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Ao encontro do destino! Sean Kowalski mal chegou em casa após sair do exército e já foi recrutado por Emma Shaw para uma difícil missão: fingir ser seu noivo. Para tranquilizar a avó, ela quer mostrar que está em um relacionamento estável e feliz. Apesar de Sean detestar mentiras, ele definitivamente precisa do emprego que Emma lhe ofereceu em troca de sua ajuda. E por mais que se sinta atraído por ela, Sean não quer se apaixonar ou criar raízes em uma cidade grande. Emma também não pretende namorar um homem que chama de lar qualquer lugar onde larga a sua mala, ainda que os beijos de Sean a deixem com as pernas bambas...


Shannon Stacey

FEITA PARA VOCÊ

Tradução Gracinda Vasconcelos

2016


CAPÍTULO 1

– CONTINUA FEIO como sempre, pelo que estou vendo. Sean Kowalski fez um gesto obsceno com o dedo médio ao homem atrás do balcão e pousou a mochila no chão ao lado de um banco vazio. – Mal de família, primo. Como ambos mediam mais de 1,80m de altura, trocaram um breve abraço por sobre o balcão, e Kevin bateu-lhe nas costas. – Estou feliz por você ter voltado para casa. – Eu também. Sean sentou-se no banco do balcão e tomou um longo gole da cerveja que Kevin colocou à sua frente. – Desculpe por não ter ido ao seu casamento e ao de Joe. – Estava arriscando a pele no Afeganistão. Não podemos ficar aborrecidos com você por causa disso. Só um pouco.


– Ainda não posso acreditar que vocês dois encontraram mulheres dispostas a se tornar senhoras Kowalski. O que há de errado com elas? Kevin lançou-lhe um sorriso. – São as covinhas, cara. As mulheres não resistem a elas. Para o seu azar, nós as herdamos da nossa mãe, e só o que você conseguiu foi ter os olhos azuis do seu pai. – Para mim é o suficiente. Como vão seus pais? – Bem. Estão ansiosos para revê-lo, e mamãe fez lasanha para esta noite. Sean sorriu e esfregou o estômago. – Não parei para almoçar; logo, tenho espaço de sobra. Sinto falta da minha mãe em muitas coisas, que Deus a tenha, mas a comida não é uma delas. Mas tia Mary... Nossa, a mulher cozinha muito. Kevin assentiu e, em seguida, afastou-se por um minuto para pegar uma garrafa de água. – Então, está desempregado. Vai filar a comida da minha mãe e ocupar um dos meus apartamentos. Era de se esperar que o Exército o transformasse em um homem, não em um inútil. – Doze anos foram suficientes. Não sei o que quero fazer agora, mas meu desejo é diversificar. – Não tem interesse em voltar para o Maine e ajudar seu irmão a gerir a hospedaria?


Sean deu de ombros. Na verdade, havia pensando nessa possibilidade, especialmente quando dissera aos irmãos e à irmã que ficaria com os parentes de Nova Hampshire por algum tempo. Mas passar o resto da vida na Northern Star Lodge não era algo que gostaria de fazer. Quando criança, odiava estranhos circulando por sua casa, e jamais superara isso. Não nascera para ser gerente de hospedaria. – É um plano B – respondeu. Kevin tomou um gole de água e tampou a garrafa. – Sabe que estou apenas brincando. Pode ficar aqui o tempo que quiser. – Agradeço. Quando me encher da comida de tia Mary, poderei ir para casa ou... sei lá para onde. – Aquela era uma das razões que o fizera decidir deixar o Exército. Não havia nenhum lugar para ir no dia seguinte. Ou no dia depois do seguinte. Naquele momento, uma ruiva alta de seios fartos saiu de uma sala nos fundos e Kevin acenou, chamando-a. – Este é meu primo Sean. Sean, esta é Paulie Reed, minha balconista-chefe, gerente, meu braço direito... e esquerdo. Os dois. – Prazer em conhecê-la – disse Sean, sacudindo a mão dolorida. A mulher possuía um aperto forte.


– Ouvi falar bastante sobre você. Bem-vindo ao lar. O meu noivo, Sam, e eu vivemos no apartamento embaixo do seu. Dê um grito se precisar de algo. – Obrigado. – Sean a observou se afastar porque a ruiva possuía um rebolado incrível, mas não sabia se foi a menção de um noivo ou o fato de ela simplesmente não ser seu tipo que não lhe despertou muito interesse. – Jasper Bar & Grille, hein? Nome interessante. – Já veio com o lugar e não estou em condições de comprar um novo letreiro. Termine a cerveja e o levarei lá em cima agora, já que o horário de descanso de Paulie terminou. Sean engoliu o restante da bebida, pegou a mochila e seguiu o primo por um corredor nos fundos e dois lances de escada que levavam ao apartamento que Kevin o deixaria usar, durante sua estadia ali. Era um lugar decente e limpo, com um confortável sofá de couro e uma televisão de tela grande. Tudo satisfatório, no que lhe dizia respeito. – Então é isso – disse Kevin, ao terminar de lhe mostrar as acomodações e lhe entregar a chave. – Você tem todos os nossos números, e Paulie geralmente está no bar se precisar de algo. Sean lhe deu um aperto de mão. – Vejo você no jantar. Estou ansioso para conhecer Beth e a filhinha de vocês.


– Lily é uma espoleta. Fez um ano semana passada e adora aterrorizar os primos. – Ele sacou a carteira do bolso e mostrou a foto de uma menina com expressão resoluta, rabo de cavalo no alto da cabeça, olhos azuis brilhantes e duas covinhas diabólicas. – Ela vai partir corações algum dia – disse Sean, porque era isso que os homens pareciam dizer quando viam fotos de filhas de outros homens. – E eu vou partir algumas cabeças. A Brianna do Joe se parece muito com Lily, mas sem as covinhas. Ela tem quatro meses e meio e é um bocado barulhenta. – Kevin dirigiu-se à porta. – Eu disse a Beth que estaria em casa às 15h, para que ela possa fazer algo para levar para a mamãe, sem tropeçar em Lily, que não fica mais onde a colocamos. Eu o vejo por volta das 18 horas. Quando Kevin se foi, Sean deixou-se afundar no sofá e fechou os olhos. Era bom estar em casa, mesmo que a casa fosse um apartamento emprestado. Pela primeira vez em doze anos, podia ir aonde quisesse. Fazer o que quisesse. O Exército lhe dera um bom começo na vida, e Sean não se arrependia dos anos que servira à sua pátria, mas agora estava preparado para seguir por conta própria. A primeira providência a tomar? Tirar um revigorante cochilo.


Uma batida à porta o surpreendeu, despertando-o de um leve sono. Não estava esperando companhia. Pelo que sabia, as únicas pessoas que poderiam procurá-lo eram os parentes, e ia encontrá-los na casa dos tios. Mesmo assim, abriu a porta à espera de ver um dos primos. Estava errado. A visita inesperada com certeza não tinha nenhuma relação de parentesco com ele. O que era bom, considerando o modo como seu corpo reagiu, como se fosse a primeira vez que via uma mulher bonita. Ela possuía uma cascata de cabelo ondulado com diferente tonalidade de castanho e, se era morena ou ruiva, provavelmente dependia da luz. Os olhos eram escuros da cor de café preto forte, e uma boa quantidade de curvas, na medida certa, suavizavam um corpo mais alto do que a média. Um corpo que fez o dele enrijecer e deixá-lo desperto de uma forma que a sexy balconista no bar não fora capaz. A mulher à sua porta não possuía seios tão fartos, e a forma como parecia cuidar do corpo o fez pensar se os dois se dariam bem entre os lençóis. Certo, realmente precisava ir para cama com alguém, se começasse a imaginar sexo com qualquer estranha aleatória que batesse à sua porta. – Posso ajudá-la? – perguntou ao vê-la parada olhando para ele.


A mulher segurou o pulso desgastado de uma camiseta azul-marinho com as palavras Landscaping by Emma escritas em letras garrafais na parte da frente. – Você é Sean Kowalski? – Sim. – Eu sou Emma Shaw... sua falsa noiva. – O que disse? EMMA SHAW com certeza sabia como escolher um falso noivo. O verdadeiro Sean Kowalski era alto, tinha braços bronzeados e musculosos retesando as mangas da camiseta azul e cabelos loiro-escuros que pareciam estar crescendo após um corte curto. Alguns pelos lhe recobriam a mandíbula quadrada, como se tivesse se esquecido de fazer a barba há alguns dias. E, mesmo fitando-a com desconfiança, seus olhos possuíam o mais belo tom de azul que ela já vira. Certo, talvez não fosse apenas desconfiança. Sua expressão deixava transparecer o receio de que ela fosse uma louca, que não tomara os remédios, que começaria a falar em diferentes línguas ou lhe mostraria uma boneca de pano que fizera para dormir com ela. – Senhorita, nunca tive uma noiva, falsa ou não – argumentou ele, em um tom baixo que fez os joelhos dela enfraquecerem. – E faz tempo desde que estive em


uma festa decente. Logo, se a tivesse pedido em casamento, tenho certeza de que, pelo menos, lembraria do seu rosto. Aquilo teria sido impossível. – Na verdade, nunca nos encontramos. Sean parou de fitá-la de soslaio e bufou. – Deixe-me adivinhar, trata-se de alguma brincadeira que meus primos imaginaram que seria uma maneira divertida de me receber em casa? Muito bem, então... ha-ha. Tenho mais o que fazer agora. Começou a fechar a porta, mas ela estendeu o braço e o impediu. – Sou amiga de Lisa. Sua prima por afinidade. – A esposa de Mikey? – Sean abriu a porta quando ela anuiu com a cabeça. – Talvez devêssemos começar esta conversa de modo diferente. Que tal pelo começo? Ela respirou fundo e, em seguida, começou a falar. – Minha avó me criou desde que eu tinha 4 anos de idade. – Talvez não tenha sido há tanto tempo assim. – Ela se aposentou e se mudou para a Flórida anos atrás com alguns amigos, e eu fiquei cuidando da casa em que cresci. Mas ela não parava de se preocupar comigo e, quando começou a falar em voltar para que eu não ficasse sozinha, eu disse que tinha um namorado e que estávamos morando juntos. E, porque


eu só me envolveria com um bom rapaz, depois de algum tempo ele me propôs casamento e eu, naturalmente, aceitei. – E eu fui envolvido nessa história como? – Eu havia acabado de chegar de um almoço com Lisa em que ela mencionou ter lhe enviado um pacote de primeiras necessidades. O seu nome simplesmente surgiu na minha cabeça quando minha avó perguntou o nome do meu namorado. Sean meneou a cabeça. – Deixe-me ver se entendi. Você disse à sua avó que um desconhecido era seu namorado? – Eu só queria que ela parasse de se preocupar. – Talvez ela esteja certa em se preocupar com você. – Eu não sou louca. Sean cruzou os braços sobre o peito e olhou para ela. – Você inventou um namorado de mentira. – Você não é de mentira. Apenas não havia sido informado de que é meu namorado. Ele sequer deu um sorriso. – O que quer de mim? E agora vinha a parte mais absurda. – Minha avó está voltando. Quer ver como está a casa e... quer conhecê-lo. Enquanto falava, Emma se certificou de que nenhuma parte do seu corpo deixara o vão da porta,


apenas no caso de ele tentar bater a porta na sua cara. Era o que ela faria se um sujeito estranho aparecesse na sua casa e lhe dissesse que os dois estavam envolvidos em um relacionamento sério. – E daí? Você quer que eu vá jantar com vocês? Fingir que sou seu noivo por algumas horas? – Ela vai ficar aqui um mês. Sean riu. Uma risada profunda e contagiante que a fez desejar fazer o mesmo, embora soubesse que ele estava rindo dela. Não que pudesse culpá-lo. Até mesmo Lisa, sua melhor amiga, rira dela, apesar de ter sido por que pensara tratar-se de uma brincadeira. E era, na ocasião. Mas, com a chegada da avó se aproximando e a sua falta de coragem para lhe dizer que realmente não tinha um noivo, a ideia não lhe parecia mais tão divertida. Sean obviamente discordava, uma vez que riu tempo suficiente para que ela trocasse o peso de um pé para o outro, antes de clarear a garganta. – Você não veio aqui pensando que eu ia morar com você e fingir ser seu noivo por um mês? É o que você quer, não é? – Na verdade, eu vim aqui para lhe pedir que se mudasse para minha casa e fingisse ser meu noivo por um mês. – E não, aquilo não soara muito mais sensato do que quando ela praticara em frente ao espelho.


– Por que eu faria isso? Boa pergunta. – Porque não está fazendo nada. Eu lhe pagaria. E você é um bom rapaz, não é? – Não sabe nada sobre mim, senhorita. – Eu sei que acabou de deixar o Exército; logo, não tem um lar permanente. Sei que não está empregado ainda. E sei que é um bom rapaz. – E eu sei que alguém na minha família tem uma boca grande. – Lisa tem orgulho de você. Fala muito a seu respeito. Sean suspirou e passou a mão pelos cabelos. – Olhe, não sou um ator para ser contratado. Acho que, se não está disposta a contar a verdade à sua avó, deve apenas lhe dizer que rompeu com o seu... comigo. Emma queria argumentar, queria fazê-lo entender que só desejava que a avó fosse feliz, mas seria inútil e, de qualquer maneira, não estava com coragem para isso. – Bem... – disse ela, com a voz um pouco trêmula. – Obrigada pela sua atenção. E bem-vindo ao lar também. – Obrigado. E cuide-se. Mesmo depois que ele entrou e fechou a porta, Emma conseguiu controlar o pranto.


Não era o fim do mundo. Teria que dizer à avó que rompera com o noivo e seria o fim de tudo. Mas não seria o fim da preocupação. A situação ficaria ainda pior. A avó não apenas se preocuparia pelo fato de a neta estar sozinha, cuidando da casa e de um negócio, mas pensaria que ela também estava amargando a perda dolorosa de um noivado rompido. Mesmo que tivesse coragem de voltar à Flórida, não faria nada além de se preocupar, e era o que ela estava tentando evitar. Emma atravessou a rua e olhou para cima ao subir em sua picape. Sean Kowalski a observava da janela do apartamento, e ela se forçou a lhe dar um sorriso amigável e um aceno de mão, antes de fechar a porta e colocar a chave na ignição. Era uma pena, pensou. Não apenas por causa da avó. Qualquer mulher adoraria fingir que era noiva daquele homem, nem que fosse apenas por um mês. PASSARAM-SE UNS bons dez minutos depois que Sean cruzou a porta da frente dos Kowalski até ele poder tirar o casaco. A turma estava toda presente, mas sua tia empurrou os outros e o alcançou primeiro. – Sean! – Ela atirou-se em sua direção e ele a envolveu em um abraço de urso.


Sentira falta de Mary quando estava no exterior, mais do que podia imaginar. Após a morte inesperada da mãe, quando ele tinha 9 anos de idade, a tia dera um jeito, mesmo morando em outro estado e com quatro filhos para criar, de manter contato e ser uma figura materna para os sobrinhos. Foi bom rever os irmãos, mas ser abraçado pela tia, enquanto sentia suas lágrimas lhe molharem o pescoço, era como voltar para casa. Sean ficou um pouco emocionado quando o tio Leo o tomou nos braços e lhe deu algumas pancadas sólidas nas costas. Embora Leo fosse mais baixo do que o irmão, Frank, ambos eram parecidos fisicamente e no modo de ser o suficiente para fazê-lo lembrar do pai, que falecera havia nove anos. – Seu velho pai teria ficado orgulhoso – disse Leo, e Sean assentiu, não confiando em si mesmo para falar. Em seguida, foi rodeado pelos primos e suas famílias. Joe, com sua linda esposa, Keri, que segurava Brianna, um bebê de bochechas rosadas. Terry e Evan com Stephanie, que aos 13 anos estava se transformando em uma jovem e bela mulher. Kevin apresentou-o a Beth, que só conseguiu dizer um rápido “prazer em conhecêlo”, já que estava repreendendo Lily. Os filhos de Mike e Lisa haviam crescido desde a última vez que os vira. Ele conseguiu descobrir que


Joey estava agora com 15 anos, Danny, com 12, Brian, 9 e Bobby, 7, antes de Mary começar a silenciar as crianças e conduzir todos para a sala de jantar. – O jantar está pronto para sair do forno – anunciou ela. – Vamos comer enquanto está quente. Como esperado, a maciça mesa de jantar praticamente gemia sob o peso do seu banquete de boas-vindas. Mary fizera pão de alho, macio e amanteigado por dentro e crocante por fora. Bem diferente de seus próprios esforços patéticos para recriá-lo, polvilhando alho e sal em uma fatia de torrada com manteiga. – Juro, tia Mary, durante todo o tempo em que permaneci no Afeganistão, só pensava em sua lasanha. Com exceção de quando estava pensando no seu guisado de carne. Ou no seu frango e massa cozida. Mary emitiu um modesto som com a boca, mas ele podia ver, pelo leve rubor em suas bochechas, que ela ficou satisfeita com o elogio. – Você sempre teve um bom apetite. A companhia era tão boa quanto a comida, e as histórias fluíam regadas a chá gelado, enquanto todos saboreavam a lasanha. Sean narrou alguns episódios leves do Afeganistão. Joe contou a história de como chantageara Keri a se unir à família Kowalski nas férias no acampamento. Mike contou sobre Kevin quase ter


desmaiado, como uma mulherzinha, no dia do nascimento de Lily. Sean riu com a descrição da cena de seu primo desabando como um caminhão de cimento, que derrapou em uma curva fechada e bateu na mureta de contenção, segurando o estômago, porque não fora capaz de resistir à terceira porção de lasanha que a tia colocara em seu prato. – É noite de jogo – disse Brian, de 9 anos de idade, quando a conversa morreu e todos começaram a limpar a mesa. – Você vai ficar e jogar? – Claro. – Afinal, não tinha nada melhor para fazer. – Apenas me dê alguns minutos para fazer a digestão, está bem? – Sean vai jogar – gritou o garoto, enquanto corria em direção aos outros. – Ele está no meu time! – Nós nem sabemos o que vamos jogar ainda – argumentou Danny. – Não importa. Ele está no meu time. Enquanto a família discutia sobre quais tabuleiros de jogos pegar, com a ferocidade de uma negociação de cessar-fogo, Sean se dirigiu à varanda dos fundos para respirar um pouco de ar fresco. Ao fechar a porta de correr, deu um passo à esquerda, fora do alcance das vistas das pessoas na casa, e quase colidiu com Lisa.


Sempre simpatizara com a esposa de Mike. Ela era mais baixa do que a média, talvez 1,60m, mas tinha 1,80m de atitude e não deixava ninguém a intimidar. – Conheci uma amiga sua hoje – disse ele. – Ah, é? – Alta. Sensual. E doida de pedra! Alguns segundos se passaram, antes da compreensão surgir nos olhos dela, seguida por um rubor quente que lhe tingiu todo o rosto. – Ela não teve coragem! – Oh, teve. Bateu à minha porta e me disse que era a minha noiva, e que você sabia que ela espalhou esse boato por aí. Lisa colocou a mão no braço dele. – Não foi por mal, Sean. Sério. Ela estava apenas tentando fazer a avó se sentir melhor por estar vivendo na Flórida. – Ela lhe contou qual era o grande plano? O rubor se aprofundou. – Ah, não. Diga-me que ela não fez isso. – Fez. – Pensei que ela estava apenas brincando. – E eu pensei se tratar de uma brincadeira do seu marido e dos irmãos dele, mas ela estava falando sério. Lisa meneou a cabeça, mas ele pôde notar o riso curvar-lhe os cantos da boca.


– O que exatamente ela disse que era o plano? – O que ela lhe disse que era? – Ela fez algumas insinuações de que talvez você pudesse fingir ser o namorado dela. – Isso soa quase normal. – Ele deu uma risada breve. – O plano agora evoluiu para eu ir morar com ela e fingir ser seu noivo por um mês. Lisa evitou fitá-lo nos olhos. – Talvez ela tenha mencionado isso também, mas riu, então pensei que estivesse brincando. – Não. – Sean cruzou os braços sobre o peito e recostou-se contra à parede da casa. Devia entrar e ver se sobrara um pouco de torta de blueberry. Emma Shaw não passava de uma mancha estranha no seu radar que ele deveria esquecer. Mas ela não parecia ser uma mulher fácil de se esquecer. – Então, qual é o problema dela, afinal? – A avó tem falado sobre vender a casa porque tem medo que seja demais para a neta, mas Emma não quer uma casa diferente, então inventou um noivo. – Inventar um noivo seria quase normal. Ela inventou uma vida imaginária para mim. Isso não é normal. – É uma casa muito boa. Sean a encarou até ela rir e dar de ombros. – Certo, é loucura, mas...


– Mas é tudo por amor à pobre e doce vovozinha. Sim, entendi essa parte. O olhar que Lisa lhe lançou deixava claro que ela percebera seu tom nada lisonjeiro. Era um olhar que, por certo, o teria intimidado se tivesse que viver com ela, dormir ao seu lado e depender dela para uma refeição quente. Mas não era o caso, então Sean sorriu e lhe deu uma piscadela. Lisa exalou um suspiro e em seguida seu rosto ficou sério. – Os pais morreram em um acidente de carro ao saírem para fazer compras de Natal, quando Emma tinha apenas 4 anos. Sua avó, Cat, e o avô, John, que faleceu cerca de dez anos atrás, estavam tomando conta dela. Quando a polícia lhes deu a má notícia, sequer consideraram abrir mão da guarda da neta. Eram tudo que a menina tinha. Enquanto os amigos, desfrutando dos ninhos vazios, começaram a viajar e a se aposentar, os Shaw começaram tudo de novo com uma chorosa criança de 4 anos de idade. – Tenho certeza de que são pessoas boas, Lisa. Mas pelo amor de Deus! – Cat tentou esconder o quanto desejava ir viver na Flórida com as amigas. Mas Emma sabia e levou um ano para convencer a avó que ela devia ir. Mesmo assim, toda vez que falavam ao telefone, Cat comentava


sobre voltar para Nova Hampshire, porque Emma estava sozinha, a casa era grande demais para uma pessoa, havia muita grama para cortar e todas aquelas coisas. Então, Emma inventou que havia um homem na casa e Cat se sentiu livre para desfrutar de seus clubes do livro e aulas de dança folclórica. Sean ia apontar a diferença bastante significativa entre mentir sobre ter um namorado e pedir a um estranho para morar em sua casa durante um mês, mas naquele momento sua tia saiu e fechou a porta de correr. – Eu sabia que ia encontrá-lo aqui. – Ela sorriu para deixá-lo saber que não se ofendeu por ele querer passar alguns minutos tranquilos, longe do próprio jantar de boas-vindas. – Sobre o que estão conversando? – Conheci uma amiga da Lisa hoje – disse ele, apreciando o modo como Lisa arregalou os olhos e começou a tentar se comunicar com ele por meio de expressões faciais frenéticas, atrás de sua sogra. – Emma Shaw. – Emma Shaw... Oh! A paisagista, certo? – Lisa assentiu. – Ela é uma boa moça, mas não a vejo há bastante tempo. Desde que encontrei com vocês duas no shopping e as ouvi conversando sobre o noivado dela. Como ela e o noivo estão?


Lisa abriu a boca, mas tornou a fechá-la quando Sean cruzou os braços e a fitou, esperando para ver como ou mesmo se ela conseguiria sair daquela conversa sem mentir para tia Mary. – Eu... acho que estão tendo alguns problemas – disse ela finalmente. Bela saída pela tangente. – Oh, que pena! Qual é o nome do noivo dela? Eu queria perguntar naquele dia, mas você começou a falar sobre promoção de sapatos e esqueci. Lisa pensou por alguns segundos e suspirou derrotada. – Sean. – Que engraçado – disse Mary, sorrindo para ele, antes de se virar para a nora. – Qual é o sobrenome dele? Talvez eu conheça a família. Aquela era uma aposta bastante segura. – Ela disse à avó que estava namorando o nosso Sean – murmurou Lisa. Quando a tia o paralisou com um daqueles olhares que faziam os homens adultos Kowalski se contorcerem, Sean ergueu as mãos. – Não tenho nada a ver com isso. Eu sequer sabia. – Como não sabia que estava noivo? – Eu estava no Afeganistão. E a vi pela primeira vez há algumas horas. Mary franziu as sobrancelhas.


– Eu não entendo. – Na verdade, não existe nada – disse Lisa. – Emma não queria que a avó se preocupasse com ela, então inventou que havia arrumado um namorado, e o nome de Sean foi o primeiro que lhe veio à mente. – Isso é loucura. Sean sorriu para Lisa. – Foi o que eu disse. A porta de correr se abriu e Joey enfiou a cabeça para fora. – Sean, você foi convocado para o Banco Imobiliário, e eles vão começar a trapacear se não entrar logo e começar a jogar. Uma vez que preferia entrar no jogo, ir direto para a “cadeia” e não sair mais a ter que ouvir Lisa tentar explicar o plano de Emma Shaw à tia Mary mais uma vez, Sean olhou para as mulheres, deu de ombros e seguiu Joey à sala de estar. Estava atrasado para o jogo e lhe coube o pior e mais estúpido pino no jogo, mas ele apenas sorriu e se arrastou pelo chão até a lateral da grande mesa de centro. Daí em diante passou a ser completamente derrotado pelos filhos dos primos, que possuíam os instintos imobiliários de Donald Trump e o espírito desportivo de John McEnroe enfrentando um juiz de linha. Não podia sequer deixar sua mente vagar por


uma cascata de cachos escuros e suplicantes olhos castanhos, por alguns minutos, sem que surgissem hotéis por todos os malditos lugares. Bastou um momento de distração, lembrando a maneira como seu corpo reagira ao dela, e se viu prometendo a Bobby uma viagem para Dairy Queen em troca do empréstimo de um punhado de dinheiro de papel. Não se saiu melhor no Jogo das Categorias, embora tivesse se lembrado da palavra paisagista quando a letra foi P e a categoria, “profissões”. Stephanie respondia todas, conseguindo encontrar adjetivos alterativos para combinar com suas respostas. Professor puritano. Para uma fruta com a letra F, ela respondeu figos frescos. O espaço de Sean para aquela resposta ficara em branco. Após as pontuações serem computadas, ele rabiscou alguns adjetivos para suas profissões. Paisagista encantadora. Paisagista exuberante. Ou talvez... paisagista sensual? – Os adultos estão embaralhando as cartas para um jogo de pôquer de cinco cartas – disse Kevin. – Não aceitamos cheques. Droga! Se continuasse naquele ritmo, estaria falido na terceira mão.


CAPÍTULO 2

SERVIÇO DE

limpeza, pensou Emma enquanto atacava outro monte de poeira, que se reproduzia como coelhos, com o aspirador de pó. Era o que desejava ganhar de presente de aniversário. Na verdade, queria Sean Kowalski de presente de aniversário, mas ele se riscara fora de sua lista de desejos, deixando-a sem nada para fazer, além de descarregar as frustrações sobre os recessos escuros e empoeirados de sua casa. Não. Da casa da avó. Devia ligar para a avó e lhe contar que ela e Sean haviam rompido ou esperar até que ela chegasse ali? Era uma pergunta que vinha fazendo a si mesma desde que deixara o apartamento dele, no dia anterior, mas ainda não obtivera resposta. A avó ficaria de coração partido. E ela ia querer consertar isso, o que era praticamente impossível a 2.274km de distância.


Seu celular vibrou no bolso de trás. Ela desligou o botão do aspirador e pegou o telefone. A imagem de uma foto que tirara de Lisa em Old Orchard Beach, no verão passado, preencheu a tela, e ela considerou seriamente pressionar o botão de ignorar. Lisa nunca lhe ligava de manhã, porque sabia que ela estava trabalhando e tampouco podia imaginar que ela remarcara um compromisso para se dedicar de modo obsessivo à limpeza da casa, antes da chegada da avó. O que significava que algo estava acontecendo, e o sexto sentido lhe dizia que tinha a ver com Sean Kowalski. Após respirar fundo, o que não ajudou muito a prepará-la, pressionou o botão de falar. – Oi, Lisa. – É sério que você pediu a Sean para ir morar com você? Emma gemeu e afundou no sofá. – É verdade. – Ele bateu a porta na sua cara? – Não, foi muito educado e tomou cuidado para não fazer movimentos bruscos. – Acho que ele usou o termo “doida de pedra” para descrevê-la. – Ai! – E sensual – acrescentou Lisa. – Alta, sensual e doida de pedra, foi a sua descrição exata.


A parte do sensual fez Emma se sentir um pouco melhor, mas, recordando a expressão de Sean, não achava que significasse sensual o suficiente para superar a parte do doida de pedra. – Acho que vou esperar até a minha avó chegar aqui para lhe contar que eu e meu noivo terminamos. – Isso é péssimo. Se lhe disser que é um fato recente, ela vai querer saber por que não está triste. E, se lhe disser que já faz algum tempo, e que você superou, ela vai ficar chateada por não ter lhe contado. – Semana passada, quando ela falou que estava ansiosa para conhecê-lo, eu disse que ele se sentia do mesmo modo. – Ela precisava de algo bem pesado para bater contra a própria cabeça. – Como é que fui me meter nisso? – Sua boca é mais rápida do que o cérebro. – Puxa, obrigada. – Então, o que achou dele? – perguntou Lisa, baixando o tom de voz a um quase sussurro. Devia ser uma pergunta fácil de responder, uma vez que não parara de pensar em Sean um só segundo, exceto quando estava preocupada pensando no que dizer à avó, desde que deixara o apartamento dele no dia anterior. – Não sei. Alto, sensual e, infelizmente para mim, não é louco de pedra. Mas eu já tinha visto o rosto dele


antes. – As fotos não lhe fazem justiça. Até mesmo uma mulher feliz no casamento como eu pode constatar isso. Não, não faziam, pensou Emma, seu olhar atraído para a foto ridícula de Sean pendurada acima da poltrona. Era ridícula, porque ele tinha o braço em torno da sobrinha de Lisa, Stephanie, em um churrasco de família, mas, em resposta a um pedido da avó, Lisa a ajudara a fazer uma montagem, inserindo-a na fotografia no lugar da menina. Não queria sequer imaginar o que Sean pensaria daquilo. – Eu não o dispensaria – admitiu, quando Lisa esperou que ela dissesse alguma coisa. Talvez tivesse sido melhor que ele não tivesse aceitado. Dormir em um sofá a alguns metros de Sean Kowalski adormecido em sua cama parecia uma boa ideia na teoria. Mas, depois de conhecê-lo, ficar perto dele quando as luzes se apagassem e não estar na cama com ele não era um plano muito bom. O trabalho a mantinha ocupada. Não era de frequentar bares e nenhum dos rapazes que conhecia realmente tinha o poder de “dar partida em seu motor”, de modo que vivia em uma espécie de seca. Considerando sua reação em simplesmente conhecer Sean, podia afirmar que ele tinha potencial para


acelerar o seu motor, como se ela estivesse enfileirada na linha de partida de uma corrida de quarto de milhas. – Droga, preciso me apressar – disse Lisa. – Todos os meninos têm consulta no dentista dentro de uma hora e acabei de ver meu filho mais novo correndo com um punhado de jujubas. – Divirta-se. – Emma não sabia como a amiga conseguia. Se tivesse quatro filhos, passaria os dias no banheiro, tomando goles dos sedativos que ficavam no armário de remédios. – Se não nos falarmos mais antes de sua avó chegar, boa sorte. – Obrigada. – Ela ia precisar. Após enfiar o telefone no bolso, Emma afastou o sofá da parede, revelando um novo acúmulo de poeira no qual descarregar suas frustrações. Usou o dedo para ligar o aspirador, esperando que o zumbido do motor abafasse o rugir, nada silencioso, de seu próprio motor negligenciado. SEAN COMPAROU os números do itinerário, que levava ao meio do nada, que Lisa lhe fornecera, com o número na caixa de correio, com pintura de margaridas, e virou a caminhonete em direção à garagem de Emma Shaw. A enorme e tradicional casa de fazenda, ao estilo da Nova Inglaterra, no fim do caminho, era uma beleza.


Exibia laterais de madeira pintadas de branco, com venezianas verde-escuras que combinavam com o telhado cinza. Havia uma varanda na frente, que contornava um dos lados da construção, até o que ele supôs ser a porta da cozinha, com vasos de cheios de flores de cores diferentes pendurados em todas as colunas de sustentação. Um conjunto ecleticamente pintado de cadeiras de balanço de madeira e mesas laterais, na varanda, parecia convidá-lo a se sentar e conversar por algum tempo. Margeando as laterais da casa, até onde a vista alcançava, havia canteiros de flores. Não era de admirar, pensou, enquanto estacionava ao lado de uma picape com o mesmo logotipo Landscaping by Emma que estava estampado na camiseta que ela usara no dia anterior. Após descer da caminhonete, Sean subiu os degraus da porta da frente e respirou fundo. O que não ajudou, porque o oxigênio não curava insanidade. A seguir, tocou a campainha. Um minuto depois, Emma abriu a porta. Estava ainda mais bela do que nunca, com os cabelos presos em um rabo de cavalo desleixado e rastros de poeira no nariz. Ele enfiou as mãos nos bolsos para não se sentir tentado a estender o braço e limpá-los. Ela arregalou os olhos quando o viu.


– Oi. – Tem um minuto? – Claro. – Emma se afastou para deixá-lo entrar. Imediatamente à esquerda situava-se uma espaçosa sala de estar, e todos os móveis haviam sido arrastados para o centro do piso de madeira. O ar estava pesado com cheiro de produtos de limpeza. – Preparando-se para uma inspeção meticulosa? Emma fez uma careta e esfregou o rosto, mas só piorou a situação. – Minha avó não é assim. Estou com a cabeça cheia de problemas e, quando isso acontece, resolvo fazer faxina. É uma doença. Sean não sabia por onde começar. – Fui jantar com meus tios ontem à noite. – Como eles estão? Não vejo a senhora K. há bastante tempo. – Estão bem. Tive a chance de conversar com Lisa também. Ela disse que você não é doida. – Eu já lhe disse que não sou doida. – Os doidos nem sempre sabem que são doidos. Emma afastou as mechas de cabelos que escapavam do rabo de cavalo com um sopro irritado. – Acredite, sei que as circunstâncias parecem doidas. Mas eu não sou. Quer uma bebida? Tenho limonada. Chá gelado. Acho que não tenho refrigerante, o que


explica o ataque desenfreado de limpeza regado a cafeína. – Estou bem, obrigado. – Sean não esperava ficar ali tempo suficiente para esvaziar um copo. – Então, deixe-me ver se entendi direito. Isso tudo aconteceu porque sua avó se mudou para a Flórida e não conseguia ficar em paz, porque estava preocupada demais com você? Emma assentiu com a cabeça e se sentou no braço do sofá. – Em vez de aproveitar a vida, estava constantemente se preocupando comigo. Com o fato de eu estar sozinha nesta grande casa. Com medo de que eu não lembrasse de trocar as baterias nos detectores de fumaça ou caísse de uma escada, tentando limpar as calhas. Na ocasião, me pareceu inofensivo dizer-lhe que havia um homem na casa. – Por que não dizer a ela que você contratou um ajudante ou algo do gênero? Emma riu e ele tentou ignorar o quanto apreciava aquele som rico. – E correr o risco de deixá-la frenética, pensando que eu podia ter contratado algum assassino em série? Não, um namorado era melhor. Em especial, um que pertencia a uma família que conheço tão bem. Você é


primo do marido de minha melhor amiga. Poderia ser ruim? – O que disse a ela que eu fazia antes de me tornar seu namorado de mentirinha? – Que estava no Exército e que nos conhecemos quando você veio para casa de licença para visitar a família. – Ela deu de ombros. – E que, quando você voltou de vez, começamos a namorar. Era mais fácil de lembrar se ficasse próximo da verdade. A cronologia está errada, é claro. Ela acha que você deixou o Exército antes do que realmente aconteceu. Sean enfiou as mãos nos bolsos, certo de que devia estar perdendo a cabeça. – O que eu ganharia com esse arranjo? Emma parecia tão assustada quanto ele com a possibilidade de ele de fato estar considerando o plano. – Um trabalho temporário, me ajudando nos meus projetos de paisagismo e um lugar para ficar. – Eu tenho um lugar para ficar. E homens como eu não têm dificuldade de arranjar um trabalho temporário. – Homens como você? Ele sorriu e ergueu uma sobrancelha. – Indivíduos com costas fortes, que não têm medo de sujar as mãos. O que mais?


– Nada, eu acho. Realmente não existe nenhuma vantagem para você nesse arranjo. – Seus ombros caíram por um momento, mas em seguida Emma endireitou as costas e sorriu. – Foi uma loucura, de qualquer maneira. Eu só queria que a minha avó parasse de se preocupar comigo e vivesse a vida dela. Ela adora morar lá, posso perceber em sua voz, mas está dividida. – Acha que ela não voltaria para o seu casamento? – Não pensei que chegasse tão longe. Imaginei que em algum momento eu fosse encontrar um bom rapaz, sabe, um que realmente me desse valor, e começaríamos a namorar. Eu diria a ela que você e eu terminamos, e depois de algum tempo contaria a ela sobre o meu novo namorado. O verdadeiro. – Mas você não tem namorado. Ela encolheu os ombros e negou com a cabeça. – Não. Para ser honesta, não estou procurando. Quero fazer minha empresa prosperar o suficiente, de modo que possa deixar o trabalho pesado para outra pessoa e me dedicar apenas aos projetos, antes de me casar e ter filhos. Devia entrar na caminhonete e partir, pensou Sean. Tinha que cuidar da própria vida, e passar um mês brincando de casinha com Emma seria um desvio estranho a seguir. Ficar no apartamento de Kevin e


conseguir um trabalho de carpintaria em algum lugar seria o suficiente, e não teria os problemas domésticos. Mas Emma realmente parecia uma mulher decente que se metera em uma situação complicada. Não em benefício próprio, mas para que a avó pudesse relaxar e desfrutar de seus jogos de bingo. Lisa gostava dela, é claro, assim como sua tia Mary, que era uma juíza de caráter bastante perspicaz. Sean clareou a garganta. – Depois de me formar na escola secundária e antes de me alistar no Exército, sofri um acidente de motocicleta. Eu me machuquei bastante, mas quando tia Mary ligou, porque nunca passava mais de duas semanas sem nos falarmos, eu lhe disse que sofri apenas alguns arranhões e feri um cotovelo. Fiz minha família inteira mentir por mim, também. Emma assentiu. – Porque não havia nada que pudesse fazer, e a verdade a teria deixado mais preocupada. – Sim. Então, eu a entendo, acho. No que diz respeito a você, quero dizer, e como chegou a esse ponto. – Tudo começou como uma mentira inofensiva, mas depois fugiu do meu controle. Temo que ela chegue aqui, veja que estou sozinha e não queira mais voltar.


Ela adora a Flórida, e duas de suas melhores amigas vivem lá agora. Ele devia ser tão louco quanto ela. – Se eu aceitar, o que pretende fazer no fim? – No fim? – Ela deu de ombros. – Espero convencêla a me vender a casa antes de ela voltar para a Flórida. E então espero um pouco e digo a ela que terminamos. – Espere um minuto. Você vai tentar convencê-la a lhe dar a casa sob falsos pretextos? Emma sacudiu a cabeça, balançando o rabo de cavalo. – Dar, não. Vender. As razões que ela alega para não me vender a casa são ridículas e, antes de você me propor casamento... – Sean tentou não reagir àquelas palavras, mas era um bocado estranho ouvi-la falar dele daquele modo. Era como se ele tivesse uma vida dupla, da qual não conseguia se lembrar. – Ela não parava de falar sobre colocar a propriedade à venda, porque não quer que eu fique presa a este casarão velho. Sean olhou para ela, e seus olhos castanho-escuros encontraram os dele com uma intensidade que quase o fez dar um passo atrás. Ela parecia de fato estar dizendo a verdade. – Se eu começar a pensar que você é apenas uma espertalhona tentando dar um golpe para ficar com a casa da sua avó, caio fora.


– Vai mesmo fazer isso por mim? – Acho que sim. – Ele retirou do bolso o anel de diamante barato que comprara em uma loja de departamentos naquela manhã e o estendeu para ela. – Espere. – Havia uma leve nota de pânico em sua voz. – O que está fazendo? – Existe a mentira branca e a mentida descarada. Eu gostaria de utilizar essa última o mínimo possível, então vou lhe propor casamento, e você vai aceitar. – Oh! Está bem. – Então, que tal? Quer ser minha noiva? Quando ela corou e assentiu com a cabeça, Sean colocou o anel em seu dedo. Precisou empurrar um pouco para passar pela junta, mas a joia se encaixou melhor do que ele esperava. Em seguida, o clima ficou um pouco estranho, porque era como se algo devesse acontecer depois de uma proposta de casamento. Um beijo. Um abraço. Inferno, até mesmo um aperto de mão. Emma, então, enfiou as mãos, com anel e tudo, nos bolsos da frente da calça jeans. – Obrigada. Por fazer isso por mim, quero dizer. E pelo anel. Posso pagar por ele. – Não se preocupe. – Intenções falsas ou não, nenhuma mulher sua pagaria pelo próprio anel. –


Então, vamos compartilhar um quarto nesse seu conto de fadas? Sean gostou da maneira como um rubor lento tingiu as bochechas de Emma e sentiu vontade de roçar o polegar sobre elas, para ver se sua pele estava tão quente quanto parecia. – Ela sabe que vivemos juntos. Teoricamente, é claro. Então, com certeza, supõe que estamos dormindo juntos, sim. Bem, aquele era um plano que ele com certeza poderia apoiar. – E o que propõe para lidarmos com esse fato? – Coloquei um sofá no quarto. Para ler e assistir à televisão... e para eu dormir. Você pode ficar com a cama. Poderiam discutir isso mais tarde. – E agora? Quando ela vai chegar? – Dentro de três dias. – Uau! Temos pouco tempo. – Talvez devêssemos jantar juntos ou algo assim, para que possamos conversar e conhecer um pouco mais sobre o outro. Tenho um dia cheio amanhã, mas poderia pegar uma pizza a caminho de casa se você quiser vir para cá. Um primeiro encontro com sua noiva, Sean meditou. A vida depois do Exército não estava se


tornando tão chata quanto ele temia. – Parece bom. Gosto de qualquer coisa na minha pizza que não seja classificado como vegetal. A que horas? – Por volta das 18 horas? Estarei enterrada em fertilizantes até os joelhos amanhã, então precisarei tomar um banho primeiro. Já que era uma imagem que não necessitava de mais detalhes, Sean assentiu com a cabeça e, em seguida, virou-se para a porta. – Eu a vejo às 18h, então. Estava quase livre, quando ela o chamou pelo nome. – Você não vai mudar de ideia, não é? – Como disse, se achar que está tramando algo, além de pensar no bem-estar emocional de sua avó, caio fora. Caso contrário, lhe dei minha palavra e vou mantê-la. Sean quase podia ver a tensão deixando o corpo de Emma. – Obrigada. – Antes que eu me vá, você precisa de alguma ajuda para colocar os móveis no lugar? – Não, mas obrigada. Eu ainda não limpei os rodapés. Sean ergueu a mão num aceno de despedida e saiu. Teriam três dias para se tornar intimamente


familiarizados o suficiente para passar por um casal de noivos que viviam juntos. Em sua mente, ele apagou a palavra intimamente. Não haveria nada de íntimo naquele relacionamento, apesar da proximidade. Estariam desempenhando um papel, com beijos técnicos e carinhos falsos. Uma vez a cortina ou a porta do quarto estivessem fechadas, o ato estaria encerrado. – VOCÊ VAI fazer o quê? Não era nada que Sean não tivesse se perguntado a cada cinco minutos ou mais, desde que resolvera aderir ao plano de Emma, mas soava diferente dito pela boca do primo. Ou talvez fosse a expressão de espanto e a risada interminável de Kevin que mudara o tom. – É apenas por um mês – disse ele, talvez um pouco na defensiva. A garçonete baixa de cabelo escuro, que ele achava que se chamava Darcy, colocou uma cerveja à sua frente e ele tomou um longo gole. Ansiara por aquilo o dia todo. Kevin parecia incrédulo. – Um mês convivendo com uma total estranha, fingindo que está tão loucamente apaixonado que vai se casar com ela? De verdade? – Não, não é de verdade, idiota. De mentira. Essa é a questão.


O primo riu um pouco mais. Em seguida, pegou o telefone celular e começou a digitar uma mensagem de texto. Sean esticou o pescoço, mas não conseguiu ver a tela. – Que diabos está fazendo? Kevin riu. – Contando à minha mulher. – Você poderia ter esperado até eu subir. – Não, eu realmente não podia. – Kevin fechou o telefone, mas alguns segundos depois o aparelho tocou. Ele olhou para a tela, riu e, em seguida, digitou outra mensagem. Sean pegou o próprio telefone e mandou uma nova mensagem para Kevin. Eu ainda estou aqui, imbecil. Alguns minutos depois, Kevin sorriu e enfiou o telefone de volta no bolso. – Beth quer saber como será o esquema para dormir, uma vez que ninguém, nem mesmo uma avó, acreditaria na história de quartos separados. – Beth quer saber, é? – Acredite, a essa altura, toda a família quer saber. Sean se sentiu tentado a bater a cabeça contra o balcão, mas não seria capaz de se nocautear, então não desperdiçou tempo.


– Há um sofá no quarto. Ela vai dormir nele e eu fico com a cama. – E onde fica o cavalheirismo? – Sou demasiado alto para um sofá. – Não conheço bem Emma, mas lembro que ela também não é baixa. – Kevin lançou-lhe um olhar perspicaz. – Não é de se jogar fora também. Não, ela não era. Mas a última coisa que Sean queria era se envolver com uma mulher. Envolver-se na cama? Normal, tudo bem, mas isso, juntamente com a brincadeira de casinha, poderiam alimentar falsas ideias na mente de Emma. Compromisso não fazia parte do seu vocabulário atual. Não que necessariamente fizesse parte do dela, mas era melhor não arriscar. – Quando é que a sua futura avó, por afinidade, chega? – perguntou Kevin, quando, por fim, percebeu que Sean não discutiria sobre a beleza de sua falsa noiva. – Sábado. Devemos jantar juntos esta noite para nos conhecermos melhor, eu acho. – Acha que vão se conhecer bem o suficiente durante uma refeição para enganar a avó dela? – Emma acha que conseguiremos. – O que você acha? Sean deu de ombros.


– Eu disse a ela que concordaria com o plano, então me esforçarei ao máximo para que dê certo. – Minha mãe já sabe? – Ainda não – disse ele, fazendo uma careta. Tampouco estava ansioso para lhe contar. Isso se Beth não estivesse ao telefone com ela naquele exato momento, dando-lhe a grande notícia. Sean ergueu-se e pegou a cerveja, com a intenção de levá-la para o apartamento com ele. Podia devolver a caneca vazia mais tarde. – Sei que assim que eu subir você vai ligar para o Joe e o Mike, portanto vou deixar-lhe a incumbência de espalhar a notícia. Kevin riu. – Não se esqueça de Mitch. E Ryan, Josh e Liz. Sean congelou com a cerveja a meio caminho da boca. Droga! Não se lembrara dos irmãos e da irmã e no que eles poderiam pensar. Supor que ele perdera a cabeça era algo dado como certo, mas, se um deles pensasse que ele estava precisando de ajuda e resolvesse ir até ali, poria tudo a perder. – Faça-me um favor, deixe que eu falo com eles. E tente controlar a sua metade da família. – Vou tentar, mas não demore muito tempo para falar com eles. Assim que mamãe souber sobre essa história...


Sim, era o que ele temia. Devia conversar com a tia Mary o mais breve possível, e por mais que não quisesse, teria que ser pessoalmente. Se tivesse sorte, sua colher de pau não estaria por perto. Aquilo doía demais. Sean subiu para o apartamento que fora reservado para ser seu lar temporário, mas que agora não passaria de uma rápida parada, e afundou no sofá. Não havia desfeito as malas totalmente, logo o ato físico de se mudar para a casa de Emma não seria difícil. E não achava que teria muita dificuldade em fingir se sentir atraído por ela. Doida de pedra ou não, Emma era alta, característica que ele apreciava em uma mulher, e sensual, o que ele realmente apreciava. E aquele cabelo... Ela possuía o tipo de cabelo em que um homem poderia enterrar o rosto ou mergulhar as mãos, capturando a massa espessa e escura com os dedos. Inquieto, remexeu-se no sofá, murmurando algumas palavras bem escolhidas. Fazia muito tempo desde que enterrara o rosto nos cabelos de uma mulher, e agora ficaria preso, dormindo no mesmo quarto com uma mulher em que não seria boa ideia tocar. Estaria perto o suficiente para sentir o perfume do seu shampoo. Para ouvir os sussurros de sua respiração e pele, quando ela suspirasse e se movesse durante o sono.


Mas longe demais para deslizar a mão pela curva longa e quente de seus quadris e transformar aquele suspiro em seu nome nos lábios dela. Gemendo, pressionou o botão de ligar da televisão no controle remoto, ao lado de sua perna, procurando alguma distração. Um filme. A reprise de uma luta antiga. Inferno, uma maratona dos Três Patetas serviria. Qualquer coisa para manter a mente afastada do sexo. Não podia ter aquele tipo de pensamento. Era um homem comprometido agora.


