituoso. Não estava disposta a arriscar a amizade que tinha com Kevin em um relacionamento amoroso, mas não queria que nenhuma outra mulher o tivesse. Beth conversou com Joe por alguns minutos. O coração aquecido pela alegria contagiante que ele exalava. Em seguida, sentou-se em silêncio


enquanto outra morena passava um guardanapo para Kevin e ele agia da mesma forma. – Sua coleção está aumentando hoje – comentou ela quando a mulher se afastou. – É o quinto que ele recebe desde que cheguei aqui. – Joe exibiu um sorriso malicioso quando o irmão o fulminou com o olhar. – É só mencionar bebês e a mulherada enlouquece. Kevin pegou uma garrafa de água e se sentou diante de Beth. – Acho que estou parecendo muito viril. Joe bufou. – Ou desesperado. Beth não se incomodou com o rumo que a conversa estava tomando e aproveitou para atacar. – É ótimo não trazer Lily para o bar. Se elas vissem que lindo bebê você fez, teríamos de dobrar as encomendas de guardanapos. Kevin pousou os cotovelos no balcão do bar, de modo que os rostos de ambos ficassem bem próximos. – Não posso fazer mágicas como Lily com nenhuma mulher, exceto com você. – Ah! Beth sentiu uma onda de calor se alastrar do pescoço para o rosto. E ela que pensara estar se saindo tão bem. Joe ergueu o refrigerante em um brinde. – Boa, Kev. – Cale a boca, Joe. – Kevin dirigiu um olhar cínico ao irmão. – Já conseguiu sua garota, estou tentando conseguir a minha, se não se importa. O calor no rosto de Beth se espalhou pelo corpo todo, fazendo-a praguejar contra os hormônios do pós-parto que deviam ser os responsáveis por aquelas sensações. – É melhor eu voltar para tomar conta de Lily e liberar Paulie para o trabalho. Dê meus parabéns a Keri, Joe. Era óbvio que qualquer cessar fogo que Kevin tivesse declarado após o nascimento de Lily havia chegado ao fim e ele estava usando todo seu arsenal de armas outra vez. Os ataques munidos de charme, sinceridade e, Deus a ajudasse, sensualidade, tinham recomeçado. Precisava manter em mente que, se cedesse, a infância feliz de Lily poderia ser uma das baixas.


– ELA NÃO está cedendo um milímetro, certo? Kevin gesticulou a cabeça em negativa enquanto Beth desaparecia pela porta dos fundos. Sim, o irmão não estava errado. – Beth sabe que quero tudo que tenho direito. – Qual é o acordo entre vocês, afinal? Uma caneca vazia foi erguida na extremidade do balcão, mas Randy se apressou em enchê-la. – Beth quer que sejamos apenas amigos. – Mais amigos do que trabalharem juntos, praticamente morarem juntos e terem uma filha? – Beth colocou na cabeça que eu só quero ter um relacionamento com ela por causa de Lily, e que se ficarmos juntos por este motivo, um dia terminaremos e não restará nem mesmo a amizade, o que seria terrível para nossa filha. Joe deu de ombros. – Entendo a preocupação de Beth em arriscar a amizade entre vocês, mas nenhum relacionamento vem com prazo de garantia, não importa como comecem. E vocês não acabaram de se conhecer. Estão juntos desde quando? Dez meses. – Beth está me mantendo a um braço de distância há dez meses. Isso é péssimo. – Exceto por aquela única vez, em fevereiro, que parecia ter acontecido há uma eternidade. Há tanto tempo que mal conseguia mantê-lo aquecido durante as noites. – A princípio, ela temia que eu quisesse regular sua vida, e agora tem medo de destruir nossa amizade. – É muito medo para uma mulher só. – E eu tenho medo que toda essa tensão sexual me faça explodir. – Só então, Kevin percebeu que não estavam sozinhos, mas ninguém parecia estar prestando atenção. Aquele não era o tipo de informação que um homem gostava de espalhar. – Ela está me matando. Toda esta situação está acabando comigo. – Já disse isso a ela? Como se sente, quero dizer, não que está com medo de explodir, mesmo porque ninguém precisa de uma informação como essa. Nem mesmo eu. – Ela sabe como me sinto. Deixei muito claro. – Já mencionou a palavra que começa com “A”? – Sim. Joe arqueou as sobrancelhas.