CAPÍTULO 3

EMMA

de ideia sobre Sean Kowalski, pelo menos uma dúzia de vezes, ao longo de sua jornada de trabalho, mas não chegou tão longe a ponto de ligar para Lisa e pedir o número do celular dele, que estupidamente havia esquecido de lhe perguntar, antes de se lembrar do que estava em jogo. A paz de espírito da avó. A liberdade de não se preocupar em perder sua casa para si mesma. Quase tudo, no que lhe dizia respeito. Então, às 18 horas, abriu a porta para Sean com os cabelos ainda úmidos do chuveiro e um sorriso no rosto. – Não tinha certeza se você viria. Ele deu de ombros e ergueu um pacote com meia dúzia de cervejas. – Eu disse que viria. Não sabia que tipo de vinho você gostava, ou até mesmo se gostava, então trouxe MUDOU


cerveja. – Está ótimo. Entre. A pizza está na cozinha. Estou morrendo de fome, então pedi uma tamanho família. – Então, sem dúvida, foi melhor eu ter trazido a cerveja em vez do vinho. Não sei se vinho tinto ou branco combina com pepperoni, presunto, salsicha e bacon. Emma riu e o conduziu à cozinha, mas o divertimento morreu em sua garganta no momento em que ele estendeu a mão para abrir a porta da geladeira, presumivelmente a fim de manter a cerveja gelada, e estacou surpreso. Sean franziu o cenho, inclinou-se para a frente e examinou a fotografia segura por um ímã. A foto exibia Emma usando um conjunto do Red Sox com o braço dele em torno do seu ombro e o campo verde do Fenway Park como pano de fundo. – Isso me assusta um pouco. Essa não era Lisa? Tenho certeza de que eu estava naquele jogo com Mikey e a esposa. – Foi Lisa quem fez a montagem, não eu, se é que isso faz parecer menos assustador. – Não muito. Quantas dessas fotos falsas você tem? – Uma dúzia, eu acho, que Lisa fez para mim ao longo do tempo. Não somos maníacos por fotos, o que ajuda, mas tenho o suficiente para dar a impressão de que somos um casal, pelo menos. E eu precisava de


algumas para levar comigo quando fui visitar minha avó. – E eu estava onde quando você foi à Flórida? – Eu disse que você não pôde ir. – Por quê? Ela deu de ombros. – Precisou ir a um casamento de família realizado durante o único fim de semana que eu poderia me afastar do trabalho. Você é um homem ocupado, na verdade. Sean aparentou como se fosse dizer algo, mas então balançou a cabeça e colocou o pacote de cervejas na geladeira, tirando duas garrafas, antes de fechar a porta. Após destampá-las, colocou uma ao lado de cada prato. – Posso ajudar de alguma forma? Ela negou com a cabeça. – Está tudo na mesa. Vá em frente e sirva-se. Emma percebeu que Sean colocou uma fatia de pizza no prato dela, antes de se servir, o que deu uma injeção de ânimo em suas esperanças. Era óbvio que ele fora criado com boas maneiras, o que não apenas o ajudaria a conquistar a admiração de sua avó, mas o tornava mais apto a manter a palavra. Antes de se sentar, ela pegou um caderno em espiral onde havia feito algumas anotações, desde a primeira


vez em que comentara, em tom de brincadeira, sobre seu plano com Lisa, e o colocou sobre a mesa. – Escrevi algumas coisas. Você sabe, sobre mim... Se o folhear, vai ajudá-lo a fingir que me conhece há mais de dois dias. Em vez de esperar até terminarem de comer, Sean deixou a fatia de pizza de lado, pegou o caderno e o abriu em uma página aleatória. – Você não tem medo de aranhas, mas odeia lesmas. Isso é relevante? – É algo que você sabe sobre mim. – Formou-se na University of New Hampshire. Não sente cócegas nos pés. – Ele riu e balançou a cabeça. – Você de fato vem com um manual de instruções. – Pode chamá-lo assim. E, se quiser escrever algo sobre você para que eu possa ler, seria ótimo. Sean deu de ombros e folheou mais algumas páginas. – Sou um homem. Gosto de coisas de homem. Bife. Futebol. Cerveja. Mulheres. – Uma mulher, no singular. Pelo menos durante o próximo mês, e depois pode voltar para sua pluralização selvagem. – Ela tomou um gole de cerveja. – Acha que é tudo que preciso saber sobre você? – É o mais importante. Eu poderia escrever isso em uma nota adesiva, se você quiser, juntamente com a


minha posição sexual favorita. Que, a propósito, não é papai-e-mamãe. Emma ficou com pergunta na ponta da língua, então qual é a sua posição sexual favorita?, mas a engoliu de volta. A última coisa de que precisava era saber de um homem, com quem compartilharia um quarto durante um mês, como ele gostava de fazer sexo. – Não acho que abordaremos esse assunto. – É mais relevante do que lesmas. – Já que você estará fazendo mais jardinagem do que sexo, não realmente. – Ei, espere um minuto. – Ele apontou um dedo sobre uma das anotações no caderno. – Você não sabe cozinhar? – Não muito bem. As instruções no micro-ondas ajudam. – Eu jamais me casaria com uma mulher que não sabe cozinhar. – E eu nunca me casaria com o tipo de homem que jamais se casaria com uma mulher só porque ela não sabe cozinhar. Portando, é bom estarmos apenas fingindo. Sean fechou o caderno e voltou à pizza. Mas, antes de abocanhar um pedaço, olhou para ela. – Você disse à sua avó que nos conhecemos quando eu estava em casa de licença, mas disse como nos


conhecemos? – Está escrito na primeira página do caderno. – Explique-me com detalhes. Emma de fato não queria. De alguma forma, a ideia de Sean ler suas mentiras parecia menos humilhante do que ela as recitar em voz alta. Mas ele ergueu uma sobrancelha, enquanto mastigava, obviamente esperando que ela lhe contasse a história. – Nós nos conhecemos no Jasper Bar & Grille. – No bar do Kevin? – Você estava em casa de licença e ele havia comprado o bar há pouco tempo, então você foi conhecer o lugar. Lisa e eu tínhamos saído para fazer compras na cidade e depois fomos até lá comer um hambúrguer. – Ela sentiu o rosto corar e olhou para o prato. – Foi amor à primeira vista. Emma ouviu Sean rir e queria encará-lo, mas tinha a sensação de que só transformaria o seu riso em uma ruidosa gargalhada. – E então você escreveu para mim, eu respondi, depois deixei o Exército e aqui estamos nós. – Em resumo, sim. – Ela deixou-o engolir um pedaço de pizza, então perguntou: – Você tem planos para amanhã? Ele negou com a cabeça. – Não.


– Quer começar a trabalhar? Apenas meio expediente, no grande lago. E depois poderíamos fazer compras. Estocar comida e alguns itens pessoais, de modo que pareça que você realmente vive aqui. – Parece bom. A que horas? – Costumo sair daqui às 7h30. Podemos marcar um ponto de encontro para que você não precise levantar ainda mais cedo para vir para cá. – Eu venho. Nunca acordo depois das 6h, de qualquer maneira. – Nunca? – Ela acordava às 6h nos dias de semana, mas nos fins de semana gostava de dormir até mais tarde. – Nunca. E gosto de um reforçado café da manhã, então espero que você seja uma pessoa diurna. Sean manteve a expressão séria, mas Emma podia ver um brilho de divertimento em seus olhos. – Então, você pode comprar dois donuts na lanchonete, no caminho para cá. Quando o riso chegou à boca de Sean, Emma tomou um longo gole de cerveja e olhou para qualquer lugar, menos para a curva daqueles lábios. Sua boca era linda. Uma boca que parecia saber como beijar e, uma vez que o pensamento de beijar Sean a fez sentir desejo de se contorcer na cadeira, Emma olhou para o relógio


sobre o fogão e a lista de supermercado presa à geladeira. Mas, droga, justo ao lado da lista de compras estava a foto dela e Sean, e o sorriso não perdera sua potência. Por sorte, ele tinha boas maneiras e não era o tipo de rapaz que lhe plantaria um beijo francês na frente de sua avó. Enquanto comiam, conversaram como um casal em um primeiro encontro. Ambos gostavam de filmes de ação, de queijo e preferiam jantares caseiros a jantares em restaurantes sofisticados. Emma lia romances e Sean histórias de terror e biografias. Ambos preferiam seriados de meia hora a dramas de uma hora de duração ou reality shows, e ambos odiavam comprar roupas. Era um começo, disse a si mesma, enquanto o conduzia até a porta. Com sorte, Sean olharia as anotações que ela escrevera, e ela já sabia bastante a seu respeito, graças a Lisa. Seria o suficiente. ASSIM QUE Emma abriu a porta, às 7h20, Sean notou que ela devia ter passado tanto tempo quanto ele se revirando na cama. Tinha um ar cansado e a boca curvada de um modo que a fazia parecer um pouco mal-humorada.


– Eu estava correndo, alguns minutos atrás – disse ela. – Você quer um café? – Claro. – Sean a seguiu até a cozinha e, quando ela acenou na direção da cafeteira, antes de se sentar à mesa, ele concluiu que estava por conta própria. Talvez fosse um teste, pensou, enquanto abria o armário sobre a cafeteira em busca de uma caneca. Por sorte, ela organizara a cozinha de uma forma que fazia sentido para ele, então não precisou vasculhar gavetas à procura de uma colher. Quase poderia passar por uma pessoa que vivia ali. Após colocar o leite e o creme de volta na geladeira, ele puxou uma cadeira e se sentou em frente a ela. Emma o ignorou, tomando seu café, enquanto folheava uma enorme agenda com capa de couro. Em seguida, ela pegou o telefone e pressionou um botão. – Alô, é Emma – disse ela, após uma pausa. – Os Duncan, por fim, decidiram que não gostam muito da cobertura de solo preta. Ou melhor, a sra. Duncan não gosta. Ela pensou que ficaria bem esteticamente, mas, usando as palavras dela, não realça a iluminação. Seguiu-se outra longa pausa enquanto ela esfregava a testa. – Posso utilizar a maior parte do produto para fazer um retoque nos trabalhos dos meus outros clientes,


mas vou precisar de três metros do cedro amarelo para os Duncan. E, sim, ela sabe o quanto isso vai custar. Sean desligou-se da conversa, pegou a caneca de café e saiu da cozinha. Parecia um pouco rude perambular em torno da casa, mas a avó dela poderia suspeitar que algo estava acontecendo, se ele tivesse que lhe pedir informações para chegar ao banheiro. Na sala de estar, encontrou outra foto de si mesmo e Emma. Levou alguns minutos para descobrir que Stephanie fora substituída daquela vez, e apenas porque havia um balão pouco visível em uma das margens. Havia tirado um breve período de licença e aproveitara para viajar até o Maine para o aniversário de Stephanie, porque suas longas e engraçadas cartas significavam o mundo para ele durante a preparação das tropas. Além de um lavabo e uma enfadonha sala de jantar formal, ele achou um escritório, não muito grande, no andar térreo. As paredes eram recobertas por estantes repletas de livros de romance. Em um dos cantos, uma poltrona estilo art noveau parecia convidar a um repouso e, no lado oposto, encontrava-se um aquecedor a lenha. Na escrivaninha posicionada embaixo da janela havia um computador relativamente novo e pilhas de papel que ameaçavam deslizar para fora, em todas as direções. Ele desejou saber se o


armário ao lado da mesa estava cheio ou se ela simplesmente o ignorava. Ainda podia ouvir a voz de Emma vinda da cozinha, então pousou o café em uma mesa de canto e subiu a escada. Todas as portas estavam abertas, de modo que ele enfiou a cabeça em cada quarto, enquanto caminhava ao longo do corredor. O primeiro quarto que viu devia ser da avó dela, a julgar pelas fotos, decoração e paninhos de crochê. Não era o quarto que estava procurando, então continuou. À frente, encontrou o que parecia ser uma combinação de quarto de hóspedes e depósito, então imaginou que ela não devia ter muitos visitantes que passavam a noite ali. O banheiro era grande e parecia ter sido reformado na última década ou mais. Atrás de um conjunto de portas de madeira vazada havia uma máquina de lavar e secar de última geração, o que não era de admirar, considerando o que Emma fazia para viver. Por fim, no fim do corredor, à direita, ele descobriu o que devia ser o quarto de Emma. O quarto dele. A julgar pelo longo arco feito para disfarçar uma viga de sustentação de peso, o ambiente originalmente parecia ter sido dois quartos menores, mas em algum momento a parede fora removida para dar lugar a uma suíte máster. Além de uma cama que parecia queen-size


e a mobília habitual de quarto, havia uma área de estar com uma mesa de canto e um abajur cercado por mais livros, uma televisão de tela plana pequena fixada à parede e o sofá em que ela dormiria durante o próximo mês. Mesmo tendo sido ampliado, não havia mais de três metros de distância entre a cama e o sofá. Apesar do fato de ter aprendido, ao longo dos anos, a dormir sob quaisquer condições, aquele arranjo ia ser um pouco estranho. Íntimo. Havia uma porta à esquerda da área de estar. Ele enfiou a cabeça e encontrou um banheiro com lavatório e chuveiro. Ciente de quantos minutos gastara explorando a casa, Sean voltou em direção à cozinha e pegou o café ao longo do caminho. Podia perceber, pela tensão nos ombros de Emma, que ela não se importava que ele ficasse tão à vontade em sua casa, mas talvez tivesse chegado à mesma conclusão que ele. – Só quero terminar este café – disse ela. – Tive uma noite complicada. Sean verteu um pouco mais de café quente em sua caneca e encostou-se à bancada, observando-a fazer mais algumas anotações na agenda. – Então... paisagismo, hein? – Ele próprio já puxara alguns cortadores de grama quando jovem. – Não acha


uma má ideia ter “Emma” no nome da empresa? Ela largou a caneta e o fitou com os olhos semicerrados. – O quê? Mulheres não podem ser paisagistas? Já ouviu falar que temos direito a voto hoje em dia? – Eu só acho que, se eu quisesse aparar o meu gramado ou retirar as ervas daninhas, era mais provável chamar o Bob ou Fred. – E está certo. Se quiser alguém para aparar o seu gramado ou retirar as ervas daninhas, chame o Bob ou o Fred. Mas, se quiser uma artista para fazer um belo projeto de paisagismo, praticamente livre de manutenção, para a sua casa de veraneio ou casa do lago, você chama a Emma. O tom defensivo o fez desejar rir e provocá-la um pouco mais, mas ele reprimiu o impulso. – Então você se especializou em design? – Sim, mas meto a mão na massa também. – Ela sorriu. – Exceto durante o próximo mês, é claro. Terei você para fazer o trabalho pesado. – Não tenho medo de um pouco de trabalho duro. – Na verdade, estava ansioso por isso. Seu corpo estava acostumado a mais atividade física do que vinha recebendo ultimamente. Se ficasse muito mole, os primos iriam querer que ele varresse a grama durante o jogo de futebol anual da família no Quatro de Julho.


Emma olhou para o relógio e, em seguida, levantouse para lavar a caneca de café. – Está na hora de pegar a estrada. Foi no momento em que ela se sentou atrás do volante de sua picape e o fitou em expectativa que Sean percebeu que não conseguia se lembrar de uma vez em que ocupara o banco do carona com uma mulher dirigindo. Podiam chamá-lo de antiquado, mas ele gostava de estar no comando. Seus contracheques, no entanto, seriam assinados por Emma durante as próximas semanas. Então, ela era a chefe. Ele se acomodou no lado do passageiro e fechou a porta. Minutos depois, ao alcançarem a estrada, se viu com as juntas dos dedos brancas. Ela não dirigia melhor do que dizia cozinhar. Passaram a manhã em uma casa de veraneio de três milhões de dólares, às margens do Lago Winnipesaukee, onde ele teve a alegria de transformar uma pilha de pedras amontoadas, ao lado da casa, em paredes de pedra formando o que seriam camas perenes, fosse lá que diabos aquilo significava. Foi um bom exercício físico que o fez suar, mas nem de perto o deixava tão excitado e incomodado quanto observar Emma trabalhar. Ela não se queixava. Não se preocupava em quebrar as unhas. Trabalhava a seu lado, cantarolando músicas country baixinho, e ele


descobriu, da maneira mais difícil, o quanto uma mulher diligente e determinada poderia ser atraente. Três metros, pensou. Três metros entre sua cama e a dela. A poucos passos. Então, Emma se agachou à sua frente para ajustar uma pedra, e ele deixou cair a que estava segurando sobre os dedos dos pés, o que fez uma dúzia de impropérios ecoar em sua cabeça, embora não conseguisse dizê-los em voz alta. Trinta dias com Emma prometia ser um trabalho para lá de prazeroso.


CAPÍTULO 4

– NÃO

na Disneylândia, Sean. Você entra, pega o que precisa e sai. – Se Emma soubesse que fazer compras com ele seria assim, teria escondido um aguilhão na bolsa. – Eu estou comprando. – Não, você está dando voltas. Sean parou o carrinho, de novo, para olhar algo na prateleira e, em seguida, retomou a caminhada no ritmo de um caracol. – Preciso procurar o que preciso. – Eu tenho uma lista. Veja. – Ela a ergueu. – Eu sei do que precisamos. – Essa é a sua lista. Você tem batata frita, sabor sal e vinagre, nela? – Não. Não gosto de sabor sal e vinagre. Faz minha língua arder. ESTAMOS


– Está vendo? Se andarmos no mercado, comprando apenas o que está na sua lista, não terei minhas batatas fritas sabor sal e vinagre. – Talvez, se você tivesse escrito algumas anotações sobre si mesmo, embaixo das minhas, eu as tivesse acrescentado à lista. Sean meneou a cabeça. – Não venho com um manual de instruções. Desculpe. Emma puxou o carrinho, tentando fazê-lo se mover um pouco mais rápido. – O mercado fecha dentro de seis horas. Você pode acelerar o ritmo? Sean parou tão abruptamente que o carrinho fez o braço dela estremecer. – Você precisa relaxar. – Não, preciso terminar de fazer compras e passar à próxima tarefa. – Ela o fitou, desejando que ele fechasse a boca e movesse os pés. – Sabe, vivi durante bastante tempo com o que o Tio Sam achava por bem me mandar e as remessa que minha família podia me enviar – disse ele em um tom de voz baixo, e a impaciência de Emma se apagou como um fósforo caindo em uma poça d’água. – Quando voltava aos EUA, comprava artigos de necessidade


pessoal, mas não muitos, porque logo teria que voltar. Eu gostaria de olhar um pouco mais. – Sinto muito. – Ela soltou o carrinho e exalou um suspiro. – Você está aqui me fazendo um favor enorme e eu sendo totalmente... rude. – Infame – murmurou ele, não tão baixo. – Eu prefiro rude. – Rudemente infame. Entre a diversão revelada nos cantos da boca de Sean e o fato de que ele estava certo, Emma decidiu esquecer. Esquecer não apenas sua avaliação nada lisonjeira sobre o estado de espírito dela, mas também o estresse da chegada iminente da avó. O que de pior poderia acontecer se aquele plano não desse certo? A avó ficaria irritada e interpretaria aquela pequena travessura como uma prova de que a neta estava esgotada. Venderia a casa, ela teria que alugar um apartamento e a vida continuaria. E aquele pensamento a fez desejar chorar, então o descartou e tentou ser paciente enquanto perfaziam, muito lentamente, o caminho para cima e para baixo pelas ilhas do supermercado. – Que diabos é isto? – Sean pegou uma caixa da prateleira e mostrou a ela. – Parece um ralador de queijo para pés. – As mulheres gostam de ter calcanhares macios.


– Você tem um desses? – Claro que não. Parece um ralador de queijo. Ambos riram quando ele recolocou o objeto na prateleira e se virou para o próximo item que chamou sua atenção. Entre a loja de departamentos e supermercado, conseguiram quase encher a caçamba da picape de Emma. Uma hora mais tarde, porém, quando tudo estava guardado, não parecia fazer muita diferença. – Ainda não parece que você vive aqui há um ano – disse ela. Sean deu de ombros e se sentou de modo inverso em uma cadeira da cozinha, cruzando os braços sobre o espaldar. – Ela não vai pensar muito sobre isso. Ex-militares solteiros não são realmente conhecidos por possuir muita parafernália doméstica. – É que parece que você devia ter mais... pertences. Fotos, troféus desportivos, coisas do gênero. – Está tudo em caixas no sótão da minha casa. Se ela fizer algum comentário, o que não vai acontecer, digo que ainda não tive tempo de ir buscá-los. Emma pegou dois refrigerantes da geladeira e colocou um na frente dele. – Lisa me contou um pouco sobre a sua família. Disse que vocês eram todos muito apegados a Leo e


Mary, embora vivessem no Maine. – Minha mãe morreu quando eu tinha 9 anos. Foi um aneurisma. Sequer percebemos os sintomas, e nossa família desmoronaria, inclusive meu pai, se não fosse a ajuda de tia Mary e Rosie. Rosie é a governanta da hospedaria, mas, na realidade, é mais do que isso. Além de cuidar da própria filha, ajudou meu pai a criar nós cinco. Meu pai morreu há nove anos, mas Rosie ainda está lá, ajudando Josh a gerir a hospedaria. Porém, sem o apoio de tia Mary, não sei o que teria acontecido. Emma adorava a maneira como o rosto de Sean suavizava quando ele falava sobre a família. E a maneira como os músculos de seu braço flexionavam quando levava o refrigerante à boca. E a maneira como sua garganta trabalhava quando engolia a bebida. E... E nada, repreendeu-se. Precisava encará-lo como um empregado... uma espécie de empregado. Exceto pelo fato de que compartilhariam o mesmo quarto. – Então, amanhã é o grande dia – comentou Sean, e Emma desejou saber se ele estava apenas tentando mudar de assunto, para não falar da família. – Está preparada? – O mais preparada possível, eu acho. E mal posso esperar para ver a minha avó, é claro. Sinto muita falta dela, mas um mês é muito tempo.


– Vai passar voando, assim que nos estabelecermos e vocês duas começarem a recuperar o tempo perdido. Emma torceu o anel no dedo, observando a pedra capturar os últimos raios de sol da tarde. – Não sei por quê, mesmo tendo me preocupado, obsessivamente, com cada detalhe, não consigo parar de achar que deveria ter pensado um pouco mais sobre esse plano. – Ainda pode mudar de ideia. Ela negou com a cabeça. – Não, nós estamos noivos. – Ou deveríamos estar – disse ele, e os dois riram. Sean sorveu o último gole do refrigerante e se levantou. – Vou pegar a estrada. Relaxar e ter uma boa noite de sono antes de o grande show começar. – Está bem. Se trouxer seus pertences por volta das 10h, ainda terá tempo de guardá-los antes de eu sair para o aeroporto. – Estarei aqui. Depois que ele se foi, Emma desabou no sofá com os nervos à flor da pele. A partir do dia seguinte, teria que começar a convencer a avó de que estava apaixonada por Sean Kowalski. E na manhã seguinte Sean estaria se mudando para a sua casa para dividir com ela o seu quarto e a sua vida.


Uma boa noite de sono era algo fora de questão. APÓS VÁRIAS e extenuantes horas de reflexão, Sean decidiu ligar para o irmão mais velho, Mitch. Ele também era um andarilho. Nunca parava muito tempo em um lugar ou na cama de uma mulher. Dentre todos os irmãos, era o menos propenso a pensar que ele enlouquecera no exterior e precisava de uma intervenção. – Ei, maninho – disse Mitch, após o terceiro toque. – Como vai? – Bem. – Sentindo-se estranho, mas bem. – Você tem um minuto? – Cinco ou seis. Estou em Chicago, preparando-me para demolir um antigo prédio de escritórios, mas estamos esperando a papelada agora. – A obsessão de infância de Mitch com bolas de demolição o levara a se tornar um dos especialistas em demolição controlada mais respeitados do país. – O que houve? – Eu me meti em uma situação um pouco complicada e, como não tenho tempo para explicar repetidas vezes, pensei que talvez você pudesse espalhar a notícia. – Em outras palavras, você não quer ligar para Liz. – Isso mesmo. – Brava seria uma palavra adequada para resumir a irmã, única mulher dentre os cinco


filhos. – Não quero contar a Rosie também. – Isso envolve dinheiro de fiança? Sean riu. – Não. – Um casamento forçado? – Hum... não exatamente. – Ele contou a Mitch a história, começando com Emma batendo à sua porta até àquele momento, em que ele estava no apartamento de Kevin, pegando os poucos pertences e ligando para o irmão. – Caramba – disse Mitch, quando ele terminou de falar. – Com certeza podemos chamar de uma situação complicada. Ela é bonita? – Muito. Mas não sabe cozinhar. – É para isso que existe comida pronta. – O irmão ficou quieto por alguns segundos, então riu. – Então, essa moça vai lhe pagar para ser seu homem por um mês. Isso é permitido por lei em Nova Hampshire agora? – Vá se danar, Mitch. Ela vai me pagar pelos serviços de jardinagem. A história do noivo é... Não importa. Ela vai dormir no sofá no quarto. Eu, na cama. Nada de intimidades. – Aposto que não vai resistir uma semana. Os irmãos por certo já teriam feito uma aposta até o final do dia.


– Também aposto. Vou resistir o mês todo. Não terei nenhum problema em pegar o seu dinheiro. – Ela é bonita e solteira. Você é homem. Dormir no mesmo quarto? Já perdeu a aposta. Sem chance. – Olhe, eu tenho que ir. Preciso colocar minha escova de dentes no banheiro dela antes de sairmos para o aeroporto. – Acho que vou contar primeiro para a Liz – disse Mitch. – Eu poderia até mesmo gravar a conversa. – O importante é você contar a história certa. Se algum de vocês vierem para o Quatro de Julho, precisam estar preparados. – Oh, eu irei. Pode apostar. E, por falar em Quatro de Julho, o que o tio Leo e a tia Mary pensam disso tudo? Sean estremeceu. – Acho que eles ainda não sabem. O restante da família sabe, portanto é apenas uma questão de tempo, antes de tia Mary vir me procurar. Eu estive protelando. – Só vai piorar as coisas. – Eu sei. Mas, se já for um fato consumado quando ela descobrir, talvez ela concorde. Mitch riu em voz alta novamente. – Claro, amigo. Continue repetindo isso a si mesmo.


– Eu vou desligar agora. – Ótimo. Tenho que dar alguns telefonemas. Sean enfiou o telefone no bolso e deu uma última olhada ao redor do apartamento. Uma vez que todos os seus pertences cabiam na mochila e ele só ficara ali alguns dias, não demorou muito para se certificar de que pegara tudo. Cinco minutos depois, estava na estrada, e não demorou muito a chegar à entrada para carros da casa de Emma. Olhou para a caixa de correio e meneou a cabeça enquanto estacionava em frente ao seu novo lar temporário, aquele com margaridas na caixa de correio e Emma sob o mesmo teto. Seria apenas um mês, lembrou a si mesmo. Um mês e depois estaria livre, com o dinheiro dos irmãos, alguns cheques no bolso e sem amarras tentando segurá-lo. EMMA SABIA algumas coisas sobre Sean Kowalski. Sabia que ele era alto, absurdamente belo e gostava de batatas fritas sabor sal e vinagre. Sabia que ele possuía um corpo concebido para atrair os olhares femininos aonde quer que fosse. Que servira ao país, que não tinha medo de trabalho, que amava a família, que brincava com os filhos dos primos e era, sem dúvida, embora ela não tivesse constatado ainda, amável com os animais.


O que não sabia era a dimensão que o impacto de vêlo estirar-se em sua cama, com as mãos sob a cabeça, teria sobre ela. E, por certo, não havia antecipado o calor que serpenteava por seu corpo, fixando-se em um lugar há muito negligenciado. – Um pouco mole – disse ele, contorcendo-se sobre o colchão de uma forma que fez os quadris dela se agitarem. – Eu gosto um pouco mais duro. Emma tossiu para disfarçar o pequeno som chiado que emitiu, como se expressando o estado de angústia libidinoso de seus hormônios. – Eu gosto de me sentir aconchegada. – É uma cama feminina. Não com ele esparramado sobre o colchão. – Eu sou mulher. – Eu percebi. – Quando ele virou a cabeça e piscou para ela, Emma engoliu em seco e olhou para o relógio, esperando ser um gesto óbvio. Queria apenas que ele saísse de sua cama. O que não ia ajudar, é claro, porque ele dormiria naquela cama durante o próximo mês. E ela estaria a cerca de 3 metros de distância, se revirando no sofá. Grande plano. Inspirador, com certeza. – Hora de ir? – perguntou ele. – Sim. – Haviam feito tudo que podiam. O pouco que ele possuía, trouxera para ali. A biografia de


Ulysses S. Grant que estava lendo se encontrava sobre a mesa de centro na sala de estar. Uma enorme caneca de café com o logotipo do Exército estava de cabeça para baixo ao lado da sua caneca favorita, no escorredor de pratos. Ela a havia comprado na loja do Exército da Salvação, juntamente com alguns outros itens que podiam ajudar a dar a ilusão de que Sean vivia ali há um ano. Estava na hora de o show começar. – Está bem. Dentro de alguns minutos, eu a encontro lá fora. – Espere. Você vai também? Ele bufou e ergueu-se. – Claro que vou com você buscar sua avó no aeroporto. Com que tipo de idiota pensou que iria se casar? – Isso é loucura. – Estou certo de que já lhe disse isso. – Sua expressão ficou séria. – Esta é a sua última chance. Posso estar fora daqui em meia hora. Você ainda pode dizer a ela que rompemos e que não devia me amar tanto quanto imaginou, porque não se sente com o coração partido. Ela ficará tão agradecida porque você se deu conta disso antes de se casar que nem fará muitas perguntas. Emma sabia que ele estava certo. Era uma loucura. E aquela era a sua última chance de desistir. Uma vez


apresentando-o à avó no aeroporto, estariam todos envolvidos. Durante um mês. Ela negou com um gesto de cabeça. – Não. Nós podemos fazer isso dar certo e depois minha avó ficará descansada para finalmente desfrutar sua aposentadoria, e eu poderei seguir em frente com a minha vida. Sean se aproximou, tanto que ela pensou que fosse sacudi-la para fazê-la raciocinar direito. – Então, só há mais uma coisa a fazer. – Ah, droga. O que eu esqueci? – Levando em conta o tempo despendido, repassando tudo em sua mente em vez de dormir, não podia imaginar o que seria. Quando Sean pousou a mão na cintura dela por alguns segundos, antes de escorregá-la pelas suas costas, Emma sentiu os músculos tensos e as bochechas ardendo. – Você não pode ficar assim – disse ele, com o mesmo tom baixo e sensual que um homem usaria para dizer a uma mulher que queria despi-la. A mente de Emma congelou, toda a sua atenção concentrada na pressão morna que aquela mão exercia contra sua camiseta. Ela levou alguns segundos para formar uma frase coerente. – Assim como?


– Está tão nervosa quanto uma virgem em uma festa da fraternidade. – Ele correu os dedos ao longo de sua espinha até chegar à pequena protuberância da alça do sutiã, e depois de volta à cintura. – Estamos namorando há um ano e meio e vivendo juntos há um ano, mas você ainda fica corada e tensa quando eu a toco? Sean tinha razão, mas não havia maneira de corrigir o problema antes de a avó desembarcar do avião. – Talvez você seja bom demais. Era a coisa errada a dizer, se pretendia afastá-lo e acalmar os nervos superaquecidos. O sorriso que ele lhe deu teria sido potente o suficiente para fazê-la arrancar as roupas, se a situação fosse diferente. – Essa é uma história que eu poderia corroborar – disse ele. – Pensei que estávamos tentando manter as mentiras ao mínimo. O sorriso dele se ampliou. – Quem disse que é mentira? Emma revirou os olhos e tentou se afastar; realmente precisava colocar um pouco de espaço entre eles, mas Sean a impediu. – Nós vamos nos atrasar. – Não, não vamos. Não acha que pelo menos deveríamos praticar um beijo primeiro?


Quase contra sua vontade, seu olhar se fixou na boca dele. Sim. Sim, deveriam. – Se minha avó perguntar, direi que você não gosta de demonstrações de afeto em público. – Não seria em público. Esta é a sua... nossa casa. – E estou me referindo à presença de alguém. – Ela precisava desviar o olhar daquela boca, especialmente agora que estava mais próxima da sua, mas não conseguia. Quando o rosto de Sean chegou perto o suficiente para que ela percebesse a sua intenção, Emma fitou-o nos olhos, mas era tarde demais. Antes que pudesse reagir, os lábios dele encontraram o seus, e a mão forte, ainda em suas costas, abraçou-a com mais força. Ela fechou os olhos. Prática. Isso era tudo. E se seu corpo começasse a formigar e os dedos coçassem de vontade de afundar nos cabelos dele... Bem, seria um bom sinal para um mês fingindo um namoro, não é? O choque de calor que lhe percorreu o corpo como uma descarga elétrica podia ser uma complicação indesejável, mas se preocuparia com esses detalhes mais tarde. Talvez quando não estivesse muito ocupada pensando em jogá-lo sobre a cama macia, feminina, da qual ele reclamara, e provar que as mulheres também gostavam de algo mais duro.


Emma precisou de todo seu controle para não gemer em protesto quando os lábios dele se afastaram dos seus. Queria segurar-lhe o rosto entre as mãos e beijálo outra vez. Talvez correr as mãos sob as costas da camiseta que ele usava e sentir a tepidez de sua carne e os músculos rijos se contraírem sob a ponta dos seus dedos. – Nada mal para um beijo técnico – disse ele, em uma voz casual que a irritou. Não era possível que ele não tivesse sentido nada, enquanto seus sentidos chiavam como uma gota de água em uma frigideira quente, untada com óleo. – E o Oscar vai para... – murmurou ela, quando ele piscou e saiu da sala. Emma estava prestes a xingar e dar um pontapé na perna da mesa de centro, quando o viu no espelho através porta do armário entreaberta. Sean havia parado no corredor, e ela viu sua imagem invertida quando ele puxou a braguilha da calça jeans, sem dúvida, ajustando-a para não demonstrar que estava excitado, como queria que ela pensasse. Em seguida, ele endireitou os ombros e continuou andando. Apesar de o fato de ambos estarem excitados ser uma complicação ainda maior, Emma sorria quando o encontrou novamente no corredor da frente.


– Podemos ir na minha picape – disse ele, em um tom de voz sucinto que a fez reprimir um sorriso maior e muito mais presunçoso. – Não, não podemos. A minha tem cabine estendida e pode chover. Não podemos jogar a bagagem da minha avó na caçamba para se molhar. – Então, eu dirijo. Emma parou a meio caminho da porta da frente. – O quê? – Você dirige como uma mulher. – Ele estendeu a mão, presumivelmente pedindo as chaves. – Você é um idiota. – Podemos ficar aqui discutindo o assunto. Tenho certeza de que sua avó vai entender. – Um idiota sexista. Sean sorriu e pegou as chaves de sua mão, antes que ela pudesse reagir. – Da próxima vez, procure conhecer melhor o homem com quem vai se casar antes de contar à sua família sobre ele. Entre no carro. Querida.


CAPÍTULO 5

CATHERINE

SHAW, que preferia ser chamada de Cat, desembarcou do avião em Manchester e recuperou a bagagem em tempo recorde. Era bom estar de volta, mesmo que fosse apenas por algum tempo. Houve uma época em que teria pensado que era bom estar em casa, mas agora se considerava uma floridense. Pagara um pouco mais para voar até o aeroporto de Nova Hampshire, em vez de Logan, pois Emma ia buscá-la e não queria que sua neta se incomodasse em ir até Boston, mesmo que seu noivo estivesse dirigindo. Haviam combinado de se encontrar na pequena praça de alimentação, e ela avistou Emma de imediato, de pé ao lado de um homem alto, bem aparentado, que esquadrinhava o aeroporto, observando as pessoas. Um ano e meio de reintegração à vida civil não parecia ter reduzido muito a aparência dele de soldado.


Emma ainda não a avistara, e ela resolveu despender alguns minutos para dar uma boa olhada na neta. Estava mais magra, o que não era de admirar, já que não sabia cozinhar. Seu trabalho era tão físico que ela estava desaparecendo devido à dieta regular de comidas prontas e refeições de micro-ondas. Teria que colocar um pouco de carne sobre os ossos da jovem durante sua estadia ali. À primeira vista, Emma se parecia bastante com a mãe, principalmente o cabelo. Mas, nas linhas do nariz, boca e no castanho-escuro dos olhos, Cat podia ver semelhanças com o filho e o marido que havia perdido. Como sempre, sentiu a velha pontada de dor como uma companheira constante e indesejável, mas logo foi ofuscada pela gratidão de ter recebido a bênção que era a sua neta. Então, os olhos de Sean encontraram os seus e ele, sem dúvida, a reconheceu pelas fotos, que ela às vezes se lembrava de enviar por e-mail da Flórida. Ele cutucou o braço de Emma e Cat percebeu o modo como a neta estremeceu e corou. No instante seguinte, Emma estava correndo pelo saguão para abraçá-la. – Vó! Cat deu-lhe um abraço apertado, embalou-a um pouco, até que viu seu futuro neto, por afinidade, pelo


canto do olho. Ele parecia ansioso, deslocando o peso de um pé para o outro, enquanto observava o reencontro das duas. Soltando Emma, ela se virou e lhe estendeu a mão. – Você deve ser Sean. O rapaz tinha um aperto decente. Ela não confiava em homens com apertos de mão fracos. – É um prazer conhecê-la, sra. Shaw. Boas maneiras, também. – Por favor, me chame de Cat. Ser chamada de sra. Shaw faz-me sentir muito velha. Sean sorriu, um sorriso maroto que provavelmente enfraquecia os joelhos da neta. – Qualquer um vê que pode ser tudo menos velha... Cat. – Acho que eu e você vamos nos dar muito bem. – Como foi seu voo? – perguntou Emma, quando Sean pegou a bagagem de Cat e começou a conduzi-las em direção à saída. – Sem maiores percalços, o que nunca é uma coisa ruim. Durante o caminho pelo estacionamento, começaram a cair os primeiros pingos de chuva. Sean colocou a bagagem no banco de trás da picape e Emma também se acomodou lá. Cat ficou impressionada quando ele a segurou pelo cotovelo para ajudá-la a


subir no banco do passageiro, antes de fechar a porta e contornar o veículo para se sentar atrás do volante. Parecia um bom rapaz. – Então, você tem família por aqui, Sean? – perguntou ela, quando estavam na estrada, em direção ao norte. – Sim, senhora. Meus tios vivem cerca de 15 minutos da... nossa casa, e tenho quatro primos e suas respectivas famílias. – Ah, que bom. Mal posso esperar para conhecer todos. Sean virou a cabeça e lançou-lhe um rápido olhar, antes de se concentrar na estrada outra vez. Cat desejou saber por que ele parecia surpreso pela avó de sua noiva querer conhecer a sua família. – Eles estão sempre muito ocupados – disse ele. – Com as crianças e tudo mais, mas vou ver o que posso fazer. Talvez um churrasco ou algo assim. A viagem de uma hora conferiu a Cat tempo de sobra para não apenas ouvir a conversa constante de Emma sobre a casa e o trabalho, mas também para sentir a tensão no interior do veículo. A voz da neta soava demasiado animada. Os dedos de Sean apertavam o volante com força. Ora ele os relaxava, ora os flexionava, mas em seguida voltava a contraí-los. Estava quase achando que o casal brigara antes de sua


chegada, mas não havia nenhuma raiva latente entre os dois. Apenas nervosismo. Cat parou de se preocupar no instante em que Sean pegou o caminho da entrada de carros e se dirigiu à bela casa antiga que ela passara a chamar de lar desde os 19 anos. Ela e o marido, John, haviam pedido emprestado o dinheiro para a entrada do pagamento ao pai dele e comprado a propriedade quando ela ficara grávida, sonhando enchê-la com uma família grande, barulhenta e amorosa. Naquela ocasião, sequer podiam imaginar que Johnny seria o único filho do casal ou que os dois acabariam por passar vários anos sozinhos naquele lugar, até a tragédia lhes dar Emma. A menina não apenas trouxera a alegria de volta às suas vidas, mas também um novo sopro de vida à casa. Foi da alegria que Cat preferiu lembrar quando Sean pulou da picape e contornou o veículo para lhe abrir a porta. Sorriu ao vê-lo estender a mão para ajudá-la. E notou quando ele agiu da mesma forma com Emma. A neta hesitou por apenas um segundo, mas o detalhe não lhe passou despercebido. Em seguida, Emma deu a mão a um Sean, claramente perturbado, e saltou do carro. Seus pés mal haviam tocado o chão e ela já havia afastado a mão e se virado para pegar a bagagem.


Seria um mês interessante. Cat não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas de uma coisa tinha certeza: o que quer que os dois estivessem fazendo, Emma e Sean não estavam dividindo uma cama e um banheiro há um ano. SEAN PENSOU que estivesse se saindo bem, até Emma colocar um pirex de vidro fumegante em um tripé no centro da mesa. Era uma caçarola com raminhos feito pequenas árvores verdes, que brotavam para fora de uma espécie de molho. Brócolis. Ele odiava brócolis. – Frango Divan – anunciou Emma, e só um idiota não perceberia a nota de orgulho em sua voz ao colocar as mãos nos quadris, com luvas de forno e tudo. – É a minha especialidade. Certo, na verdade, é o único prato que sei fazer. Então resolvi prepará-lo como almoço de boas-vindas. Cat sorriu e Sean forçou os lábios a se moverem no que esperava ser uma expressão similar. Uma mulher dormindo, convivendo e planejando um futuro com um homem saberia que ele não gostava de brócolis. E a culpa era dele por ter rido da sua sugestão de escrever um manual com informações a seu respeito. Talvez por ele ser o falso homem da casa, Emma o serviu primeiro, colocando à sua frente um apetitoso


prato fumegante de frango e queijo arruinado pelo vegetal verde. Ele sorriu, ou talvez tenha sido uma careta, e tomou um gole de chá gelado. Ia conseguir, disse a si mesmo. Afinal, sobrevivera ao campo de treinamento, à guerra e às duras condições meteorológicas do Afeganistão. Poderia sobreviver aos brócolis. Com certeza. – Está com uma aparência maravilhosa. – Cat praticamente murmurou, e o estômago de Sean roncou. Se de fome ou de protesto, ele não sabia dizer. Emma, é claro, corou de prazer com o elogio. Estava linda, com algumas mechas de cabelos emoldurandolhe as bochechas rosadas e os olhos brilhando de satisfação. Não tão linda a ponto de convencê-lo a comer brócolis, mas linda o suficiente para fazê-lo fitála por um minuto enquanto ela se servia e se sentava à sua frente. Então, Sean se forçou a olhar para o próprio prato. Dera sua palavra que faria aquela farsa dar certo e, se Cat percebesse que Emma fizera o prato que o noivo mais detestava, não seria um bom começo. Resolveu comer o mais rápido possível, escolhendo garfadas de frango com queijo que não estavam tão ruins, mas não pôde evitar deixar uma pilha de brócolis não consumido.


Coma, soldado. Os ramos dos brócolis ou talos, ou o que quer que as pessoas os chamassem, rangeram entre seus dentes, um pouco malcozidos. Ou talvez a receita pedisse que fossem assim. De qualquer maneira, ele não gostava, então mastigou e engoliu o mais rápido que pôde. Em seguida, pegou outra garfada e repetiu o feito. Ele fora capaz de passar pelo treinamento de base, colocando um pé relutante na frente do outro, e foi assim que conseguiu ingerir o Frango Divan de Emma. Uma bocada nauseante e estridente após a outra. – Sean, você disse que seus tios moram aqui perto – disse Cat, entre uma garfada e outra. – Mas Emma me contou que você tem dois irmãos mais velhos, um irmão mais novo e uma irmã no Maine? Em silêncio, grato por qualquer desculpa para pousar o garfo, Sean engoliu um pouco de chá gelado e limpou a boca. – Somos todos de lá, mas apenas Josh ainda vive em Whitford. Ele administra a hospedaria da família. – Uma hospedaria para os amantes das motoneves, segundo Emma? – Na verdade, para os amantes de quaisquer atividades de inverno, mas principalmente para os que praticam trenó. – Sean estava tentando se acostumar, mas era estranho o quanto aquelas duas mulheres


sabiam a seu respeito. – Meu bisavô começou a Northern Star Lodge como um clube de caça exclusivo, mas, quando meu pai assumiu os negócios, resolveu diversificar. A caça se tornara pouco frequente, e a clientela havia mudado. Fica localizada próximo às pistas de trenó, por isso prosperou. – O que os outros irmãos fazem? Sean poderia ter se ressentido com aquele questionário, não fosse o fato de lhe ter dado uma desculpa para ignorar os brócolis deixados em seu prato. – O mais velho, Mitch, dirige uma empresa de demolição. A sede fica fora de Nova York, mas ele vive em hotéis na maioria do tempo. Depois, vem o Ryan, que constrói casas personalizadas na área de Boston. Depois venho eu e então Liz, que vive no Novo México. Josh é o mais novo. – Você os vê com frequência? Uma pergunta inofensiva, como todas as outras, mas Sean tomou outro gole de bebida para ganhar alguns segundos. Estivera com todos os irmãos, menos Liz, poucos dias atrás, quando se reuniram na casa de Ryan em Massachusetts para uma festa de boas-vindas. Como a hospedaria ficava a 5 horas de carro do Aeroporto de Logan, em Boston, além dos voos e horários ocupados, fizera mais sentido se reunirem na


casa de Ryan. E, uma vez que ele não estava pronto para se estabelecer e se comprometer com qualquer coisa, decidira passar algum tempo em Nova Hampshire antes de voltar para casa. Mas, pelo que Cat sabia, ele havia deixado o Exército há dois anos, e não há menos de duas semanas. – Eu os vejo com frequência suficiente para não sentir muita falta deles, mas não tanto para nos irritarmos uns com os outros. Emma clareou a garganta. – Quer um pouco mais de Frango Divan, Sean? Sobrou bastante. – Claro que não. Quero dizer, não obrigado. Mas estava gostoso. Um sorriso iluminou o rosto dela, fazendo-o sentir uma pontada de culpa pela mentira. Ou talvez a dor fosse por causa dos brócolis. – Tenho uma torta de maçã para sobremesa. Comprada pronta, é claro, já que eu queria que fosse realmente boa. Cat riu. – Fiz tudo que podia para ensiná-la a cozinhar. Causa perdida, eu acho. Ela preferia brincar na terra. Você cozinha, Sean? – Sei fazer churrasco. Fazemos muitos churrascos. – Ele notou a forma como os olhos de Emma se


arregalaram. – Pelo menos vocês não vão morrer de fome. Já fiz muitos churrascos na Flórida, porque é melhor do que aquecer a casa. Com frequência, acabamos nos reunindo na casa de alguém e colocando qualquer coisa para assar na churrasqueira. Talvez amanhã eu possa fazer meu famoso salmão grelhado com mel de gengibre. Emma olhou para Sean e sacudiu a cabeça depressa, com pânico no olhar. Droga! Ela não possuía uma churrasqueira. – É... hã. Tivemos que jogar a churrasqueira no lixo. Cat ergueu as sobrancelhas. – Jogar no lixo? – Eu a explodi – disse Emma depressa. – E ainda não compramos uma nova. Quero dizer, não foi uma grande explosão, claro, mas eu fiz algo de errado com o tanque de propano e... o quebrei. – E ainda quer saber por que me preocupo com você? – Sean sufocou uma risada com o guardanapo. Um bom modo de convencer alguém que podia ser deixado por conta própria, pensou. – Claro que, agora que você tem Sean, me preocupo bem menos. Cat lançou um olhar doce, confiante e repleto de sentimento de gratidão a Sean, que o fez se sentir um


miserável e cerrar os dentes para conter a vontade de lhe revelar tudo. Então, ele olhou para Emma e a vontade diminuiu. Ela estava olhando para a avó, e foi como se um pouco da tensão tivesse abandonado o seu corpo. Sua expressão, repleta de amor e alívio, o lembrou do motivo de estarem naquela posição: para dar paz de espirito a Cat, de modo que ela pudesse desfrutar de sua aposentadoria. Pelo menos parecia estar dando certo. A torta de maçã comprada pronta nem de longe o fez se sentir mais confortável, mas, na primeira oportunidade, ele se desculpou. – Preciso dar alguns telefonemas, por isso vou deixálas colocar as notícias em dia. Era mentira, mas, inferno, que mal havia em dizer mais uma? Ao sair, enfiou-se no escritório de Emma, pegou um dos muitos bloquinhos de notas adesivas espalhados sobre a mesa e vasculhou até encontrar uma caneta hidrográfica. Uma vez no andar superior, foi direto ao banheiro compartilhado. Arrancou a folha adesiva do bloco e a colou no espelho, em seguida retirou a tampa da caneta.


EMMA OLHOU o bilhete preso ao espelho, com os dedos enrolados sobre a borda da pia. O rosto lavado. Cabelos e dentes escovados. Era hora de sair, se enroscar no sofá e tentar dormir. Eu odeio brócolis. E ervilhas. Ótimo. Então, ele não era fã de vegetais verdes. E onde estava a informação que ela realmente precisava saber, ou seja, se ele usava pijama? Não lhe ocorreu se preocupar com aquele detalhe antes. Inferno, mas agora estava preocupada. Ela, por sua vez, estava de pijama, é claro. Ou o que o substituía, no seu caso: uma enorme camiseta com o logotipo da University of New Hampshire sobre um calção de flanela macio. Considerara comprar algo mais bonito e um pouco mais feminino, mas não queria enviar mensagens ambíguas ao homem que estaria dormindo em sua cama. Restava-lhe apenas esperar que Sean tivesse a mesma consideração no que dizia respeito às suas roupas de dormir. Ele provavelmente não dormia despido, embora sua imaginação não tivesse problema algum em conjurar aquela imagem vívida e deliciosa. Ele passara doze anos no Exército, boa parte desse tempo preparando tropas para combate no exterior, e certamente eles não tinham o hábito de dormir nus.


Um pijama de flanela seria ótimo. Não um calção como o seu. Calça comprida e uma camisa de manga comprida abotoada até a garganta seria bom, como algo que Ward Cleaver teria usado para dormir em suas comédias em 1950. Quando, por fim, cerrou a cortina sobre o drama mental e saiu do banheiro, ficou um pouco desapontada ao ver que ele já estava dormindo. Com certeza, Sean, ao contrário dela, não estava lutando para conter as rédeas de uma desenfreada atração sexual. Ele havia diminuído a luz do teto, mas ela podia ouvi-lo ressonar suavemente, erguendo a coberta puxada até a altura do abdome. O abdome nu, que lhe atraiu o olhar para o peito nu, os ombros nus e os músculos bem realçados pela posição que ele dormia, com os braços erguidos sobre a cabeça. O restante do corpo estaria nu também? – Quando você olha para uma pessoa que está dormindo, ela costuma acordar – murmurou ele, sem se mover ou abrir os olhos. O rosto de Emma ardeu como se aquelas palavras fossem um maçarico. Depressa, cruzou o quarto para apagar a luz. Sob o brilho tênue do luar, que se infiltrava pelas cortinas, caminhou até o sofá e tentou se sentir confortável. Não era bom o suficiente, mas se


enroscou sob a coberta de algodão leve e fechou os olhos. Ser surpreendida observando-o na primeira noite foi embaraçoso, mas, pelo menos, ele não era um leitor de mentes. Não havia nenhuma maneira de descobrir que ela desejava saber o que ele usava da cintura para baixo. – Boa noite, Emma. – A voz calma e rouca na escuridão a fez estremecer. – Boa noite, Sean. Em pouco menos de sete horas se revirando na cama sem dormir, a pergunta de Emma foi respondida, em detrimento de sua libido recentemente reavivada. Em algum momento durante a noite, Sean havia afastado o lençol. Por certo, quando se virara de bruços. As mãos enfiadas sob o travesseiro e um joelho um pouco dobrado proporcionavam uma visão clara de suas nádegas perfeitamente delineadas pelo tecido da cueca boxer azul-escuro. Embora Emma tomasse o cuidado de não olhar diretamente para as nádegas em questão, Sean se remexeu. Enterrou o rosto um pouco mais fundo no travesseiro e se espreguiçou, fazendo todo o seu corpo e o dela vibrarem, e os músculos de suas costas se contraírem. Como não havia nenhuma maneira de forçar os olhos a se desviarem daquela visão, mas não querendo


ser pega olhando-o de novo, Emma se ergueu do sofá. Pegou a pilha de roupas que havia colocado para fora na noite anterior, entrou no banheiro e fechou a porta contra a tentação. Quando saiu, um pouco mais tarde, revigorada, vestida e pronta para enfrentar o dia, Sean estava sentado na beirada da cama, esfregando o rosto com as mãos. Havia colocado uma calça jeans, mas Emma percebeu de imediato que ele não fechara o zíper. – Bom dia – disse ela, injetando um pouco mais de alegria em sua voz do que de fato sentia. – Bom dia. Bem, ele não parecia uma pessoa diurna. Uma vez que, ao contrário dela, não tivera qualquer problema em adormecer, não acreditava que ainda estivesse cansado. – Conhecendo minha avó como conheço, ela já deve estar preparando o café da manhã, e eu não herdei minha falta de habilidades culinárias dela. – Descerei dentro de alguns minutos. – Sean não parecia muito inclinado a conversar, então ela saiu do quarto e seguiu o aroma celestial de café e bacon vindos da cozinha. – Bom dia, vó. Cat parou de mexer uma grande quantidade de ovos mexidos em sua frigideira de ferro fundido favorita,


que havia sido tristemente negligenciada em sua ausência. – Bom dia, querida. E Sean, está lá em cima? – Vai descer dentro de alguns minutos. – Imaginando ser algo que uma mulher prendada faria, colocou sobre a mesa uma xícara de café para Sean ao lado da sua. – Você não precisa ter todo esse trabalho conosco. – Não pense que não vi as caixas de donuts e aveia instantânea na despensa. E cozinhar para apenas uma pessoa não é nada divertido. Emma não achava que cozinhar para qualquer número de pessoas fosse divertido, mas não recusaria um desjejum caseiro. – Estava tentando reorganizar algumas coisas para ter alguns dias de folga, mas quarta-feira tenho um trabalho inadiável. E Sean também, é claro. – Eu sabia que você estaria ocupada nesta época do ano, então não esperava que me fizesse companhia durante todos os minutos do dia. Provavelmente irei à cidade rever alguns velhos amigos. Emma sorriu, mas um ligeiro tremor percorreu seu interior. A cidade mais próxima, onde sempre iam e ela estudara, não era uma cidade pequena, mas também não era tão grande. Sabendo que a avó, com certeza, iria rever os velhos amigos, resolvera fingir que estava


noiva lá, também. Seus amigos sabiam a verdade, mas todos do círculo da avó estavam convencidos de que ela ficara noiva, mesmo sem nunca terem conhecido o sortudo. Havia sido um ato de equilíbrio bastante cuidadoso. Ela dizia às pessoas que Sean costumava viajar para a cidade onde seus familiares viviam; logo, não podia visitá-los ao mesmo tempo. Ou que fora ao Maine para uma visita, mas o trabalho a impedia de acompanhá-lo. Felizmente, todo o seu trabalho de base não iria desmoronar sob o escrutínio da avó. – Tem algo cheirando bem – disse Sean ao entrar na cozinha. E, como qualquer bom noivo, deslizou um braço em torno da cintura de Emma e se inclinou para um lhe dar um rápido beijo matutino, com cheiro de shampoo, creme de barbear e creme dental. Tão rápido que terminara antes de Emma se dar conta da sua intenção, mas ela conseguiu não saltar para trás como... Como ele dissera? Uma virgem em uma festa da fraternidade? – Você vai adorar – disse ela, em um tom surpreendentemente normal. – Os ovos mexidos da minha avó são de comer ajoelhado. – Então, qual é o plano para hoje? – perguntou Cat, enquanto colocava os ovos e o bacon nos pratos.