– Isso é bem esclarecedor, mesmo. Suponho que ela não tenha dito que te ama? – Não, em troca recebi uma explicação sobre os meus sentimentos estarem sofrendo influência do acidente de carro e do nascimento da bebê. Ela me disse que não era real, que me sentia assim apenas por causa do redemoinho emocional pelo qual eu estava passando. Caramba, até mesmo antes de eu mencionar a palavra com “A”, Beth já estava inventando todo o tipo de justificativa para meus sentimentos. Dizia que eu só gostava dela porque estava grávida de um filho meu e besteiras como essa. – E agora? Beth não está mais grávida, nem se envolveu em mais nenhum acidente desde que a filha nasceu. Kevin deu de ombros. – Não mencionei mais essa palavra. – Por que não? Por que não? Porque ser rejeitado e ver seus sentimentos serem considerados irreais não era algo que os homens costumavam gostar. – Não estou muito disposto a levar outro chute no traseiro, muito obrigado. – Não me diga que agora deu para se preocupar com seu traseiro. – Vá se danar! Para você é fácil falar, já que tem uma esposa apaixonada o esperando em casa. – E pensa que foi fácil? Que Keri caiu em meus braços com um estalar de dedos? – Joe fez que não com a cabeça. – Passei alguns maus bocados também. – Então deve saber como me sinto. Que não é fácil se expor dessa forma. – Eu sei. – Joe tomou um longo gole do refrigerante. – Acho que a questão é: será que Beth vale a pena? Kevin não precisou sequer pensar. – Sim, vale. – Então pense no que acabei de dizer. Se não voltou a dizer o que sente desde que ela sofreu o acidente que resultou no parto, como Beth poderá saber que estava errada? Aquela era uma excelente pergunta e lhe deu algo em que pensar enquanto o tolo do irmão se levantava e anunciava que pagaria mais uma rodada para todos. As canecas de cerveja e as congratulações se proliferaram outra vez. Assim como mais alguns guardanapos com marcas de batom que Kevin atirou na cesta, sem ler.


A única mulher que ele desejava deixara claro que jamais beijaria um guardanapo por sua causa. ERAM DUAS horas da manhã e Kevin se encontrava com a testa e as mãos pressionadas à porta do apartamento de Beth, escutando o choro da filha de dois meses. Lily possuía pulmões de primeira qualidade e, com o passar das horas, fora fácil constatar, até mesmo de seu apartamento, que a menina não estava disposta a dormir. Havia momentos de silêncio, mas logo o berreiro recomeçava, talvez quando Beth decidia deitá-la no berço, pensando que a filha havia se acalmado. Queria que ela se sentisse à vontade para lhe pedir ajuda, mas conforme o tempo passava, percebeu que aquela possibilidade era nula. Beth raramente recorria a ele. Não importava o que fizesse ou com que frequência lhe lembrasse, parecia impossível aquela mulher acreditar que não estava sozinha. Maldita cabeça-dura. Quando os berros de Lily se tornaram mais próximos, talvez por Beth ter se aproximado da porta enquanto caminhava pelo apartamento, ele deixou de refletir sobre o que deveria fazer e bateu na madeira maciça. A porta se abriu e Kevin teve de recorrer a toda sua força de vontade para não recuar. A aparência de Beth estivera melhor durante o parto do que naquele momento. O cabelo longo estava emaranhado, o rosto inchado pela falta de sono, os olhos vermelhos e lacrimejantes. Ela fungava repetidas vezes, como se estivesse prestes a cair em prantos. A expressão dos olhos castanhos lembrava a de um animal enjaulado e assustado. E Mike tinha razão. Beth ainda era a mais bela mulher do mundo e ele não desejava estar em mais nenhum lugar, exceto ali. – Sei que ela está fazendo barulho – disse ela com a voz embargada. – Sinto muito se o acordou. Quando Kevin esticou os braços e lhe tirou a criança do colo, Beth quase desfaleceu de alívio. – Por que não me chamou? – Não queria incomodá-lo. Ela não... Já fiz de tudo. Lily está alimentada, com a fralda trocada e não está assada. Não há nada a incomodando. Ela apenas não quer dormir.