– O que você quiser fazer. – Emma entregou a Sean sua xícara de café. – Devemos sair para comprar uma nova churrasqueira – disse a avó. – E vou ver se consigo um salmão decente. Emma concordou. Pelo menos comprar churrasqueira significava ir até a cidade, e não ficar na cidade. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez. E assim passariam o mês. E, Deus a ajudasse, um beijo de cada vez.


CAPÍTULO 6

SEAN RECEBEU a intimação que tanto temia sob a forma de mensagem de voz deixada em seu telefone celular, enquanto ele, Cat e Emma lutavam para acomodar a nova churrasqueira na parte traseira da caminhonete. – Sean, é a tia Mary. – Como se qualquer outra mulher em sua vida usasse aquele tom de voz com ele. – Não sei que tipo de jogo está fazendo, mas quero vêlo. Hoje. Sozinho. Não me faça procurá-lo, meu jovem. Sim, ele estava em apuros. E a maldita culpa era sua, porque deveria saber que os primos não conseguiam manter a boca fechada. Nunca conseguiam. Principalmente Mikey. Era sempre o primeiro a dar com a língua nos dentes. Sean contou a Emma e a Cat uma história longa e complicada sobre ter prometido ao tio que lhe daria uma mão para trocar o óleo do cortador de grama e partiu como um criminoso a caminho do tribunal para


enfrentar o juiz. Aquele juiz, porém, lhe daria um corretivo com utensílios de cozinha se não gostasse de suas respostas. Sentia-se exausto, e um confronto com a tia era a última coisa que desejava. O relógio na mesa de cabeceira de Emma marcara 1h da manhã quando um som penetrou seu sono. Ser acordado por um gemido sonolento, sensual e bastante feminino não fora nada mau, exceto quando a autora do gemido estava dormindo em um sofá no quarto. Sozinha. Emma se acalmara após aquele único som, mas o corpo dele com certeza não. Como consequência, ele acordou várias vezes durante a noite anterior e ao despertar estava no lado errado da cama. Tia Mary se encontrava na cozinha, como de costume, quando ele chegou e, logo após apontar naquela direção, tio Leo desapareceu na sala e fechou a porta. Covarde. O sermão começou no segundo em que ele cruzou o limiar da sala de estar. – Acho que me enganei a seu respeito todos esses anos. Sempre o julguei um rapaz inteligente, mas tem o cérebro de uma ameba. – Tia Mary, eu... – Não me venha com “tia Mary”, Sean Michael Kowalski. Eu deveria pegar minha colher de pau e


colocar um pouco de juízo nessa sua cabeça estúpida. Sean suspirou e tentou manter a expressão em algo mais próximo de arrependimento, em vez de beligerância. Não que a tia fosse notar, mas ele se esforçou assim mesmo. – Estou apenas ajudando-a por algumas semanas... – Ajudando-a a mentir para a avó, você quer dizer. – Eu sei que soa mal, mas... – Você teve uma boa criação. Sean sabia que não seria fácil, mas esperava, pelo menos, poder terminar uma ou duas frases. – Posso falar? Por favor? – Quando tiver algo sensato a dizer. Sean se permitiu uma pausa de alguns segundos, esperando não demonstrar sua frustração na voz. – Lembra aquela vez, após o colegial, quando destruí minha motocicleta e lhe disse que machuquei apenas o cotovelo e fiquei com alguns arranhões? Mary lançou-lhe um olhar fixo que o fez desejar se contorcer. – Sim. – Bem, minha motocicleta foi destruída, porque um caminhão me atingiu na estrada. Eu também sofri uma grave concussão e tive quatro ossos quebrados. A expressão de Mary congelou por alguns segundos, mas então ele viu a compreensão em seus olhos,


seguida por um brilho de raiva. – Você, seu bastardinho. Por que fez isso? – Não queria que se preocupasse. Não teria acreditado que eu estava bem. Deixaria sua família para vir tomar conta de mim, e Lisa estava grávida, prestes a dar à luz. – Você faz parte da minha família também. Não se esqueça disso. – Teria ficado nervosa sem motivo, porque não havia nada que pudesse fazer. Eu não queria que isso acontecesse, então disse aos outros para mentirem por mim. É mais ou menos a mesma situação em que Emma se encontra. Mary o fitou, os braços cruzados sobre o peito. – Proteger uma velhinha fraca da verdade, você quer dizer? Oh, droga, não. – Você não é uma velhinha fraca, tia Mary, e nem Cat, a avó de Emma. Sei que está chateada, mas aposto que já omitiu a verdade uma vez ou duas para impedir que alguém que você ama sofresse. Quando Mary não respondeu de imediato, Sean pensou que talvez ela estivesse amolecendo. – Não gosto dessa história. – Eu dei minha palavra a Emma. – Isso era o mais importante.


Mary comprimiu os lábios. – E? – E... – Ele respirou fundo. – Se você não pode me ajudar, terei que manter Cat afastada daqui. E ela sabe que você vive nas proximidades, o que significa que terei que dizer que tivemos um desentendimento. – Não me ameace, rapaz – disse ela, mas seu tom soou um pouco mais suave. Ela, de todas as pessoas, sabia que os homens Kowalski eram teimosos e faziam o que queriam. Mas a última coisa de que ele gostaria era se desentender com aquela mulher. Ele a amava demais. – Eu vi as duas juntas, e Emma estava certa. Cat está muito mais feliz agora, pensando que somos noivos, e é tudo que Emma está tentando fazer. Por favor, tia Mary. Dei minha palavra a ela. Mary exalou um longo suspiro significativo, típico das mães. – E o que quer que eu faça? – Cat deseja conhecê-la. Talvez um jantar. Eu estava pensando... esperando que você e tio Leo pudessem oferecer um churrasco. Mary ainda estava considerando a ideia, quando Joe entrou na cozinha e estacou. Sean viu-o estudar a linguagem corporal da mãe, virar-se e recuar.


– Joseph, você sabia sobre essa loucura em que Sean está envolvido? O primo lhe lançou um olhar prometendo represálias no futuro próximo e se virou para a mãe. – Sim, sabia. – E não me contou? – Não era meu dever, mãe. E eles não estão prejudicando ninguém. – É errado. Joe sorriu o que parecia ser um sorriso apaziguador, mas sua diversão óbvia em relação à situação de Sean o estava arruinando. – É errado Emma querer que a avó aproveite sua nova vida na Flórida? – Não banque o espertinho comigo, Joseph. Não é esse o problema. – Esse é o problema – disse Sean, atraindo o olhar da tia de volta para ele. – A paz de espírito da avó de Emma é exatamente o problema. Mary fitou-o nos olhos pelo que pareceu uma eternidade, e Sean desejou desesperadamente não deixar transparecer as próprias dúvidas. – Sábado. A qualquer momento após as 15 horas. Começaremos a colocar as carnes na churrasqueira às 17 horas. – Obrigado, tia Mary.


– Vou manter a boca fechada e entrar no jogo, mas se ela me perguntar se vocês dois estão sendo verdadeiros, não vou mentir. Sean não podia imaginar por que Cat faria uma pergunta como aquela. – Vou recompensá-la. Prometo. – Vá embora antes que eu mude de ideia. Sean foi, com Joe em seu encalço, e não parou até se ver em segurança na entrada para carros da casa. – Sua mãe pode ser uma senhora assustadora às vezes. Joe se inclinou contra a grade de proteção. – Como diabos conseguiu convencê-la? – Disse que, se ela não me ajudasse, manteria Cat afastada daqui, alegando que tivemos um desentendimento. – Caramba! Mas espero que saiba que a mamãe é a parte fácil. Aquela era a parte fácil? Ele não pensava assim. – O que quer dizer? – O que vai fazer com relação às cinco crianças que sabem que você não estava noivo na semana passada e que nunca houve carta alguma de Emma para Lisa lhe enviar no último ano e meio? – Droga. – Toda vez que ele pensava ter tudo sob controle e que podia respirar aliviado, surgia algo novo.


– Sequer pensei neles. Maldição! Joe riu e deu um tapa em suas costas. – Nós cuidaremos das crianças. Não se preocupe. – Obrigado, cara. – Ele começou a subir na caminhonete, então parou. – Olhe, sei que é engraçado para vocês, mas não se esqueçam de que não é uma brincadeira para Emma e Cat. Se arruinarmos tudo, a avó dela vai ficar muito chateada. Joe sorriu e bateu na lateral do veículo. – Ora, primo. Sabe que nós sempre cobrimos sua retaguarda. – Sim, era onde colocavam o letreiro com as palavras: “chute-me”. O primo ainda estava rindo quando ele partiu. – NUNCA IMAGINEI que algo preparado com suco de laranja e molho de soja pudesse ter um sabor tão bom – disse Emma, recostando-se na espreguiçadeira com um suspiro. O salmão com mel de gengibre grelhado da avó fora devorado em tempo recorde, e ela não sentia vontade de se mover. – Escreverei a receita para você. – Vou estragar tudo de qualquer maneira. A avó riu. – Tudo que precisa fazer é misturar os ingredientes, despejá-los em um saco com o salmão e, meia hora


mais tarde, dar a Sean para ele colocar na grelha. Ele assou o salmão com perfeição esta noite. Claro que sim. Como ele lhe dissera mais cedo, ela não precisava se preocupar, porque o cromossomo Y vinha com uma habilidade inata para dominar uma churrasqueira. – A salada também estava boa – disse Sean. – Obrigada – murmurou Emma. – Nem mesmo eu consigo estragar uma salada de alface. Sean parecia bastante descontraído para alguém que, sem dúvida, discutira com a tia e agora descansava com duas mulheres que mal conhecia. Ela, por sua vez, sentia-se como se estivesse passando por uma sessão de desintoxicação. Nervosa. Tensa. O suor lhe escorria pelas costas. Sean levantou-se e começou a recolher os pratos, mas estendeu a mão quando Emma começou a se erguer. – Fiquem sentadas conversando. Vou cuidar da limpeza. Quando ele entrou, Cat sorriu e ergueu as sobrancelhas. – Ele lava os pratos também? Não é de admirar que o tenha agarrado. Emma sentiu-se tentada a apontar algumas de suas características menos atraentes, como o fato de ser um


babuíno sexista que não a deixava dirigir. Mas ele estava fazendo um bom trabalho em convencer Cat de que era o príncipe encantado da sua neta, o que era o mais importante. Então, ela engoliu o aborrecimento com o comportamento do santo Sean. – Ele é uma preciosidade. – Algo a está incomodando. Diga-me o que é e vai se sentir melhor. Emma realmente duvidava disso e resolveu fazer um esforço consciente para relaxar o rosto. – Não é nada. Coisas de trabalho. – Para ser franca, Emma, não ficarei aborrecida se vocês tiverem que trabalhar amanhã. Sei que são muito ocupados. E me enche de orgulho o fato de o seu negócio estar prosperando. – Está indo bem. – Emma deu à avó um sorriso genuíno. – Os veranistas adoram exibir o meu trabalho, e outros veranistas veem e também querem me contratar. – Isso é maravilhoso, querida. – A avó tomou um gole de chá gelado e, em seguida, colocou o copo sobre a mesa do quintal. – Mas eu quero saber mais sobre Sean. – Hum... O quê, por exemplo? – Ela sabia que ele não gostava de brócolis ou ervilhas.


– Oh, não sei. Ele gosta de trabalhar para você? Já que é a chefe, ele pretende ficar cuidando da casa quando tiverem filhos? Emma tinha certeza de que a esposa ideal para Sean seria uma mulher descalça e grávida na cozinha, com um bebê no colo e uma cesta de roupa para lavar na outra mão, mas evitou dizer. – Na verdade, ele não trabalha para mim há muito tempo. Apenas está indeciso, sem saber o que quer fazer ainda. E só pensaremos em ter filhos quando chegar a hora. Em outras palavras, ela não fazia ideia, mas esperava que a avó não percebesse. Talvez, se fosse vaga o suficiente, o que quer que Sean dissesse sobre o assunto não iria contradizê-la. Emma tomou um gole de chá gelado e se esforçou para não se mostrar nervosa. Cat estendeu o braço e tocou-lhe a mão. – Você está feliz? – E lá estava a pergunta de um milhão de dólares. Tudo o que ela e Sean estavam fazendo era para convencer a avó de que a resposta àquela pergunta era um retumbante sim. – Estou feliz, vó. De verdade. Minha empresa está prosperando e eu... tenho Sean. E mesmo sentindo a sua falta, adoro saber que você está feliz na Flórida com seus amigos.


– Você devia nos ver lá. Aquele sol quente faz maravilhas para o corpo e nos sentimos, pelo menos, dez anos mais jovens. Precisava ver a Martha dançando! Aquela mulher consegue se remexer como uma menina de vinte anos. Emma riu e se esforçou, tentando não visualizar Martha, que poderia ser descrita como obesa, remexendo as cadeiras. – Adorei suas fotos nadando com os golfinhos. – Foi incrível! Você não acreditaria como eles são dóceis. – A avó começou a lhe contar a história, e Emma sentiu a tensão abandoná-la. Em algum momento, Sean se uniu a elas, trazendo uma nova jarra de chá gelado, e os três permaneceram sentados ouvindo Cat narrar suas travessuras na ensolarada Flórida, até bem depois do sol se pôr. E então, quando a avó se recolheu, Emma e Sean olharam um para o outro por sobre a mesa do quintal. – Gosto da sua avó – disse ele, uma vez que Cat estava em segurança, fora do alcance de sua voz. – Não está sendo tão difícil quanto eu imaginava. – Está melhor do que eu pensava – concordou ela. – Mas ainda tenho minhas dúvidas a respeito da eficácia desse estratagema. – Sem dúvida, ela ama a Flórida.


– Pude perceber, mesmo por telefone. Quando ela começou a falar sobre voltar para cá, eu sabia que precisava fazer algo para impedi-la. Sean sorriu, seus olhos brilhando. – Mesmo que fosse algo absurdo. – Acho que as palavras que utilizou para me descrever foram doida de pedra. – Ela observou Sean franzir a testa, por um momento, como se tentasse lembrar de ter dito aquilo. – Mas Lisa também me contou sobre a parte do alta e sensual, então não fiquei ofendida. – Talvez não devêssemos falar sobre a parte do sensual na hora de irmos para a cama. Ótima observação. – Acha que pode aguentar essa farsa por um mês? – Eu disse que aguentaria. – E já conta com a total admiração da minha avó. Terei que começar a reclamar de você de vez em quando, senão, quando chegar a hora de lhe dizer que terminei com você, ela não vai acreditar. – É verdade. Talvez devesse dizer a ela que eu terminei com você. Emma lhe jogou um guardanapo enrolado. – Engraçadinho. – Preocupe-se com isso mais tarde. Por ora, sua avó acredita que está loucamente apaixonada por mim e é


tudo que importa. – ENTÃO ESTÁ me dizendo que a avó de Emma realmente acreditou nessa história? – Kevin mergulhou uma batata frita em um pouco de ketchup e colocou-a na boca. – Não acredito. Sean deu de ombros. – Estou lhe dizendo. Ela sequer nos lança olhares esquisitos ou algo do gênero. Sean resolvera passar metade da manhã fora para proporcionar a Emma e à avó um pouco de tempo sozinhas, já que os dois teriam que trabalhar no dia seguinte e também porque, depois de três dias fingindo, precisava de uma pausa. Após perambular um pouco pela cidade, dirigiu-se ao Jasper Bar & Grille para ver como estavam indo as coisas por lá. Chegara quase ao mesmo tempo em que a esposa e a filha de Kevin adentraram o estabelecimento para visitá-lo, durante a pausa para o almoço, e fora convidado a se unir a eles. Beth posicionou a cadeira de Lily próxima ao seu assento e afastada do de Kevin. A menininha tentava trocar sua banana cortada em rodelas pelas batatas fritas do pai – não que Sean a culpasse por isso… – Devo admitir que pensei que não fosse dar certo. – Nós também – disse Sean, e todos riram.


– Não é estranho? – Beth lançou um daqueles olhares de esposa a Kevin quando ele deu uma batata frita a Lily e, em seguida, olhou para Sean outra vez. – Não posso me imaginar vivendo com alguém que não conheço. – Sim, é estranho. Talvez o tempo que passei no Exército tenha me ajudado. Estou acostumado a conviver com quem aparecer. E não é tão ruim. Cat é uma excelente cozinheira. – É preciso tão pouco para fazer um homem Kowalski feliz – zombou Beth. O marido sorriu e se inclinou sobre a cadeira para lhe beijar a bochecha e deu outra batata frita à filha. – Eu me recordo de ganhar seu coração com os meus hambúrgueres Jasper. – Entre outras coisas. E quando Lily tiver uma dor de barriga logo mais, você vai cuidar dela. Sean desviou sua atenção da felicidade doméstica para o prato de peixe e batatas fritas. Sentia-se feliz pelos primos, todos casados e cuidando dos filhos, mas essa vida não o atraía. Talvez dentro de alguns anos, quando achasse um lugar para se estabelecer e uma mulher com quem gostaria de viver. Mas, por ora, não estava sequer à procura. Quando Lily decidiu que já estava farta de sua cadeira e começou a expressar seu descontentamento


em voz alta, Beth embalou todos os pertences do bebê e deu um beijo de despedida no marido. – Boa sorte, Sean. Vejo você no sábado. – Então – disse Kevin, ao ficarem sozinhos. – Como estão os arranjos para dormir? – Ela continua no sofá. – Acho que Josh cravou duas noites na aposta. Ele está fora. Sean sacudiu a cabeça, um pouco enojado pela falta de crença do irmão mais novo em seu autocontrole. – Vocês todos estarão fora quando o mês terminar. E sem dinheiro. Sean fez aquela afirmação, como se acreditasse de fato no que estava dizendo, mas se encontrava em um terreno movediço. Três noites dormindo no mesmo quarto que Emma estavam causando um estrago no seu ciclo de sono. E quando sonhara com ela, na noite anterior, nua e se insinuando para ele, com aquela cascata de cabelo escuro fazendo cócegas em seu peito, acordara suado, excitado e dolorido. Não se levantar e vencer os três metros que os separavam quase o matou. Trabalhar no dia seguinte seria bom, pensou. Mesmo ficando sozinho com ela, um pouco de trabalho físico faria bem ao seu corpo. Talvez ficasse tão cansado que pudesse dormir durante a noite sem ficar excitado o tempo inteiro.


– Tenho que voltar ao trabalho – disse Kevin, lhe interrompendo os pensamentos que era preferível não ter. – Seu almoço hoje é por conta da casa. – Obrigado, cara. – Sean se ergueu e apertou a mão do primo, antes de comer o restante do almoço. Por mero capricho, rumou para a casa de Joe e Keri, e, uma vez que os veículos de ambos se encontravam na garagem, estacionou e saiu. Keri atendeu à porta, com uma aparência cansada, como se não estivesse em um dos seus melhores dia. – Oi, Sean. Estava acabando de pensar: “puxa, preciso de mais Kowalskis na minha vida agora”. Ele riu e adentrou o grande hall. – A bebê está dando trabalho? – Já sabia que os homens Kowalski eram irritantes, sem ofensa, mas vocês rapazes não entendem nada de garotas. – Joe está escrevendo? Keri exalou um ruidoso suspiro e colocou as mãos nos quadris. – Não. Joe está fingindo escrever para não segurar Brianna no colo, mas com certeza deve estar jogando no computador. – Do outro quarto veio um berro irritado que Sean esperava ser da filha deles, e não de um animal selvagem revirando latas de lixo à procura de comida.


– Ele está no escritório? Keri assentiu e apontou com a mão naquela direção, antes de emitir um som semelhante a um rugido e se afastar para ir acalmar a filha. “Bem-vindo à selva”, pensou ele, antes de se dirigir ao escritório de Joe. Bateu duas vezes à porta e, em seguida, entrou. Joe olhou para cima com um sobressalto culpado e Sean soube que a esposa o conhecia muito bem. – Ela sabe que você está apenas fingindo escrever para não tomar conta da criança. – Sabe o que realmente me irrita? É todo mundo ficar dizendo: “espere até ela ser mais velha”. Como se as coisas pudessem piorar. Como podem piorar? Sean ergueu as mãos em um gesto que dizia “não me pergunte”. – Durante anos escrevi sobre bichos-papões e demônios que se escondem nos corações dos homens. Não fazia ideia de que não há nada mais assustador do que uma menininha. Sean riu. – Ela não pode ser tão ruim assim. Quanto ela pesa? Uns 4,5Kg? – Não, 6,8Kg. Mas são 6,8Kg de puro mau humor e cheiros fedorentos. Acredite em mim. – Vou acreditar em sua palavra.


Joe recostou-se na cadeira de couro do escritório e suspirou. – Vamos falar sobre a sua vida. Ela ainda está no sofá? – Sim, está. – Ótimo. Apostei que você aguentaria três semanas. Talvez, mas Sean não apostaria nisso. Ou não deveria apostar, de qualquer maneira. Especialmente um mês inteiro. Suas partes íntimas doíam só de pensar. – Vocês já têm um plano para as crianças no sábado? – Sim, mas isso vai lhe custar caro. – Não tem problema. Descontarei de todo o dinheiro que receberei dos idiotas no final do mês. Joe sorriu. – Continue dizendo isso a si mesmo, amigo. Sean continuava. Com toda energia que podia reunir. E provavelmente continuaria dizendo, até o momento em que conseguisse despir Emma.


CAPÍTULO 7

– SE EU soubesse que hoje iríamos apenas nos sentar e observar as plantas crescerem, teria trazido meu livro. Emma desviou a atenção das mil-folhas que estava verificando e se voltou para Sean. – Desculpe. Eu estava distraída. Você conseguiu terminar de colocar malha contra ervas daninhas? – Sim. Não entendo por que eles querem que o caminho até a praia seja em pedra branca. Não se costuma voltar da água descalço? – Não este casal. Para eles, o que importa é a aparência, não a praticidade. – Que seja. Levaremos o resto do dia para conseguir assentar todas essas pedras, então desça das nuvens e mãos à obra. Emma sentiu vontade de mandá-lo para o inferno, porque ela era a chefe, ou pelo menos mostrar-lhe o


dedo médio, mas não tinha energia. Viver uma vida falsa era muito mais desgastante do que imaginara. Não queria sequer pensar na dificuldade de tentar dormir todas as noites com seu companheiro de quarto seminu, esparramado sobre a cama, a apenas três metros de distância, então resolveu pensar na avó. A avó que, naquele momento, estava a caminho da cidade. A cidade que ouvira rumores sobre o seu noivado, mas que nunca realmente vira o seu noivo. Se a avó voltasse da cidade ainda acreditando que ela e Sean estavam prestes a subir no altar, seria um milagre. – Você parece cansada – comentou Sean, e Emma se conteve para não lhe dar com a pá na cabeça. Ele, por sua vez, parecia deleitável, com os músculos ondulando e uma leve camada de suor conferindo um aspecto luminoso aos braços bronzeados, enquanto pegava uma pá de pedras. – O sofá é mais curto do que eu pensava. Mas estou me acostumando. – Há espaço de sobra na cama. Emma se esforçou para manter a pá de pedras no carrinho de mão. Se não o olhasse, não teria que constatar em seu rosto se ele estava falando sério ou não. Se não estivesse, ela poderia golpeá-lo com a pá. Se estivesse...


– Péssima ideia. Ele riu. – Da mesma forma que encher o carrinho de mão a ponto de não poder movê-lo, como acaba de fazer. – Oh, droga! – Emma colocara uma pilha tão grande de pedras que teria que despejar metade para poder mover o maldito carrinho. – Vou levá-lo para você. – Ele piscou para ela. – Só desta vez. Emma sentiu a boca secar ao vê-lo se posicionar entre os braços do carrinho e erguê-lo como se fosse um saco de mantimentos, mas o seguiu em direção à área que ele preparara com a malha para evitar o aparecimento de ervas daninhas, onde ela havia espalhado o primeiro lote de pedras brancas. Por sorte, conseguiu perfazer a maior parte da caminhada, sem cobiçar aquele corpo escultural. – Como pôde fazer este trabalho sozinha por tanto tempo? – perguntou Sean, assim que despejou o conteúdo do carrinho no lugar. – Não costumo encher o carrinho dessa maneira. Sean tirou as luvas de trabalho de couro e enfiou-as no bolso de trás. – Estou falando sério. Isto... – Ele deixou o restante da frase no ar e Emma revirou os olhos. – Não é trabalho para mulheres?


– Eu ia dizer que exige muito esforço físico. – Levo um pouco mais de tempo do que um homem levaria, mas faço o trabalho por partes. E, às vezes, peço uma mãozinha a Joey e Danny. – Então os filhos de Mike e Lisa a conhecem bem? – Sim. Se eu não contasse com a sua ajuda hoje, provavelmente teria trazido os quatro garotos. Brian e Bobby sabem espalhar adubo e pedras e ganham alguns dólares por baixo dos panos. Em geral, perco mais tempo corrigindo o que eles fizeram do que se eu mesma tivesse colocado a mão na massa, mas eles ficam com ciúme se eu trouxer apenas os dois mais velhos. – Acha que eles conseguem lidar com um segredo como o nosso? Emma suspirou e inclinou-se sobre a pá. – Não sei. Espero que sim. Era um plano em duas etapas, embora instável, na melhor das hipóteses. A primeira etapa era manter as crianças o mais longe possível de Cat Shaw. A segunda era torná-lo um jogo. Com prêmios. A filha de Terry, Stephanie, e os quatro garotos de Lisa ouviram a história e foram desafiados. Quem não revelasse o segredo ganharia dinheiro e tempo para jogar videogame no fim do mês, com significativo bônus para


os adolescentes que ajudassem a orientar as crianças mais novas. Pelo que Sean dissera, era de estranhar que a cabeça da sra. Kowalski não tivesse explodido, mas ela parecia relutantemente disposta a concordar com aquele plano. Por enquanto. – Não sei como lhe dizer o quanto aprecio o que sua família está fazendo por mim – disse Emma, voltando a calçar as luvas. – Eu sei que eles devem pensar que sou louca. – Um pouco. – Sean sorriu, o que a impediu de se concentrar demais em suas palavras. – Mas eles estão tentando. Porque ele havia pedido, pensou Emma. E sabia que não era apenas uma questão de pedir. Com certeza, ele precisou implorar pela cooperação deles, tentando convencê-los a concordar com algo que ele próprio não sabia se era certo. Ou assim pensara, no início. Sean havia deixado outro bilhete no espelho do banheiro naquela manhã. Acho que você está fazendo o correto. Não era muito, mas foi o suficiente para ajudála a vencer mais um dia. E, se a avó não voltasse da cidade exigindo respostas, venceria outro depois daquele.


CAT PASSOU o tempo passeando pela rua principal da cidade, desfrutando de um perfeito dia de início do verão na Nova Inglaterra. Tinha alguns velhos amigos para visitar e alguns mantimentos e outros itens para comprar, mas por ora estava apenas caminhando. Caminhar ajudava a clarear a mente, um estado que não conseguira sentir desde que chegara a Nova Hampshire. Havia algo errado no relacionamento de Emma e Sean. Tivera aquela impressão no aeroporto, e o sentimento só se intensificara após conviver sob o mesmo teto com os dois por alguns dias. No início, tentara justificar a reação de Emma aos toques de Sean como constrangimento que uma jovem bem-educada sentia com relação a demonstrações públicas de afeto na frente da avó. Mas era tão óbvio que os dois não estavam namorando há um ano, muito menos vivendo juntos, que desejou saber se devia se sentir ofendida por eles terem subestimado de modo tão drástico a sua inteligência. O que não conseguia entender era o motivo daquilo. O anúncio da venda de uma loja chamou sua atenção e ela parou na calçada. A Walker Hardware vendia utensílios de jardinagem, artigos veterinários e de materiais de construção desde que Isaías Walker pendurara um letreiro do lado de for a, em 1879.


Russell Walker assumira seu lugar atrás do balcão em 1983, quando o pai falecera. Na verdade, passara a ajudar o pai desde que atingira altura suficiente para enxergar acima do balcão, e ela não podia imaginar o quanto devia estar sendo difícil para ele se desfazer da loja. O homem havia perdido a esposa cerca de seis anos antes. Flo Walker sofrera um ataque cardíaco ao pendurar roupa no varal e permanecera deitada na grama, até sentirem sua falta no clube de tricô. Preocupada, uma amiga ligou para sua casa e, em seguida, para Russell. Ele chamou os paramédicos, que, ao chegarem apenas constataram que sua esposa havia morrido. Cat conhecia Flo, que era oriunda de Connecticut, apenas de vista, mas ela havia estudado na escola com Russell. Nunca foram muito próximos, mas se conheciam desde que se entendiam por gente. Subiu os degraus de madeira e sorriu quando o sino familiar repicou anunciando sua entrada. Não havia campainhas irritantes na Walker Hardware. Russell estava atrás do balcão, lendo um jornal, através dos óculos de leitura empoleirados na ponta do nariz, mas olhou para cima quando o sino soou. Ele retirou os óculos ao mesmo tempo que um sorriso aqueceu seu rosto, que ainda era bonito sob uma cabeleira cheia de fios grisalhos.


– Cat! Ouvi dizer que veio rever a cidade. – Ele se endireitou e fechou o jornal com uma piscadela. – A Flórida, com certeza, combina com você. Russell sempre fora um sedutor, mas aos 65 anos de idade ela se julgava imune ao seu charme. Estava enganada. – Obrigada. Como tem passado? Dando de ombros, ele acenou com a mão para as prateleiras quase vazias ostentando cartazes com descontos. – Ainda tenho a minha saúde. – Eu sinto muito. – Era de se esperar. Não posso competir com as grandes lojas. As pessoas tentam, é claro. Se precisam de um rolo de fita, um fusível ou um par de tesouras de jardim, vêm aqui. Mas os tempos estão difíceis e não posso ficar aborrecido por elas quererem economizar. Fico feliz agora por não ter insistido muito quando a minha filha resolveu partir para estudar veterinária em vez de assumir o negócio. – O que pretende fazer? – O dinheiro da venda vai ajudar a pagar algumas dívidas. Depois me escreverei na lista de espera por um apartamento no lar de idosos. – Ele fez uma pausa, a tristeza lhe sombreando as feições. – Por mais de cento


e trinta anos a minha família manteve este lugar funcionando, e de alguns meses para cá, foi só prejuízo. Cat não sabia o que dizer. Na verdade, não havia muito que dizer. – Deixe-me convidá-lo para almoçar. Vamos comer algo cheio de gordura, colesterol e sódio; afinal, por que não? O convite pareceu pegá-lo de surpresa, mas ele se recuperou com rapidez suficiente. – Precisei demitir meu funcionário ano passado. Não posso sair. – O que os clientes vão fazer se você tirar uma hora para almoçar? Comprar em outro lugar? Sua risada rica ecoou na loja estéril. – Acho que você tem razão. E eu com certeza estou precisando passar algum tempo em frente a um rosto belo e sorridente. – Então pendure a placa na porta, feche-a e vamos embora. Os dois caminharam em direção a um café no final da rua, o único na cidade, e se sentaram a uma mesa em um canto relativamente calmo. Ambos pediram café, e Russell optou por um frango frito especial, enquanto Cat pediu uma omelete de queijo e salame. – Como vai, Emma? Não a vejo há algumas semanas, mas você deve estar feliz por ela finalmente estar a


caminho do altar. – Ela está bem. E Sean é um jovem muito agradável. – Ela tomou um gole de café, pensativa. – Você já o conheceu? Russell franziu a testa por alguns segundos, depois negou com a cabeça. – Não, creio que não. Acho que ela o mantém bastante ocupado e, quando vem fazer compras, ele geralmente vai para a cidade visitar a família. – Já ouviu falar de alguém que o tenha conhecido? – Que pergunta estranha. Você acabou de dizer que ele é um rapaz agradável, então ele deve existir. Aquilo parecia absurdo, mas ela não podia deixar de perguntar. – Oh, ele existe. Mas não acredito que esteja namorando com a minha neta há um ano e meio ou que vivam sob o mesmo teto há um ano. Russel parecia confuso. – Por que eles mentiriam? – Essa é uma pergunta que não posso responder. – Ela tomou outro gole de café. – Mas sabemos reconhecer quando duas pessoas se amam. E quando eles... bem, você sabe. Um sorriso lento aqueceu os olhos de Russell, que eram do mesmo tom azul de sua camisa. Era engraçado


conhecer um homem há sessenta e poucos anos e nunca ter prestado atenção na cor dos seus olhos. – Faz bastante tempo, mas, sim, eu sei. Quando Russell a fitava daquela maneira, ela conseguia recordar com clareza de quando se apaixonara pelo marido e o quanto sentia falta dele. Mas às vezes se perguntava se sentia falta dele tanto quanto sentia falta de ter alguém, e desejou saber se Russell sentia o mesmo. Sorriu para ele, tentando pensar em algo para dizer, mas não lhe veio nada à mente. Fazia muito tempo que um homem não flertava com ela. O pensamento a fez estacar. Era o que estava acontecendo? Russell estava flertando com ela? Ou simplesmente sendo gentil, e ela estava se agarrando a isso como se fosse o último barco salva-vidas do seu navio de aposentados disponíveis? Felizmente, a garçonete, que era uma jovem que Cat não conhecia, trouxe as refeições e ela foi salva, regalando-se com seu banquete proibido. – Acho que não como um verdadeiro frango frito desde que fiz 50 anos e Flo me arrastou para fazer um exame de colesterol – comentou Russell. – Temos tão poucos anos sobrando, então pretendo aproveitá-los. Se eu não puder comer omeletes de


salame com queijo de vez em quando, é melhor me deitar e começar a me decompor. – Gosto do seu modo de pensar. – Mas só de vez em quando – disse ela. – Se comermos assim o tempo todo, não viveremos o suficiente para nos preocuparmos com isso. Russell pousou o garfo para limpar a boca e tomou um gole de café. – Lembro-me de trabalhar na loja desde quando ainda precisava de um banquinho para alcançar a caixa registadora e dar o troco a um cliente. Desde o momento em que comecei a andar, soube que as ferragens seriam a minha vida e que, se a Dani não tivesse sido tão teimosa, teria sido a dela também. Mas devo admitir que há uma pequena parte de mim que não se ressente em ver a loja ser vendida. E, sentado aqui com você sorrindo para mim e uma pilha de frango frito no meu prato, acho que ainda tenho vida suficiente para tentar me divertir. Pela primeira vez em seus 65 anos de vida, Cat decidiu tomar a iniciativa com um homem. – Tem vida suficiente em você para tirar uma senhora de idade para dançar? – Bem, se eu encontrar com alguma senhora de idade, pensarei no assunto. Por ora, eu gostaria de dançar com você.


Quando corou como uma colegial, Cat supôs que deveria pelo menos estar grata por não começar a rir como uma. – Você é um sedutor, Russell Walker. Acho que terei que abrir meus olhos com você. Ele apenas sorriu e abocanhou um pedaço gorduroso de frango frito. SEAN CONTORNOU a caixa de correio correndo, olhou para as margaridas e se dirigiu à entrada para carros da casa de Emma. Teria tempo suficiente para um banho rápido antes que o alarme do relógio disparasse, dando início a mais um dia de loucura. Ao se dar conta de que eram 4h da manhã e que passara mais tempo se revirando na cama do que dormindo, porque seu corpo dolorido o mantinha acordado, resolvera deixar levantar e sair, sem fazer ruído, para correr. Funcionava no campo de treinamento, reprimir desobediência e rebeldia com uma punição física extenuante. Não sabia se o mesmo princípio se aplicaria à tensão sexual, mas valia a pena tentar. Úmido de suor e ligeiramente sem fôlego, cruzou a varanda e entrou na casa silenciosa. Após retirar o tênis, subiu a escada, lembrando a tempo do degrau que rangia, e dirigiu-se ao quarto de Emma. O quarto


deles. Ela ainda estava ressonando, então entrou no banheiro e fechou a porta. No chuveiro, lavou o suor com água quente e, em seguida, girou a torneira para receber jatos de água fria, até se sentir bem desperto e com o corpo domado. A seguir, pegou uma toalha, enxugou os cabelos, secou-se e envolveu-a ao redor da cintura. Tinha a boca cheia de pasta de dentes, quando a porta se abriu e Emma entrou, esfregando o rosto. Trazia algumas roupas com ela e piscava os olhos contra a claridade, mas, mesmo em seu estado semiadormecido, conseguiu tatear o interruptor de luz na parede e quase o atropelou, antes de perceber a sua presença. – Oh! – Ela parou e piscou. – Pensei que ainda estivesse na cama. Sean cuspiu a pasta de dentes e pegou a toalha de mão para limpar a boca. – Na cama, costumo formar um grande volume. – Eu não olhei, porque você afasta as cobertas e... – Emma olhou para baixo, para a toalha, onde o grande volume assumiu um novo significado. Ele impusera quilômetros de punição ao corpo e não adiantara de nada. – Oh! Em vez de tentar decifrar o tom daquele oh, Sean segurou-a pelos ombros e a afastou o suficiente para a


esquerda, de modo que pudesse passar por ela. Uma vez do lado de fora, fechou a porta e soltou um palavrão baixinho. A única coisa que poderia ter sido pior era se sua toalha tivesse escorregado na frente dela. Após se vestir em tempo recorde, deitou-se de costas na cama e olhou para o teto. Aquele era o tipo de história que uma mulher compartilharia com a melhor amiga. E sua melhor amiga era casada com o primo dele. E o primo era um linguarudo. A história seria aumentada. Era apenas uma questão de tempo, antes de um dos seus irmãos ligar, perguntando por que ele estava nu com a mulher que não deveria estar. Com um suspiro, Sean ergueu-se da cama e desceu a escada. Primeiro, queria café. E, segundo, não queria estar deitado na cama quando Emma saísse do banheiro. Pior do que ser pego enrolado em uma toalha, que não conseguia esconder uma ereção, era ter que falar sobre o assunto. Cat estava sentada à mesa, tomando chá, quando ele entrou. – Você levantou primeiro que Emma esta manhã. – Isso não acontece com muita frequência. – Ele serviu duas xícaras de café e, em seguida, paralisou. Não fazia a menor ideia de como Emma tomava o seu


café. Sabia que ela gostava com partes iguais de café e creme, mas não sabia quanto ao açúcar. Posicionando-se de costas entre Cat e as xícaras, colocou duas colheres de chá de açúcar em cada xícara. – Você gosta de trabalhar com a minha neta? Como só havia trabalhado com ela um dia e meio, não sabia o que realmente responder. – Não é tão ruim. Ela trabalha duro. Tem uma boa cabeça para os negócios. – É um bocado autoritária – acrescentou Cat. Ele riu, pensando na ida ao supermercado. – Isso ela é. – Acho que você a conhece muito bem. – Ela o estava olhando, então ele se concentrou em parecer honesto. – Ela é uma mulher complicada. Não sei se alguém a conhece realmente bem. Exceto você, é claro. Cat riu quando a mulher complicada em questão entrou na cozinha. – Bom dia, vó. Qual é a graça? – Estava apenas conversando com Sean e, agora que você acordou, vou preparar umas torradas francesas. Sean observou Emma tomar o primeiro gole de café e, quando ela não estremeceu ou fez caretas, imaginou que havia acertado. Também notou, enquanto Cat


começava a tirar os ingredientes da geladeira, que Emma estava evitando fitá-lo nos olhos. Não deveria ter deixado o quarto, porque agora o constrangimento ia aumentar, até ela sentir necessidade de falar sobre o incidente no banheiro. Ele poderia ter rido e alegado se tratar de uma ereção matinal, deixando claro que o volume acentuado nada tinha a ver com ela. O que teria sido uma mentira, é claro. Estava acordado há várias horas e definitivamente tinha algo a ver com ela. Mas Emma podia acreditar nessa história e não falar sobre o assunto. De repente, a cozinha parecia claustrofóbica, com as duas mulheres que ele mal conhecia e o problemão no quarto de dormir, sobre o qual não desejava discutir. Então tomou um café e murmurou algo sobre assistir ao noticiário da manhã. Ligou a televisão na sala de estar e afundou no sofá com um suspiro de alívio. Levaria alguns minutos até as torradas francesas ficarem prontas; logo, teria alguns minutos de descanso. – Posso falar com você um segundo? Era Emma, e lá se foi o seu descanso. Sean suspirou e se moveu no sofá. – Fique à vontade.


Emma sentou-se, longe o suficiente para nenhuma parte de seus corpos se tocar. – Eu sei o que acontece com os homens pela manhã... você sabe, e não quero que isso seja motivo de constrangimento. – Sem problema. – Certo. – Ela tomou um gole de café, então envolveu a xícara com ambas as mãos. – Com certeza vamos vivenciar mais momentos como esse, se vamos conviver por um mês. O mais certo talvez seja apenas rir com eles. Sean ergueu uma sobrancelha. – Na verdade, quando um homem estiver excitado na sua frente, usando apenas uma toalha, rir pode não ser a melhor maneira de lidar com a situação. – É verdade. – As bochechas de Emma assumiram um belo tom rosado e ela riu suavemente. – Se estivéssemos em um filme, a toalha teria caído. Poderia ter sido pior. – Com a minha sorte, estou surpreso que isso não tenha acontecido. – Café da manhã – chamou Cat da cozinha. Ambos se ergueram, e Sean esperava que aquela fosse a última vez que precisariam discutir sobre suas ereções. – Certifique-se de se alimentar direito – disse Emma, ao vê-los caminhar em direção à cozinha. – Hoje vamos


plantar árvores, e isso vai exigir um bocado de você. Exaustão física? Era o que ele desejava. Desesperadamente.


CAPÍTULO 8

EMMA QUERIA que avó ficasse ali para sempre. Cat havia cortado alguns peitos de frango em pedaços, mergulhara-os em algum tipo de tempero e, em seguida, os colocara em espetos. Poucos minutos na grelha e Emma se sentiu no céu. Não podia ser muito difícil, pensou. Claro, a última vez que tentara preparar algo tão simples como hambúrgueres na grelha, as chamas começaram a aumentar e ela acabou com discos de carne torrada por fora e crua por dentro, que nem mesmo a avó conseguiu engolir. Mas aquilo era frango no espeto. Não podia ser tão difícil. – Está delicioso, Cat – disse Sean, lambendo o molho das pontas dos dedos de uma maneira que fez Emma sentir um formigamento na espinha. – Tia Mary faz algo parecido, mas o tempero não é tão bom.


– Mal posso esperar para conhecê-la no sábado. Por tudo que você falou, ela deve ser uma mulher maravilhosa. A espinha de Emma parou de formigar e ela pegou outro espeto de frango. Sequer queria pensar no quanto o sábado seria estressante, com todos tomando cuidado e prestando atenção a cada palavra que proferiam. E, independentemente do que Sean lhe dissera, não tinha certeza se a sra. Kowalski os apoiaria quando finalmente chegasse o momento. – Tia Mary também está ansiosa por conhecê-la – disse ele. – E Emma tem andado tão ocupada que eles não a veem faz tempo. Ela, por sua vez, não estava nem um pouco ansiosa para vê-los no sábado, pensou Emma. Para ver Lisa, sim. Mas ia ser difícil fitar a sra. Kowalski nos olhos, não importava quantas vezes Sean lhe dissesse que tudo daria certo. – Aluguei um filme quando fui à cidade hoje – disse Cat. – Um filme de ação que a mocinha da locadora recomendou. Emma estava com vontade de assistir a um filme relaxante. Algo leve que a envolvesse e a fizesse parar de se preocupar com sua linguagem corporal e com cada palavra que dizia. Uma pausa mental era exatamente do que precisava.


Mas mudou de ideia sobre o filme, uma hora mais tarde, quando a avó se sentou na poltrona e colocou a cesta de tricô a seus pés, deixando o sofá para ela e Sean. Droga! Não podiam se sentar nos extremos opostos do maldito sofá. Um casal feliz se aconchegaria, talvez trocasse alguns beijos rápidos vez ou outra, quando pensassem que a avó não estava olhando. Duas horas de contato íntimo com Sean Kowalski estava bem longe de ser relaxante. Sean foi o primeiro a chegar. Sentou-se em um canto e apoiou os pés sobre a mesa de centro. O ato de inserir o DVD no aparelho e ligá-lo proporcionou a Emma alguns minutos, mas depois ela se viu obrigada a caminhar até o sofá. No último segundo, ele pareceu perceber que ela não se sentaria no lado oposto e, após lançar um olhar a Cat, ergueu o braço e o apoiou no encosto do sofá. Como se encontrava momentaneamente de costas para a poltrona, Emma deu a Sean um sorriso pesaroso como se perguntando “o que posso fazer?” e acomodou-se ao seu lado. Enquanto ela pressionava o botão de ligar no controle remoto, Sean deixou a mão escorregar sobre seu ombro. Emma tentou prestar atenção ao filme. Viu a cena de quando uma mulher deixou cair uma bandeja de


biscoitos queimados na pia, e, em seguida, um homem entrou na cozinha, empunhando uma arma e anunciando que havia sequestrado o filho dela. Mas o corpo de Sean irradiava calor suficiente para derreter marshmallows, e boa parte daquele corpo estava encostada ao dela. O braço forte em torno dos seus ombros, a coxa pressionada à sua, seus pés, que, por vezes, roçavam um no outro. Era perturbador. – Prestem atenção – disse Cat. – O homem que ela tem que entregar aos sequestradores vai acabar por ser o pai do filho dela, e aposto que ele não sabe. Emma conseguiu manter atenção suficiente na televisão para ver que a avó estava certa, mas Sean resolveu relaxar, o que significava ainda mais partes do seu corpo tocando o dela. E, minuto após minuto, ela estava se transformando em um marshmallow, derretendo de encontro àquele físico poderoso. Ele cheirava bem, era tão bom sentir sua pele e... Emma estava em apuros. Não podia desejar aquele homem. Bem, tecnicamente, podia. Apenas não podia agir nesse sentido. Sean era temporário. Não havia sentido em se acostumar a ter um homem em quem se aconchegar no sofá, para abrir tampas de frascos emperradas ou fazer o trabalho pesado, porque, assim que Cat partisse, ele também partiria. E era assim que ela queria fosse.


Talvez ainda levasse uns cinco anos até a Landscaping by Emma estar em condições de lhe permitir fazer planos de ter um marido e bebês. E quando resolvesse procurar um marido, não se contentaria com um homem cuja vida girava em torno de futebol, bifes, cerveja e mulheres. Ou um homem que achava que apenas Bob ou Fred podiam cortar a grama. Sean não a deixaria sequer dirigir o próprio carro. No meio de uma cena em que a mãe e o pai faziam rapel de um helicóptero com armas em punho para resgatar o filho sequestrado, Sean começou a lhe traçar círculos no ombro com as pontas dos dedos. Parecia atento à tela, assim como Cat, então Emma não sabia se ele tinha ciência do que estava fazendo. Ela, no entanto, estava ciente, sem dúvida alguma. Ciente do calor de seu toque através do tecido da camiseta e muito, muito ciente da forma como seu corpo reagia, como se ele estivesse lhe acariciando partes bem abaixo do ombro. Quando os dedos de Sean desceram até a bainha da manga curta e lhe tocaram a pele nua, Emma perdeu totalmente o controle do enredo que se desenrolava na tela da televisão. Temporário ou não, com certeza era bom ser tocada por um homem. Fazia muito tempo...


– Podemos fazer uma pausa de um minuto? – perguntou a avó. – Um intervalo. Quando Emma se inclinou para frente para pegar o controle remoto, Sean retirou o braço e deixou os pés caírem no chão. – Soa como um bom plano. Cat seguiu na direção da cozinha e Emma ergueu-se, com a intenção de sair do caminho de Sean, mas, quando ele se levantou, segurou-a pelo cotovelo e virou-a para si. A boca apoderou-se da dela num beijo ardente e faminto. Fechando os olhos, Emma enlaçou-lhe o pescoço com os braços, correspondendo com a mesma empolgação. E daí que ele fosse temporário? Aproveitaria enquanto durasse. Sean abraçou-a pela cintura e a puxou para mais perto, perto o suficiente para que ela pudesse sentir que ele não estava fingindo querê-la. O beijo foi incrível, e ela ficou na ponta dos pés, tentando alcançar mais. Depois, deslizou a ponta dos dedos, acariciando-lhe a nuca macia, as costas e os cabelos. Sean afastou-se tão rápido que ela quase caiu. – Droga! – Bom. – Seus sentidos ainda estavam tão sobrecarregados pelas emoções que Emma não


confiava em si mesma para dizer mais nada. Sean passou a mão pelos cabelos, sacudindo a cabeça. – Isso foi... Maravilhoso. Incrível. Eletrizante, pensou ela. – Foi o quê? – Um erro. – Sean passou por ela e, alguns segundos depois, Emma ouviu seus passos subindo a escada. – Estúpido – murmurou, mas a palavra soou sem muita convicção. Ainda estava ofegante demais por ter sido beijada de modo tão intenso por um homem que parecia dominar a arte de beijar. Estava em apuros, sem dúvida. SEAN PRECISAVA sair de casa ou estaria perdido. Não sabia se isso significava abrir um buraco na parede ou jogar Emma sobre o ombro e levá-la para cama, no estilo homem das cavernas, mas qualquer uma das duas opções era uma má ideia. Estava na hora de sair e colocar um pouco de distância entre os dois, mas primeiro colou outro bilhete no espelho e destampou a caneta hidrográfica. Você pode segurar minha mão, afagar minha cabeça ou arranhar meu abdome, mas não acaricie a minha nuca novamente, a menos que queira que eu lhe arranque as roupas.


Em seguida, desceu a escada e pegou as chaves da caminhonete no gancho ao lado da porta. Cat estava de volta à poltrona, quando ele enfiou a cabeça para espiar a sala de estar. – Preciso sair, senhoras. Kevin ligou enquanto eu estava lá em cima. Está precisando de ajuda com algo. – Mas e o filme? – perguntou Cat. – Você terá que me contar o fim. – Ele se obrigou a olhar para Emma, que estava fazendo um péssimo trabalho em esconder sua irritação. – Devo chegar tarde, portanto não me esperem. – Divirta-se. – Foi tudo que ela disse. Sean pegou a estrada, dirigindo um pouco rápido demais, com o rádio ligado um pouco alto demais, na esperança de não deixar espaço em seus pensamentos para lembrar o sabor dos lábios de Emma. Mesmo antes de virá-la para si, sabia que beijá-la seria um grande erro. Não havia percebido, porém, que o erro era, na verdade, colossal, até ela começar a lhe acariciar a nuca e seu corpo reagir com uma urgência que não levaria a outro lugar que não fosse a cama. Juntos, quentes, suados e ofegantes entre os lençóis. Sean teve sorte e encontrou uma vaga no estacionamento próximo ao Jasper Bar & Grille. Ao passar pela porta de entrada, suspirou aliviado.


Homens bebendo cerveja. Belas garçonetes. Programas de esportes nos telões. Sanidade. O recinto estava tranquilo, o que não era de incomum para uma noite de quarta-feira, e havia muitos lugares vagos no salão, onde Kevin parecia se ocupar de todo serviço sozinho. – Não esperava vê-lo aqui esta noite – disse Sean, quando o primo colocou uma cerveja na sua frente. Kevin deu de ombros. – Terry está dando uma daquelas festas, em que as mulheres se reúnem e uma delas vende às outras um monte de porcarias que não precisam mais, de modo que ela possa ganhar uma saladeira ou seja lá o que for. Paulie queria ir e eu com certeza não, por isso estou aqui. Como está a falsa vida de quase casado? – Eu a beijei. – Ele ingeriu um quarto da caneca de cerveja. – Sim, e daí? Noivos costumam se beijar. – Eu a beijei depois que Cat saiu da sala. Não a beijei porque estávamos fingindo. Eu a beijei porque... Inferno, não preciso desenhar um mapa. – Quando isso aconteceu? Sean olhou para o relógio. – Cerca de meia hora atrás. Kevin deu um assobio baixo. – Ela ainda está dormindo no sofá?


– Sim. E continuará lá, droga. – Ela lhe deu um soco na cara? Uma joelhada nas partes baixas? – Não. Kevin sorriu. – Então qual é o problema? Você a deseja. Ela pode, pelo menos, tolerá-lo. Expurgue-a do seu organismo. Sean receava que dormir com Emma não a expurgasse do seu organismo, e sim o afetasse de tal forma que não pudesse mais esquecê-la. – Péssima ideia. – Chame isso de benefício adicional. – Ela já está fingindo que está apaixonada por mim. Acrescentar sexo verdadeiro a essa história poderia fazê-la confundir tudo. – Está preocupado que ela confunda tudo... ou você? Aquilo era ridículo. Sean bufou e sorveu outro gole de cerveja. Não tinha o menor interesse em se estabelecer e dedicar-se a outra pessoa, após ter retornado à terra do Tio Sam há tão pouco tempo. E com certeza não pretendia passar a vida plantando flores até a idade de se aposentar. Supondo que não perdesse a cabeça e se sufocasse em um monte de adubo antes disso. – Está preparado para sábado? – perguntou Kevin.


– Claro que não. – Não queria nem pensar naquele assunto. Kevin precisou atender um cliente, então Sean tomou um gole de cerveja e olhou para a televisão sem realmente ver o que estava passando. Emma o fizera se sentir bem demais no sofá. Era quente, seus corpos se ajustavam com perfeição, e o ângulo de visão lhe permitira apreciar o quanto as pernas dela eram bem torneadas. E o calor daquelas coxas pressionadas às suas... Sean ingeriu o restante da cerveja e empurrou a caneca no balcão, à espera de mais. Kevin voltou e serviu-lhe mais um pouco. – Beba apenas mais esta se quiser voltar dirigindo para casa. Se tomar outra, terá que dormir lá em cima. – Vou beber só mais esta. Por que não pede uma porção de batatas fritas com molho de queijo para mim também? Sean assistiu ao jogo, comendo batatas fritas e tomando o restante da cerveja. Quando ele voltasse, Emma provavelmente estaria dormindo com aquelas pernas incríveis espreitando para fora do calção de flanela surrado que não pareceria sexy em nenhuma outra mulher. Com sorte, o banho longo e gelado que ele precisaria tomar não a acordaria.


EMMA ARRANCOU a nota adesiva do espelho do banheiro e jogou-a no lixo. Tão cedo Sean não precisaria se preocupar com a possibilidade de ela lhe acariciar a nuca de novo. E com certeza não precisaria se preocupar com o fato de ela desejar ficar nua. Não com ele. Se fossem um casal de verdade, ela jogaria o travesseiro dele sobre o sofá e o deixaria dormir com os pés balançando para fora só de castigo. Era patético o quão rápido ele se afastara com uma desculpa esfarrapada para fugir, apenas porque a beijara. Fora só um beijo. Um beijo maravilhoso, sim, mas ainda assim só um beijo. Não lhe pedira para se casar com ela, para realmente se casar com ela, nem lhe dissera que queria ter um filho com ele. Um beijo úmido, perturbador e de derreter os ossos entre dois adultos solteiros não era motivo para fugir. Mas ele fizera um escândalo por algo tão simples e tudo ficaria ainda mais complicado do que nos últimos dias. Estava encolhida no sofá, chiando de raiva, há quase uma hora, quando ouviu o ruído da caminhonete de Sean na entrada para carros. Passaram-se mais dez minutos, antes de ele entrar na sala e fechar a porta. Uma vez que ela estava virada para a parte de trás do


sofá, Emma não precisou se esforçar muito para ignorá-lo. Sean devia ter ficado no chuveiro durante bastante tempo e ela, adormecido com o som de água corrente, porque a próxima coisa que se lembrava era do alarme do relógio disparando, anunciando que estava na hora de enfrentar mais um dia no inferno que ela própria havia criado. Mas primeiro teria que enfrentar Sean. Foi ao banheiro e, quando saiu, encontrou-o sentado na lateral da cama, completamente vestido. Obrigada, Senhor! Ele esfregou o rosto com as mãos. – Devemos conversar sobre a noite passada. – Como está Kevin? – Está bem. Eu me referia ao que aconteceu antes. – Você deveria ter ficado para assistir ao fim do filme. Foi muito bom. – Droga, Emma, sabe que não é sobre isso que estou falando. – Oh, você se refere ao beijo de mentira? – Ela colocou o telefone celular no bolso da frente. – Estamos ficando cada vez melhores. Foi quase convincente. – Beijo de mentira? – Sean se ergueu, provavelmente para olhá-la de cima, mas ela era alta o suficiente para


não se impressionar com a sua altura. – Quase convincente? – Sim – afirmou ela, embora tenha lhe virado as costas, caminhando em direção à porta para evitar contato visual, porque aquele decididamente não fora um beijo de mentira, e poderia ter convencido até mesmo os melhores agentes da CIA. Sean estava resmungando quando Emma deixou o quarto, mas ela fechou a porta e desceu. Não queria falar sobre aquele assunto. E não queria pensar sobre o fato de ele não ficar feliz por ela ter dito que o beijo fora de mentira. O que significava que ele o considerara um beijo de verdade. E não apenas um beijo de verdade, mas um beijo que o abalara. A única razão que poderia preocupar um homem por ter beijado uma mulher era o fato de ele estar tentando lutar contra a atração que sentia por ela. Com sorte, ele sairia vencedor, pensou ela, enquanto se dirigia à cozinha, porque travava uma batalha consigo mesma e não parecia estar a caminho de uma vitória. Talvez Sean tivesse força de vontade e autocontrole suficientes pelos dois. Exceto por um pouco de conversa trivial matutina com Cat, nenhum deles falou durante o café da manhã e nem quando saíram para o trabalho, com ele


dirigindo a picape dela de novo. Mas, após dez minutos na estrada e faltando quinze para chegarem ao destino, Emma não pôde mais aguentar. – Por que está com raiva de mim? Sean evitou encará-la. – Não estou com raiva. – Também não está contente. Ele apertou os dedos no volante. – Aquilo não foi um beijo de mentira. – Eu sei que não. Eu estava tentando arrumar um motivo para não falarmos sobre o assunto. – Oh. Então você acha que não devemos falar sobre o assunto? – Pensei que os homens odiassem falar sobre essas coisas. Sean tamborilou os dedos no volante. – Eu só não quero que você confunda as coisas, é tudo. Confundir as coisas? Emma ficou sem fala por um momento, incapaz de acreditar que ele realmente dissera aquilo. – Levando em conta que eu estava me afastando, quando você me virou e me beijou, eu diria que quem está confundindo as coisas é você. – É claro que estou. Você é uma mulher sensual e eu não estou morto. Mas sou experiente o bastante para


não confundir desejo com qualquer outro sentimento. Emma bufou e olhou pela janela. – Oh, sim, Sean Kowalski. Seus beijos surpreendentes eliminaram todos os pensamentos coerentes do meu cérebro obcecado. Se pelo menos você pudesse me preencher com seu instrumento mágico, tenho certeza de que iríamos nos apaixonar loucamente e viveríamos felizes para sempre. A picape deu um solavanco e Emma virou o rosto para encontrá-lo olhando para ela. – Jamais repita isso. – O quê? O “loucamente apaixonada” ou o “felizes para sempre”? – Meu instrumento não é mágico. – Seu tom soou mal-humorado, mas, em seguida, ele sorriu, olhando para o para-brisa. – Mas com certeza conhece alguns truques. – O único truque de mágica que ele precisa fazer pelas próximas três semanas e meia é manter-se comportado. – Como diabos ela se metera naquela conversa? – Voltando ao “X” da questão, se você acha que tenho algum interesse em um relacionamento verdadeiro com um homem que pensa que dirige melhor que eu, apenas porque tenho seios, está louco. – Não é porque você tem seios. As mulheres não dirigem bem porque lhes falta um instrumento mágico.


Emma se virou para a porta do passageiro, deixando claro com sua linguagem corporal que não tinha interesse em continuar aquela conversa. – Por que eu não disse à minha avó que estava namorando o Bob, da agência de correios??? Sean riu. – Você conhece os Kowalski. Assinou sua sentença no minuto em que proferiu o nome em voz alta. Sentença de morte, pensou Emma, olhando para a paisagem do lado de fora. Aquelas palavras descreviam perfeitamente sua situação.


CAPÍTULO 9

– AH, QUE linda casa! Sean estacionou na entrada da casa dos tios e desligou o motor. – Obrigado, Cat. Meu primo Joe comprou-a para os pais depois que seus livros de terror começaram a figurar com frequência na lista dos mais vendidos do New York Times. – É grande, o que deve ser útil com todos esses netos. Todos aqueles netos que ela estava prestes a conhecer, pensou Sean, resistindo à vontade de bater a cabeça contra o volante. Não estava muito preocupado com Steph, Joey e Danny, mas Brian e Bobby eram sinônimos de problemas. Para não falar de tia Mary. As apresentações não foram tão más. O humor rude do tio deixou Cat à vontade, e Mary se mostrou


simpática e acolhedora, apesar de Sean saber que a tia tinha sérias reservas sobre aquela farsa. – Eu sou Bobby – anunciou uma voz infantil, e pareceu como se todos, com exceção de Cat, houvessem respirado fundo ao mesmo tempo. – Adivinhe uma coisa. – O quê? – perguntou Cat, aparentemente alheia aos gestos frenéticos sendo acenados na direção do menino. – Sean é meu primo. Ele saiu do Exército há algum tempo, vive com Emma e vai se casar com ela. Joey, filho mais velho de Mike, riu e colocou o braço em torno do irmão mais novo para começar, não tão sutilmente, a arrastá-lo para longe. – Eles têm telefones na Flórida, bobão. A sra. Shaw já sabe disso. Lisa deu um passo à frente, antes que Bobby pudesse argumentar. – Agora que todos já disseram “olá” a sra. Shaw, podem ir lá para baixo jogar. Bobby saltitou. – Sean nos deu de presente o “Rock Band” para o Wii e todos os instrumentos, então teremos um Torneio Radical “Rock Band”. Sean não sabia que havia comprado uma parafernália de videogame, mas não estava em condições de


discutir. Sem dúvida, Mike e o restante da família iriam computar a despesa em sua conta. Por sorte, Cat e tia Mary pareciam ter se entendido muito bem e, já que não parecia haver perigo iminente de Cat perguntar a Mary se o noivado dos dois era verdadeiro, Sean começou a relaxar. Todos saíram para o quintal, onde as mulheres se sentaram no deque e os homens se reuniram em torno da churrasqueira. Ainda não estava na hora de começar a assar as carnes, mas reunir-se em torno da churrasqueira apagada era melhor do que se sentar com as mulheres. – Mary tem se torturado com essa situação há dias – comentou Leo, pela primeira vez conseguindo baixar o tom de voz para que as mulheres não o ouvissem. – Eu sei que ela não concorda com isso. – Sean observou as mulheres rirem de algo que Cat dissera. Ou, mais especificamente, observou Emma rir. – Farei as pazes com ela de alguma forma. A conversa passou a versar sobre fatos corriqueiros. O Red Sox; como haviam aproveitado as férias de verão, antes de Lisa começar a perder a sanidade; a nova caminhonete de Evan, que ele comprara na cor branca, para contrariar Terry, que lhe dissera para não comprar carro branco porque eram difíceis de manter


limpos. Os resultados da terapia de casais de Evan e Terry. Joe cutucou o braço de Sean. – Juro, eu poderia dizer as horas pela quantidade de vezes que Emma olha para você, apenas contando os segundos. Sean resistiu ao impulso de se virar e conferir. – Ela está nervosa, é tudo. – Isso não é nervoso. – Acho que a conheço melhor que você. Joe riu. – Você a conhece há uma semana. – Dez dias. – Odeio decepcioná-lo, mas eu a conheço há mais de dez dias. Não muito bem, mas a encontrei algumas vezes na casa de Mike e Lisa. Não que isso importe. Aquele olhar no rosto de uma mulher é universal. – Não há olhar algum. – Oh, há um olhar – disse Kevin. – Deve haver um olhar – acrescentou Leo. – Mike e eu não podemos ver – acrescentou Evan. – Estamos de frente para o lado oposto. Poderíamos nos virar, mas o fato de olharmos todos para ela pode deixá-la intrigada. Mesmo achando que os primos estavam zombando dele, Sean inclinou o corpo um pouco, de modo a fitá-


la com sua visão periférica. Certo, então Emma estava olhando para ele. E bastante. Mas ainda assim Joe e Kevin estavam errados, porque não havia nenhum olhar. Os olhares eram rápido demais para expressar algo, quanto mais o tipo de mensagem que estavam insinuando que ela pretendia enviar. Sean viu-a observá-lo por mais algum tempo, e a seguir tia Mary pediu-lhes para preparar a carne, de modo que pudessem acender a churrasqueira. Uma vez que os primos formavam uma turma de chefs mais do que suficiente e ele precisava de uma pausa no jogo visual com Emma, pegou uma cerveja e caminhou até o grande galpão de ferramentas. Era a caverna extraoficial dos homens Kowalski, aonde as mulheres tinham medo de ir. Até tia Mary ficava do lado de fora, em vez de cruzar a soleira. O recinto cheirava a óleo de motor velho, que havia pingado e se entranhado no piso, e a madeira, que se encontrava empilhada ao lado da antiga lareira, feita para garantir que, mesmo nos meses frios, houvesse um lugar aonde um homem pudesse ir, para desfrutar de alguns minutos de paz e tranquilidade. As paredes estavam repletas de prateleiras de frascos antigos, contendo parafusos, porcas, arruelas e todos os outros


materiais que um bom galpão de ferramentas acumulava ao longo do tempo. Sean abriu a cerveja, ligou o velho rádio e empoleirou-se em um banco de bar que alguém, provavelmente, trouxera do Jasper. Mas sentia-se tenso demais para permanecer sentado, então pousou a cerveja e se ergueu para investigar o projeto atual, que parecia ser reconstruir o motor de um limpador de neve. Estava utilizando gasolina e uma escova de aço para limpar alguns parafusos quando a porta se abriu e o tio entrou. – Ei, tio Leo. – Imaginei que o encontraria aqui. – Ele inspecionou o trabalho de Sean e fez um aceno de aprovação com a cabeça. – Tenho ensinado os meninos a girar uma chave de vez em quando. Steph costumava me ajudar, também, mas agora seus polegares estão muito ocupados com aquela porcaria de mensagens de texto, para apertar um parafuso. – Eu devia perguntar a ela como usar esse maldito telefone que comprei. Sei fazer chamadas, mas é tudo. Leo pegou outra escova e puxou um engradado de plástico ao lado de Sean. – Então, como você está?


– Nada mal, eu acho, considerando a situação em que me meti. – Não, filho. Como você está de verdade? Sean deu de ombros e pegou um pano para limpar um pouco de graxa diluída. – Estou bem. Muitos rapazes e moças não se deram tão bem quanto eu no Exército. Tive sorte e agora estou fora, sem nenhum ferimento grave. – Já pensou no que vai fazer quando essa farsa terminar? – Talvez o mesmo que planejava fazer antes dessa farsa começar. Arrumar um emprego, pregando pregos em algum lugar, até descobrir onde gostaria de viver. – Sua tia meteu na cabeça que existe química entre você e Emma. Sean bufou, levantou-se para esticar as pernas e pegou a cerveja. – Entre deixar o Exército e ser sugado pelo furacão Emma, não tive a oportunidade de aplacar minha testosterona. Acredite em mim, no momento, teria química até com um poste telefônico. A última coisa que ele desejava era ter química com Emma Shaw, especialmente uma química forte o suficiente para outras pessoas perceberem. – Leo? – Tia Mary gritou do lado de fora. – Você está nesse maldito galpão de novo? E Sean está com você?


Está na hora de comer. – Opa! – Sean limpou as mãos o melhor que pôde em um pano semilimpo. – Fomos descobertos. – Ouça, se precisar conversar... qualquer coisa, sabe onde me encontrar. – Obrigado, tio Leo. – Ele estendeu a mão, mas, em vez de apertá-la, Leo o puxou para um abraço desajeitado e um tapinha nas costas. – Sinto orgulho por você ter servido, mas estou muito feliz por tê-lo em casa outra vez. Sean teria dito algo, mas o nó na garganta o impediu, então apenas deu um aperto no ombro do velho tio e assentiu. – Sean Michael Kowalski! – É melhor você ir – disse seu tio, libertando-o. – Antes que ela pegue a colher de pau e acabe sobrando para mim. ESTAVA QUASE anoitecendo e Cat começava a imaginar se a tia de Sean a estaria evitando, quando, por fim, conseguiu ficar a sós com ela na cozinha. – Que refeição maravilhosa, Mary! A outra mulher se virou, segurando uma caixa de papel de alumínio. – Oh! Você me assustou. E obrigada, embora os rapazes tenham feito quase tudo.


– Vou querer a receita da sua marinada. – Cat encostou-se à bancada e cruzou os braços. – Então, por que minha neta e seu sobrinho estão fingindo que são noivos? Claramente pega de surpresa, Mary ficou em silêncio por alguns segundos. Em seguida, sua expressão fechou. – Eles não estão fingindo. Ele a pediu em casamento e ela aceitou. Isso é um noivado. Mary virou-se de costas e voltou a separar as sobras. Pensativa, Cat estreitou o olhar, observando-a. A pergunta nem sequer a surpreendeu. Afinal, ela nem quis saber o porquê daquele pensamento ou que diabos dera na avó de Emma para perguntar tal coisa. Era óbvio que havia uma conspiração. – Está bem – disse Cat, após um momento de reflexão. – Por que eles estão fingindo que se amam e que vivem juntos há mais de um ano? Mary esquivou-se e Cat percebeu as pontas das orelhas da mulher se tornarem rosa-escuro. – Sean tem feito parte da vida de sua neta há um longo tempo. Apesar da excelente representação, Cat podia afirmar que Mary estava escondendo a verdade. – Há quanto tempo Sean deixou o Exército?


– Oh, ele saiu há algum tempo. Gostaria de um pouco mais de bolo de frutas? Juro que fiz o suficiente para alimentar a vizinhança inteira. – Não, obrigada. Sean e Emma vivem juntos há um ano e meio? – Sim... Oh, não sei. Eu mal consigo controlar meus quatro filhos e netos. Ela era boa. Muito boa. – Mal havíamos deixado o aeroporto e eu percebi que eles não eram um casal. Ou, se fossem, ainda não haviam namorado tempo suficiente para chegar à segunda base. O que não fui capaz de descobrir é... por quê? Mary se virou para ela, encostou-se à bancada com um suspiro e cruzou os braços. – Se Emma sentiu necessidade de inventar um relacionamento com Sean, o que não estou afirmando que seja verdade, talvez tenha pensado que você não conseguiria ser feliz até ela estar feliz. – Isso não faz nenhum sentido. – Ou talvez faça. Pensando em suas muitas conversas telefônicas, Cat percebeu que não fizera um bom trabalho em esconder o quanto se preocupava com Emma. Sempre lhe perguntava sobre a casa e se ela havia verificado o forno, advertindo-a para não limpar as calhas sozinhas


ou subir em uma escada ou... uma centena de outras coisas. E com certeza dissera que o casarão era cansativo demais para a neta, mais de uma vez. E, pensando bem, talvez tenha se sentido um pouco mais relaxada quando Emma lhe dissera que estava namorando um bom rapaz. Assim que soubera que Sean, supostamente, havia se mudado para lá, parara de usar o tempo no telefone para manifestar suas preocupações e começara a falar mais sobre si mesma e o quanto estava gostando de viver na Flórida. Cat suspirou e meneou a cabeça. – Vocês devem estar pensando que sou uma velha senil e patética para minha neta sentir necessidade de envolvê-los todos nessa farsa. – Não, não pensamos. – Mary parecia sincera. – Emma a ama e não queria que você se preocupasse com ela. É óbvio que as coisas saíram de controle. Mas, se isso a faz se sentir melhor, acho que Sean sente uma grande atração por ela. Cat ficou pensativa por alguns minutos. – Emma com certeza se sente atraída por ele. – Eles formam um lindo casal, e eu não me importaria de ver Sean se estabelecer. Estou cansada de me preocupar com esse rapaz. – Se eu disser que sei que eles estão mentindo, Sean vai partir e voltar para o que estava fazendo antes.


– Ele ainda não teve chance de fazer nada. Não deixou o Exército há tanto tempo e pretendia ficar no bar de Kevin, até descobrir o que quer fazer na vida. – Mary fez uma pausa e depois sorriu. – Acho uma excelente ideia você fingir que não sabe de nada. – Isso pode ser divertido. O curvar dos lábios de Mary Kowalski se alargou, transformando-se em um sorriso que rivalizava com o dos filhos. – Oh, será. – VOCÊS DOIS já marcaram uma data? – A pergunta da sra. Kowalski fez o chá gelado de Emma descer pelo canal errado e ela se engasgou, até Sean lhe bater nas costas, talvez com um pouco mais de entusiasmo do que o necessário. – Não, não marcamos – respondeu ele, enquanto Emma tentava clarear a garganta. – Não temos nada contra esperar mais um pouco. – Mas não muito – disse Cat. – Já estou preparada para ter bisnetos. – Eu também não me importaria de ter alguns sobrinhos-netos – acrescentou a sra. Kowalski. Emma não tinha certeza, mas pensou que Sean havia parado de respirar. – Vamos pensar no assunto.


– Ei – interveio Mike. – Vocês poderiam se casar enquanto a sra. Shaw está aqui! Só precisamos de um juiz de paz, um grande espaço coberto e algumas churrasqueiras. Emma, receando que Sean atirasse o copo no primo, que parecia obviamente estar se divertindo com aquela situação, pousou a mão em seu braço. Os músculos dele se contraíram sob seus dedos, mas ela voltou sua atenção para Mike. – Na verdade, não quero uma festa de casamento regada a hambúrgueres no quintal. – Que tipo de festa de casamento que você quer? – perguntou Mary. – Algo grandioso – respondeu Emma. – Isso demora para ser planejado. – E precisamos juntar dinheiro – acrescentou Sean. – Aposto que Stephanie adoraria ser dama de honra – disse Terry, com um sorriso angelical. Emma se contorceu por dentro, embora fizesse o possível para disfarçar. A família de Sean estava sendo cruel. Concordaram em participar da farsa, mas estavam se divertindo bastante com isso, também. Todos estavam no quintal dos fundos, observando as crianças disputarem um jogo de badminton de regras livres. Deveria ter sido um final descontraído de uma refeição fabulosa, mas tudo que Emma podia pensar


era em dar o fora dali, antes que sofresse um colapso nervoso. – Ainda tenho uma pilha de revistas e catálogos de noiva – disse Keri. – Temos que nos reunir e planejar uma festa de casamento. Eles eram diabólicos. Ninguém escapava. – Esta é a estação do ano em que estou mais ocupada, mas... talvez. – É claro que ela arrumará tempo – garantiu Cat à esposa de Joe, estendendo a mão para afagar o joelho da neta. – Casamentos são tão excitantes! – Sabem o que é excitante? O torneio do Red Sox – disse Leo em seu tom de voz alto, e Emma desejou saltar no seu pescoço e beijá-lo por ter mudado de assunto, quando as mulheres reviraram os olhos e os homens começaram a conversar uns com os outros. Vinte minutos mais tarde, Cat bocejou e Emma se agarrou a isso como uma mulher faminta saltando sobre um cheeseburger. – O dia foi longo e cansativo. Acho que devemos partir. Cat falou sobre a família de Sean durante todo o trajeto de volta para casa, enquanto Emma afundou no assento, grata pela provação ter chegado ao fim. Haviam sobrevivido e agora ela estava exausta.


Quando estacionaram em frente à casa, Cat entrou enquanto Emma e Sean despenderam algum tempo reunindo as sobras de comida que Mary insistira para que eles levassem. – Correu tudo bem – disse ele. Ela riu. – Sua família tem um estranho senso de humor. – É verdade, e vão nos perturbar sempre que puderem. Mas ninguém deu com a língua nos dentes. Quando ambos cruzaram a varanda, Emma passou as sobras de comida para uma das mãos, de modo a segurá-lo pelo braço com a outra. Ele se virou e a fitou sob a luz do sol poente. – Obrigada por me ajudar, mesmo sabendo que sua tia não está muito feliz com isso e que sua família jamais o deixará esquecer o que está fazendo. – Não se preocupe. Esse foi o maior obstáculo, e tudo será mais fácil de agora em diante. De alguma forma, Emma duvidava daquela afirmação.


CAPÍTULO 10

UMA

à porta despertou Emma. Ela olhou sonolenta para o relógio do outro lado do quarto, ao lado da cama onde Sean agora se encontrava sentado. 6h25. – Vocês estão vestidos? Mal posso esperar para mostrar o que eu encontrei! Oh, droga! A avó queria entrar. Emma rastejou para fora do sofá. – Só um segundo! Após jogar o cobertor de modo descuidado sobre o encosto do sofá, pegou o travesseiro e correu na ponta dos pés até a cama, tendo o cuidado de desviar da tábua que rangia no piso. Sean empurrou o travesseiro para um lado e ergueu as cobertas para ela. Mesmo procurando não olhar, ela teve um vislumbre de suas cuecas cinza, quando deslizou entre os lençóis. Não se BATIDA


importaria de acordar com aquela visão todas as manhãs. Mas, em vez disso, fora acordada por uma visita inesperada de sua avó. Ela deu a Sean um olhar pesaroso e ele deitou a cabeça no travesseiro, cobrindo os olhos com o braço. – Entre. Cat abriu a porta e entrou, carregando uma caixa velha de sapatos decorada com rendas e corações de cartolina cor-de-rosa. Ela sorriu para eles e ergueu-a. – Sua caixa de casamento! Emma sentiu um frio na barriga. Havia esquecido aquela caixa de casamento. Durante anos vivera obcecada com casamentos, talvez porque as únicas fotos que lhe restaram dos pais juntos eram as fotos do casamento dos dois. Recortava imagens de revistas e desenhava tudo que não podia encontrar nas páginas coloridas. Fazia anotações sobre seu futuro casamento com giz de cera e letras maiúsculas a lápis. Fizera até algumas em letra cursiva com uma caneta rosa-choque, antes de, por fim, abandonar a caixa. Não pensava nela havia anos e, por certo, não esperava vê-la no início de uma manhã de segunda-feira. – Estava no fundo do meu armário – disse a avó. – Eu ia começar a preparar o café da manhã, mas me lembrei da caixa, no sábado à noite, quando


conversamos sobre o tipo de festa de casamento que você queria. Finalmente encontrei-a esta manhã e não pude esperar para lhe mostrar, e sabia que você estaria acordada, se preparando para ir trabalhar. Emma esfregou o rosto, desejando que o atrito estimulasse seu cérebro a funcionar. – Você não precisa preparar o café da manhã. – Pela última vez, não sou fã de aveia instantânea e não me importo de fazê-lo. Cat deu alguns passos para pousar a caixa de casamento no colo de Emma e se dirigiu à porta. – Vejo-a lá embaixo dentro de alguns minutos. Estava quase na porta quando o alarme de Emma disparou. O alarme do telefone celular, que se encontrava conectado a uma tomada, ao lado do sofá, onde ela dormia apenas alguns minutos antes. Emma viu a avó parar e franzir a testa, olhando para o aparelho. – Eu o deixo lá porque é muito fácil pressionar o alarme quando fica ao lado da cama. Assim, preciso levantar-me ir desligá-lo, e fico acordada. – Faz sentido. – Cat sorriu, saiu e fechou a porta. Emma gemeu e saiu da cama, sua maravilhosa e confortável cama, da qual sentia imensa falta, e atravessou o aposento para desligar o alarme e


desconectar o telefone da tomada. Quando se virou, Sean estava sentado, remexendo na caixa. Ele ergueu um pequeno pedaço de papel que ela reconheceu, com uma pontada de saudade, ser parte do conjunto de papéis de carta cor-de-rosa que o avô lhe comprara em seu décimo aniversário. – Quero me casar com um homem que use camisas cor-de-rosa porque é a minha cor predileta. – Sean leu em voz alta, e olhou para ela. – Sério? Esse é o seu critério? – Parecia importante quando eu tinha 10 anos. – Buquê de gladíolos rosa amarrados com fita branca. – Ele leu em um pedaço de papel rasgado do caderno da escola. – Que diabos são gladíolos? Soa como algum tipo de massa. – Gladíolo é minha flor favorita. – Ela pegou a roupa e entrou no banheiro, fechando a porta não muito suavemente após entrar. Quando saiu, ele ainda estava na cama, vasculhando seus sonhos infantis para o futuro. Ela o viu franzir a testa para o desenho de um bolo de casamento decorado com flores cor-de-rosa antes de deixá-lo de lado e pegar outro pedaço de papel de carta rosa. – Se o homem que quiser se casar comigo não se ajoelhar para me propor... – Ele leu em voz alta, imitando um tom de voz feminino. – Eu não aceito.


– A Emma criança tinha padrões bastante elevados – retrucou ela. – É evidente que isso mudou. Sean apenas riu. – Pretendia pôr tudo isso em forma de planilha e dar uma lista ao pobre homem? – Pretende se levantar e trabalhar hoje ou vai ficar na cama e zombar dos sonhos de uma menina? – Sem dúvida, sou capaz de fazer as duas coisas. Quando Sean recolocou a tampa na caixa de casamento e a deixou de lado, Emma se virou correndo, antes que ele pudesse afastar as cobertas para se levantar. Um vislumbre daquele corpo em trajes sumários era o suficiente por um dia. Cat estava preparando panquecas de mirtilo, o que melhorou o humor de Emma drasticamente. Ela serviu duas canecas de café e pousou a de Sean no lugar dele, antes de sorver alguns goles da bebida fumegante. – Obrigada por encontrar minha caixa, vó. – Você costumava trabalhar naquela caixa por horas. Era tão pequena quando começou… Seu avô precisava ajudá-la a cortar as figuras nas revistas, porque você chorava, se cortasse um pedaço dos belos vestidos. Naquela época, Emma sonhava alto. Um príncipe encantado montado em um cavalo branco e trajando uma camisa rosa surgiria em sua vida e lhe roubaria o


coração. Haveria romance, rosas e champanhe todos os dia, e ele lhe escreveria poemas de amor. Tudo mudara desde então. Se e quando finalmente chegasse a um ponto em que se casar e formar uma família fosse opção, se contentaria com amor, confiança e respeito, em vez de romance e rosas. Estava na segunda panqueca quando Sean por fim apareceu, com os cabelos úmidos do banho, e começou a comer com prazer, após elogiar Cat com efusão. – Vou chorar quando você partir e tiver que voltar a comer aveia instantânea e comida de lanchonete – disse ele. – Puxa-saco – murmurou Emma contra a borda da caneca de café, mas ele apenas sorriu. Cat colocou outra panqueca no prato de Sean. – Mary convidou-nos a todos para sua grande festa de Quatro de Julho no sábado. Eles fazem uma festa e depois vão assistir à queima de fogos de artifício no lago. Eu disse a ela que iríamos, é claro. E ela falou que sua família vem às vezes, também, Sean. E lá se foi o apetite de Emma. – Você não me falou nada sobre isso. Ele deu de ombros. – Mitch disse que viria. Mas não sei quanto aos outros ainda.


Bater com a cabeça na mesa não era uma opção, então Emma enfiou outro bocado de panqueca de mirtilo na boca e mastigou lentamente, de modo a ganhar tempo para parar de gritar por dentro. Não só haveria mais pessoas envolvidas na confusão que ela própria criara, mas seria ainda pior com os irmãos e a irmã de Sean, porque teria que fingir que eles não eram estranhos. Só de pensar nisso sentiu dor de cabeça. Empurrou a cadeira para trás, ergueu-se e foi lavar o prato. – Preciso dar alguns telefonemas antes de sair. E vamos trabalhar sob o sol o dia todo, Sean. Portanto, é melhor não se exceder no café da manhã. – Você está bem, querida? – perguntou a avó, os olhos cheios de preocupação. – Parecia bem antes, mas agora está um pouco pálida. Emma se forçou a sorrir. – Só estou tentando organizar os horários na minha cabeça, vó. Não sei se poderei ir no sábado. Talvez esteja trabalhando. – Não seja tola. Nenhum quintal é mais importante do que sua família. Se os parentes de Sean podem arranjar tempo, você também pode. – Está bem. Eu vou. – Ela beijou o rosto da avó e escapou para o escritório para obter alguns minutos de paz.


Sean não havia mencionado sobre a próxima festa em família, nem sobre o fato de sua tia esperar que eles ou seus irmãos fossem. Emma apoiou a testa sobre a superfície fria da escrivaninha e suspirou. Era só o que faltava. Mais Kowalskis. SEAN AINDA não sabia o que fazer quando o mês terminasse, mas de uma coisa tinha certeza: não cuidaria do jardim de pessoas ricas e mimadas. Mais uma vez, passaram o dia às margens do Lago Winnipesaukee, em uma daquelas casas de veraneio, que eram verdadeiras mansões, para dar continuidade ao trabalho de paisagismo que Emma havia começado anteriormente. – Será que ela vai fazê-la retirar tudo isto depois? – perguntou ele, certificando-se de que a cobertura de solo que estava espalhando se encontrava nivelada o suficiente para satisfazer a excêntrica e insana mania de perfeição da chefe, quando se tratava de seu trabalho. – Pode ser. Mas ela vai pagar pelo trabalho, então vou fazê-lo. Mas estas flores, em sua maioria, duram o ano inteiro, então ela pode deixá-las o restante do verão sem arruinar o plano global do paisagismo. A sra. fulana de tal ia oferecer um chá de bebê para sua princesa mimada na casa de veraneio na semana


seguinte. O trabalho de Emma e Sean, portanto, era transformar a propriedade à beira-mar em uma explosão cor-de-rosa. Havia flores cor-de-rosa com caules compridos e finos, flores cor-de-rosa rasteiras e todos os diferentes tipos de flores cor-de-rosa que ele não sabia que existiam. Havia ainda alguns gladíolos sobre os quais ela falara naquela manhã. Mas era pouco provável que ele aprendesse algo sobre eles, uma vez que Emma não confiava nele para fazer nada, além carregar os vasos que ela apontasse e depois espalhar a cobertura de solo quando e onde ela ordenasse. Estar cercado por toda aquela quantidade de rosa tornou impossível arrancar aquela manhã de sua mente, porque cada flor o fazia pensar na Emma de 10 anos idade, querendo se casar com um homem usando uma camisa rosa. Esse pensamento invariavelmente levou a outro, que o fez lembrar de uma Emma adulta deslizando entre os lençóis, a longa perna roçando a sua coxa e fazendo-o pensar em todos os tipos de coisas impertinentes. Por sorte, os pensamentos picantes sobre puxar aquele corpo, ainda quente do sono, contra o seu desapareceram, quando Cat entrou no quarto. O desejo residual, porém, permaneceu, mesmo quando


conversaram sobre a caixa idiota, portanto foi bom Emma ter saído da cama para desligar o despertador. Quanto mais pensava, mais tinha a impressão de que algo estava errado. Cat não parecia ser o tipo de mulher que ficaria tão empolgada por encontrar uma caixa a ponto de resolver incomodá-los àquela hora da manhã. Empolgação à mesa do café era algo normal, mas desde que chegara ela demonstrara bastante respeito à falsa necessidade de privacidade dos dois, para o seu comportamento fazer algum sentido. – Acho que Cat descobriu tudo sobre nós. Emma se sentou sobre os calcanhares e sacudiu a sujeira das luvas. – O que faz você pensar assim? – É apenas um pressentimento. – Na verdade, ele não sabia explicar. – O jeito como ela nos observava, às vezes. E o fato de ter ido ao nosso quarto às 6h20 da manhã? Isso não lhe pareceu suspeito? – Ela estava empolgada. – Mas aquela desculpa era fraca, e Emma sabia disso. – Minha avó diria algo se achasse que estou mentindo para ela. – Talvez não. Talvez queira descobrir o que estamos fazendo. Emma pareceu ponderar o comentário por um momento, em seguida sacudiu a cabeça.


– Não creio que ela mantivesse silêncio sobre esse assunto. Mas, apenas no caso de ela suspeitar, teremos que ser mais convincentes. Mais convincentes? Se fossem mais convincentes, seu membro explodiria. – O que quer dizer com isso? – Não sei. Talvez... mais contato físico ou algo do gênero? – Não. – Ele não tinha a intenção de proferir a palavra em voz alta, mas estava falando sério. Não suportaria mais contato físico. – Quero dizer, não acho que esse seja o problema. Na verdade, aquele era exatamente o problema, mas não da maneira que ela estava pensando. Estava louco de desejo, puro e simples, e os constantes toques, olhares e fingimentos o estavam matando. Lenta e, aparentemente, sem fim. À noite, era pior. Emma tinha um sono inquieto, ele, um sono leve, e a combinação contribuía para um constante alto grau de insônia. E a visão de seus cachos escuros espalhados por todo o travesseiro e as longas pernas descobertas se movimentando contribuía para um constante alto grau de luxúria. – O que acha que é o problema, então? Sean meneou a cabeça. – Esqueça. Talvez seja apenas excesso de imaginação.


Quando Emma se levantou e se espreguiçou, ele tentou não olhar, mas não conseguia desviar os olhos. Sabia que ficar curvado sobre um jardim era prejudicial aos músculos, mas a forma como ela colocara as mãos na parte de trás da cintura e arqueara as costas, projetando os seios para a frente, era prejudicial para o seu autocontrole. – Por que não me contou sobre a sua tia e a festa do feriado? – Porque você ia começar a se preocupar, e estamos apenas na segunda-feira. Pensei em esperar até sextafeira para lhe contar. – Puxa, obrigada. – Você já falou com a Cat sobre a casa? Ela negou com a cabeça. – Continuo esperando que ela aborde o assunto, mas até agora, nada. E nunca acho que é o momento certo. – Se a deixar voltar para a Flórida sem lhe vender a casa, tudo isto foi em vão, você sabe. – Sim, eu sei – retrucou ela. – Sei que não parece, mas não gosto de mentir para minha avó dessa maneira. E, agora que chegou a hora, estou encontrando dificuldade para falar sobre a casa. Nesse instante, o telefone de Sean tocou e ele o tirou do bolso para verificar o identificador de chamadas. – Droga!


– Quem é? – Minha irmã. Desculpe, tenho que atender, ou ela vai continuar ligando. – Ele abriu o telefone enquanto se afastava para colocar um pouco de distância entre ele e Emma. – Oi, Liz. – Você é um idiota. – Sinto falta de você também. – Diga-me que Mitch está falando um monte de asneiras. – Ele normalmente fala. O suspiro do outro lado da linha praticamente fez seu telefone vibrar. – Você está vivendo com uma mulher que acabou de conhecer e fingindo ser seu noivo? – Sim. – Essa situação lhe parece normal? – Eu nunca disse que era normal. Na verdade, é um absurdo, mas estamos fazendo um bom trabalho. – Mais ou menos, pensou. Exceto pelo fato de viver em constante estado de excitação sexual não saciada, estavam se saindo melhor do que ele imaginara. – E a tia Mary concordou? – Um pouco relutante, mas sim. – Não poderei ir à festa do Quatro de Julho, mas Mitch vai. Se ele me disser que essa mulher não é boa


pessoa, contarei a Rosie tudo sobre você. – Ninguém aqui é mau caráter, Liz, e não estamos prejudicando ninguém. Eu juro. – Vamos ver o que Mitch tem a dizer. Sean ouviu uma voz ao fundo e um ruído que soou como uma porta batendo. – Tenho que me apressar. Ligo para você na próxima semana, depois que falar com Mitch. – Obrigado pelo aviso – disse ele, mas ela já havia desligado. Após colocar o telefone de volta no bolso, ele sorriu para Emma. – Ela manda lembranças. – Posso apostar. Ela não virá, não é? – Para a festa, não. Se Mitch lhe disser que eu caí nas garras de um demônio sedutor, com certeza virá. Caso contrário, ficará onde está. Não costuma nos visitar com frequência. Emma ajoelhou-se em frente ao canteiro e voltou ao plantio de flores rosa. – Você disse que ela vive no Novo México. O que ela faz? – Serve mesas em uma paragem de caminhões para sustentar o aspirante a artista por quem se apaixonou. Um parasita que a convenceu a abandonar a faculdade, quando ela era uma garota de 19 anos.


– Oh. Acho que não é uma história feliz. – Não. Mas ela é mais cabeça-dura do que os quatro irmãos juntos e acho que fica com ele apenas porque não quer admitir que o nosso velho pai estava certo. – Mesmo que ele tenha falecido há quase uma década? Isso é ser... bem cabeça-dura. – Essa é Liz. – Ele fez uma careta para a cobertura de solo que ela empurrou em sua direção. – Todos nós já tentamos fazê-la enxergar a verdade e já tivemos algumas conversas com ele também, mas ela se recusa a deixá-lo. – Eles são casados? Ele bufou. – Não. O cafajeste tem um espírito livre demais para formalizar seus relacionamentos. – E ele tem vários? – Sim. Ela com certeza se cansará daquele patife. Eu espero. – Então, nenhum de vocês é casado? – Não. Liz está perdendo tempo com seu canalha há treze anos. Ryan é divorciado. E Mitch, Josh e eu somos difíceis demais para nos casarmos. – Você quer dizer que ainda não encontraram mulheres dispostas a aturá-los. Sean riu. – Basicamente.


É claro que ele não se empenhara muito em encontrar, também. Mas imaginava que, quando chegasse a hora de procurar, em um futuro distante, por certo se apaixonaria por alguém como Emma. Ela era inteligente, divertida, fiel à família. E, ao contrário de muitas mulheres, não o deixava levar a melhor. Certo, ela possuía alguns hábitos irritantes. Como aqueles gemidos durante o sono. Também era um pouco sarcástica. Havia a paranoia com a limpeza, também. Ela usara uma escova de dentes para limpar o tênis dele e eles ainda nem haviam sido amaciados. Mas, no geral, se o desejo de se casar o dominasse, não se importaria em casar com uma mulher como Emma. – É TUDO uma farsa? – Russell recostou-se contra o balcão, balançando a cabeça. – A vida em comum? O noivado? Tudo mentira? – Sim. – Cat suspirou. Era um pouco constrangedor admitir que Emma recorrera a um esquema tão elaborado para proteger a sua paz de espírito, mas contou-lhe a história toda, incluindo sua conversa com Mary Kowalski, enquanto ele ria. – Ela realmente deve amá-la muito para se meter em todos esses problemas – disse Russel quando ela terminou, e Cat sorriu.


– Acho que você está certo. Emma é uma boa moça, mesmo pensando que eu cairia como um patinho nessa farsa. – Mas ela não havia reunido sua coragem e ido à cidade para falar da neta. – Você me deve uma dança, Russell Walker. Ele deu um sorriso tímido. – Estou procurando um lugar agradável para levá-la. Ouvi dizer que haverá um baile para angariar fundos para a festa de formatura dos alunos, no sábado depois deste, na escola secundária, para o pessoal da terceira idade. Não é nada sofisticado, mas é perto e por uma boa causa. – Parece ser bom. – Então, é um encontro? Um encontro? Que diabos ela estava fazendo namorando naquela idade? – É um encontro. – Ótimo. Vocês já têm planos para o Quatro de Julho? – Vamos passar o dia com os Kowalski e depois assistir à queima de fogos no lago. Ele assentiu. – Dani e o marido, Roger, sempre fazem isso também. Cat pegou o saco de ferramentas de jardinagem que havia comprado só para ter uma desculpa para parar na


loja de ferragens. – Se você for com eles, talvez eu o encontre lá. – Talvez. Aonde vai agora? – Vou até Concord me encontrar com Mary Kowalski para almoçar. – Aquelas pobres crianças não têm chance, não é? Ela riu. – Não. Mary já estava à sua espera no luxuoso café que haviam escolhido porque era improvável que atraísse qualquer um dos outros membros da família, e as duas poderiam desfrutar de um agradável almoço. Cat era mais velha do que ela, é claro, mas não muito. Ela dera à luz Johnny ainda jovem, e Johnny e a esposa também tiveram Emma bem jovens. Mary havia pedido uma jarra de água, mas ambas optaram por chá gelado para acompanhar as saladas que, relutantemente, haviam pedido. Com todos aqueles churrascos acontecendo, precisavam comer com moderação quando tinham chance. Cat ainda se sentia culpada pela omelete de salame e queijo, e já fazia quase uma semana que o comera. As duas conversaram sobre a família e o clima até as saladas chegarem. Em seguida, Mary abordou o assunto de Sean e Emma. – Como vão as coisas entre eles?


– Descobri que ela dorme no sofá do quarto. Quando bati à porta, pude ouvi-la cruzando o quarto para se enfiar na cama antes de me mandar entrar. E o telefone celular que ela usa como despertador estava conectado a uma tomada ao lado do sofá também. – Estou surpresa por eles estarem conseguindo resistir um ao outro há tanto tempo. Cat assentiu e regou a salada com um molho de baixa caloria. – Eu também. Na verdade, não sei por que estão se empenhando tanto. Você contou a alguém que eu descobri o pequeno esquema dos dois? – Não. Não sabia se algum deles contaria a Sean. Ou se Lisa não iria contar a Emma. Eu sequer disse a Leo, portanto está apenas entre nós. – Vai ser divertido ver a minha neta fingir que Mitch não é um estranho para ela. – A vinda dele aqui neste fim de semana vai ajudar a dar um empurrãozinho em Sean. – Você acha? Mary sorriu. – Mitch é um sedutor. Eles também fizeram uma aposta que pensam que não sei nada a respeito, e não querem que Sean ganhe. Assim que Mitch começar a flertar com Emma, vamos descobrir os sentimentos de Sean por ela.


– Espero que esteja certa. Eles com certeza precisam de um empurrãozinho. – Acredite em mim. Eu conheço os meus meninos.


CAPÍTULO 11

O

chegou e Emma percebeu que estava em apuros, quando uma versão ligeiramente mais alta e mais velha de Sean a avistou do outro lado do grande quintal dos Kowalski. Ele sorriu e caminhou em sua direção. – Emma! Quando a ergueu do chão, o que era uma tarefa fácil, considerando a sua altura, e a girou no ar, ela o segurou pelos ombros. – Mitch... Olá. Por sorte, apenas um dos irmãos de Sean pôde comparecer ao encontro de família. Não apenas porque seriam menos pessoas para controlar, mas porque havia uma chance bem maior de ser de fato Mitch. – Precisa exagerar dessa maneira? – Ela ouviu Sean murmurar. SÁBADO


– Não pude me conter – disse Mitch, colocando-a de volta no chão. – Minha futura cunhada é um bocado atraente. Você é um bastardo sortudo. Sean bufou de raiva, mas Emma não sabia dizer se pelo fato de o irmão tê-la chamado de futura cunhada, ter dito que ela era atraente ou tê-lo chamado de bastardo sortudo, então o ignorou. No instante em que Emma avistou Mitch, notou que ele era um pouco mais alto e mais velho que Sean, os olhos possuíam um tom de azul um pouco mais escuro e os cabelos eram mais longos e rebeldes. Também era mais magro, embora possuísse um belo físico. Emma estremeceu quando Sean a envolveu pela cintura e colou o rosto ao dela. – Pare de ficar olhando para o meu irmão. – Ele é mais alto do que você. – E mais velho também. – Talvez, mas não muito, não é? – Quando ele resmungou baixinho, Emma riu e lhe deu uma cotovelada nas costelas. – Não está com ciúmes, está? – De Mitch? Por favor! – Eu posso vencê-lo facilmente, irmãozinho – disse Mitch. – Agora, me apresente à sua futura avó por afinidade para que eu possa voltar à minha cerveja.


Emma conversou, riu, comeu demais e riu mais pouco durante o decorrer do dia. Todos estavam descontraídos e ninguém parecia particularmente interessado em olhar para ela e Sean ou perturbá-los com a conversa sobre casamento, logo ela também relaxou. Estava saboreando um picolé de chocolate, quando a avó arrastou uma cadeira e sentou-se ao seu lado. – Oi, vó. Está se divertindo? – Bastante. Sean tem uma família muito agradável. E eles realmente gostam de você. – Eu também gosto deles – disse ela, e não estava mentindo. Era difícil não gostar dos Kowalski, mesmo quando a faziam passar por momentos difíceis. – Eu estive pensando sobre o assunto e resolvi lhe dar a casa como presente de casamento. Emma sentiu toda a comida, os biscoitos, as batatas fritas e o sorvete que havia ingerido, revirar em seu estômago. – Não, vó. – Sim. É bastante claro que você fez da propriedade o seu lar, e quero que fique com ela. Era a vontade do seu avô, também. Conversamos sobre isso antes de ele falecer. – Eu também quero, vó, mas quero comprá-la. É valiosa demais para você simplesmente me dar.


Cat zombou de suas palavras. – Aquele monstro foi pago em suaves prestações. Não há sentido algum em hipotecá-la outra vez. Tenho dinheiro suficiente para me manter feliz e você tem um negócio para continuar. Emma lutou para não chorar. Queria a casa. E estava disposta a comprá-la. Mas não podia deixar a avó dá-la como presente de casamento quando não haveria casamento. Ela respirou fundo. – Vó, eu... – Bobby correu pelo quintal e derrapou até parar na frente das duas. – Está na hora do futebol americano radical de Quatro de Julho dos Kowalski. Cat riu e se levantou do assento. – Conversaremos sobre esse assunto em outra ocasião, Emma. Vá se divertir. – Não sei se quero jogar futebol. Especialmente se houver radicalismo envolvido – disse ela, mas Bobby segurou-a pela mão e arrastou-a pelo quintal. Os jogadores foram divididos em times por altura, cada um composto por homens, mulheres e crianças. Emma ficou no time de Sean, o que era bom. Havia acabado de se esconder atrás dele, porque a única coisa que sabia sobre futebol americano era que envolvia uma boa quantidade de golpes e empurrões.


Bastaram apenas algumas jogadas para ela ver que os Kowalski jogavam seguindo regras próprias e as poucas existentes eram flexíveis. Serviam, em sua maioria, para garantir que as crianças menores não fossem prejudicadas, tornando-se vítimas da veia competitiva dos adultos. Cinco minutos de jogo e Emma se viu com a bola nas mãos. Gritou e olhou ao redor à procura de alguém, qualquer pessoa, para passá-la, mas não havia ninguém. Bem, havia Danny, mas ele estava se dobrando de tanto rir. – Corra, Emma – gritou Lisa. Ela correu na direção da amiga, que lhe acenava freneticamente com a mão, mas só conseguiu perfazer alguns metros antes de dois braços fortes a envolverem pela cintura e, no instante seguinte, ela se viu caindo. Por sorte, caiu sobre um corpo, em vez de se estatelar no chão. – Eu amo futebol – disse Mitch, sorrindo para ela. Emma fez uma careta e conseguiu apoiar um dos joelhos em terra firme, para que pudesse se levantar. Ele foi mais rápido e libertou-se, levantando-se em seguida para ajudá-la. – Deveriam lhe passar a bola com mais frequência – comentou Mitch, os olhos azuis brilhando e o sorriso,


tão parecido com o de Sean, mas não tão impertinente, a pleno vapor. – Tire as mãos da minha garota – disse Sean, puxando Emma pelo cotovelo. – Você devia se esforçar mais para bloqueá-la. – Vamos – gritou Brian. Na jogada seguinte, Mitch interceptou o passe de Mike para Evan e se virou para correr em direção à zona de finalização. Encontrava-se no meio do caminho, quando Sean o bloqueou com força. Ambos caíram no chão com um baque surdo que fez Emma estremecer, e começou o empurra-empurra. Quando Sean recuou o braço para desferir o primeiro golpe, Mary soou o apito do lado de fora. – Rapazes! Chega! Em vez de ir direto se unir aos outros, Sean caminhou até Emma, tomou-a nos braços e lhe deu um beijo ardente, quase punitivo, que a fez sentir arrepios na pele e os joelhos ficarem bambos. Em seguida, ele olhou para o irmão por alguns longos segundos e voltou ao time, deixando-a imóvel, sem fôlego e desconcertada. Lisa estava olhando para ela. Bem como Terry, Beth e Keri. Todas estavam com as sobrancelhas arqueadas e uma expressão especulativa que a fez desejar sair correndo e se esconder. E daí que Sean a tratara como


um homem de Neandertal? Isso não significava nada. Não era como se ele a tivesse reivindicado para si. Por certo, fora uma reação instintiva ao flerte do irmão mais velho com a mulher que ele trouxera para a festa. Só podia ser. Algumas jogadas depois, Emma terminou com a bola nas mãos outra vez. Parecia haver algum tipo de regra tácita que todos deviam ter uma chance de jogar, mesmo sendo perna de pau. Ela ia começar a correr, mas viu Stephanie aproximando-se rapidamente com aquele espírito matador dos Kowalski no olhar e preferiu lhe arremessar a bola. Mitch, que não a havia tocado desde o primeiro embate equivocado, interceptou-a, tomou posse da bola e correu de volta para um touchdown, para o desespero vocal dos companheiros de equipe de Emma. – Você consegue jogar futebol ainda pior do que dirige – murmurou Sean. – Com certeza, é a minha falta de... Sean puxou-a de volta contra o corpo e envolveu-a em seus braços, de modo que pudesse lhe sussurrar ao ouvido: – Não se atreva a dizer tal coisa. Ela riu e recostou-se contra seu peito. – Não dizer o quê?