– Então deveria ter cruzado o corredor, me entregado Lily e dito que estava na minha vez de tomar conta dela. – Kevin reposicionou a menina e começou a lhe acariciar as costas com movimentos circulares. A menina soltou um arroto, digno de uma medalha de ouro no campeonato de “efeitos da papinha de ervilha”. Em seguida, aninhou-se no colo do pai e fechou os olhos. E Beth se descontrolou. Soluçando, desabou sobre uma cadeira e cobriu o rosto com as mãos. – Eu a fiz arrotar. Várias vezes. Nem isto consigo fazer direito. Sou a pior mãe do mundo. Aquele não era o momento de rir do que ela dissera. – Ora, vamos, as crianças fazem isto. Quando os meninos eram bebês, Lisa se esgotava tentando fazê-los arrotar, e quando minha mãe os pegava no colo, eles soltavam arrotos capazes de fazer ruir a casa. Beth fez um movimento negativo de cabeça, sem erguer o olhar. – Está dizendo isto apenas para que eu me sinta melhor. – Estou falando sério. Quando Lisa chorava, dizendo que ela era a pior mãe do mundo, minha mãe respondia que tinha algo a ver com a compleição diferente das pessoas e isso, às vezes, causava uma compressão diferente no abdome ou no diafragma da criança, fazendo-a arrotar. Quem sabe o que pode ser? Mas agora você tem de ir dormir. – Sim. – Beth retirou alguns lenços de papel de uma caixa que ela equilibrava no braço do sofá e limpou o rosto. – Depois de colocá-la no berço, vou dormir. – Sem chances. Daqui a pouco, esta sapeca começará a chorar de fome e a última coisa que você precisa é acordar dentro de duas horas. Vá para a cama. Lily ficará comigo. – Passou-lhe pela cabeça sugerir que ela tomasse um banho antes de se enfiar sob os lençóis, mas temia que Beth dormisse debaixo do chuveiro, batesse com a cabeça e se afogasse. – Vá. Para. A. Cama. Kevin teve a ideia exata do estado de exaustão em que ela se encontrava quando não ouviu nenhuma reclamação ou a alegação de que estava bem e que poderia dar conta da filha sozinha. Em vez disso, Beth limitou-se a beijar o topo da cabeça da bebê, com as lágrimas lhe rolando pelo rosto e cambalear na direção da cama. Deixando Kevin com um embrulho quente e adormecido, além de um dilema. Não dispunha de nenhuma fórmula infantil em casa porque era


mais prático pegar as mamadeiras no apartamento de Beth. Mas se pousasse Lily no berço para montar uma bolsa com os artigos que precisava, a menina poderia chorar e a mamãe-urso não conseguiria hibernar em paz. Por fim, decidiu deitar-se no sofá com a filha aninhada nos braços. Após distribuir almofadas em torno para não haver perigo de adormecer e deixála cair, fechou os olhos. Pela primeira vez em algum tempo, Kevin experimentou uma satisfação plena. Sob o mesmo teto que Beth e com a filha nos braços, forçou-se a dormir. Necessitaria de todo o descanso que pudesse conseguir para lidar com aquela pequena desordeira. E para a conversa que ele e Beth teriam na manhã seguinte.


CAPÍTULO 22

OS RAIOS de sol que incidiam pela janela a acordaram. Beth sentou-se na cama com o coração martelando as costelas. Era dia. Não as primeiras horas acinzentadas da manhã em que a filha costumava acordar, mas dia claro. Na verdade, 8h. Por que Lily não chorara? Com as mãos trêmulas, atirou as cobertas para o lado. E se lembrou de Kevin. Recordou a exaustão debilitante e as lágrimas. Suas e de Lily. O alívio tão intenso que a fizera chorar quando entregara a bebê para o pai e se enroscara na cama. Kevin devia ter ficado ali, para que ela pudesse dormir a noite toda, pela primeira vez desde que a filha nascera. Com o pânico sob controle, vestiu o robe e saiu do quarto na ponta dos pés. Se Lily estivesse dormindo, Kevin devia estar deitado no sofá da sala e não queria acordá-lo. E então ouviu a voz grave e parou no corredor que dava para a cozinha. Kevin se movimentava para a frente e para trás, segurando nos braços a menina que o olhava admirada. – Farei tudo para garantir que sua vida seja maravilhosa, mas nem sempre será. E, nesses momentos, você terá vontade de dançar na cozinha. Faz bem para a alma. – Beth suspirou e recostou a cabeça à parede, tão encantada quanto Lily com o tom suave e terno daquela voz. – Nem precisa de música. Pode dançar ao som do ritmo que imaginar. Espero que não seja daquela droga de música country que sua mãe ouve. Ah… Não diga a palavra “droga”, Lilyzinha. E, se disser, não conte à sua mãe que a ouviu de mim, está bem? Invente que foi o tio Mike quem a disse.


Beth teria soltado uma risada se a garganta não estivesse fechada pela emoção. Vê-lo com Lily sempre a fazia se sentir abençoada, mas naquele momento... era um intervalo de tempo que pertencia exclusivamente aos dois. Não deveria estar ouvindo escondida. Com passos leves, recuou e se dirigiu ao banheiro. Após fazer algum barulho acionando a descarga e escovando os dentes, retornou à cozinha. Encontrou Lily na cadeira de balanço infantil. Kevin estava pousando duas xícaras de café fumegante sobre a mesa. Ele lhe deu um sorriso e a bebê chutou com um dos pezinhos, o que fez a cadeira se movimentar. – Bom dia, raio de sol. – Kevin puxou uma cadeira para que ela se sentasse. – Obrigada… por tudo. – Beth se sentou e fechou as mãos em torno da xícara. – Não era necessário passar a noite toda aqui. Eu só precisava de algumas horas de sono. – Não, você precisava de uma noite de sono. E nós tínhamos tudo sob controle, certo, Lilyzinha? A bebê deu outro chute e emitiu um som de reclamação. – Não dê ouvidos a ela. Está tudo sob controle. – Ele se sentou na cadeira oposta e tomou um gole do café. – Mas devo avisá-la de que há uma fralda suja no corredor porque achei que a tampa do lixo não seria suficiente para conter o cheiro. Era… repulsivo. – Então a colocou no corredor? – Era isso ou o congelador. – No corredor está bem. Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos, bebendo café e observando Lily agitar os pezinhos. Um momento familiar sereno, pensou ela. Quase como se fossem uma família de verdade. E poderiam ser. Beth sabia que bastava dizer “sim” e, no minuto seguinte, estaria assinando uma certidão de casamento. E se daria por satisfeita se tivesse tempo de calçar os sapatos. Na noite anterior, enquanto ela e Lily estavam exaustas e em prantos, perguntara a si mesma por que estava passando por tudo aquilo sozinha, já que, do outro lado do corredor, tinha um homem prestativo que as tratava como duas princesas e que arcava com sua parte do fardo. Droga! Talvez até com uma boa parte do fardo que pertencia a ela, porque aquela era a natureza de Kevin. Se houvesse uma forma de desvencilhar o relacionamento de ambos do fato de terem uma filha. Gostaria que os dois


tivessem tido mais do que apenas um encontro antes da gravidez se interpor no caminho, mudando tudo para sempre. Não havia como desmembrar o Kevin homem do Kevin pai ou a Beth mulher da Beth mãe. Ambos haviam sido parceiros na cama. Eram amigos. E o mais importante: eram pais da mesma filha. Mas seriam amantes? Não no sentido sexual. Seriam duas pessoas cujo relacionamento se baseava no amor? Não importava o que ele dissesse, não conseguia acreditar. – Está com uma aparência melhor – disse Kevin, fazendo-a se sobressaltar e perceber que estivera fitando o fundo vazio da xícara. – Estou me sentindo melhor. As duas últimas noites foram difíceis. – Quando Kevin fez menção de falar, ela ergueu uma das mãos para impedilo. – Sim, poderia tê-lo arrancado da cama e a entregado a você. – Faz algum tempo que estamos juntos… ou não tão juntos… ou como quiser chamar. Não sei mais o que fazer para convencê-la de que não precisa fazer tudo sozinha. – Estou tentando. Kevin parecia mais triste do que qualquer outra coisa. Abatido seria a palavra certa. – Um ano. Já se passou quase um ano e, às vezes, acho que estamos mais afastados do que no início. – Por favor, não faça isto agora. – Então quando? – Quando eu não estiver um caco. Quando eu tiver desfrutado de mais do que seis horas de sono em um mês. Não sei quando, mas não agora. – E então será o início da dentição de Lily ou qualquer outra desculpa. – Não posso lhe oferecer mais do que isto. – Talvez seja melhor pedir à minha mãe para tomar conta de Lily para que possamos sair para jantar. – É muito cedo ainda. – Beth se ergueu e andou até a cafeteira para não ter de encará-lo. – O que acha de preparar um bom café da manhã para nós? KEVIN SENTIU como se tivesse colidido com uma muralha de tijolos imensa e intransponível. Era como estar em um beco sem saída. – Não posso continuar assim.