– Se mencionar o instrumento mágico na frente desses caras, eles nunca mais vão parar de falar sobre isso. Nunca. Inferno, daqui a cinquenta anos, quando nossos membros estiverem murchos e inúteis, eles ainda estarão fazendo piadas sobre isso. – O que eu ganharia por não falar? Sean abraçou-a com mais força e acariciou-lhe os cabelos. – O que gostaria de ganhar? Emma virou a cabeça, seus lábios quase tocando-lhe o rosto. e baixou a voz em um tom sexy. – Quero... dirigir quando voltarmos para casa. Ele bufou. – Vou pensar. – Basta imaginar Mike velho, decrépito e desdentado, curvando-se sobre um andador e gritando: Ei, Sean, como anda seu instrumento mágico? – Certo, você venceu. Pode dirigir. – Vocês vão jogar ou não? – gritou Leo. Sean soltou-a e voltou em direção à bola, mas, quando Emma olhou para a margem e pensou em fazer uma pausa, viu Mary observando-a com o que parecia um sorriso um tanto presunçoso nos lábios. Não sabia exatamente o que aquilo poderia significar, mas também não tinha certeza se queria saber, então se forçou a se unir ao time. Eles estavam


em um amontoado, discutindo uma jogada que, por sorte, não parecia incluí-la, mas ela ouviu, de qualquer maneira. E estremeceu quando o amontoado se desfez e Sean deu-lhe um tapa nas nádegas. O flerte do irmão sem dúvida despertara nele o desejo de tocá-la fisicamente, meditou, enquanto Terry corria atrás dela com a bola. – Emma, derrube-a – gritou o marido de Terry, mas era tarde demais. E ela não era boba. Chocar-se com Terry iria doer. O placar foi 21-42 ou empatado em 35, dependendo de a quem você perguntasse, quando Mary soprou o apito. – Está na hora de nos limparmos e nos prepararmos para os fogos de artifício. Crianças, certifiquem-se de ir ao banheiro antes de sairmos este ano. Emma não se afastou quando Sean lhe segurou a mão para entrarem na casa. Talvez apenas pelo fato de Mitch estar próximo e Mary os observando. A TARDE estava quase findando quando a horda de Kowalski se reuniu em uma roda de colchas de retalhos velhas. Cat demarcou seu lugar em um canto com a bolsa e o chapéu de palha que usara anteriormente para proteger o rosto do sol. A seguir, se afastou para ver se encontrava alguém conhecido.


Parou aqui e ali, cumprimentando alguns amigos, mas, quando viu Russell Walker sentado em um dos bancos do parque, foi forçada a admitir que o estava procurando. Ele estava sozinho. Cat respirou fundo para acalmar a ridícula excitação de colegial e se aproximou. – Este assento está ocupado? O rosto de Russel se iluminou ao vê-la. Ele deu um tapinha no banco vazio ao seu lado. – Eu estava sentado em um cobertor com Dani e o marido, mas estou um pouco velho para isso. – Emma e eu estamos com a família de Sean, mas pensei em dar uma caminhada para evitar ficar sentada no chão o máximo de tempo possível. – Eles vão se importar se você ficar aqui comigo? Com o número de Kowalski sentados nos cobertores, provavelmente nem perceberiam que ela havia sumido. – Acho que não. – Você se importa? Ela sorriu e negou com a cabeça. – Na verdade, não. E, falando em Emma, lá estava ela, obviamente procurando pela avó. Ela acenou com a mão para chamar sua atenção e não deixou de notar a surpresa que cruzou o rosto de Emma.


– Oi, sr. Walker. Estávamos começando a pensar que minha avó se havia se perdido. – Acho que vou assistir à queima de fogos com Russell. – Oh! – Cat observou Emma tentar compreender o que estava acontecendo ali. – Está bem. – Você está linda esta noite – disse Russell. – É evidente que o amor combina com você. Porque estava atenta, Cat viu o brilho de culpa nos olhos de Emma, antes de sorrir, e não resistiu a provocar a neta. – Russell disse que ainda não conhece Sean. – Não. Ele... hã... Sean não sai muito para fazer compras. E ele vai às lojas na cidade quando precisa de algo, assim pode visitar os tios ao mesmo tempo. Pelo menos a jovem era consistente. Cat desejou saber se ela havia feito anotações e as usava como se fazia para colar na escola. – Você terá que trazê-lo aqui após a queima de fogos. – Sim. Talvez. Então... divirtam-se. Emma se afastou, mas Cat a pegou olhando para trás com o cenho franzido, como se estivesse tentando decifrar por que a avó preferira ver os fogos com o dono da loja de ferragens em vez de ficar com a família.


Então, os primeiros fogos de artifício foram detonados e Cat tirou Emma da cabeça quando a explosão iluminou o céu do crepúsculo. Os dois vibraram juntos com o restante da multidão e, quando o show se encaminhou para o grand finale, a mão de Russell encostou na dela. Ele permaneceu assim por um instante e, em seguida, entrelaçou os dedos aos seus. – ONDE ESTÁ Cat? Emma suspirou e olhou para onde encontrara a avó e Russell Walker, apesar de estar muito escuro para vêlos. – Encontrou um amigo. Está sentada no banco com ele, lá perto das árvores. – Ele? – Sim. Russell Walker, dono da loja de ferragens. Sean deu de ombros. – Provavelmente, evitando ficar sentada no chão. Com a avó observando a queima de fogos em companhia de Russell, Emma estava livre para colocar um pouco de distância entre ela e Sean na sua parte de uma velha colcha alegremente colorida. Não muita, é claro, porque havia muitos Kowalski, e eles precisavam se manter afastados das crianças para não levarem cotoveladas.


– Necessitando de um calmante? – Sean se inclinou para perguntar em voz baixa. – Não. Por quê? – Você gira o anel de noivado ao redor do dedo quando está nervosa. E agora parece que está tentando gerar eletricidade com ele. Emma apertou os dedos e apoiou as mãos sobre os joelhos dobrados. Nervosa? Por que estaria nervosa? Seu corpo ainda zunia por causa daquele beijo impetuoso durante o jogo de futebol, a avó a preterira em prol do sr. Walker, dono da loja de ferragens, e ela não conseguia entender nenhuma daquelas duas atitudes. Não era por falta de tentativa. Seu cérebro trabalhava, tentando resolver tudo aquilo, enquanto uma explosão de cores iluminava o céu, agora escuro. Talvez Sean estivesse certo e sua avó simplesmente tivesse preferido se sentar no banco ao lado do sr. Walker porque não queria se sentar no chão. E Sean talvez a tivesse beijado apenas porque pensou que era o que um homem apaixonado faria se seu irmão mais velho flertasse com sua noiva. Tudo muito inocente. Mas observara Sean fingir estar apaixonado por ela durante duas semanas e, embora ele não tivesse se saído mal, não acreditava que fosse tão bom ator a


ponto de falsificar aquele brilho primitivo e possessivo no olhar antes de beijá-la. Sean aproximou-se para lhe sussurrar ao ouvido. Ela apreciava sua discrição. Mas o hálito morno tocandolhe a pele, nem tanto. – Você não está sequer tentando aproveitar os festejos, não é? – Estou. E muito. – Ela gostava da sensação do ombro dele pressionado ao seu. O perfume que ele exalava. A maneira como os fogos de artifício lhe iluminavam o rosto. Sean não parecia inclinado a dizer mais nada, mas também não se afastou. Ambos assistiram à explosão de fogos e riram com as crianças, que vibravam com uma exuberância exagerada. Estavam todos usando pulseiras e colares de neon brilhantes, parecendo vívidos e reluzentes como um show de Vegas. Passado algum tempo, Emma se remexeu, tentando encontrar uma posição razoavelmente confortável no chão duro. Não foi fácil, até Sean puxá-la para si e ela descansar contra seu peito. Era muito confortável... fisicamente. Embora estivesse causando uma grande confusão em seus sentidos. Surpreendeu-se ao se ver, não em uma boa maneira, desejando que a avó estivesse ali com eles sobre o cobertor para que Sean tivesse uma desculpa para abraçá-la e beijar-lhe a nuca.


Estava começando a desejar que ele tivesse desculpas para fazer muitas coisas com ela. Em especial, coisas que não poderiam ser feitas na frente da avó. Estavam apenas na metade do mês e vinha passando tempo demais desejando saber como seria fazer amor com Sean. Receava que algum dia, em breve, ele a tocasse e ela explodisse em um orgasmo espontâneo. A ida do banheiro ao sofá todas as noites era o pior, exigindo sua total concentração. Não confiava no próprio corpo para resistir à tentação de se virar e se deitar na cama ao lado dele. – O que está pensando? – Sean sussurrou ao seu ouvido, e Emma resmungou baixinho. Realmente tinha que parar de pensar em sexo perto dele. – Estou pensando em todos aqueles bolos e tortas nos esperando na casa de sua tia – mentiu. Sean riu, o som quase encoberto pelos fogos de artifício. – Não sabia que as sobremesas provocavam esse efeito em você. Terei que me lembrar disso. Em vez de se preocupar com a promessa implícita naquelas palavras e a voz rouca e sexy, ela virou o rosto e o ignorou. Mas não podia ignorar o dolorido desejo que ele lhe despertara. Terei que me lembrar disso. Quando as últimas explosões ruidosas e coloridas iluminaram o céu sobre o lago, a família Kowalski


aplaudiu com entusiasmo. Em seguida, começaram a recolher seus pertences. Durante o pouco tempo que ficaram sobre as colchas, pareciam que haviam fixado residência ali. Havia garrafas de bebidas, embalagens de lanche e brinquedos espalhados por todos os lados. Sean levantou-se e estendeu as mãos para ela. Emma hesitou em tocá-lo, o que era ridículo. Ele era um cavalheiro, logo, é claro, queria ajudá-la. O fato de ainda estar toda arrepiada e excitada pelo beijo anterior era problema seu, não dele. Uma vez de pé, afastou as mãos o mais rápido que pôde e olhou para o chapéu e a bolsa da avó. – Minha avó pediu-me para levá-lo até lá após a queima de fogos. Para apresentá-lo ao sr. Walker, eu acho. – Isso a incomoda? – Apresentá-lo? Sean negou com a cabeça e puxou-a para fora da colcha, porque Terry estava tentando dobrá-las. – Cat ter assistido à queima de fogos com ele. A atitude mais madura seria zombar da sugestão de que ela estava incomodada por sua avó ter um amigo, mas Emma não conseguiu. Não com ele a fitando com tanta intensidade. – Não sei. Eu não podia imaginar, isso é certo. Aonde Mitch está indo?


– Falar com aquela loura na arquibancada. Emma se virou para olhar e viu Mitch conversando com uma bela loura, trajando um minivestido. A mulher tinha uma expressão afetada e polida que deixava claro que fora aos festejos sozinha com a única finalidade de encontrar um homem para levá-la para casa. – Ele não perde tempo. Sean bufou irritado, e Emma não sabia dizer se o olhar que ele lançou a Mitch era de aborrecimento pelo comportamento mulherengo habitual do irmão ou aborrecimento, por não estar livre para encontrar sua própria loura com um minivestido. Antes que pudesse descobrir, a avó apareceu com Russell Walker e, atrás deles, um casal que parecia mais jovem do que seus pais seriam agora, mas não muito. – Emma – disse Cat. – Esta é a filha de Russell, Dani, e seu marido, Roger. Esta é a minha neta, Emma, e seu noivo, Sean. Emma sorriu, cumprimentou-os e depois continuou sorrindo enquanto as apresentações se seguiam ao seu redor. Internamente, porém, seu cérebro estava ficando dormente. Exaustão de fingimento, disse a si mesma. Era cansativo, todo aquele fingimento. Queria ir para casa e fazer Sean se deitar no sofá para que ela pudesse


se aninhar em sua cama e dormir. Mas pelo menos aquela noite estava quase no fim. – Se não estiverem fazendo nada – disse Mary a Russell e aos outros –, podem ir para casa conosco saborear uma boa sobremesa.


CAPÍTULO 12

SEAN IA matar os primos. Lenta e dolorosamente. Mas, em primeiro lugar, lhes daria uma boa surra. Todos voltaram para a casa de Mary e Leo após a queima de fogos de artifício, como esperado. O que não era esperado era Cat ter apresentado Russell, sua filha, Dani e o marido, Roger, aos Kowalski, que, em seguida, os convidaram para a sobremesa em sua casa. Após as tortas e bolos terem sido devorados, Mike e Lisa levaram seus meninos para casa, e os dois bebês, Lily e Brianna, adormeceram, de modo que a geração mais velha decidiu se divertir com um jogo de cartas que ninguém com menos de quarenta sabia como jogar. Então os mais jovens desceram para a sala de recreação no porão, exceto Mitch, que se despedira de todos após a queima de fogos com a linda loura de minivestido.


Joe anunciou que tinha um jogo perfeito para passar o tempo. Kevin sorriu e concordou. E havia quatro casais; logo, era perfeito. Sean devia ter imaginado. O motivo de ter quatro casais tornar o jogo perfeito, ele descobriu tarde demais, era porque o jogo era uma espécie de versão adulta absurda do Casal x Casal. E agora Joe e Kevin estavam se divertindo a valer, porque a presença de Dani e Roger significava que Sean e Emma teriam que manter a farsa ou Dani contaria ao pai, que, por sua vez, contaria tudo a Cat. – Em que lugar vocês fizeram sexo pela primeira vez? – Roger leu em uma ficha. Dani pressionou o cronômetro e seis deles se inclinaram sobre seus blocos de anotações, escrevendo suas respostas rapidamente. Sean olhou para a página em branco e decidiu escrever algo simples. Com sorte, Emma faria o mesmo. Quando o cronômetro apitou, ele pousou o lápis. Joe e Keri marcaram o primeiro ponto, quando ambos responderam: “No banco traseiro do Ford Granada modelo 1979 de Joe”. Para Kevin e Beth, foi o hotel onde foi realizada a recepção de casamento de Joe e Keri, e Dani e Roger escreveram, os dois, no quarto de Dani. Emma fez uma careta para Sean e depois ergueu o bloco.


– Em uma colcha, sob um corniso em flor. As outras mulheres emitiram gemidos de admiração, mas Joe e Kevin já estavam rindo. Aquilo não era escrever algo simples. Sob um corniso em flor? – Precisamos da sua resposta – disse Roger. Sean ergueu o papel. – Em uma cama. O risinho dos primos se transformou em uma sonora gargalhada, enquanto Dani e Roger pareciam um pouco confusos. – Oh! – disse Emma. – Vocês se referiram a sexo um com o outro? Foi uma boa saída, mas Sean tinha um pressentimento de que as coisas só piorariam a partir daí. E, já que ele e Emma teriam sorte se saíssem de lá com o segredo intacto, e nem por sorte teriam a chance de ganhar o jogo, ele poderia muito bem se divertir um pouco. Então foi a vez de Dani ler uma pergunta. – Quem é dominante no quarto? Para a diversão de todos no grupo, nenhum dos casais demonstrou concordância, e Sean sabia que ele e Emma também não concordariam quando ergueu o bloco. – Sou eu, uma vez que carrego a grande clava.


Emma leu a sua resposta com uma notável expressão séria. – Sean, porque ele tem um instrumento mágico. – Uau! Hum... Sean e Emma marcaram um ponto – disse Dani, enquanto os homens choravam de tanto rir. De modo algum ele deixaria aquilo passar impune e piscou para Emma quando Kevin leu próxima pergunta. – Qual o lugar mais estranho em que vocês fizeram sexo? O fato de Joe e Keri terem feito o trabalho sujo na parte de trás de um carro levou a algumas perguntas sobre a logística do ato, mas, em seguida, foi a vez de Emma responder. – Na cama, porque Sean não tem imaginação. Roger estremeceu e fitou Sean um pouco embaraçado, mas seus primos não foram tão tímidos e riram a valer. Ele apenas deu de ombros e ergueu o bloco. – No carro, no estacionamento do shopping. Emma mentiu porque não quer que ninguém saiba que sente prazer em ser observada. O queixo dela caiu, mas ela se recuperou rapidamente e deu-lhe um sorriso doce que não combinava com a expressão “vou me vingar de você” em seus olhos.


Beth leu a próxima pergunta. – Mulheres, onde é que seus homens secretamente sonham em fazer sexo? Keri sabia que Joe queria fazer sexo no declaradamente mal-assombrado Stanley Hotel, de O Iluminado, de Stephen King. Dani afirmou que Roger sonhava em fazer sexo em uma praia do Caribe, mas ele disse que era a fantasia dela e que a sua era fazer amor em um iglu. Nenhuma insistência foi capaz de fazê-lo dizer o motivo. E, quando chegou a vez de Kevin, até mesmo Sean sabia que ele sonhava em fazer amor no centro do campo de basebol Fenway Park. Então, Deus o ajudasse, chegou a vez de Emma mostrar sua resposta. – Em um banheiro do Burger King. A sala ficou em silêncio até que Dani disse: – É verdade? – Não, não é verdade – rosnou Sean. – É verdade – disse Emma. – Ele sabe que é a única maneira de me fazer gritar. Quando a sala irrompeu em gargalhadas, Sean sabia que o humor era a única maneira de terminarem a noite com o segredo guardado, mas ele próprio não estava achando a menor graça. A última resposta, porém, foi a que de fato o aniquilou. A pergunta:


– Se o seu sexo tivesse um slogan, qual seria? O de Joe e Keri, não era de admirar, era Não acorde o bebê. Kevin e Beth escreveram, os dois, Melhor do que bolo de chocolate, o que quer que fosse que aquilo significava. Dani escreveu, Fica melhor com o tempo, como um bom vinho, e Roger escreveu, Como o queijo, quanto mais você envelhece, melhor fica, o que levou a uma reunião para discutirem se os dois deviam pontuar ou não. Eles provavelmente teriam conseguido se não estivessem empatados com Keri e Joe, que levavam a competitividade a sério. Quando todos olharam para Sean, ele gemeu e virou o papel ao contrário. Haviam perdido qualquer chance de ganhar o jogo, mas ele já estava temendo o que a espertinha, da qual não estava de fato noivo, escrevera. – Ela é a chefe. O olhar que Emma lhe lançou enquanto virava lentamente o bloco o advertiu de que ela estava prestes a baixar o royal flush naquele pequeno jogo que estavam jogando. – Tamanho com certeza não é documento – disse ela, no que soou para Sean como uma voz demasiado alta. Antes que ele pudesse dizer algo, e não fazia ideia do que sairia de sua boca, mas precisava dizer alguma coisa, Cat apareceu no topo da escada.


– Odeio acabar com a festa, mas está ficando tarde, portanto acho que a noite chegou ao fim. Para Cat sim, mas para Sean a noite estava apenas começando. SE A avó não estivesse na caminhonete, Emma teria proporcionado a Sean um retorno à casa inesquecível. Mas, assim que ela pisou de leve no acelerador, divertindo-se com seus suspiros abafados e a forma como ele pisava em um pedal de freio imaginário. Como já era bem tarde, Cat foi direto para a cama, e Sean subiu a escada atrás dela. No momento em que Emma terminou de trancar a casa, ouviu um ressonar vindo do quarto da avó e fez uma pausa. Sean não ressonava, mas estava na cama, deitado de costas, com as mãos sob a cabeça, olhando o teto com o cenho franzido. Para não lhe dar chance de reclamar por ela ter dirigido como uma mulher, Emma foi direto ao banheiro retirar a maquiagem e se preparar para dormir. Na pressa, porém, esqueceu de pegar o pijama, o que se tornou um dilema. Poderia ir lá fora, pegá-lo e voltar ao banheiro para se trocar ou sair e vesti-lo. Se Sean não gostasse, não precisava olhar.


Após sair do banheiro, desligou a luz do quarto, o que não surtiu muito efeito. A noite clara, iluminada pelos raios de luar, deixava sua silhueta bem visível quando ela desabotoou a calça jeans e a escorregou pelos quadris. – Que diabos está fazendo? – Vestindo o meu pijama. – Você sempre faz isso no banheiro. – Sua voz soou baixa e rouca, mas Emma notou que ele não desviou o olhar. – Eu me esqueci de pegá-lo, e não vejo motivo em voltar ao banheiro para vesti-lo. – Ela se livrou da calça jeans e ia colocar o calção antes de trocar a blusa, mas lembrou-se de suas estúpidas respostas às estúpidas perguntas no jogo e mudou de ideia. – O problema é que você não se despia na minha frente. – Oh, você esqueceu? Ser observada me excita. – E, dizendo isso, ela tirou a camiseta pela cabeça. Ao se ver livre da peça, Emma precisou conter um grito de surpresa, porque de repente Sean estava em pé à sua frente, com a testa franzida e trajando nada além de cueca boxer azul. – Você disse que eu não tinha imaginação. – E por acaso não ter imaginação é pior do que a melhor amiga da sua família pensar que você é uma


exibicionista? – E não vamos falar sobre a outra coisa que você disse. Nunca. Sean invadira seu espaço pessoal, impedindo-a de se mover. Irritada, Emma tentou empurrá-lo para trás, mas ele a segurou pelos pulsos. Imóvel, com as palmas das mãos pressionadas contra a pele nua do seu peito, ela podia sentir o coração dele batendo no mesmo ritmo acelerado do seu e percebeu que lhe restavam duas opções. Afastar-se ou acabar na cama com ele. Suspirando, curvou-se para frente, espalmando as mãos no peito de Sean. – Sobre o que não podemos falar? Sobre o banheiro da lanchonete ou... – Não me provoque demais. Faz um longo tempo para mim. – Quanto tempo? – Muito tempo. – Ele afastou as mãos dela, mas não lhe soltou os pulsos. – E eu sequer cogitava me envolver com alguém, antes de você aparecer na minha porta com essa farsa idiota. – Mas, uma vez que nós... Você não tem que... – A última coisa de que preciso é ser pego mentindo sobre uma mulher com quem não estou de fato envolvido. – Ele olhou para a renda do sutiã branco que ela usava e suspirou. – Você está me matando.


– Ficar acordada no sofá todas as noites, imaginando como seria ir para cama com você, está me matando há duas semanas. – Sim. – Sean soltou-lhe os pulsos e correu as mãos pelas suas costas até lhe alcançar o pescoço e o cabelo. – Eu também pensei sobre isso. Muito. Na verdade, o tempo todo. – Somos dois adultos solteiros. Não há motivo para ficarmos sofrendo. Sean puxou-a lentamente para mais perto, as pontas dos dedos ainda lhe massageando a nuca, e Emma estava começando a perder a paciência com aquela conversa. Queria mais ação. Ele, pelo visto, não havia virado a página ainda. – Nada mudará. Logo, não quero que você tenha ideias erradas. No dia que levarmos Cat ao aeroporto, eu também partirei. Isto não é... real. – Os orgasmos serão reais, certo? – Muito reais. E numerosos. – Eu aceito. Com um gemido gutural, Sean segurou-lhe o rosto delicado com ambas as mãos e tomou posse dos seus lábios. Foi um beijo firme e exigente, do mesmo modo como a beijara no campo de futebol improvisado naquela tarde, mas agora não havia pressa. Sua língua


se enroscava à dela com sensualidade e uma das mãos lhe afagava os cabelos. Com a mão livre, Sean pressionou-lhe os quadris de encontro aos seus, e Emma sentiu a forte evidência, que deixou claro que ela errara, e muito, ao insinuar que ele não fora bem agraciado da cintura para baixo. Emma escorregou as mãos e acariciou-lhe o peito até os ombros, desceu pelas costas e o puxou mais para perto, porque não queria que ele parasse de beijá-la. Num gesto instintivo, estreitou os braços ao seu redor, abraçando-o mais forte, enquanto ele lhe afagava a parte posterior das coxas e a erguia do chão, de modo que ela pudesse enroscar as pernas ao redor de sua cintura. Um momento depois, Emma se encontrava na cama, coberta pelo corpo de Sean, e sua ereção aninhada entre as coxas. Excitada, arqueou os quadris, encorajando-o a prosseguir, mas ele não parecia ter muita pressa para um homem que afirmara estar sem sexo há bastante tempo. Em seguida, ele ergueu a cabeça e fitou-a nos olhos. – Antes de ir mais longe, só mais uma coisa. Ela gemeu. – Sério? – Basta uma piada sobre o instrumento mágico e eu irei embora, não me importo se tiver que despejar um


balde com cubos de gelo dentro da minha calça. Emma riu e levou as mãos às costas para abrir o fecho do sutiã. – Vou tentar me conter. Sean ajudou-a a retirar o sutiã e inclinou-se para lhe beijar os seios. Quando abocanhou um mamilo, sugouo com suavidade, até ela gemer e erguer os quadris, para encaixá-los aos dele. Após dedicar a mesma atenção ao outro seio, ele ergueu a cabeça para fitá-la. Estava um pouco ofegante, ambos estavam, e ele lhe sorriu timidamente. – Eu adoraria impressioná-la com minha resistência e imaginação, mas talvez seja melhor deixarmos isso para amanhã à noite. Emma enroscou-lhe as pernas com as suas. – Amanhã à noite? Você não está tendo ideia erradas, não é? – Estou tendo ideias sobre o que gostaria de fazer com você amanhã à noite. Agora, estou sentindo um pouco de... urgência, se entende o que quero dizer. – Entendo exatamente o que quer dizer. Emma escorregou a calcinha pelas coxas e Sean se moveu para o lado para ajudá-la a se livrar da peça, antes de alcançar a gaveta do criado-mudo e pegar um preservativo.


– Ei, você colocou preservativos na minha mesa de cabeceira? – Sou otimista por natureza. – Ele se levantou e baixou a cueca. E Emma se sentiu otimista, também. Quando ele a cobriu com o corpo de novo, ela envolveu-lhe os quadris com as pernas, impelindo-o para frente. Sean resistiu, baixando a cabeça para lhe dar outro beijo, antes de se posicionar no vão entre as suas coxas. Santo Deus, ele era tudo que ela imaginara que seria durante as noites agitadas das últimas duas semanas. Penetrou-a com investidas dolorosamente lentas até ela cravar as unhas na pele das suas costas e gemer, pedindo mais, com frases entrecortadas e incoerentes. Quando Sean enganchou o braço sob seu joelho direito e a penetrou mais fundo, ela ofegou e gemeu seu nome. – Shh... – sussurrou ele, e penetrou-a ainda mais. Não havia nenhuma maneira de ficar calada. Não quando queria gritar para fazê-lo possuí-la mais rápido e com mais força. Então se contorceu, e ele rapidamente captou a dica. No minuto seguinte, ela se viu de joelhos, apoiada nos antebraços e a cabeça enterrada no travesseiro dele. Os dedos de Sean apertavam-lhe os quadris, ao mesmo tempo em que ele a penetrava com mais


ímpeto, cada investida mais vigorosa do que a anterior. Ela gemeu de encontro ao travesseiro enquanto um poderoso orgasmo fazia o seu corpo estremecer. Sean gemeu, apertando-lhe ainda mais os quadris, e convulsionou, penetrando-a mais algumas vezes. Em seguida, desabou sobre ela, fazendo-a deitar-se sobre o colchão. Virando a cabeça para não sufocar no travesseiro, Emma respirou fundo e se deleitou com o calor daquele corpo pesado e trêmulo. Sean beijou-lhe a nuca e começou a se levantar, mas, em seguida, desabou novamente. – Só mais um minuto – murmurou, de encontro aos seus cabelos. – Humm... – Emma não tinha palavras ainda, mas se tivesse lhe diria que não queria que ele se movesse. Sentia-se feliz naquela posição. Sean se levantou um minuto depois para ir ao banheiro, e no caminho de volta pegou o travesseiro dela no sofá e jogou-o sobre a cama. – Saia. Você está no meu lado da cama. – A cama é minha – murmurou ela, já meio adormecida. – Você não tem um lado. – Saia. Emma saiu, mas apenas porque não queria estragar o brilho do momento com discussões. E, contanto que


ele se acomodasse no lado dele da sua cama e a abraçasse outra vez, ela realmente não se importaria. – Isso foi incrível – murmurou Sean. – Mágico. Emma deu um gritinho quando Sean lhe deu um tapa nas nádegas, mas ele estava rindo quando a envolveu nos braços e esfregou o rosto em seu cabelo. Ela ainda estava sorrindo quando adormeceu. SEAN DESPERTOU ao som de um telefone tocando. Por alguns segundos, ficou confuso, porque era domingo e o alarme de Emma não deveria disparar. Então, percebeu que era o seu próprio telefone celular que estava tocando, na mesa de cabeceira. Ao mesmo tempo, também percebeu que Emma se virara de frente para ele durante a noite, os cobertores haviam deslizado para baixo, e, droga, seus seios eram lindos. Mas ela se mexeu, provavelmente porque o telefone estava tocando, e ele parou de olhar e atendeu à chamada. – O quê? – Eu diria “espero não o ter acordado”, mas acho que o acordei. – Era Mitch, e não soava tão pesaroso. – São 7h de um domingo, imbecil. Claro que me acordou.


E também havia acordado Emma. Sean suspirou decepcionado quando ela deslizou para fora da cama, pegou a roupa e entrou no banheiro. Não era o modo como ele imaginara acordar, quando adormecera na noite anterior. – Preciso de um favor. Estou com problemas com o carro – disse Mitch. – Ligue para o reboque. – Você é meu irmão. Sean colocou os pés no chão e esfregou o rosto. – O que aconteceu? – A bateria do carro alugado morreu e eles só poderão consertá-lo na parte da tarde. E a April não tem carro. – April. Oh, espere... é o nome da loura? – Sim. Preciso que venha me pegar e me levar até o aeroporto. – Chame um táxi. – Eu tentei. Mas não estamos em Boston, cara. O táxi mais rápido que eu conseguiria para me levar a Manchester chegaria aqui dez minutos depois do horário que devo estar em Manchester. Só preciso de uma carona. A empresa de carros de aluguel virá buscar a lata-velha deles. – Tudo bem. Como faço para chegar à casa de April?


Quando ele terminou de anotar o endereço em uma folha de papel e prometer ao irmão que logo estaria a caminho, Emma estava saindo do quarto, deixando um rasto perfumado de sabonete floral para trás. Ele pensou em chamá-la de volta, mas não fazia a menor ideia do que dizer, então entrou no banheiro para ver se ela lhe deixara um pouco de água quente. Antes de descer, pegou a caneta e colou uma nota adesiva no espelho. A propósito, ESSA era a minha posição sexual favorita. Ele quase acrescentou uma carinha feliz, mas decidiu, a tempo, que seria ridículo. Era uma ladeira escorregadia que não levava a lugar algum, além de o fazer parecer um idiota meloso. Quando entrou na cozinha e encontrou um prato de ovos mexidos e bacon em frente ao seu assento, olhou para o relógio e decidiu que Mitch poderia esperar mais alguns minutos. Emma se encontrava mergulhada em uma enxurrada de atividades, que pareciam exigir sua total atenção. Passou manteiga nas torradas, empurrou a jarra de suco e despendeu alguns minutos limpando um derramamento de café invisível, pelo que ele podia ver. Talvez fosse o fato de sua avó estar na cozinha, mas parecia um pouco envergonhada por ter feito sexo com ele na noite anterior.


Sexo maravilhoso. Sexo do qual ele não se envergonhava e esperava repetir assim que a noite chegasse. Apenas seria uma versão prolongada dessa vez. Poderia acrescentar todas as partes do seu desempenho que precisara cortar para ajustar ao intervalo de tempo que seu desejo sexual há muito negligenciado lhe concedeu. Por ora, teria que lidar com Mitch. Após devorar o café da manhã, lavou o prato e deu um beijo na bochecha de Cat. – Detesto comer e partir, mas meu irmão precisa de uma carona até o aeroporto. Quando foi dar um beijo de despedida em Emma, como sempre fazia, porque era o que um noivo faria, meio que esperou que ela se afastasse. Em vez disso, quando suas bocas se tocaram, ela passou a língua sobre seu lábio inferior e fitou-o com um olhar que prometia dar asas à imaginação mais tarde. Sean não teve dificuldade para achar a casa de April e permaneceu sentado na caminhonete, enquanto Mitch se despedia da loura com um beijo na porta da frente. A seguir, beijou-a mais uma vez tão intensa e demoradamente que Sean, por fim, tocou a buzina para acabar com a festa. A mulher estava sorrindo e acenou até os dois desaparecerem de vista. Sean sacudiu a cabeça. Ela não


apenas não voltaria a ver Mitch Kowalski, como também parecia ter ciência disso. O irmão mais velho tinha uma incrível capacidade de amar e abandonar as mulheres sem deixá-las zangadas com ele. Não demorou muito para o bom humor de Mitch começar a irritá-lo. – Se continuar a assobiar, terá que ir a pé. – Ei, não tenho culpa se você ficou com uma mulher que só está fingindo gostar de você. Os dedos de Sean apertaram o volante. Era tentador dizer a Mitch que Emma não fingira a noite anterior, mas manteve a boca fechada até a vontade passar. Havia dinheiro envolvido. Se contasse a Mitch, ele contaria a Ryan e Josh antes mesmo de entrar no avião, para que pudessem decidir quem havia ganhado a aposta. Mas esse não era o problema. Apostas sempre existiram entre ele e os irmãos. Às vezes ele ganhava e outras, perdia. O grande problema era a possibilidade, não, a probabilidade, de Mitch também contar a um dos primos, que contaria aos outros primos, que então contariam aos respectivos cônjuges e seria apenas uma questão de tempo, antes de a notícia chegar aos ouvidos de tia Mary. E, se tia Mary metesse na cabeça que ele e Emma estavam se tornando um verdadeiro casal,


saltaria sobre ele em um segundo, pressionando-o a se casar. Era melhor manter a boca fechada, porque nĂŁo importava o quanto Emma havia sacudido seu mundo na noite anterior, casar era a Ăşltima coisa que tinha em mente.


CAPÍTULO 13

ASSIM QUE Emma e Sean saíram em carros separados, Cat fez uma dança da vitória na cozinha. Emma havia recebido o telefonema de um cliente irritado, cujo jardim novo fora devastado por alguma criatura noturna, menos de cinco minutos após Sean sair. Era óbvio que os dois haviam feito sexo; estava estampado em seus rostos. Mal haviam trocado duas palavras um com o outro e procuraram evitar contato visual a todo o custo, mas não estavam brigados. A raiva não era o motivo da vibração que inundava a cozinha de tensão. Não, era o constrangimento da manhã seguinte, e ela não podia estar mais feliz com isso. Quando terminou de arrumar a cozinha, o horário já lhe permitia ligar para Mary. Cat fez um pouco de chá e levou-o para a sala para se sentir mais confortável.


– Você estava certa sobre Mitch fazer a diferença – disse, após os cumprimentos iniciais. – Sean não gostou de vê-lo tocá-la. Posso jurar que aquele beijo quase deixou a grama sob os pés deles em brasa. – Advinha quem não dormiu no sofá a noite passada? – E aí a coisa se complica – disse Mary, e as duas riram. – Por falar em coisas complicadas, eu disse a Emma que quero lhe dar a casa como presente de casamento, e tive a impressão de que ela ia vomitar no meu colo. – Isso é interessante. Cat tomou um gole de chá. – Acho que, além de se preocupar comigo, ela também tinha medo de que eu vendesse a casa. – Então, fingir um relacionamento com Sean deixaria você mais descansada e também a faria parar de dizer que a casa era grande demais para uma mulher sozinha. – Exatamente. – O que ela disse? – Insistiu que queria comprá-la de mim, que não a queria de presente. Eu conheço minha neta. Não creio que ela aceite a casa como presente sob falsos pretextos.


– Tomara que você esteja certa. O que vai fazer? Cat suspirou. – Vou esquecer o assunto, por ora. Se eu pressionar, ela pode optar por me dizer a verdade. Uma vez que eles só agora... descobriram um ao outro, por assim dizer, prefiro deixar as coisas como estão, um pouco mais. – Bem pensado. – Mary baixou a voz um pouco. – Falando de descobrir um ao outro, o que está acontecendo entre você e Russell Walker? – Somos amigos. – Mary apenas riu. – Certo, amigos pode não ser a palavra certa. – E qual seria a palavra certa? – Não sei. É tão bobo. Quando estou longe dele, digo a mim mesma que estou velha demais para flertar com um homem. Mas, quando estou com ele, não me sinto tão velha assim. – Ele parece encantado por você. Qualquer um pode notar. – Encantado… – Cat riu. – Gosto dessa palavra. Mas voltarei para a Flórida em menos de duas semanas, e a vida dele é aqui. – Você disse que ele estava vendendo a loja. – Sim, mas ainda é uma parte da comunidade e sua filha vive aqui.


– Assim como a sua neta também vive aqui? – Ela ouviu o som de aborrecimento de Mary claramente do outro lado da linha. – Isso não é um obstáculo. – Talvez não, mas também estou feliz com a minha rotina. Ele é charmoso, uma excelente companhia, mas não tenho certeza se quero passar o resto dos meus anos cuidando das meias de outro homem. Faz um longo tempo que não preciso mais fazer isso. – Eu cuido das meias do Leo. Leo massageia os meus pés. É o suficiente para mim. Cat bebeu um pouco mais de chá e suspirou, desejando saber se Russell massagearia os seus pés. – É ridículo. – Aposto que é o que Sean e Emma disseram também. – E a conversa voltou aos jovens, o que agradava mais a Cat. Ela ainda não sabia o que de fato sentia por Russell; logo, não queria falar sobre o assunto. Talvez fosse paixão. Ambos estavam sozinhos há muito tempo. Mas não significava que qualquer um dos dois quisesse fazer as malas e começar uma nova vida juntos. Era um passo importante, e ela não tinha certeza se dispunha de energia ou de desejo para tal, naquela altura da vida. Era muito mais fácil interferir nas vidas de Sean e Emma do que se afligir com a sua.


APÓS DEIXAR o irmão no aeroporto, Sean não tinha nada a fazer além de matar o tempo, até a hora de levar Emma de volta para a sua cama. Ou para a cama dela, na verdade. Ele experimentou dizer cama deles, mas sua mente se esquivou rapidamente. Fazia soar como se fossem um casal de verdade. Contanto que Emma estivesse nua sobre o colchão, não importava de quem fosse a cama. Fora afobado na noite anterior e, embora não tivesse que lhe provar nada, tinha a intenção de se demorar um pouco mais com ela naquela noite. Isso se a noite chegasse. A única vez que vira o relógio se mover tão devagar fora durante seu voo de volta aos Estados Unidos. A picape de Emma não se encontrava na garagem quando Sean chegou e, em um primeiro momento, ele pensou que a casa estivesse vazia. Mas então ouviu risos e olhou para fora da janela do carro para encontrar Cat no balanço do quintal, com o telefone sem fio pressionado ao ouvido. Como não queria interromper a conversa, para lhe perguntar aonde Emma fora, pegou um livro e se esticou no sofá para ler. Devia ter cochilado, porque de repente se deu conta de que o sol mudara de posição e ouviu a voz de Emma vindo da direção da cozinha. Espreguiçou-se e sentouse para pousar o livro na mesa de centro. Não era um


modo ruim de matar o tempo. Após subir para ir ao banheiro e escovar os dentes, foi procurar as mulheres. Elas estavam no quintal, mas haviam deixado as janelas e a porta dos fundos abertas para a brisa leve entrar, de modo que podia ouvi-las com clareza quando abriu a geladeira para pegar uma cerveja. – Então, Lisa como sua madrinha e Stephanie como dama de honra – Cat estava dizendo. – Você sabe quem Sean quer como padrinho? – Não. Não conversamos sobre esse assunto ainda. – Sean não ouviu qualquer tensão na voz de Emma, mas achou que ela devia estar tensa. Planejar um casamento que não ia acontecer era, no mínimo, estranho. – Talvez ele pudesse pedir ao filho mais velho de Mike... Joey, não é? Para ser pajem, assim ele poderia acompanhar Stephanie. – Não sei – disse Emma. – Não acho justo pedir a um dos meninos, e aos outros não. – É verdade. Talvez eles possam ser paraninfos e depois se unir aos pais quando todos estiverem sentados. Sean havia acabado de decidir bater em retirada rapidamente de volta à sala de estar, quando ouviu o som de uma cadeira raspando no piso. – Podemos falar sobre isso mais tarde, vó. Agora devo ir acordar Sean para que ele não esteja sonolento


quando lhe pedirmos para acender a churrasqueira. Não houve tempo para escapar, então ele se recostou à bancada e destampou a cerveja. Emma fez uma pausa quando o viu e, em seguida, agarrou-o pela mão e o arrastou pelo corredor até a sala de estar. – Onde você estava? – perguntou ele. – O quê? Oh, atendendo a emergência de um cliente. Mas... – Paisagismo tem emergências? Emma exalou um suspiro exasperado. – Sim. Quando você é rico, tudo é uma emergência. Mas você ouviu o que minha avó estava dizendo? – Sim. Por que diabos os homens precisam escolher um padrinho? Eu tenho três irmãos e gosto de todos eles. E o que dizer de Mikey? Ou Kevin? Ou Joe? Parece mais fácil arrumar um estranho na rua, assim não precisamos escolher um favorito. Acho que talvez eu pediria a Mitch. Ele é o mais velho, logo tudo que aprendemos sobre a arte de conquistar uma mulher foi com ele. – Caso tenha esquecido, ainda não conquistou uma mulher de fato. E, na verdade, não importa quem você escolheria, porque não há casamento algum. Emma parecia prestes a explodir, então ele não ousou rir dela. Suas bochechas brilhavam e ela continuava a girar o anel ao redor do dedo. Como não


havia nada que pudesse dizer para fazê-la se sentir melhor sobre Cat querer planejar seu falso casamento, ele envolveu-lhe a cintura com a mão que não segurava a cerveja, puxando-a para mais perto. – Você se preocupa demais. – E você... Sean beijou-a para fazê-la se calar. E porque tudo em que conseguia pensar desde a última vez que pusera as mãos nela era pôr as mãos nela outra vez. E, acima de tudo, porque gostava de beijá-la. Muito. Talvez demais, se pensasse bem. Então, resolveu não pensar. Em vez disso, se perdeu no gosto daquela boca macia e na forma como Emma deslizava as mãos pelas suas costas, atraindo-o para si. – Oh! – Cat disse atrás deles. – Eu não queria interromper. – Não – disse Emma. – Nós estávamos apenas... conversando. – Estou vendo. Como levaria pelo menos alguns minutos até ele poder se virar de frente para alguém, quanto mais para Cat, Sean se esgueirou, passando por Emma, e pegou o controle remoto da televisão. – Vou dar uma olhada no boletim meteorológico para amanhã e depois acender a churrasqueira.


Por sorte, a noite transcorreu sem mais conversas sobre damas de honra e padrinhos de casamento graças a Emma e Sean, que desviaram o foco da conversa para a Flórida, programas de televisão e qualquer outro assunto de que podiam se lembrar, que não envolvesse casamentos. Mas, se ele achou que os minutos se arrastaram durante o dia, as horas intermináveis entre o jantar e subir para dormir foram insuportáveis. Por fim, chegou a hora de ele se deitar nu entre os lençóis e esperar Emma sair do banheiro. Não se importava que ela estivesse nua ou não. Levaria apenas alguns segundos para despi-la. Quando ela finalmente saiu, usando sua roupa habitual de dormir, Sean sorriu e ergueu as cobertas para ela. Emma arqueou uma sobrancelha e foi desligar a luz. – Quanta arrogância, não acha? Está pensando que vou dormir com você de novo? – Na noite passada, foi tudo um pouco rápido demais. Acho que podemos fazer melhor. No momento em que Emma chegou à cama, estava nua, deixando um rastro de roupas para trás. – Está dizendo que pode fazer melhor? Porque estabeleceu um nível bem elevado, sabia? Sean não perdeu mais tempo com palavras. Assim que ela se deitou na cama, rolou para o lado e seguroulhe o rosto entre as mãos. Os olhos de Emma eram


duas piscinas negras onde ele queria se afogar. Olhou para a boca carnuda. Ela estava mordendo o lábio inferior com os dentes e ele beijou-a para fazê-la parar. E continuou a beijá-la, porque nem mesmo a promessa de inebriantes sensações que estavam por vir o excitava mais do que aquela boca. – Você é muito bom nisso – disse ela, um pouco ofegante quando ele interrompeu o beijo um pouco relutante. – Eu sou muito bom em muitas coisas. – Oh, verdade? E pode provar? Quando ele assentiu, Emma esticou o corpo como um gato, oferecendo-se a ele. – Não tenha pressa. Mesmo com o sangue praticamente fervendo, ele passou a língua sobre o lábio dela e sorriu. – É o que pretendo. Sean explorou cada polegada do corpo de Emma lentamente ao mesmo tempo que descobria onde e como tocá-la para deixá-la louca de desejo. Continuou tocando-a, com as mãos e a boca, até fazê-la ofegar e se contorcer sob ele. Em seguida, introduziu um dedo em seu calor úmido e esfregou o clitóris com o polegar até ela arquear os quadris e bater-lhe nos ombros com os punhos, porque não podia gritar. E então ele fez tudo outra vez.


Sean perdeu a noção do tempo. Perdeu a noção de tudo, exceto de Emma e o modo como desejava fazê-la se sentir, até ela o agarrar pelos cabelos e puxá-lo para cima do seu corpo. – Provou tudo o que estava tentando provar – disse ela, em meio a suspiros arfantes. – Eu o quero dentro de mim. Agora. Com movimentos ágeis, Sean colocou um preservativo e posicionou-se entre suas pernas. Emma ergueu a cabeça, beijando-o com avidez, enquanto ele a penetrava, e depois deixou cair a cabeça sobre o travesseiro. Ele fitou-a nos olhos, permitindo-se ser engolido por eles, enquanto acelerava o ritmo das investidas. Ambos haviam chegado longe demais para se ater a sutilezas, e não demorou muito para o prazer o atingir e o mundo sair do seu eixo, enquanto Emma mordia as juntas dos dedos, tentando não gritar quando um poderoso clímax tomou conta do seu corpo. Oh, sim, aquilo era melhor. Quando, por fim, recuperaram o fôlego, Sean se livrou do preservativo e, em seguida, puxou as cobertas sobre os dois. Tentou excitá-la um pouco mais, mas Emma estava mole como espaguete passado do ponto. E, quando ele tentou fazêla se mover, ela murmurou algo incompreensível e


afundou a cabeça no travesseiro. Aninhando-se ao corpo dela, Sean sorriu e fechou os olhos. Talvez na noite do dia seguinte conseguisse fazê-la repetir a dose. – ACHA QUE, se olhar para aquelas árvores tempo suficiente, elas vão murchar e desaparecer? Emma se esforçou para focar sua atenção em Sean e longe do problema em questão. – O quê? – Está olhando para aquele local há meia hora. Emma estava sentada na escada dos fundos da casa de veraneio olhando para uma determinada parte da propriedade, onde fora chamada para fazer um orçamento. – Não estou olhando para as árvores. O problema são as raízes expostas e a drenagem total. Sean se encostou a uma árvore, com uma das mãos segurando um refrigerante e a outra enfiada no bolso. – E olhar ajuda? – Sim. – Ela se levantou e sacudiu a poeira da calça jeans. – Está vendo aquele local onde as folhas mortas estão espessas e em decomposição? Significa que a água empoça lá durante o degelo de inverno e as chuvas de primavera. A drenagem está sendo prejudicada, em parte por causa dessas raízes expostas de árvores, e a


água parada é um problema que preciso sanar antes de começar o projeto de paisagismo. – O proprietário da casa quer sombra ou você pode derrubar aquelas árvores? Emma meneou a cabeça e pegou o telefone no bolso. Já havia tirado uma dúzia de fotos da propriedade, mas tirou mais algumas a partir daquele ângulo. – Não podemos derrubar as árvores. Este litoral é mais regulamentado do que os resíduos nucleares. – Nem mesmo as raízes? – Elevado fator de erosão. Terei que trabalhar em torno delas. – Não havia mais nada que pudesse fazer no local. Tinha as fotos e as medidas para colocar em seu software, para passar várias horas no computador, gerando impressões e estimativas para o dono da casa considerar. – Terminamos aqui. – Certo, chefe – disse ele, dando-lhe uma piscada, enquanto se afastava da árvore. – Ah, com certeza. Agora eu sou a chefe. Como é que nunca sou a chefe quando quero dirigir minha picape? Sean não respondeu, mas ela pôde ver um sorriso brincando em seus lábios, quando ele desapareceu em uma das esquinas da casa. Após colocar o telefone e o bloco de anotações de volta nos bolsos, Emma o seguiu


e não ficou surpresa ao encontrá-lo já sentado no assento do motorista. – Para onde vamos agora? – perguntou ele, assim que ela afivelou o cinto de segurança. – Vire à direita e depois à esquerda quando alcançarmos a estrada principal. Os Johnson têm alguns galhos de árvores na propriedade que precisam ser aparados e me pediram para dar uma olhada. Não querem pagar um serviço de poda de árvore sem necessidade. – Eu pensei que seus clientes não se importassem em gastar. – Se tiverem dinheiro para tal. Os Johnson foram um dos meus primeiros clientes. Os filhos estão criados e eles resolveram se mudar para uma casa menor. A sra. Johnson não queria deixar suas peônias para trás, então eu as transplantei para ela. Mas eles não são ricos. – Podemos cuidar desses galhos. – Emma lançou-lhe um olhar duvidoso, mas ele estava falando sério. – Cresci em uma hospedaria no meio da floresta. Aparei muitas árvores na juventude. Ao alcançarem a estrada principal, ela apontou para a esquerda ao mesmo tempo em que ele ligava o piscaalerta. – Por que veio para Nova Hampshire quando deixou o Exército, em vez de ir para casa?


– Queria ver o tio Leo e a tia Mary. Sair com meus primos. Passados alguns momentos, Emma percebeu que Sean não ia dizer mais nada. E isso a fez pensar que a maioria do que sabia sobre ele fora dito por Lisa, antes de sequer conhecê-lo. – Como foi crescer em uma hospedaria para praticantes de motoneve? – Foi... bom. A Northern Star’s é imensa e conta com uma boa extensão de terras; havia espaço de sobras para corrermos. Nossos quartos eram separados dos quartos dos hóspedes, e tínhamos a nossa própria sala de estar e banheiro. Mas é esquisito ter estranhos em sua casa todos os fins de semana, e eu nunca me acostumei com isso. – Então você não quer voltar para lá? Sean virou a cabeça para fitá-la, uma expressão ilegível no rosto. – Na verdade, não. – Entre na próxima à esquerda – disse ela, após alguns minutos de silêncio. – Depois que minha avó partir, você vai voltar para o apartamento em cima do Jasper? Sean ficou calado por alguns segundos, mas estava tamborilando os dedos no volante. – Não sei.