Os ombros de Beth se curvaram como se tivesse reconhecido o tom decisivo naquelas palavras. – Desde o início decidimos que o melhor que poderíamos fazer por Lily era sermos amigos. – Nós somos amigos. Mas eu te amo. – Pronto. Dissera mais uma vez que a amava. – E quero ser seu marido também. Mas a julgar pelo pânico crescente na expressão de Beth, era óbvio que não conseguiria a resposta esperada. E uma vez que a ouvisse dizer “não”, teria de se afastar dela. Não aceitaria mais brincar de casinha com um corredor os separando. Encontraria um bom imóvel, cujo aluguel pudesse ser pago com a pensão que daria a Beth, para que ela e a filha pudessem morar em uma casa decente com um belo jardim. Sempre que pudesse, a filha o visitaria. Teria uma mala especial preparada para passar alguns dias com o pai e ele e Beth se limitariam a conversar sobre trivialidades quando fosse buscar e devolver Lily. Kevin sentiu uma pontada de dor no coração diante daquela perspectiva, entretanto não suportaria mais viver do lado de fora da porta. Finalmente, compreendia o velho cliché “tão perto e tão longe”. – Não suporto mais viver afastado da mulher que amo e da minha filha por um corredor. Saber que há duas portas entre mim e minha família. – E eu estou cansada de saber que nunca mais o teria visto se não tivesse engravidado. De imaginar se há um elo que nos mantém juntos, além de Lily. Não quero me casar e depois passar a vida toda imaginando se há algo de verdadeiro sob a superfície do meu casamento, assim como Lisa. – Meu sentimento por você é real. – Kevin não sabia como deixá-lo mais claro. – E acho que provamos que não precisamos nos casar para o bem de Lily. Ela nasceu, foi registrada e os pais dela são amigos. Se cada um seguir sua vida, ela passará algum tempo com os dois e será feliz, assim como todas as crianças de pais separados ou solteiros. Ao vê-la voltar a se sentar à mesa, ele imaginou se Beth tinha se dado conta de que sua xícara de café ainda estava vazia. – O que quer dizer com “cada um seguir sua vida”? – Eu te disse que não posso mais viver assim. E, embora ainda não seja essencial agora, antes de percebermos, Lily estará engatinhando e andando. Ela não pode viver no terceiro andar de um prédio sobre um bar sem


sequer uma faixa de gramado para brincar. Está na hora de procurarmos uma casa e a única pergunta é se as acompanharei. O rosto de Beth se tornou pálido. – Está vendo? Eu sabia que isto acabaria acontecendo. Nosso relacionamento está desmoronando e agora preciso de um lugar para morar. Apenas Lily foi capaz de fazê-lo controlar a raiva. – Não faça isto. Não insinue que eu a estou atirando na rua. Estou falando sobre encontrar uma casa decente para você e Lily, que possa ser paga com a pensão que te darei. – Não é isso que eu quero de você. – Então o que você quer? – Beth se limitou a fazer que não com a cabeça, olhando o fundo da xícara vazia. – Você quer que tudo continue como está, no entanto eu não posso mais. Desculpe. Eu quero mais. – Acho que não posso oferecer mais nada no momento. Mas não quero… Não sei. Em vez de permanecer ali, arremessando a cabeça contra aquela muralha de tijolos, Kevin aproveitou aquelas palavras como uma deixa para partir. Levantou-se e, após dar um beijo na cabeça da filha, virou-se na direção de Beth, que parecia tão arrasada quanto ele. – Acho que precisa pensar sobre o assunto por alguns dias e depois voltaremos a conversar. Teremos um relacionamento de verdade ou cada um seguirá seu caminho, com a guarda compartilhada de Lily. Comuniqueme o que decidir. E, com aquelas palavras, Kevin disparou pela porta da cozinha antes que mudasse de ideia. Antes que a tristeza nos olhos castanhos de Beth o fizesse voltar atrás e dizer que estava tudo bem. Porque ele não estava feliz. E se Beth lhe dissesse que estava tudo acabado, que decidira que cada um devia seguir seu próprio caminho, talvez nunca fosse feliz. “E, NESSES momentos, você terá vontade de dançar na cozinha. Faz bem para a alma.” No meio da noite, com o rádio tocando uma triste música country, Beth dançou com a filha na cozinha. A letra falava de amor, perda e sofrimento, enquanto ela tentava impedir que as lágrimas pingassem na cabeça de Lily embalada em seus braços.