– Certo. – Ela o orientou por mais algumas voltas. – É a última casa à direita. A casa bege, com persianas grená. Sean se dirigiu à entrada para carros e desligou o motor, mas não fez nenhum movimento para deixar o veículo. – Por que tantas perguntas? Fizemos sexo e, de repente, você fica interessada em minha infância? Atordoada demais para responder, Emma o encarou por um minuto. Em seguida, riu. – Você é tão paranoico. Isso se chama entabular conversa. – Então não está começando a ter ideias erradas agora que estamos dormindo juntos? Ainda rindo, ela abriu a porta e desceu da caminhonete. – Não, não estou começando a ter nenhuma ideia errada sobre nós dois. Mas Emma teve algumas ideias uma hora mais tarde, quando Sean estava suado, sexy e no comando. Ideias sobre ele ficar suado com ela. Ideias sobre ele nu e ensaboado no chuveiro. Ainda teve algumas ideias sobre como encontrar um lugar isolado para estacionar a picape e não esperarem até chegar em casa. Após dar uma boa olhada nos galhos das árvores dos Johnson, Sean pegara uma corda e a serra na caixa de


ferramentas na parte traseira da caminhonete e colocou a mão na massa. Estava na metade do trabalho agora e, até então, ela não precisara fazer nada, além de puxar alguns galhos pequenos com a corda, para afastá-los da casa, depois que ele os amarrou. Uma vez cortado o galho maior, Sean fez um rápido trabalho de aparar os menores, antes de cortá-los em pedaços de madeira que Emma, juntamente com os donos da casa, amontoaram em um dos lados da propriedade. Levaria algum tempo até poderem ser usados no fogão a lenha, mas o sr. Johnson iria empilhá-los e deixá-los secar. Normalmente, ela não permitia que os clientes a ajudassem, mas isso a fazia se sentir melhor sobre o fato de que lhes cobraria uma ninharia pelo serviço. Passado algum tempo, a senhora Johnson trouxe limonada para Emma e Sean, e se afastou para falar com o marido por alguns minutos. – Eu não agi certo antes – disse Sean, quando ficaram sozinhos. – Antes quando? Quando não me deixou dirigir? Quando colou um bilhete no espelho do banheiro, me pedindo para nunca mais fazer salada de macarrão? – Antes, quando achei que você estava nutrindo sentimentos tolos a meu respeito, apenas porque perguntou sobre a minha infância.


Emma tomou um gole de limonada. – Não sei que tipo de mulheres você namorou, mas eu não ouço sinos de casamento durante o sexo. – Acho que namorei algumas mulheres que ouviam. Só queria ter certeza de que você não está confundido as coisas. – Ele esvaziou o copo, então puxou a bainha da camiseta para cima e enxugou o suor do rosto, expondo o abdome que ela amava acariciar. E, claro, ele a pegou olhando. – Falando em sexo, talvez você... O pensamento foi interrompido pelo reaparecimento da sra. Johnson, e Sean deu a Emma um sorriso maroto. – Mais tarde eu lhe digo. Ela aguardaria ansiosa.


CAPÍTULO 14

NA QUARTA-FEIRA, os dois trabalharam apenas metade do dia, o que deixou Sean livre para fazer uma visita aos tios, enquanto Emma colocava a documentação em dia. Ao retornar, ele não viu a picape dela na garagem, mas podia ouvir música, então sabia que alguém estava em casa. Encontrou-a na cozinha e quase se virou para ir a qualquer outro lugar. Emma havia afastado a geladeira da parede e limpava o rodapé com uma escova de dentes. Embora a visão daquelas nádegas fosse encantadora, uma vez que ela se encontrava apoiada nos joelhos e nas palmas das mãos, não era um bom sinal para seu estado de espírito. Mas, quando ele se aproximou e viu que as serpentinas na parte traseira da geladeira não apenas haviam sido aspiradas, mas reluziam de tão limpas, ficou um pouco preocupado. Uma pessoa cujas


serpentinas da geladeira precisavam passar por uma inspeção militar só podia ser perturbada. – Você está bem? – perguntou ele. Ela não parou de esfregar. – Claro. – Mentirosa. – Que seja. – Emma, pare por um segundo. Para sua surpresa, ela o ouviu. Depois de jogar a escova de dentes em um balde, sentou-se sobre os calcanhares e virou a cabeça para encará-lo. – O que foi? – Onde está Cat? – Ela disse que precisava fazer algumas compras, então pegou minha caminhonete e foi à cidade. Provavelmente, escapando para ir ver Russell. Pista número um. – Ela tem 65 anos de idade. Duvido que precise escapar se quiser se encontrar com algum homem. A mandíbula de Emma enrijeceu. – Então por que ela não me disse que estava indo vêlo? – Talvez não tenha ido. Talvez tenha de fato ido fazer compras. – Quando Emma revirou os olhos, Sean precisou morder o interior da bochecha para não rir. –


Por que não me deixa colocar a geladeira de volta no lugar e saímos para almoçar? – Por quê? – Porque você faz faxina quando está chateada, e pegar uma escova de dentes para limpar a parte traseira da geladeira significa que está no limite. Vou levá-la até Concord para um hambúrguer no Jasper. Eles são capazes de curar qualquer mal. Emma riu, mas era um riso amargo. – Sim, porque preciso de mais alguns Kowalski no meu dia. – Ei, seja o que for, eu não tenho culpa. – Não estou de um bom humor hoje. Sean sorriu e girou nos calcanhares. – Deve ser por causa do meu instrumento mágico, certo? Quatro noites com ele é demais para você? – Ha-ha. Não fique se achando, Kowalski. Eu só fiz sexo com você para poder dormir na minha cama novamente. A cor renovada em suas bochechas deixou claro que ela estava mentindo. – Então, se eu me oferecesse para fazer sexo aqui mesmo, no chão da cozinha, você diria não? – Eu teria que dizer não, apenas para provar o meu ponto agora. – Droga!


Emma suspirou e se levantou. – Quer saber de uma coisa? Um hambúrguer no Jasper soa muito bem, na verdade. Parece que faz uma eternidade desde que comi um. Depois que ela limpou o rodapé e pegou o balde, Sean empurrou a geladeira de volta para o lugar e, em seguida, foi esperá-la na caminhonete. Durante o trajeto, Emma pareceu distante, olhando para fora da janela e suspirando muito. Imaginando que ela se sentiria melhor depois de um hambúrguer e uma cerveja, ele resolveu respeitar o seu silêncio. O bar de Kevin estava tranquilo, e o primo não se encontrava à vista, para o seu alívio. Não estava disposto a aturar gozações por ter levado sua noiva falsa para almoçar, embora só tivesse pensado nisso depois de ter sugerido os hambúrgueres do Jasper. Paulie, a ruiva grandalhona, se encontrava atrás do balcão, mas além de um aceno casual, não mostrou muito interesse neles. Sean encontrou uma mesa em um canto pouco iluminado nos fundos, e pediu cervejas e hambúrgueres para os dois. Assim que a garçonete colocou os copos sobre a mesa e foi providenciar o pedido, Emma pareceu relaxar um pouco, mas ainda tinha a boca contraída e batia com a ponta da sapatilha contra a perna da mesa.


– Então, está chateada com o que hoje? – perguntou ele, quando se cansou do silêncio dela. – Com nada. – Está com medo que Cat se apaixone loucamente por Russell Walker e queira sua casa de volta? Pela forma como ela jogou a cabeça para trás e o fitou, Sean temeu por um segundo que os outros clientes pensassem que ele a havia esbofeteado. – Você é um idiota. Ele deu de ombros. – Já fui chamado de coisa pior. – Não duvido. – Se me dissesse o que a está incomodando hoje, eu não teria que fazer suposições. Por um segundo, Sean teve a impressão de que ela ia lhe dar uma resposta malcriada, mas, em seguida, Emma relaxou na cadeira e suspirou. – Quero que minha avó seja feliz. Quero isso mais do que qualquer outra coisa. Mas vê-la com o sr. Walker foi... estranho. Sempre senti muita falta do vovô. E vê-la com outra pessoa, acho que me atingiu profundamente. As lágrimas brilhavam em seus olhos, e Sean estendeu o braço sobre a mesa para cobrir-lhe a mão com a sua. – Eu acho bastante normal, Emma.


– E eles se conhecem há séculos. Só porque assistiram à queima de fogos juntos não significa que vão fugir para se casar. Eles são amigos. – Já perguntou a ela? – Não. – Pois deveria. Emma suspirou e Sean percebeu que havia algo mais. – Na festa de Quatro de Julho, ela disse que queria me dar a casa como presente de casamento. – Não é o que você quer? – Não – retrucou ela, afastando a mão. – Quero que ela me venda a casa. Eu lhe disse isso. – Certo. – Sean levou alguns segundos pensando sobre o que dizer em seguida. Segundo sua experiência, falar com uma mulher com aquele tipo de humor era o mesmo que se sentar em um barril de pólvora para fumar um cigarro. Era apenas uma questão de tempo até seu traseiro explodir. – Você disse isso a ela? – Claro que sim. Mas ela alegou que não faz sentido algum hipotecar a casa outra vez, quando foi quitada há tanto tempo, e que não precisava do dinheiro. Sean pensou em lhe perguntar qual era o problema, então, porque ganhar uma casa de presente não aborreceria a maioria das pessoas. Mas ele já sabia. Se


em algum momento ao longo dos últimos anos Cat lhe tivesse oferecido a casa, ela com certeza teria aceitado. Mas o fato de lhe ser oferecida como presente de um casamento que não se realizaria estava fazendo Emma perder o sono. – Não pode vinculá-la à sua empresa de alguma forma? Você tem equipamentos, materiais e seu escritório lá. Talvez dizer a Cat que o banco pensa que você deve construir uma linha de crédito, pegando um empréstimo para te um local de negócios ou algo do gênero? – Ele não sabia nada a respeito daquele assunto. Emma negou com a cabeça. – Talvez, se eu estivesse adquirindo uma creche ou algo assim, mas isso é muito especulativo. Aquilo o deixou sem ideias. – Você tem mais duas semanas. Talvez possa convencê-la a lhe vender a casa. – E como é que vou convencê-la de que assumir uma dívida de mais de duzentos mil dólares faz mais sentido do que aceitar como presente a casa que tem sido mais ou menos minha há quase dois anos? – Eu... não sei. – Ele viu a garçonete se aproximar com dois pratos. – Aí vêm nossos hambúrgueres. Isso vai ajudar.


– Os Jasper-burgers são bons, mas nem eles podem me ajudar a sair dessa. Ele sorriu. – Não, mas vão ajudá-la a se sentir melhor mesmo estando nessa. OS JASPER-BURGERS eram melhores do que sexo, pensou Emma ao dar a primeira mordida, que fez suas papilas gustativas vibrarem de felicidade. Tinha sempre o mesmo pensamento toda vez que comia no Jasper, mas nos últimos tempos não havia feito sexo o suficiente para fazer uma comparação justa. Tecnicamente, nada era melhor do que sexo com Sean, mas o hambúrguer estava no topo no momento, porque não era complicado. Tinha um sabor incrível e não prejudicava a sua vida, a não ser precisar fazer uma promessa estúpida a si mesma de comer mais saladas para compensar o fato de saboreá-lo. O sexo com Sean estava prejudicando a sua vida. Como prometido, os orgasmos eram reais e bastante numerosos, mas deveria ter lido nas entrelinhas. Ao aceitar os orgasmos, ela também concordara em aceitar um nível de intensa intimidade que, por certo, nenhum dos dois esperava. Com o sexo alucinante vieram os toques suaves. O modo como seu olhar se tornava cativo do dele. O


modo como ele a elogiava na cama e como nunca queria parar. E era aí que residia o problema: ela também não queria que ele parasse. – Você está pensando sobre o meu instrumento mágico de novo, não é? Emma quase se engasgou com uma batata frita. – Não, não estou. E pare de dizer isso. – Foi você quem começou. – Ele se inclinou sobre a mesa. – E, sim, você estava pensando. Posso ver o rubor na base do seu pescoço e o jeito como está me olhando. Está excitada aqui no bar. Eu estava certo sobre você. – Eu não sou uma exibicionista. – Oh, droga! – Ela seguiu seu olhar e viu que Kevin e Beth haviam acabado de entrar e Kevin caminhava na direção deles. – Fique calma. – Fique calma? – Emma riu. – Estamos almoçando, não planejando um assalto a banco. – Eu queria dizer... Esqueça. – Você não quer que seus primos saibam que estamos fazendo sexo – disse ela, sem rodeios. – Isso complicaria as coisas. Sean tinha esse direito. Emma foi salva de mais comentários por Kevin e Beth, que se aproximavam da mesa. Kevin trazia Lily nos braços, mas era óbvio que a


criança queria ir para o chão, e ambos pareciam travar uma batalha com o bebê. – Olá – disse Beth, dando a Emma um sorriso caloroso. – Não conseguiram resistir ao apelo dos hambúrgueres do Jasper? Eu comi tantos desses quando estava grávida que Kevin apostou que a primeira palavra que Lily falaria seria muu. Felizmente, ele estava errado. – Foi papa – informou Kevin, em um sussurro afetado que fez Beth revirar os olhos. – Eu ia ligar para vocês mais tarde. Eu, Joe, Evan e Terry faremos um passeio de quadriciclo no sábado. Vocês querem ir? – Claro que sim – disse Sean, mas então pareceu se lembrar de que Emma estava sentada do outro lado da mesa. – Talvez. Se eu puder. – Primeiro devo perguntar à minha avó se ela não se importa. Eu adoraria ir se Lisa me deixar pilotar o quadriciclo dela novamente. Não dirijo um desde o verão passado. – Estamos contando com vocês. – Lily estava se contorcendo como um peixe fora da água e Kevin, perdendo a batalha. – Ela quer ir ver a tia Paulie. Ligueme para dar uma resposta. Na quinta-feira à noite seria perfeito, para podermos saber ao certo quantos quadriciclos teremos que levar.


Depois que os dois se afastaram, Emma voltou a se dedicar ao Jasper-burger com gosto. Certa vez, pedira a Lisa para descobrir o mix de temperos utilizados na receita dos hambúrgueres, mas Kevin não revelou. Além do mais, como Lisa sabiamente observara, de que lhe adiantava ter a receita se ela não cozinhava nada? – Então, sobre o que eu estava falando antes – disse Sean, após devorar sua comida –, sobre não querer que eles saibam que estamos fazendo sexo. Não é que eu esteja escondendo, eu apenas... – Não quer que eles saibam. – Sim. – Faz sentido. O rosto de Sean se iluminou. – Sério? – Não. – Droga! – Ele terminou a cerveja e tomou um gole da água que Emma também havia pedido junto com a refeição. – Em circunstâncias normais, eu gostaria que todos soubessem que estamos dormindo juntos. Acredite em mim. Colocaria um cartaz na frente do meu gramado. – Mas estas não são circunstâncias normais. – Nem de longe. Apostei com meus irmãos que aguentaria o mês todo e não quero ouvi-los tripudiar. – Claro que ele tinha feito uma aposta com os irmãos.


Era típico dos homens. – Mas é mais por causa das mulheres. – As mulheres? – Da minha família, quero dizer. Tia Mary especialmente. Elas podem começar a pensar que isso significa mais do que na realidade é. Botar ideias na cabeça sobre nós, você sabe a que me refiro. Emma comeu a última batata frita e empurrou o prato para longe. – Então temos que fingir que estamos noivos e apaixonados e... ao mesmo tempo fingir que não estamos fazendo sexo. – Eu disse que era complicado. – Vou precisar de um gráfico com legenda de cores para manter o controle sobre quem pensa o quê. Sean sorriu e pegou a caneta hidrográfica no bolso. – Eu poderia fazer notas adesivas. Sean adorava notas adesivas. Colava-as em todos os lugares. Uma nota sobre o micro-ondas reclamando sobre o desaparecimento do último saco de batatas fritas sabor sal e vinagre. (Emma descobrira durante um doloroso ataque de autopiedade que batata frita de qualquer sabor servia, mesmo que fizesse sua língua arder.) Uma nota sobre a tampa do vazo sanitário reclamando que ela usava um papel higiênico efeminado demais, o que quer que aquilo significasse.


Gostava de colá-las no espelho do banheiro, também. Pare de limpar meu tênis. Estou tentando amaciá-los. Sua favorita era: se você comprar aquela cerveja barata porque está em promoção novamente, vou urinar na sua pilha de adubo. Mas às vezes eram doces. Obrigado por colocar minha roupa na máquina de lavar. E... Seus sanduíches de queijo quente são realmente bons. Aquela quase a fez chorar. – Não querendo mudar de assunto, mas já mudando – disse ela, com a intenção de fazer exatamente isso. – ...vou orçar um projeto de paisagismo amanhã. O proprietário quer aumentar o deque e construir uma área de estar. É urgente, porque eles estão passando a última semana de julho na casa, e querem que o trabalho seja feito. Pensei que talvez você pudesse fazer um orçamento para os bancos e poderíamos apresentálo como um pacote. Se estiver interessado e achar que pode entregar o serviço no prazo. – Você vai ficar no meu pé e verificar todas as minhas medidas e cortes? Emma sentiu o rosto corar e revirou os olhos. – Não. Martelar pregos é coisa sua, não minha. – Então estou interessado. Poderíamos formar uma boa equipe, você e eu. As palavras penetraram em alguma parte do coração de Emma, que ela não queria pensar, mas riu.


– Sim. Só não conte a ninguém. EMMA ESTAVA rasgando as folhas de alface para a salada e olhando Sean colocar a carne na churrasqueira, através da janela. Cat se incumbira de cortar os tomates, o que, sem dúvida, era mais prudente, já que usar uma faca e olhar Sean cozinhando ao mesmo tempo seria perigoso para ela. – Ei, vó, você se importaria se eu e Sean saíssemos por algumas horas no sábado? – Claro que não. – Alguns dos Kowalski vão fazer um passeio de quadriciclo, e Kevin nos convidou para ir junto. Mas, se você quiser passar o dia com a gente, eu posso... nós podemos deixar para outra vez. – Na verdade, eu tinha meus próprios planos. Algo na voz da avó a fez parar de admirar a maneira como Sean manejava o espeto com a carne. – Oh, é mesmo? – Russell vai me levar para jantar e, em seguida, vamos dançar na escola. Eles vão dar uma festa beneficente para os formandos. – Oh! – Emma percebeu que estava transformando as folhas de alface em confetes e jogou-as na tigela. – Parece divertido.


– Preciso lhe explicar que um encontro com Russell não muda o fato de eu ainda amar o seu avô e sentir muita falta dele todos os dias? – Não. – Ela pegou mais alface no saco, só para manter as mãos ocupadas. – Talvez. – É verdade. Ninguém jamais substituirá John Shaw no meu coração. Mas estou sozinha e faz muito tempo desde a última vez que tive um corpo quente para esfregar meus pés frios embaixo das cobertas. Emma não queria pensar em Cat embaixo das cobertas com ninguém, quanto mais com Russell Walker. – Catorze anos. Ocorreu-lhe depois de dizer as palavras que o fato de o avô ter morrido há catorze anos não significava que fazia catorze anos que a avó não esfregava os pés frios em um corpo quente embaixo das cobertas. Ela apoiou os cotovelos na bancada e apoiou o queixo nas mãos, esperando parecer atenta, mas principalmente querendo esconder o calor que podia sentir nas bochechas. – Mas é mais do que isso – continuou a avó. – Quando leio algo interessante no jornal, não tenho ninguém para compartilhar. E quando estou assistindo a um filme de suspense na televisão, não tenho ninguém para dizer quem eu acho que é o assassino.


Emma estava prestes a lhe dizer que ela podia voltar para casa e as duas descobririam juntas quem era o assassino na trama, mas engoliu as palavras. Não apenas porque a avó se sentia feliz na Flórida, mas porque ela sabia que não seria o mesmo. Cat não queria alguém só para conversar. Queria um companheiro para compartilhar a vida. – Ele parece ser um bom homem – disse, o que soou ridículo, mas não conseguiu pensar em mais nada para dizer. – Ele é. E gosto da companhia dele. – Isso é bom, vó. – Estava sendo sincera e esperava que a avó percebesse. Sean entrou com um prato de costeletas assadas e, em seguida, estacou, como se o seu radar masculino tivesse detectado o nível de drama feminino na sala. – Tudo bem? – Claro. – Cat despejou o tomate picado dentro da tigela de salada. – Emma estava me dizendo que vocês vão andar de quadriciclo no sábado. – Só se você não se importar – disse ele, colocando o prato na mesa. – Claro que não. – Minha avó vai sair para dançar com Russell. – Oh! – Ele procurou o rosto de Emma por um segundo e, em seguida, virou-se para Cat. – Ele parece


ser um cara legal. Espero que vocês dois se divirtam. – Não danço há séculos, mas tenho certeza de que vou me divertir. Vamos comer antes que as costeletas esfriem. – Amanhã, eu e Sean temos que dar um orçamento sobre um futuro trabalho, mas depois podemos dirigir até Concord e comprar-lhe um vestido se quiser. – Eu adoraria. Acho que a última vez que comprei um vestido novo as ombreiras ainda estavam na moda. Todos riram, pondo fim a qualquer tensão persistente na sala. E mais tarde, quando Sean deslizou sob os lençóis e perguntou se Emma estava de fato bem com o namoro da avó, ela foi capaz de dizer sinceramente que sim. – Quero que ela seja feliz. Se dançar com Russell a faz feliz, ela deve dançar. Sean puxou-a de encontro ao corpo. – Eu concordo. Sabe o que me faria feliz? – Se eu comprasse uma marca mais viril de papel higiênico? – Não. Bem, sim. Mas podemos falar sobre isso quando não estivermos nus. Emma passou os braços pelos ombros dele e acariciou-lhe a pele sensível da nuca com as pontas dos dedos. – O que devemos falar quando estivermos nus?


Sean gemeu e rolou de costas, mas trouxe-a com ele, deixando-a com as coxas abertas sobre seus quadris. – Vamos falar sobre como você fica quando está trabalhando sob o sol, com a pele brilhado e o nariz sujo de terra. – Ver-me toda suja e suada o excita? – Observar você trabalhar me excita. Você trabalha com afinco e não tem medo de sujar as mãos. Gosto disso em uma mulher. – Lisonja não vai levá-lo a lugar algum. – Emma remexeu os quadris, roçando sua ereção e fazendo-o gemer. Ele estendeu as mãos, envolveu-lhe os seios e usou as pontas dos dedos para lhe massagear os mamilos. – Não quero estar em nenhum outro lugar. Sean sabia usar as palavras certas. E sem dúvida tinha todos os movimentos certos. Era um aprendiz rápido e já sabia todas as maneiras corretas de tocá-la para levála à loucura. E seu modo de fitá-la, com aqueles olhos azuis intensos, a fazia sentir como se ele tivesse esperado a vida inteira só para fazer amor com ela. E, se não fosse estúpida o suficiente para pensar que podia ver futuro naqueles olhos, seria capaz de usufruir o momento. Sean correu um dedo, tocando-lhe a pele da testa até a ponta do nariz.


– Você está franzindo a testa. Em que está pensando? Emma arrancou a palavra “futuro” da mente e lhe acariciou os contornos ondulados do abdome definido. – Estava me perguntando por que ainda não está dentro de mim. – Porque você está franzindo a testa para mim. Isso me causa problemas de autoconfiança. Enfiando a mão entre seus corpos, ela encontrou o volume rígido e pulsante de sua masculinidade e o afagou. – Autoconfiança não é um problema para você. Sean sorriu e deitou-a de costas. – Estou confiante de que posso fazê-la gemer meu nome em seu travesseiro dentro de cinco minutos ou menos. – Não sei – disse ela, enquanto ele corria os dedos pelo seu abdome e depois um pouco mais para baixo. – Não sou uma mulher fácil de agradar. A boca de Sean seguiu a trilha que sua mão havia traçado na pele de Emma. – Nunca consegui resistir a um desafio.


CAPÍTULO 15

O SÁBADO se revelou um excelente dia para a corrida de quadriciclo. Quente o suficiente para usar camiseta, pensou Emma, mas não a ponto de tornar insuportável o uso de capacete e dos óculos de proteção. Joe desistiu no último minuto. Brianna passara a noite um pouco febril e agitada, e ele não se atreveria a deixar Keri sozinha. Portanto, restara ela, Sean, Kevin, Evan e Terry. Emma deu partida no quadriciclo que Kevin pegara emprestado de Lisa para ela, deu marcha à ré para tirálo do trailer e deixou o motor esquentar, enquanto vestia o capacete e ajustava os óculos de proteção. Sean estava dirigindo o quadriciclo de Mike e emparelhou com ela. – Acha que consegue acompanhar o ritmo? – perguntou Emma, fechando a alça ajustável do capacete.


Sean ofegou. – Você dirige como as mulheres e dorme em uma cama de menina. Aposto que pilota como uma menina também. – Esse sexismo o fará se sentir ainda mais envergonhado quando eu o fizer comer poeira. – Veremos. Emma começou a se aproximar, talvez na intenção de roçar o corpo ao dele e lhe perguntar o que gostaria de apostar, mas se lembrou dos outros a tempo. Para aquele grupo de pessoas, os dois eram apenas amigos. Nada mais. E certamente não tinham uma amizade colorida, já que Sean não queria revelar que ela não estava mais dormindo no sofá. Em vez disso, Emma lhe virou as costas e vestiu as luvas de pilotagem. Aquela situação era ridícula. Estava cansada de tentar manter coerentes todas as histórias que inventavam. Queria apenas relaxar e ser ela mesma, embora não pudesse reclamar, já que fora culpada por envolvê-lo naquela confusão. Quando chegou a hora de pegar a trilha, Emma descontou a frustração no acelerador. Atirando o peso do corpo para trás, exigiu o máximo do motor e disparou para fora do estacionamento. Quando as rodas dianteiras baixaram, soltou uma risada e voltou e


se recostar ao assento. Sean que comesse poeira durante algum tempo! Todos eram pilotos experientes e mantinham a velocidade alta, portanto ela parou de refletir sobre a situação em que se encontrava e se concentrou na trilha à frente. Kevin estava liderando, com Evan e Terry logo atrás. Sean se encontrava em seu encalço, portanto havia muita poeira, o que significava baixa visibilidade. Era melhor prestar atenção no caminho, e não ficar remoendo a obstinação de Sean em não permitir que ninguém na família desconfiasse que os dois estavam dormindo juntos. Mas Emma não conseguia evitar. Por que aquilo tinha tanta importância para ele? Havia a aposta com os irmãos, mas não era esse o motivo. Afinal, não se tratava de uma aposta de cem mil dólares. Simplesmente Sean não queria que eles soubessem. Ele dissera estar preocupado com a possibilidade de a tia colocar ideias na cabeça, mas e daí? Não era próprio das mães e das figuras maternas estarem sempre colocando ideias na cabeça quando um homem na casa dos trinta anos começava a namorar alguém? Às vezes estavam certas, às vezes, não, mas ninguém escondia uma nova namorada no armário, a não ser que a figura materna em questão fosse uma psicopata. E esse, sem dúvida, não era o caso de Mary Kowalski.


Na opinião de Emma, só poderia haver uma razão. Sean concordara em dormir com ela apenas pelo sexo. Nada mais. Se ninguém soubesse que os dois estavam dormindo juntos, não haveria questionamentos por da parte da família, quando ele a deixasse. Mary não ficaria desapontada. Sean teria de lidar com a antipatia de Lisa. Mas ninguém saberia. Emma podia aceitar essa situação. Afinal, concordara em terem apenas sexo, sem alimentar esperanças de algo mais. E se sentia bem com esse acordo... Na maior parte do tempo. Algumas semanas do melhor sexo que jamais experimentara na vida era melhor do que nada. Queria apenas que aquilo não parecesse um segredinho sórdido. O grupo percorreu mais algumas milhas, antes de Kevin sair para uma área gramada à margem de uma lagoa e todos o seguirem. Às vezes, nas primeiras horas da manhã ou ao ocaso, havia alces em torno da lagoa, mas no meio do dia se encontrava deserta. Emma desligou o motor, retirou o capacete, os óculos de proteção e tentou limpar a poeira que grudara em seu rosto com o antebraço. Era uma causa perdida, já que cabelos desgrenhados e rosto empoeirado eram os efeitos colaterais de pilotar um quadriciclo. Mas ainda assim se esforçou.


Sean estacou ao lado dela, parecendo tão imundo quanto Emma sabia que devia estar, mas, por ser homem, os cabelos não haviam sofrido tanto os efeitos do capacete. – Acho que na próxima vez que alguém me disser que dirijo como uma mulher, terei de agradecer o elogio. Emma sorriu e pendurou o capacete sobre a dianteira do quadriciclo. – Ao menos você está conseguindo acompanhar. – Claro que você não é uma principiante. Por que não tem um desses? – Eu tinha. O motor pifou no verão retrasado. Desde então, tenho estado tão assoberbada de trabalho que as horas de lazer não são suficientes para justificar a compra de outro. Quando faço trilha com Mike e Lisa, eles pedem emprestado o de alguém para mim. Estava planejando comprar um para trabalhar, mas depois a propaganda boca a boca se espalhou e comecei a passar a maior parte do tempo trabalhando em bairros que desaprovam o uso de um quadriciclo. Terry estava se aproximando com duas garrafas de água, sem dúvida em uma missão de mãe zelosa para hidratá-los. Sean pegou uma e se afastou para falar com os rapazes.


– Obrigada – agradeceu Emma, retirando a tampa e tomando um grande gole. – Hoje está empoeirado. – Ficará melhor quando nos embrenharmos mais na floresta. Mas deve estar gostando de sair de casa por algumas horas, não ter de fingir que você e Sean formam um casal e tudo mais. Emma se forçou a assentir, quando, na realidade, a dificuldade de fingir que não estavam juntos era grande demais. – Sim, às vezes é um pouco estressante. – Aposto que o fato de a família estar se divertindo com essa história toda torna isso ainda pior. – Sou muito grata a todos por terem compactuado com essa farsa. Não me importo que o preço seja suportar que se divirtam às nossas custas. Terry soltou uma risada. – É muito engraçado, não tem como não rir. Mas Sean sempre foi um cara firme e sensato, portanto logo percebemos que essa mentira seria por uma boa causa. – Minha avó voltará para a Flórida sem mais nenhuma preocupação comigo, portanto é por uma boa causa. – Presumindo que tudo não fosse por água abaixo antes de Cat entrar no avião. Kevin deu o sinal de que estava na hora de se descartarem das águas e colocarem o equipamento. Sean piscou um olho quando passou por ela na direção


do próprio quadriciclo, mas Emma se limitou a sorrir e vestir o capacete. Após mais ou menos uns 800m de estrada de terra, chegaram à floresta, mas Kevin não reduziu a velocidade. Os quadriciclos batiam nos obstáculos e saltavam durante o percurso adverso, esquivando-se das pedras maiores e dos galhos baixos. Quando Sean começou a brincar de encostar a parte dianteira do seu quadriciclo à traseira do que ela pilotava, Emma soltou uma risada e acelerou ainda mais. Uma curva se aproximava rápido, mas ela não entrou em pânico. Não freou. Limitou-se a diminuir a velocidade para que a traseira deslizasse na curva e ela pudesse voltar a acelerar rapidamente. Mas, em seguida, avistou um esquilo. Bastou apenas um segundo de hesitação para que os pneus da frente se erguessem e a parte traseira se descolasse do chão. Oh, droga, isso vai doer. SEAN VIU o quadriciclo de Emma começar a virar e não havia nada que pudesse fazer. Acionou os freios com força, fazendo com o que quadriciclo derrapasse para a lateral, e observou Emma conseguir se atirar para fora da máquina e atingir o chão, quicando e escorregando até, graças a Deus, estar


livre do quadriciclo, que capotou duas vezes até colidir contra uma árvore. Antes mesmo de a poeira baixar, Sean havia saltado do quadriciclo que pilotava e a alcançado. Emma rolou de costas no instante em que ele se agachou ao seu lado. – Oh! – Foi tudo que ela conseguiu dizer. – Jesus! Você se machucou? – Foi por isso que eu disse “oh”. Sean resistiu ao impulso de segurá-la pelos ombros e sacudi-la até lhe arrancar aquele sarcasmo... embora não todo. – Responda à maldita pergunta que lhe fiz. Machucou-se muito? – Acho que não quebrei nada. Dê-me um minuto. Emma não parecia muito ferida. Tivera sorte de saltar em um trecho livre de pedras. O braço estava um pouco esfolado e ela parecia sem fôlego e imunda, mas, contanto que não tivesse fraturas, era possível dizer que não fora um acidente grave. – Já se passou um minuto? – Sean queria vê-la de pé, para examiná-la em busca de mais algum ferimento. – Não. – Emma inspirou fundo e soltou o ar devagar. Sean a observava, atento, e percebeu que ela não fez careta de dor e o ar não ficou preso no peito. – Qual foi o estrago no quadriciclo de Lisa?


– Não se preocupe. Está em condições de se levantar? – Acho que sim. Sean mudou de posição para se ajoelhar atrás da cabeça de Emma e escorregou as mãos sob suas costas para ajudá-la a sentar. – Fique sentada por alguns minutos e se certifique de que não está tonta. Dirigindo à velocidade em que estavam, não era possível olhar por sobre o ombro, portanto o grupo que ia à frente prosseguiu. Sean sabia que eles não demorariam a chegar na intercessão. Kevin pararia para se certificar de que estavam todos juntos, antes de escolher a direção. Quando desse por falta dos dois, retornaria. – Acho que estou bem – disse ela. Sean escorregou as mãos sob os braços delgados, puxando-a com delicadeza para ajudá-la a se levantar. – Vá com calma. – Estou bem. De verdade. – Emma retirou os óculos de proteção e, em seguida, afrouxou a alça ajustável e retirou o capacete. – Não deveria tê-la pressionado. – Emma o fitou com aquele olhar. O mesmo com que as esposas dos primos costumavam brindá-los, e aquilo o irritou. – Não me olhe assim.


– Como? Com um olhar que se dirige a um idiota? Não seja idiota e eu não o olharei desse jeito. – Por que estou agindo como um idiota? Por que lamentei ter pressionado você e quase a matado? – Não, está sendo idiota porque acha que estava pressionando uma garota a correr. Sean cruzou os braços, fitando-a com uma carranca. – E daí? Emma adotou a mesma postura. – E daí que você não teve nada a ver com o acidente. Acredite ou não, já capotei outro quadriciclo antes. Hoje, estava pilotando do jeito que sempre faço quando somos tolos o suficiente para deixar que Kevin lidere, e eu me vi emboscada por um esquilo. Poderia ter acontecido com qualquer um do grupo. Sem conseguir se conter, Sean se aproximou e entrelaçou os dedos aos dela. – Gostaria que não tivesse sido você. – Por que sou uma garota? Não, porque se ver impotente quando pensou que ela seria esmagada por um quadriciclo de 300kg o fez sentir... algo. Não muito agradável. – Porque não quero ser eu a dizer a Cat que nós a deixamos toda quebrada. A resposta a fez rir.


– Amanhã estarei com a sensação de ter sido atropelada por uma carreta, mas não estou toda quebrada. – Vou lhe preparar um banho quente e relaxante quando chegarmos em casa. Isso ajudará a diminuir as dores. Quando um sorriso se estampou no rosto mais relaxado de Emma, ele se aproximou para beijá-la. Não por imaginá-la nua, coberta de espuma e com os mamilos enrijecidos, mas pelo efeito do alívio que sentia por ela não ter sofrido um acidente grave. Os lábios de Sean mal haviam tocado os dela, quando Emma se afastou com um gesto brusco. Em um primeiro momento, Sean achou que a teria machucado, depois pensou que ela estava aborrecida. Mas logo percebeu que Emma ouvira o som que só agora ele captava. Um quadriciclo disparava na direção deles. – Não quero fazê-lo perder a aposta – resmungou ela, com um leve traço de amargura que o fez experimentar uma pontada de sentimento de culpa, embora não soubesse explicar por quê. Não tinha nenhuma razão para se sentir culpado. Não fizera nada de errado. Além do mais, Emma sabia que ele não levara aquela aposta a sério. E também não queria que a tia ficasse desapontada quando os dois seguissem cada


um o seu caminho. Mas não teve a chance de se explicar. Kevin surgiu na linha de visão dos dois, em alta velocidade. Quando os avistou, freou e mal esperou que o quadriciclo parasse para saltar. – O que aconteceu? Você está bem, Emma? Ela anuiu. – Um esquilo. Hesitei e perdi o ângulo da curva. – Está ferida? Emma lhe mostrou o braço esfolado. – Sobreviverei. Espero poder dizer o mesmo do quadriciclo de Lisa. Evan e Terry chegaram e Sean se afastou para o lado, enquanto os demais se agruparam em torno dela. Kevin ergueu a máquina de Lisa e a manobrou de volta à trilha. – Não está parecendo tão mal assim – disse ele. – Rachou algumas partes plásticas e arranhou a extremidade do guidão. Tenho quase certeza de que a parte da frente já estava um pouco torta. Também tem um pequeno rasgão no banco. Tamparemos com fita adesiva e ficará ótimo. Emma gemeu. – Fita adesiva. Que luxo! Terry soltou uma risada. – Eles têm quatro filhos. Metade dos objetos que possuem estão remendados com fita adesiva.


Sean ergueu o capacete de Emma do chão e o girou nas mãos, sacudindo-o e procurando por estragos. A imagem de Emma atingindo o chão ainda o deixava trêmulo por dentro, percebeu, enquanto escorregava o polegar sobre um amassado que podia ou não ter se originado daquele incidente. Emma poderia ter sofrido ferimentos graves, e ele estava tendo dificuldade em processar o quanto aquilo o assustara. Não gostava de ver ninguém se acidentar, mas o pensamento de como estivera perto de ter de chamar um helicóptero de resgate para retirá-la da floresta o deixara extremamente abalado. E aquela sensação não abrandou quando Terry retirou o kit de primeiros socorros do bagageiro de seu quadriciclo e começou a limpar os ferimentos do braço de Emma. Ela estava recostada à parte dianteira da máquina de Terry, sorrindo com algo que Kevin e Evan estavam comentando, mas o peito de Sean parecia se apertar ainda mais em vez de relaxar. Emma era uma mulher e tanto. Inteligente, divertida, forte e trabalhava duro. Além disso, o levava à loucura entre os lençóis. E talvez aquele fosse o problema. Ela estava começando a levá-lo à loucura quando estavam completamente vestidos, também. – Você está bem? – Kevin perguntou, quando ele deixou escapar um xingamento entre dentes. Sean


sequer notara o primo se aproximar. – Sim. Apenas verificando as condições do capacete. – Parece pálido. Uma aparência comum para um homem cujo mundo havia se deslocado do eixo. – Não foi uma cena muito bonita de se ver. – Tenho ensinado Beth a pilotar o quadriciclo quando mamãe pode tomar conta de Lily e lhe juro que quase tenho um ataque cardíaco cada vez que ela passa sobre qualquer obstáculo no chão. – Mas ela é sua esposa. – Sean olhou para Emma, que o estava observando. – É diferente. – É? – Sim – afirmou Sean com segurança, imaginando a qual dos dois estava tentando convencer. – Emma é uma boa garota e não quero vê-la acidentada, mas não é nem de longe a mesma coisa. Quando a viu erguer uma das sobrancelhas a distância, imaginou se Emma não seria mais perspicaz em leitura labial do que imaginara. E, quando ela fez mímica das palavras “boa garota”, Sean soube que estava perdido. Emma não gostaria daquele rótulo. – Continue dizendo isso a si mesmo e os deixarei trocando olhares significativos enquanto vou verificar a calibragem dos meus pneus. Acho que um deles está amolecendo. – Kevin lhe deu uma palmada no ombro.


– E, ao que parece, não é o único por aqui. – O primo se afastou antes que Sean pudesse responder que não estava amolecendo. O fato de não querer ver a mulher com quem estava fingindo não fazer sexo esmagada contra uma árvore não era sinal de que estava amolecendo. Significava apenas que... Significava apenas que talvez estivesse começando a amolecer e precisava sair correndo dali no segundo em que o avião que levaria Cat de volta à Flórida começasse a taxiar na pista. O PONCHE de frutas estava péssimo, as luzes que simulavam uma discoteca pareciam mais as estroboscópicas de um carro de polícia e as cadeiras de metal eram um suplício para os quadris já desgastados, mas Cat estava tendo uma das noites mais divertidas de toda a sua vida, no ginásio da escola secundária. A voz de Frank Sinatra jorrava dos autofalantes, e a cabeça de Cat se encontrava recostada ao peito de Russell, cujos braços a envolviam enquanto se moviam ao ritmo da música. Nenhum dos dois era um exímio dançarino, mas não se importavam. O simples fato de estarem dançando outra vez era maravilhoso. Quando soaram os últimos acordes da música, Cat recuou para sorrir, agradecer e sugerir que se sentassem por alguns minutos, mas percebeu que a


intenção dele era beijá-la. Os olhos de Russell fitavam seus lábios, e ela experimentou uma revoada de borboletas no estômago. Nunca beijara nenhum homem, além de John, em quarenta e seis anos, pelo amor de Deus! Não lhe parecia certo, mas estava com dezenove anos quando se apaixonara por John Shaw e os dois se casaram seis meses depois. Nunca fora beijada por nenhum outro homem por quase metade de um século. Também podia reconhecer a hesitação nos olhos de Russel. Por certo estava pensando na esposa, e Cat imaginou se ele também não teria beijado ninguém além de Flo em muito tempo. – Quer um pouco mais de ponche? – perguntou ela, esperando abrandar a tensão do momento. Russell deixou escapar uma risada. – Jamais voltarei a beber aquele ponche, mas gostaria de tomar um pouco de ar fresco. Ele não lhe segurou a mão, enquanto transpunham as portas abertas do ginásio e saíam para a noite fresca de verão, mas Cat tentou não se incomodar com aquele detalhe. Embora tivesse perdido o marido há catorze anos, Russel ficara viúvo há apenas seis. Talvez, em face do momento decisivo, ele não estivesse preparado para encarar um novo relacionamento.


Os dois cruzaram o gramado até um pequeno grupamento de árvores no pátio do colégio, onde bancos de granito prestavam honras aos graduados que haviam perdido suas vidas no serviço militar ao longo das décadas. Para surpresa de ambos, os bancos não estavam ocupados e, finalmente, Russel lhe segurou a mão e a puxou para que ela se sentasse ao seu lado. – Gosto de sua companhia – disse ele em tom calmo, e Cat esperou pelo “mas” que viria logo a seguir. – Mas... não sei o que estamos fazendo aqui. – Aproveitando a companhia um do outro? – Sem dúvida. – Russel girou a cabeça na direção dela e sorriu, o olhar fixo nos lábios de Cat. – Tenho medo de beijá-la e chorar. Cat lhe apertou a mão, mas não com a força com que aquelas palavras lhe apertaram o coração. – Talvez também não consiga conter as lágrimas, mas prefiro chorar por estar sentindo algo do que por solidão ou pena de mim mesma. – Então, talvez eu devesse beijá-la e parar de contar quantos anos se passaram desde que beijei outra mulher que não minha falecida esposa. Cat inclinou o rosto para cima e fechou os olhos, enquanto ele lhe segurava a nuca com uma das mãos e se apossava de seus lábios. Ela tentou não comparar a boca de Russell com a de John. Os lábios que


assaltavam os dela eram mais suaves, embora mais ousados. Por fim, tudo desapareceu, exceto o homem que, no momento, a beijava. E, quando a língua de Russel tocou a dela, sentimentos adormecidos de desejo e antecipação voltaram à vida. Quando, relutante, ele interrompeu o beijo, não havia lágrimas. Talvez, bem no fundo, pontadas de tristeza tivessem surgido, mas a avalanche de sentimentos maravilhosos e renovados os enterrou ainda mais. Russell a fitou nos olhos. O semblante estava se suavizando e um sorriso lhe curvava os lábios. – Tem meio minuto que não beijei ninguém além de você. E, pela segunda vez na vida, Cat pensou ter encontrado um homem com quem valia a pena ficar.


CAPÍTULO 16

SEAN OBSERVOU Emma se atrapalhar com as chaves em meio à escuridão. Por terem saído muito cedo, ninguém havia lembrado de deixar as luzes externas acesas. – Não acredito que minha avó esteja fora até tão tarde. – Temos a casa só para nós. Talvez, depois de preparar aquele banho de espuma para você, eu a ajude a esfregar as costas. – Suja do jeito que estou, vou ter de me contentar com um banho de chuveiro. Do contrário, deixarei uma camada de lama sobrenadando na água da banheira. – É melhor economizarmos água e tomarmos um banho juntos – sugeriu Sean, enquanto a seguia para dentro da casa.


– Ora, não posso fazer isso. Sou uma boa garota, lembra? Sean gemeu e se inclinou para a frente a fim de retirar as botas enlameadas. – Não há nada em seu manual de instruções sobre essa capacidade extraordinária em ler lábios. – Quando o elaborei, não sabia que você me taxaria de boa garota, mas... Sean nem ao menos sabia por que ela implicara com aquele comentário. – Estava apenas tentando fazer Kevin perceber a diferença entre ele e a esposa e entre mim e você. Não quis dizer nada de mais com isso. – Relaxe – retrucou ela, com um brilho malicioso no olhar. – É tão fácil irritá-lo. – Você tem um senso de humor um tanto pervertido. Mas Sean a perdoou no instante em que ela começou a abrir o zíper da calça jeans e a retirá-la ali mesmo, no corredor. Talvez Emma não quisesse deixar uma trilha de poeira pela casa, portanto ele lhe imitou o gesto. Porém, não se furtou a assisti-la retirar a calça primeiro, já que jamais dispensava observar uma bela mulher se despir. Emma girou e se encaminhou à cozinha, ainda com a camiseta. Com um profundo suspiro, ele se


contentou em lhe admirar as belas pernas. As pernas feridas, corrigiu ele. Emma ostentava um enorme calombo em uma das coxas, além de outros menores. Sean chutou o próprio jeans para o lado e arrancou a camiseta pela cabeça, antes de segui-la. – Deu uma pancada forte na coxa – comentou ele, enquanto Emma enchia dois copos de água gelada. Girando o corpo, ela baixou a cabeça para ver os hematomas. – É verdade. Está um pouco dolorido ao toque, mas não é nada grave. – É melhor deixar que eu examine o resto do seu corpo. – Emma lhe entregou o copo de água gelada e arqueou as sobrancelhas. – Para procurar mais hematomas, embora você esteja muito sexy com esse rosto sujo e usando apenas uma camiseta. Colocando uma das mãos no quadril, movimento que lhe ergueu a bainha da camiseta, Emma exibiu uma carranca. – Quando o transformei em meu noivo de mentira, não fazia ideia de que tinha fetiche por rostos sujos. – Não tinha, antes de me transformar em seu noivo de mentira. – Sean tomou um grande gole da água. – E não é um fetiche. Já lhe disse, me excita o modo como você trabalha duro e joga duro. A sujeira é apenas a representação visual dessa característica.


– Muito profundo de sua parte. – Além disso, essa sujeira significa que, em breve, você tomará um banho, e eu a quero ensaboada e escorregadia também. Um rubor lento subiu pelo pescoço de Emma. – Suja. Limpa. Para você não importa, certo? Sean pensou em responder “não”, que não se importava, que a queria do jeito que pudesse tê-la, mas decidiu se calar. Estaria sendo sincero, claro, mas nada de positivo resultaria de Emma conhecer a verdade. Ela não precisava saber que, às vezes, quando estavam enroscados no sofá, assistindo à televisão ou decidindo se deveriam comprar pão branco ou integral no supermercado, ele esquecia que estavam fingindo ser um casal. E muito menos saber que, de vez em quando, lembrar que não eram noivos o deixava desapontado. Aquele não era um bom sinal. Claro que gostava da companhia de Emma e óbvio que o sexo era maravilhoso, mas dentro de mais uma semana estaria partindo. Seria livre para explorar as diversas possibilidades do restante de sua vida, como pretendia, antes de ter sido enredado no plano maluco de Emma. Mal havia recuperado a liberdade e a perdera. E logo para uma mulher que o deixava louco. Não passaria o resto da vida podando margaridas ou seguindo os


fluxogramas da ordem em que deviam ser executadas as tarefas domésticas. Emma passou por ele, retirando a camiseta, e lhe lançou um olhar insinuante por sobre o ombro. Por outro lado... O boxe era apertado para os dois, mas Sean não se importava. Quanto mais aquela pele sedosa roçasse a dele, melhor. Ensaboaram-se e se enxaguaram rapidamente para tirar a camada mais grossa de poeira e, em seguida, ele se deteve a escorregar o sabonete de modo lento em cada centímetro daquele corpo macio. Encontrou alguns outros pequenos hematomas e esfoladuras, principalmente na região da omoplata direita de Emma, embora nenhum tão importante quanto o da coxa. Sean beijou os que conseguiu alcançar de pé e fez uma anotação mental para dar o mesmo tratamento aos outros mais tarde. Emma fez uma leve careta de dor quando limpou a área em torno da esfoladura do braço e ele lhe beijou a boca até que o pequeno ofego de dor se transformasse em um gemido de prazer. Quando a água começou a esfriar, os dois se enxugaram e escovaram os dentes. Emma lhe deu uma cotovelada para afastá-lo para o lado e cuspir na pia, e aquele momento o atingiu como um soco no estômago.


Lembrava... a intimidade de uma família. Agiam como se fossem casados. Ou como um casal que vivia junto e que se casaria em um futuro próximo. E isso o deixou completamente confuso porque era exatamente essa impressão que tinham de dar. Mas que não encontrava fundamento na realidade. Sean a seguiu até a cama. Estava com a mente agitada, quando Emma se aconchegou ao seu corpo, como fazia todas as noites. Como se pertencesse a ele. E Sean a puxou mais para perto, como sempre fazia. – Um centavo pelos seus pensamentos – sussurrou ela. – Estou exausto. Há muito não pilotava um quadriciclo, ainda mais daquela forma. A mão delicada lhe acariciou o peito. – Está começando no chuveiro o que não consegue terminar na cama, soldado? – A última coisa de que seu corpo precisa no momento é mais ação. Emma suspirou, ainda lhe acariciando o peito. – Não sei se conseguirei dormir. Sean rolou mais sobre ela para lhe tocar um dos seios. – Tenho um ótimo remédio para isso. – Pensei que estivesse exausto.


– E estou. – E tinha dúvidas quanto a estar completamente envolvido com ela, enquanto a mente ainda remoía aquele momento íntimo e familiar no toalete. – E n��o está em condições de se entregar a esse tipo de atividade, mas tenho um pequeno truque para relaxá-la. – Enquanto falava, Sean escorregou a mão pelo abdome macio e a introduziu entre as coxas de Emma. O corpo dele se aquecia junto com o dela, mas ele se esforçou em puxar as rédeas da própria libido. Emma tinha hematomas suficientes; não a machucaria com mais apalpadelas e apertões. Em vez disso, começou a lhe estimular o ponto mais sensível da feminilidade e a observou adejar as pálpebras até fechá-las e cravar os dentes no lábio inferior. Os quadris curvilíneos começaram a ondular, e ela sussurrou seu nome. Em seguida, abriu os olhos e fitou os dele com tanta intensidade que Sean resolveu beijá-la apenas para que ela voltasse a fechá-los. Não estava seguro sobre o que os próprios olhos iriam trair. Emma gemeu contra os lábios firmes quando atingiu o clímax. Em seguida, se aninhou no círculo seguro dos braços fortes e deixou escapar um suspiro de satisfação. Não deveria abraçá-la, disse Sean a si mesmo. Deveria se limitar a lhe dar uma palmada leve nas nádegas, virar para o lado e dormir. Em vez disso, enterrou o rosto nos cabelos escuros e sedosos e fechou


os olhos. Talvez, na noite do dia seguinte, conseguisse colocar alguma distância entre ambos. EMMA ESCONDEU o rosto com a coberta, barganhando com o subconsciente. Se desfrutasse de mais uma hora de sono, não apertaria o botão “soneca” do despertador durante toda a semana. Ao menos não na segundafeira. Quando Sean se deitou ao lado dela, ela desistiu e rolou para o lado. E... Ai! Lá estava a sensação de ter sido atropelada por uma carreta. Emma abiu os olhos e franziu a testa. – Por que está vestido? – Porque acordei e me vesti para procurar café, mas mudei de ideia e voltei para a cama. – Vestido? – Sim. Embora descalço. Era muito cedo para seguir aquela lógica maluca. – Minha avó já preparou o café? Sean gemeu e cobriu os olhos com os braços. – Não exatamente. – O que há de errado com você esta manhã? – Surpreendi sua avó se esgueirando para dentro da casa... com a mesma roupa que saiu ontem. – O quê? – Emma se sentou na cama, as dores e hematomas esquecidos. – Surpreendeu minha avó


entrando em casa depois de ter passado a noite fora? – Sim e foi constrangedor, portanto voltei para a cama. Emma lhe afastou o braço dos olhos. – E o que ela disse? – Cat me desejou um bom dia e me disse que tomaria um banho rápido antes de começar a preparar o café da manhã. – E o que você disse? – Balbuciei algo sobre ela não se apressar e saí correndo como um bobo. Emma voltou a se deitar sobre o travesseiro e fitou o teto. – Uau! – Não deveria ter lhe dado essa notícia assim, de supetão, mas não saberia como dizer de outro modo. Emma é que não sabia o que dizer. Vá fundo, vó, uma parte dela pensava, mas a outra queria se esconder debaixo das cobertas com Sean e não ter de lidar com o fato de que a avó estava tomando um banho depois de uma noite de sexo. Óbvio que, no momento, Sean também pensava da mesma forma. – Uma hora teremos de descer – disse ela. – Preciso tomar café. E comer. – Esperarei aqui. Quando subir, traga algo para mim.


Emma soltou uma risada e lhe deu uma palmada na coxa. – Se sou capaz de encará-la, você também é. Cat não é a sua avó. – Mas é constrangedor. – Tenho certeza de que também é constrangedor para ela saber que estamos fazendo sexo, mas minha avó tem encarado esse fato com maturidade. As palavras serviram apenas para fazê-lo cobrir o rosto com o braço outra vez. – É diferente. – Porque ela tem 65 anos? – Não. Porque, como você acabou de dizer, ela é sua avó. – Ora, vamos, é melhor descermos juntos. – Emma escorregou para fora da cama e se encaminhou ao toalete. – Pare de fazer uma tempestade em um copo d’água sobre esse assunto. A avó ainda se encontrava no banho quando os dois passaram pelo toalete, enquanto cruzavam o corredor. Cat assobiava uma canção muito animada que fez Sean contrair as feições em uma careta. Emma o segurou pelo braço e o puxou na direção da escada. – Café.


Colocaram a cafeteira para funcionar e se sentaram à mesa em silêncio, até que tivesse passado uma quantidade de café suficiente para encher duas xícaras. Emma colocou uma chaleira com água no fogo e acrescentou um saquinho de chá na caneca da avó. A estrela do momento emergiu da porta da cozinha quando a chaleira apitou, parecendo refrescada e alegre. – Bom dia. – Bom dia – balbuciaram os dois em uníssono. – Obrigada por preparar meu... O que aconteceu com o seu braço? Emma baixou o olhar à esfoladura que estava com péssima aparência e escondeu o braço atrás das costas. – Levei um pequeno tombo do quadriciclo ontem, é só. – Disse-lhe para tomar cuidado. – Eu tomei, mas me deparei com um esquilo na trilha. A avó fitou Sean com um olhar acusatório que o fez erguer as duas mãos em um gesto de rendição. – Ei, não me olhe assim. Já andou na caminhonete de Emma. Sabe como ela dirige. – Sim, infelizmente foi meu marido que a ensinou a dirigir. – Emma percebeu uma leve sombra perpassar o rosto da avó. – Estou pensando em fazer omeletes hoje. Talvez com brócolis e queijo?


Sean quase enterrou a cabeça na xícara de café, e Emma soube que tinha de dizer algo... Sem revelar que ela servira ao noivo uma comida que ele detestava na noite em que a avó chegara. – Uh... Que tal cogumelos no lugar de brócolis? A avó inspecionou o conteúdo do refrigerador. – Não estou vendo cogumelos aqui. Mas ainda temos brócolis. – Sean não costuma comer brócolis, só em ocasiões especiais. – Emma se apressou em responder. – Ele adora, mas lhe dá gases. Como Cat ainda estava virada para o refrigerador, Sean ficou à vontade para dirigir um olhar repreensivo, que ela respondeu com um sorriso penitente. Após três semanas vivendo uma farsa, ou duas farsas diferentes, Emma deveria ser capaz de pensar mais rápido. – Então, esqueçamos os brócolis – disse a avó. – Ainda temos uma sobra de presunto. Que tal omelete de queijo e presunto? – Parece ótimo – disse Sean, ainda fitando Emma com olhar furioso. Enquanto a avó cozinhava, ela pôs a mesa e tornou a encher as xícaras de café. Para manter aquele ritmo, necessitavam de cafeína. – Então, Sean – começou Cat, despejando o presunto cortado em cubos na frigideira. – O que acha desta


velha casa? – É agradável. Grande, mas aconchegante – respondeu ele, parecendo pego de surpresa pela pergunta. – Tem muitos quartos para os filhos. Emma quase se engasgou com um gole de café. – Vó! Não estamos preparados para ter filhos agora. – Não, mas em breve estarão, tenho certeza. Depois de tomarmos o café da manhã, pegaremos o calendário para procurar a melhor data para o casamento. Sean mudou de posição no assento e Emma se apressou a pousar uma das mãos em seu joelho para que ele não tentasse escapar de volta para a cama. – Ainda não decidimos sequer se preferimos nos casar no verão ou no inverno. Não estamos com pressa. – Não quer se casar no jardim? Esse sempre foi o seu desejo. Emma dirigiu um olhar desesperado a Sean, que clareou a garganta. – Se nos casarmos no inverno, poderemos passar a lua de mel na hospedaria de minha família e... andarmos de motoneve e tudo mais. – Podem fazer isso em qualquer inverno – insistiu Cat. – Mas são vocês que sabem, claro. Cat usou a espátula para cortar a omelete e distribuir os pedaços nos pratos. Emma não se surpreendeu


quando Sean engoliu a comida, desculpou-se e desapareceu com a velocidade de um super-herói. Como as mulheres comiam em um ritmo normal, Emma se viu sozinha com a avó. – Divertiu-se? Quero dizer, no baile? Cat sorriu para o próprio prato. – Diverti-me muito no baile. E depois também. – Oh! Fico feliz por você. De verdade. – Não supervalorize o que há entre mim e Russel. Estamos apenas aproveitando a companhia um do outro por algum tempo. Voltarei para casa no final da semana, portanto... Como eu disse, estamos apenas nos divertindo juntos. Aquilo soava familiar, Emma pensou, movendo os pedaços de ovo, queijo e presunto em torno do prato. Aquecendo os pés um do outro por algum tempo, por assim dizer. As duas conversaram trivialidades, enquanto lavavam a louça. Em seguida, Emma foi à procura de Sean. Quando não o encontrou no andar térreo, se encaminhou ao quarto que dividiam, mas ele também não estava lá. No entanto, encontrou um bilhete preso ao espelho. Gases? A vingança é um prato que se come frio, querida.


Emma soltou uma risada e guardou o bilhete no fundo da gaveta, como fizera com todos os outros. Aqueles recados a divertiam muito para atirá-los no lixo e, de vez em quando, ela pegava um deles para reler. Mas aquilo a fazia se sentir como uma adolescente apaixonada, portanto fechou a gaveta e continuou a procurá-lo. Quando espiou pela janela da sala de estar, finalmente o encontrou. Sean estava sentado em uma das cadeiras de balanço, com a cabeça atirada para trás e os olhos fechados. Talvez estivesse em busca de uma trégua de toda aquela confusão em que ela o envolvera. Emma se limitou a fechar a cortina e deixá-lo em paz. Afinal, tinha de escolher uma data para o casamento. Meia hora mais tarde, encontrava-se com a cabeça quase colada à de Cat, analisando o calendário, tentando não pensar sobre o telefonema que um dia teria de dar a avó, na Flórida, comunicando-a de que ela e Sean haviam terminado o noivado. QUANDO O telefone celular de Sean tocou, ele o retirou do bolso e observou o identificador de chamadas. Hospedaria Nothern Star. Devia ser Josh ou Rosie, portanto, atendeu. – Olá – disse Josh. – Já ganhei a aposta?


Sean fez um movimento negativo de cabeça, embora o idiota do irmão caçula não o estivesse vendo. Em seguida, deixou a cadeira de balanço e se afastou da casa. – Ninguém ganhou nada. Não era exatamente uma mentira, já que de maneira oficial ele ainda não havia cedido e não sabia ao certo quem apostara em duas semanas. A propósito, tinha de se lembrar de comprar mais um, dois ou três pacotes de preservativos. Achava melhor não os acrescentar à lista de compras pregada na geladeira de Emma. – Essa coisa toda está quase acabando, certo? – Dentro de uma semana – respondeu Sean. Não que estivesse contando. – Cat partirá no domingo. – E então, o que fará? Não voltaria para a hospedaria, se era o que Josh estava querendo saber. – Ainda não sei. Estou pensando em pegar uma dessas estradas pitorescas para o Novo México e visitar Liz. Seguiram-se alguns segundos de silêncio do outro lado da linha. – Acho que ela ficará feliz em vê-lo. A propósito, Liz conversou com Mitch no feriado de Quatro de Julho. Ele parece pensar que você e essa Emma estão em um relacionamento sério.


– Essa é a intenção. – Sean não queria conversar com o irmão sobre Emma. – As pessoas devem pensar que temos um relacionamento sério. – Crescemos com você, seu estúpido. E ninguém se atreveria a lhe dar um Oscar. Sean se recostou ao para-choque dianteiro de sua caminhonete, inclinou a cabeça para trás e fitou o céu. – Não estou interessado em um relacionamento sério. No momento, não estou interessado em nada. – Não estar interessado em alguma coisa não significa que não a encontrará. – Bem, agora você está soando como um maldito biscoito da sorte. O irmão soltou uma risada. – É a minha cara. O que acha de passar uns dias aqui, antes de viajar para o Oeste? Achava uma péssima ideia porque, se voltasse para casa por alguns dias, talvez acabasse ficando, e não estava preparado para isso. – Ainda não sei o que farei. Vamos ver. Os dois conversaram sobre a hospedaria por alguns minutos, antes de Josh precisar desligar. Sean colocou o telefone de volta no bolso e suspirou. Estava na hora de voltar para dentro da casa e ver o que as duas mulheres estavam tramando. Talvez, escolhendo uma data para o casamento.


E, conhecendo Cat, talvez fazendo uma lista de nomes para o bebê. Talvez fosse natural as pessoas presumirem que após o casamento viriam os filhos, mas ainda estava sentindo calafrios por ouvir Cat tocar naquele assunto. Não por não querer filhos. Os de Mike e Terry eram maravilhosos, mas antes era preciso passar pela fase em que estavam os filhos de Kevin e Joe, e não estava preparado para enfrentá-la. Sean estacou na soleira da porta da cozinha, observando Cat e Emma folheando as páginas do calendário. A caixa de casamento se encontrava sobre a mesa, também, o que significava que a boa e velha avó estava levando o assunto às últimas consequências. Emma sorria e anuía, mas era evidente que desejava estar em qualquer lugar, menos ali. Podia ver a tensão nas feições delicadas e na postura de seus ombros. Ela girava no dedo o anel que ele lhe dera, em um gesto nervoso. Era fácil para Sean perceber o quanto ela se encontrava desconfortável, porque a conhecia. Como poderia ser diferente? Vivia com ela. Trabalhavam juntos, divertiam-se juntos e escovavam os malditos dentes juntos. Ele a entendia. Amava... Droga! Não, ele não a amava. Fingia amá-la e estava cansado da confusão que a própria mente estava fazendo.


Emma ergueu o olhar e, quando o viu, franziu a testa. – Tudo bem? – O quê? Sim. – Sean afastou os pensamentos para o fundo da mente e se encaminhou à bancada da cozinha para tomar o que restara do café. – Josh me telefonou, e ele sempre consegue me irritar. Emma o estava observando, e ele se deu conta de que sua expressão parecera mais aterrorizada do que aborrecida. E ela percebera porque o conhecia. Assim como ele a conhecia. – Antes que fuja outra vez – disse Cat –, não quero ficar sorumbática e deprimida na tarde de sábado, portanto convidei todos para uma festa de despedida. – Parece divertido – respondeu ele. – Quem são “todos”? – Sua família, claro. Além de Russell, Dani e Rogger. Estou pensando em hambúrgueres e cachorrosquentes. Mary disse que trará uma montanha daquela maravilhosa salada de repolho que ela faz. – Eu me encarregarei da comida, vó; portanto, relaxe. – Quando ele e Cat a fitaram, Emma corou. – Está bem. Sean se encarregará de grelhar as carnes, portanto pode relaxar.


– Estava contando com isso. E, Sean, por que não se senta e nos ajuda a escolher a data do casamento? – Disse a Emma que tudo ela tem a fazer é me comunicar quando será e estarei lá. – Bobagem. Sente-se. Sean preferia estar mergulhado até ao pescoço em sugestões de molho de churrasco e sobremesas, mas ainda assim obedeceu. Mais uma semana e tudo estaria terminado. E então não teria mais de pensar em Emma ou em casar-se com ela e ter filhos. Nem mesmo em envolvêla nos braços, à noite. Partiria e ela se tornaria uma história divertida que os irmãos contariam, sentados em torno de uma fogueira, consumindo uma cerveja após outra. – Você está mesmo bem? – perguntou Cat, tocandolhe o braço com uma das mãos. Sean percebeu que estivera esfregando o peito, então se forçou a se inclinar para a frente e apoiar os braços sobre o tampo da mesa, para não repetir o gesto. – Estou bem. Vamos escolher uma data.


CAPÍTULO 17

SE ALGUÉM

tivesse lhe perguntado, Cat diria que seu tempo de sentir borboletas esvoaçando no estômago há muito havia passado. Mas, quando tocou a porta da Walker Hardware, preparando-se para abri-la, podia jurar que o balé O Quebra Nozes estava sendo executado naquela parte de sua anatomia. Tivera algumas conversas com Russell ao telefone, mas aquela seria a primeira vez que o encontraria desde que lhe dera um beijo de despedida, na manhã do dia anterior. Talvez não devesse ter ido até lá. Haviam conversado ao telefone, mas ele não a convidara para sair. Talvez tivessem se excedido, ido rápido demais e, em vez de Russel dizer que não queria mais vê-la, decidira ir levando aquela relação até que ela retornasse à Flórida. Estava sendo tola. Os dois não estavam embarcando em um romance arrebatador. Eram apenas bons


amigos. Tinham uma amizade colorida, como diria a geração mais jovem. Se não o pressionasse, não havia nenhum mal em passar para lhe dizer um “olá”. Ouviu uma batida no vidro e ergueu o olhar para se deparar com Russel parado do outro lado da porta, observando-a. A satisfação estampada no rosto do amigo a fez rir de si mesma, enquanto ele abria a porta, fazendo o sino tilintar. – Devia estar diante de um dilema importante – disse Russel, quando Cat passou por ele. – Talvez não devesse interrompê-la. – Eu estava sendo ridícula. Fico feliz que tenha me interrompido. Quem sabe por quanto tempo ficaria parada ali fora, argumentando comigo mesma? – Você estava vencendo? – As linhas que lhe vincavam os cantos dos olhos se acentuaram quando Russell lhe sorriu. – Na verdade, sim. – Cat olhou ao redor das prateleiras que não pareciam mais vazias do que na última vez em que as vira. – Tive de vir à cidade comprar açúcar e pensei em passar por aqui para lhe dar um “alô”. – Deixei um recado em sua casa, esperava falar com você, antes que viesse até aqui. – O telefone começou a tocar no instante em que tranquei a porta e, como na maioria das vezes são


assuntos de Emma, não voltei para atender. – Estava imaginando se você gostaria de fazer um passeio comigo a Concord esta noite. Podíamos jantar e ir ao cinema? Russel parecia tão nervoso quanto ela se encontrava quando parada à porta da loja, percebeu Cat, retribuindo o sorriso. – Adoraria. – Devo buscá-la em sua casa por volta das 17h ou... – Seria ótimo. Não sei se as crianças estarão em casa a essa hora. Eles têm algumas coisas a resolver antes se dedicarem ao trabalho mais importante desta semana. Sean tem de terminar aquele deque, portanto devem trabalhar até mais tarde. – E como estão indo? – Para dizer a verdade, se eu estivesse conhecendo Sean agora, nunca imaginaria que os dois não formavam um casal de verdade. – Então, seu plano está funcionando? – Parece que sim, o que é ótimo, porque o tempo está passando. – Cat deixou escapar um suspiro e relanceou o olhar à porta. – Por falar em tempo, é melhor eu ir embora se quiser deixar tudo preparado antes das 17 horas. Talvez faça o jantar para as crianças, antes de sair. Se eu deixar por conta da minha neta, ela


é capaz de arrancar o couro daquele pobre homem e lhe dar apenas um sanduíche de queijo no jantar. – Então, vejo-a às 17 horas – disse Russel. Cat anuiu e se dirigiu à porta aberta, mas ele lhe segurou a mão, fazendo-a estacar. Após um beijo longo e profundo, ela voltou a sentir as borboletas se agitando no estômago outra vez. – Esperarei, ansioso. – VOCÊ NÃO é muito bom nisso – disse Emma, rindo da frustração estampada no rosto de Sean. – Você está me distraindo – retrucou ele, retirando a mão que se encontrava sob a da camiseta de Emma para lhe tocar as costas. – Como o estou distraindo? – Ela chacoalhou o saco diante dele para lembrá-lo de que deveria retirar duas letras para substituir o “G” e o “T” que ele utilizara para formar “GATO”. – Você está muito sensual. E fez isso de propósito para que eu não conseguisse me concentrar no jogo e você ganhasse. Emma soltou uma risada. Era verdade que vestira um short de flanela largo e a velha camiseta do Red Sox, após tomar banho, apenas para distraí-lo do jogo. – Você é que está me distraindo sem camiseta. E está fingindo esfregar minhas costas apenas para bisbilhotar


meu jogo. – Não há nada de errado nisso. Sean esticou o pescoço para ver melhor e ela o empurrou. Não era fácil jogar Scrabble quando se encontravam sentados lado a lado no sofá, mas, após um longo dia de trabalho, nenhum dos dois desejava se acomodar no chão. Haviam encontrado um bilhete deixado pela avó na bancada da cozinha, quando chegaram em casa. Cat saíra para jantar e ir ao cinema com Russell e os avisara para que não a esperassem acordados. Também havia deixado um guisado no refrigerador com instruções detalhadas de como esquentá-lo. De banho tomado, bem alimentados e em face de uma noite longa e chuvosa, ambos optaram pelo jogo de tabuleiro. E, por ironia, Scrabble fora a opção de Sean. – Retornou a ligação do seu irmão? – perguntou ela, enquanto observava o tabuleiro. Ryan telefonara enquanto os dois estavam concentrados em remover uma extensão de folhas de carvalho venenoso para uma família com vários filhos, e Sean lhe enviara uma mensagem por correio de voz. – Ainda não. Voltarei a contatá-lo amanhã. – Está tentando evitá-lo? – Emma colocou um “T” e um “O” ao final de “VO”, e anotou a pontuação.


– Sim. – Sean rearranjou algumas letras em seu tabuleiro e franziu o cenho. – Eles estão se revezando em me telefonar para ver se alguém ganhou a aposta. E ele não lhes diria porque algum deles poderia contar para a esposa, e Sean não queria que elas encasquetassem ideias na cabeça. Emma estava prestes a lhe dizer que era bobagem evitar os irmãos por causa de uma aposta estúpida, quando ele assentou suas letras, acrescentando “Q”,“U”,“A” e um “R” em um quadrado-bônus de palavra tripla, antes do “T” que Emma havia colocado e adicionou um “Z” e um “O” ao fim. – Você não acabou de colocar um “Q” e um “Z” em um quadrado-bônus de palavra tripla – disse ela, incrédula. – Acho que isso me coloca na liderança – retrucou ele com um sorriso, enquanto pegava um lápis e um papel. – Nunca subestime um Kowalski. Não gostamos de perder. – É óbvio que não está me achando tão sensual assim. Talvez eu devesse ter aplicado um pouco de rímel. Sean a segurou pelo braço e a puxou para perto. – Não precisa borrar o rosto para ficar sensual. – Apenas uma manchinha ali e outra aqui?


Sean soltou uma risada e se inclinou para beijá-la, mas ela desejava mais e atirou uma das pernas sobre as dele de maneira que ficasse sentada sobre seu colo. Ele gemeu contra os lábios macios, as mãos longas rumando pelos quadris de Emma ao mesmo tempo em que ela o empurrava contra o sofá. – Agora tenho certeza de que você está tentando me distrair – murmurou ele contra os lábios de Emma. – Também não gosto de perder. Foi a vez de Emma gemer, quando ele lhe prendeu um dos mamilos entre os dentes com suavidade. O tecido fino da camiseta não contribuía em nada para amortecer a deliciosa sensação. Sean lhe ergueu a camiseta até que os seios firmes ficassem expostos. Emma tentou lhe abrir a braguilha da calça, mas o braço musculoso a bloqueou. Em seguida, ele escorregou uma das mãos sob a perna larga do short e a encontrou... nua. Gemendo, Sean introduziu os dedos na pele úmida e quente. Em reação, ela lhe apertou os ombros com força. – Por favor, diga-me que não precisamos subir até o quarto para pegar um preservativo. – No bolso traseiro. Emma se inclinou para baixo, junto com ele, para que Sean pudesse retirar o preservativo do bolso. Em seguida, ajudou-o a escorregar a calça jeans pelos


quadris. O pé dela atingiu a mesa de centro, que escorregou sobre o tapete pequeno e espalhou todas as peças do tabuleiro. Emma soltou uma risada enquanto ele rasgava a embalagem do preservativo. – Agora, ninguém poderá ganhar. – Eu estava na liderança. – Sean espalmou uma das mãos no quadril curvilíneo, utilizando a outra para posicionar o sexo de maneira a penetrá-la. – Portanto, venci. Emma gemeu quando se sentiu preenchida, amparando-se contra o sofá, com as mãos nas laterais da cabeça de Sean. – O jogo não havia acabado. Empatamos. Sean investiu com força dentro dela, fazendo-a gemer. – Ora, admita que ganhei. Emma fitou os olhos azuis estreitados pelo divertimento, enquanto ele lhe sorria. Deus! Amava... fazer sexo com aquele homem. – Uma palavra bem pontuada não significa vitória. – Não era isso que dizia a contagem. – Ele parou de se mover e, quando Emma tentou ondular os quadris, foi impedida pelas mãos fortes. Em seguida, Sean teve a audácia de soltar uma risada baixa diante do gemido de


frustração sexual que ela deixou escapar. – Admita. Posso permanecer imóvel pelo resto da noite. – Oh, é mesmo? – Emma foi direto em seu ponto fraco, mordendo-o de leve e sugando o lóbulo da orelha. Quando ele retirou uma das mãos dos quadris de Emma para tentar impedi-la de continuar com aquela doce tortura, ela os ondulou. Com um gemido, Sean retornou a mão ao mesmo lugar. Ela soprou de leve onde havia sugado, antes de lhe traçar o contorno da orelha com a ponta língua. – Admita que eu iria ganhar – sussurrou Emma. – Porque posso fazer isso a noite toda. Com uma das pernas, Sean chutou a mesa, fazendo as peças voarem para todos os lados. Mas, antes que Emma esboçasse reação, encontrava-se deitada de costas sobre o tapete, com ele encaixado entre suas pernas e as mãos lhe amparando a cabeça. – Eu não perco. – Ele lhe cruzou os pulsos acima da cabeça para que pudesse segurá-los com apenas uma das mãos. Em seguida, utilizou a outra para enroscar uma das pernas de Emma em torno de sua cintura e, desse modo, se enterrar todo dentro dela. – Desiste? Emma fez que não com a cabeça, embora não tenha conseguido suprimir um suspiro quando ele recuou


lentamente para voltar a investir com a mesma vagarosidade até preenchê-la outra vez. – Você está trapaceando. Sean repetiu o movimento várias vezes. A fricção era lenta, deliciosa e frustrante ao mesmo tempo, até que ambos se encontrassem trêmulos e na iminência do clímax. Mas, no momento seguinte, enquanto ele retrocedia com um autocontrole impressionante, Emma desejou gritar. Era uma questão de vida ou morte, porque seria capaz de fenecer se não aplacasse o anseio do próprio corpo. – Está bem, você venceu. Sean a penetrou com um movimento forte. Os dedos pressionavam os pulsos delicados antes de soltá-los para erguer as pernas macias e bem torneadas e as apoiar em seus ombros. Ela gritava o nome dele enquanto Sean lhe segurava os quadris com força e proporcionava a ambos o que mais desejavam. Quando sentiu o peso Sean sobre ela e a respiração pesada lhe soprando o pescoço, Emma enroscou as pernas e os braços em torno do corpo musculoso, envolvendo-o com força. – Mais uma marca na coluna das vitórias – disse ele, quando ambos haviam recuperado o fôlego. – Uma vitória de araque, porque você trapaceou.


– Tudo é válido no sexo e no Scrabble, querida. – Sean apoiou a cabeça em uma das mãos e lhe sorriu. – O que vamos jogar agora? – Ainda estou vestida. Nós ainda estamos parcialmente vestidos. Talvez possamos jogar baralho. – Você é a garota ideal, Emma Shaw – disse ele e, felizmente, Sean já estava se levantando do chão, porque ela não sabia se conseguiria disfarçar a felicidade que aquelas palavras a fizeram sentir. SEAN OLHOU fixamente para se certificar de que o furo estava alinhado de maneira perfeita e introduziu o último parafuso. No dia seguinte, colocaria os assentos no banco embutido e o deque estaria concluído. Bem a tempo, já que o dia seguinte seria o último dia de trabalho. Ele e Emma tirariam quinta e sexta-feira de folga para ficar com Cat, que viajaria no domingo. O que significava que ele também estaria partindo no domingo. – Belo trabalho – elogiou Emma, fazendo-o se sobressaltar por estar perdido em pensamentos e não ter lhe percebido a presença. – Disse-lhe que ficaria bom. Se bem conservado, este deque durará mais do que a casa. – E não seria ele a conservá-lo. Emma teria de providenciar o


impermeabilizante ou contratar alguém que o fizesse. Afinal, ele não estaria mais por perto. – Conseguirá concluir os bancos amanhã? – Sim. – Sean girou e olhou ao redor da propriedade que Emma transformara enquanto ele construía o deque. – Eles adorarão esta casa. Emma retirou as luvas de trabalho e as atirou próximo à caixa de ferramentas de Sean. – Concordo. Ficou muito mais harmônico do que imaginei. Ambos formavam uma boa dupla, assim como imaginara, mas ele decidiu não dar voz ao pensamento. Tomar cuidado com o que dizia era algo que ele vinha fazendo com frequência ultimamente. Na tarde do dia anterior, fora com Emma ver a propriedade à margem do lago e quase comentara que precisavam reconstruir a doca para barcos do proprietário. E, quando pararam no mercado para comprar alguns bifes, ele percebera que as carnes para assar estavam em promoção e quase perguntara se Emma precisava de uma panela elétrica de cozimento lento, porque não havia nada como comer carne assada naquele tipo de panela em um dia frio de outono. Por sorte, lembrara-se, a tempo, de que não estaria ali nos dias frios de outono, antes de arriscar qualquer sugestão. E, mesmo que conseguisse um emprego de


batedor de pregos após partir, não deveria aceitar a proposta de bater pregos com ela. Emma conseguira se impregnar em sua essência de um modo que a única forma de sair dali seria partindo sem olhar para trás. – Você está bem? Sean empurrou os pensamentos para o fundo da mente e a fitou. Emma o olhava com a testa franzida. – Sim, por quê? – Por um instante, pareceu tristonho. – Estou apenas com fome. Pensando sobre aqueles bifes que compramos e como será delicioso saboreá-los esta noite. Emma lhe dirigiu um olhar incrédulo, mas nada comentou. – Devíamos começar a guardar as ferramentas. Não percebi o quanto era tarde, e minha avó gosta de comer cedo. Sean começou a juntar os instrumentos de trabalho, imaginando se Emma teria momentos como aquele, em que fazia planos ou pensava em algo que os dois fariam juntos, antes de se lembrar de que ele não estaria mais ali na manhã de segunda-feira. E, se tivesse, isso importava? Após levar a caixa de ferramentas para o caminhão, ajudou Emma a limpar as dela e as recolheu também.


– Vou sentir falta de tê-lo por perto – disse ela em tom leve, carregando apenas as luvas que usara. – Terei de voltar a carregar peso. Seria aquela a única razão? – Deveria contratar alguém. Se pode me pagar, por que não a outra pessoa? Emma se limitou a dar de ombros, como se talvez fosse considerar a possibilidade, e ele deixou morrer o assunto. O que ela fazia com a empresa que montara não era de sua conta. Após guardar as ferramentas de Emma numa caixa e colocá-la no porta-malas da caminhonete, limpou as mãos e abriu a porta do carona, já que ela se encontrava parada lá, fitando-o. – O que o está incomodando? – Emma perguntou outra vez. – E não me diga que está com fome. O que poderia dizer? Não confessaria que se encontrava taciturno por não a perceber arrasada com o fato de que, em breve, ele partiria para sempre, exceto por não o ter por perto para carregar as ferramentas. Em vez disso, Sean a pressionou contra a parte interna da porta aberta da caminhonete e a beijou. Mas, ao que parecia, o beijo não foi bom o suficiente, porque Emma o empurrou. – Não fuja do assunto. Já discutimos o fato de seus beijos não conseguirem sequestrar minha capacidade de raciocínio.


– Está bem. Construir um deque sozinho é um trabalho pesado e estou cansado. E também tenho pensado muito sobre o que farei a partir da semana que vem, porque viver como um desempregado preguiçoso não faz meu estilo. E lá estava uma abertura. Se ela tivesse algum interesse em manter o que quer que existisse entre ambos, iria ao menos lhe oferecer aquele emprego. Não que ele desejasse ser um paisagista, mas Emma podia ao menos sugerir que trabalhassem juntos. – Está bem. – Ela deixou escapar um suspiro. – Voltará para o mesmo ponto em que estava antes de eu bater à sua porta, portanto tenho certeza de que descobrirá o que fazer. E, se me deixar dirigir até em casa, prometo lhe fazer uma massagem mais tarde. De volta ao sexo. Uma forma incontestável de lembrá-lo da natureza daquele relacionamento. Bem, podia se contentar com aquilo. Abandonando os pensamentos sentimentais, Sean sorriu e enganchou os dedos nos bolsos dianteiros da calça jeans que ela usava. – Que tal eu dirigir e lhe fazer uma massagem mais tarde? – Não me deixará dirigir, certo? – Eu tenho o instrumento mágico, portanto fico com as chaves, lembra?


Emma soltou uma risada e tentou empurrá-lo. – Sim, você tem o instrumento mágico. Um tremendo instrumento. Sean a beijou de novo, mas dessa vez até que ela se rendesse e lhe envolvesse o pescoço com os braços. Restavam apenas alguns dias para beijá-la, portanto pretendia tornar aqueles momentos uma prioridade. – Está bem – suspirou ela, quando Sean a soltou. – Pode dirigir. Mas eu escolho que parte de mim você massageará. – Posso aceitar essa condição. – Sean lhe deu uma palmada de leve nas nádegas, quando ela subiu na caminhonete e, em seguida, soltou uma risada, enquanto contornava o veículo e a viu fazer um gesto obsceno com o dedo médio através do para-brisa. Ele a faria pagar por aquela ousadia.


CAPÍTULO 18

– PRECISAVA PEGAR outra caixa de pregos, mas quando cheguei na caminhonete, percebi que havia deixado a carteira em minha caixa de ferramentas. Quando contornei a casa para pegá-la, ela havia aberto uma por uma das minhas plantas e estava conferindo todas as medidas que fiz. As bochechas do rosto de Emma queimavam enquanto Cat ria da história que ele lhe contava, mas, como não podia contradizê-lo, colocou o último pedaço do delicioso bife que Sean grelhara na boca. – Essa é a minha Emma – disse a avó. – Acho que as primeiras palavras que ela disse foram: “se quer algo bem feito, faça você mesmo”. – Em minha defesa – retrucou Emma, quando engoliu a carne, apontando o garfo na direção de Sean para dar mais ênfase ao que iria dizer –, devo lembrá-lo de que é o meu nome que está pintado na


caminhonete, e pregar pregos bem não o torna um construtor. Tenho responsabilidades para com meus clientes e gosto de me certificar de que tenham um trabalho de qualidade. – Eu faço um trabalho de qualidade. – Sei que você construiu um ótimo deque, mas escadas são traiçoeiras. – Emma lhe voltou um sorriso doce. – Tive de me certificar. – Está tudo pronto, exceto os assentos embutidos, e ficou bem feito, embora eu tivesse praticamente de amarrá-la a uma árvore com fita adesiva para poder trabalhar em paz. Emma poderia ter se ofendido com aquelas palavras, se não fosse o fato de ele estar roçando o pé ao dela sob a mesa. Em seguida, cutucou-a para que ela o fitasse e lhe piscou. Aquele gesto, somado a um sorriso irresistível, tornou impossível todo e qualquer aborrecimento. – É a vez de Sean lavar a louça. Emma, você seca e eu guardo. – Eu lavo. Sean seca. – Posso lavar – disse ele. – Não será o fim do mundo se eu lavar os talheres antes dos copos. – Isso me dá arrepios. – Eu sei. E é por isso que o faço. – Sean se inclinou e a beijou, antes que ela pudesse verbalizar qualquer


protesto. – Aquela série sobre o policial infiltrado que eu gosto vai passar esta noite – disse a avó, enquanto retiravam a mesa. – Talvez Sean consiga ver o episódio todo sem cair no sono. Ele soltou uma risada e começou a encher a pia com água quente e detergente. – Desculpe, mas, se aquele homem continuar a enfiar o revólver no cós da calça daquela forma, acabará atirando no próprio... Em um lugar que os homens não gostam de ser baleados. Emma o observou mergulhar os pratos e os talheres na pia, enquanto as três canecas de café se encontravam sobre a bancada esperando para serem lavadas, mas se forçou a ignorar a cena. – Não pode ser pior do que o filme da outra noite. – Esse também foi péssimo – concordou Sean, enquanto Cat ria. Os três haviam tentado assistir a um filme de ação militar e, após quinze minutos de exibição, Emma pensou que teriam de sedar Sean para poder ver o restante do filme. Após um discurso acalorado sobre o que os helicópteros eram capazes de fazer, conseguira fazer com que ele se calasse. Ainda assim, Sean continuou a bufar de escárnio com tanta frequência


que a deixara surpresa por não ter causado um dano permanente às narinas. – Não quero que pense que é assim na vida real – defendeu-se Sean. – Prometo – retrucou Cat – que se algum dia quiser usar um tanque para libertar alguém da prisão federal, eu o consultarei antes para fazê-lo da maneira correta. Sean lhe beijou o topo da cabeça. – Obrigado. Ao menos você aprecia minha opinião; ao contrário de Emma, que só sabe me mandar calar a boca. – Apreciaria mais se o molho da salada não estivesse flutuando na água onde você está prestes a lavar minha caneca de café. – De acordo com meu manual masculino oficial, se eu continuar a lavar a louça da maneira errada, em breve você me deixará assistir ao SportsCenter enquanto termina a tarefa para mim. – Nesse manual também está escrito que, se isso acontecer, você também estará liberado para assistir aos programas esportivos da madrugada, enquanto eu faço outras coisas sozinha? As pontas das orelhas de Sean se tornaram rubras enquanto ele relanceava o olhar a Cat, mas a senhora se limitou a soltar uma gargalhada.


Emma não sabia precisar exatamente quando, mas em algum momento o tempo que passava em companhia da avó e de Sean se transformara em uma nova normalidade que muito a agradava. Risadas à mesa do jantar. Provocações durante a lavagem da louça. A avó sentada em sua cadeira preferida, tricotando enquanto os três assistiam à televisão. Sean estirado no sofá com a cabeça apoiada em seu colo. Era capaz de lhe acariciar os cabelos ou beijá-lo na cozinha sem que aqueles pequenos gestos lhe parecessem uma farsa. Sem a presença turbulenta dos Kowalski, os três haviam adotado uma rotina noturna tranquila que a cada dia lhe parecia mais real. Foi um comercial sobre turismo na Flórida que estourou a bolha de felicidade de Emma. Embora muito divertido, o anúncio funcionou como um lembrete de que, em menos de uma semana, a avó estaria voando de volta a North Fort Meyers e, por conseguinte, Sean também estaria partindo. Voltaria a ficar só. Antes, o fato de morar sozinha nunca a incomodara, até gostava de ter aquela casa enorme toda para ela. Mas agora não conseguia se imaginar sentada, sozinha, assistindo à televisão. Ou esquentando comida no micro-ondas, sem ter ninguém com quem conversar ou dar boas risadas.


Mas a avó não era a única pessoa que faria falta em sua vida. Sean, também. E o pensamento a assustou de tal forma que a fez cutucá-lo e lhe dizer que queria se levantar do sofá. – Algum problema? – Sean lhe tocou o rosto, sem conseguir disfarçar a preocupação. – Sim. Preciso apenas... Volto já. Emma subiu a escada na direção do quarto do casal... seu quarto… e se trancou no pequeno toalete. Uma vez lá, descobriu um possível culpado para o estado emocional em que se encontrava, mas sabia que era bem pior do que apenas os hormônios descendo e subindo a montanha-russa mensal. Os avisos de Sean não haviam sido suficientes para impedi-la de alimentar ideias descabidas. Temia ter se apaixonado por ele e não ser capaz de esquecê-lo. Que maravilha, pensou sarcástica, pressionando as palmas das mãos contra os olhos em um esforço para deter as lágrimas. Agora teria de fingir não amar o homem que estava fingindo amar, enquanto fingia dormir com ele. SEAN ESPEROU vinte minutos antes de decidir procurá-la. Era óbvio que algo a deixara aborrecida, e o instinto lhe dizia que fora o comercial sobre a Flórida. Agora que só faltava uma semana para a partida da avó, o anúncio a


despertara para o fato de que Cat em breve voltaria para casa. – Quer que eu pause o programa? – Cat perguntou, quando ele se levantou do sofá. – Não, pode continuar assistindo. Vou ver como está Emma. Acho... acho que talvez ela não esteja se sentindo muito bem, portanto não sei se voltarei. Cat o fitou com um sorriso afetuoso e voltou a se concentrar no tricô. Sean subiu a escada e se encaminhou ao quarto de ambos. Emma se encontrava enroscada no sofá, envolta em um cobertor e recostada ao travesseiro que levara para lá. – O que aconteceu? – perguntou ele, agachando-se diante dela, afastando-lhe uma mecha de cabelos do rosto e percebendo que Emma estivera chorando. – Nada. – Foi o comercial sobre a Flórida? Emma hesitou por alguns segundos, antes de anuir. – Vou sentir saudades dela. Minha avó é uma mulher e tanto. Ele limpou uma lágrima que escorreu pelo rosto de Emma. – É só isso que a está aborrecendo? Emma deu de ombros em um gesto débil. – Estou apenas cansada. Sean lhe afastou os cabelos para trás da orelha.


– Então, vamos nos deitar. Por que está no sofá? – Porquê... – Ela fungou ao mesmo tempo em que as bochechas do rosto se tornavam rubras. – É que... uh... estou naqueles dias. – Oh! – “Problemas de encanamento”, como seu tio tão delicadamente se referia àqueles dias, em parte justificavam o estado em que ela se encontrava. – Você se sentirá melhor na cama. Emma fez que não com a cabeça e puxou o cobertor para cobrir o rosto, portanto ele se levantou e considerou as próprias opções. Poderia voltar para o andar térreo e terminar de ver o episódio da série com Cat, mas não lhe agradava a ideia de deixar Emma sozinha, apesar de não haver nada que pudesse fazer para lhe abrandar o sofrimento. Ou poderia permanecer deitado ao lado do sofá a observando, portanto entrou no toalete e se preparou para dormir. Após apagar a luz e dar palmadas no travesseiro para baixá-lo, se esparramou na cama e tentou dormir. Desfrutava da cama sozinho e não precisava dividir as cobertas, portanto deveria estar se sentindo confortável. Mas a mente não se desgrudava de Emma, do outro lado do quarto. Sean não a queria deitada no sofá. Não conseguiria dormir se não a tivesse ao seu lado, onde ela deveria estar.


Descerrando as pálpebras, fitou o teto. Estava enganado. Emma não deveria estar dormindo ao seu lado, e sim no sofá, onde se encontrava no momento. A relação dos dois não era real, portanto ele deveria ser capaz de fazer algo tão simples quanto adormecer sem tê-la em seus braços, droga! Estaria partindo em menos de uma semana. Talvez voltasse para o apartamento sobre o Jasper’s Bar & Grille. Ou, diabos, voltasse para o Maine e ficasse em Northern Star até decidir o que queria fazer da vida. Ou subiria na caminhonete e dirigiria até o Novo México para visitar a irmã. Não importava o que fizesse ou para onde fosse, Emma estaria fora de sua vida. Quando ela fungou e mudou de posição no sofá pelo que pareceu a décima vez nos dois últimos minutos, Sean achou que era o suficiente. Emma não escolhera o sofá por achá-lo mais confortável, e sim por pensar que não havia motivo de dividir a cama com ele se não pudesse lhe oferecer sexo. Sean se levantou e cruzou o quarto. Em seguida, atirou o cobertor de Emma sobre o encosto do sofá, ergueu-a nos braços, com travesseiro e tudo, e a carregou para a cama. A forma com que Emma o fitou, sonolenta e questionadora, enquanto ele se acomodava ao seu lado na cama, o fez experimentar um aperto no peito.


– Não consigo dormir com você virando de um lado para o outro no sofá, é só. Sean só voltou a fechar os olhos depois que ela se aconchegou ao seu corpo e adormeceu. Ainda assim, não conseguiu pegar no sono, porque não era apenas a agitação de Emma que o incomodava. O fato de a própria vida se estender adiante, como uma estrada infinda, sem obrigações ou amarras, o fazia se sentir vazio por dentro, e aquilo estava lhe tirando o sono. Ele devia ter acabado adormecendo, porque o despertador o fez acordar sobressaltado. Emma se encontrava deitada de lado, de frente para ele. Sean sorriu quando ela descerrou as pálpebras. – Como está se sentindo esta manhã? – Eu me sentiria melhor se você se levantasse e desligasse o despertador. – Ela o ligara à tomada próxima ao sofá, como fazia no início do não relacionamento dos dois. – Agora está querendo se aproveitar da situação – disse ele, embora já estivesse se levantando para desligar o despertador. Em seguida, girou na direção da cama e congelou. Emma o fitava, com os olhos sonolentos e os cabelos espalhados pelo travesseiro. Um sorriso curvou aqueles lábios macios e Sean se descobriu o retribuindo.


Deus! Aquela mulher era estonteante, desgrenhada, com uma camiseta puída e tudo mais. – Estou faminta – disse Emma, antes de se espreguiçar. Ele se apressou em virar de costas. Afinal, não queria descer para o café da manhã caminhando de forma esquisita. – Quer que lhe sirva uma bandeja na cama? – Como em um serviço de quarto? – Não sei. – Sean deu de ombros. – Não sei se você está em condições de descer. Ou ir trabalhar. – Estou bem, e você tem apenas dois dias para concluir aquele deque. Pode usar o toalete primeiro e depois trocarei de roupa. Cat estava virando a primeira partida de panquecas de banana, quando Sean adentrou a cozinha. – Bom dia – disse ele. – Bom dia. Como está Emma hoje? – Melhor. Ela está... uh... naqueles dias – explicou Sean, optando pela terminologia que Emma usara na noite anterior. – Ah! Isso não costuma afetá-la muito. – Acho que ela também se deu conta de que você não ficará aqui por muito mais tempo. – Tampouco ele. Emma talvez estivesse aliviada por não o ter em seu encalço. Dessa forma, poderia voltar a dirigir o próprio


carro, dormir em seu lado preferido da cama e lavar a louça na ordem que bem lhe aprouvesse. – Também sentirei falta da minha neta – retrucou Cat. – De vocês dois. – Ficarei com saudade de sua comida, sem dúvida alguma – brincou ele, sentando-se diante da prateira de panquecas sobre a mesa. – Acha que nós podemos persuadi-la a ficar? – perguntou, estacando com o garfo a meio caminho da boca. Tinha de parar de falar daquele jeito. Não havia nenhum “nós”. – Sinto falta de Emma, mas adoro a Flórida. Sean estava comendo a segunda panqueca, quando Emma desceu a escada parecendo bem melhor do que na noite anterior. Beijou o rosto da avó, pegou uma panqueca e desapareceu pelo corredor, na direção do escritório. – O que fará hoje, Cat? – perguntou ele, quando a senhora estacou observando a neta se afastar, com olhar preocupado. – Oh, talvez eu vá até o centro da cidade ver se consigo passar uma lábia em Russel para que me pague um almoço. Sean imaginou como ficaria aquele romance que começava a aflorar, já que Cat estaria partindo dentro de alguns dias, mas não cometeria a indiscrição de perguntar.


– Acho melhor eu calçar minhas botas. Se não me aprontar antes de Emma, talvez ela consiga pegar a chave do carro primeiro. – Cat lhe tocou o ombro por um instante, enquanto se inclinava para pegar o prato vazio que ele deixara sobre a mesa, e Sean sentiu uma pontada de... alguma coisa. Talvez, culpa. Mas também afeição e tristeza pelo fato de que, em breve, Cat sairia de sua vida, sem saber que seria para sempre. A caminho do saguão, ele estacou para beijar o rosto da senhora. – Dê um abraço em Russel por mim. – Tente não permitir que minha neta o enlouqueça hoje. – Sem chances – retrucou ele, com um sorriso, encaminhando-se para pegar o chaveiro de Emma, antes que ela concluísse o telefonema. O SINO da porta soou quando Cat entrou no Walker Hardware, a expressão se iluminando ao antecipar o sorriso afetuoso que se estamparia nos lábios de Russel, quando ele erguesse o olhar e a visse. E, como previra, ele não a decepcionou. – Estava pensando em você – disse Russel. – Bons pensamentos, espero. – Claro que sim. Estava pensando em lhe telefonar e convidá-la para almoçar, mas não sabia se você teria outros planos com Emma, já que... partirá em breve.


Talvez fosse fruto da imaginação, mas ela podia jurar que o sorriso de Russel havia vacilado quando mencionou sua partida. – Eles têm de trabalhar hoje, mas folgarão amanhã e sexta-feira. Na verdade, vim convidá-lo para almoçar. Cat o encontrou na lanchonete de costume, no centro da cidade, onde pediu uma salada. Russel disse que iria optar pelo frango grelhado em vez de frito. – Seria uma pena ter de ir para o inferno antes do tempo. Os dois conversaram sobre a loja e a liquidação. Não estava indo tão bem quanto ele imaginara porque as pessoas não se sentiam à vontade comprando a um preço tão módico. – Uma das minhas clientes costumeiras disse que se sente comendo minha carcaça. Cat soltou uma risada. – Essa é uma imagem horripilante, mas acho que entendo o que ela quis dizer. É louvável que as pessoas se importem com seus sentimentos. – Essa é uma das muitas razões pelas quais amo esta cidade – retrucou ele, bebendo um gole de água. Cat retribuiu o sorriso, embora sentisse uma pontada de dor aguda no peito. Russel não apenas amava aquela cidade, mas toda sua família vivia ali. Além dos amigos. Andara alimentado a ideia tola de


convidá-lo a ir à Flórida. Talvez para visitá-la ou algo mais. – Já descobriu o que fará com Emma? Cat deixou escapar um suspiro. – Não, mas, se não fizer algo, vamos nos despedir com essa bobagem entre nós, e isso não me agrada. – Ainda está planejando passar a casa para o nome dela? – Claro que sim. John e eu queríamos que ela ficasse com a propriedade antes mesmo de ela crescer e decidir morar lá. – Cat colocou uma garfada da salada na boca sem saber o que iria fazer. – Disse-me que ela ficou aborrecida no churrasco que fizeram no feriado de Quatro de Julho, quando você mencionou lhe dar a casa de presente de casamento. Por acaso, voltou a tocar nesse assunto? – Não. Naquele dia, achei que Emma estava prestes a confessar tudo, e não queríamos que ela o fizesse. Quando digo nós, estou me referindo a mim e a Mary Kowalski. Nossa intenção era permitir que minha neta e Sean desfrutassem de um tempo maior de convivência. Russel anuiu, como se aquela linha de pensamento fizesse todo sentido. – Mas, agora, o tempo está se esgotando.


– Estou pensando em tocar no assunto com ela amanhã. Tenho de consultar um advogado, portanto talvez seja melhor iniciar o processo, antes de voltar para a casa. – E acha que ela vai confessar? – Acho que Emma não aceitará a casa como presente de casamento sabendo que é uma mentira. Tenho certeza. Cat brincou com o garfo no purê de batatas. – E o que espera que aconteça entre ela e Sean, então? Aquela era uma pergunta difícil. – Espero que, quando confrontados com a despedida, ambos percebam que não desejam se separar. Talvez continuem do jeito que estão agora, só que não mais vivendo uma mentira. – Aqueles dois parecem um casal feliz de fato. – Eles são mesmo bons juntos, embora ache que nenhum dos dois esteja percebendo isso. – Cat deixou escapar uma risada abafada. – Só minha neta para escolher ao acaso o homem certo para ser o noivo de mentira!


CAPÍTULO 19

MESMO COM

o despertador desligado, Emma acordou assim que o dia amanheceu. Ela e Sean não trabalhariam nos últimos três dias que antecediam a viagem da avó para a Flórida, portanto escorregou para fora da cama com cuidado para não o acordar, vestiu o short e a camiseta. Não a surpreendeu o fato de a avó estar acordada. Não havia nenhum sinal do café da manhã ainda, mas Cat se apressou em lhe dizer que fizera café, além de uma xícara de chá para si mesma. Emma se serviu de uma caneca e se sentou à mesa. – Não posso acreditar que temos apenas mais três dias juntas – disse ela, após tomar o primeiro gole. – Eu sei. Também sentirei sua falta, querida, mas gosto de morar lá, dos amigos e de minhas atividades. Um sorriso curvou os lábios de Emma.


– Fico feliz por você, vó. Sabe que morro de saudades, mas é bom saber que sua vida está repleta de coisas boas. – Mas, antes de partir, vou até à cidade consultar um advogado para passar a casa para o seu nome. Os únicos goles de café que Emma colocara no estômago ameaçaram voltar. – Já lhe disse que pretendo comprá-la de você por um preço justo. Vamos pesquisar como está o preço de uma propriedade como esta no mercado e depois você a venderá para mim. – Isso é ridículo. Estou lhe dando de presente. – Não me sinto bem com isso. E será bom para a minha empresa construir algum patrimônio. A avó bufou irritada. – Então, compre um carro novo ou alugue um trator ou algo parecido. Não comprará uma velha casa de fazenda. Estou decidida. Droga! Quando Cat falava daquela forma, era sinal de que nada a faria mudar de ideia. Mas não permitiria que a avó lhe desse a casa de presente, sem saber a verdade. Emma fitou o café por um minuto e inspirou fundo. Quase haviam conseguido, mas estava na hora de colocar as cartas na mesa. – É tudo uma mentira, vó. Tudo isso. Não haverá um casamento.