Sentia falta de Kevin. Mesmo sabendo que ele estava no mesmo lugar de sempre, talvez fazendo as mesmas coisas, aquela noite parecia diferente. Embora Kevin estivesse do outro lado do corredor, encontrava-se muito distante. E, ao contrário das incontáveis ocasiões em que discutiram a natureza daquele relacionamento, Beth não tinha certeza se ele voltaria a tocar no assunto. Aquela incerteza doía mais do que qualquer uma das possibilidades que ela passara nos últimos... Bem, quase um ano, considerando. Passara tanto tempo preocupada com o que aconteceria se o deixasse entrar em sua vida e Kevin a abandonasse que o acabara perdendo. Não que ele tivesse desaparecido de sua vida, pensou ela. Mesmo que cada um seguisse seu rumo, manteriam um bom relacionamento e Lily seria feliz, como ele mesmo dissera. Mas ela seria infeliz. Queria Kevin de volta. Sobre a bancada da cozinha, um quadrado branco lhe chamou atenção. Era um guardanapo do Jasper’s e, pela primeira vez desde que vira Kevin sair por aquela porta, um sorriso surgiu em seus lábios. Dez minutos depois, Beth inspirou fundo para tomar coragem e discou o número do celular dele. No mesmo instante, Kevin atendeu com voz sonolenta. – Algum problema? – Lily está bem. Eu... Pode vir até aqui por alguns minutos? – Já estou aqui. Destranque a porta. Beth encontrou-o parado do corredor, vestindo apenas a calça do pijama, o cabelo desgrenhado e o telefone ainda encostado à orelha. Uma pontada de culpa a atingiu por ligar no meio da noite. Kevin devia ter pensado que algo acontecera à filha e voara até o corredor. – Qual é o problema? – perguntou ele, entrando e fechando a porta. – Nenhum. – Lily se contorceu em seus braços, por certo querendo o pai. – Nós estávamos... – Ela se calou enquanto Kevin pousava o telefone sobre a mesa, pegava a filha no colo e roçava o nariz contra a bochecha miúda e sedosa. Agora parecia uma tolice tê-lo arrastado para fora da cama no meio da noite. – Vocês estavam o quê? Com um suspiro pesado, Beth resignou-se a contar a verdade. – Lily e eu estávamos dançando na cozinha e… sentimos sua falta.


– Sentiram? – Kevin aproximou-se, transferindo a filha para um dos braços. Ele não parecia achar que aquele telefonema no meio da noite tenha sido uma estupidez. Tampouco dava a impressão de estar chateado ou triste. Apenas esperançoso, e aquilo fez Beth se sentir da mesma forma. – Sim. – Ela engoliu em seco quando a mão dele acariciou seu rosto. – Não parecia perfeito sem você aqui. – Estou aqui agora. – Envolvendo-lhe a cintura com o braço musculoso, Kevin aninhou a filha entre ambos e começou a se mover ao som da música. Beth o acompanhou. – Fizemos algo para você. – Uau. Dança e artesanato. Não tinha ideia de que minhas meninas estavam tão ocupadas no meio da noite. Suas meninas, pensou ela invadida por uma onda de calor enquanto lhe entregava o guardanapo antes que mudasse de ideia. Kevin teve de lhe soltar a cintura para pegar o que ela estava entregando, mas não se afastou, proporcionando-lhe uma visão privilegiada da reação estampada naquele belo rosto. Beth não tinha um batom vermelho berrante, mas tinha um escuro o suficiente para contrastar com o branco do papel. Acima do logotipo do Jasper’s haviam dois beijos impressos. O dela e outro menor, de Lily. Abaixo do logo, Beth escrevera com batom a mensagem que queria passar. Nós te amamos. Kevin encarou o guardanapo por um longo tempo até que a ansiedade sobrepujasse o calor que a aquecia por dentro. Até mesmo Lily se agitou, talvez percebendo a tensão que fazia o peito da mãe se contrair. Mas quando Kevin ergueu o olhar para fitá-la, a intensidade e a paixão nele refletidos a deixou sem fôlego. – Nós? – Eu te amo. – Dizer aquelas palavras fora muito mais fácil do que imaginara. Pareciam adequadas e afrouxavam o nó que apertava o coração. – Você beijou um guardanapo para mim. – Então, deve ser sincero. – Só para me certificar que estamos em sintonia, eu quero o pacote completo. Quero que seja minha esposa. Quero encontrar uma casa fora da cidade, com um pátio enorme. Beth ergueu o olhar para fitá-lo, quase incapaz de acreditar. – Também quero tudo isso.


– E, algum dia, quando esta bonequinha encontrar um homem que a ame, quero dançar com você no casamento de nossa filha e olhá-la nos olhos do mesmo modo que meu pai faz com minha mãe. – Sim. – Aquele também era o desejo de Beth. Ainda segurando Lily no braço direito, ele a envolveu com o esquerdo e a beijou. – Dance comigo. Beth envolveu ele e a filha com os braços e recostou a cabeça ao peito musculoso. – Sempre.


EPÍLOGO

BETH HANSEN se tornou a sra. Kevin Kowalski duas semanas depois, em uma noite fragrante de sábado, no meio de um pátio de recreação. Vestia um short, uma blusa branca quase limpa, um vestígio de marshmallow no cabelo remanescente dos s’mores pré-casamento, e várias camadas de repelente de mosquito. Carregava um buquê de flores do campo que os sobrinhos de Kevin haviam colhido no bosque. Embora não soubesse identificar as espécies, Mary lhe garantira que não havia nenhuma hera venenosa ou insetos entre as flores. Lily ressonava no carrinho de bebê durante todo o evento, coberta por um véu para protegê-la dos mosquitos. Kevin vestia uma camiseta, com uma estampa de smoking na frente. Um presente de última hora dos irmãos. O pai de Beth a acompanhou pela nave demarcada com fitas e iluminada por lanternas chinesas, emprestadas de uma das pessoas do acampamento, enquanto a mãe soluçava e Paulie, a dama de honra, tentava não xingar diante do assédio inconveniente de uma mutuca. Todos os anos, a família Kowalski viajava para o norte de New Hampshire para acampar durante duas semanas, dirigir seus quadriciclos e nadar na piscina. Não era exatamente um acampamento primitivo, já que todos ficavam acomodados em trailers confortáveis, mas havia s’mores, salsichas no espeto e muita lama. O trailer novo em folha de Kevin e Beth, um presente de casamento extravagante de Joe e Keri, encontrava-se estacionado em um ponto isolado do outro lado do lago, distante dos outros, já que seria o recesso da lua de mel de ambos.


Beth questionara a sensatez de levar uma criança de 2 meses para um acampamento, mas Kevin argumentara que Lily ainda não se importava com o lugar onde estava, desde que fosse alimentada, embalada e tivesse as fraldas trocadas. Além disso, garantira ele, a filha era uma Kowalski. Tiraria de letra. – Eu os declaro marido e mulher – disse o juiz de paz. – Pode beijar a noiva. Beth envolveu o pescoço do marido com os braços, enquanto ele a erguia do chão e lhe capturava os lábios com um beijo profundo, sob uma salva de palmas, vivas, assobios ensurdecedores e o que pareciam ser alguns gemidos e piadas da plateia masculina juvenil. Tudo isso seguido, claro, de um guincho insatisfeito de Lily, que não gostou de ter seu cochilo interrompido. No mesmo instante, Kevin pousou Beth de pé no chão, mas Paulie ergueu a bebê nos braços. A amiga não estava acampando mas viajara de carro até ali com Sam. Os noivos foram abraçados e beijados enquanto cruzavam a nave improvisada, que mais parecia um corredor polonês na opinião de Beth, até alcançarem a filha. – Ao menos assim, ficou sabendo como celebrará seu aniversário de casamento todos os anos – disse Paulie. – Na viagem do Acampamento Anual dos Kowalski. – Radical – acrescentaram Beth e Kevin em uníssono, arrancando risadas de todos os presentes. Após um banquete generoso, foi a hora de comerem o bolo. Ou os bolos, já que havia três enormes bolos retangulares para servir a família, os amigos e quase todas as pessoas no acampamento. Lily foi alimentada, teve as fraldas trocadas e, após passar de braço em braço, por fim chegou aos de Shelly. Stephanie ligou o aparelho de mp3 aos alto-falantes externos que alguém providenciara e uma suave música country reverberou pelo acampamento. Kevin envolveu a esposa nos braços e, pela primeira vez, dançaram como marido e mulher. Beth recostou a cabeça ao peito forte, com lágrimas lhe empoçando os olhos. Não tinha ideia de como ele conseguia se mover tão bem ao ritmo do dueto de Tim McGraw e Faith Hill, dadas as suas preferências musicais, mas o momento era perfeito. O amor de Kevin, sem dúvida, a modificara.


– Pensei que jamais conseguiria dançar com a minha mulher. Ela amava o som daquela palavra na voz de Kevin. – Você é perito em fazer uma garota feliz, meu marido. As mãos de Kevin deslizaram por seus quadris. Não o suficiente para proporcionar um espetáculo indecente diante da família, mas o bastante para lhe garantir que mais tarde seria indecente. Beth preferiu pensar que o formigamento que sentia na pele se devia mais ao frisson do momento do que à alta concentração de repelente. – Acha que algum dia se arrependerá por não ter tido um vestido, flores e todo o aparato de um casamento formal? – Nunca me arrependerei. E eu tive flores. Especiais, porque foram colhidas para mim. – Hum... Conseguiu identificar todas as espécies, antes de tocá-las? – Não, mas sua mãe verificou se havia hera venenosa e insetos. Beth recostou a cabeça contra o peito largo, enquanto ele soltava uma risada que reverberou em seu ouvido. As mãos de Kevin escorregaram pelas costas delicadas. Com o queixo apoiado no topo da cabeça da esposa, deixou-se levar pelo ritmo da música. Quando as últimas notas feneceram, ergueu o rosto de Beth e a beijou outra vez, antes de lhe sussurrar ao ouvido. – Não acredito que direi isto – começou em um tom de voz tão baixo que ninguém mais seria capaz de escutar. – Mas fico feliz que tenha me feito esperar. Ou melhor, que tenha nos feito esperar. Para chegarmos até aqui. Beth pensava da mesma forma. Aquele casamento não seria assombrado por dúvidas. Não precisaria fitar o teto, no meio da noite, imaginando se o marido quisera se casar com ela pelas razões certas. – Eu o amo. – E, já que escreveu isto em um guardanapo, deve ser verdade. Mantendo a palavra, Kevin emoldurara o guardanapo que ela e Lily beijaram no meio da noite e o pendurara no bar. Beth esperava que o quadro, juntamente com a aliança grossa e brilhante no dedo anular esquerdo de Kevin, diminuísse o número de guardanapos na cesta. – Quer o seu presente agora? – perguntou ele. – Diante de todos? – Todos ajudaram. A propósito, Joe acabou de concluir a sua parte, enquanto dançávamos. Acho que gostarão de vê-la abri-lo.