Lá estava. Dizia a verdade, e todo aquele mês fora em vão. Agora, a avó ficaria furiosa e talvez decidisse vender a casa para um estranho. E Sean não teria mais nenhuma razão para ficar. Não sabia dizer qual das duas alternativas a faria sofrer mais. – Acho que mereço uma explicação. – Inventei um namorado para que você parasse de se preocupar com o fato de eu morar aqui, sozinha. O nome de Sean surgiu meio que por acaso. Ele ainda estava trabalhando no Exército um mês atrás e eu o vi pela primeira vez quatro dias antes de sua chegada. Bati à porta dele e pedi para que fingisse ser meu noivo. A avó se limitou a soltar uma risada entre dentes. – Deve ter sido uma conversa interessante. Emma ficou confusa. Aquela era a última reação que esperava da avó. Estivera rezando e desejando que sua confissão não colocasse um fim à relação das duas, mas jamais previra que Cat soltasse uma risada. – Não está aborrecida? – Emma a fitou nos olhos, reconhecendo a verdade com certa relutância. – Você já sabia. – Claro que sim. Casais que vivem juntos há um ano se mostram mais à vontade na companhia um do outro. Há familiaridade entre os dois. No instante em que coloquei o pé fora do avião, percebi que esse não era o caso entre você e Sean.


A avó soubera o tempo todo? – E por que não me disse nada? – Porque queria descobrir o que você estava tramando. E, depois, eu e Mary decidimos que vocês precisavam de mais algum tempo para se conhecer melhor. – Oh, meu Deus! – Emma cobriu o rosto com as mãos. – A sra. Kowalski sabia que você descobriu a mentira? – Quase tive de arrancar a verdade à força de Mary, mas quando ela percebeu que eu sabia que vocês dois estavam mentindo, desistiu de guardar segredo. Mas devo confessar que fiquei um pouco chateada com o fato de você achar que me enganaria tão facilmente. – Quando percebi o quanto esse plano era maluco, já estava enterrada até o pescoço nele. Sei que parece tolo, mas fiz isso porque a amo. Queria que você parasse de se preocupar comigo e aproveitasse melhor sua vida na Flórida. – Nunca deixarei de me preocupar com você. Mas talvez tenha lhe dado a impressão de que estava me preocupando mais com você do que me divertindo. Mas você também queria a casa. As bochechas do rosto de Emma se tornaram rubras. – Claro que queria a casa. Este é o meu lar. Mas queria que você a vendesse para mim. Nunca esperei


que me desse esta propriedade de presente. Tem de acreditar em mim. A avó esticou o braço sobre a mesa e lhe apertou a mão. – Sabia que você faria isso. Garanti a Mary e a Russel que minha neta jamais aceitaria esta casa de presente de casamento sem me contar a verdade, e estava certa. – Se tivesse me dito antes, não teríamos perdido um mês inteiro com essa farsa. – Oh, não acho que o perdeu – retrucou a avó, com um sorriso a lhe curvar os lábios. – Vejo que Sean não acordou cedo esta manhã. Você o manteve ocupado até tarde? Quando a insinuação incutida nas palavras da avó lhe penetrou sua mente, Emma fez que não com a cabeça. – Não é bem assim. Nós não... Não é real. – Bem, é óbvio que não se trata de fingimento. – Não. – Emma não queria ter aquela conversa. – Temos uma amizade colorida, vó. Quando Sean souber que lhe contei a verdade, fará as malas e partirá. – Talvez ele não o fizesse se você lhe pedisse para ficar. – E quem lhe disse que o quero aqui? – perguntou Emma, forçando alguma determinação na voz. Se


conseguisse convencer uma terceira pessoa, talvez acabasse acreditando naquela indiferença. – Acho que já tivemos mentiras suficientes. – Eu e Sean fizemos um trato, vó. E não incluía amor. – Passei este último mês convivendo com os dois e observei a mudança no relacionamento de vocês. Não o subestime, querida. – Cat se levantou, lavou a xícara e depositou um beijo no topo da cabeça da neta. – Vou tomar um bom banho e me vestir. Ainda tenho de ir à cidade, porque continuo determinada a passar esta casa para o seu nome. – Vó, eu... – Estou decidida, querida – retrucou Cat, enquanto desaparecia pela porta. SEAN ASSOVIAVA quando adentrou a cozinha, procurando café, mas estacou quando se deparou com Emma sentada à mesa. O nariz dela se encontrava vermelho e os olhos ainda estavam úmidos pelas lágrimas derramadas. – Contei a verdade à minha avó – disse ela. – Acabou. O ar desertou os pulmões de Sean, deixando em seu rastro uma sensação doída que ele esperava se dever à falta de oxigênio, e não a algum sintoma de coração


partido. Seria uma estupidez, já que seu relacionamento com Emma não era real. Fora tudo forjado e sempre soubera que chegaria o dia em que ele teria de partir sem olhar para trás. Mas pensara que ainda restavam três dias e meio para se confrontar com aquela realidade. – Você está bem? – perguntou ele. Emma anuiu, embora sua aparência dissesse o contrário. – E como ela reagiu? – Tinha razão quando disse que minha avó estava desconfiando do que estávamos fazendo, naquele dia, durante o trabalho. Ela sabia o tempo todo. Aquilo o pegou de surpresa. – Sabia? – Minha avó disse que suspeitou no instante em que nos viu juntos, no aeroporto, porque não parecíamos um casal... íntimo. Além disso, ela e a sra. Kowalski estão conspirando desde o primeiro churrasco. – Não entendo. Por que Cat não disse nada? E conspirando com tia Mary para fazer o quê? – Ela não disse nada porque queria descobrir o que estávamos tramando. – As bochechas do rosto de Emma coraram e ela baixou o olhar à mesa. – E as duas estavam conspirando para nos tornar um casal de verdade.


– Oh! – Sean não sabia o que dizer diante daquela revelação. – Elas pensaram que poderíamos formar um belo casal? – Uma loucura, certo? Aquela não era a direção que a mente de Sean estava tomando, mas talvez ela tivesse razão. Era uma loucura. Ambos eram muito diferentes. Encontravamse em fases diferentes na vida e desejam coisas diferentes. – Onde está Cat agora? – Tomando banho. Depois vai à cidade e... – Emma se calou, porque as lágrimas ameaçavam cair outra vez. Em seguida, inspirou fundo. – Consultará um advogado para passar esta propriedade para o meu nome. – Isso é bom. – E o motivo por que contei a verdade para ela. Minha avó estava insistindo em me dar a casa como presente de casamento, portanto tive de abrir o jogo. – Mas ela já sabia. – E também sabia que eu não aceitaria a casa tendo mentido para ela. Ela queria que eu lhe dissesse a verdade. Sean se serviu de uma xícara de café, esperando que a cafeína o ajudasse e recuperar o equilíbrio.


Embora o tivesse pegado de surpresa, aquele desfecho beneficiava Emma. Além de não precisar mais mentir para a avó, Cat não venderia a casa para um estranho e, como Emma permaneceria solteira, talvez toda aquela artimanha servisse para que Cat despertasse para o fato de que não precisava se preocupar tanto. – Fico feliz por você – disse ele, com sinceridade. O que Sean não sabia era o que sentia com relação a si mesmo. Emma anuiu, mas não parecia tão feliz quanto ele esperara vê-la. Com a casa em seu nome e ele longe dali, era surpreendente que ela não estivesse dando pulos de alegria na cozinha. Sean tomou um gole de café revigorante, sem se importar em acrescentar açúcar ou creme. – Então... Acho que é isso. Mais uma vez, Emma anuiu com um gesto de cabeça. As mãos estavam fechadas com tanta força sobre a mesa que as juntas dos dedos se tornaram esbranquiçadas. – Acho que sim. Sean se encaminhou na direção da porta, mas estacou e olhou para trás. – Tem certeza de que está bem?


– Sim. – Emma conseguiu conjurar até mesmo um sorriso frouxo. – Acho que foi a emoção. Tanto drama... à toa. Contar a verdade foi assustador, mas, ao mesmo tempo, um alívio. Portanto, deve ser o efeito do desapontamento. – Está bem. – Sean levou o café para o escritório de Emma e fechou a porta. Estava acabado. Estava livre para seguir com a própria vida outra vez. A vida de bifes, futebol, cerveja e mulheres. Voltar para sua pluralização selvagem, como Emma dissera no primeiro jantar que tiveram. Antes que pudesse digerir aquilo tudo, pegou o telefone celular e apertou o número de discagem rápida correspondente ao de Kevin. O primo atendeu no segundo toque, com voz sonolenta. Tarde demais, Sean se lembrou de que, pelo fato de ser dono de um bar, Kevin e a família costumavam ficar acordados até tarde e não acordar cedo. – Droga! Não tive intenção de acordá-lo. – Sean esfregou o rosto com uma das mãos, reconhecendo que era muito cedo para telefonar para quem quer que fosse. – Responda-me apenas uma pergunta e depois pode voltar a dormir. Aquele apartamento sobre seu bar ainda está disponível? – Aham.


– É uma longa história. Emma contou toda a verdade, portanto meus serviços não são mais necessários. – Você está bem? Sean não saberia responder. – Por que não estaria? – Está bem. Ainda tem a chave? – Sim. – Então, é seu. Passe aqui para tomar uma cerveja mais tarde, por conta da casa. Desde que não de madrugada. – Já é dia, rapaz, mas, de qualquer forma, obrigado. Sean não precisou mais do que alguns difíceis minutos para fazer a mala. Alguns minutos para esvaziar sua gaveta e menos de dois para retirar todos os seus pertences do armário. Deteve-se um pouco mais no toalete, recolhendo os artigos de higiene pessoal que lhe pertenciam. Havia acabado de retirar o pacote de preservativos da gaveta do criado-mudo e o colocado na mochila, porque de jeito algum facilitaria a vida sexual de Emma com outro homem, quando ela entrou. – Dentro de mais alguns minutos estarei fora do seu caminho – disse ele. – Tenho apenas de pegar algumas coisas lá embaixo. – Não precisa sair correndo daqui.


– Não há sentido em permanecer – retrucou Sean, talvez com um pouco mais de aspereza do que pretendia. – Oh, está bem, então. Minha avó quer que eu a acompanhe até a cidade e me disse que está pronta. – Deixarei a chave na caixa de correio quando sair. Não se esqueça de pegar depois. – Sean. – Ele atirou alguns pares de meias na mochila. Era como arrancar um esparadrapo de uma só vez. Uma saída rápida e tranquila seria melhor para todos. – Droga, é evidente que não vê a hora de sair daqui, mas minha avó quer se despedir antes de você partir. – E quanto ao churrasco de despedida de Cat? Ou não estou convidado? – Não há sentido algum em fazer sua família viajar para cá agora. Cat deve almoçar com sua tia ou algo parecido. Emma atirou algo sobre a cama. Em seguida, girou e saiu, antes que ele pudesse se desculpar. Sabia que estava agindo como um idiota, mas não conseguia se controlar. Se mostrasse qualquer sinal de fraqueza e Emma desse alguma indicação de que desejava que ele ficasse, talvez acabasse permanecendo ali, e não era esse o desfecho que desejava.


Mudou a mochila de lugar para ver o que Emma havia atirado sobre a cama. Era o pequeno anel de diamantes que ele lhe colocara no dedo um mês atrás, no dia em que a pedira em casamento. Quando o reflexo do sol incidiu na joia, a pedra pareceu lhe piscar. Sentindo apenas um grande vazio, Sean fechou os dedos em torno do anel e o apertou, antes de colocálo no bolso dianteiro da calça jeans e deixar escapar um suspiro. Seria melhor para ambos se esquecesse Emma e partisse. Mas, antes, teria de passar pelo momento que havia temido. Cat o estava aguardando ao pé da escada. Emma se encontrava ao lado da avó, mas não lhe sustentou o olhar. Era fácil perceber, pela forma como ela contraía a mandíbula, que ficara aborrecida com o que haviam dito no quarto. – Eu a esperarei no carro, vó – disse ela. Parecendo se recobrar logo em seguida, girou na direção dele e lhe estendeu a mão. – Obrigada. Um aperto de mão? Depois de tudo aquilo, estava sendo dispensado com um aperto de mão? Mas fora ele a deixar claro que nada do que existia entre ambos era real. Sean aceitou a mão estendida, roçando o polegar à pele macia.


– Nós nos vemos por aí. Emma anuiu e tentou soltar a mão. Ele lhe apertou os dedos por um segundo, mas não tentou segurá-la. E, antes que pudesse acrescentar qualquer coisa, ela girou e saiu da casa. – Vocês vão continuar agindo como dois cabeçasduras sobre esse assunto? Sean girou na direção de Cat, mas escolheu ignorar o comentário. – Vou sentir sua falta. Pode acreditar. – Embora Emma pense que dar uma festa agora não seja uma boa ideia, tenho certeza de que voltarei a vêlo. – Não sei o que farei deste ponto em diante, mas nunca se sabe. Talvez eu vá de carro até a Flórida e apareça em uma daquelas suas festas malucas na praia qualquer dia desses. Cat abriu os braços e ele a puxou para um abraço. – Será bem-vindo sob minha barraca de praia em qualquer momento. Após recuar, Sean a beijou o rosto. – Cuide-se, Cat. – E você... Não seja tão cabeça-dura. A senhora desapareceu pela porta, antes de ele a questionar sobre o significado daquelas palavras. Ouviu


a porta da caminhonete bater e o ruído do motor sumir a distância. Sean permaneceu parado onde estava por mais alguns minutos e, em seguida, se encaminhou à cozinha. Nos últimos meses, havia acumulado alguns pertences, e a bagagem não cabia mais na mochila de viagem. Pegou um saco de lixo, afinal que diferença fazia? Cruzou todo o andar térreo, recolhendo tudo que lhe pertencia. Em seguida, fez o mesmo no andar superior e nada mais lhe restava, senão subir na própria caminhonete e partir. Mas, antes, entrou no toalete e tirou bloco de folhas adesivas do bolso. Retirou uma rosa, colou no espelho, destampou a caneta e... Nada. O que poderia escrever? Algo como “Obrigado pelos bons momentos” lhe veio à mente, mas não o agradou. Talvez “Adeus”. Ou “Por que me sinto tão mal partindo neste momento?”. Sean fitou o bilhete em branco por um longo tempo. Em seguida, voltou a colocar a tampa na caneta e a guardou no bolso. Não havia mais nada a dizer, portanto pegou a bagagem e deixou a casa de Emma. CAT E Mary se encontravam em uma cafeteria, em meio a um clima de desânimo. O mês certamente não


terminara do modo com as duas previram... ou esperaram. – Emma agiu de maneira tão fria com ele antes de partirmos – comentou Cat. – Mas, meia hora depois que voltamos para casa, eu a ouvi chorar. Perscrutei pela porta do quarto e a vi sentada no chão com uma folha de papel na mão, chorando copiosamente. – Conseguiu ler o que estava escrito? – Aí é que está. A folha estava em branco. Mary franziu a testa. – Não faz sentido algum. – Não sei o que significou aquele bilhete em branco, mas sei que minha neta está muito mais envolvida com Sean do que queria que ele soubesse. – Ele não está respondendo às ligações no telefone celular. Acordei Kevin e o fiz bater à porta de Sean. Ele me disse que não o encontrou muito sociável e que deveríamos deixá-lo em paz por alguns dias. Cat fez um movimento negativo de cabeça e colocou outro cubo de açúcar no chá para ganhar energia. – Ambos são cabeças-duras. Temo que, se não os pressionarmos por alguns dias, eles acabem não se entendendo. – Quando conversei com Lisa, mais cedo, tive a impressão de que você não dará uma festa de despedida por não haver mais clima. Talvez devesse fazer a festa.


– Ainda nem pensei sobre o assunto. A reação impulsiva de Emma foi para cancelá-la, mas, para ser sincera, mesmo que ela e Sean a boicotem, gostaria de me despedir de todos. – Sean não deixará de comparecer – afirmou Mary, com a certeza de uma mulher que não tolerava nenhuma desculpa dos homens de sua vida. – Emma também não. – Talvez, passar um pouco mais de tempo juntos, sem mentiras se interpondo entre eles, é tudo de que estejam precisando. Cat sorriu e tomou um gole do chá. A parte ruim do plano seria ter de se despedir de Sean outra vez. Aquela não era uma perspectiva agradável, considerando como fora triste fazê-lo da primeira vez. Mas valeria a pena se houvesse uma chance de juntá-lo com Emma, ainda mais se isso acontecesse antes de ela retornar à Florida. As duas conversaram sobre a festa por alguns minutos, mas, quando Mary terminou de tomar o chá, colocou alguns dólares sobre a mesa. – Detesto sair apressada desse jeito, mas prometi tomar conta de Brianna esta tarde. Joe está com o prazo apertado para a entrega de um livro, e Keri está assoberbada com a edição da revista, mas o bebê não se importa com nada disso.


Quando a amiga partiu, Cat pediu chá para viagem, cruzou o gramado que levava a um parque público e pegou o telefone celular. – Walker Hardware. O simples fato de ouvir a voz de Russel iluminou o dia de Cat. – Olá. Está ocupado? – Não. Por hoje, já vendi bastante. O que houve? Cat lhe contou toda a história, começando com a confissão de Emma e terminando com a intenção de dar a festa, como planejado. – Espero que você venha. E traga Dani e Roger também. – Estarei lá. Ao que parece, teve um grande dia. Gostaria que eu fechasse a loja mais cedo? Russell era de fato um homem bom. – Não, mas obrigada por oferecer. Vou para casa ver como Emma está. Se bem a conheço, estará polindo as corrediças das gavetas e reorganizando o armário de sucata com uma máscara de alegria estampada no rosto. – Meus pensamentos estarão com você. E me telefone mais tarde se precisar conversar com alguém. – Está bem. – Cat desligou o telefone celular e deixou escapar um profundo suspiro.


Tinham dois dias para acalmar as crianças, e então veriam como os fatos se desenrolariam na festa. Tinha de torcer para que aquelas 48 horas fossem suficientes para Sean e Emma perceberam o quanto sentiam a falta um do outro.


CAPÍTULO 20

SEAN TINHA impressão de que iria se quebrar ao meio. Ou o volante da caminhonete, se não parasse de apertálo. Era o quarto no comboio de veículos dos Kowalski em direção à casa com aquelas margaridas idiotas pintadas na caixa de correio para comerem cheeseburgers e se despedirem de Cat. Era uma vantagem estar sozinho na caminhonete, porque precisava daquele tempo para se controlar e não dar vexame diante de toda a família. Aquele seria o adeus final a Emma, também. Agora que não tinham mais de fingir, deveria ser mais fácil. Um churrasco divertido, cercado por amigos e família. Sem farsas. Sem tentar se lembrar do que dizer a cada um. Mas Sean ainda estava fingindo. Tentava passar a impressão de que não se importava com o fato de seu pretenso noivado ter chegado ao fim.


O restante de sua vida se estendia adiante e chegara a hora de decidir o que desejava fazer, mas não conseguia encontrar nenhuma opção. Todas as vezes que tentava, a imagem de Emma lhe vinha à mente. Cedo demais para o seu gosto, estava estacionando nas laterais da casa para que nenhum carro ficasse bloqueado. Ainda estava em tempo de voltar atrás, cruzar o gramado e sair para a rua, mas não o faria. Teria a hombridade de encarar aquele dia infernal. Todos se encontravam no quintal dos fundos. Sean abriu caminho pelo grupo de pessoas para cumprimentar Cat e, em seguida, Russell, Dani e Roger. Emma não se encontrava lá e, quando ele olhou na direção da casa, avistou-a à janela da cozinha. Ela o observava e, segundos antes de se afastar da janela, Sean reconheceu no semblante de Emma a mesma exaustão que sentia. As crianças começaram a explorar o quintal da casa, mas não encontraram nada que lhes despertasse interesse. Bobby levara sua bola de futebol, e logo improvisaram um jogo. Sean observou Emma dizer algo a Russell e o senhor se encaminhar à churrasqueira para acender o fogo. Sabia que era uma bobagem, mas teve de desviar o olhar. Aquela fora sua função quando era o homem da casa, e ver outra pessoa assumir a tarefa o despertou


para o fato de que tudo não passara de uma farsa. Nunca fora o homem da casa de Emma, e sim um ator, desempenhando um papel. Mike lhe entregou uma cerveja e se sentou ao seu lado. – Quem de nós venceu? Sean olhou ao redor, mas ninguém estava prestando atenção aos dois. – Quem apostou em duas semanas. – E agora? Não era aquela a pergunta que não queria calar? – A que está se referindo? – Kev me contou que você voltou para o apartamento sobre o bar, mas vocês vão continuar se vendo? Sean fez que não com a cabeça e tomou um grande gole da cerveja para não ter de dar voz às palavras. – Por que não? – Esqueça isso, Mikey – rosnou ele. Emma emergiu pela porta dos fundos segurando sacos de batata chips e os pousou sobre a mesa do quintal. Em seguida, dirigiu um sorriso frouxo a Sean, antes de voltar para dentro da casa. – Deveria conversar com ela. – Obrigado, Oprah.


– De nada. Sei que, às vezes, vocês sentem pena de mim. Pobre Mikey, com uma hipoteca para pagar, uma minivan e uma vida vazia. Bem, sabe do que mais? Sinto pena de você, porque tenho uma esposa maravilhosa e quatro filhos que me enchem de alegrias todos os dias. Em vez de mandar o primo procurar outra coisa para fazer, Sean tomou o restante da cerveja e segurou a garrafa entre os dedos. – Fico feliz por você, mas nem todo homem tem esse sonho. – Concordo, mas você tem. Só que é muito covarde para tentar alcançá-lo. Sean fez que não com a cabeça. – Que diabos sabe sobre esse assunto? Estávamos dormindo no mesmo quarto. Emma é uma mulher fogosa. Fizemos sexo. Fim da história. – Se está dizendo... – Sim, estou. – E, quando Emma saiu da casa com uma bandeja de condimentos, ele virou a cabeça e observou as crianças jogarem futebol. Após alguns minutos, Mike se entediou com aquele silêncio taciturno e, após lhe dar palmadas leves e amistosas no ombro para deixar claro que não guardava mágoas, se afastou. Em vez de permanecer sentado, chamando a atenção dos psicólogos amadores


da família, Sean resolveu interagir com as pessoas, forçando-se a se tornar sociável. Mas logo se entediou e, após algum tempo, vagou pela lateral da casa na direção da parte da frente, à procura de um pouco de silêncio e paz. Encontrou Keri sentada em uma das cadeiras de balanço da varanda, embalando Brianna. Ela não aproveitara muito do churrasco até então, e talvez aquele fosse o motivo. Keri exibiu um sorriso quando o viu. – Acabei de amamentá-la. Sentei aqui para embalá-la na esperança de que ela durma. – Quero sentar um pouco, e você quase não aproveitou o churrasco. Entregue Brianna para mim que eu a embalo até que ela durma. – Não ofereça se não for para valer – preveniu Keri. – Estou falando sério. Keri se levantou para que ele pudesse sentar e depositou o corpinho quente da criança no colo de Sean. Brianna se contorceu e fungou por alguns instantes, mas logo o balanço suave começou a acalmála. Keri fitou o rosto da filha, sorriu para Sean e disparou para o quintal dos fundos, talvez temendo que ele mudasse de ideia. Após algum tempo, o movimento suave surtiu um efeito calmante nos nervos em frangalhos de Sean.


Inclinando a cabeça para trás, ele fechou os olhos. A paranoia de não deixar cair a criança o impediu de cochilar, mas ele relaxou e se permitiu aproveitar a brisa do verão, a fragrância da grama recém-cortada, os sons de uma família feliz e barulhenta e o ranger da cadeira toda vez que dava impulso para trás. Por alguns minutos, conseguiu até mesmo fingir que aquilo era o que sempre desejara. – VIU SEAN por aí? – Emma não conseguia encontrar a espátula grande e tinha esperanças de que ele soubesse onde estava. Joe anuiu. – Keri me contou que ele está na varanda da frente, embalando Brianna para ela cochilar. – Isso explica por que Keri está se divertindo tanto – disse ela, arrancando uma risada de Joe. Em vez de cruzar o interior da casa, Emma a contornou, as passadas sendo silenciadas pela grama. Quando virou a esquina, o coração deu uma cambalhota dolorida no peito. Sean estava sentado em uma das cadeiras de balanço, embalando com suavidade a bebê aninhada em seus braços. A cabeça se encontrava inclinada para trás e os olhos, fechados, mas a curvatura dos lábios foi o que mais chamou a atenção de Emma.


Sean estava quase sorrindo. Não de fato, mas o suficiente para lhe emprestar uma aparência tranquila e feliz que a fez se derreter por dentro. Poderiam ter tido aquilo. Um bebê para ele embalar na varanda, nas noites de verão. Ela poderia ter tido um homem como Sean, mas, em vez disso, tudo que tivera fora um teatro. – Já lhe disse o que acontece quando você encara as pessoas – comentou ele, sem abrir os olhos. – Você não estava dormindo. – Não, mas o princípio é o mesmo. – Sean descerrou as pálpebras e, em seguida, girou a cabeça para fitá-la. – Procurando por mim? – Estou procurando a espátula grande, e pensei que talvez você soubesse onde está. – Veja na despensa. Eu estava guardando algumas coisas com a espátula na mão, quando meu celular tocou. Talvez a tenha deixado lá. – Está bem. – Emma esperou um segundo, mas ele nada acrescentou. – Obrigada. Evitando o corredor polonês dos amigos queridos, Emma cruzou o interior da casa e foi direto para a despensa. A espátula estava na segunda prateleira, e ela a pegou com a mão trêmula. Estava tudo errado. O seu Sean a teria provocado sobre colocar algo no lugar errado apenas para irritá-la. Não havia nenhum traço de humor ou afeto naqueles


olhos azuis. Aquele Sean se mostrara fechado, sem lhe dar qualquer deixa. Mas fazia sentido. O seu Sean nunca passara de uma mentira. Apenas tivera sorte em escolher um homem que, por saber fingir tão bem, quase a fizera acreditar. – Emma? – Apenas quando ouviu a voz de Lisa foi que ela percebeu que se encontrava parada na despensa, segurando uma espátula e chorando. – O que houve? – Nada. – Ela tentou dizer, mas a palavra saiu em um soluço estrangulado. Lisa lhe retirou a espátula da mão e a atirou sobre a mesa, antes de guiá-la na direção da escada. – Os hambúrgueres... – Eles encontrarão a espátula – disse Lisa em tom firme, empurrando-a escada acima e pelo corredor até o quarto de Emma. A simples visão da cama a fazia sofrer. As lágrimas lhe rolavam livres pelo rosto, mas não havia nada que ela pudesse fazer para impedi-las. – Eu me apaixonei por ele. – Oh! Oh, droga! – Lisa fez um gesto negativo com a cabeça. – Os homens Kowalski costumam surtir esse efeito. Surgem em nossas vidas, nos atentam a ponto de desejarmos socá-los e então... Bum! De repente, não podemos mais viver sem eles.


– Foi exatamente assim que aconteceu. – Disse isso a Sean? Emma fez que não com a cabeça, secando o rosto com um lenço de papel que Lisa sempre trazia no bolso traseiro. – Não posso fazer isso com ele. Sean colocou a própria vida em suspenso para me fazer um grande favor e não vou recompensá-lo atirando meus sentimentos em seu colo. – Eu acho que você deveria contar a ele. Mike me disse que todos eles acham que os sentimentos de Sean por você são profundos. Uma fagulha de esperança se acendeu no peito de Emma, apenas para se apagar quase no mesmo instante. – Quando eu lhe disse que a farsa havia chegado ao final, ele tratou de sair correndo, como se a casa estivesse pegando fogo. Nem ao menos olhou para trás. E agora há pouco... Sean não sente nada por mim. – Às vezes, eles precisam de um empurrãozinho. – Está tudo acabado. – As palavras soaram como dobres fúnebres de um sino na mente de Emma. – Mas eu vou superar. Pode acreditar. – Conhecemos Sean mais do que qualquer pessoa, e ele sente algo por você. Todos percebemos isso. – Ele é um grande ator, não acha?


– Não. Sean é um péssimo mentiroso, por isso nenhum de nós acreditou que ele fosse capaz de convencer sua avó. Emma se recusou a alimentar novas esperanças. Minutos atrás, Sean parecia estar lidando com uma completa estranha, a julgar pela emoção que deixou transparecer, e era muito doloroso tentar lhe questionar os sentimentos, procurando por migalhas. – Deveria descer – sugeriu Lisa. – Se as pessoas sentirem nossa falta, dentro de alguns segundos, toda a família estará aqui. Quer que lhes diga que você não está se sentindo bem? – Não. Vou lavar o rosto e, dentro de alguns minutos, descerei. A amiga lhe deu um breve abraço. – Vou guardar alguns petiscos para você. Emma conseguiu esboçar um sorriso que se apagou no instante em que Lisa desapareceu pela porta. Atirarse sobre a cama com a cabeça enterrada no travesseiro e dar vazão ao pranto lhe parecia uma boa ideia, mas não o faria. Um colapso emocional apenas arruinaria a festa da avó. Em vez disso, lavou o rosto com água gelada e disfarçou os indícios do choro, aplicando uma leve maquiagem. Não estava com a melhor das aparências, mas talvez conseguisse sobreviver àquele dia sem que


ninguém percebesse o furacão emocional que se passava em seu íntimo. – NÃO ESTÁ funcionando – disse Mary em tom baixo e, embora relutante, Cat se viu obrigada a admitir que a amiga tinha razão. Sean e Emma não poderiam estar mais distantes um do outro. Era como se morassem em países diferentes. Cat e Mary se encontravam lado a lado, diante da pia da cozinha, observando a festa através da janela. Sean estava em uma extremidade do quintal e Emma, na outra. – Por que estão sendo tão cabeças-duras? – Ele é um Kowalski. Não sei qual é a desculpa de Emma – disse Mary irritada. As duas suspiraram em uníssono. – Sei que existe algo forte entre eles. Convivi com os dois durante um mês. Talvez ainda não estejam no ponto de viajar às pressas a Las Vegas para se casar, mas era mais do que sexo. Tenho certeza. – Também tenho. E por que estão se preocupando tanto em evitar um ao outro se tudo não passou de um caso passageiro? A presença de um está afetando o outro. – Idiotas. – Cat saiu da janela e começou a retirar as sobremesas do refrigerador.


– Por falar em idiotas teimosos, como estão as coisas com Russell? Cat pousou uma vasilha de salada de frutas com gelatina sobre a mesa e fitou a sobremesa por algum tempo. – Não sei. – Você o ama? – Não sei. – Cat suspirou. – Não é igual a quando me apaixonei por John. E estamos saindo juntos há pouco tempo. – Não me surpreende que não seja igual. Você está com 65 anos. Suas prioridades e o que deseja em um homem... são diferentes agora. – Gosto da companhia de Russel. Sei que soa idiota, afinal talvez eu apreciasse até mesmo a companhia de um Golden Retriever. Mas gosto dele e de estar com ele. Mary assumiu a tarefa de retirar o invólucro plástico da salada de frutas com gelatina e enterrou uma colher dentro da sobremesa. – Mas está com medo de que não seja suficiente. Cat soltou uma risada. – Você é ótima nisso. – Criei quatro filhos e ajudei na educação de mais cinco sobrinhos. Acrescente a essa mistura netos adolescentes e terá de concordar que já tive minha cota de dores de amores.


– A vida de Russel é aqui. – Em um apartamento de quarto e sala em um lar para idosos? E um jantar ocasional com Dani e Roger aos domingos? – Acha que o conheço o suficiente para convidá-lo a se mudar comigo para a Flórida? Mary escorregou a vasilha na direção de Cat e começou a fatiar o bolo de chocolate comprado pronto que Keri trouxera. – Não sei. Conhece? A porta se abriu antes que Cat pudesse responder e Stephanie entrou, retirando o fone de ouvido e o guardando no bolso. – Mamãe me pediu para vir ajudá-las. – Pode começar levando as sobremesas para a mesa lá de fora – disse Mary. – E não coloque as vasilhas próximo à beirada se Lily estiver passando por lá. As duas terminaram de preparar as sobremesas em silêncio e logo chegou o momento de afogar as incertezas em quantidades copiosas de chocolate e chantilly. Cat dava gargalhadas enquanto Sean e Keri disputavam no par ou ímpar quem comeria o último brownie de chocolate branco, e Beth tentava impedir Lily de roubar o chantilly de todos a quem encantava com os olhos azuis e as covinhas no rosto.


Ter as pessoas daquela família como parentes por afinidade teria sido um prazer. Quando não conseguiu comer nem mais uma migalha de comida, Cat atirou o prato de papelão na lata de lixo e se encaminhou ao enorme balanço sob à sombra de um grande bordo. John o construíra com sucatas e ela passara muitas horas ali, balançando-se com uma Emma de quatro anos de idade no colo. As frequentes leituras dos livros de histórias recheados de figuras as haviam ajudado a esquecer o sofrimento da perda por alguns minutos. Cat firmou o pé no chão e deu impulso. A madeira era quente e macia sob a mão desgastada pelo tempo, mas bem conservada por Emma. Russel cruzou o gramado e veio se juntar a ela. Cat escorregou para a lateral para lhe dar espaço. – É inacreditável a quantidade de comida que vocês, mulheres, fizeram. Ficarei empanzinado por uma semana. – As mãos de ambos se encontravam sobre o banco do balanço, e Russell entrelaçou os dedos aos dela. Cat deixou escapar um suspiro e, mais uma vez, deu impulso no balanço com o pé no chão. – Amanhã, a esta hora, já estará na Flórida – disse ele, diante da falta de comentário. Não havia nenhum sinal de como Russel se sentia com relação à sua partida ou se estava dando voltas antes de dizer o que desejava.


– Venha comigo para a Flórida. Russell uniu os joelhos fazendo parar o balanço. – O quê? – Bem, não precisa ser amanhã, claro. – Agora que dera o salto, Cat imaginou se não deveria ter pensado um pouco mais para saber em que terreno iria pousar. E se o tombo seria feio. – Quando fechar a loja de ferragens e vender a propriedade, não se mude para o lar de idosos. Coloque sua bagagem no carro e vá desfrutar da minha companhia sob o sol do verão. – Russel se limitou a continuar a fitá-la, com expressão ilegível. Inspirando fundo, Cat forçou um sorriso. – Foi apenas uma ideia. – Quando eu era criança, li um livro sobre a construção da Represa Hoover. Fiquei obcecado com o assunto, e digo-lhe com toda a sinceridade, se não fosse pela loja, teria feito faculdade de engenharia. Sempre quis vê-la de perto, mas há muito abri mão desse sonho. Há pouco tempo pipocou em minha mente a imagem de você, parada diante do Lago Mead, sorrindo para mim. Está me fazendo sonhar outra vez, Catherine. A figura de Russel se tornou embaçada quando as lágrimas se empossaram nos olhos de Cat e ela piscou várias vezes para dispersá-las.


– Então, quando estiver preparado, vá para a Flórida. Relaxaremos na praia por algum tempo e depois pediremos emprestado o carro-trailer de Martha para conhecer a Represa Hoover. Russel se inclinou para a frente e a beijou. – Não demorarei. – Estarei esperando por você.


CAPÍTULO 21

– PELA MILIONÉSIMA vez, vó, vou ficar bem. E, pela milionésima vez, Cat a fitou com incredulidade. – É que você não está parecendo a mesma. Emma reuniu toda sua capacidade de fingimento e conseguiu produzir um sorriso. – Vou sentir sua falta, é só. – Não ficaremos muito tempo sem nos ver. Russell acha que precisará de dois ou três meses para resolver tudo. Virei para cá de avião e depois voltaremos para a Flórida de carro. – Talvez possam parar pelo caminho para visitar alguns lugares – sugeriu Emma, esforçando-se para manter o sorriso animado. A verdade era que a incomodara o fato de a avó ter tido a coragem de arriscar o coração e o orgulho e convidar o homem que amava a fazer parte de sua vida, ao contrário dela. Mas


talvez fosse melhor assim. A julgar pela forma como Sean a tratara no churrasco, nada teria ganhado em confessar os próprios sentimentos, a não ser acrescentar humilhação à dor que sentia. A avó consultou a hora no relógio de pulso. – Dentro de alguns minutos, terei de passar pela segurança. Detesto deixá-la sozinha. – Tenho tanto trabalho acumulado que não terei tempo de me sentir sozinha. – Sabe que pode me telefonar a qualquer momento. E não se esqueça de visitar Mary. Sei que ela ficará feliz em vê-la. E alimentá-la. Emma não tinha dúvida disso. – Eu irei. E me telefone quando chegar em casa. – Não esquecerei. Tem certeza de que não quer que eu fique mais um pouco? – E perder o grande torneio de bingo? Prometeu a Martha que participaria. A avó tocou a lateral do rosto de Emma com a mão espalmada. – Sabe que, para mim, você é mais importante do que Martha. – E eu estou bem. – Emma cobriu a mão da avó com a dela. – Já está se preocupando e ainda nem entrou no avião.


– Talvez devesse arrumar um cachorro de mentirinha. Emma soltou uma risada e envolveu a avó nos braços. A risada findou em algumas lágrimas, mas todos choravam ao se despedir dos entes queridos, no aeroporto, portanto não se sentiu deslocada. Cat lhe beijou o rosto e lhe deu um último abraço apertado, antes de erguer a bagagem de mão. – Eu a amo. – Eu também a amo. – Emma permaneceu parada no mesmo lugar, até que a avó desaparecesse de vista e, em seguida, refez o longo caminho de volta ao carro. Optou por seguir por estradas secundárias em vez de tomar a principal, já que não estava com tanta pressa de chegar em sua casa vazia. Nada a esperava lá, além da papelada de trabalho que tinha de atualizar e do eco da própria voz. O telefone tocou quando Emma estava destrancando a porta da frente. Os dedos pairaram sobre as teclas do aparelho, enquanto ela decidia se estava disposta a falar com Lisa. Concluiu que não, mas ainda assim apertou a tecla para aceitar a chamada; afinal, era sua melhor amiga. – Embarcou Cat para a Flórida? – Lisa perguntou. – Ela deve estar voando agora.


– Então, venha jantar conosco esta noite. Depois de as crianças dormirem, podemos abrir uma ou duas garrafas de vinho. A oferta era tentadora, mesmo que apenas pela companhia, mas havia muita semelhança entre Sean e Mike, tanto na aparência quanto na maneira de agir, para que ela conseguisse sobreviver àquela visita. – Acho que vou vestir um moletom velho e rasgado e vegetar diante da televisão. – Ha-ha. Um momento de autopiedade. Quer que eu vá até aí? – Não é autopiedade. Estou bem, juro – afirmou Emma, embora não estivesse. Temia que, se desmoronasse diante de Lisa, talvez aquela informação fosse parar nos ouvidos de Mike, que, por fim, a transmitiria a Sean. Entregar-se a um momento de autopiedade era uma coisa, mas ser objeto da piedade de Sean era outra muito diferente. – Telefone-me se mudar de ideia – disse Lisa. – Está bem. Ei! Veja se consegue subtrair alguma coisa da biscoiteira da sra. K para mim. Lisa soltou uma risada. – Está bem. Telefone-me amanhã. Após desligar, Emma estacou no corredor, apurando os ouvidos. A casa estava tão silenciosa! E diferente,


também. Durante os dois anos que antecederam a recente convivência com a avó e com Sean, a casa sempre estivera silenciosa. Mas agora aquela quietude não era a mesma. Era como se uma canção alegre tivesse sido interrompida no meio. Em vez de ficar parada, escutando os próprios pensamentos, Emma pegou o aparelho de mp3 e, após se certificar de que na lista de músicas que selecionara não constava sequer uma balada triste, colocou o fone nos ouvidos e retirou um desinfetante de baixo da pia. Talvez limpar os toaletes fosse o suficiente para deixá-la exausta a ponto de conseguir dormir. SEAN AUMENTOU a quilometragem de sua caminhonete, dando voltas na cidade, enquanto aguardava que uma miscelânea de veículos deixasse o caminho que levava à garagem da casa dos tios livre, antes de entrar e desligar o motor. Lembranças afetuosas e nebulosas de quando era criança e se aninhava ao colo da mãe, doente ou assustado, lhe assaltaram a mente. Ela lhe esfregava as costas até que o mundo de Sean entrasse nos eixos outra vez. Estava precisando daquele tipo de proteção agora. Mas não era mais um menino e a mãe não estava mais ali. Restara-lhe a tia e talvez, se ele se mostrasse


patético o suficiente, Mary o envolvesse em um abraço caloroso. O tio abriu a porta. – Está com péssima aparência, garoto. – Obrigado, tio Leo. Isso ajuda bastante. – Acho que está precisando do Monstro ComeCome. – Quando Danny era criança, suplicara, juntamente com Lisa, para Leo comprar uma biscoiteira no formato do Monstro Come-Come para dar de presente no aniversário da avó. E, desde então, a biscoiteira estava sempre repleta de deliciosos biscoitos que derretiam na boca. – Tia Mary está na cozinha? – E conhece outro lugar da casa onde ela poderia estar? Estarei lá fora no galpão se quiser conversar mais tarde. – Obrigado. Sean encontrou a tia parada diante da bancada da cozinha, limpando morangos, quando entrou na cozinha. Mary o olhou de cima a baixo. – Brownies de chocolate branco. Um dos favoritos de Sean. Ele pegou dois do Monstro Come-Come e puxou uma cadeira para se sentar à mesa. A tia lavou as mãos e lhe serviu um copo de leite para comer com os brownies.


– O que aconteceu para você estar com a aparência de algo que um cachorro enterrou no quintal dos fundos? Como a tia estava usando o avental com a sempre presente colher de pau no bolso, Sean engoliu em seco a resposta ácida que lhe veio à mente. – A falta de sono, eu acho. Depois de passar um mês no meio do nada, é necessário algum tempo para se acostumar a morar sobre um bar no centro da cidade. Mary o golpeou com a maldita colher de pau na parte de trás da cabeça, fazendo-o esfregar o couro cabeludo. Aquilo o deixaria com um calombo. – Ai! – Olhe para mim, Sean Michael Kowalski. – Ele fitou um ponto próximo do rosto da tia e ela lhe ergueu o queixo para que a encarasse. – Olhe nos meus olhos, mocinho, e não se atreva a mentir para mim. Você ama Emma? – Sim – retrucou Sean, entre dentes cerrados. Mary lhe soltou o queixo e ele esfregou a mandíbula. – Bem, é um começo. Suponho que não tenha lhe dito isso, antes de arrumar suas coisas e sair de lá. – Não sei o que vim fazer aqui, além de não conseguir nenhuma solidariedade. – Se está à procura de solidariedade...


– Já sei. Solidariedade está entre “sem-vergonha” e “sonso” no dicionário. – Todos já haviam escutado comentários daquele tipo da tia. Muitas vezes. – Mas os brownies estão ótimos também. Mary ocupou a cadeira oposta à dele. – O que o faz feliz? Emma. Ela o fazia feliz. – Não tive sequer a chance de descobrir o que me faria feliz. Eu iria fazer... algo. Viajar, talvez. Encontrar um lugar que desejasse chamar de lar. E sim, amo Emma, mas ela está tão... enraizada. Tem aquela casa e uma empresa. Aquela é a vida dela. Quero viver a minha vida. – Vocês compartilharam uma vida por um mês. E você estava feliz. Não negue ou lhe darei outra colherada na cabeça. Agora, não estão mais compartilhando a vida e você está infeliz. – Emma não me pediu para ficar. – Pronto. Dissera. – Você lhe deu alguma razão para ela acreditar que você ficaria? Sean se descobriu contraindo a mandíbula e se forçou a relaxar. – Como Emma poderia não saber? Mary se inclinou para a frente e lhe cobriu as mãos com as dela.


– E como não conseguiu enxergar a forma como ela olha para você? Como foi capaz de não perceber que Emma estava com o coração partido naquela festa de despedida? – Eu... Ela estava triste com a partida da avó. – Vocês estão tão ocupados tentando esconder os verdadeiros sentimentos por causa daquele acordo idiota que não estão conseguindo enxergar um ao outro. – A tia se levantou e puxou o banco alto que usava para se sentar à bancada da cozinha quando os pés começavam a doer. – Estou muito velha para me dobrar, e vocês são todos muito altos; portanto, sentese aqui. Sean obedeceu e se surpreendeu ao constatar que estava na altura exata para que ela o abraçasse. Com um profundo suspiro, ele envolveu a cintura de Mary com os braços e descansou a cabeça sobre seu ombro. Mary lhe beijou o topo da cabeça e lhe acariciou as costas. – Se, daqui a um ano, você estivesse preso nos trilhos e um trem se aproximasse em alta velocidade, do que se arrependeria? De não ter feito uma viagem de carro até o Grand Canyon ou de não ter passado o último ano com Emma? Sean deixou escapar uma risada breve. – Acredite em mim, Emma é o trem.


– Isso é amor, querido. – Mary o apertou um pouco mais e ele sentiu uma parte da angústia que o assolava se esvair. – Pense nisso. Sean levou alguns minutos para se recompor com a ajuda de outro brownie de chocolate branco e, em seguida, beijou o rosto da tia. – Diga ao tio Leo que lhe farei companhia no galpão em outro dia, certo? O Jasper’s estava tranquilo quando ele entrou. Não conseguiu avistar Kevin, portanto se sentou e pediu a Paulie que lhe servisse uma cerveja. Por alguns instantes, fitou o líquido âmbar e rodou o copo, mas nenhuma resposta mágica lhe veio à mente. Droga. Sabia a resposta. Se estivesse prestes a ser esmagado como um inseto contra o para-brisa de um trem desgovernado, seu último pensamento seria Emma. Então, o que importava se ela não sabia cozinhar e dirigia mal? Ou Emma vir junto com uma casa que ele não havia escolhido e uma empresa que não a ajudara a construir? Poderia conviver com isso. A família que formariam pertenceria a ambos. Se Emma o quisesse. Havia um bloco de folhas adesivas em seu bolso, mas não tinha com que escrever. Sean verificou todos os


bolsos, mas a caneta desaparecera. Esperava que aquilo não fosse uma espécie de presságio negativo. – Tem uma caneta para me emprestar? – perguntou, quando Paulie passou por ele. Ela lhe atirou uma esferográfica e Sean retirou a primeira folha do bloco. Sem se permitir pensar muito, começou a escrever. A VISÃO da caminhonete de Sean estacionando no caminho que levava à garagem da casa atingiu Emma como uma bola de demolição, obrigando-a a se afastar da janela para tentar controlar as batidas frenéticas do coração. Talvez ele tivesse esquecido algum pertence, disse a si mesma, embora Sean tivesse sido metódico em retirar todos os traços da presença dele daquela casa e da sua vida. Com exceção daquela caneca idiota do Exército que ela não conseguia deixar de usar, mas duvidava que Sean tivesse dirigido até ali por causa de uma caneca velha de segunda mão. A campainha tocou e Emma estacou diante do espelho do corredor para verificar se estava parecendo ter sido atropelada por um trem, já que era assim que se sentia. De fato, estava, mas não havia nada que pudesse fazer para disfarçar os olhos inchados e o rosto


pálido. Pelo menos, havia prendido o cabelo em um cabo de cavalo, portanto não teria de se mostrar descabelada. Abriu a porta com uma tentativa pífia de sorriso estampada no rosto e congelou. Sean se encontrava parado na varanda com a expressão que costumava usar para disfarçar a insegurança. Mas o olhar se deteve apenas alguns segundos no rosto de Sean e logo rumou para o peito largo. Ele estava usando uma camisa social abotoada até o pescoço. E rosa. Não um tom neutro, mas rosa. – Olá – disse ele, entregando-lhe um pequeno buquê de gladíolos brancos e rosa, os caules atados com um laço rosa. Emma prendeu a respiração enquanto aceitava as flores, a mente trabalhando a mil por hora para entender aquela visão. O que significava aquilo? Por que Sean estava li, vestido como o homem com quem ela costumava sonhar quando tinha 10 anos? – Eu... uh... fiz algumas revisões no seu manual de instruções. – Emma não havia reparado na agenda que ele segurava na outra mão, mas, quando Sean lhe entregou, ela aceitou. – Está bem. – A voz soou tão trêmula quanto as mãos que seguravam as flores e a agenda.


Quando abriu a capa, deparou-se com uma folha adesiva rosa-choque colada à primeira página. “Senti sua falta”. – Eu também senti sua falta – sussurrou ela, virando as páginas devagar. “Você não aceita nenhum desaforo de mim”. “Você me faz rir”. “A posição papai-e-mamãe passou a ser a minha favorita, porque posso ver seu rosto”. Essa a fez soltar uma risada apesar de lhe aquecer o coração. “Eu a deixarei dirigir”. Emma o fitou com olhar desconfiado e virou mais uma página. “De vez em quando”. Sim, aquele era o Sean que ela conhecia e amava. Quando ele retirou uma caixa pequena de veludo do bolso, uma das lágrimas que nublavam a visão de Emma lhe escorreu pelo rosto. E, quando Sean se ajoelhou, mais algumas seguiram a primeira. Ele ergueu a tampa e lá se encontrava um anel faiscante, com um diamante principal aninhado entre dois aros cravejados de diamantes menores. Era lindo. – Sei que já lhe comprei um desses, mas aquele estava sempre agarrando em suas luvas de trabalho. Este não se prenderá ao couro e nem girará tanto no seu dedo. – Sean ergueu a cabeça para fitá-la. – Esse último mês foi uma loucura, com todo aquele


fingimento, mas em algum momento ao longo do caminho, deixou de ser uma mentira. – Alimentou ideias com relação a mim, Sean Kowalski? – Sim, e foi um ideia e tanto. Eu a amo. Acho que, no fundo, era o que eu pretendia escrever naquele bilhete em branco que deixei colado ao espelho, mas ainda não estava preparado. Agora, estou. Eu a amo e quero que me casar com você. De verdade. As palavras flutuavam pela mente de Emma, mas ela não conseguia juntá-las para formar algo coerente. – Eu não... Eu... Tem certeza? – Estou usando uma camisa rosa. – Eu também o amo – disse ela, porque lhe parecia o mais importante. – E quero me casar com você. De verdade. Sean escorregou o anel pelo dedo anular de Emma e, em seguida, se levantou para beijá-la até que ela perdesse o fôlego. Quando criança, Emma imaginara que não conseguiria controlar as lágrimas naquele momento, mas estava muito feliz para chorar. – Estava pensando... – começou ele, quando interrompeu o beijo. – Que se eu continuasse fazendo aquele trabalho de carpintaria, como a remodelação do deque, e você, o paisagismo, poderíamos coordenar


nossos trabalhos para que não precisássemos esperar muito para ter filhos. Talvez possamos nos revezar. – Acho perfeito. Mas isso o fará feliz? – Sim. – Ele a beijou outra vez e um suspiro escapou dos lábios de Emma diante do pensamento de que iria beijar aquele homem para o resto da vida. – Mas o mais importante é que você me faz feliz. Emma lhe envolveu o pescoço com os braços e, apenas para variar, foi ela a beijá-lo dessa vez. Em seguida, enfiou a mão no bolso traseiro do jeans e de lá retirou a folha adesiva em branco. Estava um pouco amassada, mas ela a entregou a Sean. – Imaginar o que você iria escrever estava me matando. Sean pegou a folha adesiva, retirou a caneta que estampava o nome Jasper’s Bar & Grille do bolso traseiro da calça e escreveu “Eu a amo”. Em seguida, colou-a no bolso dianteiro da blusa de Emma. – Para você nunca mais duvidar – disse ele, com voz rouca. – Vamos entrar e dar início a esse relacionamento verdadeiro de que falamos. – Emma o puxou pela mão na direção da porta. – E, porque o amo, vou começar livrando-o dessa camisa rosa.


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

S771f Stacey, Shannon Feita para você [recurso eletrônico] / Shannon Stacey; tradução Gracinda Vasconcelos. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2016. recurso digital Tradução de: Yours to keep "MEB" Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-2263-8 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Vasconcelos, Gracinda. II. Título. 16-34325

CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.


Título original: YOURS TO KEEP Copyright © 2011 by Shannon Stacey Originalmente publicado em 2011 por Carina Press Publisher: Omar de Souza Gerente editorial: Livia Rosa Assistente editorial: Tábata Mendes Editora: Juliana Nóvoa Estagiária: Caroline Netto Arte-final de capa: Ô de Casa Produção do arquivo eBook: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Nova Jerusalém, 345 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ – 21042-235 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Texto de capa Rosto Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Capítulo 15 Capítulo 16 Capítulo 17 Capítulo 18


Capítulo 19 Capítulo 20 Capítulo 21 Créditos


Rainhas do romance 116 feita para voce shannon stacey