Beth deixou que ele a guiasse até a mesa dos presentes e soltou uma risada quando o marido lhe entregou um pacote plano, embrulhado em jornal e amarrado com o que parecia um rolo inteiro de fita adesiva. – Esquecemos os papéis de embrulho extras ou estão escondidos em algum lugar do acampamento – explicou Keri. – Fui em quem embrulhou – disse Brian. Bobby lhe deu um soco. – Eu ajudei! – Está lindo. – Beth girou o pacote nas mãos até encontrar um ponto onde podia puxar a fita. Não foi fácil, mas conseguiu desembrulhar a caixa plana, sem necessitar do auxílio dos dentes. Quando ergueu a tampa e retirou o papel de seda, prendeu a respiração com lágrimas nos olhos. Era uma foto colagem, idêntica à que ela dera a Kevin de Natal. A foto que Mary havia tirado de Lily com ela e Kevin se encontrava no centro. Havia uma de Beth brincando com os meninos e com Stephanie no Natal. Outra, da qual até então desconhecia a existência, exibia ela e Paulie, juntas, gargalhando no Jasper’s. Outra ainda, retratava os pais com Lily, na maternidade. E uma que fora tirada no chá de bebê, com a família toda reunida e ela no centro, ostentando sua tiara. Mas a maior surpresa foram as duas tiradas há pouco, que mostravam ela e o marido se fitando nos olhos, enquanto citavam seus votos e os dois dançando pela primeira vez como marido e mulher. Aquela deveria ter sido a contribuição de Joe, pensou Beth. O irmão de Kevin trouxera o laptop e uma pequena impressora, portanto as imprimira enquanto os dois dançavam. Estavam todos lá, eternizados em momentos felizes, sob o vidro. Sua família. – É lindo! Kevin envolveu-a pela cintura e a puxou para perto. – Ficarão lindas penduradas em nossa casa nova. Não haviam alugado uma até agora, mas Kevin estava determinado em ver Lily passar seu primeiro Natal em uma casa, com um enorme jardim, onde ainda não tinha idade suficiente para brincar. – Sim, ficarão. Mas enquanto isso, ficarão ótimas penduradas sobre o seu... quero dizer, nosso sofá.


Kevin a beijou outra vez até que a voz de Bobby quebrasse o encantamento. – Está na hora do Arremesso Radical das Ligas de Casamento! Quando Kevin a soltou, Beth não conseguiu segurar uma risada ao ver do que se tratava aquele jogo. Em vez de ferraduras, eles atirariam argolas pintadas que se pareciam com ligas de casamento nas estacas. As crianças já estavam discutindo sobre quem estaria no time de quem e os homens trocavam, de maneira sub-reptícia, copos de papel cheios de suco artificial que faziam as vezes do ponche do casamento, por cerveja e refrigerante. Sua família, pensou ela outra vez, sem hesitar. Sem nenhuma pontada de arrependimento ou suspiros por Albuquerque. Diabos! Estava até mesmo cobiçando uma minivan em liquidação, em uma concessionária na mesma rua do Jasper’s. Aquele era o seu lar, com pessoas que a estimavam. Beth amava a todos, especialmente o homem alto, que discutia com os irmãos quantos passos deveria haver entre as estacas e as passadas e quem iriam utilizar para defini-las. – Eu amo você. – Beth fez mímica, quando Kevin olhou em sua direção. E foi brindada com o sorriso emoldurado por um par de covinhas estonteantes. – Pode me amar agora, mas as crianças disseram que teremos de ficar em times opostos. Será o time do noivo e o da noiva. Com uma risada divertida, Beth juntou-se à família, pronta para derrotar o marido no jogo do Arremesso Radical das Ligas de Casamento.


Somente para você shannon stacey 1